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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ângelus: XXIV Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 13 de setembro de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Hoje o Evangelho (Mt 18,21-35) nos fala de um valor fundamental da vida cristã: o perdão. Jesus o ensinou e testemunhou até a cruz, onde rezou ao Pai pelos seus perseguidores com as palavras que todos conhecemos: «Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!» (Lc 23,34).

Na passagem de hoje Pedro questiona o Mestre precisamente sobre este tema: «Senhor - pergunta ele -, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» (Mt 18,21). Suas palavras revelam um coração generoso: com efeito, o número sete na Bíblia simboliza a plenitude, e “perdoar sete vezes” significa perdoar com grande generosidade. A resposta de Jesus, porém, vai além: «Não te digo até sete vezes - afirma Ele -, mas até setenta vezes sete» (v. 22), ou seja, além de qualquer limite, sem medida.

E para esclarecer melhor o seu pensamento, o Salvador conta a parábola de um servo que tinha uma dívida tão grande para com o seu senhor que era praticamente impossível de saldar. Tendo obtido a remissão por pura misericórdia, não tinha demonstrado, no entanto, a mesma piedade para com um dos seus companheiros e, por isso, foi repreendido e severamente castigado (vv. 23-30).

Com essas palavras Jesus nos lembra que a dádiva e o perdão estão na base da nossa existência. Tudo nos é dado por Deus em um ato de puro amor, e nenhum de nós pode dizer-se perfeito na forma como responde a tanta bondade. Por isso, a gratuidade - que é a fonte da nossa própria vida - é também a melhor regra para a nossa convivência. Experimentamos isso todos os dias. O perdão é indispensável e, se faltar, não se pode viver em paz: mais cedo ou mais tarde, no coração e entre as pessoas, surgem conflitos, acusações, rancores e vinganças que destroem as relações, dividem as famílias e desencadeiam guerras.

Só o perdão liberta e traz de volta a luz, mesmo ali onde a pobreza material e moral do homem, por um momento, tornou o horizonte sombrio e o caminho incerto. O perdão, como um vento favorável, afasta até as nuvens mais densas, até que o sol volte a brilhar. O próprio São Pedro o experimentou várias vezes na sua vida; em particular quando, depois de ter negado e abandonado Jesus durante a Paixão, ao encontrá-lo ressuscitado, às margens do lago, ouviu ser dirigida a ele uma única pergunta: «Simão, tu me amas?» (Jo 21,15-17), acompanhada de um convite: «Segue-me!» (v. 19). Tal como no início, no dia do seu primeiro encontro, como se quase nada tivesse acontecido. E esta caridade, que esquece e cura, marcará, para o primeiro dos Apóstolos, a confirmação da sua missão.

Peçamos então à Virgem Maria, Mãe da Misericórdia, que nos ajude a perdoar sempre, mesmo quando é difícil dar o primeiro passo, e a difundir, com coragem e perseverança, a luz serena e curativa do amor que vence o ódio e desarma todo o rancor.

Jesus e Pedro às margens do Lago
(Raúl Berzosa Fernández, detalhe)

Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Ângelus: XXIII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 06 de setembro de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
A Palavra de Deus proclamada na Liturgia deste domingo nos oferece alguns critérios fundamentais de pensamento e ação. Lemos na Carta aos Romanos que todos os mandamentos estão resumidos em uma só frase: «Amarás a teu próximo como a ti mesmo» (Rm 13,9). São Paulo insiste neste ponto com uma imagem muito forte, presente também no “Pai nosso”. Ele escreve: «Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo» (v. 8).

Jesus nos ensinou a suplicar e a praticar a remissão das dívidas. Existe, porém, um patrimônio que devemos uns aos outros, sem ficarmos presos a ele: é a dívida do amor mútuo. Toda a atenção, cuidado e bem que recebemos nos tornam mais livres e capazes de assumir responsabilidades.

No Evangelho deste domingo (Mt 18,15-20) Jesus sugere a cada comunidade cristã pelo menos duas maneiras de exercer o amor mútuo. A primeira é estarmos abertos à correção fraterna. É uma arte delicada e, muitas vezes, esquecida, que exige franqueza e gradualidade. Falar uns com os outros com sinceridade - primeiro a sós; depois, se necessário, com mais duas ou três pessoas; e, por fim, quando for preciso, com toda a comunidade - significa enfrentar a realidade e transformar problemas e conflitos em oportunidades de crescimento. As queixas e as calúnias são mais fáceis, mas não produzem nada e paralisam muitas situações. O Evangelho, pelo contrário, nos educa para a liberdade, na caridade.

Há ainda uma segunda forma de amar fraternalmente, que, para Jesus, molda até mesmo a oração: chegar a um acordo. Não apenas quando existe um conflito, mas para pedir a Deus uma graça. O Senhor diz: «Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus» (v. 19). Esta promessa sugere que podemos ter desejos comuns, dores comuns, esperanças comuns e, através da oração, crescer na unidade. Sem fé, cada um poderia sentir-se sozinho e desconfiar dos outros, vendo-os como estranhos e inimigos. Pela graça, ao contrário, somos irmãos e irmãs que podem estar unidos: encontrando-nos, perdoando-nos e ouvindo-nos uns aos outros no Senhor.

Peçamos a Maria, que após o anúncio do anjo se apressou a ir ter com a sua prima Isabel, para partilhar a alegria e o cansaço da gravidez, que também nos ensine a dívida alegre do amor fraterno.

Ícone copta da amizade:
Exortação ao “amor mútuo” (Rm 13,8)

Fonte: Santa Sé.

sábado, 5 de setembro de 2026

Ângelus: XXII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 30 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bom domingo!
Hoje o Evangelho (Mt 16,21-27) nos fala de Jesus que revela aos discípulos o Mistério da sua Páscoa iminente: o Messias deverá «ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (v. 21).

O que Ele afirma está muito longe das expectativas deles de um Messias triunfante e poderoso, com cuja ajuda derrotariam e esmagariam os inimigos (cf. Sl 107,14). Já tinham tido oportunidade, durante o tempo que passaram com Ele, de se surpreender com muitos dos seus gestos e palavras. Esta última mensagem, porém, ultrapassa verdadeiramente todas as previsões. Em particular, Pedro manifesta o seu desacordo e repreende Jesus, dizendo-lhe: «Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!» (Mt 16,22).

Pouco antes tinha reconhecido n’Ele «o Messias, o Filho de Deus vivo» (v. 16). Agora, porém, surpreendido e talvez desapontado com o que ouviu, em contraste com a belíssima profissão de fé que acabara de fazer, o repreende. Parece dizer-lhe: “Sim, creio que és o Messias, mas não é assim que se salva o mundo”. O seu é um impulso de zelo, certamente animado por um amor sincero, e, no entanto, nos leva a refletir.

Com efeito, também para nós nem sempre é fácil compreender e aceitar os caminhos de Deus, especialmente quando estão muito distantes dos nossos. Nessa altura surge a tentação de pensar, contra toda a lógica da fé, que é o Senhor quem está errado, ou pior ainda, que não nos ouve ou que não se interessa por nós. Diante dessa incerteza, Pedro, apesar da sua impulsividade, nos ensina duas coisas importantes.

A primeira é nunca interromper, nem mesmo nesses momentos, o diálogo com o Senhor; pelo contrário, manifestar-lhe com confiança até mesmo a nossa dificuldade em compreender o que Ele nos pede.

A segunda, porém, é nunca julgar a ação de Deus, mas sim ouvir, com humildade, na oração, o que Ele está nos revelando através da sua ação, mesmo quando isso não corresponde às nossas expectativas.

E a grandeza do Primeiro dos Apóstolos manifesta-se também nisto.

Jesus lhe responde: «Vai para longe, Satanás!» (v. 23), e explica a ele e aos outros discípulos que, para seguirem os seus passos, deverão negar-se a si mesmos, tomar a sua cruz e segui-lo (cf. v. 24). Pedro o fará: depois de tê-lo ouvido, aceitará o desafio e permanecerá fiel às palavras de Cristo - a quem reconheceu como seu Redentor - durante toda a sua vida, até o martírio.

Peçamos ao Senhor, então, que também nós, na nossa vida de fé e na nossa oração, tenhamos a mesma sinceridade de Pedro, ao dizer-lhe humildemente o que realmente sentimos, mesmo quando o coração está confuso, e, ao mesmo tempo, que saibamos cultivar a sua mesma docilidade, ao aceitar o que Ele nos pede para além das nossas expectativas.

Que Maria nos ajude, ela que foi obediente aos desígnios de Deus até junto à Cruz do seu Filho Jesus.

Jesus carregando a cruz e Pedro

Depois do Ângelus:

Queridos irmãos e irmãs,
(...) Continuemos a rezar pela paz. Santo Agostinho, cuja memória celebramos nestes dias, dizia que «a paz (...) é semelhante àquele pão que se multiplicava nas mãos dos discípulos do Senhor enquanto eles o partiam e o distribuíam» (Sermão 357, 2). Que aumentem no mundo aqueles que, com coragem, partem e distribuem o pão da paz, superando as divisões, promovendo a justiça, praticando o perdão, para o bem de todos. (...)

Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Ângelus: XXI Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 23 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho deste domingo (Mt 16,13-20) nos coloca diante de uma pergunta que interpela cada um de nós no caminho da fé: quem é realmente Jesus para mim?

A partir do relato evangélico percebe-se o quanto esta pergunta é decisiva para a experiência do discipulado. Na verdade, ainda que os doze Apóstolos já tivessem compartilhado muito da vida e do ministério do Mestre, Jesus não quis pressupor que eles o conheciam realmente e que tinham compreendido o mistério do Reino de Deus. Então, depois de perguntar quais eram as opiniões das pessoas sobre Ele, dirige-se diretamente a eles: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (v. 15).

Irmãos e irmãs, este é um passo fundamental para os discípulos de todos os tempos, para cada um de nós. Com efeito, a fé não nos é dada de uma vez para sempre; pelo contrário, precisamos redescobrir constantemente o rosto de Cristo e o seu Evangelho, aprofundar a sua mensagem e renovar as escolhas da nossa vida, para que sejam coerentes com o que professamos, vencendo a tentação de pensar que já sabemos tudo e de transformar a fé em um costume.

A pergunta que diariamente nos é colocada - quem é Jesus para mim e qual o significado da sua presença na minha vida - surge especialmente na oração e quando meditamos sobre o Evangelho; mas também quando nos deparamos com as feridas e as necessidades dos irmãos, ou nas relações e situações que mais interpelam a nossa consciência. Enfim, no âmbito da nossa vida, podemos avaliar se, para nós, o Senhor Jesus é apenas uma grande figura da história que disse e fez coisas importantes, ou se é o Cristo de Deus, Aquele que foi enviado para nos introduzir no amor do Pai e transformar a nossa vida e o mundo em que vivemos.

Caríssimos, aprendamos a não nos fecharmos nas nossas convicções e certezas religiosas, para nos mantermos abertos a uma relação autêntica com Cristo. Por vezes, no que diz respeito à fé cristã, nos contentamos com o que “ouvimos dizer”, com os lugares-comuns, com aquilo que nos foi transmitido, talvez até com boas intenções; mas Jesus nos chama a uma resposta pessoal, a conhecê-lo de perto, a nos deixarmos escrutinar a partir da amizade com Ele, em um encontro sempre novo que pode nos exigir percorrer caminhos inéditos e fazer escolhas diferentes das que imaginávamos. Isto é válido tanto para o nosso percurso pessoal como para o caminho da Igreja e para as escolhas pastorais, onde, por vezes, pensamos que basta continuar a fazer como sempre fizemos. É importante, pelo contrário, nos perguntarmos frequentemente: quem é o Senhor para mim? Conheço-o realmente? O que me pede hoje o seu Evangelho? Que passos e que escolhas deveria tomar?

Invoquemos a Virgem Maria, que no seu coração procurava a vontade de Deus através do seu Filho, para que nos guie sempre no caminho da fé.

Profissão de fé de Pedro (James Tissot)

Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Ângelus: XX Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 16 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Ontem contemplamos a Virgem Maria na sua inseparável relação com o Filho: nem mesmo a morte conseguiu interromper essa comunhão de alma e corpo, que é vida eterna. Todos os domingos ela nos recorda que essa mesma plenitude está reservada a quem segue Jesus: a sua Ressurreição não é um acontecimento do passado, mas uma vida nova que nos envolve.

Isso é demonstrado hoje pela mulher cananeia, protagonista do Evangelho proclamado na Liturgia (Mt 15,21-28). Apesar de não pertencer ao seu povo e de viver em uma região estrangeira, ela procura insistentemente falar com Jesus, seguindo-o como uma discípula que já tem uma ligação com Ele. Provavelmente nunca tinham se encontrado, mas a fé já havia surgido nela misteriosamente. Ela não deseja algo para si mesma, mas a paz para a sua filha atormentada e confia em Jesus, em quem reconhece o Messias, descendente de Davi (cf. v. 22).

O evangelista não esconde os obstáculos que esta mulher tem de enfrentar. Os discípulos a veem como uma pessoa incômoda, e o próprio Jesus resiste aos seus pedidos. Com efeito, o Mestre tinha se retirado para aquela região (cf. v. 21) e podemos imaginar que, como em outras ocasiões, procurasse um lugar afastado onde rezar e formar os seus discípulos. Naquele momento, porém, acontece algo inesperado. Meditando sobre isto, podemos compreender a obediência de Jesus, que cumpre a sua missão deixando-se tocar pelo que vê e ouve. Por fim, lhe diz: «Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!» (v. 28).

Também hoje a Igreja pode se deixar surpreender pela obra de Deus e comunicar a paz de Cristo para além das fronteiras já traçadas. A sua missão é antecipada pela graça divina, que atua no segredo das consciências, de modo que, em cada encontro, mesmo naqueles que perturbam os nossos planos, é preciso prestar atenção, abrir os olhos e abrir o coração ao que Deus quer nos dizer.

Da mulher cananeia aprendemos a humildade e a determinação. Graças à sua fé, aprendemos que a mesa de Deus está preparada para todos e que a ninguém estão reservadas só as migalhas (cf. vv. 26-27), porque cada um, junto do Pai, tem o seu lugar. À luz desta fé, as desigualdades, as discriminações e as barreiras que pisam a dignidade de tantos filhos e filhas de Deus tornam-se insuportáveis.

Queridos irmãos e irmãs: somos a Igreja de Jesus Cristo em um mundo atormentado, um mundo que procura a paz. A Maria, nossa Mãe, pedimos que interceda por nós. «Dos seus lábios jorra o hino mais forte e inovador que jamais foi entoado, o Magnificat» (Encíclica Magnifica humanitas, n. 244): é o cântico de quem já vê a realidade com o olhar de Deus e, por isso, não perde a esperança e age com caridade.

Jesus e a mulher cananeia
(Pieter Lastman)

Fonte: Santa Sé.

Observação: No Brasil celebramos neste domingo a Solenidade da Assunção da Virgem Maria, transferida do dia 15 de agosto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Ângelus: Solenidade da Assunção de Maria (2026)

Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria
Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Sábado, 15 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
Celebramos hoje a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria. Uma festa de grande importância, tanto para a teologia católica como para a devoção popular; com efeito, é uma data comemorada intensamente em várias comunidades, especialmente onde a Catedral ou a igreja paroquial é dedicada à Virgem Assunta.

Para contemplar este mistério da fé, podemos recorrer aos dois modelos iconográficos com que, ao longo dos séculos, os artistas o representaram.

O primeiro, o mais antigo, que foi o único durante quase um milênio, é o da “dormição” da Mãe de Deus: ela aparece deitada em um catafalco, adormecida na morte; à sua volta estão os Apóstolos, que a veneram comovidos em oração; no centro, de pé, está Jesus Ressuscitado, que segura nos braços a alma de Maria, como uma criança recém-nascida. Ele veio buscá-la para levá-la consigo para a glória de Deus, “no céu”, como dizemos simbolicamente. Com efeito, o Senhor cumpriu para a sua Mãe o que prometeu a todos os seus amigos: «Quando Eu tiver ido [para junto do Pai] preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo» (Jo 14,3).

Este primeiro modelo realça a verdade central: é Cristo, Morto e Ressuscitado, que nos conduz à meta para a qual estamos desde sempre destinados, a vida eterna. É isto que gerações e gerações de fiéis contemplaram ao rezarem perante os ícones da Dormição, e que se pode admirar em Roma, no grande mosaico da abside da Basílica de Santa Maria Maior.

A iconografia mais recente, que se desenvolveu posteriormente no Ocidente, mostra-nos, por sua vez, a Virgem Maria de corpo inteiro, no céu, envolta de luz, frequentemente rodeada por anjos e santos. Aqui, no centro, encontra-se o corpo glorificado da Virgem, em consonância com o que se lê no Livro do Apocalipse: «Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas» (Ap 12,1).

Alguns artistas combinaram os dois esquemas, representando, na parte superior, a Virgem gloriosa e, na parte inferior, o seu túmulo vazio, frequentemente repleto de flores multicoloridas, e os Apóstolos com o olhar voltado para ela, no céu.

Este segundo modelo realça a verdade de que Maria foi elevada em corpo e alma, ou seja, na integridade da sua pessoa. Aquela mulher que, na terra, deu corpo e sangue ao Verbo encarnado e o seguiu até a união perfeita no sacrifício de amor, foi atraída por Ele para sempre à glória.

Assim, esta iconografia nos permite contemplar o nosso destino último. A plenitude de vida, que hoje admiramos com alegria em Maria, espera também a nós, no fim dos tempos, quando, como diz São Paulo, Cristo Ressuscitado «transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante a seu corpo glorioso» (Fl 3,21), revestindo o que é corruptível de incorruptibilidade e o que é mortal de imortalidade (cf. 1Cor 15,54). Então, com a nossa carne transformada pelo amor do Redentor, viveremos eternamente, na festa sem fim.

Louvemos o Senhor, que fez grandes coisas na sua e nossa Santíssima Mãe!

Assunção de Maria
(Peter Paul Rubens)

Fonte: Santa Sé.

Para saber mais, confira nossa postagem sobre o ícone da Dormição da Mãe de Deus.

sábado, 15 de agosto de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Assunção de Maria (2006)

Há 20 anos, no dia 15 de agosto de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria na Paróquia Santo Tomás de Villanova, junto ao Palácio Apostólico de Castel Gandolfo (Itália).

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião e sua meditação durante a oração do Ângelus:

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria
Homilia do Papa Bento XVI
Paróquia Santo Tomás de Villanova, Castel Gandolfo
Terça-feira, 15 de agosto de 2006

Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
No Magnificat, o grande cântico da Virgem que acabamos de ouvir no Evangelho (cf. Lc 1,46-55), encontramos uma palavra surpreendente. Maria diz: «Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada» (v. 48). A Mãe do Senhor profetiza os louvores marianos da Igreja por todo o futuro, a devoção mariana do Povo de Deus até o fim dos tempos. Louvando Maria, a Igreja não inventou algo “ao lado” da Escritura: respondeu a essa profecia feita por Maria naquela hora de graça.

E essas palavras de Maria não eram só palavras pessoais, talvez arbitrárias. Como diz São Lucas, Isabel havia exclamado, cheia do Espírito Santo: «Bem-aventurada aquela que acreditou» (v. 45). E Maria, também cheia do Espírito Santo, continua e completa o que disse Isabel, afirmando: «Todas as gerações me chamarão bem-aventurada». É uma verdadeira profecia, inspirada pelo Espírito Santo, e a Igreja, venerando Maria, responde a uma ordem do Espírito Santo, faz o que deve fazer.


Nós não louvamos a Deus suficientemente nos calando sobre os seus santos, sobretudo sobre “a Santa”, que se tornou a sua morada na terra, Maria. A luz simples e multiforme de Deus só se manifesta a nós na sua variedade e riqueza no rosto dos santos, que são o verdadeiro espelho da sua luz. E precisamente contemplando o rosto de Maria podemos ver melhor do que de outros modos a beleza de Deus, a sua bondade, a sua misericórdia. Podemos realmente perceber a luz divina neste rosto.

«Todas as gerações me chamarão bem-aventurada». Nós podemos louvar Maria, venerar Maria, porque é «bem-aventurada», bem-aventurada para sempre. Este é o conteúdo da Solenidade de hoje. É bem-aventurada porque está unida a Deus, vive com Deus e em Deus. O Senhor, na véspera da sua Paixão, despedindo-se dos seus, disse: «Na casa de meu Pai há muitas moradas. (...) Vou preparar um lugar para vós» (Jo 14,2). Maria, ao dizer: «Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38), preparava aqui na terra a morada para Deus; ela se tornou essa morada de corpo e alma, e assim abriu a terra ao céu.

Homilia do Papa João Paulo II: Assunção de Maria (2001)

Há 25 anos, no dia 15 de agosto de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria no pátio do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo (Itália).

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião e sua meditação durante a oração do Ângelus:

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria
Homilia do Papa João Paulo II
Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Quarta-feira, 15 de agosto de 2001

1. «O último inimigo a ser destruído é a morte» (1Cor 15,26).
As palavras de Paulo, que acabam de ressoar na 2ª Leitura, nos ajudam a compreender o significado da Solenidade que hoje celebramos. Em Maria, assunta ao Céu no final da sua vida terrena, resplandece a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, a qual entrou no mundo por causa do pecado de Adão. Foi Cristo, o “novo” Adão, que venceu a morte, oferecendo-se em sacrifício no Calvário, em atitude de amor obediente ao Pai. Assim, Ele nos resgatou da escravidão do pecado e do mal. No triunfo da Virgem, a Igreja contempla aquela que o Pai escolheu como verdadeira Mãe do seu Filho Unigênito, associando-a intimamente ao desígnio salvífico da Redenção.

É por isso que Maria, como bem evidencia a Liturgia, é sinal consolador da nossa esperança. Olhando para ela, arrebatada na exultação dos coros dos anjos, toda a existência humana, mesclada de luzes e sombras, se abre à perspectiva da eterna bem-aventurança. Se a experiência quotidiana nos faz experimentar como a peregrinação terrena está marcada pela incerteza e pela luta, a Virgem elevada à glória do Paraíso nos assegura que jamais nos faltará a proteção divina.


2. «Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol» (Ap 12,1).
Olhemos para Maria, caríssimos irmãos e irmãs, reunidos aqui em um dia tão querido à devoção do povo cristão. Saúdo-vos com grande afeto. Saúdo de modo particular o Cardeal Angelo Sodano, meu primeiro colaborador, e o Bispo de Albano, com o seu Auxiliar, agradecendo-lhes pela sua presença [1]. Saúdo também o pároco com os sacerdotes que o ajudam, os religiosos, as religiosas e todos os fiéis aqui presentes, de maneira especial os consagrados salesianos, a comunidade de Castel Gandolfo e a das Vilas Pontifícias. Estendo o meu pensamento aos peregrinos de diversas línguas que quiseram unir-se à nossa celebração. Desejo a cada um que viva com alegria a Solenidade deste dia, rica de motivos de meditação.

Um grande sinal apareceu para nós no céu hoje: a Virgem Mãe! É dela que o autor sagrado do Livro do Apocalipse nos fala com linguagem profética na 1ª Leitura. Que extraordinário prodígio se apresenta diante dos nossos olhos espantados! Acostumados a olhar para as realidades da terra, somos convidados a elevar o olhar para o Alto: para o Céu, que é a nossa Pátria definitiva, onde a Santíssima Virgem nos espera.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Ângelus: XIX Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 09 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Hoje o Evangelho nos fala de Jesus que, caminhando sobre as águas do mar da Galileia, vai ter com os discípulos no meio de uma tempestade (Mt 14,22-33).

Após o milagre dos pães e dos peixes (cf. Mt 14,13-21) o Mestre manda os seus discípulos embarcar e ir adiante, para a outra margem, enquanto Ele se retira em um monte, sozinho, para rezar. Longe da costa, porém, encontram-se à mercê do vento e têm dificuldade em avançar. Depois de uma experiência bem-sucedida, na qual tinham sido protagonistas de um sinal prodigioso, encontram-se agora impotentes e assustados perante a ameaça das ondas e do vento contrário.

No final da noite, Jesus vai ao encontro deles sobre as águas agitadas, e, assustados, o confundem com um fantasma (v. 26). Mas Ele lhes diz: «Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!» (v. 27). A presença do Senhor muda tudo: Pedro chega até mesmo a dar alguns passos sobre as ondas em direção a Ele; depois se assusta, começa a afundar e Jesus o salva. Quando o Mestre entra no barco, a tempestade se acalma e então brota espontaneamente do coração dos discípulos a profissão de fé: « Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus!» (v. 33).

Para chegar a este ponto não lhes bastou assistir a um milagre, nem ter tido bom êxito diante das pessoas: tiveram que passar pela experiência da própria fraqueza, reconhecendo nela a presença de Deus. Só assim conseguiram verdadeiramente abrir os olhos e o coração à sua proximidade, reencontrando a paz mesmo no meio da tempestade.

Um dia, mais tarde, Jesus lhes dirá: «Se tiverdes fé e não duvidardes (...), se disserdes a este monte: “Arranca-te daí e lança-te ao mar”, acontecerá» (Mt 21,21). E foi precisamente isso que eles experimentaram no lago: a paz de Cristo, que tinha estado na montanha rezando, alcançou-os no meio da fúria das águas.

Com efeito, este milagre nos ensina algo importante: em primeiro lugar, a não nos vangloriarmos do sucesso e a nunca nos considerarmos superiores aos outros; depois, a não perdermos a esperança, nem mesmo nos momentos de escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que, apesar dos nossos esforços, nos fazem pensar que estamos recuando em vez de avançar. Em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona e, se o acolhermos humildemente no barco da nossa vida - através da oração, dos Sacramentos e da escuta da Palavra -, n’Ele encontraremos a paz, a luz e a força para o nosso caminho.

Que Maria nos ajude a viver assim, com confiante abandono em Deus, ela que foi proclamada bem-aventurada pela sua fé (cf. Lc 1,45).

Jesus caminha sobre as águas
(Walter Rane)

Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Ângelus: XVIII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 02 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Quando ouvimos o Evangelho, frequentemente escutamos falar dos sinais realizados por Jesus: são gestos que manifestam a sua dedicação especial por nós, ou seja, a salvação que Ele traz ao mundo. O Senhor é recordado como Aquele que dá sentido à vida, libertando-a do mal e do pecado.

Ao dar a visão aos cegos e a audição aos surdos, Cristo não se limita a realizar milagres, mas anuncia a todos que o Reino de Deus está próximo. Por isso, o Evangelho de hoje (Mt 14,13-21) testemunha que Jesus não se limita a restaurar os sentidos a quem deles carece, mas também dá sabor aos nossos sentidos. A quem era surdo e passa a ouvir, o Senhor dirige a Boa Nova para ser ouvida; a quem era cego e passa a ver, mostra a esplêndida obra da redenção que é realizada por Ele. Da mesma forma, Jesus dá aos que têm fome o alimento para comer: o episódio da multiplicação dos pães significa que o encontro com o Senhor é uma experiência nutritiva. No deserto, ou seja, no lugar da nossa necessidade, Cristo é o pão da vida. Com Ele, o essencial é abundante: «Todos comeram e ficaram satisfeitos» e, com o que sobrou, «recolheram ainda doze cestos cheios» (v. 20). Este número realça que a dádiva do Senhor é universal e que a sua providência para conosco nunca falha.

Caríssimos, Cristo sacia verdadeiramente a fome da humanidade, a nossa fome de verdade e de vida. Ao mesmo tempo, o seu gesto ensina que nada se desperdiça quando é partilhado. A acumulação e o desperdício, por outro lado, são duas faces do mesmo mal: a ganância. Esta doença da alma faz perder o juízo, porque embriaga de riquezas, ao ponto de ignorar aqueles que choram de fome e clamam de sede. E assim, perante a opulência das coisas que perecem, estão as mãos estendidas de quem não tem o que comer, as casas incendiadas de quem não tem paz.

No deserto da guerra e da arrogância, observemos com que benevolência o Senhor «ergueu os olhos para o céu», «pronunciou a bênção», «partiu os pães e os deu» aos seus discípulos, para que os distribuíssem à multidão (v. 19). Neste milagre da caridade reconhecemos os gestos característicos de Jesus, que encontram na Última Ceia o seu ápice. Com efeito, nessa ocasião o Filho de Deus nos entrega a sua própria vida, como nosso irmão na humanidade. Enquanto saboreamos a graça da Eucaristia, comprometamo-nos a testemunhar a sua beleza nos nossos gestos quotidianos, a começar pela bênção da mesa, quando partilhamos o pão em família e entre amigos. Na companhia de Jesus, também as férias podem se tornar um tempo de serenidade fraterna, envolvendo aqueles que, ao nosso lado, se encontram em necessidade.

Peçamos, portanto, à Virgem Maria, mãe atenciosa, que nos faça crescer na caridade, para que a ninguém falte o pão de cada dia.

Multiplicação dos pães
(Vasily Nesterenko)

Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Ângelus: XVII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 26 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
No centro do ensinamento de Jesus está o mistério do Reino de Deus, que o Evangelho de hoje compara a uma pérola e a um tesouro (cf. Mt 13,44-52). As parábolas dão a entender a surpresa de quem encontra algo que nem sequer podia esperar, a tal ponto que vender ou deixar tudo já não aparece como uma renúncia, mas sim como um ganho. Na verdade, os evangelistas, desde as primeiras páginas, descrevem o chamado de Jesus a segui-lo como irresistível: livre, certamente, mas urgente e capaz de suscitar uma resposta imediata e movida pelo desejo. Este é um primeiro e importante aspecto do modo como Deus está próximo e se deixa encontrar: o encontro com o seu Reino é uma reviravolta que não restringe, mas alarga a vida. Se algo agora precisa mudar, é para trazer mais possibilidades, não menos.

Há um segundo aspecto ao qual Jesus parece dar muita importância: quem encontra o tesouro escondido no campo é provavelmente um agricultor; a pérola, por sua vez, é reconhecida como sendo de grande valor por um negociante, talvez um viajante. Seguem-se outras duas parábolas, nas quais os protagonistas são pescadores e um escriba entendido em coisas velhas e novas. Existem outras, ainda, nas quais o Reino se deixa vislumbrar em uma mulher que amassa a farinha, em outra que arruma a casa, em um rei que prepara a guerra, em um homem que projeta construir uma torre, em administradores que gerem pagamentos ou investimentos, em pastores e agricultores. O Reino de Deus, em suma, revela a sua beleza inestimável de diversas formas, mas chama todos - homens e mulheres, jovens e idosos, pobres e ricos - a uma profunda renovação. Todos podem compreendê-lo e são atraídos por ele.

Também hoje a Igreja é uma comunhão de pessoas diferentes quanto à sua origem, à cultura, às competências e ao nível de responsabilidade, mas todas chamadas a se reconhecerem como “um” em Jesus Cristo: é Ele o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede que recolhe os dispersos. Com efeito, desde o princípio, Jesus chamou e reuniu em torno de si pessoas que, de outro modo, nunca se teriam relacionado. Precisamente assim demonstrou que Deus não faz distinção de pessoas e que a sua eleição é predileção, especialmente por quem é pequeno e rejeitado.

Irmãos e irmãs, só nos resta pedir um dom, o mesmo que o jovem rei Salomão invocou (cf. 1Rs 3,5.7-12). É o dom de distinguir a pérola de grande valor, de saber reconhecer o tesouro pelo qual vale a pena vender tudo. Enquanto a indústria do consumo nos altera o paladar, suscitando sempre novas necessidades para depois nos vender respostas que não saciam e, por vezes, envenenam o coração, temos que aprender a perceber o que realmente importa, o tesouro da relação com Deus, que nos abre à alegria e ajuda a viver da melhor maneira as relações entre nós.

Que a intercessão de Maria, Sede da Sabedoria, oriente para Jesus o nosso desejo de vida, para que se realize em plenitude.


Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Ângelus: XVI Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 19 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Após a parábola do semeador, Jesus continua a falar às multidões por meio de algumas imagens: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento na farinha (Mt 13,24-43).

Trata-se de três pequenas parábolas que pretendem evocar a chegada do Reino de Deus na história, a sua ação na vida dos homens, a maneira como cresce, se expande e transforma o mundo a partir de dentro. Com esses relatos, Jesus nos adverte contra a tentação de pensar em Deus como uma figura poderosa, que se impõe pela força, que ocupa o espaço para dominar, que chega de forma triunfante. Pelo contrário, Deus prefere a pequenez, sinal de seu amor discreto. Ele nos deixa livres para acolhê-lo ou rejeitá-lo, procura abrir caminho mesmo em meio ao joio e age de forma oculta e invisível, como a menor de todas as sementes, fermentando a massa sem fazer barulho.

Irmãos e irmãs, com essas parábolas Jesus nos diz algo importante sobre o modo como Deus opera em nossa vida e na história. Às vezes esperamos algo espetacular, desejamos um Deus que intervenha do alto, arrancando imediatamente o joio, que é o mal. Imaginamos um Deus forte e poderoso e, infelizmente, também adequamos nossa maneira de ser cristãos e de ser Igreja a essa imagem. Em vez disso, o Reino de Deus se difunde também em meio ao joio e nos pede um olhar capaz de reconhecer o bem que brota mesmo nas trevas do mal, sem que julguemos tudo apressadamente. Ele vem como a menor das sementes e exige, portanto, a paciência de saber acompanhar os processos, reconhecendo-o na simplicidade do cotidiano e na singeleza da vida comum. Cresce invisivelmente, como o fermento na farinha, e assim nos liberta do desânimo, convidando-nos a ter confiança, ainda que nos pareça que Deus está ausente. Pois, na verdade, Ele nos acompanha continuamente e seu amor está sempre agindo em nosso favor.

Esse estilo de Deus deve se tornar também o modelo segundo o qual vivemos a realidade que nos rodeia, tanto como indivíduos quanto como Igreja. Somos chamados a assumir um estilo evangélico, sem adotarmos precipitadamente uma postura de oposição marcada por julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força e sem perdermos a confiança na obra de Deus. Trata-se - dizia o então Cardeal Ratzinger - de nos submetermos à lógica da semente, que não é a do sucesso e da grandeza, mas que nos pede para nos tornarmos pequenos e servirmos à vida das pessoas (cf. Discurso no Congresso dos Catequistas e dos Professores de Religião, 10 de dezembro de 2000). Assim, nós mesmos nos tornaremos como uma pequena semente do Evangelho que brota e como um fermento de amor que transforma a massa do mundo.

Oremos a Maria Santíssima, que soube acolher a semente da Palavra em sua humildade, para que ela nos sustente em nosso caminho e interceda por nós.


Fonte: Santa Sé.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ângelus: XV Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 12 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bom domingo!
Na Liturgia de hoje o evangelista Mateus nos apresenta a parábola do semeador (Mt 13,1-23), que descreve a generosidade e a confiança com que Deus espalha a sua Palavra no nosso coração e o seu poder em nós.

O próprio Jesus, o Verbo que se fez homem, que deu a sua vida pela nossa salvação, é a semente que o Pai continua a espalhar pelo mundo para que, ao morrer, dê muito fruto (cf. Jo 12,24). É verdade que, às vezes, Ele encontra em nós um terreno duro e insensível; outras vezes, distraído, semelhante ao solo batido dos caminhos, ao terreno pedregoso ou aos arbustos espinhosos; mas há momentos em que encontra uma terra receptiva e fértil, e então se desencadeiam milagres de amor capazes de mudar tudo, como também nós certamente já experimentamos na nossa vida. Por isso o Pai não desiste de semear, porque sabe que o poder do seu amor é mais forte do que a nossa fraqueza (cf. 2Cor 12,9-10).

É o que afirma São João Crisóstomo, referindo-se à “semente” da Palavra de Deus: «Como pode ser razoável semear entre espinhos, em terreno pedregoso, à beira do caminho? No caso das sementes e da terra, isso não seria razoável, mas no caso das almas e dos ensinamentos, isso é muito louvável» (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 44, 3). Na verdade, é possível que, nas mãos de Deus, «o terreno pedregoso se transforme, tornando-se terra fértil; que o caminho deixe de ser pisado e de estar exposto a todos os transeuntes, passando a ser solo fértil; que os espinhos sejam eliminados e as sementes desfrutem de uma situação de grande segurança» (ibid.).

A generosidade de Deus para conosco não é ingénua, mas sábia, e sabe aproveitar em nós a possibilidade de um bem que, por vezes, nem sequer percebemos. Por isso o Senhor, que conhece o terreno do nosso coração melhor do que nós mesmos, não deixa de acreditar em nós: naquilo que somos e naquilo em que podemos nos tornar, dia após dia, se nos entregarmos a Ele com fé.

Assim, a partir da gratuidade e confiança com que a semente é lançada e da humildade e disponibilidade com que é recebida, crescem em nós e se difundem, como ensina São Paulo, os frutos do Espírito Santo: «caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência» (Gl 5,22-23). Como o nosso mundo precisa destes frutos e de ser preenchido e transformado por eles!

Com efeito, especialmente nestes dias de férias, empenhemo-nos em dedicar tempo à escuta, à leitura e à meditação da Palavra de Deus, cultivando, junto ao descanso e à diversão saudável, momentos significativos de silêncio e oração. Retornaremos às nossas ocupações habituais renovados no corpo e no espírito, prontos para anunciar a Boa Nova do Evangelho e cada vez mais capazes de cooperar no crescimento do Reino de Deus.

Que Maria, Rainha dos Apóstolos e Estrela da Evangelização, nos ajude nisto.


Fonte: Santa Sé.

Confira também a meditação do Papa Leão XIV sobre a “parábola do semeador” na primeira Audiência Geral após sua eleição, no contexto do Jubileu Ordinário de 2025.

sábado, 25 de julho de 2026

Ângelus: XIV Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 05 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho da Liturgia de hoje (Mt 11,25-30) nos convida a partilhar o louvor que Jesus eleva ao Pai, «Senhor do céu e da terra» (v. 25). O Filho de Deus feito homem manifesta o seu amor envolvendo todas as criaturas nesta ação de graças.

A simplicidade de um gesto tão espontâneo e alegre corresponde ao estilo de Deus, que gosta de se revelar «aos pequeninos», enquanto permanece escondido «aos sábios e entendidos» (v. 25). Na verdade, estes estão de tal forma cheios das próprias ideias que não reconhecem a presença de Cristo, o Messias que visita o seu povo. A sabedoria humana, então, se torna arrogância e a doutrina degenera em soberba. Pelo contrário, a verdadeira sabedoria de Deus se revela na humildade da carne e o seu ensinamento se dirige àqueles que passam por maiores dificuldades: «Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados» (v. 28), diz o Senhor. Ir ao encontro de Jesus significa corresponder ao seu amor e partilhar a sua vida até a cruz, como Ele mesmo nos explicou: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (Mt 16,24). É precisamente o dom de si mesmo por amor que constitui o “jugo” de Jesus (cf. Mt 11,29), isto é, a síntese do seu ensinamento, o cerne da sua sabedoria, ardente de caridade para com todos.

Irmãos e irmãs, como pode ser “leve” e “suave” o peso da cruz (cf. v. 30)? Só por uma razão: porque o Senhor o carrega primeiro e com todos nós, sem nunca nos deixar sozinhos diante do que nos oprime. Como autêntico mestre, Jesus toma sobre si a humanidade ferida pelo mal, para cuidar dela. A sabedoria que Ele nos dá é um anúncio de salvação e o seu jugo nos levanta de todas as quedas. Ao seguir Cristo, o nosso caminho não é, portanto, uma ascese que mortifica: é uma escola de liberdade, que leva a sério o drama da história e ilumina sempre o seu sentido, sobretudo nos momentos mais sombrios. Com efeito, só na Cruz de Jesus é que o mal é redimido: só na sua Paixão é que o nosso cansaço mortal encontra consolo e resgate.

Em situações de escravidão, Cristo é libertação. No flagelo da guerra, Cristo é esperança. Na hora do pecado, Cristo é perdão. Esta é a verdadeira sabedoria, isto é, o caminho que queremos percorrer juntos, unidos como discípulos em seu nome. Jesus nos ensina isso como Filho, tornando-se nosso irmão: com a força do Espírito Santo, Ele mesmo manifesta à Igreja a verdade de Deus e do homem, pois «ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (v. 27).

Caríssimos, ao darmos graças ao Senhor por esta sua confidência cheia de amor, imploremos a intercessão de Maria, Rainha da Paz, pelo bem da Igreja e do mundo inteiro.

“Vinde a mim...”
(Igreja do Sagrado Coração de Jesus - Augsburg, Alemanha)

Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Ângelus: Solenidade de São Pedro e São Paulo (2026)

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Segunda-feira, 29 de junho de 2026

Irmãos e irmãs, bom dia!
Celebramos hoje a Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, Padroeiros de Roma. Esta festa recorda o vínculo originário que une, em uma comunhão de fé e caridade, a Igreja que está em Roma a todas as outras Igrejas do mundo.

O testemunho destes dois Apóstolos é quase um selo do Novo Testamento. O sangue derramado por eles nesta cidade revela até onde chega o amor de Deus que o Senhor Jesus nos concedeu. Sim, foi graças à sua palavra e ao seu martírio que o Evangelho de Cristo se enraizou, por assim dizer, em Roma, manifestando precisamente aqui, na capital do Império, a sua capacidade de renovação: um novo conhecimento de Deus e da infinita dignidade de cada ser humano, uma nova experiência da força, não como domínio, mas como serviço à vida.

O Senhor, que morreu e ressuscitou por amor, ainda hoje se torna presente nas suas testemunhas, chega aos centros e às periferias, às capitais e às regiões mais remotas, através das vozes, dos rostos e das escolhas corajosas daqueles que responderam ao seu convite: “Segue-me!”. Assim, este dia de festa nos envolve na missão de Pedro e Paulo, ou seja, na missão do próprio Jesus. Deus confia em nós, que somos pecadores perdoados por Ele, em nós que não somos perfeitos, para que a sua graça brilhe nas nossas histórias e se revele a sua força, que muda o mal em bem.

Caríssimos, talvez Pedro e Paulo não pudessem ter sido mais diversos um do outro. Diversos na origem, na formação e no caráter; não só antes de terem sido chamados, mas também depois; e o seu único Senhor não os uniformizou. O Evangelho é compreendido e anunciado com um sotaque específico por cada um deles; e o Espírito Santo, ao inspirar os autores bíblicos, não quis que ficassem escondidas as suas divergências, as quais na verdade nos são narradas como uma boa nova. Todavia, no colégio dos Apóstolos, Pedro e Paulo não foram adversários. Pelo contrário, tornaram-se quase o símbolo de muitas outras diversidades que o único Espírito compõe em unidade. Assim, os Padroeiros da Igreja de Roma viveram o esforço da comunhão, conhecendo-a, servindo-a e anunciando-a como sacramento da vida divina. O seu testemunho contribuiu de forma determinante para que a presença cristã na história se orientasse não para o domínio, mas para o serviço, a unidade e a reconciliação.

Por intercessão de São Pedro e São Paulo o Senhor nos conceda apreciar cada vez mais a catolicidade da Igreja, reconhecer o seu valor a serviço do encontro fraterno entre as pessoas e os povos, evitar tudo o que desgasta ou prejudica a comunhão, e perseverar no caminho ecumênico e no diálogo atento e franco com todos.

Que Maria, Rainha dos Apóstolos, proteja sempre o Povo de Deus, em Roma e no mundo inteiro.

São Pedro e São Paulo (José de Ribera)

Fonte: Santa Sé.

sábado, 18 de julho de 2026

Ângelus: XIII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 28 de junho de 2026

Irmãos e irmãs, bom domingo!
Também no Evangelho de hoje (Mt 10,37-42) escutamos algumas exortações de Jesus para vivermos o seguimento e sermos testemunhas do seu Reino. Não se trata de uma ação exterior, mas de nos dedicarmos totalmente a uma relação de amor com Ele. E para dar fruto, o amor requer pelo menos três coisas: o desapego, a perda e a acolhida.

Em primeiro lugar, o desapego. Jesus diz: «Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim» (v. 37). Quando começa a enviar os seus Apóstolos em missão, o Senhor deseja que eles sejam livres de qualquer vínculo. Mas é válido para todos que mesmo os afetos mais importantes encontram a sua plenitude graças ao amor que Cristo nos dá. Pensemos, por exemplo, na vida matrimonial: só é possível vivê-la plenamente “deixando” a casa dos pais (cf. Mt 19,6) para dedicar-se à relação conjugal. Pensemos também no crescimento dos filhos: só é possível ajudá-los a realizar-se e a ser felizes, educando-os a “caminhar com as próprias pernas” e a fazer as suas escolhas. Diz Santo Agostinho: «É doloroso separar-se daquilo que se ama. Mas mesmo o agricultor perde temporariamente o que semeia» (Sermão 330, 2). Só “perdendo” aquela semente, lançada à terra, é que poderá vê-la florescer.

Neste sentido, o amor é também perda. É difícil compreendê-lo, especialmente em um mundo no qual perder parece ser uma fraqueza e se vive obcecado por ter e possuir. O amor, porém, só produz fruto ao doar-se: quando estamos dispostos a perder um pouco do nosso “eu” para dar espaço ao outro, a perder um pouco de tempo para escutar um amigo, a perder um pouco de conforto para compartilhar uma situação de dificuldade. Quem conserva a vida apenas para si mesmo, diz o Evangelho, na realidade a perde (cf. v. 39), porque ela não se abre à alegria do amor e se torna estéril. Por isso Jesus nos convida a abraçar a Cruz: Ele se ofereceu, perdeu-se a si mesmo e, precisamente assim, pudemos receber a sua vida em abundância. Da mesma forma, se vivermos segundo a lógica do dom, também nós seremos capazes de gerar vida nova nas nossas relações.

Por fim, a acolhida. O amor, com efeito, se expressa em escolhas e ações concretas, em um empenho feito de pequenos gestos quotidianos, como oferecer um copo de água a quem tem sede (cf. v. 42). Jesus, enviando os seus discípulos à sua frente, lhes pede para irem sem provisões, isto é, para serem necessitados, pois assim poderão suscitar acolhida naqueles que encontrarem. Deste modo, acolhendo quem vem em nome de Jesus, se acolhe Ele e o Pai celeste que o enviou. O amor ao Senhor passa sempre pela acolhida dos irmãos.

Caríssimos, rezemos à Virgem Maria, que amou o seu Filho sabendo também perdê-lo: que ela nos ajude a ser testemunhas humildes e alegres do amor de Cristo.


Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Ângelus: XII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 21 de junho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
No Evangelho da Liturgia de hoje (Mt 10,26-33), Jesus, ao enviar os discípulos em missão, lhes dirige, entre outras coisas, esta exortação: «O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!» (v. 27).

Ele estabelece uma ligação entre o que ouvimos “ao pé do ouvido”, isto é, no íntimo do coração, e aquilo que somos chamados a proclamar a todos, recordando-nos que o anúncio do Evangelho é, antes de tudo, a partilha de um encontro pessoal com Ele, único para cada um.

A força do apostolado, com efeito, para além de técnicas e instrumentos, se baseia na ação do Espírito Santo em nós e na autenticidade da nossa resposta. Santo Tomás de Aquino se referia à pregação como a transmissão aos outros daquilo que contemplamos: «contemplata aliis tradere» (cf. Suma Teológica, III, q. 40, a. 1, ad 2).

E não devemos pensar que a contemplação seja uma experiência exclusiva, reservada a alguns santos ou aos monges e eremitas. Todos nós podemos fazê-la, esforçando-nos por reservar, entre as ocupações do nosso dia-a-dia, momentos de quietude nos quais nos colocamos em silêncio diante de Deus, para ouvir a sua voz, confiar-lhe as nossas alegrias e preocupações, examinar com Ele a nossa vida. Isto nos torna cada vez mais pessoas de uma fé sólida e consciente e, consequentemente, apóstolos credíveis e livres, homens e mulheres capazes de refletir a luz do Evangelho em cada ambiente e em cada situação da vida, e de testemunhá-lo mesmo onde o seu valor não é compreendido ou aceito.

São Mateus, autor da passagem bíblica a que nos referimos, escrevia para comunidades que não tinham uma vida fácil. Deviam enfrentar hostilidades e perseguições, como acontece ainda hoje a tantos cristãos em vários lugares do mundo, e a tentação de desanimar e de se deixar vencer pelo cansaço ou pelo medo era grande.

Como naquela época, também hoje é um desafio permanecer fiéis aos ensinamentos de Jesus e anunciar a sua Palavra: responder ao ódio com o amor, à arrogância com a mansidão, ao desânimo com a perseverança. Por isso, é necessário que aprofundemos as raízes da nossa fé e a nossa missão em uma relação intensa com Ele (cf. Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 8). Esta relação nos dá a força para não desistirmos e para continuarmos a transmitir a todos, em cada circunstância, a sua mensagem de esperança, de amor e de paz. O mundo precisa tanto disso!

Que a Virgem Maria nos ajude a ser discípulos missionários do Senhor Jesus, cada um segundo a sua vocação.


Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Ângelus: XI Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 14 de junho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho de hoje (Mt 9,36–10,8) nos traz um grande presente, pois envolve todos aqueles que o escutam sob o olhar de Jesus: é um relato que, além de nos dizer o que o Senhor observa, testemunha a atenção do seu olhar. Com efeito, lemos que «vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas» (v. 36). Fazendo-se nosso irmão, o Filho de Deus olha para as pessoas, olha para a humanidade: vê a opressão que subjuga e a violência que tira as forças. Vê as feridas das guerras e o vazio do consumismo. Vê rostos reduzidos a máscaras, famílias destruídas pelo mal e jovens iludidos por falsos ideais. Jesus vê e ama. Ama e sofre por nós e conosco: a sua compaixão expressa não só proximidade fraterna, mas também vontade de redenção.

Ele, com efeito, conhece o nosso coração e cuida dele: diante de tantas pessoas que são «como ovelhas que não têm pastor» (v. 36), Cristo se dedica a todas como bom pastor e, como senhor da messe, envia trabalhadores para o campo do mundo (cf. v. 38). Qual é o trabalho que devem realizar? Oferecer o conforto de Deus a quem sofre: levar caridade onde há miséria, esperança onde há aflição, fé onde há desconfiança.

O Evangelho menciona os nomes dos primeiros doze “trabalhadores”: são discípulos feitos apóstolos, isto é, missionários e pregadores. Entre eles está Simão, chamado Pedro, o primeiro, e também Judas Iscariotes, o último, para nos lembrar que é possível seguir Jesus e traí-lo, mas o Evangelho permanece para todos como palavra viva e verdadeira. A Boa Nova que atravessa os séculos é idêntica, sempre jovem, fresca e libertadora: «O Reino dos Céus está próximo» (Mt 10,7)! Sim, está próximo porque, em Jesus Cristo, Deus se faz próximo de cada homem e mulher, de cada povo e nação. Quando este Evangelho é anunciado e praticado, o mal desmorona como uma doença que chega ao fim (cf. v. 8), como uma noite que dá lugar à aurora, como a morte vencida pelo Ressuscitado.

É assim que o olhar de Jesus transforma a realidade: plena de amor, a sua iniciativa dá vida a um povo novo, a Igreja, chamado a continuar a missão dos Apóstolos: «De graça recebestes, de graça deveis dar» (v. 8). Sim, o dom de Jesus é totalmente gratuito, porque o seu valor ultrapassa toda medida: é impossível merecê-lo ou “comprá-lo”. Esta graça é o belíssimo nome da misericórdia de Deus, que nos alcança em qualquer lugar, para nos levar a si. «Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita» (Mt 9,38)!

Caríssimos, a tarefa de evangelizar nasce do dom de Deus que, em Cristo, se torna perdão para o mundo, serviço aos pequenos e pobres, compromisso pela justiça. Peçamos a ajuda da Virgem Maria, cheia de graça, para respondermos com alegria e coragem à missão à qual Jesus nos chama.

Cristo com os Doze Apóstolos [1]

Fonte: Santa Sé.

Nota
[1] Fachada da Basílica de Santa Maria de Montserrat (Espanha), visitada pelo Papa no dia 10 de junho de 2026.

domingo, 28 de junho de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: São Pedro e São Paulo (2006)

Há 20 anos, no dia 29 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, na Basílica Vaticana.

Recordamos aqui sua homilia (centrada na missão de Pedro) e sua meditação durante a oração do Ângelus na ocasião:

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Concelebração Eucarística e Imposição do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 29 de junho de 2006

1. «Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja» (Mt 16,18). O que o Senhor diz exatamente a Pedro com estas palavras? Que promessa lhe faz com elas e que tarefa lhe confia? E o que diz a nós - ao Bispo de Roma, que está na Cátedra de Pedro, e à Igreja de hoje?

Se quisermos compreender o significado das palavras de Jesus, é útil recordar que os Evangelhos nos narram três situações diversas nas quais o Senhor, cada vez de um modo particular, transmite a Pedro a tarefa que deverá realizar. Trata-se sempre da mesma tarefa, mas, pela diversidade das situações e das imagens usadas, torna-se mais claro para nós o que queria e o que quer dele o Senhor.


2. No Evangelho de Mateus que ouvimos há pouco, Pedro faz sua profissão de fé a Jesus, reconhecendo-o como Messias e Filho de Deus. Com base nisso lhe é conferida sua tarefa particular mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra fundamental ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Neste momento não pretendo interpretar mais uma vez estas três imagens que a Igreja, ao longo dos séculos, explicou sempre de novo; desejaria antes chamar a atenção para o lugar geográfico e o contexto cronológico destas palavras.

A promessa é feita junto às fontes do rio Jordão, na fronteira da terra judaica, nos confins com o mundo pagão. O momento da promessa marca uma virada decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor se encaminha para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho rumo à Cidade Santa é o caminho rumo à Cruz: «Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (Mt 16,21).

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Ângelus: Santíssima Trindade - Ano A (2026)

Solenidade da Santíssima Trinidade
Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 31 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Há uma semana, com a Solenidade de Pentecostes, se concluiu o Tempo Pascal. Celebrando hoje o Mistério do Deus Trindade, nos é oferecida a oportunidade de repensar o caminho percorrido a partir do seu centro: a vida de Deus que nos foi dada em Jesus Cristo. Esta vida é uma comunhão dinâmica, inesgotável, fecunda, que agora nos envolve: o Espírito que une o Pai e o Filho, com efeito, foi derramado nos nossos corações, de modo que no mundo toma forma a Igreja, sacramento de comunhão, espaço de encontro, de amor e de vida no qual o céu e a terra já se tocam.

O Evangelho da Liturgia de hoje (Jo 3,16-18) nos apresenta Nicodemos, uma importante personalidade de Israel que se sentiu profundamente atraído por Jesus. Com efeito, foi encontrá-lo - à noite, para não ser visto -, ansioso por conhecer melhor este misterioso Mestre e de fazer-lhe algumas perguntas. Recebendo-o, o Senhor deu importância à sua busca. Surpreendeu-o, indicando-lhe que também um adulto pode renascer; deixou-o intuir que a vida de Deus poderia transformar a sua vida. Jesus falou a Nicodemos sobre o Espírito Santo, iluminou a sua noite com a verdade que, na festa de hoje, ressoa em todas as nossas igrejas: «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que não morra todo o que n’Ele crer, mas tenha a vida eterna» (v. 16). E ainda: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (v. 17).

Caríssimos, no Mistério de Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, estamos em casa, assim como Nicodemos se sentiu em casa junto a Jesus. A vida de Deus é maravilhosa e envolvente, traz paz ao nosso coração, muitas vezes tão inquieto, e nos faz encontrar irmãos e irmãs na alegria do Espírito. A Trindade nos leva a amar tudo e todos: descobrimos que cada criatura foi feita para a comunhão, a relação, o encontro. E, por contraste, compreendemos porque as divisões, as polarizações, o desprezo pelas diversidades trazem ao mundo destruição, tristeza e aridez.

Nicodemos fazia parte do Sinédrio, o Conselho dos chefes de Israel. Quando ouviu ali palavras de desprezo contra Jesus, convidou todos a ouvi-lo antes de condená-lo. Tinha recebido de Deus, através do próprio Cristo, o Espírito de comunhão, que abre o coração à nova verdade e à verdadeira novidade. Quem não acolhe este Espírito envelhece cedo, na lamentação; encontra-se sozinho, nunca tem alegria no coração. Hoje, porém, queridos irmãos e irmãs, é festa! A festa de Deus é a nossa festa. Por isso São Paulo escreve aos coríntios: «Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco» (2Cor 13,11).

E agora, com a oração do Ângelus, dirigimo-nos à Virgem Maria: no seu “sim” à Vontade divina floresça também o nosso “sim” ao amor da Santíssima Trindade.

“Trindade misericordiosa”:
O Pai, o Filho e o Espírito Santo de debruçam sobre o ser humano

Fonte: Santa Sé.