Há 20 anos, na tarde da Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro.
Como de costume, a homilia foi confiada ao Pregador da Casa Pontifícia, Padre Raniero Cantalamessa, que seria criado Cardeal em 2020). Em seu reflexão este recordou a primeira Encíclica do Papa, Deus caritas est, publicada em dezembro de 2005:
Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006
Deus demonstra o seu amor por nós
1. “Cristãos, movei-vos com mais firmeza”
«Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas» (2Tm 4,3-4).
Estas palavras da Escritura - sobretudo a referência ao prurido da curiosidade - está se realizando de modo novo e impressionante nos nossos dias. Enquanto nós celebramos aqui a recordação da Paixão e Morte do Salvador, milhões de pessoas são levadas por hábeis modificadores de lendas antigas a crer que Jesus de Nazaré, na realidade, nunca foi crucificado. Nos Estados Unidos é um best seller do momento uma edição do Evangelho de Tomé, apresentado como o Evangelho que «nos evita a crucificação, torna desnecessária a Ressurreição e não nos obriga a crer no Deus chamado Jesus» [1].
O maior estudioso bíblico da história da Paixão, Raymond Brown, escreveu há alguns anos: «É uma constatação pouco lisonjeira para a natureza humana: quanto mais fantástico é o cenário imaginado, mais sensacional é a propaganda que recebe e maior o interesse que suscita. Pessoas que nunca se dedicariam a ler uma análise séria das tradições históricas sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, sentem-se fascinadas por qualquer teoria nova segundo a qual Ele não foi crucificado e não morreu, especialmente se a continuação da história inclui a sua fuga com Maria Madalena para a Índia - ou para a França, segundo a versão mais atualizada... Essas teorias demonstram que quando se trata da Paixão de Jesus, apesar da expressão popular, a fantasia supera a realidade e, infelizmente, também rende mais» [2].
Fala-se tanto da traição de Judas e não percebemos que a estamos renovando. Cristo continua sendo vendido, não mais aos chefes do Sinédrio por trinta denários, mas a editores e livreiros por milhões de denários... Ninguém conseguirá para esta tendência especulativa, que, ao contrário, aumentará com o iminente lançamento de certo filme, mas, tendo-me ocupado por anos de história das origens cristãs, sinto o dever de chamar a atenção para um grande equívoco que está na base de toda esta literatura pseudo-histórica.





















