quarta-feira, 18 de março de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Solenidade de São José (2001)

Há 25 anos, no dia 19 de março de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade de São José, Esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, durante a qual conferiu a Ordenação Episcopal a nove Bispos. Confira sua homilia na ocasião:

Solenidade de São José
Concelebração Eucarística para a Ordenação de nove Bispos
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Segunda-feira, 19 de março de 2001

1. «Eis o servo fiel e prudente, a quem o Senhor confiou a sua família» (cf. Lc 12,42).
Assim a Liturgia de hoje nos apresenta São José, Esposo da Bem-aventurada Virgem Maria e Guardião do Redentor. Ele, servo fiel e prudente, acolheu com obediente docilidade a vontade do Senhor, que lhe confiou a “sua” família na terra, para que cuidasse dela com dedicação quotidiana.

São José perseverou nessa missão com fidelidade e amor. Por isso a Igreja o indica como singular modelo de serviço a Cristo e ao seu misterioso desígnio de salvação. E o invoca como especial padroeiro e protetor de toda a família dos que creem. De modo especial, José é indicado hoje, no dia da sua festa, como o Santo sob cujo eficaz patrocínio a Providência divina quis pôr as pessoas e o ministério dos que são chamados a ser “pais” e “guardiões” no âmbito do povo cristão.


2. «Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura» - «Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?» (Lc 2,48-49).
Neste diálogo simples e familiar entre a Mãe e o Filho, que ouvimos há pouco no Evangelho, encontram-se as coordenadas da santidade de José. Elas correspondem ao desígnio divino sobre ele, que, homem justo que era, ele soube realizar com admirável fidelidade.

«Teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura», diz Maria. «Devo estar na casa de meu Pai», responde Jesus. São precisamente estas palavras do Filho que nos ajudam a compreender o mistério da “paternidade” de José. Recordando aos pais o primado d’Aquele que chama “meu Pai”, Jesus revela a verdade do papel tanto de Maria como de José. Ele é verdadeiramente “esposo” de Maria e “pai” de Jesus, como ela afirma quando diz: «Teu pai e eu estávamos à tua procura». Mas a sua esponsalidade e a sua paternidade são totalmente relativas às de Deus. Eis o modo como José de Nazaré é chamado a se tornar, por sua vez, discípulo de Jesus: dedicando a existência ao serviço do Filho Unigênito do Pai e da Virgem Mãe, Maria.

Nota de falecimento: Patriarca Ilia II da Geórgia

Faleceu na terça-feira, 17 de março de 2026, aos 93 anos, o Patriarca Ilia II (Elias II) da Igreja Ortodoxa da Geórgia.


Irakli Ghudushauri-Shiolashvili (ირაკლი ღუდუშაური-შიოლაშვილი) nasceu no dia 04 de janeiro de 1933 em Vladikavkaz, (Rússia). Após concluir seus estudos na Academia Teológica de Moscou, professou os votos monásticos em 16 de abril de 1957, assumindo o nome religioso de Ilia (Elias).

Recebeu a Ordenação Diaconal no dia 18 de abril de 1957 e a Ordenação Presbiteral no dia 10 de maio de 1959. Após a Ordenação foi para a Geórgia, sendo designado para a Catedral de São Nicolau em Batumi.

No dia 25 de agosto de 1963 recebeu a Ordenação Episcopal, sendo nomeado Vigário Patriarcal e Bispo de Shemokmedi. No ano seguinte foi nomeado também como reitor do Seminário Teológico de Mtskheta, ofício que exerceu até 1972.

De 1964 a 1977, ademais, o Bispo Ilia coordenou o Departamento de Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Georgiana, responsável por garantir que as demais Igrejas Ortodoxas reconhecessem sua autocefalia, concedida pela Igreja Ortodoxa Russa em 1917 e confirmada em 1943 (objetivo que só seria alcançado plenamente em 1990).


No dia 01 de setembro de 1967 foi transferido como Bispo da Eparquia de Sukhum-Abkhazia, sendo “promovido” a Metropolita no dia 17 de maio de 1969.

Após a morte do Patriarca David V, no dia 23 de dezembro de 1977 o Metropolita Ilia foi eleito como novo hierarca da Igreja Ortodoxa Georgiana, como o título de Ilia II (ილია II), Catholicos-Patriarca de toda a Geórgia e Arcebispo de Mtskheta e Tbilisi. Sua entronização na Catedral de Svetitskhoveli em Mtskheta teve lugar no dia 25 de dezembro.

Em junho de 1980 Ilia II realizou uma visita ao Papa João Paulo II (†2005), tornando-se o primeiro Patriarca georgiano a se encontrar com o Bispo de Roma. Nos anos seguintes o Patriarca acolheria os dois Papas que visitaram a Geórgia: o mesmo João Paulo II em novembro de 1999 e Francisco (2025) entre setembro e outubro de 2016.

Ilia II guiou o povo nos últimos anos de controle soviético sobre a Geórgia. Nesse período também supervisionou a publicação de uma versão atualizada da Bíblia em língua georgiana.

Faleceu no dia 17 de março de 2026 em um hospital de Tbilisi (Geórgia). Com 93 anos, era o mais velho dos hierarcas das Igrejas Ortodoxas Bizantinas e aquele que exercia a mais tempo o seu ministério (48 anos).


Concede, ó Salvador nosso, o repouso às almas dos teus servos, com os justos que alcançaram a perfeição, guarda-os contigo, na vida divina, no lugar do teu repouso, Senhor, onde descansam os teus santos
(Da Liturgia Bizantina pelos falecidos)

Para saber mais sobre as Igrejas Ortodoxas Bizantinas, clique aqui

Catequeses do Jubileu 2025: Páscoa de Jesus 2

Prosseguindo com as reflexões do Papa Leão XIV sobre a Páscoa de Jesus dentro do ciclo de Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos nesta postagem suas meditações sobre o perdão (Jo 13,1-2.26-31) e a entrega (Jo 18,1-8):

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.3. A Páscoa de Jesus: O perdão (Jo 13,1-2.26-31)

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje refletimos sobre um dos gestos mais comoventes e luminosos do Evangelho: o momento em que Jesus, durante a Última Ceia, oferece um pedaço de pão àquele que está prestes a traí-lo. Não é apenas de um gesto de partilha, é muito mais: é a última tentativa do amor de não se render.

Com a sua profunda sensibilidade espiritual, São João narra assim aquele instante: durante a Ceia, quando «o Diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus», Ele «sabia que tinha chegado a sua hora... tendo amado os seus... amou-os até o fim» (Jo 13,1-2). Amar até o fim: eis a chave para compreender o coração de Cristo. Um amor que não se detém diante da rejeição, da decepção, nem mesmo da ingratidão.

Última Ceia (Gerbrand van den Eeckhout)

Jesus conhece a hora, mas não a padece: a escolhe. É Ele que reconhece o momento em que o seu amor deverá passar através da ferida mais dolorosa, a da traição. E, em vez de recuar, de acusar, de se defender... continua a amar: lava os pés, molha o pão e o oferece.

«É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho» (Jo 13,26). Com este gesto simples e humilde, Jesus leva adiante e a fundo o seu amor. Não porque ignora o que acontece, mas precisamente porque vê com clareza. Ele compreendeu que a liberdade do outro, até quando se perde no mal, ainda pode ser alcançada pela luz de um gesto manso. Porque sabe que o verdadeiro perdão não espera pelo arrependimento, mas se oferece primeiro, como dom gratuito, antes ainda de ser acolhido.

terça-feira, 17 de março de 2026

Ângelus: IV Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 15 de março de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho deste IV Domingo da Quaresma narra a cura de um homem cego de nascença (Jo 9,1-41). Por meio da simbologia desse episódio, o evangelista João nos fala do mistério da salvação: enquanto estávamos na escuridão e a humanidade caminhava nas trevas (cf. Is 9,1), Deus enviou o seu Filho como luz do mundo, para abrir os olhos dos cegos e iluminar a nossa vida.

Os profetas haviam anunciado que o Messias abriria os olhos dos cegos (cf. Is 29,18; 35,5; Sl 145,8). O próprio Jesus confirma a sua missão mostrando que «os cegos veem» (Mt 11,5), e apresenta-se dizendo: «Eu sou a luz do mundo» (Jo 8,12). Com efeito, todos podemos dizer que somos “cegos de nascença”, pois não conseguimos, por nós mesmos, ver em profundidade o mistério da vida. Por isso, Deus se encarnou em Jesus, para que o barro da nossa humanidade, misturado com o sopro da sua graça, pudesse receber uma nova luz, capaz de nos fazer ver finalmente a nós mesmos, aos outros e a Deus na verdade.

Chama a atenção que tenha se difundido, ao longo dos séculos, a opinião, ainda hoje presente, de que a fé seria uma espécie de “salto no escuro”, uma renúncia ao pensamento, de modo que ter fé significaria acreditar “cegamente”. Pelo contrário, o Evangelho nos diz que, ao entrar em contato com Cristo, os olhos se abrem, a tal ponto que as autoridades religiosas perguntam com insistência ao cego curado: «Como é que se abriram os teus olhos?» (Jo 9,10); e ainda: «Como Ele te abriu os olhos?» (v. 26).

Irmãos e irmãs, também nós, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um Cristianismo “de olhos abertos”. A fé não é um ato cego, uma renúncia à razão, um refúgio em alguma certeza religiosa que nos faz desviar o olhar do mundo. Em vez disso, a fé ajuda-nos a olhar «a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver» (Encíclica Lumen fidei, n. 18) e, por isso, nos pede que “abramos os olhos”, como Ele fazia, sobretudo para os sofrimentos dos outros e para as feridas do mundo.

Hoje, em particular, diante das inúmeras questões que o coração humano se coloca e das dramáticas situações de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, é necessária uma fé vigilante, atenta e profética, que abra os nossos olhos para as trevas do mundo e lhe traga a luz do Evangelho através de um comprometimento com a paz, a justiça e a solidariedade.

Peçamos à Virgem Maria que interceda por nós, para que a luz de Cristo abra os olhos do nosso coração e possamos dar testemunho d’Ele com simplicidade e coragem.

Cura do cego de nascença
(Mosteiro de São Dionísio, Grécia)

Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Missa do III Domingo da Quaresma em Roma (2026)

Na tarde do dia 08 de março de 2026 o Papa Leão XIV celebrou a Missa do III Domingo da Quaresma (Ano A) durante a Visita Pastoral à Paróquia de Santa Maria da Apresentação (Santa Maria della Presentazione).

Essa foi a quarta de cinco Visitas Pastorais realizadas pelo Papa a Paróquias da Diocese de Roma, uma de cada Setor Pastoral. A Paróquia da Apresentação de Maria, no bairro de Torrevecchia, corresponde ao Setor Oeste.

Leão XIV foi assistido por Dom Diego Giovanni Ravelli.

Procissão de entrada
Liturgia da Palavra
Evangelho
Bênção com o Livro dos Evangelhos
Homilia

Homilia do Papa: III Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Visita Pastoral
Homilia do Papa Leão XIV
Paróquia de Santa Maria da Apresentação (Roma)
Domingo, 08 de março de 2026

Foi celebrada a Missa do III Domingo da Quaresma (Ano A).

Caríssimos irmãos e irmãs,
Estou feliz por me encontrar convosco neste III Domingo da Quaresma. É uma etapa importante no nosso seguimento de Jesus até a sua Páscoa de Paixão, Morte e Ressurreição.

Nesse itinerário, a proximidade de Deus e a nossa vida de fé estão profundamente interligadas: renovando em cada um a graça do Batismo, o Senhor nos chama à conversão, ao mesmo tempo em que purifica o nosso coração com o seu amor e com as obras de caridade que nos propõe realizar. A esse respeito, o encontro entre Jesus e a samaritana envolve-nos com grande intensidade. Com efeito, além de falar a nós, o Evangelho de hoje fala de nós, ajudando-nos a rever a nossa relação com Deus.


A sede de vida e de amor da samaritana é a nossa sede: a da Igreja e de toda a humanidade, ferida pelo pecado, mas ainda mais intimamente habitada pelo desejo de Deus. Nós o procuramos como a água, até quando não nos damos conta, sempre que nos interrogamos sobre o sentido dos acontecimentos, sempre que sentimos a falta do bem que desejamos para nós e para quantos estão ao nosso lado.

Nessa busca, encontramos Jesus. Ele já está lá, junto ao poço, onde a samaritana o encontra sozinho, sob o sol do meio-dia, cansado da viagem. A mulher vai ao poço àquela hora incomum, talvez para evitar os olhares carregados de preconceitos das outras mulheres. Jesus lê no seu coração o motivo dessa marginalização: os seus casamentos falidos e a sua atual convivência a tornam indigna de acompanhar as filhas, as esposas e as mães da aldeia. No entanto, Jesus senta-se junto ao poço como se estivesse à sua espera. Esse encontro surpreendente constitui uma das maneiras com que, como o Papa Francisco gostava de repetir, Cristo revela o Deus das surpresas: as mais belas, aquelas que mudam a vida, onde quer que sejam encontradas e independentemente do modo como elas se apresentam diante do Senhor!

quarta-feira, 11 de março de 2026

Renúncia do Patriarca da Igreja Católica Caldeia

Na terça-feira, 10 de março de 2026, o Papa Leão XIV acolheu a renúncia do Cardeal Louis Raphaël I Sako (77 anos) ao ofício de Patriarca de Bagdá dos Caldeus e hierarca da Igreja Católica Caldeia, uma das Igrejas Católicas Orientais.


Louis Sako nasceu em 04 de julho de 1948 em Zakho (Iraque). Recebeu a Ordenação Presbiteral no dia 01 de junho de 1974, sendo incardinado na Arquieparquia de Mossul dos Caldeus. Após sua Ordenação trabalhou na Catedral de Mossul.

Entre 1979 e 1986 obteve o Doutorado em Patrologia Oriental no Pontifício Instituto Oriental em Roma e o Doutorado em História (com ênfase em Estudos Islâmicos) na Universidade Sorbonne de Paris.

De volta ao Iraque, serviu como Pároco da Paróquia do Perpétuo Socorro em Mossul (1986-1997; 2002-2003) e Reitor do Seminário Patriarcal da Igreja Católica Caldeia em Bagdá (1997-2002).

No dia 27 de setembro de 2003 o Papa João Paulo II (†2005) confirmou a decisão do Sínodo da Igreja Católica Caldeia que nomeava o Padre Louis Sako como Arcebispo da Metropolia de Kirkuk dos Caldeus. Recebeu a Ordenação Episcopal no dia 14 de novembro do mesmo ano.

Após a renúncia do Cardeal Emmanuel III Delly (†2014), Dom Louis Sako foi eleito pelo Sínodo como Patriarca de Babilônia dos Caldeus em 31 de janeiro de 2013, assumindo o nome de Louis Raphaël I Sako. O Papa Bento XVI (†2022) confirmou sua eleição no dia seguinte. Tomou posse na Catedral de São José em Bagdá no dia 06 de março de 2013.


Foi criado Cardeal pelo Papa Francisco (†2025) no Consistório de 28 de junho de 2018, com o título de Cardeal Bispo de Babilônia dos Caldeus. Em março de 2021 acolheu o mesmo Papa Francisco durante sua undefined.

No dia 19 de fevereiro de 2022 o nome do Patriarcado foi mudado de “Babilônia” para “Badgá”, de modo que o Cardeal Sako passou a ser nomeado como Patriarca de Bagdá dos Caldeus.

Em maio de 2025 participou do Conclave para a eleição do Papa Leão XIV.

No dia 10 de março de 2026 o mesmo Papa Leão XIV acolheu sua renúncia ao ofício de Patriarca de Bagdá dos Caldeus. Cabe agora ao Sínodo da Igreja Católica Caldeia (formado pelos Bispos dessa Igreja sui iuris) eleger o novo Patriarca, que em seguida deverá ser confirmado pelo Papa.

A Igreja Católica Caldeia conta com cerca de 600 mil fiéis. Utiliza o Rito Siríaco Oriental ou Caldeu. As outras comunidades que utilizam esse Rito são a Igreja Sírio-Malabar, outra das Igrejas Católicas Orientais, com sede em Kerala (Índia), e a Igreja Assíria do Oriente, uma das Igrejas Ortodoxas Orientais, com sede em Erbil (Iraque).

Brasão do Cardeal Sako

Com informações do site da Santa Sé.

Catequeses do Jubileu 2025: Páscoa de Jesus 1

À medida que nos aproximamos do Tríduo Pascal, coração do Ano Litúrgico, damos continuidade à publicação das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”.

Confira nesta postagem as primeiras duas Catequeses sobre a Páscoa de Jesus: a preparação da Ceia (Mc 14,12-16) e a traição (Mc 14,18-21).

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 06 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.1. A Páscoa de Jesus: A preparação da ceia (Mc 14,12-16)

Queridos irmãos e irmãs,
Continuemos nosso caminho jubilar à descoberta do rosto de Cristo, no qual nossa esperança adquire toma e consistência. Hoje começamos a refletir sobre o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Comecemos meditando sobre uma palavra que parece simples, mas que guarda um segredo precioso da vida cristã: preparar.

O Evangelho de Marcos narra que «no primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?”» (Mc 14,12). É uma pergunta prática, mas também cheia de expectativa. Os discípulos intuem que está para acontecer algo importante, mas não conhecem os detalhes. A resposta de Jesus parece quase um enigma: «Ide à cidade. Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro» (v. 13). Os detalhes tornam-se simbólicos: um homem que carrega um jarro - gesto normalmente feminino naquela época -, uma sala no andar de cima já pronta, um dono de casa desconhecido. É como se cada coisa tivesse sido predisposta com antecedência. Com efeito, é exatamente assim. Nesse episódio o Evangelho nos revela que o amor não é fruto do acaso, mas de uma escolha consciente. Não se trata de uma simples reação, mas de uma decisão que requer preparação. Jesus não enfrenta a sua Paixão por fatalidade, mas por fidelidade a um caminho acolhido e percorrido com liberdade e cuidado. É isso que nos consola: saber que o dom da sua vida brota de uma intenção profunda, não de um impulso repentino.

Última Ceia (Nicolas Poussin)

Aquela “sala no andar de cima já pronta” nos diz que Deus nos precede sempre. Antes ainda de nos darmos conta de que precisamos de acolhida, o Senhor já preparou para nós um espaço onde nos reconhecermos e nos sentirmos seus amigos. No fundo, esse lugar é o nosso coração: uma “sala” que pode parecer vazia, mas que só espera ser reconhecida, preenchida e cuidada. Na realidade, a Páscoa que os discípulos devem preparar já está pronta no coração de Jesus. Foi Ele que pensou em tudo, dispôs tudo, decidiu tudo. No entanto, pede aos seus amigos que façam a sua parte. Isto nos ensina algo essencial para a nossa vida espiritual: a graça não elimina a nossa liberdade, mas a desperta. O dom de Deus não anula a nossa responsabilidade, mas a torna fecunda.

terça-feira, 10 de março de 2026

Ângelus: III Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 08 de março de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O diálogo entre Jesus e a samaritana, a cura do cego de nascença e a ressurreição de Lázaro, desde os primeiros séculos da história da Igreja, iluminam o caminho de quem, na Páscoa, receberá o Batismo e dará início a uma nova vida. Essas grandiosas passagens evangélicas, que lemos a partir deste domingo, são oferecidas aos catecúmenos e, ao mesmo tempo, são ouvidas novamente por toda a comunidade, pois ajudam a nos tornarmos cristãos ou, se já o somos, a sê-lo com mais autenticidade e alegria.

Jesus, na verdade, é a resposta de Deus à nossa sede. Como indica à samaritana, o encontro com Ele faz brotar no íntimo de todos uma «fonte de água que jorra para a vida eterna» (Jo 4,14). Ainda hoje, quantas pessoas, em todo o mundo, procuram esta fonte espiritual! A jovem Etty Hillesum escrevia em seu Diário: «Às vezes consigo alcançá-la, mas frequentemente ela está coberta por pedras e areia: Deus está, então, sepultado. É preciso, por isso, voltar a desenterrá-lo» (Etty Hillesum, Diário, Milão, 2012, 153). Caríssimos, não há energia melhor empregada do que aquela que dedicamos a libertar o coração. Por isso, a Quaresma é um dom: estamos entrando na III semana e podemos, portanto, intensificar o caminho!

No Evangelho também está escrito que «chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher» (v. 27). Sentem tanta dificuldade em aceitar a própria missão que o Mestre precisa desafiá-los: «Não dizeis vós: “Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!”. Pois Eu vos digo: Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita!» (v. 35). O Senhor diz também à sua Igreja: “Levanta os olhos e reconhece as surpresas de Deus!”. Quatro meses antes da colheita quase nada se vê nos campos. Mas onde nós não vemos nada, a Graça já está em ação e os frutos estão prontos para serem colhidos. A messe é grande: talvez os trabalhadores sejam poucos, porque distraídos em outras atividades. Jesus, porém, está atento. Segundo os costumes, Ele deveria simplesmente ignorar aquela mulher samaritana; mas, em vez disso, Jesus fala com ela, a escuta, lhe dá atenção, sem segundas intenções e sem desprezo.

Quantas pessoas procuram na Igreja esta mesma delicadeza, esta disponibilidade! E como é belo quando perdemos a noção do tempo para dar atenção àqueles que encontramos, tal como são. Jesus chegava a se esquecer de comer, de tal modo o alimentava a vontade divina de chegar a todos em profundidade (cf. v. 34). Assim, a samaritana torna-se a primeira de muitas evangelizadoras. Por causa do seu testemunho, a partir da sua aldeia de desprezados e rejeitados, muitos vão ao encontro de Jesus e também neles brota a fé como água pura.

Irmãos e irmãs, peçamos hoje a Maria, Mãe da Igreja, para podermos servir, com Jesus e como Jesus, a humanidade sedenta de verdade e justiça. Não é tempo de confrontos entre um templo e outro, entre o “nós” e os “outros”: os adoradores que Deus procura são homens e mulheres de paz, que o adoram em espírito e verdade (cf. vv. 23-24).

Cristo e a samaritana (Pierre Mignard)

Fonte: Santa Sé.

Confira também a Catequese do Papa sobre o encontro de Jesus com a samaritana no contexto do Jubileu Ordinário de 2025.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Domingo da Ortodoxia em Istambul (2026)

Neste ano de 2026 as Igrejas Orientais (Católicas e Ortodoxas), devido ao uso de distintos calendários, celebram a Páscoa no dia 12 de abril, uma semana após as comunidades de Rito Romano.

Por isso, no dia 01 de março de 2026 as Igrejas de Rito Bizantino celebraram o I Domingo da Grande Quaresma, conhecido como o “Domingo da Ortodoxia”.

Nesse Domingo se celebra o “triunfo da ortodoxia” (verdadeira fé) com a proclamação da doutrina da veneração das imagens (iconodulia) pelo II Concílio de Niceia (787), o sétimo e último Concílio Ecumênico reconhecido pelas Igrejas Ortodoxas Bizantinas. Por isso, mesmo sendo Quaresma, costumam ser usados paramentos brancos (festivos).

Na Catedral Patriarcal de São Jorge em Istambul (Turquia) a Divina Liturgia desse Domingo foi celebrada pelo Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, seguida da tradicional procissão com os ícones ao redor da igreja:

Litania da paz
Pequena Entrada
O Patriarca abençoa os fiéis

Incensação

quinta-feira, 5 de março de 2026

Missa do II Domingo da Quaresma em Roma (2026)

Na tarde do dia 01 de março de 2026 o Papa Leão XIV celebrou a Missa do II Domingo da Quaresma (Ano A) durante a Visita Pastoral à Paróquia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo no bairro do Quarticciolo (Ascensione di Nostro Signore Gesù Cristo al Quarticciolo).

Essa foi a terceira de cinco Visitas Pastorais realizadas pelo Papa a Paróquias da Diocese de Roma, uma de cada Setor Pastoral. A Paróquia do Quarticciolo, assistida pela Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos), corresponde ao Setor Leste.

Leão XIV foi assistido por Dom Diego Giovanni Ravelli.

Procissão de entrada
Incensação

Ritos iniciais
Liturgia da Palavra

Homilia do Papa: II Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Visita Pastoral
Homilia do Papa Leão XIV
Paróquia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Roma)
Domingo, 01 de março de 2026

Foi celebrada a Missa do II Domingo da Quaresma (Ano A).

Caríssimos irmãos e irmãs,
Estou feliz por me encontrar entre vós e poder ouvir convosco a Palavra de Deus, com toda a vossa comunidade paroquial. Este domingo coloca-nos diante da viagem de Abraão (Gn 12,1-4) e do acontecimento da Transfiguração de Jesus (Mt 17,1-9).

Com Abraão, cada um de nós pode reconhecer-se a caminho. A vida é uma viagem que exige confiança, exige fidelidade à Palavra de Deus que nos chama e que, às vezes, nos pede para deixar tudo. Podemos então ser tentados a evitar a precariedade como vertigem que perturba, enquanto é precisamente a partir do seu interior que podemos apreciar uma promessa de grandeza inesperada. Acontece todos os dias - porque o mundo raciocina assim - que medimos tudo, que nos esforçamos por controlar tudo. Mas, desta forma, perdemos a oportunidade de descobrir o verdadeiro tesouro, a pérola preciosa que Deus, surpreendentemente, escondeu no nosso campo, como nos ensina o Evangelho (cf. Mt 13, 44).


A viagem de Abraão começa com uma perda: a terra e a casa que conservam as memórias do seu passado. Mas ela se realizará em uma nova terra, em uma imensa descendência, onde tudo se transforma em bênção. Também nós, se nos deixarmos chamar pela fé ao caminho, a arriscar novas decisões de vida e de amor, deixaremos de ter medo de perder algo, pois sentiremos que crescemos em uma riqueza que ninguém pode roubar.

Também os discípulos de Jesus tiveram que enfrentar uma viagem, que os levaria a Jerusalém (cf. Lc 9,51). Lá, na Cidade santa, o Mestre cumpriria a sua missão, oferecendo a vida na cruz e tornando-se bênção para todos e para sempre. Sabemos com quanta resistência Pedro e todos os outros o seguiram! Mas deviam compreender que só podemos ser bênção superando o instinto de nos defendermos e acolhendo o que Jesus confia ao gesto eucarístico: a vontade de oferecer o próprio corpo como pão para comer, de viver e morrer para dar vida. Amados irmãos e irmãs, eis o domingo: é a pausa ao longo do caminho que nos reúne em volta de Jesus. Jesus encoraja-nos a não parar e a não mudar de rumo. Não há promessa maior, não há tesouro mais precioso do que viver para dar a vida!

quarta-feira, 4 de março de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Vida de Jesus 6

Concluindo as meditações sobre as “curas” e com elas a seção sobre a vida pública de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, o Papa refletiu sobre a hemorroíssa e a filha de Jairo (Mc 5,21-43) e sobre o homem surdo (Mc 7,31-37):

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 25 de junho de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.11. A vida de Jesus - As curas: A hemorroíssa e a filha de Jairo (Mc 5,21-43)

Queridos irmãos e irmãs,
Também hoje meditamos sobre as curas de Jesus como sinal de esperança. N’Ele há uma força que também nós podemos experimentar quando entramos em relação com a sua Pessoa.

Uma doença muito difundida no nosso tempo é o cansaço de viver: a realidade nos parece demasiado complexa, pesada, difícil de enfrentar. Então nos sentimos abatidos, adormecemos na ilusão de que quando acordarmos as coisas serão diferentes. Mas a realidade deve ser enfrentada e, com Jesus, podemos fazê-lo bem. Às vezes nos sentimos bloqueados pelo julgamento de quem pretende colocar rótulos nos outros.

Parece-me que estas situações podem encontrar correspondência em uma passagem do Evangelho de Marcos onde se entrelaçam duas histórias: a de uma menina de doze anos, que está doente na cama e prestes a morrer, e a de uma mulher que tem hemorragias há precisamente doze anos e procura Jesus para poder ser curada (cf. Mc 5,21-43).

Jesus e a mulher com hemorragia
(Catacumbas de Marcelino e Pedro, Roma)

Entre estas duas figuras femininas o evangelista coloca a figura do pai da menina: ele não permanece em casa lamentando-se pela doença da filha, mas sai e pede ajuda. Embora seja o chefe da sinagoga, não faz reivindicações em virtude da sua posição social. Quando é preciso esperar, não perde a paciência e aguarda. E quando vêm lhe dizer que a filha está morta e é inútil incomodar o Mestre, ele continua a ter fé e a esperar.

A conversa desse pai com Jesus é interrompida pela mulher hemorroíssa, que consegue aproximar-se de Jesus e tocar o seu manto (v. 27). Com grande coragem, esta mulher tomou a decisão que muda a sua vida: todos continuavam dizendo-lhe que se mantivesse à distância, que não se mostrasse. Tinham-na condenado a permanecer escondida e isolada. Às vezes também nós podemos ser vítimas do julgamento dos outros, que pretendem vestir-nos com uma roupa que não é nossa. E então nos sentimos mal e não conseguimos superar essa situação.

terça-feira, 3 de março de 2026

Ângelus: II Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 01 de março de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho da Liturgia de hoje (Mt 17,1-9) compõe para todos nós uma imagem cheia de luz, narrando a Transfiguração do Senhor. Para representá-la, o evangelista mergulha o seu pincel na memória dos Apóstolos, pintando Cristo entre Moisés e Elias. O Verbo feito homem está entre a Lei e a Profecia: ele é a Sabedoria viva, que leva a cumprimento toda a Palavra divina. Tudo o que Deus ordenou e inspirou aos homens encontra em Jesus a sua manifestação plena e definitiva.

Como no dia do Batismo no Jordão, também hoje ouvimos a voz do Pai, que proclama no monte: «Este é o meu Filho amado», enquanto o Espírito Santo envolve Jesus em uma «nuvem luminosa» (v. 5). Com esta expressão, verdadeiramente singular, o Evangelho descreve o estilo da revelação de Deus. Quando se manifesta, o Senhor revela a sua excelência aos nossos olhos: diante de Jesus, cujo rosto resplandece «como o sol» e cujas vestes se tornam «brancas como a luz» (v. 2), os discípulos admiram o esplendor humano de Deus. Pedro, Tiago e João contemplam uma glória humilde, que não se exibe como um espetáculo para as multidões, mas como uma solene confidência.

A Transfiguração antecipa a luz da Páscoa, evento de morte e de ressurreição, de trevas e de nova luz que Cristo irradia sobre todos os corpos flagelados pela violência, sobre os corpos crucificados pela dor, sobre os corpos abandonados na miséria. Com efeito, enquanto o mal reduz a nossa carne a uma mercadoria de troca ou a uma massa anônima, precisamente esta mesma carne resplandece da glória de Deus. O Redentor transfigura assim as chagas da história, iluminando a nossa mente e o nosso coração: a sua revelação é uma surpresa de salvação! Deixamo-nos fascinar por ela? O verdadeiro rosto de Deus encontra em nós um olhar de admiração e amor?

Ao desespero do ateísmo, o Pai responde com o dom do Filho Salvador; o Espírito Santo resgata-nos da solidão agnóstica, oferecendo uma comunhão eterna de vida e graça; diante da nossa fé fraca, está o anúncio da ressurreição futura: eis o que os discípulos viram no esplendor de Cristo, mas para compreendê-lo é preciso tempo (cf. v. 9). Tempo de silêncio para ouvir a Palavra, tempo de conversão para apreciar a companhia do Senhor.

Enquanto experimentamos tudo isto durante a Quaresma, peçamos a Maria, Mestra de oração e Estrela da manhã, que guarde os nossos passos na fé.

Transfiguração do Senhor (Andrei Mironov)

Fonte: Santa Sé.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

I Domingo da Quaresma em Milão (2026)

No Rito Ambrosiano, próprio da Arquidiocese de Milão (Itália), a Quaresma não tem início na Quarta-feira de Cinzas, como no Rito Romano, mas sim no I Domingo da Quaresma, o sexto antes da Páscoa. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história do Tempo da Quaresma.

No dia 22 de fevereiro de 2026, portanto, o Arcebispo de Milão, Dom Mario Enrico Delpini, celebrou a Missa do I Domingo da Quaresma na Catedral Metropolitana da Natividade da Virgem Maria, o Duomo de Milão.

Após a Missa teve lugar a bênção e a imposição das cinzas. No Rito Ambrosiano, com efeito, o rito das cinzas tem lugar no primeiro dia penitencial da Quaresma, isto é, na segunda-feira da I semana. Não obstante, por razões pastorais esse pode ser antecipado para o domingo, após a Missa. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Quarta-feira de Cinzas.

Procissão de entrada
Genuflexão
Incensação da cruz e do altar
Liturgia da Palavra
Homilia

Ângelus: I Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 22 de fevereiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Hoje, I Domingo da Quaresma, o Evangelho nos fala de Jesus que, conduzido pelo Espírito, vai para o deserto e é tentado pelo diabo (Mt 4,1-11). Depois de jejuar durante quarenta dias, sente o peso da sua humanidade: a fome, no plano físico, e as tentações do diabo, no plano espiritual. Ele experimenta o mesmo cansaço que todos nós vivenciamos no nosso caminho e, resistindo ao demônio, mostra-nos como vencer os seus enganos e insídias.

Com esta Palavra de vida, a Liturgia nos convida a olhar para a Quaresma como um itinerário luminoso no qual, com a oração, o jejum e a esmola, podemos renovar a nossa cooperação com o Senhor ao realizar a obra-prima única da nossa vida. Trata-se de permitir que Ele remova as manchas e cure as feridas que o pecado pode ter causado nela e de nos comprometermos em fazê-la florescer em toda a sua beleza até a plenitude do amor, fonte exclusiva da verdadeira felicidade.

Trata-se, sem dúvida, de um percurso exigente, e o risco é desanimarmos ou nos deixarmos seduzir por formas de gratificação menos árduas, como a riqueza, a fama e o poder (cf. Mt 4,3-8). Estas, que também foram as tentações que Jesus enfrentou, são, no entanto, apenas míseros substitutos da alegria para a qual fomos criados e, no final, deixam-nos inevitável e eternamente insatisfeitos, inquietos e vazios.

Por isso, São Paulo VI ensinava que a penitência, longe de empobrecer, enriquece a nossa humanidade, purificando-a e fortalecendo-a no seu movimento em direção a um horizonte que tem «como finalidade o amor e o abandono no Senhor» (Constituição Apostólica Paenitemini, 17 de fevereiro de 1966, I). Assim, ao mesmo tempo que nos torna conscientes das nossas limitações, a penitência nos dá a força para superá-las e, com a ajuda de Deus, viver uma comunhão cada vez mais intensa com Ele e entre nós.

Neste tempo de graça, pratiquemo-la generosamente, junto com a oração e as obras de misericórdia. Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que nos fala ao coração, e escutemo-nos uns aos outros, nas famílias, nos locais de trabalho, nas comunidades. Dediquemos tempo a quem vive sozinho, especialmente aos idosos, aos pobres e aos doentes. Renunciemos ao supérfluo e partilhemos o que pouparmos com quem carece do necessário. Então, como diz Santo Agostinho, «a nossa oração, feita com humildade e caridade, com jejum e esmola, com temperança e perdão, distribuindo coisas boas e não retribuindo na mesma moeda as más, afastando-nos do mal e fazendo o bem» (Sermão 206, 3), alcançará o Céu e nos dará paz.

Confiemos o nosso caminho quaresmal à Virgem Maria, Mãe que sempre assiste os seus filhos nas provações.

Jesus em oração no deserto
(Briton Rivière)

Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Missa do I Domingo da Quaresma em Roma (2026)

Na manhã do dia 22 de fevereiro de 2026 o Papa Leão XIV celebrou a Missa do I Domingo da Quaresma (Ano A) durante a Visita Pastoral à Paróquia do Sagrado Coração de Jesus a Castro Pretorio (Sacro Cuore di Gesù a Castro Pretorio).

Essa foi a segunda de cinco Visitas Pastorais realizadas pelo Papa a Paróquias da Diocese de Roma, uma de cada Setor Pastoral. A Basílica do Sagrado Coração de Jesus, assistida pelos Salesianos de Dom Bosco, corresponde ao Setor Centro [1].

O Papa foi assistido por Dom Diego Giovanni Ravelli.

Procissão de entrada


Ósculo do altar
Sinal da cruz

Homilia do Papa: I Domingo da Quaresma - Ano A (2026)

Visita Pastoral
Homilia do Papa Leão XIV
Paróquia do Sagrado Coração de Jesus a Castro Pretorio (Roma)
Domingo, 22 de fevereiro de 2026

Foi celebrada a Missa do I Domingo da Quaresma (Ano A).

Caríssimos irmãos e irmãs,
Há alguns dias, com o rito das Cinzas, demos início ao caminho quaresmal. A Quaresma é um tempo litúrgico intenso, que nos oferece a ocasião de redescobrir a riqueza do nosso Batismo, para viver como criaturas plenamente renovadas graças à Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus.

A 1ª Leitura e o Evangelho que ouvimos (Gn 2,7-9.3,1-7; Mt 4,1-11), em diálogo entre si, ajudam-nos a redescobrir precisamente o dom do Batismo como graça que encontra a nossa liberdade. A narração do Gênesis leva-nos à nossa condição de criaturas, postas à prova não tanto por uma proibição, como muitas vezes se pensa, mas por uma possibilidade: a possibilidade de uma relação. O ser humano é livre para reconhecer e aceitar a alteridade do Criador, que reconhece e aceita a alteridade das criaturas. Para impedir esta possibilidade, a serpente insinua a presunção de poder anular todas as diferenças entre as criaturas e o Criador, seduzindo o homem e a mulher com a ilusão de se tornarem como Deus. Satanás os impele a apoderar-se de algo que - diz assim - Deus queria negar-lhes para mantê-los sempre em condição de inferioridade. Este cenário do Gênesis é uma obra-prima insuperável, que representa o drama da liberdade.


O Evangelho parece responder ao antigo dilema: posso realizar a minha vida em plenitude, dizendo “sim” a Deus? Ou, para ser livre e feliz, devo me libertar d’Ele?

No fundo, a cena das tentações de Cristo aborda esta dramática interrogação. Leva-nos a descobrir a verdadeira humanidade de Jesus que, como ensina a Constituição conciliar Gaudium et spes, revela o homem a si mesmo: «O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado» (n. 22). Com efeito, vemos o Filho de Deus que, opondo-se às insídias do antigo Adversário, nos mostra o homem novo, o homem livre, epifania da liberdade que se realiza dizendo “sim” a Deus.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Memória da Coroação de Espinhos em Jerusalém (2026)

No dia 20 de fevereiro de 2026, Sexta-feira depois das Cinzas, o Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, celebrou a Missa na igreja do Ecce Homo em Jerusalém, a qual integra o Convento das Irmãs da Congregação de Nossa Senhora de Sião (Congrégation de Notre-Dame de Sion), por ocasião da Comemoração da Coroação de Espinhos de nosso Senhor Jesus Cristo

Essa celebração remonta a uma antiga série de Missas votivas em honra da Paixão a serem celebradas nas sextas-feiras da Quaresma. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a devoção aos instrumentos da Paixão (Arma Christi).

Para saber mais sobre a igreja do Ecce Homo, por sua vez, confira a respectiva postagem da série sobre as Missas votivas da Terra Santa.

Abside da igreja do Ecce Homo (Jerusalém)
Procissão de entrada

Incensação
Ritos iniciais

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Vida de Jesus 5

Após as reflexões sobre os “encontros” e sobre as “parábolas” dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, o Papa concluiu a seção sobre a vida pública de Jesus com quatro meditações sobre as “curas”.

Confira nesta postagem as Catequeses sobre Bartimeu (Mc 10,46-52) e sobre o paralítico da Piscina de Betesda (Jo 5,1-9).

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 11 de junho de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.9. A vida de Jesus - As curas: Bartimeu (Mc 10,46-52)

Queridos irmãos e irmãs,
Com esta Catequese gostaria de orientar o nosso olhar para outro aspecto essencial da vida de Jesus, isto é, as suas curas. Por isso, vos convido a colocar diante do Coração de Cristo as vossas partes mais dolorosas ou frágeis, aqueles lugares da vossa vida onde vos sentis parados e bloqueados. Peçamos ao Senhor com confiança que ouça o nosso grito e nos cure!

O personagem que nos acompanha nesta reflexão ajuda-nos a compreender que nunca devemos abandonar a esperança, mesmo quando nos sentimos perdidos. Trata-se de Bartimeu, um homem cego e mendigo, que Jesus encontrou em Jericó (cf. Mc 10,46-52). O lugar é significativo: Jesus está a caminho de Jerusalém, mas inicia a sua viagem, por assim dizer, a partir do “submundo” de Jericó, uma cidade abaixo do nível do mar. Com efeito, com a sua morte, Jesus foi recuperar aquele Adão que caiu e que representa cada um de nós.

Jesus e Bartimeu, o cego de Jericó

Bartimeu significa “filho de Timeu”: descreve esse homem através de uma relação, mas ele está dramaticamente só. No entanto, este nome poderia significar também “filho da honra”, ou “da admiração”, exatamente o oposto da situação em que se encontra (é a interpretação dada também por Santo Agostinho em O consenso dos evangelistas, 2, 65, 125: PL 34, 1138). E dado que o nome é tão importante na cultura judaica, significa que Bartimeu não consegue viver o que é chamado a ser.

Além disso, ao contrário do grande movimento de pessoas que caminham atrás de Jesus, Bartimeu está parado. O evangelista diz que está sentado à beira do caminho e, portanto, precisa de alguém que o levante e o ajude a retomar a estrada.