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sábado, 24 de janeiro de 2026

Semana da Unidade 2025: Leituras e orações (2)

Em nossas postagens anteriores destacamos os materiais da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2025, preparados pela comunidade monástica de Bose (Itália), formada por monges de diferentes tradições cristãs.

À luz do tema: “Crês isto?” (Jo 11,26), tendo em vista os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), o subsídio inclui um roteiro de Celebração Ecumênica e um “oitavário” de reflexões e orações à luz do Símbolo Niceno-Constantinopolitano.

Para cada um dos oito dias são propostas leituras bíblicas, leituras patrísticas de diversas “tradições” (latina, grega, siríaca e armênia), orações e preces.

Se na postagem anterior trouxemos as reflexões para os primeiros quatro dias, centradas em Deus Pai e em Jesus Cristo, nesta postagem concluímos a publicação dos materiais com os textos para os últimos quatro dias, sobre o Espírito Santo, a Igreja, o Batismo e a vida eterna.

Esses textos, com efeito, não se restringem ao ano de 2025, podendo ser utilizados em momentos ecumênicos ou de reflexão sobre a fé, ou ainda em nossa oração pessoal.

Ícone do Creio

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025
Reflexões e orações para os oito dias
“Crês isto?” (Jo 11,26)

5º dia: Creio no Espirito Santo, Senhor que dá a vida

Leituras bíblicas: Ez 36,24-28 / Sl 103(104),24-25.27-29.33-34 / Jo 3,4-8

Leitura patrística

Da tradição siríaca
Não é correto dizer que o Espírito se afasta quando pecamos para retornar quando nos convertemos. (...) De que me serve se Ele habita em mim somente depois de me tornar justo? Se no momento da queda Ele não permanece em mim, não me dá a mão e não me levanta, como farei experiência da sua ajuda? Que médico, vendo um enfermo que adoece, vai embora e o abandona, para retornar quando ele estiver saudável? Não é mais útil que o médico esteja com o enfermo no momento da sua doença?
(Filoxeno de Mabbug, Sobre a habitação do Espírito Santo)

Oração

Vós sois o Espírito soprado sobre Adão, tornando a carne humana um ser vivente.
R. Amém, amém! Aleluia!

Vós sois o Espírito dado pelo Ressuscitado, perdoando nossos pecados.
R. Amém, amém! Aleluia!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Semana da Unidade 2025: Leituras e orações (1)

Em nossa postagem anterior destacamos a Celebração Ecumênica da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2025, com o tema: “Crês isto?” (Jo 11,26).

Além da Celebração, o material elaborado pela comunidade monástica de Bose (Itália), formada por monges de diferentes tradições cristãs, inclui um “oitavário” de reflexões e orações à luz do Símbolo Niceno-Constantinopolitano, tendo em vista os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325).

Para cada um dos oito dias são propostas leituras bíblicas, leituras patrísticas de diversas “tradições” (latina, grega, siríaca e armênia), orações e preces.

Confira nesta postagem as reflexões para os primeiros quatro dias, centradas em Deus Pai (Todo-poderoso e Criador) e em Jesus Cristo (Encarnação e Mistério Pascal). Na próxima postagem, por sua vez, traremos os textos para os últimos quatro dias.

Esses textos, com efeito, não se restringem ao ano de 2025, podendo ser utilizados em momentos ecumênicos ou de reflexão sobre a fé, ou ainda em nossa oração pessoal.

Ícone do Creio

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025
Reflexões e orações para os oito dias
“Crês isto?” (Jo 11,26)

1º dia: Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso

Leituras bíblicas: Is 63,15-17 / Sl 138(139),1-3.13.23.24b / 1Cor 8,5-6

Leitura patrística

Da tradição grega
Contemplai os mistérios do amor, e então podereis contemplar o seio do Pai, que só o Filho Unigênito de Deus revelou. Deus é amor e graças ao amor podemos contemplá-lo. E embora em sua natureza inefável Ele seja Pai, sua compaixão por nós se fez mãe.
(Clemente de Alexandria, Qual rico se salvará? 37,1-2)

Oração

Nós vos bendizemos, Senhor, Pai das luzes: de vós provém todo bem e todo dom perfeito.
R. Graças e louvores a vós, Senhor!

Vós criastes o mundo e tudo o que ele contém, Vós sois o Senhor do céu e da terra. A nós, mortais, dais vida, alento e todo bem.
R. Graças e louvores a vós, Senhor!

Celebração Ecumênica: Semana da Unidade 2025

De 18 a 25 de janeiro celebra-se, sobretudo no hemisfério norte, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. No hemisfério sul, por sua vez, a Semana da Unidade costuma ser celebrada entre a Ascensão e o Pentecostes (neste ano de 2026 de 17 a 24 de maio) [1].

Desde 1968 o Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos e o Conselho Mundial de Igrejas propõem um “tema” para cada ano a partir de um texto bíblico. Desde 1975, por sua vez, o material para a Semana da Unidade é preparado por um grupo ecumênico de algum local do mundo.

Em 2025, por ocasião dos 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), o tema proposto foi: “Crês isto?” (Jo 11,26), e o material foi preparado pela comunidade monástica de Bose (Itália), uma comunidade ecumênica formada por monges de diferentes tradições cristãs.

Nesta postagem repropomos a Celebração Ecumênica para o ano de 2025 (com algumas correções e sugestões). Essa celebração, com efeito, à luz da memória do Concílio de Niceia, não se restringe ao ano de 2025, podendo ser utilizada em nossas comunidades em momentos ecumênicos ou de reflexão sobre a fé.

I Concílio de Niceia (325)

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025
Celebração Ecumênica
“Crês isto?” (Jo 11,26)

I. Convite à oração

A celebração tem início junto à porta principal da igreja:

Celebrante (C): Bendito seja o nosso Deus em todo tempo.
Assembleia (A): Agora e sempre. Amém.

C: Vinde, adoremos a Deus, nosso Rei.
A: Adoremos a Cristo no meio de nós, nosso Rei e nosso Deus.

C: Vinde, prostremo-nos diante do Senhor, nosso Rei e nosso Deus.
A: Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal, tende piedade de nós.

A seguir o subsídio indica uma leitura (Jo 11,20-26) enquanto os ministros se dirigem ao presbitério. Sugerimos, porém, proferir a leitura antes da procissão de entrada, que neste caso seria acompanhada por um canto.
O subsídio propõe a divisão do texto entre três leitores, com a assembleia lendo a parte de Cristo. Propomos aqui uma divisão ligeiramente distinta, similar à Narrativa da Paixão, com um narrador (L1), um leitor (L2) e o celebrante lendo a parte de Cristo:

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

III Domingo do Tempo Comum no Vaticano (2025)

No dia 26 de janeiro de 2025 o Papa Francisco presidiu sem celebrar a Santa Missa do III Domingo do Tempo Comum (Ano C) na Basílica de São Pedro por ocasião do Domingo da Palavra de Deus.

A Liturgia Eucarística, por sua vez, foi celebrada por Dom Rino Fisichella, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização (1ª seção), assistido pelo Monsenhor Ján Dubina.

O Santo Padre foi assistido por Dom Diego Giovanni Ravelli e pelo Monsenhor Didier Jean-Jacques Bouable. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Durante a celebração, inserida no contexto do Jubileu do Mundo da Comunicação [1], o Papa instituiu no Ministério de Leitor quarenta homens e mulheres de diversos países do mundo. 

Procissão de entrada

Incensação
Ritos iniciais

Homilia do Papa: III Domingo do Tempo Comum - Ano C

Santa Missa no Domingo da Palavra de Deus
Jubileu do Mundo da Comunicação
Homilia do Papa Francisco
Basílica de São Pedro
Domingo, 26 de janeiro de 2025

O Evangelho que escutamos anuncia-nos o cumprimento de uma profecia transbordante de Espírito Santo. Quem a cumpre é Aquele que vem “com a força do Espírito” (Lc 4,14): é Jesus, o Salvador.

A Palavra de Deus é viva: caminha conosco através dos séculos e, com a força do Espírito Santo, age na história. Com efeito, o Senhor é sempre fiel à sua promessa, que realiza por amor dos homens. É exatamente isto que Jesus diz na sinagoga de Nazaré: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir» (v. 21).

Irmãos e irmãs, que feliz coincidência! No Domingo da Palavra de Deus, ainda no início do Jubileu, é proclamada esta passagem do Evangelho de Lucas, na qual Jesus se revela como o Messias «ungido» (v. 18) e enviado «para proclamar um ano da graça do Senhor» (v. 19)! Jesus é a Palavra viva, em quem toda a Escritura encontra o seu pleno cumprimento. E nós, no hoje da sagrada Liturgia, somos seus contemporâneos: também nós, cheios de admiração, abrimos o coração e a mente para escutá-lo, porque «é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura» (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 7). Eu disse uma palavra: admiração. Quando ouvimos o Evangelho, as palavras de Deus, não se trata apenas de ouvi-las, de compreendê-las, não. É preciso que elas cheguem ao coração e produzam aquilo que eu disse: “admiração”. A Palavra de Deus surpreende-nos sempre, renova-nos sempre, entra no nosso coração e renova-nos sempre.


E nesta atitude de jubilosa fé somos convidados a acolher a antiga profecia como se tivesse saído do Coração de Cristo, detendo-nos nas cinco ações que caracterizam a missão do Messias: uma missão única e universal. Única, porque Ele, somente Ele, pode realizá-la; universal, porque quer envolver todos.

Antes de tudo, Ele é enviado «para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (v. 18). Eis o “Evangelho”, a Boa-Nova que Jesus proclama: o Reino de Deus está próximo! E quando Deus reina, o homem é salvo. O Senhor vem visitar o seu povo, cuidando dos humildes e dos infelizes. Este Evangelho é palavra de compaixão, que nos chama à caridade, a perdoar o próximo, a um generoso compromisso social. Não esqueçamos que o Senhor está próximo, é misericordioso e compassivo. A proximidade, a misericórdia e a compaixão são o estilo de Deus. Ele é assim: misericordioso, próximo, compassivo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Ladainha para o Advento

“Eis que venho logo, diz o Senhor...” (Ap 22,12).

Em postagens anteriores apresentamos aqui em nosso blog as oito Ladainhas aprovadas pela Igreja e que, portanto, podem ser entoadas nas celebrações litúrgicas: do Santíssimo Nome de Jesus; do Sagrado Coração; do Preciosíssimo Sangue; de Nossa Senhora; de São José; de Todos os Santos; de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima; e do Santíssimo Sacramento [1].

Neste ano de 2024, por sua vez, destacamos outras duas Ladainhas presentes em um célebre livro de orações do século XVII, editado entre 1612 e 1618, o Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum ad usum quotidianum Christiani hominis, ex sanctis Scripturis et Patribus collectus: a Ladainha para a Quaresma (Litaniae in Quadragesima) e a Ladainha da Santa Cruz (Litaniae de Sancta Cruce).

Estas duas últimas não foram aprovadas oficialmente pela Igreja, podendo ser rezadas de maneira privada, como devoção pessoal, ou de forma comunitária em momentos de oração fora da Liturgia (novenas, horas-santas...).

Dando continuidade à proposta, destacamos aqui a Ladainha a Cristo no Advento (Litaniae ad Christum in Adventu), cujas invocações, como indica seu subtítulo, são tomadas da Sagrada Escritura (ex Scriptura Sacra).

Para saber mais sobre esse Tempo, confira nossa postagem sobre a história do Advento.

Ícone da “árvore de Jessé”
(A Virgem Maria e o Menino Jesus ladeados pelos profetas)

Após as tradicionais invocações iniciais a Cristo e à Trindade, com efeito, a Ladainha para o Advento traz 42 invocações a Cristo tomadas tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, com a resposta miserere nobis (tende piedade de nós).

Algumas dessas invocações ou “títulos messiânicos” são retomadas nas célebres “Antífonas do Ó” (entoadas de 17 a 23 de dezembro) e no hino Akathistos em honra da Mãe de Deus, recordando sua participação no mistério da Encarnação.

Seguem-se 16 súplicas a Cristo para que nos livre do mal, invocando sobretudo os méritos da sua Encarnação, com a resposta libera nos, Domine (livrai-nos, Senhor); e outras 12 súplicas para que nos ajude a vencer o pecado e praticar a virtude, com a resposta te rogamus, audi nos (ouvi-nos, Senhor).

Concluem a Ladainha, como de costume, algumas invocações a Cristo como Cordeiro de Deus, a oração do Senhor (Pai nosso) e alguns responsórios, além de cinco orações.

Reproduzimos a seguir o texto original da Ladainha (em latim), conforme presente no Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum, seguido de uma tradução livre nossa.

Uma vez que atualmente se recomenda priorizar uma oração (cf. Instrução Geral do Missal Romano, n. 54), propomos apenas a primeira das cinco indicadas: a antiga coleta (oração do dia) do I Domingo do Advento (Excita, quaesumus, Domine), atualmente rezada na sexta-feira da I semana.

Não obstante, é possível tomar outra oração adequada dentre aquelas propostas pelo Missal Romano para o Tempo do Advento.

Litaniae ad Christum in Adventu
(ex Scriptura Sacra)

Kyrie eleison. Kyrie eleison.
Christe eleison. Christe eleison.
Kyrie eleison. Kyrie eleison.

Christe, audi nos.
Christe, exaudi nos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (5)

“Entoai juntos salmos, hinos e cânticos inspirados; cantai e celebrai o Senhor de todo o vosso coração” (Ef 5,19).

Nas postagens anteriores da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica). Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte / 4ª parte.

Agora nos cabe contemplar outro critério de seleção dos textos bíblicos: a leitura semicontínua.

Pregação de Paulo em Éfeso (At 19)
(Eustache Le Sueur)

3. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Leitura semicontínua

Conforme o n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM), a leitura semicontínua consiste na proclamação dos principais textos de um livro na sequência, oferecendo aos fiéis um contato mais amplo com a Palavra de Deus [1].

a) Celebração Eucarística

Na Celebração Eucarística, as Cartas Paulinas são lidas sob esse critério tanto nos domingos quanto nos dias de semana do Tempo Comum (cf. ELM, nn. 107.110) [2].

Primeiramente a Carta aos Efésios é lida de maneira semicontínua como 2ª leitura da Missa em sete domingos, do XV ao XXI Domingo do Tempo Comum do Ano B, entre a Segunda Carta aos Coríntios e a Carta de Tiago:
XV Domingo: Ef 1,3-14 (forma breve: Ef 1,3-10);
XVI Domingo: Ef 2,13-18;
XVII Domingo: Ef 4,1-6;
XVIII Domingo: Ef 4,17.20-24;
XIX Domingo: Ef 4,30–5,2;
XX Domingo: Ef 5,15-20;
XXI Domingo: Ef 5,21-32 [3].

Nos dias de semana do Tempo Comum, por sua vez, a Carta é lida por duas semanas: da quinta-feira da XXVIII semana à quinta-feira da XXX semana do Tempo Comum no ano par, entre outros dois escritos paulinos: a Carta aos Gálatas e a Carta aos Filipenses.

Nessas duas semanas a Carta aos Efésios é lida praticamente na íntegra, sendo omitidas apenas algumas partes da seção parenética que já foram lidas nos domingos ou em outras celebrações. A leitura está organizada da seguinte forma:

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (4)

“Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus” (Ef 4,24).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica), como indicado no Elenco das Leituras da Missa (n. 66) [1], na Celebração Eucarística, nos demais Sacramentos e nos Sacramentais.  Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte.

Nesta postagem concluiremos esse percurso com a Liturgia das Horas (LH).

Ruínas da cidade de Éfeso

2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

d) Liturgia das Horas

Em relação à leitura de Efésios em composição harmônica na Liturgia das Horas, é preciso distinguir entre leituras longas, proferidas no Ofício das Leituras, e leituras breves, proferidas nas outras horas (Laudes, Hora Média e Vésperas).

Iniciamos com as leituras longas do nosso escrito, que são seis:

- Ofício das Leituras da Festa da Sagrada Família (Domingo após o Natal): Ef 5,21–6,4 [2]. Enquanto na Missa da Festa se lê o “código doméstico” de Colossenses, como vimos em postagens anteriores, na LH se lê o “código doméstico” de Efésios.

- Ofício das Leituras da Solenidade da Ascensão do Senhor: Ef 4,1-24 [3], recordando o “duplo movimento” de Cristo: “Ele subiu! Que significa isso, senão que Ele desceu também às profundezas da terra! Aquele que desceu é o mesmo que subiu mais alto do que todos os céus, a fim de encher o universo” (vv. 9-10).

- Ofício das Leituras da Solenidade da Assunção da Virgem Maria (15 de agosto): Ef 1,16–2,10 [4], sobre a obra salvífica do Senhor: “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Jesus Cristo” (v. 6).

- Ofício das Leituras das Festas dos Evangelistas São Marcos (25 de abril) e São Mateus, Apóstolo (21 de setembro): Ef 4,1-16 [5], perícope que atesta a diversidade de ministérios, incluindo os “apóstolos” e “evangelistas”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (3)

“Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo” (Ef 4,5).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica), como indicado pelo Elenco das Leituras da Missa (n. 66) [1], na Celebração Eucarística. Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte.

Agora prosseguiremos com os demais Sacramentos e os Sacramentais.


2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

b) Sacramentos

Além da Eucaristia, a Carta aos Efésios consta entre as opções de leitura ad libitum (à escolha) de todos os outros seis Sacramentos.

Primeiramente, em relação à Iniciação Cristã de Adultos, vale destacar o Rito da eleição ou inscrição do nome, que tradicionalmente se celebra no I Domingo da Quaresma e com o qual tem início o “Tempo da Purificação e Iluminação”. Quando esse rito se celebra na Missa, entoa-se a antífona da Comunhão da sexta-feira da IV semana da Quaresma, como vimos anteriormente: “Temos a redenção em Cristo pelo seu sangue e a remissão dos pecados segundo as riquezas de sua graça” (Ef 1,7) [2].

No IV Domingo da Quaresma, por sua vez, celebra-se o II Escrutínio, com uma leitura de Efésios, que é proclamada mesmo quando os Escrutínios são celebrados em outro tempo: Ef 5,8-14 [3], sobre o tema da “iluminação”.

Para a celebração do sacramento do Batismo há três leituras ad libitum (à escolha) da nossa Carta:
- Ef 1,3-10.13-14: o “hino”, que como o Batismo possui uma dinâmica trinitária, destacando-se aqui também o tema da adoção filial (vv. 5-6);
- Ef 4,1-6: a afirmação de que há “um só Senhor, uma só fé, um só Batismo”;
- Ef 5,8-14: esta leitura, sobre o tema da “iluminação” é prevista apenas para o Batismo de crianças, uma vez que os adultos já a ouviram no II Escrutínio [4].

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (2)

“Cristo é a nossa paz: do que era dividido, Ele fez uma unidade” (Ef 2,24).

Na postagem anterior desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1], ao longo do Ano Litúrgico e nas Missas dos Santos. Para acessar a 1ª parte, clique aqui.

Agora prosseguiremos com as Missas para diversas necessidades e votivas.

Representação do Concílio de Éfeso (431):
Epifania da Igreja

2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

a) Celebração Eucarística

Começamos esta segunda parte do nosso estudo com as Missas para diversas necessidades, formulários com várias opções de leituras ad libitum (à escolha), com textos de Efésios em dez formulários:

Na Missa pela Igreja, dada a importância da eclesiologia na Carta, são propostas duas leituras:
Ef 1,3-14: o “hino” em ação de graças, todo no plural (Deus “nos abençoou... nos escolheu...”), uma vez que a Igreja é a destinatária das bênçãos;
Ef 2,19-22: sobre a Igreja como “edifício que tem como fundamento os Apóstolos e os Profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal” (v. 20) [2].

Do “hino” da Carta é tomada também a antífona de entrada do 1º formulário de Missa pela Igreja: “Deus revelou-nos o mistério da sua vontade: restaurar todas as coisas que estão nos céus e na terra no Cristo Jesus” (cf. Ef 1,9a.10) [3].

Na Missa para a eleição do Papa ou Bispo é sugerido o texto de Ef 4,11-16 [4], sobre os diversos ministérios, destacando-se os “pastores e mestres” (v. 11), e recordando que Cristo é a Cabeça da Igreja: unido a Ele, o Corpo cresce na verdade e na caridade.

Para a Missa pelos sacerdotes propõe-se a leitura de Ef 4,1-7.11-13 [5], com a recordação dos diversos ministérios unida à exortação a praticar as virtudes: “humildade, mansidão, paciência...” (vv. 1-7). A mesma perícope é proposta na Missa pelos ministros da Igreja [6].

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (1)

“Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os Apóstolos e os Profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal” (Ef 2,20).

Nas postagens anteriores da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar as “Cartas do cativeiro” atribuídas a São Paulo, com importantes reflexões sobre Cristo e a Igreja.

Após a análise das Cartas aos Filipenses e aos Colossenses, concluiremos esse “bloco” com a Carta aos Efésios (Ef), Πρὸς Ἐφεσίους.

São Paulo escrevendo suas Cartas
(Rembrandt)

1. Breve introdução à Carta aos Efésios

Após uma breve passagem por Éfeso (na atual Turquia) no final da sua “segunda viagem missionária” (At 18,19-21), o Apóstolo Paulo visitou novamente a cidade na sua “terceira viagem” (At 19), permanecendo por um longo período, talvez como prisioneiro por um tempo (Ef 3,1; 4,1; 6,20).

A grande maioria dos estudiosos considera a Carta aos Efésiosdêutero-paulina”, isto é, escrita por um discípulo do Apóstolo, devido às diferenças de linguagem e de teologia em relação às Cartas proto-paulinas. Efésios é a maior das Cartas dêutero-paulinas, com seis capítulos.

O autor de Efésios baseia-se amplamente em Colossenses, de modo que se discute se as duas Cartas têm o mesmo autor ou se são autores distintos. De toda forma, Efésios teria sido escrita provavelmente entre os anos 80 e 90 do século I.

Embora use boa parte do material de Colossenses, a Carta possui textos próprios, como a “ação de graças” em estilo hínico (Ef 1,3-14) e parte da seção parenética (Ef 4,1-14). Além disso, o problema do “falso ensinamento” de Cl 2 não aparece aqui.

Não obstante, a estrutura de Efésios é a mesma, com uma seção teológica (doutrinal) e uma seção parenética (exortativa) “emolduradas” por uma introdução e uma conclusão:
a) Ef 1,1-23: Introdução, com a saudação (vv. 1-2) e a ação de graças (vv. 3-23);
b) Ef 2,1–3,20: Seção teológica;
c) Ef 4,1–6,20: Seção parenética;
d) Ef 6,21-24: Conclusão.

Assim como Filipenses e Colossenses, Efésios contém um “hino cristológico”, embora alguns estudiosos não o considerem como tal, preferindo falar de “ação de graças” em estilo hínico.

Em sua forma a composição possui elementos da tradição judaica, embora seu conteúdo seja autenticamente cristão. Podemos dividi-la em três estrofes, conforme as três Pessoas Divinas: nossa eleição por Deus Pai (vv. 3-6), a redenção operada por Cristo (vv. 7-12) e a obra do Espírito Santo (vv. 13-14). Cada uma das três estrofes conclui-se com um refrão: “Para louvor da sua glória” (vv. 6.12.14).

Outra divisão do cântico é conforme as seis bênçãos mencionadas após o v. 3, que serve de introdução: a eleição (v. 4), a adoção filial (vv. 5-6), a redenção (vv. 7-8), a revelação (vv. 9-10), novamente a eleição (vv. 11-12) e, por fim, os dons da Palavra de Deus e do Espírito Santo, aos quais respondemos com a fé (vv. 13-14).

Esse hino serve, com efeito, de “resumo” da Carta. Sua seção teológica está centrada na obra de Cristo já delineada no hino: a salvação, a unificação de judeus e gentios em um só povo (a Igreja) e a revelação do mistério de Deus (Ef 2,1–3,13), concluindo com uma “oração” (Ef 3,14-21).

Na seção parenética esses temas são retomados: o autor exorta à unidade, a colocar os próprios dons a serviço da Igreja (Ef 4,1-16) e a andar como “filhos da luz”, abandonando as “obras das trevas” (Ef 4,17–5,20), retomando a célebre metáfora dos “dois caminhos”. Por fim, conclui com um “código doméstico” (Ef 5,21–6,9), como em Colossenses, e uma exortação à oração (Ef 6,10-20).

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

São Paulo em Éfeso (At 19)
(Eustache Le Sueur)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

Como todos os livros estudados nesta série, analisaremos a leitura litúrgica da Carta aos Efésios a partir dos dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Iniciamos com o critério da composição harmônica: a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou a festa litúrgica.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (4)

“Cantai a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais, em ação de graças” (Cl 3,16).

Nas postagens anteriores da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar a presença da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica). Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte.

Agora cabe contemplar o outro critério de seleção dos textos bíblicos: a leitura semicontínua.

Jesus Cristo, Rei dos Anjos
(Jan Henryk de Rosen)

3. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Leitura semicontínua

De acordo com o n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM), a leitura semicontínua consiste na proclamação dos principais textos de um livro na sequência, oferecendo aos fiéis um contato mais amplo com a Palavra de Deus [1].

a) Celebração Eucarística

Na Celebração Eucarística, as Cartas Paulinas são lidas de maneira semicontínua tanto nos domingos quanto nos dias de semana do Tempo Comum (cf. ELM, nn. 107.110) [2].

Nos domingos a Carta aos Colossenses é a 2ª leitura da Missa do XV ao XVIII Domingo do Tempo Comum do Ano C, entre a leitura semicontínua da Carta aos Gálatas e da Carta aos Hebreus (cap. 11–12).

As quatro perícopes escolhidas do nosso livro aqui são:
XV Domingo: Cl 1,15-20;
XVI Domingo: Cl 1,24-28;
XVII Domingo: Cl 2,12-14;
XVIII Domingo: Cl 3,1-5.9-11 [3]

Nos dias de semana do Tempo Comum, por sua vez, a Carta é lida por oito dias: da quarta-feira da XXII semana à quinta-feira da XXIII semana do Tempo Comum no ano ímpar, entre a leitura da Primeira Carta aos Tessalonicenses e da Primeira Carta a Timóteo.

XXII semana do Tempo Comum (Ano ímpar):
Quarta-feira: Cl 1,1-8;
Quinta-feira: Cl 1,9-14;
Sexta-feira: Cl 1,15-20;
Sábado: Cl 1,21-23.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (3)

“Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza, habite em vós” (Cl 3,16).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística e nos demais Sacramentos. Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte.

Agora concluiremos a análise sob esse critério com os Sacramentais e a Liturgia das Horas.

Jesus Cristo, Senhor dos Anjos
(Edward Burne-Jones)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Composição harmônica

c) Sacramentais

Quanto aos Sacramentais, consideremos primeiramente aqueles que implicam a consagração de pessoas.

Na Bênção de abade ou abadessa consta dentre as leituras ad libitum (à escolha) o texto de Cl 3,12-17 [2], com a exortação à prática das virtudes. Destaca-se aqui o v. 16: “Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria”, recordando a função do abade ou abadessa como guia da comunidade.

Dessa mesma perícope é tomada uma das opções de aclamação ao Evangelho para essa celebração: “A paz de Cristo reine em vossos corações, para a qual fostes chamados num só corpo!” (Cl 3,15) [3].

Uma versão ligeiramente mais longa desse texto conta como 2ª opção de antífona de entrada para a Missa ritual: “Acima de tudo tende a caridade, que é laço da perfeição; e exulte em vossos corações a paz do Cristo” (Cl 3,14-15) [4].

Para a Consagração das virgens e a Profissão religiosa, que compartilham as mesmas opções de leituras, propõem-se dois textos à escolha: Cl 3,12-17, como acima, e Cl 3,1-4 [5], com a exortação a buscar “as coisas do alto, onde está Cristo”.

Na sequência contemplemos as bênçãos de pessoas, lugares e objetos, nas quais identificamos sete leituras do nosso escrito à escolha:

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (2)

“Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto” (Cl 3,1).

Em nossa postagem anterior desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística. Para acessar a 1ª parte, clique aqui.

Agora prosseguiremos com as Missas para diversas necessidades e votivas e os demais Sacramentos.

“A paz de Cristo exulte em vossos corações” (Cl 3,15)
O Ressuscitado comunica a paz aos Apóstolos

2. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Composição harmônica

Começamos esta segunda parte do nosso estudo contemplando as Missas para diversas necessidades, com várias opções de leituras ad libitum (à escolha), das quais são tomadas também algumas antífonas para essas Missas.

Primeiramente, a antífona de entrada da Missa por um Concílio ou Sínodo é uma exortação à caridade e à paz: “Tende acima de tudo a caridade, que é o vínculo da perfeição; e a paz de Cristo exulte em vossos corações” (Cl 3,14-15) [2].

Na sequência, nas Missas pelos sacerdotes e pelos ministros da Igreja é possível ler Cl 1,24-29 [3]. Aqui, como vimos na postagem anterior, o autor da Carta recorda seu ministério, destacando o anúncio da Palavra.

Dessa perícope é tomada a antífona de entrada do 1ª formulário da Missa pelo próprio sacerdote: “Eu me tornei ministro da Igreja por disposição divina que me foi confiada em relação a vós: anunciar-vos o Cristo...” (cf. Cl 1,25.28) [4].

Para a Missa pela unidade dos cristãos propõe-se a leitura de Cl 3,9b-17 [5], um trecho da seção parenética da Carta, exortando à prática das virtudes e concluindo com uma “bênção” evocando a paz e a unidade.

Dessa mesma perícope é tomada uma das opções de aclamação ao Evangelho (Cl 3,15) [6] e a antífona da Comunhão do 2ª formulário dessa Missa: “Tende acima de tudo a caridade, que é vínculo de perfeição; e exulte em vossos corações a paz do Cristo na qual sois chamados a ser um só corpo” (Cl 3,14-15) [7].

O mesmo texto de Cl 3,14-15 é proposto ainda como 2ª opção de antífona de entrada para a Missa para uma reunião espiritual ou pastoral [8].

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (1)

“Amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14).

Em nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar as “Cartas do cativeiro” atribuídas ao Apóstolo Paulo, com importantes reflexões sobre Cristo e a Igreja: Filipenses, Colossenses e Efésios. Nesta postagem começaremos um percurso pela Carta aos Colossenses (Cl), Πρὸς Κολοσσαεῖς.

São Paulo escrevendo suas Cartas
(Rembrandt)

1. Breve introdução à Carta aos Colossenses

Diferentemente de Filipos, a comunidade de Colossas, na Frígia (na atual Turquia), não foi fundada por Paulo, mas provavelmente por Epafras, um discípulo do Apóstolo (Cl 1,7-8).

Enquanto há consenso acerca da autoria paulina de Filipenses, o mesmo não pode ser dito desta Carta. Para a maioria dos autores, dadas as diferenças de linguagem e teologia, Colossenses não foi escrita por Paulo, mas sim por um discípulo, provavelmente nos anos 80 do século I (antes de Efésios, que se baseará nesta Carta).

Esta é, portanto, uma “Carta dêutero-paulina”, embora também seja enquadrada no grupo das “Cartas do cativeiro”, uma vez que o autor “veste o manto” de Paulo na prisão (cf. Cl 4,3.10.18).

A Carta possui uma divisão semelhante a Romanos, com uma seção teológica (doutrinal) e uma seção parenética (exortativa ou moral), “emolduradas” por uma introdução e uma conclusão:
a) Cl 1,1-8: Introdução, com a saudação (vv. 1-2) e a ação de graças (vv. 3-8);
b) Cl 1,9–2,23: Seção teológica, centrada no tema da soberania de Cristo;
c) Cl 3,1–4,6: Seção parenética;
d) Cl 4,7-18: Conclusão, com as saudações finais.

Assim como em Filipenses, temos em Cl 1,15-20 um “hino cristológico”, provavelmente tomado da Liturgia da comunidade primitiva, que sintetiza a reflexão teológica da Carta. Podemos chamá-lo de “hino à soberania de Cristo”, sob dois aspectos: na ordem da criação (vv. 15-17) e na ordem da salvação (vv. 18-20).

O hino é marcado por paralelos: Cristo é o “primogênito de toda criatura (v. 15) e o “primogênito dentre os mortos” (v. 18). A composição relaciona-se assim com a “sabedoria criadora” do Antigo Testamento (cf. Pv 8,22-31), embora Cristo seja não só a origem da criação, mas também seu fim: “Tudo foi criado por Ele e para Ele” (v. 16).

Destaca-se também a relação Cristo-Igreja: “Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (v. 18). Embora a metáfora do corpo já estivesse presente na Primeira Carta aos Coríntios e na Carta aos Romanos, ela é aqui ampliada, adquirindo um sentido mais universal.

O hino ajuda ainda a esclarecer os “falsos ensinamentos” (Cl 2,8-23). Trata-se aqui do perigo do sincretismo, isto é, da absorção de elementos de várias religiões. Por exemplo, se mencionam exageros no “culto dos anjos” (Cl 2,18), contra o qual o hino ressalta a soberania de Cristo (tema presente também em Hb 1,5–2,18).

Provavelmente esse culto tinha uma característica “dualista” (fenômeno ampliado pelo gnosticismo no século II): havia anjos bons e maus. A Carta afirma que Cristo é superior aos anjos bons por tê-los criado (Cl 1,16; 2,10) e que subjugou os anjos maus pelo seu sacrifício na cruz (Cl 1,20; 2,14-15).

Além do “culto aos anjos” parece que haviam práticas ascéticas, talvez relacionadas a proibições alimentares (Cl 2,16) e mortificações corporais (Cl 2,23), além de elementos dos “cultos de mistérios”, uma vez que o autor afirma que em Cristo o mistério de Deus foi revelado (Cl 1,25-29).

A seção parenética da Carta, além de catálogos de vícios e virtudes (Cl 3,5-17), traz um dos “códigos domésticos” do Novo Testamento (Cl 3,18-25), com exortações a esposos, pais e filhos, servos...

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

Sagrada Família
(Catedral de Westminster)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Composição harmônica

Como fizemos com as Cartas Paulinas e os demais livros nesta série, analisaremos a leitura litúrgica de Colossenses a partir dos dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Iniciamos nosso percurso pelo critério da composição harmônica: a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou a festa litúrgica.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses (4)

“Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1,21).

Nas últimas postagens da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar a presença da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica). Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte.

Agora nos cabe contemplar o outro critério de seleção dos textos bíblicos: a leitura semicontínua.

Escultura de Jesus Cristo na Alemanha
(Na base está escrito o texto de Fl 1,21)

3. Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses: Leitura semicontínua

Segundo o n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM), a leitura semicontínua consiste na proclamação dos principais textos de um livro na sequência, oferecendo aos fiéis um contato mais amplo com a Palavra de Deus [1].

a) Celebração Eucarística

Na Celebração Eucarística, as Cartas Paulinas são lidas de maneira semicontínua tanto nos domingos quanto nos dias de semana do Tempo Comum (cf. ELM, nn. 107.110) [2].

No ciclo dominical, a Carta aos Filipenses é proclamada como 2ª leitura do XXV ao XXVIII Domingo do Tempo Comum no Ano A, entre a Carta aos Romanos e a Primeira Carta aos Tessalonicenses:
XXV Domingo: Fl 1,20c-24.27a;
XXVI Domingo: Fl 2,1-11 (Forma breve: Fl 2,1-5);
XXVII Domingo: Fl 4,6-9;
XXVIII Domingo: Fl 4,12-14.19-20 [3].

Nos dias feriais do Tempo Comum, por sua vez, a Carta é lida da sexta-feira da XXX semana ao sábado da XXXI semana do Tempo Comum no ano par, após a leitura da Carta aos Efésios e antes das Cartas a Tito e a Filêmon.

Trata-se aqui de uma leitura substancial da Carta, sendo omitidos poucos textos, como podemos ver a seguir:

XXX semana do Tempo Comum (Ano par):
Sexta-feira: Fl 1,1-11;
Sábado: Fl 1,18b-26.

XXXI semana do Tempo Comum (Ano par):
Segunda-feira: Fl 2,1-4;
Terça-feira: Fl 2,5-11;
Quarta-feira: Fl 2,12-18;
Quinta-feira: Fl 3,3-8a;
Sexta-feira: Fl 3,17–4,1;
Sábado: Fl 4,10-19 [4].

Vale destacar ainda os dois textos da Carta propostos como versículos de aclamação ao Evangelho no Tempo Comum:

- “Como astros no mundo vós resplandeceis, mensagem de vida ao mundo anunciando...” (Fl 2,15d.16a): XXIX Domingo (Ano A), VIII Domingo (Ano C), sexta-feira da X semana e segunda-feira da XXXII semana [5];

- “Em tudo considero como perda e lixo, a fim de ganhar Cristo e ser achado n’Ele” (Fl 3,8-9): Quarta-feira da XXVI semana e quinta-feira da XXIX semana [6].

Papiro com um trecho da Carta aos Filipenses

b) Liturgia das Horas

Na Liturgia das Horas a Carta aos Filipenses é lida na íntegra no Ofício das Leituras da XXVI semana do Tempo Comum, entre a leitura do Livro de Ezequiel e da Primeira Carta a Timóteo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses (3)

“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto” (Fl 4,4-5).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística. Para acessar a primeira parte, clique aqui; para a segunda parte, clique aqui.

Nesta postagem concluiremos a análise sob esse critério com os demais Sacramentos, os Sacramentais e a Liturgia das Horas.

Batismo de Lídia em Filipos (At 16,11-15)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses: Composição harmônica

b) Sacramentos e Sacramentais

Além da Eucaristia, alguns textos da Carta aos Filipenses constam entre as leituras ad libitum (à escolha) dos Sacramentos da Unção dos Enfermos e do Matrimônio e de dois ritos relacionados ao Batismo.

Primeiramente, no contexto da Iniciação Cristã de adultos, quando estes recebem o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia na Vigília Pascal, na manhã do Sábado Santo podem celebrar-se os Ritos de preparação imediata. A leitura indicada para esses ritos é Fl 3,4-15 [2], na qual Paulo exorta a lançar-se “para frente”, isto é, para Cristo.

Para o Rito da Admissão dos batizados, pelo qual são acolhidas na Igreja pessoas já batizadas em outras comunidades eclesiais, sugere-se a leitura de Fl 4,4-8 [3], com o convite à alegria e a exortação a praticar a virtude.

Na Unção dos Enfermos, por sua vez, é possível ler Fl 2,25-30 [4], sobre a doença de Epafrodito, enviado da comunidade a Paulo, e sua recuperação: “Estava às portas da morte, mas Deus compadeceu-se dele” (v. 27).

Para o Matrimônio, por fim, a leitura sugerida da nossa Carta é Fl 4,4-9 [5], com o convite à alegria e a exortação à virtude, como vimos acima.

Quanto aos Sacramentais, consideremos primeiramente aqueles que dizem respeito à consagração de pessoas, com duas ocorrências da nossa Carta dentre as opções de leituras ad libitum (à escolha):

No novo rito da Instituição de Catequistas (De Institutione Catechistarum), promulgado pelo Dicastério para o Culto Divino em dezembro de 2021, propõe-se a leitura de Fl 4,4-9, destacando-se aqui a exortação do v. 9: “Praticai o que aprendestes”.

Para a Consagração das virgens e a Profissão religiosa, celebrações que compartilham as mesmas opções de leituras, propõem-se dois textos de Filipenses [6]:
- Fl 2,1-4: a exortação do Apóstolo à unidade, fundamental na vida religiosa: “Vivei em harmonia, procurando a unidade” (v. 3);
- Fl 3,8-14: o convite a “esquecer o que ficou para trás” e a lançar-se “para frente”, isto é, para Cristo.

Deste último texto é tomada também uma das opções de aclamação ao Evangelho para essas celebrações: “Em tudo considero como perda e lixo, a fim de ganhar Cristo e ser achado n’Ele” (Fl 3,8-9) [7].

Ainda em relação aos Sacramentais, contemplemos as bênçãos de pessoas, lugares e objetos, nas quais identificamos seis leituras da Carta à escolha:

- Bênção de noivos: Fl 2,1-5 [8], a exortação a viver “unidos no mesmo amor”.

- Bênção de idosos: Fl 3,20–4,1 [9], onde o Apóstolo exorta: “Permanecei firmes no Senhor”, pois “nós somos cidadãos do céu”.

Ruínas de um batistério na cidade de Filipos

- Bênção de edifício sede de comunicação: Fl 4,8-9 [10], com uma exortação à ética nas comunicações: “Irmãos, ocupai-vos com tudo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso...” (v. 8).

- Bênção de instalações esportivas: Fl 3,12-15 [11], aqui, como na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo usa a metáfora do esporte, afirmando: “Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus” (v. 14).