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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Fotos da Missa no Jubileu dos Corais (2025)

No dia 23 de novembro de 2025 o Papa Leão XIV presidiu a Missa da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo (Ano C) na Praça de São Pedro por ocasião do Jubileu dos Coros e dos Corais.

Nesse domingo também se celebrou a nível diocesano a 40ª Jornada Mundial da Juventude. Para ler a mensagem do Papa para a ocasião, clique aqui.

Leão XIV foi assistido por Dom Diego Giovanni Ravelli e pelo Monsenhor Ján Dubina. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Procissão de entrada

Incensação

Ritos iniciais

Homilia do Papa: Jubileu dos Corais (2025)

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo
Jubileu dos Coros e dos Corais
Homilia do Papa Leão XIV
Praça de São Pedro
Domingo, 23 de novembro de 2025

Queridos irmãos e irmãs,
No Salmo responsorial nós cantamos: «Com alegria vamos à casa do Senhor!» (cf. Sl 121). Por isso a Liturgia de hoje convida-nos a caminhar juntos no louvor e na alegria ao encontro do Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, Soberano manso e humilde, Aquele que é o princípio e o fim de todas as coisas. O seu poder é o amor, o seu trono é a Cruz e, por meio da Cruz, o seu Reino irradia-se sobre o mundo. «Da Cruz Ele reina» (cf. Hino Vexilla Regis) como Príncipe da paz e Rei de justiça que, na sua Paixão, revela ao mundo a imensa misericórdia do coração de Deus. Este amor é também a inspiração e o motivo do vosso canto.

Queridos coristas e músicos, hoje celebrais o vosso Jubileu e agradeceis ao Senhor por vos ter concedido o dom e a graça de servi-lo, oferecendo as vossas vozes e os vossos talentos para a sua glória e para a edificação espiritual dos irmãos (cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 120). A vossa responsabilidade é envolvê-los no louvor a Deus e torná-los mais participantes da ação litúrgica através do canto. Hoje expressais plenamente o vosso “iubilum”, a vossa exultação, que nasce do coração inundado pela alegria da graça.


As grandes civilizações nos deram a música para que pudéssemos expressar o que sentimos no fundo do coração e que nem sempre as palavras conseguem transmitir. Todos os sentimentos e emoções que nascem no nosso íntimo a partir de uma relação viva com a realidade podem encontrar voz na música. O canto, de modo particular, representa uma expressão natural e completa do ser humano: a mente, os sentimentos, o corpo e a alma se unem para comunicar as grandes coisas da vida. Como nos lembra Santo Agostinho: “Cantare amantis est” (cf. Sermão 336,1), ou seja, “o canto é próprio de quem ama”: quem canta expressa o amor, mas também a dor, a ternura e o desejo que habitam no seu coração e, ao mesmo tempo, ama aquele a quem dirige o seu canto (cf. Comentários aos Salmos 72,1).

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Discurso do Papa Leão XIV sobre a música sacra (2025)

Na tarde do dia 18 de junho de 2025 o Papa Leão XIV encontrou-se na Sala Régia do Palácio Apostólico com os participantes de um evento promovido pela Fundação Cardeal Domenico Bartolucci por ocasião dos 500 anos do nascimento de Giovanni Pierluigi da Palestrinagrande compositor italiano do Renascimento.

Após o lançamento de um selo comemorativo (com uma imagem realizada pelo pintor espanhol Raúl Berzosa) e uma apresentação musical, o Papa proferiu um breve discurso, destacando a figura de Palestrina e a importância da música sacra:

Papa Leão XIV
Discurso aos participantes do evento promovido pela Fundação Domenico Bartolucci no 500° aniversário do nascimento de Giovanni Pierluigi da Palestrina
Sala Régia do Palácio Apostólico
Quarta-feira, 18 de junho de 2025

Queridos irmãos e irmãs, boa tarde!
Depois de ter escutado estas vozes angelicais, quase seria melhor não falar e deixar-nos com esta belíssima experiência...

Gostaria de saudar Sua Eminência o Cardeal Dominique Mamberti, a Irmã Raffaella Petrini, os estimados Relatores e os ilustres convidados. Com alegria participo deste encontro no qual, com palavras e com música, celebramos a nova Emissão Filatélica promovida pela Fundação Bartolucci e realizada pelos Correios Vaticanos por ocasião do 5º Centenário de Palestrina.

Apresentação musical diante da Capela Paulina

Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594) foi, na história da Igreja, um dos compositores que mais contribuiu à promoção da música sacra, para «a glória de Deus e a santificação e edificação dos fiéis» (São Pio X, Motu proprio Tra le sollecitudini, 22 de novembro de 1903, n. 1), no contexto delicado e ao mesmo tempo apaixonante da Contrarreforma. As suas composições, solenes e austeras, inspiradas no canto gregoriano, unem estreitamente música e Liturgia, «quer dando mais doçura à oração e favorecendo maior harmonia, quer dando mais solenidade aos ritos sagrados» (Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 112).

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Sequência do Natal: Eia recolamus

“Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador” (Lc 2,11).

Há um ano, em dezembro de 2023, publicamos aqui em nosso blog um artigo sobre a sequência Grates nunc omnes para a Missa da Noite da Solenidade do Natal do Senhor.

Durante a Idade Média, com efeito, as principais celebrações do Ano Litúrgico contavam geralmente com uma ou mais sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa, até que a reforma do Concílio de Trento (século XVI) infelizmente as reduziu a apenas quatro [1].

Era o caso da Solenidade do Natal do Senhor, que contava com ao menos três sequências, em alusão às três Missas (da Noite, da Aurora e do Dia): Grates nunc omnes, Eia recolamus e Natus ante saecula.

Adoração dos pastores
(Gerard van Honthorst) 

Essas composições foram elencadas pelo célebre Notker Balbulus (†912), monge da Abadia beneditina de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, em seu Liber Sequentiarum, no qual compila 38 sequências.

Após apresentamos a sequência Grates nunc omnes em 2023, nesta postagem damos continuidade à proposta com Eia recolamus laudibus piis digna, geralmente indicada para a Missa da Aurora (In aurora, In primo mane).

Contudo, uma vez que essa sequência era bastante popular em toda a Europa, às vezes aparecia indicada para a “Missa principal” do Natal (In summa Missa Nativitatis Domini, In magna Missa), isto é, a Missa com maior concurso de povo, ou então para a Missa da Noite (In galli cantu).

No Missal de Sarum, utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, por sua vez, essa sequência era indicada para o dia 01 de janeiro, Oitava do Natal e Festa da Circuncisão do Senhor (In Octava Nativitatis Domini, In die Circumcisionis Domini).

Não está claro se Notker foi o autor do texto ou apenas o compilou. Alguns estudiosos sugerem que se trata de uma composição anônima realizada na Alemanha entre os séculos X e XI.

Não obstante, assim como outras sequências atribuídas a Notker, sua divisão em estrofes não é clara. Propomos aqui uma divisão em nove estrofes de dois versos de métrica desigual, exceto a primeira e a última estrofes, com três versos.

A composição, ademais, se caracteriza por uma espécie de “assonância”: várias palavras terminam em “a” ou em variantes (“am”, “at”), o que dá grande musicalidade ao texto.

Segue, pois, o texto da sequência no original (em latim) e em uma tradução nossa bastante livre (mais uma adaptação do que uma tradução), seguidos de um breve comentário sobre a sua teologia.


Sequentia in Nativitate Domini: Eia recolamus

1. Eia recolamus laudibus piis digna,
Hujus diei gaudia, in qua nobis lux oritur gratissima.
Noctis inter nebulosa pereunt nostri criminis umbracula.

2. Hodie saeculo maris stella est enixa novae salutis gaudia,
Quem tremunt barathra, mors cruenta pavet ipsa, a quo peribit mortua.

3. Gemit capta pestis antiqua, coluber lividus perdit spolia.
Homo lapsus, ovis abducta, revocatur ad aeterna gaudia.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Sequência da Páscoa: Laudes Salvatori

“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Sl 117,24).

Um símbolo recorrente nas diversas tradições religiosas é o “centro” ou “eixo do mundo” (em latim, axis mundi): uma árvore, uma montanha, um templo... a partir do qual o ser humano podia conectar-se com a divindade.

A árvore como axis mundi
(Hilma af Klint - Tree of Knowledge)

Na tradição judaica, por exemplo, o “centro do mundo” era situado no Templo de Jerusalém. No Cristianismo, porém, o próprio Jesus diz à mulher samaritana que o mais importante não é onde adorar a Deus, mas sim como adorá-lo: “em espírito e verdade” (cf. Jo 4).

Assim, embora os cristãos construam templos onde a comunidade se reúne para partilhar a Palavra e os Sacramentos, no Cristianismo de certa forma “o tempo é mais importante que o espaço”. 

Portanto, mais do que o “axis mundi”, a tradição cristã reflete sobre o “axis temporis”, o “eixo do tempo”: a Encarnação do Verbo de Deus, entendida aqui em sentido amplo, desde sua Concepção até sua Ascensão aos céus.

O próprio Jesus inicia sua pregação afirmando que “o tempo se cumpriu” (Mc 1,15). O mesmo atesta São Paulo, situando a vinda do Filho de Deus “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4; cf. também Hb 1,2).

Não é de estranhar, portanto, que uma das antigas sequências propostas para o Domingo de Páscoa seja uma grande “recapitulação” da vida de Jesus. Trata-se da sequênciaLaudes Salvatori” (Os louvores do Salvador), prescrita para o “dia santo da Páscoa” (in die sancto Paschae) ou “na Ressurreição do Senhor” (in Resurrectione Domini). Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história do Domingo de Páscoa.

Esta “sequência pascal” (Sequentia Paschalis) é a nona das 38 composições presentes no Liber Sequentiarum compilado por Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça.

As sequências, com efeito, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa, se popularizaram no Rito Romano a partir do século X. A reforma do Concílio de Trento (séc. XVI), porém, infelizmente as reduziu a apenas quatro, conservando para a Missa do Domingo de Páscoa a sequência “Victimae paschali laudes”, atribuída a Wippo de Borgonha (†1050) [1].

No Missal de Sarum, por sua vez, utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, era prescrita uma sequência para cada dia da Oitava Pascal, incluindo “Laudes Salvatori” no II Domingo da Páscoa [2].

Outra sequência pascal sobre a qual já falamos aqui em nosso blog era “Zyma vetus expurgetur”, atribuída a Adão de São Vítor (†1146), na qual vários acontecimentos do Antigo Testamento são lidos à luz do mistério de Cristo (leitura tipológica).

Na sequência “Laudes Salvatori”, como afirmamos anteriormente, os eventos da vida terrena de Cristo são lidos à luz da sua Páscoa. O próprio Evangelho atesta que os discípulos só compreenderam muitas coisas que Jesus fez e disse “depois que Ele ressuscitou dos mortos” (cf., por exemplo, Jo 2,22-24).

Além disso, embora a Igreja tenha distribuído “pedagogicamente” a celebração dos mistérios de Cristo no ciclo do Ano Litúrgico (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 102), cada celebração litúrgica é celebração do mistério de Cristo em sua totalidade, sobretudo do Mistério Pascal da sua Morte-Ressurreição.

A anamnese (memorial) da história da salvação presente na sequência encontra eco também em alguns candelabros para o círio pascal realizados durante a Idade Média: essas “colunas pascais” costumavam retratar diversas cenas da vida de Cristo, culminando em seu Mistério Pascal. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Vigília Pascal.

Coluna pascal
Basílica de São Paulo fora dos muros (Roma)

Como já fizemos com outras composições aqui em nosso blog, propomos a seguir a sequência Laudes Salvatori em seu texto original em latim, seguida de uma tradução nossa bastante livre e de alguns comentários destacando suas diversas citações bíblicas.

Como as demais sequências atribuídas a Notker, sua divisão em estrofes não é clara. Propomos aqui uma divisão em dez estrofes com distintos números de versos.

Sequentia Paschalis
Laudes Salvatori voce modulemur supplici

1. Laudes Salvatori voce modulemur supplici. 

2. Et devotis melodiis caelesti
Domino iubilemus Messiae,
qui se ipsum exinanivit ut nos
perditos liberaret homines.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Sugestão de leitura: Cadernos do Concílio (Parte 3)

Nos últimos dois meses apresentamos como sugestão de leitura alguns dos volumes da ColeçãoCadernos do Concílio” dedicados à Constituição Sacrosanctum Concilium.

Essa Coleção foi elaborada pelo Dicastério para a Evangelização (Seção para as questões fundamentais da evangelização no mundo) no contexto da preparação para o Jubileu Ordinário de 2025.

Em vista do Jubileu, com efeito, o Papa Francisco propôs “revisitar” as quatro Constituições do Concílio Vaticano II (1962-1965): Dei Verbum, Sacrosanctum Concilium, Lumen Gentium e Gaudium et Spes.


Os 34 volumes, com breves reflexões sobre as quatro Constituições conciliares, começaram a ser publicados no Brasil no segundo semestre de 2023 pelas Edições CNBB.

Nos meses de janeiro e fevereiro apresentamos os primeiros seis dos nove volumes dedicados à Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia (nn. 6-8 e nn. 9-11). Neste mês, portanto, concluímos nossa proposta com os nn. 12-14 da Coleção, que correspondem aos capítulos V e VI do documento:

O Domingo
Padre Giuseppe Midili, O. Carm.
Coleção Cadernos do Concílio, vol. 12
62 páginas

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Sequência da Apresentação do Senhor: Concentu parili hic te

Quando se completaram os dias para a purificação da Mãe e do Filho, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22).

No dia 02 de fevereiro, 40 dias após o Natal, a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor, conforme o relato do Evangelho de Lucas (Lc 2,22-40).

Entre os cristãos orientais, onde a festa teve sua origem, esta é conhecida como Hypapanté, “Encontro”, pois celebra o encontro entre o Antigo e o Novo Testamento, entre Deus e o seu povo, que esperava a salvação.

Quando foi acolhida no Ocidente a partir do século VII, porém, a festa adquiriu um caráter mais mariano, sendo conhecida como “Purificação de Maria”. A ênfase cristológica só seria recuperada com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.
Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Festa da Apresentação do Senhor.

Apresentação do Senhor (Giotto)

Por esse motivo, a sequência proposta para o dia 02 de fevereiro possui um forte acento mariano: Concentu parili hic te (Unanimemente o povo te venera). Esta é a oitava das 38 composições presentes no Liber Sequentiarum compilado por Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça.

A partir do século X, com efeito, se tornaram muito populares no Rito Romano as sequências, composições poéticas em honra do mistério celebrado que eram entoadas antes do Evangelho da Missa. Infelizmente a reforma litúrgica do Concílio de Trento (séc. XVI) as reduziu a apenas quatro [1].

A fim de resgatar esse precioso tesouro da Igreja, como já fizemos com outras composições, publicamos a seguir o texto original da sequência para a Festa da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria (In Purificatione Beatae Mariae Virginis), seguido de uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”) e um breve comentário sobre o texto.

Propomos uma divisão da sequência em sete estrofes de seis ou oito versos (à exceção da última, com sete versos).

Sequentia in Purificatione Beatae Mariae Virginis:
Concentu parili hic te

1. Concentu parili hic te,
Maria, veneratur populus
teque piis colit cordibus.
Generosi Abrahae tu filia
veneranda, regia de Davidis
stirpe genita.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Sequência da Epifania: Festa Christi omnis

Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorar o Senhor” (cf. Mt 2,2).

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, a partir do século X se tornaram muito populares no Rito Romano as sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa em honra do mistério celebrado [1].

No início do século X, com efeito, Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum [2].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a sétima sequência compilada por Notker, intitulada Festa Christi omnis (“A festa de Cristo”), para a Solenidade da Epifania do Senhor (In Epiphania Domini), celebrada pelas Igrejas do Oriente e o Ocidente no dia 06 de janeiro.

A jornada dos Magos a Belém, guiados pela estrela
(Leopold Kupelwieser)

Publicamos a seguir o texto original da sequência (em latim) e uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Como as demais composições de Notker, a sequência Festa Christi omnis não possui uma divisão em estrofes clara. Propomos uma divisão dos seus 40 versos em 10 estrofes de quatro ou seis versos, à exceção da primeira e da última, com apenas dois versos.

A divisão temática, por sua vez, é notória: após uma introdução (versos 1-6), contempla-se a visita dos Magos (vv. 7-16), o massacre dos Inocentes (vv. 17-24) e, por fim, o Batismo do Senhor (vv. 25-40).

A Solenidade da Epifania do Senhor, com efeito, contempla a “manifestação” de Cristo em um sentido amplo, embora com diferentes ênfases: no Ocidente se enfatiza a visita dos Magos ao Menino e no Oriente o Batismo do Senhor no Jordão.

Sequentia in Epiphania Domini: Festa Christi omnis

1. Festa Christi omnis
Christianitas celebret.

2. Quae miris sunt modis ornata
cunctisque veneranda populis
Per omnitenentis adventum
atque vocationem gentium.

3. Ut natus est Christus, est stella
magis visa lucida.
At illi, non cassam putantes
tanti signi gloriam.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Sequência do Natal: Grates nunc omnes

“Uma multidão da coorte celeste cantava louvores, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus...’” (cf. Lc 2,13-14).

Das cinco grandes Solenidades do Senhor elencadas nos nn. 1-2 da Tabela de precedência dos dias litúrgicos (Páscoa, Natal, Epifania, Ascensão e Pentecostes), duas possuem atualmente uma sequência própria: a Páscoa (Victimae paschali laudes) e o Pentecostes (Veni, Sancte Spiritus).

Entre os séculos X e XVI, porém, todas as principais celebrações do Ano Litúrgico contavam com uma ou mais sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa que sintetizam o mistério celebrado, até que a reforma do Concílio de Trento as reduziu a apenas quatro [1].

Sandro Botticelli - Natividade mística (detalhe)

A Solenidade do Natal do Senhor, com efeito, contava com ao menos três sequências, em alusão às três Missas (da Noite, da Aurora e do Dia): Grates nunc omnes, Eia recolamus e Natus ante saecula.

Essas composições foram elencadas pelo célebre Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, em seu Liber Sequentiarum [2].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a sequência Grates nunc omnes (“Demos graças, todos, agora”), ora indicada para a Missa da Noite do Natal (In galli cantu, In prima Missa), ora para a Missa da Aurora (In primo mane). Contudo, é mais adequada para a primeira, dada sua referência ao canto dos anjos, recordado no Evangelho da Missa da Noite (Lc 2,1-14).

A maioria dos estudiosos considera que essa sequência não é de Notker, sendo acrescentada posteriormente em seu elenco. Trata-se, provavelmente, de uma composição anônima realizada no sul da Alemanha no século XI.

Originalmente era composta por apenas duas estrofes: Grates nunc omnes reddamus Domino Deo (5 versos) e Huic oportet ut canamus (3 versos). Logo, porém, foi enriquecida com outras cinco estrofes de 5 versos.

Com efeito, se a primeira estrofe nos convida a dar graças a Cristo, as seguintes estendem a ação de graças ao Pai e ao Espírito Santo (estrofes 2-3), à Trindade como um todo (4), à Virgem Maria (5) e aos anjos (6).

Nessa “forma longa” da sequência, a segunda estrofe do texto original, Huic oportet, podia também ser entoada como refrão, repetida a cada estrofe.

A composição, com efeito, era muito popular entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, sendo acolhida inclusive em ambiente luterano, recebendo adaptações para as línguas vernáculas, e entoada em diversos momentos do culto.

Em alguns lugares, pois, era entoada como canto de entrada ou de Comunhão, considerando sua forma de “ladainha”, intercalando o “convite ao louvor” a um refrão.

Além disso, o convite “reddamus”, do verbo “reddere” (“dar”, no sentido de “dar graças”), pode ser facilmente associado ao verbo “redire” (“retornar”, no sentido de “retornar a Deus”, simbolismo expresso no gesto da procissão).

Sandro Boticelli - Natividade mística (detalhe)

Segue, pois, o texto da sequência Grates nunc omnes (forma longa) no original (em latim) e em uma tradução nossa bastante livre.

Sequentia in Nativitate Domini: Grates nunc omnes

1. Grates nunc omnes
reddamus Domino Deo,
qui sua nativitate
nos liberavit
de diabolica potestate.

2. Grates nunc omnes
reddamus aeterno Patri,
pro sua qui pietate
mundo salutem
de matris contulit puritate.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Sequência da Assunção de Maria: Congaudent angelorum chori

“Maria é elevada ao céu, alegram-se os coros dos anjos”.

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, entre os séculos X e XVI as principais celebrações do Ano Litúrgico eram enriquecidas com uma ou mais sequências, composições poéticas a serem entoadas antes do Evangelho da Missa que sintetizavam o mistério celebrado [1].

No início do século X, Notker Balbulus (†912), isto é, Notker “o Gago”, monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum [2].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a 19ª sequência compilada por Notker: Congaudent angelorum chori (“Alegram-se os coros dos anjos”), para a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, celebrada no dia 15 de agosto (ou transferida para o domingo seguinte, como no caso do Brasil).

Maria, assunta aos céus, é acolhida pelos anjos
(Fra Angelico, detalhe)

Propomos a seguir o texto original da sequência (em latim) e uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Assim como as demais sequências compiladas por Notker, não há rimas e a divisão em estrofes não está clara. A publicamos aqui dividida em 10 estrofes com dois ou três versos.

Sequentia: Congaudent angelorum chori
De Assumptione Beatae Virginis Mariae

1. Congaudent angelorum chori gloriosae virgini,
Quae sine virili commixtione genuit
Filium, qui suo mundum cruore medicat.

2. Nam ipsa laetatur, quo caeli iam conspicatur principem,
In terris cui quondam sugendas virgo mamillas praebuit.

3. Quam celebris angelis Maria, Iesu mater, creditur,
Qui filii illius débitos se cognoscunt famulos.

4. Qua gloria in caelis ista virgo colitur,
Quae Domino caeli praebuit hospitium sui sanctissimi corporis.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Artigos sobre Liturgia: Encontros Teológicos 2023

No dia 04 de dezembro de 2023 celebraremos os 60 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia, o primeiro documento promulgado pelo Concílio Vaticano II.

Em vista dessa comemoração, a Revista Encontros Teológicos, publicação quadrimestral da Faculdade Católica de Santa Catarina (FACASC), dedicou o seu primeiro volume deste ano à Liturgia (vol. 38, n. 1, janeiro-abril de 2023).


Confira a seguir os resumos dos seis artigos sobre Liturgia publicados nesse volume, dedicados sobretudo à formação e à música litúrgicas, os quais podem ser acessados na íntegra no site da Revista:

Relançar a tarefa da formação litúrgica hoje: Lendo “Desiderio desideravi” a partir da “Formação litúrgica” de Romano Guardini
Felipe Koller

Com a Carta Apostólica Desiderio desideravi (2022), o Papa Francisco avança a recepção do magistério do Concílio Vaticano II sobre a Liturgia e repropõe a tarefa da formação litúrgica, apresentada no início do século XX pelo Movimento Litúrgico e assumida pela Constituição Sacrosanctum Concilium. Em grandes linhas, Francisco se baseia no livro Formação litúrgica (1923), de Romano Guardini (1885-1968), citado diretamente algumas vezes. Contudo, os pontos de contato entre Desiderio desideravi e Formação litúrgica vão além das citações diretas. Este artigo busca traçar correlações entre as contribuições de Guardini e as questões trabalhadas pela Carta Apostólica, buscando uma compreensão mais rica da tarefa da formação litúrgica hoje. O encadeamento se permite guiar pela estrutura do texto de Guardini, que, depois de identificar a tarefa que se delineia a partir da relação do ser humano moderno com a Liturgia, explora, ponto a ponto, as diferentes oposições polares que estão em jogo no ato litúrgico: a alma e o corpo, o ser humano e a coisa, o indivíduo e a comunidade, o objetivo e o subjetivo, a religião e a cultura. Com isso, a tarefa da formação litúrgica se mostra de alcance muito maior do que como uma resposta aos movimentos tradicionalistas - contexto imediato da publicação da Carta Apostólica e sobretudo do documento que a precede, Traditionis custodes -, revelando-se uma dimensão fundamental da recepção do Concílio e emergindo como uma questão de primeira grandeza para a cultura contemporânea.

A formação ao silêncio na Liturgia: Uma reflexão sobre o n. 52 de Desiderio desideravi
Wellington José de Castro

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Rito da Coroação do Rei Charles III

“Dai ao Rei vossos poderes, Senhor Deus, vossa justiça ao descendente da realeza!” (Sl 71,1).

No dia 06 de maio de 2023 tem lugar na Abadia de Westminster em Londres a cerimônia de coroação do Rei Charles III, monarca do Reino Unido, nação formada por quatro países constituintes - Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte - e outros 14 reinos ao redor do mundo.

Insígnias reais

Esta é certamente de uma ocasião histórica: a última coroação teve lugar a 70 anos, no dia 02 de junho de 1953, quando foi coroada a Rainha Elizabeth II (†2022). Além disso, o Reino Unido é a única monarquia cristã que conserva um rito de coroação, inserido dentro de um “serviço” (service) da Igreja Anglicana (Church of England) [1].

Embora se trate de um culto protestante - a Igreja Anglicana rompeu a comunhão com a Igreja Católica em 1534 -, o rito conserva os elementos essenciais presentes no Liber Regalis (The King’s Book), do século XIV.

Antigas edições do Pontificale Romanum, com efeito, traziam um Ordo de Benedictione et Coronatione Regis (Ritual da Bênção e Coroação do Rei), o qual é um sacramental de caráter consecratório (como, por exemplo, a bênção de abade ou a profissão religiosa).

Abadia de Westminster, sede tradicional das coroações

A seguir apresentamos brevemente a Liturgia do Rito de Coroação do Rei Charles III (Liturgy for the Coronation Rite of His Majesty King Charles III), publicada pelo Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, o qual, como Primaz da Comunhão Anglicana, presidirá a cerimônia [2].

O rito possui várias reminiscências bíblicas, professando a fé na realeza divina e recordando a unção dos reis, sacerdotes e profetas no Antigo Testamento, como Davi e Salomão. Além disso, praticamente todos os cantos estão inspirados nos Salmos, como veremos a seguir.

1. Ritos iniciais e Liturgia da Palavra

Antes do início da cerimônia têm lugar a entrada dos representantes de outras religiões, dos representantes das Igrejas cristãs - alguns dos quais, como veremos, terão um papel ativo em partes do rito - e das bandeiras dos reinos da Comunidade de Nações (Commonwealth) [3].

A procissão de entrada propriamente dita - da qual tomarão parte o Rei e a Rainha consorte, Camilla - será precedida pela “Cruz de Gales” (Cross of Wales), uma cruz processional confeccionada recentemente no respectivo país, a qual contém dois fragmentos da Santa Cruz doados pelo Papa Francisco.

“Cruz de Gales” com as relíquias da Santa Cruz

Nesta procissão - acompanhada pelo canto do hino “I was glad”, uma adaptação do Salmo 121 feita por Hubert Parry (†1918), com a aclamação em latim “Vivat Rex!” - serão conduzidos também alguns estandartes e insígnias reais.


Diante do altar, o Rei será acolhido por uma das crianças do coro. Trata-se de uma novidade inserida no ritual da coroação, acompanhada por um pequeno diálogo de inspiração bíblica:
Criança: “Majestade, como filhos do Reino de Deus, lhe damos as boas-vindas em nome do Rei dos Reis”.
Charles III: “Em seu nome, e seguindo seu exemplo, venho não para ser servido, mas para servir”.

Após um momento de oração silenciosa, o Arcebispo” de Canterbury dá início à cerimônia com a saudação inicial (“A graça de nosso Senhor Jesus Cristo...”) e uma monição que exprime o significado da celebração. O coro entoa então o Kyrie eleison em gaélico (welsh), composto para a ocasião por Paul Mealor.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Breve história dos Congressos Eucarísticos Nacionais

No dia 07 de setembro de 2022 comemoramos os 200 anos da Independência do Brasil. Aproveitamos a ocasião para apresentar brevemente a história dos Congressos Eucarísticos em nosso país.

Os Congressos Eucarísticos são celebrações solenes em honra do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, “fonte e ápice de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, n. 11). São marcados por conferências, catequeses, atividades culturais, adoração e procissão eucarísticas, culminando sempre na Santa Missa.

Os Congressos podem ser internacionais, nacionais ou diocesanos. O primeiro Congresso Eucarístico Internacional teve lugar em Lille (França) no ano de 1881. Desde então foram celebrados 52 Congressos em diversos lugares do mundo, o mais recente em Budapeste (Hungria) no ano de 2021.

Bênção Eucarística diante do Cristo Redentor

Nosso país sediou o 36º Congresso Eucarístico Internacional, celebrado na cidade do Rio de Janeiro em julho de 1955, com o tema “O Reino Eucarístico do Cristo Redentor”.

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história dos Congressos Eucarísticos Internacionais.

O primeiro Congresso Eucarístico no Brasil teve lugar em setembro de 1922 na cidade do Rio de Janeiro (RJ), então capital do nosso país, para celebrar o 1º Centenário da Independência. No mesmo ano foi dado início à construção do célebre Santuário do Cristo Redentor, concluído em 1931.

O Arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta,  recordou em uma Carta Pastoral por ocasião do seu Centenário (2022), que o Congresso Eucarístico de 1922 foi realizado por iniciativa do então Arcebispo Coadjutor do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra (†1942).

O Cardeal Leme, com efeito, seria o encarregado de presidir os primeiros Congressos Eucarísticos Nacionais (CEN) “oficiais”, a partir do ano de 1933:

1º CEN:1933 - Salvador (BA)
Vinde, adoremos o Santíssimo Sacramento

2º CEN: 1936 - Belo Horizonte (MG)
Luz e Vida

3º CEN: 1939 - Recife (PE)
A Eucaristia e a vida cristã

4º CEN: 1942 - São Paulo (SP)
Vinde a mim todos

5º CEN: 1948 - Porto Alegre (RS)
Ação Social

Procissão no Congresso Eucarístico de Porto Alegre (1948)

6º CEN: 1953 - Belém (PA)
A Sagrada Eucaristia, sacramento da unidade e da comunidade

7º CEN: 1960 - Curitiba (PR)
Eucaristia, luz e vida do mundo

8º CEN: 1970 - Brasília (DF)
A mesa do Senhor

sábado, 28 de maio de 2022

Sequência de Pentecostes: Sancti Spiritus adsit nobis gratia

“Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra” (Sl 103,30).

Os católicos de Rito Romano estão familiarizados com a sequência Veni, Sancte Spíritus (“Espírito de Deus, enviai dos céus”), entoada no Domingo de Pentecostes.

Essa, com efeito, é uma das poucas sequências que “sobreviveram” à reforma litúrgica do Concílio de Trento. Anteriormente, entre os séculos X e XVI, praticamente todas as solenidades e festas do Ano Litúrgico possuíam uma ou mais sequências, composições poéticas que sintetizavam o mistério celebrado [1].

Além de Veni, Sancte Spíritus, composição do século XIII atribuída a Stephen Langton (†1228), Arcebispo de Canterbury (Inglaterra), a Solenidade de Pentecostes era enriquecida com a sequência Sancti Spiritus adsit nobis gratia (em uma tradução livre, “Que o Espírito Santo derrame sobre nós a sua graça”).

Para saber mais sobre o Pentecostes, confira nossa postagem sobre a história desta Solenidade.

Vitral do Espírito Santo
(Catedral de Santa Maria, Glasgow)

Esta sequência remonta ao início do século X, sendo talvez a mais famosa dentre as atribuídas a Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de Sankt Gallen (Suíça).

Notker “o Gago”, venerado como Beato pelos beneditinos, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum, das quais já falamos aqui no blog sobre três:
- Sancti Baptistae, Christi praeconis (Natividade de São João Batista);
- Petre, summe Christi pastor (Solenidade de São Pedro e São Paulo);
- Summi triumphum Regis (Solenidade da Ascensão do Senhor).

Entre os séculos XIII e XVI as duas sequências - Veni, Sancte Spíritus e  Sancti Spiritus adsit nobis - eram entoadas intercaladamente no Domingo de Pentecostes e durante a sua Oitava, até que o Concílio de Trento fixou a primeira como a única sequência para essa Solenidade [2].

Não obstante, a fim de dar a conhecer cada vez mais o riquíssimo patrimônio litúrgico da Igreja, apresentamos a seguir a sequência Sancti Spiritus adsit nobis gratia em seu texto original (em latim) e em uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Esta sequência se aproxima muito à composição de Notker para a Ascensão (Summi triumphum Regis): não há rimas e a divisão em estrofes não é bem clara: em algumas fontes ela aparece simplesmente estruturada em 24 versos. Propomos aqui uma divisão em 11 estrofes, a primeira e a última com três versos e as demais com dois versos.

Notker representado em um manuscrito do século XI
(Note-se o início da sequência Sanctis Spiritus adsit no livro)

Sequentia: Sancti Spiritus adsit nobis gratia

1. Sancti Spiritus adsit nobis gratia (Aleluia),
Quae corda nostra sibi faciat habitaculum,
Expulsis inde cunctis vitiis spiritalibus.

2. Spiritus alme, illustrator hominum,
Horridas nostrae mentis purga tenebras.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Sequência da Ascensão: Summi triumphum Regis

“Contemplamos, ó Senhor, vosso cortejo que desfila: é a entrada do meu Deus, do meu Rei, no santuário!” (Sl 67,25).

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, entre os séculos X e XVI todas as principais celebrações do Ano Litúrgico possuíam uma ou mais sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa que sintetizavam o mistério celebrado [1].

Nesta postagem, gostaríamos de destacar uma das sequências da Ascensão do Senhor (In Ascensione Domini), Solenidade celebrada 40 dias após a Páscoa, na quinta-feira da VI semana (ou transferida para o domingo seguinte, como é o caso no Brasil).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Solenidade da Ascensão.

Ascensão do Senhor ao céu, circundado por anjos

A composição que propomos intitula-se Summi triumphum Regis (Ao triunfo do Rei supremo), atribuída a Notker Balbulus (†912), isto é, Notker “o Gago”, monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, o qual teria sido beatificado em 1512.

Aqui em nosso blog já destacamos duas sequências compiladas por Notker entre o final do século IX e o início do século X: Sancti Baptistae, Christi praeconis (Natividade de São João Batista) e Petre, summe Christi pastor (São Pedro e São Paulo).

A seguir apresentamos a sequência Summi triumphum Regis, a 13ª das 38 sequências compiladas no Liber Sequentiarum de Notker, em seu texto original (em latim), seguida de uma tradução nossa bastante livre e algumas notas destacando alguns aspectos do texto.

Mais do que poesia, a composição aproxima-se mais da prosa: não há rimas e a divisão em estrofes não é bem clara. Propomos aqui uma divisão em oito estrofes, a primeira e a última com três versos e as demais com dois versos.

Sequentia: Summi triumphum Regis

Summi triumphum Regis prosequamur laude,
Qui caeli, qui terrae regit sceptra, inferni iure domito,
Qui sese pro nobis redimendis permagnum dedit pretium.

Huic nomen exstat conveniens Idithum,
Nam transilivit omnes strenue Montes colliculosque Bethel.

quarta-feira, 30 de março de 2022

A sequência pascal Zyma vetus expurgetur

“O Cristo, nossa Páscoa, foi imolado: celebremos a festa com pão sem fermento, o pão da retidão e da verdade. Aleluia!” [1].

A Páscoa (do hebraico “pessach”, salto), remonta a duas celebrações ligadas ao início da primavera no hemisfério norte: uma de caráter pastoril, marcada pela imolação do cordeiro, e outra de caráter agrícola: a “festa dos ázimos” (Ex 12–13). Posteriormente, ambas fora unidas em uma grande comemoração do êxodo, isto é, da saída do povo de Israel do Egito.

Confira nossa postagem sobre a história da celebração da Páscoa clicando aqui.

Os pães ázimos (do grego ἄζυμος, em latim azymus, sem fermento; matzá em hebraico) simbolizam a “pressa” dos judeus no contexto da fuga do Egito e também a humildade diante de Deus, uma vez que o fermento (hametz, em hebraico) “incha” o pão.

Cristo, "nossa Páscoa", parte o pão ázimo

Com efeito, o pão que se utiliza na Celebração Eucarística do Rito Romano, chamado comumente de “hóstia” (“vítima” em latim), deve sempre ser ázimo (cf. Código de Direito Canônico, cân. 926; Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 48).

Nesse sentido, em sua Primeira Carta aos Coríntios São Paulo exorta-nos a lançar fora o “velho fermento” para celebrar a Páscoa “com os pães ázimos da pureza e da verdade” (1Cor 5,6b-8).

Confira nossas postagens sobre a leitura litúrgica da Primeira Carta aos Coríntios clicando aqui.

Esse simbolismo é evocado no início de uma das antigas sequências propostas para a Páscoa da Ressurreição: “Zyma vetus expurgetur”, expressão que poderia ser traduzida como “Expurgado o velho fermento”.

As sequências são composições que se popularizaram no Rito Romano a partir do século X. Eram entoadas antes do Evangelho na Missa, exprimindo poeticamente o mistério da festa celebrada.

A reforma do Concílio de Trento (séc. XVI) infelizmente reduziu as sequências do Rito Romano a apenas quatro, conservando para a Missa do Domingo de Páscoa a composição “Victimae paschali laudes”, do século XI, atribuída a Wippo de Borgonha.

A sequência “Zyma vetus expurgetur”, por sua vez, remonta ao século XII, sendo atribuída a Adão de São Vítor (†1146), monge da Abadia de São Vítor em Paris (França).

Essa “sequência pascal” (Sequentia paschalis) era entoada tanto no Domingo da Ressurreição quanto durante o Tempo Pascal. Por exemplo, no Missal de Sarum (utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, particularmente na Diocese de Salisbury), que prescreve uma sequência para cada dia da Oitava Pascal, “Zyma vetus” era entoada na segunda-feira [2].

A sequência é composta por 13 estrofes: as estrofes 1-10 com seis versos, as estrofes 11-12 com oito versos e a última com dez versos. Todas as estrofes possuem tanto rimas emparelhadas quanto alternadas: A-A, C, B-B, C.

O “tema” da composição, por sua vez, é a “leitura tipológica da Sagrada Escritura”, tão querida pelos Padres da Igreja: através desse “método” os acontecimentos do Antigo Testamento são lidos como “profecias” ou “modelos” (em grego, τύπος, typos) do mistério de Cristo realizado no Novo Testamento.

O recente Diretório para a Catequese recorda em seu n. 170 que: “A catequese e a Liturgia jamais se limitaram a ler separadamente os livros do Antigo e do Novo Testamento, mas lendo-os juntos demonstraram como somente uma leitura tipológica da Sagrada Escritura permite colher plenamente o significado dos eventos e dos textos que narram a única história da salvação” [3].

Para acessar nossa série de postagens sobre a Liturgia no Diretório para a Catequese, clique aqui.

O próprio Senhor nos Evangelhos faz uso dessa leitura tipológica, particularmente em relação ao Mistério Pascal da sua Morte-Ressurreição (cf. Jo 3,14; Mt 12,40).

Vale destacar que a sequência contempla o Mistério Pascal em sua totalidade, pois, como bem sintetiza o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia: “a Morte e a Ressurreição de Cristo são inseparáveis na narrativa evangélica e no projeto salvífico de Deus” (n. 128) [4].

Alegoria do Antigo e do Novo Testamento
(Hans Holbein o Jovem)

Confira a seguir, pois, a sequência Zyma vetus expurgetur em seu texto original em latim, seguida de uma tradução nossa bastante livre e de alguns comentários sobre a sua teologia, indicando as “profecias” mencionadas em cada estrofe. Vale recordar, porém, que a ordem de alguns versos pode variar conforme a versão do poema.

Sequentia paschalis: Zyma vetus expurgetur

1. Zyma vetus expurgetur,
Ut sincere celebretur
Nova resurrectio:
Haec est dies nostrae spei,
Huius mira vis diei
Legis testimonio.

2. Haec Aegyptum spoliavit
Et Hebraeos liberavit
De fornace ferrea;
His in agro constitutis
Opus erat servitutis
Lutum, later, palea.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Sequência da Anunciação: Ave Maria, Virgo serena

“Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7,10).

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, a partir dos séculos IX e X tornaram-se muito populares no Rito Romano as “sequências”, composições poéticas a serem entoadas antes da aclamação do Evangelho na Missa.

Nesse período praticamente todas as grandes celebrações do Ano Litúrgico possuíam uma sequência, até que, infelizmente, a reforma litúrgica do Concílio de Trento (séc. XVI), as reduzisse a apenas quatro [1].

No esforço de resgatar esse precioso patrimônio da Igreja, que é um tesouro que pertence a todos nós, no ano de 2021 publicamos aqui em nosso blog três sequências para as celebrações dos santos:
- Sancti Baptistae, Christi praeconis, para a Solenidade da Natividade de São João Batista (24 de junho);
- Petre, summe Christi pastor, para a Solenidade de São Pedro e São Paulo (29 de junho);
- Psallite regi nostro, para a Memória do Martírio de São João Batista (29 de agosto).

As duas primeiras remontam ao século X, sendo atribuídas ao monge beneditino Notker Balbulus, enquanto a terceira é do século XI, atribuída ao sacerdote Gottschalk de Aachen.

Também do século XI é a sequência Ave Maria, gratia plena (Ave Maria, cheia de graça), às vezes referida como Ave Maria, Virgo serena (Ave Maria, Virgem serena) para distingui-la da própria oração da “Ave Maria”.

Anunciação: "Ave Maria, gratia plena"
(Vitral da igreja do Sagrado Coração - Edimburgo, Escócia)

Esta sequência, uma composição anônima realizada no sul da Alemanha, é indicada para a Solenidade da Anunciação do Senhor (In festo Annuntiationis gloriosae Virginis Mariae), no dia 25 de março. No Missal de Sarum, por sua vez, o qual era utilizado na Inglaterra durante a Idade Média (particularmente na Diocese de Salisbury), é prescrita para a oitava da Solenidade da Assunção de Maria [2].

Para acessar nossa postagem sobre a história da Solenidade da Anunciação do Senhor, clique aqui.

Essa sequência se popularizou por toda a Europa a partir dos séculos XII e XIII. Sua primeira estrofe, com efeito, foi utilizada pelo compositor francês Josquin des Prez (†1521) para seu célebre moteto de mesmo nome: “Ave, Maria, gratia plena; Dominus tecum, Virgo serena”.

A composição de Josquin, porém, contempla toda a vida de Maria, desde sua Concepção até sua Assunção aos céus. A sequência do século XI, por sua vez, trata especificamente da Anunciação, celebrando-a como mistério da Mãe e do Filho (cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis cultus, n. 6).

A primeira parte da sequência é uma reelaboração da oração da “Ave Maria”, que na época era formada apenas saudações do Anjo e de Isabel (Lc 1,28.42) [3].

Após uma “ladainha” de títulos da Virgem e do Senhor Jesus Cristo, a composição conclui-se com uma súplica invocando a intercessão de Maria junto ao seu Filho.

Destacam-se também as rimas, ora emparelhadas oraintercaladas, que dão grande musicalidade ao texto, dividido em sete estrofes com um número desigual de versos (2, 4, 6 ou 8).

Anunciação (Anônimo do séc. XIV)

Confira a seguir, pois, o texto original da sequência, em latim, seguido de uma tradução nossa bastante livre:

Sequentia: Ave Maria gratia plena (Ave Maria, Virgo serena)

1. Ave, Maria, gratia plena;
Dominus tecum, Virgo serena.

2. Benedicta tu in mulieribus,
Quae peperisti pacem hominibus
Et angelis gloriam.
Et benedictus fructus ventris tui,
Qui, coheredes ut essemus sui
nos, fecit per gratiam.