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terça-feira, 14 de maio de 2019

São Bento, o poder do silêncio e a ditadura do ruído

Na esteira de nossa última postagem sobre a música litúrgica na Assembleia da CNBB, gostaríamos de propor aqui um texto de Peter Kwasniewski, traduzido pela Equipe Christo Nihil Praeponere e publicado no último dia 29 de abril no site do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior.

O texto, intitulado "São Bento, o poder do silêncio e a ditadura do ruído", reflete sobre a importância do silêncio em nossas vidas e como a música litúrgica deve servir como "moldura" para o silêncio, recorrendo às contribuições de São Bento neste sentido.

Segue o texto na íntegra:

São Bento, o poder do silêncio e a ditadura do ruído

Quando nem as igrejas e liturgias respeitam mais a profunda necessidade humana de recolher-se em silêncio na presença do Deus vivo, só o que nos pode salvar é a sabedoria dos santos.

A Igreja recorda no dia 21 de março o dies natalis, isto é, o dia do nascimento para o céu, de São Bento de Núrsia, o grande pai do monasticismo ocidental e co-padroeiro da Europa (n.d.t.: no novo calendário litúrgico, sua memória litúrgica é celebrada em 11 de julho). Mas pode um monge que viveu 1500 anos atrás ter algo de relevante a nos ensinar hoje?
Não só tem ele muito a nos ensinar, como o próprio fato de ter vivido há tanto tempo lhe dá uma vantagem especial nessa matéria. Pois, como diz C. S. Lewis em seu prefácio ao livro de Santo Atanásio sobre a Encarnação, as pessoas modernas - ou seja, nossas contemporâneas - tendem a ficar aprisionadas em todo um conjunto de suposições sobre como as coisas são ou deveriam ser, tomando-as por certas sem sequer terem ciência de outras alternativas, ao passo que os antigos, trabalhando a partir de um conjunto de pressupostos completamente diferentes dos nossos, estão em condições de confrontar, questionar, enfraquecer e até mesmo reduzir a pó as nossas suposições.
O autor anglicano conclui que, quanto mais entrarmos em contato com livros antigos, tanto maior será a possibilidade de nos conhecermos, criticarmos e aperfeiçoarmos. A ironia é que só as coisas antigas podem nos tornar “novos”, enquanto as completas novidades só o que farão é envelhecer-nos em nossas tolices.
Um exemplo admirável desse fenômeno é a campanha moderna contra o silêncio. O Cardeal Sarah, como sabemos, tem falado com eloquência - e (o que é bem mais difícil de encontrar) a partir de uma fé e um espírito de adoração profundos - sobre a ditadura do ruído na vida secular e também, cada vez mais, no domínio do sagrado.
Está se tornando cada vez mais difícil encontrar um único lugar tranquilo que seja no mundo: bares e restaurantes tocam música tão alto que mal se pode ouvir a pessoa do outro lado da mesa; lojas, escritórios e instalações de todos os tipos parecem estar agindo sob uma lei cósmica para evitar o silêncio a todo custo; se o ruído ambiente for inadequado, os onipresentes fones de ouvido garantirão um fluxo ininterrupto; até mesmo muitos parques e áreas de recreação têm sua doce paz perturbada pelo som do tráfego de automóveis e aviões cruzando o céu.

Não fosse tudo isso desafiador o bastante para a saúde mental, raramente se pode encontrar uma igreja ou uma liturgia católica que respeite a profunda necessidade humana de recolher-se em silêncio na presença do Deus vivo, que fala com ternura aos corações que lhe são dóceis.
Um amigo e eu discutíamos certa vez o que era melhor na Missa, se o silêncio ou a meditação, e ele escreveu-me o seguinte:
O silêncio pode assumir várias formas. Há um silêncio de desespero; há o silêncio repentino em um belo pôr do sol; há um silêncio de admiração; há um silêncio de confusão e de perplexidade; há um silêncio de intimidade e de proximidade. Das muitas formas de silêncio, algumas são adequadas à Missa e outras não.
O que define um silêncio são os ruídos em torno dele, assim como um batente delimita uma porta. O silêncio que se ouve logo depois de um estrondo e pouco antes de um grito é definido pelo estrondo e pelo grito. Da mesma forma, o silêncio que vem depois do canto gregoriano e antes da proclamação do Santo Evangelho é definido pela música que lhe antecede e pelas palavras que lhe seguem. Portanto, no fim das contas, não se pode escolher entre a música e o silêncio, porque é a música o que define o silêncio como este tipo de silêncio, ao invés de outro. É como se alguém perguntasse se deveríamos preferir o papel ao contorno que o define.
Quando estou em uma Missa show com guitarras e performances musicais, o silêncio entre os sons têm uma característica clara e definida: trata-se de um tempo morto. É o silêncio que ouvimos entre os atos. A música propriamente sacra na Missa - o canto gregoriano, a polifonia, os hinos clássicos e o órgão - atua como uma moldura em torno do silêncio e define-o como um silêncio sagrado, densamente significativo, pronto para ser preenchido pela oração. O silêncio na Missa, por sua vez, age como uma direção ou um peso interno para a música, mantendo-a ancorada na quietude eterna, a “Palavra sem palavras”.

S. Bento entendeu muito bem todas essas coisas, como podemos deduzir de sua Santa Regra, na qual ele fala em muitos lugares da necessidade e importância do silêncio. São particularmente dignas de nota suas palavras sobre o oratório ou a capela: “Terminado o Ofício Divino, saiam todos com sumo silêncio e tenha-se reverência para com Deus, de modo que, se acaso um irmão quiser rezar em particular, não seja impedido pela imoderação de outro” (Regra, 52). S. Bento entende que a liturgia existe para criar dentro de nós um espaço para Deus e um espaço para o silêncio, que façam florescer a nossa oração, como uma conversa de amigos que se amam.
O patriarca dos monges também nos diz: “Os monges devem, em todo tempo, esforçar-se por guardar o silêncio” (Regra, 42). Isso pode parecer, inicialmente, um exagero, se consideramos quantas horas por dia os monges dedicam a cantar em conjunto os louvores divinos na Missa e no Ofício Divino, e o quanto a recreação ou a hospitalidade deles podem chamá-los a falar com os outros. Como os monges podem manter silêncio “em todos os momentos”? Após uma reflexão mais profunda, a Regra nos inclina a ver a oração vocal e o diálogo de caridade, feitos no espírito correto, como se originando de e sendo preenchidos pelo silêncio de um coração recolhido na presença de Deus e que aspira a servi-lo. Eles são, noutras palavras, uma tradução em cânticos e palavras desse silêncio interior; eles compartilham a paz de Deus e aumentam-na ao redor.
S. Bento insiste, contudo, no silêncio literal durante toda a noite e, sempre que possível, durante o dia. Para tanto, no riquíssimo capítulo 4 da Regra, relativo aos “instrumentos das boas obras” (que podem servir de base para um excelente exame de consciência), ele nos fornece uma razão negativa baseada na natureza humana decaída e uma razão positiva, com base no objetivo elevado da vida cristã.
S. Bento reconhece que, pecadores como somos, com frequência somos “entregues a murmúrios”, detrações, “fala maligna ou depravada”, conversa excessiva - e que essas coisas tornam difícil para nós “ouvir com boa vontade a leitura sagrada” e “estar frequentemente ocupado em oração”. Embora ele não mencione isso, a mesma dificuldade surge de qualquer ruído inútil, frívolo ou perturbador em nosso ambiente.
Mas por que deveríamos “ouvir a leitura sagrada” e “estar ocupados em oração”? O mesmo capítulo estabelece o objetivo: para que nos possamos “tornar estranhos às coisas mundanas”, colocar nossa esperança em Deus e “nada antepor ao amor de Cristo” (Christo nihil praeponere).
Para muitos dos que vivemos no mundo, essas frases estabelecem um ideal brilhante, sempre realizado de modo imperfeito. Ainda assim, não se pode chegar a um destino distante sem dar passos, pequenos ou grandes, para alcançá-lo. Um coração tranquilo e recolhido, cheio de amor silencioso, bebendo o cálice do Senhor e provando a doçura da sua vitória na amargura do sofrimento - é aqui que queremos terminar. Se queremos chegar a este termo, devemos começar aqui, agora, hoje, com mais tempo, mais espaço para o silêncio em nossas vidas.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Dies irae: Uma meditação sobre o fim dos tempos

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, da Arquidiocese de Cuiabá (MT), publicou no dia 02 de dezembro de 2013 uma vídeo-aula comentando o Dies irae (Dia de ira), antiga sequência das Missas dos defuntos, atualmente proposto como hino facultativo da Liturgia das Horas para a última semana do Ano Litúrgico.

Para acessar nossa postagem sobre o Dies irae, clique aqui.

Juízo final (Hans Memling)

O comentário recorda a interpretação do hino feita por Wolfgang Amadeus Mozart (†1791) em sua famosa Missa de Réquiem (no vídeo da aula é possível ouvir o trecho intercalando os comentários).

A aula infelizmente não encontra-se mais disponível no Youtube, mas pode ser acessada no site do Padre Paulo Ricardo. A seguir publicamos seu texto, presente no mesmo site (em negrito encontra-se o texto do hino em latim com sua tradução).

Dies irae: Uma meditação sobre o fim dos tempos

A expressão Dies irae (“dia da ira”) é extraída da Bíblia: “Esse dia será um dia da ira, dia de angústia e de aflição, dia de ruína e de devastação; dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e de névoas espessas, dia de trombeta e de alarme, contra as cidades fortes e as torres elevadas” (Sf 1,15-16).

A “ira” de Deus consiste em uma expressão do seu amor, em uma forma de recordar aos homens que suas ações têm consequências. Faz parte da pedagogia de Deus corrigir o homem, enquanto se encontra neste mundo, a fim de que se salve. Infelizmente, tem quem teime em encaixar a ira divina apenas no Antigo Testamento, acabando por cair no erro do heresiarca Marcião, cuja doutrina gnóstica distinguia o “deus” da lei judaica do “deus” do Novo Testamento. Ora, é evidente que, para os cristãos, que “veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 123), não há diferença alguma entre o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e o Deus que se revelou em Jesus Cristo. “Por isso a sã doutrina cristã sempre recusou qualquer forma emergente de marcionismo, que tende de diversos modos a contrapor entre si o Antigo e o Novo Testamento” (Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Verbum Domini, n. 40).

Dies irae

Canta o hino:
Dies irae, dies illa / solvet saeclum in favílla, / teste David cum Sibýlla”;
Dia da ira, dia aquele / O mundo se dissolve em cinza, / Como foi atestado por Davi e pela Sibila”.
“Como foi atestado por Davi”, quer dizer, como foi confirmado pelo próprio Antigo Testamento; “e pela Sibila”, isto é, até mesmo as religiões pagãs reconheceram a existência deste “dia final”. Ninguém ignora a existência do fim dos tempos.

Quantus tremor est futúrus, / quando iudex est ventúrus / cuncta stricte discussúrus!
Quanto tremor acontecerá, / Quando o juiz vier / Para tudo julgar estritamente!”.
Narra o Evangelho que “os homens desmaiarão de medo e ansiedade, pelo que vai acontecer no universo” (Lc 21,26). Nestes primeiros versos, o Dies irae canta justamente este aspecto terrível do Juízo: o tremor das criaturas diante d'Aquele que é o Rei de todo o universo.

Tuba mirum

Na peça de Mozart, neste momento, o barítono (aquele com a voz mais grave) imita o som da trombeta, da qual fala São Paulo a Tessalônica: “Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu...” (1Ts 4,16):
Tuba mirum spargens sonum / per sepúlcra regiónum, / coget omnes ante thronum”;
A trombeta espalhando o som admirável / Pela região dos sepulcros, / Leva todos diante do trono”.

Segue-se, então, a ressurreição dos mortos (ibid.):
Mors stupébit et natúra, / cum resúrget creatúra / iudicánti responsúra”;
A morte e a natureza se espantarão, / Quando a criatura ressurgir / Respondendo ao que irá julgar”.
Aqui, Tomás de Celano utiliza-se de uma prosopopeia: ele dá características humanas à morte e à natureza, que “se espantarão” diante da ressurreição dos mortos, diante da glorificação daquela matéria sobre a qual dominava a concupiscência. Iudicánti responsúra: os mortos se levantarão à simples voz do Juiz, para respondê-Lo prontamente.

terça-feira, 1 de março de 2016

Homilia do Padre Paul Scalia no funeral de Antonin Scalia

Antonin Scalia, Juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, faleceu no último dia 13 de fevereiro. Foi um católico fervoroso e um grande defensor dos valores cristãos. A Missa exequial foi celebrada no dia 20 no Santuário Nacional da Imaculada Conceição em Washington, presidida pelo seu filho, Pe. Paul Scalia.
Pe. Scalia pronunciou uma excelente homilia, centrada na fé cristã na vida eterna. Segue a homilia na íntegra, traduzida pelo site do Padre Paulo Ricardo:

Eminentíssimo Cardeal Wuerl,
Excelentíssimos Dom Viganò, Dom Loverde, Dom Higgins, 
Meus irmãos no sacerdócio, diáconos, distintos convidados, queridos amigos e fiéis aqui reunidos,
Em nome de minha mãe e de toda a família Scalia, quero agradecer pela presença de todos aqui, pelas palavras de consolo e, mais ainda, pelas muitas orações e missas oferecidas pela morte de nosso pai, Antonin Scalia.
Agradeço em particular ao Cardeal Wuerl, primeiro por ter vindo tão rápida e amavelmente para consolar nossa mãe. Foi um consolo para ela e, portanto, também para nós. Agradeço também por permitir-nos celebrar essa Missa "paroquial" de Exéquias aqui nesta basílica dedicada a Nossa Senhora. Que grande privilégio e consolação para nós fazer o nosso pai atravessar essa Porta Santa e ganhar para ele a indulgência prometida aos que por elas entram com fé.
Agradeço a presença de Dom Loverde, bispo de nossa diocese em Arlington, um pastor pelo qual nosso pai nutria grande respeito e consideração. Obrigado pela visita imediata a nossa mãe, por suas palavras de consolo e por suas orações.
A família sairá para o enterro privado imediatamente após a Missa e não terá tempo para receber visitas. Por isso, quero expressar os nossos agradecimentos agora. A todos manifestamos o nosso mais profundo obrigado. Vocês verão no programa a menção de um memorial que acontecerá em 1.º de março. Esperamos por vocês nessa ocasião e rezamos para que o Senhor os recompense pela grande bondade que demonstraram para conosco.
Estamos reunidos aqui por causa de um homem. Um homem que muitos de nós conhecemos pessoalmente, e que outros tantos conheceram pelo menos por reputação; um homem amado por muitos, desprezado por outros; um homem conhecido por grande controvérsia, e por grande compaixão. Este homem, é claro, é Jesus de Nazaré.
É Ele quem nós proclamamos: Jesus Cristo, Filho do Pai, nascido da Virgem Maria, crucificado, sepultado, ressuscitado, sentado à direita do Pai. É por causa d'Ele, por Sua vida, morte e ressurreição, que nosso luto não é como o daqueles sem esperança, mas, confiantes, nós encomendamos Antonin Scalia à misericórdia de Deus. 


Dizem as Escrituras que "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre". E isso define um bom caminho para as nossas meditações e orações aqui hoje. Olhamos, com efeito, em três direções: para o ontem, em ação de graças; para o hoje, em petição; e para a eternidade, com esperança.
Olhamos para Jesus Cristo ontem - isto é, para o passado - em ação de graças pelas bênçãos de que cumulou o nosso pai. Na última semana, muitos contaram coisas que o nosso pai fez por elas, mas aqui hoje, nós contamos o que Deus fez pelo nosso pai, como Ele o abençoou. Damos graças, antes de tudo, pela morte redentora e pela ressurreição vivificante de Jesus Cristo. Nosso Senhor morreu e ressuscitou não apenas por todos nós, mas também por cada um de nós. E nesse momento nós olhamos para o ontem de Sua morte e Sua ressurreição, e damos graças porque Ele morreu e ressuscitou pelo nosso pai. Nós também damos graças porque Jesus lhe deu vida nova pelo Batismo, o alimentou com a Eucaristia e o curou por meio da Confissão. Damos graças porque Jesus o abençoou com 55 anos de matrimônio com a mulher que ele amava - uma mulher capaz de segui-lo em cada passo e até mesmo mantê-lo responsável. 
Deus abençoou o nosso pai com uma profunda fé católica - a convicção de que a presença e o poder de Cristo continuam no mundo hoje através do Seu Corpo, a Igreja. Ele amou a clareza e a coerência da doutrina da Igreja, teve em grande consideração as suas cerimônias, e especialmente a beleza de sua antiga liturgia. Acreditou no poder dos Sacramentos como meios de salvação - como Cristo que operava nele para a sua própria salvação. 
Contudo, certa vez, numa tarde de sábado, ele me repreendeu por ouvir confissões durante a tarde daquele mesmo dia. E eu espero que seja alguma fonte de consolação (se houver algum advogado presente) o fato de que nem o colarinho romano podia poupar alguém de suas críticas. O problema, naquela noite, não era eu estar ouvindo confissões, mas ele ter entrado justamente na fila do meu confessionário. E ele rapidamente saiu dela. Ele disse depois: "De jeito nenhum eu me confessar com você!" O sentimento era mútuo.
Deus abençoou o nosso pai, como se sabe, com um amor pelo seu país. Ele conhecia bem as dificuldades com que foi fundada a nossa nação. E viu nessa fundação, assim como os seus próprios fundadores a viram, uma bênção. Uma bênção que rapidamente se perde quando a fé é banida da esfera pública, ou quando nos recusamos a levá-la a público. Ele entendeu que não há nenhum conflito entre o amor a Deus e o amor à própria pátria, entre a fé de alguém e o seu serviço público. Nosso pai entendeu que, quanto mais se aprofundava em sua fé católica, melhor cidadão e servidor público ele se tornava. Deus o abençoou com um desejo de ser um bom servidor da pátria, porque primeiro ele o era de Deus.
Entretanto, nós da família Scalia damos graças a Deus por uma bênção particular que Ele lhe concedeu. Deus abençou o nosso pai com um amor por sua família. Nós ficamos muito felizes em ler e ouvir as várias palavras de louvor e admiração por ele, por seu intelecto, por seus escritos, por seus discursos, por sua influência etc. Mas o mais importante para nós - e para ele - é que ele foi pai. Ele foi o pai que Deus nos deu para a grande aventura que é a vida em família. É claro que às vezes ele esqueceu ou misturou os nossos nomes; mas nós, seus filhos, somos em nove. Ele nos amou, e procurou mostrar esse amor, e procurou compartilhar o dom da fé que ele estimava. E ele nos deu um ao outro, para que tivéssemos apoio mútuo. Essa é a maior riqueza que os pais podem acumular e, neste momento, nós somos particularmente gratos por isso.
Nós olhamos, então, para o passado, para Jesus Cristo ontem, e fazemos memória de todas essas bênçãos, honrando e glorificando Nosso Senhor, porque é tudo obra d'Ele.
Olhamos para Jesus hoje, em petição - para o momento presente, aqui e agora, em que estamos de luto por este que amamos e admiramos, e cuja falta sentimos. Hoje nós rezamos por ele. Rezamos pelo descanso da sua alma. Damos graças a Deus por sua bondade para com nosso pai, como é digno e justo. Mas também sabemos que, mesmo crendo, a sua fé foi muito imperfeita, como é também a nossa. Ele tentou amar a Deus no próximo, mas, assim como nós, fê-lo de modo muito imperfeito. Ele era um católico praticante - praticante no sentido de que ainda não tinha chegado à perfeição. Ou, melhor dizendo, Cristo ainda não o tinha levado à perfeição. E só aqueles que Cristo leva à perfeição podem entrar no Céu. Estamos aqui, portanto, para oferecer as nossas orações por esse aperfeiçoamento, por essa obra final da graça de Deus, de libertar o nosso pai de toda carga de pecado.
Mas não precisam levar em conta a minha palavra. O nosso próprio pai - não surpreendentemente - tinha algo a dizer sobre o assunto. Escrevendo anos atrás a um ministro presbiteriano com cujo funeral ele ficou admirado, ele resumiu com uma certa gentileza as armadilhas dos funerais (e por que ele não gostava dos elogios fúnebres). Ele escrevia que "mesmo quando o falecido foi uma pessoa admirável - na verdade, especialmente quando o falecido foi uma pessoa admirável - louvar as suas virtudes pode nos levar a esquecer que nós estamos rezando e agradecendo a Deus por Sua inexplicável misericórdia com um pecador." Mesmo agora, ele não teria se poupado disso. Estamos aqui, pois, como ele gostaria, para implorar a inexplicável misericórdia de Deus para com um pecador - este pecador, Antonin Scalia. Não mostremos um falso amor para com ele, nem deixemos que a nossa admiração o prive de nossas preces.Continuaremos a demonstrar a nossa afeição e fazer bem a ele se rezarmos por ele: para que toda mancha do pecado seja lavada, para que todas as feridas sejam curadas, para que ele seja purificado de tudo o que não seja Cristo. Para que ele descanse em paz.
Por fim, olhamos para Jesus sempre, para a eternidade. Ou, melhor, consideramos o nosso próprio lugar na eternidade, e se ela será com o Senhor. Mesmo quando rezamos por nosso pai, para que entre depressa na eterna glória, devemos lembrar de nós mesmos. Todo funeral nos lembra quão tênue é o véu que separa este e o outro mundo, o tempo e a eternidade, a oportunidade de conversão e o momento do juízo. Por isso, não podemos sair os mesmos daqui. Não tem sentido algum celebrar a bondade e a misericórdia de Deus para com o nosso pai se não estamos atentos e não respondemos a essas realidades em nossas próprias vidas.Devemos deixar que esse encontro com a eternidade nos mude, nos tire do pecado e nos converta para o Senhor. O dominicano inglês Pe. Bede Jarrett o disse de forma muito bela quando rezou, "Ó, poderoso Filho de Deus... enquanto preparas um lugar para nós, prepara-nos também para aquele lugar bem-aventurado, para que possamos estar contigo e com aqueles que amamos por toda a eternidade."
"Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre." Meus caros amigos, essa é também a estrutura da Missa - a melhor oração que podemos oferecer por nosso pai, porque não é nossa, mas do Senhor. A Missa lança o olhar a Jesus ontem, volta para o passado - a Última Ceia, a crucificação, a ressurreição - e faz esses mistérios e o seu poder presentes aqui, sobre esse altar. O próprio Jesus se torna presente aqui hoje, sob as espécies do pão e do vinho, a fim de que possamos unir todas as nossas orações de ação de graças, de luto e de petição com o próprio Cristo, como uma oferta ao Pai. E tudo isso, com o olhar na eternidade, que se estende até o Céu, onde esperamos gozar da perfeita união com o próprio Deus e ver novamente o nosso pai, e com ele regozijar na comunhão dos santos.

Antonin Scalia

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Curso sobre o Tríduo Pascal com o Padre Paulo Ricardo

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior apresenta em seu excelente site um curso sobre o Tríduo Pascal na forma de três vídeos, cada um tratando de uma das celebrações a partir dos respectivos hinos litúrgicos.

Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

Vale a pena ver estes vídeos e meditar sobre estas celebrações. Por isso, publicamos aqui os vídeos das três aulas do curso:

Missa da Ceia do Senhor:
Ubi caritas (Onde o amor)

Celebração da Paixão do Senhor:
Improperium (Lamentos do Senhor)

Vigília Pascal:
Exsultet (Precônio Pascal)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Orientações litúrgicas para o período de Sede Vacante (2013)

Amanhã, dia 28 de fevereiro de 2013, às 20h do horário de Roma (às 16h do horário de Brasília), se tornará oficial a renúncia do Santo Padre, o Papa Bento XVI, ao Ministério Petrino de Bispo de Roma. A partir deste momento, a Igreja entra no período de Sede Vacante (expressão latina para “cadeira vazia”), durante o qual algumas orientações litúrgicas devem ser observadas.


A menção do nome do Papa na Oração Eucarística
A intercessão pela Igreja na Oração Eucarística busca estabelecer uma comunhão com a Igreja Universal, rezando-se pelo Bispo de Roma, e com a Igreja particular, rezando pelo Bispo Diocesano.

Embora o Missal Romano utilizado atualmente não mencione abertamente o caso da Sede Vacante, no Missale Romanum de 1962, ainda vigente para a Forma Extraordinária, a questão apresenta-se muito clara: omite-se a memória do Papa.

Não se deve rezar pelo Colégio dos Cardeais ou pelo Camerlengo, porque nenhum deles governa de fato a Igreja de Roma, apenas a administram até a eleição do novo Papa. Portanto, omitimos a oração pelo Papa e rezamos única e exclusivamente pelo Bispo Diocesano.

Assim, as Orações Eucarísticas I a IV (utilizadas em todo o mundo) são rezadas a partir do dia 28 da seguinte forma:

Oração Eucarística I (Cânon Romano): “Nós as oferecemos também por nosso bispo N. e por todos os que guardam a fé que receberam dos Apóstolos”.

Oração Eucarística II: “Lembrai-vos, ó Pai, da vossa Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro: que ela cresça na caridade com o nosso bispo N. e todos os ministros do vosso povo”.

Oração Eucarística III: Confirmai na fé e na caridade a vossa Igreja, enquanto caminha neste mundo: o nosso bispo N. com os bispos do mundo inteiro, o clero e todo o povo que conquistastes”.

Oração Eucarística IV: “E agora, ó Pai, lembrai-vos de todos pelos quais vos oferecemos este sacrifício: o nosso bispo N., os bispos do mundo inteiro, os presbíteros e todos os ministros, os fiéis que, em torno deste altar, vos oferecem este sacrifício, o povo que vos pertence e todos aqueles que vos procuram de coração sincero”.

No caso da diocese de Roma (na qual o Bispo Diocesano é o próprio Papa) e de alguma diocese que porventura esteja igualmente vacante, omitem-se as duas invocações: a do Papa e a do Bispo Diocesano:

Oração Eucarística I (Cânon Romano): “Nós as oferecemos também todos os que guardam a fé que receberam dos Apóstolos”.

Oração Eucarística II: “Lembrai-vos, ó Pai, da vossa Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro: que ela cresça na caridade com todos os ministros do vosso povo”.

Oração Eucarística III: Confirmai na fé e na caridade a vossa Igreja, enquanto caminham neste mundo os bispos do mundo inteiro, o clero e todo o povo que conquistastes”.

Oração Eucarística IV: “E agora, ó Pai, lembrai-vos de todos pelos quais vos oferecemos este sacrifício: os bispos do mundo inteiro, os presbíteros e todos os ministros, os fiéis que, em torno deste altar, vos oferecem este sacrifício, o povo que vos pertence e todos aqueles que vos procuram de coração sincero”.

Ao ser eleito um novo Papa, seu nome passa a ser invocado na Oração Eucarística a partir do momento do seu anúncio público, feito pelo Cardeal Protodiácono.


Durante todo o período de Sede Vacante, o nome do Papa é omitido igualmente na Bênção do Santíssimo Sacramento, na oração pela Igreja e pela pátria:

Deus e Senhor nosso, protegei a vossa Igreja, dai-lhe santos pastores e dignos ministros. Derramai as vossas bênçãos sobre o nosso (Arce)Bispo (e seu Bispo Auxiliar/ Bispos Auxiliares)...”

Se porventura na Sexta-feira da Semana Santa a Sé ainda estiver vacante, omite-se na Oração Universal da Ação Litúrgica da Paixão a segunda invocação: pelo Papa.

A Missa “pela eleição do Papa”
No Missal Romano, dentre as Missas para diversas necessidades, há um formulário intitulado “Para a eleição do Papa ou Bispo”. Esta Missa é chamada em latim de “Pro eligendo Romano Pontifice” e é sempre celebrada pelo Decano do Colégio dos Cardeais imediatamente antes do início do conclave.


Em nossas comunidades, é vivamente recomendado que se celebre a Santa Missa utilizando-se deste formulário, uma ou mais vezes, durante a Sede Vacante. Contudo, para esta celebração deve-se observar as normas litúrgicas do Calendário Romano:

Proibida: Nas solenidades, nos domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa, na Oitava Pascal, na Comemoração dos Fieis Defuntos, na Quarta-feira de Cinzas e na Semana Santa.

Permitida apenas com autorização do Bispo Diocesano: Nos domingos do Natal e do Tempo Comum, nas festas, nos dias de semana do Advento de 17 a 24 de Dezembro, na oitava do Natal e nos dias de semana da Quaresma.

Permitida, a juízo do sacerdote: Nas memórias obrigatórias, nos dias de semana do Advento até 16 de Dezembro, nos dias de semana do tempo do Natal e do Tempo Pascal.

Sempre permitida: Nos dias de semana do Tempo Comum.

Como estamos no tempo litúrgico da Quaresma, a Missa pela eleição do Papa só pode ser celebrada nos dias de semana, com autorização do Bispo Diocesano. Não obstante, podemos utilizar seu rico formulário para nossa oração pessoal ou para uma intenção da Oração dos Fieis:

Antífona de entrada (1 Sm 2, 35)
Farei surgir um sacerdote fiel, que agirá segundo o meu coração e minha vontade. Eu lhe darei uma casa que permaneça para sempre e ele caminhará na minha presença todos os dias.

Oração do dia
Ó Deus, pastor eternos, que governais o vosso rebanho com solicitude constante, no vosso amor de Pai concedei à Igreja um pastor que vos agrade pela virtude e que vele solícito sobre nós. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Sobre as oferendas
Ó Deus, sede compassivo para conosco, e dai-nos, pelas oferendas que vos apresentamos, a alegria de ver à frente de vossa Igreja um pastor do vosso agrado. Por Cristo, nosso Senhor.

Antífona da comunhão (Jo 15, 16)
Fui eu que vos escolhi e enviei para produzirdes fruto, e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.

Depois da comunhão
Refeitos, ó Deus, pelo sacramento do corpo e do sangue de vosso Filho, dai-nos a alegria de possuir um pastor que dirija o vosso povo no caminho da virtude e faça penetrar em seu coração a verdade do evangelho. Por Cristo, nosso Senhor.

Para saber mais, ouça a vídeo-aula do Pe. Paulo Ricardo:


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

“Espero a ressureição dos mortos, e a vida do mundo que há de vir”
(Símbolo Niceno-Constantinopolitano)

A Comemoração de todos os Fiéis Defuntos, popularmente chamada “Dia de Finados”, celebra-se no dia 02 de novembro. Neste dia a Igreja peregrina sobre a terra implora o auxílio espiritual a todos os seus filhos que adormeceram em Cristo e inspira aos vivos consolo e esperança.

Esta celebração deve revestir-se de sobriedade: não se ornamenta o altar com flores e os instrumentos devem apenas sustentar o canto. Não obstante, permite-se o uso do incenso e o altar pode ser ornado com quatro ou mesmo seis velas.

Não apenas para esta Missa, mas para todas as Missas pelos fiéis defuntos, os paramentos são roxos ou pretos. Excetuam-se as missas por crianças falecidas já batizadas, cujos paramentos são brancos. Infelizmente, após a reforma conciliar, o preto caiu em desuso, mas nunca foi abolido. Antes, deve ser motivado seu uso, repleto de sentido.

D. Keller com paramentos pretos (2011)
A Missa celebra-se como de costume, omitidos o Glória e o Creio e utilizando-se um dos três formulários de orações próprios para este dia. As leituras escolhem-se dentre aquelas propostas no Lecionário.

Nos cemitérios e em igrejas nas quais estão sepultados corpos de defuntos, pode-se fazer a bênção das sepulturas, conforme o rito proposto no Cerimonial dos Bispos. Cumpre notar que este rito não pode realizar-se se nos túmulos não estão presentes corpos de defuntos.

Após a Oração pós-comunhão, o sacerdote faz uma breve monição, explicando o sentido do rito da aspersão dos sepulcros. Pode-se utilizar a proposta no Ritual de Exéquias:

Irmãos e irmãs, para o Apóstolo Paulo, o túmulo é como uma sementeira: coloca-se nele um corpo corruptível e ressuscitará um corpo glorioso. Oremos pedindo a Deus que abençoe estas sepulturas.

Após alguns instantes de silêncio, o sacerdote recita a oração da bênção, proposta no Ritual das Exéquias:

Senhor Jesus Cristo, permanecendo três dias no sepulcro, santificastes os túmulos dos que creem em vós, para lhes aumentar a esperança da ressurreição. Concedei, misericordioso, que os corpos destes vossos filhos descansem em paz nestes sepulcros, até que vós, que sois a ressurreição e a vida, os ressusciteis, para que possam contemplar, no esplendor de vossa glória, a luz eterna no céu. Vós que sois Deus, com o Pai, na unidade do Espírito Santo. Amém.
Cristo que ressuscitou como primogênito dentre os mortos, transformará os corpos destes nossos irmãos à imagem de seu corpo glorioso. O Senhor os receba na sua paz e lhes conceda a ressurreição no último dia.

Em seguida, o sacerdote passa aspergindo os túmulos (se for oportuno pode também incensá-los), enquanto se canta um canto apropriado. A celebração encerra-se com a bênção própria para as Missas dos Defuntos e a despedida. 


A todos os fiéis que, no período de 01 a 08 de novembro, visitarem um cemitério e rezarem, ainda que mentalmente, pelos defuntos, concede-se a Indulgência Plenária, neste caso só aplicável aos defuntos. Recordem-se porém as disposições para receber a indulgência: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Papa (Pai nosso, Ave Maria e Glória).

Para saber mais sobre a história desta comemoração, clique aqui.

Seguem um vídeo do Pe. Paulo Ricardo ressaltando a importância da cor preta:


terça-feira, 26 de junho de 2012

Entrevista do Pe. Paulo Ricardo ao Salvem a Liturgia

Aproveitando a última postagem, com a entrevista de Dom Antonio Keller (Bispo de Frederico Westphalen-RS), postamos agora a entrevista do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, da Diocese de Cuiabá, igualmente ao blog Salvem a Liturgia. Padre Paulo Ricardo se destaca nos meios de comunicação com suas palestras esclarecendo temas da fé e, aqui, em defesa da Sagrada Liturgia.

1. Como V. Revma vê hoje a questão da Liturgia no Brasil e no mundo?

Nós estamos vivendo uma fase nova na história da Liturgia. Nós tivemos durante todo o século 20 um movimento litúrgico extraordinário de retorno as fontes; um progresso imenso no estudo da liturgia. Depois, com execução da Reforma Litúrgica do vaticano II, houve infelizmente uma aplicação muito errada da Reforma. Ela foi, de certa forma, positiva, mas muito mal aplicada. Agora vivemos uma terceira fase: a fase em que retomamos aquilo que poderíamos chamar de o “bonde perdido", retomamos o "trem perdido". Nós estávamos no movimento litúrgico, que foi interrompido por um processo revolucionário da década de 70 e 80, e agora estamos retomando aquele processo litúrgico anterior, para colher os frutos de um verdadeiro movimento litúrgico. É isso que o Papa Bento XVI, pelo menos espera colocar em ato, e aquilo que ele prevê no seu livro "introdução ao Espírito da Liturgia".

2. O saudoso Papa João Paulo II, na sua encíclica Ecclesia de Eucharistia, falava de "sombras" no modo com a Santa Missa é celebrada. Como interpretar essa expressão?
A meu ver essa sombras são exatamente isso: são frutos da má aplicação da Reforma Litúrgica. Nós vemos que, de alguma forma, entrou dentro do processo litúrgico da Igreja Católica uma mentalidade estranha e alheia a Igreja, que nós poderíamos chamar de mentalidade revolucionária, onde as pessoas fazem a Liturgia subjetiva, a partir dos seus gostos, de suas veleidades subjetivas. O Papa alerta para isso, e é necessário então nós retornarmos a forma tradicional da Igreja celebrar a Liturgia, mesmo que tenhamos os ritos litúrgicos do Vaticano II. Mas a Reforma Litúrgica do Vaticano II deve ser executada em sintonia com a tradição de 20 séculos.

3. Qual a importância do latim na celebração litúrgica? E do canto gregoriano?
A Liturgia só tem sentido quando ela é recebida do passado. Nós precisamos compreender que um rito litúrgico é algo recebido da tradição, recebido dos nossos pais. E é essa a importância do latim e do canto gregoriano. Ao se fazer orações em latim na Liturgia e ao se cantar cantos que foram cantados por gerações e gerações de cristãos antes de nós, nós tomando a consciência de que estamos vivendo algo que não foi inventado por nós, mas que nos une a uma multidão de santos e santas que viveram antes de nós, e que santificarem com aqueles textos e com aqueles cantos; se eles chegaram a se salvar e estar junto de Deus, também nós podemos fazer.

4. É possível resgatar um uso mais regular da língua latina mesmo na forma ordinária do Rito Romano, ou seja, na forma aprova pelo Papa Paulo VI? Como dar os passos para isso?
Não somente é possível como é desejável. Aliás, o próprio Papa Paulo VI e o Concílio Vaticano II sua constituição Sacrosanctum Concilium pediam isso: que os fiéis soubessem recitar e cantar orações em latim e usando o canto gregoriano. Agora, é evidente que tudo isso pode e deve ser feito dentro um processo, de um movimento gradual. Eu costumo sempre dizer que eu odeio tanto revoluções que as rejeito até quando elas são a meu favor. Uma revolução que de repente coloque tudo em latim e em gregoriano seria tão detestável quando a revolução da qual nós estamos querendo nos livrar. O povo de Deus não se move por decreto. O povo de Deus deve ser respeitado e educado lenta e gradualmente, trazido para a plenitude da fé católica e da beleza da Liturgia Católica, porque do contrário seria violentar o povo.

5. Quanto a Santa Missa “orientada” ou celebrada em “Versus Deum” (“Voltados para Deus”, isto é, com sacerdotes e fiéis voltados para a mesma direção), que o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, recomenda que se faça no seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”: essa disposição pode ser utilizada mesmo na forma do Rito Romano aprovada pelo Papa Paulo VI? Qual o seu significado?”
Na verdade as rubricas do Missal aprovado por Paulo VI foram escritas pensando nas duas possibilidades: a Missa voltada para o povo ou a Missa voltada para Deus (também chamada de Missa orientada, já que as Igrejas eram construídas de tal forma que o sacerdote pudesse celebrar voltado para o lugar onde nasce o sol). Muita gente fala da Missa voltada para o povo como sendo uma das “conquistas” do Vaticano II. A verdade é que os documentos do Concílio nem tratam do assunto.
A Missa voltada para o povo foi uma adaptação introduzida pelos padres alemães que celebravam assim em seus acampamentos com jovens e escoteiros. Isto que era uma situação completamente excepcional tornou-se regra quando da implantação da Reforma Litúrgica.
Na minha opinião a Missa voltada para o povo não tem nenhum fundamento teológico, psicológico ou pastoral, se considerarmos a verdadeira natureza da Missa. Sendo assim, a situação atual rompe completamente com a tradição de dois mil anos. Não há nenhum outro Rito Litúrgico que tenha este tipo de prática.
A Missa orientada tem a importante “missão” de tirar o sacerdote e colocar Deus no centro da celebração. Todos voltados para a mesma direção, sacerdote e assembleia, dirigem-se como Igreja para Deus e oferecem a ele o Divino Sacrifício Eucarístico.
O que fazer então? Segundo o Papa Bento XVI, no livro que você citou, a caminho de retorno, sem que o povo sofra violências, é colocar a cruz de volta no centro do altar. Desta forma o sacerdote celebrante pode olhar claramente para o Crucificado durante a Liturgia Eucarística e não dar ao povo a errada impressão de que está falando com a assembleia.