Mostrando postagens com marcador Raniero Cantalamessa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Raniero Cantalamessa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão (2006)

Há 20 anos, na tarde da Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro.

Como de costume, a homilia foi confiada ao Pregador da Casa Pontifícia, Padre Raniero Cantalamessa, que seria criado Cardeal em 2020). Em seu reflexão este recordou a primeira Encíclica do Papa, Deus caritas est, publicada em dezembro de 2005:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006
Deus demonstra o seu amor por nós

1. “Cristãos, movei-vos com mais firmeza

«Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas» (2Tm 4,3-4).

Estas palavras da Escritura - sobretudo a referência ao prurido da curiosidade - está se realizando de modo novo e impressionante nos nossos dias. Enquanto nós celebramos aqui a recordação da Paixão e Morte do Salvador, milhões de pessoas são levadas por hábeis modificadores de lendas antigas a crer que Jesus de Nazaré, na realidade, nunca foi crucificado. Nos Estados Unidos é um best seller do momento uma edição do Evangelho de Tomé, apresentado como o Evangelho que «nos evita a crucificação, torna desnecessária a Ressurreição e não nos obriga a crer no Deus chamado Jesus» [1].


O maior estudioso bíblico da história da Paixão, Raymond Brown, escreveu há alguns anos: «É uma constatação pouco lisonjeira para a natureza humana: quanto mais fantástico é o cenário imaginado, mais sensacional é a propaganda que recebe e maior o interesse que suscita. Pessoas que nunca se dedicariam a ler uma análise séria das tradições históricas sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, sentem-se fascinadas por qualquer teoria nova segundo a qual Ele não foi crucificado e não morreu, especialmente se a continuação da história inclui a sua fuga com Maria Madalena para a Índia - ou para a França, segundo a versão mais atualizada... Essas teorias demonstram que quando se trata da Paixão de Jesus, apesar da expressão popular, a fantasia supera a realidade e, infelizmente, também rende mais» [2].

Fala-se tanto da traição de Judas e não percebemos que a estamos renovando. Cristo continua sendo vendido, não mais aos chefes do Sinédrio por trinta denários, mas a editores e livreiros por milhões de denários... Ninguém conseguirá para esta tendência especulativa, que, ao contrário, aumentará com o iminente lançamento de certo filme, mas, tendo-me ocupado por anos de história das origens cristãs, sinto o dever de chamar a atenção para um grande equívoco que está na base de toda esta literatura pseudo-histórica.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (4)

Com esta publicação concluímos as meditações do Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, sobre a teologia do Oriente e do Ocidente, proferidas durante a Quaresma de 2015 e repropostas aqui no contexto dos 1700 anos do I Concílio de Niceia (325).

Confira nesta quarta e última postagem a meditação sobre o mistério da salvação:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
V pregação de Quaresma
27 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério da salvação

Com esta meditação encerramos o nosso percurso pela fé comum do Oriente e do Ocidente, e o encerramos com o que nos diz respeito mais diretamente: o problema da salvação, ou seja, como ortodoxos e o mundo latino compreenderam o conteúdo da salvação cristã.

É, provavelmente, o campo em que é mais necessário para nós, latinos, voltar o olhar para o Oriente, a fim de enriquecer e, em parte, corrigir o nosso modo difuso de conceber a redenção operada por Cristo. Temos o privilégio de fazê-lo nesta Capela, onde a obra de Cristo e do mistério da salvação foi representada pela arte do Padre Rupnik, de acordo com a concepção da Igreja do Oriente e da iconografia bizantina.

Juízo final, tendo ao centro Cristo Redentor

Vamos começar com uma autorizada apresentação do modo diferente de entender a salvação entre Oriente e Ocidente, exposta no Dictionnaire de Spiritualité e que sintetiza a opinião dominante nos círculos teológicos:
“O propósito da vida para os cristãos gregos é a divinização; o dos cristãos do Ocidente é a conquista da santidade... O Verbo se fez carne, de acordo com os gregos, para restituir ao homem a semelhança divina perdida em Adão e para divinizá-lo. De acordo com os latinos, Ele se fez homem para redimir a humanidade... e para pagar a dívida devida à justiça de Deus” [1].

Procuraremos ver em que se baseia essa diferença de visão e o que há de verdadeiro na maneira de apresentá-la.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (3)

No contexto da celebração dos 1700 anos do I Concílio de Niceia (325) pelas Igrejas do Oriente e do Ocidente estamos recordando as quatro meditações do Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, sobre a teologia do Oriente e do Ocidente durante a Quaresma de 2015

Propomos a seguir a terceira meditação, sobre o mistério do Espírito Santo:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
IV pregação de Quaresma
20 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério do Espírito Santo

Meditaremos hoje sobre a fé comum do Oriente e do Ocidente no Espírito Santo e procuraremos fazê-lo “no Espírito”, em sua presença, sabendo que, como diz a Escritura, “antes mesmo de nossa palavra chegar à língua, Ele já a conhece” (cf. Sl 138,4).

1. Rumo ao acordo sobre o Filioque

Durante séculos a doutrina sobre a origem do Espírito Santo no seio da Trindade foi o ponto de maior atrito e tema de acusações mútuas entre o Oriente e o Ocidente, por causa do famoso “Filioque”. Tentarei reconstruir o estado da questão para avaliar melhor a graça que Deus está nos dando de chegar ao entendimento também neste problema espinhoso.

Vitral do Espírito Santo
(Abside da Basílica de São Pedro)

A fé da Igreja no Espírito Santo foi definida, como se sabe, no Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 381, com as seguintes palavras: “(cremos) no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, Ele que falou pelos profetas” (Denzinger, n. 150). Esta fórmula contém a resposta para as duas perguntas fundamentais sobre o Espírito Santo. À pergunta “quem é o Espírito Santo”, responde-se que é “Senhor” (isto é, pertence à esfera do Criador, não das criaturas), que procede do Pai e, na adoração, é igual ao Pai e ao Filho; à pergunta “o que o Espírito Santo faz”, responde-se que Ele “dá a vida” (o que resume toda a obra santificadora, interior e renovadora do Espírito) e que “falou pelos profetas” (o que resume a ação carismática do Espírito Santo).

sexta-feira, 28 de março de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (2)

Neste ano de 2025, no qual as Igrejas do Oriente e do Ocidente celebram os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), recordamos as quatro meditações sobre a teologia do Oriente e do Ocidente proferidas pelo Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, durante a Quaresma de 2015.

Confira nesta postagem a segunda meditação, sobre o mistério da Pessoa de Cristo:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
III pregação de Quaresma
13 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério da Pessoa de Cristo

1. Paulo e João: o Cristo visto de dois ângulos

Em nosso esforço de compartilhar os tesouros espirituais do Oriente e do Ocidente, vamos refletir hoje sobre a fé comum em Jesus Cristo. Tentemos fazê-lo como quem fala de alguém presente, não de um ausente. Se não fosse pelo nosso “peso” humano, que nos atrapalha, deveríamos pensar que, toda vez que pronunciamos o nome de Jesus, Ele se sente chamado pelo nome e se volta para nos olhar. Hoje também Ele está aqui conosco e escuta o que diremos d’Ele (esperemos que com indulgência).

Cristo Pantocrator
(Catedral de Cefalù, Itália)

Comecemos pelas raízes bíblicas da “questão Jesus”. No Novo Testamento vemos delinear-se duas vias de expressão do mistério de Cristo. A primeira delas é a de São Paulo. Resumamos os traços peculiares dessa linha, os traços que a tornarão modelo e arquétipo cristológico no desenvolvimento do pensamento cristão. Esta linha:
- Parte da humanidade para alcançar a divindade de Cristo; parte da história para atingir a pré-existência; é, portanto, um caminho ascendente; segue a ordem do manifestar-se de Cristo, a ordem em que os homens o conheceram, não a ordem do ser;
- Parte da dualidade de Cristo (carne e espírito) para chegar à unidade do sujeito “Jesus Cristo, nosso Senhor”;
- Tem no centro o Mistério Pascal, o operatum, mais do que a pessoa de Cristo. O grande marco entre as duas fases da existência de Cristo é a Ressurreição dos mortos.

Para nos convencermos de que esta consideração é acertada, basta reler a densíssima passagem, uma espécie de credo embrionário, com que o Apóstolo começa a Carta aos Romanos. O mistério de Cristo é assim resumido: “Descendente de Davi segundo a carne, autenticado como Filho de Deus com poder, pelo Espírito de santidade que o ressuscitou dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1,3-4).

sexta-feira, 21 de março de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (1)

Neste ano de 2025 celebramos os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), que contou com a participação de Bispos do Oriente e do Ocidente.

Aproveitamos a ocasião para recordar as quatro meditações sobre a teologia do Oriente e do Ocidente proferidas pelo Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, durante a Quaresma de 2015 (precedidas de uma meditação sobre a Exortação Apostólica Evangelii gaudium).

Confira a seguir a primeira meditação, dedicada ao mistério da Trindade:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
II pregação de Quaresma
06 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério da Trindade

1. Compartilhar o que nos une

A recente visita do Papa Francisco à Turquia (novembro de 2014), que terminou com o encontro com o Patriarca Ortodoxo Bartolomeu e, especialmente, a sua exortação a compartilhar plenamente a fé comum do Oriente cristão e do Ocidente latino, me convenceram da utilidade de usar as meditações quaresmais deste ano para atender esse desejo do Papa, que é desejo, também, de toda a cristandade.

Este desejo de compartilhar não é novo. O Concílio Vaticano II, na Unitatis Redintegratio, já exortava a uma especial atenção às Igrejas Orientais e às suas riquezas (n. 14). São João Paulo II, na Carta Apostólica Orientale Lumen, de 1995, escreveu: “Porque acreditamos que a venerável e antiga tradição das Igrejas Orientais é parte integrante do patrimônio da Igreja de Cristo, a primeira necessidade para os católicos é conhecê-la, a fim de poderem nutrir-se dela e favorecer, do modo possível a cada um, o processo da unidade” (n. 1).

Ícone da Trindade (detalhe)

O mesmo Santo Pontífice formulou um princípio que eu considero fundamental para o caminho da unidade: “compartilhar as muitas coisas que nos unem e que certamente são mais numerosas do que as coisas que nos dividem” (Tertio millennio adveniente, n. 16). A Ortodoxia e a Igreja Católica compartilham a mesma fé na Trindade; na Encarnação do Verbo; em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem em uma só pessoa, que morreu e ressuscitou para a nossa salvação, que nos deu o Espírito Santo; acreditamos que a Igreja é o seu Corpo animado pelo Espírito Santo; que a Eucaristia é “fonte e ápice da vida cristã”; que Maria é a Theotokos, a Mãe de Deus; que temos como destino a vida eterna. O que pode haver de mais importante do que isto? As diferenças se manifestam na maneira de entender e de explicar alguns desses mistérios e, portanto, são secundárias, não primárias.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Raniero Cantalamessa: III pregação de Advento 2014

“A paz de Cristo reine nos vossos corações” (Cl 3,15).

Há 10 anos, durante o Advento de 2014, o Padre Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia de 1980 a 2024 (criado Cardeal em 2020), proferiu três meditações sobre a paz. Confira nesta postagem a terceira e última reflexão:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
III Pregação de Advento
19 de dezembro de 2014

“A paz de Cristo reine nos vossos corações” (Cl 3,15):
A paz, fruto do Espírito

1. A paz, fruto do Espírito

Depois de refletir sobre a paz como dom de Deus em Cristo Jesus para toda a humanidade e sobre a paz como tarefa pela qual trabalhar, vamos falar agora da paz como fruto do Espírito. São Paulo coloca a paz em terceiro lugar entre os frutos do Espírito: “O fruto do Espírito - diz ele - é amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5,22).

Descobrimos o que são os “frutos do Espírito” ao analisar, justamente, o contexto dessa ideia. O contexto é o da luta entre a carne e o espírito, isto é, entre o princípio que regula a vida do homem velho, cheio de concupiscências e desejos terrenos, e o que regula a vida do homem novo, guiado pelo Espírito de Cristo. Na expressão “frutos do Espírito”, “Espírito” não indica o Espírito Santo em si mesmo, mas o princípio da nova vida, ou “o homem que se deixa guiar pelo Espírito”.

A pomba com o ramo de oliveira, símbolo da paz

Diferentemente dos carismas, que são obra exclusiva do Espírito, que os dá a quem quer e quando quer, os frutos são o resultado de uma colaboração entre a graça e a liberdade. Eles são, portanto, o que hoje queremos dizer por virtude, se dermos a essa palavra o sentido bíblico de um agir habitual “segundo Cristo”, ou “segundo o Espírito”, em vez do sentido filosófico aristotélico de um agir habitual “de acordo com a reta razão”. Além disso, os dons do Espírito são diferentes de pessoa para pessoa, enquanto os frutos do Espírito são os mesmos para todos. Nem todos na Igreja podem ser apóstolos, profetas, evangelistas; mas todos indistintamente, do primeiro ao último, podem e devem ser caridosos, pacientes, humildes, pacíficos...

A paz fruto do Espírito, portanto, é diferente da paz como dom de Deus e da paz como tarefa pela qual trabalhar. Ela indica a condição habitual (habitus), o estado de ânimo e o estilo de vida de quem, mediante o esforço e a vigilância, chegou a certa pacificação interior. A paz fruto do Espírito é a paz do coração. E é dessa coisa tão bela e tão desejada que vamos falar hoje. Ela é diferente, sim, da tarefa de sermos pacificadores, mas nos ajuda maravilhosamente a atingir este objetivo. O título da Mensagem do Papa João Paulo II para a Jornada Mundial da Paz de 1984 era: “A paz nasce de um coração novo”. E Francisco de Assis, ao mandar os seus frades para todo o mundo, lhes recomendava: “A paz que anunciais com a boca, tende-a primeiro nos vossos corações” [1].

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Raniero Cantalamessa: II pregação de Advento 2014

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Há 10 anos, durante o Advento de 2014, o Padre Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia de 1980 a 2024 (criado Cardeal em 2020), proferiu três meditações sobre a paz. Confira nesta postagem sua segunda reflexão:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
II Pregação de Advento
12 de dezembro de 2014

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9):
A paz como tarefa

Depois de meditar, na primeira pregação, sobre a paz como dom de Deus, vamos refletir agora sobre a paz como tarefa e compromisso pelo qual devemos trabalhar. Somos chamados a imitar o exemplo de Cristo, tornando-nos canais para que a paz de Deus chegue aos nossos irmãos. É a tarefa que Jesus dá aos seus discípulos quando proclama “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). O termo eirenopoioi não significa “pacíficos” (estes pertencem à bem-aventurança dos mansos, dos não violentos), significa “pacificadores”, isto é, pessoas que trabalham pela paz.

A pomba com o ramo de oliveira, símbolo da paz

1. A paz de Jesus e a paz de César Augusto

Jesus não só nos exortou a ser pacificadores como também nos ensinou, pelo exemplo e pela palavra, de que modo podemos nos tornar pacificadores. Ele diz aos discípulos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo” (Jo 14,27). Naquela mesma época outro grande homem proclamava a paz ao mundo. Foi encontrada na Ásia Menor uma cópia do famoso “Atos do Divino Augusto”, redigido pelo próprio Imperador César Augusto. Nele, entre as suas grandes conquistas, o Imperador romano também cita a de ter estabelecido no mundo a paz de Roma: uma paz, como ele escreve, “obtida através de vitórias” (parta victoriis pax) [1].

Jesus revela que existe outro modo de realizar a paz. A d’Ele também é uma “paz fruto de vitórias”, mas de vitórias sobre nós mesmos, não sobre os outros; de vitórias espirituais, não militares. Na cruz, escreve São Paulo, Jesus “destruiu em si mesmo a inimizade” (Ef 2,16): destruiu a inimizade, não o inimigo, e a destruiu em si mesmo, não nos outros.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Raniero Cantalamessa: I pregação de Advento 2014

“Eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27).

Há 10 anos, durante o Advento de 2014, o Padre Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia de 1980 a 2024 (criado Cardeal em 2020), proferiu três meditações sobre a paz. Confira a seguir a primeira das três reflexões:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
I Pregação de Advento
05 de dezembro de 2014

“Eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27):
A paz como dom de Deus em Jesus Cristo

1. Estamos em paz com Deus!

Se pudéssemos ouvir o grito mais forte que existe no coração de bilhões de pessoas, ouviríamos, em todas as línguas do mundo, uma única palavra: paz! A dolorosa atualidade deste tema, junto com a necessidade de se devolver à palavra “paz” a riqueza e a profundidade de significado de que ela se reveste na Bíblia, me levou a dedicar a este tema as meditações de Advento deste ano. Ela nos ajudará, espero eu, a escutar com ouvidos novos o anúncio natalino - “Paz na terra aos homens que Deus ama” - e a começar a viver em nosso interior a mensagem que a Igreja, todos os anos, apresenta ao mundo na Jornada Mundial da Paz.

Comecemos ouvindo o anúncio fundamental da paz. São palavras de Paulo na Carta aos Romanos: “Justificados, pois, pela fé, estamos em paz com Deus por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor, mediante o qual também tivemos, pela fé, o acesso a esta graça em que estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus (Rm 5,1-2).

A pomba com o ramo de oliveira, símbolo da paz

Eu ainda me lembro do que aconteceu no dia em que acabou, para a Itália, a Segunda Guerra Mundial. Os gritos de “Armistício! Paz!” ribombaram da cidade ao campo, de casa em casa. Era o fim de um pesadelo: basta de terror, basta de bombardeios, basta de fome. Parecia que finalmente se voltava a viver. Algo assim deve ter sido provocado, no coração dos leitores, por aquele anúncio do Apóstolo: “Nós estamos em paz com Deus! Foi selada a paz! Uma era nova começou para a humanidade na sua relação com Deus!”. A época deles já foi definida como “de angústia” [1]. Os homens daquele tempo tinham a impressão (nada infundada, aliás) de que uma condenação pesava sobre a sua cabeça; Paulo a chamava de “cólera de Deus que se revela do céu contra toda impiedade” (Rm 1,18). Daí os ritos e cultos esotéricos de propiciação que pululavam na sociedade pagã daquele tempo.

sábado, 9 de novembro de 2024

Nomeado novo Pregador da Casa Pontifícia

Neste sábado, 09 de novembro de 2024, o Papa Francisco nomeou como novo Pregador da Casa Pontifícia o Padre Roberto Pasolini, O.F.M. Cap., sucedendo o Cardeal Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., que exerceu esse ofício por 44 anos.


Roberto Pasolini nasceu em 05 de novembro de 1971 em Milão (Itália). Professou os votos perpétuos na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em 07 de setembro de 2002 e recebeu a Ordenação Presbiteral em 23 de setembro de 2006.

Após obter o Doutorado em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), tornou-se professor em diversas instituições do norte da Itália. Atualmente ensina Exegese Bíblica na Faculdade Teológica da Itália Setentrional (Milão) e se dedica à pregação de retiros.

O Pregador da Casa Pontifícia é o responsável pelas meditações ao Papa e à Cúria Romana no Advento e na Quaresma e pela homilia na Celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa. Desde o pontificado do Papa Bento XIV (†1758) esse ofício fosse exercido sempre por um franciscano capuchinho.


Cardeal Raniero Cantalamessa, Pregador Emérito da Casa Pontifícia

Raniero Cantalamessa nasceu em 22 de julho de 1934 em Colli del Tronto (Itália). Após ingressar na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, recebeu a Ordenação Presbiteral em 19 de outubro de 1958.

Obteve o Doutorado em Teologia pela Universidade de Friburgo (Suíça) e em Letras Clássicas pela Universidade Católica do Sagrado Coração em Milão (Itália), na qual foi professor durante alguns anos.

No dia 23 de junho de 1980 foi nomeado pelo Papa João Paulo II como Pregador da Casa Pontifícia. Nesse período, além das pregações à Cúria Romana e ao redor do mundo, o Padre Cantalamessa também publicou diversos livros.

O Papa Francisco o criou Cardeal no Consistório de 28 de novembro de 2020, concedendo-lhe como igreja titular a Diaconia de Santo Apolinário alle Terme Neroniane-Alessandrine, da qual tomou posse no dia 13 de junho de 2021.

Sendo um Cardeal não-eleitor (com mais de 80 anos), foi dispensado de receber a Ordenação Episcopal, permanecendo como presbítero, embora com a faculdade de endossar as insígnias pontifícias.

Atualmente com 90 anos, o Cardeal Cantalamessa, doravante Pregador Emérito da Casa Pontifícia, reside na Ermida do Amor Misericordioso em Cittaducale, dedicando-se ao estudo e à oração.


Para acessar todas as meditações do Cardeal Cantalamessa publicadas em nosso blog, clique aqui.

Com informações do site da Santa Sé.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Homilia do Cardeal Cantalamessa: Celebração da Paixão 2024

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
29 de março de 2024
“Quando tiverdes levantado o Filho de Homem, então sabereis que Eu sou”

1. “Quando tiverdes levantado o Filho de Homem, então sabereis que ‘Eu sou’” (Jo 8,28). É a palavra que Jesus pronunciou ao término de uma calorosa disputa com seus oponentes. Há um intensificar-se em relação aos precedentes “Eu sou”. Jesus não diz mais: “Eu sou isto ou aquilo” - o pão da vida, a luz do mundo, a ressurreição e a vida... Diz simplesmente “Eu sou”, sem especificação. Isso dá à sua declaração um alcance absoluto, metafísico. Remete intencionalmente às palavras de Êxodo 3,14 e Isaías 43,10-12, nas quais Deus mesmo proclama o seu divino “Eu sou”.

A novidade inaudita desta palavra de Cristo só se descobre se prestamos atenção ao que precede a autoafirmação de Cristo: “Quando tiverdes levantado o Filho de Homem, então sabereis que Eu sou”. É como dizer: o que eu sou - e, portanto, “o que Deus é” - será conhecido somente a partir da cruz. No Evangelho de João a expressão “ser levantado”, como sabemos, refere-se ao evento da cruz!


Estamos diante de uma total inversão da ideia humana de Deus e, em parte, também daquela do Antigo Testamento. Jesus não veio para retocar e aperfeiçoar a ideia que os homens fizeram de Deus, mas, em certo sentido, para invertê-la e revelar o verdadeiro rosto de Deus. É o que o Apóstolo Paulo, por primeiro, entendeu quando escreve:
De fato, pela sabedoria de Deus, o mundo não foi capaz de reconhecer a Deus por meio da sabedoria, mas, por meio da loucura da pregação, Deus quis salvar os que creem. Com efeito, enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Para os que são chamados, porém, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,21-24).

quarta-feira, 27 de março de 2024

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão 2011

Complementando a postagens das homilias do Papa Bento XVI (†2022) na Semana Santa de 2011, trazemos aqui a meditação do Padre Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia, na Celebração da Paixão do Senhor do mesmo ano:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 22 de abril de 2011
“Verdadeiramente este era o Filho de Deus!”

1. Na sua Paixão - escreve São Paulo a Timóteo - Jesus Cristo “deu o seu testemunho fazendo sua bela profissão” (1Tm 6,13). Nós nos perguntamos, testemunho de quê? Não da verdade de sua vida e de sua causa. Muitos morreram, e ainda hoje morrem, por uma causa equivocada, acreditando que seja justa. A Ressurreição, esta sim testemunha a verdade de Cristo: “Deus deu a todos prova segura sobre Jesus, ressuscitando-o dos mortos”, diz o Apóstolo no Areópago de Atenas (At 17,31).

A morte não testemunha a verdade, mas o amor de Cristo. De tal amor constitui, de fato, a prova suprema: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Pode-se objetar que há um amor maior do que dar a vida por seus amigos: é dar sua vida pelos seus inimigos. Mas foi isso precisamente que Jesus fez: “Cristo morreu pelos ímpios - escreve o Apóstolo na Carta aos Romanos: “A rigor, alguém morreria por um justo; por uma pessoa muito boa talvez alguém se anime a morrer. Mas eis aqui uma prova brilhante do amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,6-8). “Amou-nos quando éramos inimigos, para poder nos tornar amigos” [1].

Certa “teologia da cruz” unilateral pode fazer-nos esquecer o essencial. A cruz não é só juízo de Deus sobre o mundo, refutação de sua sabedoria e revelação de seu pecado. Não é não de Deus ao mundo, mas o seu sim de amor: “A injustiça, o mal real, não pode pura e simplesmente ser ignorado, ser deixado simplesmente em si. Deve ser transformado, vencido. Só esta é a verdadeira misericórdia. Que agora, dado que os homens não são capazes, o faça o próprio Deus, esta é a bondade ‘incondicionada’ de Deus” [2].


2. Mas como ter coragem de falar do amor de Deus, enquanto temos diante dos olhos tantas tragédias humanas, como a catástrofe que se abateu sobre o Japão, ou as mortes no mar nas últimas semanas? Permanecer em completo silêncio seria trair a fé e ignorar o significado do mistério que celebramos.

Há uma verdade a se proclamar com força na Sexta-feira Santa. Aquele que contemplamos sobre a cruz é Deus “in persona”. Sim, é também o homem Jesus de Nazaré, mas esta é uma pessoa com o Filho do Pai Eterno. Até que se reconheça e leve a sério o dogma fundamental da fé cristã - o primeiro definido dogmaticamente no Concílio de Niceia - que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o próprio Deus, da mesma substância do Pai, a dor humana permanecerá sem resposta.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Cardeal Cantalamessa: V Pregação de Quaresma 2024

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
V pregação de Quaresma
22 de março de 2024
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”

1. Em nosso itinerário através do Quarto Evangelho à descoberta de quem é Jesus para nós, chegamos à última etapa. Entramos naqueles que se costumam definir “os discursos de despedida” de Jesus aos seus Apóstolos. Desta vez, não tento nem mesmo fazer um resumo do contexto e trazer à luz as diversas unidades e subdivisões. Seria como querer traçar quadros e distinguir setores em uma lava fundida que desce da cratera. Por isso, vamos diretamente à palavra que queremos captar nesta meditação:
“‘Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, porque vou preparar-vos um lugar. E depois que eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também. E para onde eu vou, sabeis o caminho’. Tomé disse: ‘Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?’. Jesus respondeu: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim’” (Jo 14,2-6).

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”: palavras que apenas uma pessoa no mundo poderia pronunciar e pronunciou de fato. Cristo é o caminho e é a meta da viagem. Como Verbo eterno do Pai, é a verdade e a vida; como Verbo feito carne, é o caminho.


Tivemos ocasião para contemplar Cristo como Vida comentando a sua palavra “Eu sou o pão da vida”, como Verdade comentando outra sua palavra “Eu sou a luz do mundo”. Concentremo-nos, por isso, em Cristo Caminho. Após ter contemplado Cristo como dom, temos a ocasião para contemplá-lo como modelo. “Como - escreve Kierkegaard - a Idade Média se desviara sempre mais ao acentuar o lado de Cristo como modelo, Lutero acentuou o outro lado, afirmando que ele é dom e que este dom, compete à fé aceitá-lo”. “Mas agora - acrescentava o mesmo autor - deve-se insistir também em Cristo modelo, se não quisermos que a doutrina sobre a fé se resuma a uma folha de figo que cubra as omissões mais anticristãs” [1].

Jesus continua a dizer àqueles que encontra - isto é, a nós, neste momento - o que dizia aos Apóstolos e àqueles que encontrava durante a sua vida terrena: “Vinde após mim”, ou então no singular: “Segue-me!”. O seguimento (em grego, acolouthia) de Cristo, é um tema ilimitado. Sobre ele, foi escrito o livro mais amado e mais lido na Igreja, após a Bíblia, ou seja, a Imitação de Cristo. Limita-nos em dizer sobre ele o tanto que nos serve para passar a algumas aplicações práticas, sempre de caráter espiritual e pessoal, como nos determinamos nestas meditações.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão 2015

Concluímos a “retrospectiva” das homilias do Cardeal Raniero Cantalamessa para Celebração da Paixão do Senhor com sua meditação na Sexta-feira Santa de 2015, centrada na expressão “Ecce homo” - “Eis o homem”:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 03 de abril de 2015
“Ecce homo”

1. Acabamos de ouvir o relato do julgamento de Jesus ante Pilatos. Há nele um momento que nos pede uma atenção especial:
“Pilatos mandou flagelar Jesus. Os soldados teceram uma coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus. Vestiram-no com um manto vermelho, aproximavam-se dele e diziam: ‘Viva o rei dos judeus!’. E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu de novo e disse aos judeus: ‘Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que não encontro nele crime algum’. Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: ‘Ecce homo!’ - ‘Eis o homem!’” (Jo 19,1-5).

Entre as muitas pinturas que retratam o Ecce homo, há uma que sempre me impressionou. É de Jan Mostaert, pintor flamengo do século XVI, e está na National Gallery de Londres. Tentarei descrevê-la. Ela nos ajudará a imprimir melhor na mente o episódio, já que o pintor transcreve fielmente, em cores, os dados do relato evangélico, especialmente do relato de Marcos (Mc 15,16-20).


Jesus tem na cabeça uma coroa de espinhos. Um feixe de arbustos espinhosos que estava no pátio, talvez para fazer fogo, deu aos soldados a ideia dessa cruel zombaria da sua realeza. Da cabeça de Jesus descem gotas de sangue. Sua boca está semiaberta, como que lutando para respirar. Sobre os ombros, sulcados pelos golpes recentes da flagelação, um manto pesado e desgastado, mais próximo da lata que da estopa. Ele tem os pulsos amarrados por uma corda grosseira; em uma das mãos, colocaram um pedaço de pau a fazer as vezes de cetro e, na outra, um feixe de varetas, símbolos que ridicularizavam a sua majestade. Jesus não pode mover sequer um dedo; é o homem reduzido à total impotência, o protótipo de todos os algemados da história.

Meditando sobre a Paixão, o filósofo Blaise Pascal escreveu certa vez estas palavras: “Cristo está em agonia até o fim do mundo: não podemos dormir durante este tempo” [1]. Há um sentido em que estas palavras se aplicam à pessoa do próprio Jesus, ou seja, à Cabeça do corpo místico e não apenas aos membros. Não apesar de Ele ter ressuscitado e estar vivo, mas justamente porque Ele ressuscitou e está vivo. Deixemos de lado, no entanto, este significado misterioso demais para nós e falemos do sentido mais claro dessas palavras. Jesus está em agonia até o fim do mundo em cada homem ou mulher submetidos aos mesmos tormentos. “Foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40): Ele não disse esta frase apenas sobre quem acredita n’Ele; Ele a disse sobre cada homem e cada mulher famintos, nus, maltratados, presos.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Cardeal Cantalamessa: IV Pregação de Quaresma 2024

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
IV pregação de Quaresma
15 de março de 2024
“Eu sou a ressurreição e a vida”

1. Em nosso comentário aos solenes “Eu sou” de Cristo no Evangelho de João, chegamos ao capítulo 11. Ele está todo ocupado pelo episódio da ressurreição de Lázaro. O ensinamento que João quis transmitir à Igreja com a sábia composição do capítulo pode ser resumido em três pontos:

Primeiro ponto: Jesus ressuscita o amigo Lázaro (Jo 11,1-44).

Segundo ponto: A ressurreição de Lázaro provoca a condenação de Jesus à morte (Jo 11,47-50):
“Os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram então o sinédrio e discutiam: ‘Que vamos fazer, visto que este homem faz muitos sinais? Se o deixarmos continuar assim, todos crerão nele, e os romanos virão destruir nosso Lugar Santo e nossa nação’. Um deles, chamado Caifás, sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: ‘Vós não entendeis nada! Não considerais ser melhor para vós, que um só morra pelo povo e não pereça a não inteira?’”.

Terceiro ponto: A morte de Jesus obterá a ressurreição de todos os que creem n’Ele (Jo 11,51-53). O evangelista assim comenta:
“Caifás não falou isso por si mesmo, mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus haveria de morrer pela nação, e não só pela nação, mas também para reconduzir à unidade os filhos de Deus dispersos. A partir desse dia decidiram matar Jesus”.

Resumindo, a ressurreição de Lázaro provoca a morte de Jesus; a Morte de Jesus provoca a ressurreição de quem crer n’Ele!


2. Agora podemos nos concentrar na palavra de autorrevelação contida no contexto:
“Jesus respondeu: ‘Teu irmão vau ressuscitar’. Marta disse: ‘Eu sei que ele vai ressuscitar, na ressurreição do último dia’. Então Jesus declarou: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá’” (Jo 11,23-26).

sexta-feira, 15 de março de 2024

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão 2014

Prosseguindo nossa “retrospectiva” das homilias do Cardeal Raniero Cantalamessa na Celebração da Paixão do Senhor, propomos sua meditação na Sexta-feira Santa de 2014, sobre a figura de Judas Iscariotes:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 18 de abril de 2014
“Estava com eles também Judas, o traidor”

1. Dentro da história divino-humana da Paixão de Jesus existem muitas pequenas histórias de homens e de mulheres que entraram no raio da sua luz ou da sua sombra. A mais trágica delas é a de Judas Iscariotes. É um dos poucos fatos comprovados, com igual destaque, por todos os quatro Evangelhos e pelo resto do Novo Testamento. A primitiva comunidade cristã refletiu muito sobre ele e nós faríamos mal se não fizéssemos o mesmo. Ele tem muito a nos dizer.

Judas foi escolhido desde a primeira hora para ser um dos Doze. Ao incluir o seu nome na lista dos Apóstolos, o evangelista Lucas escreve “Judas Iscariotes, que se tornou (egeneto) o traidor” (Lc 6,16). Judas, portanto, não tinha nascido traidor e não o era quando foi escolhido por Jesus; tornou-se! Estamos diante de um dos dramas mais obscuros da liberdade humana. Por que se tornou? Em anos não distantes, quando estava de moda a tese do Jesus “revolucionário”, tentou-se dar a seu gesto motivações ideais. Alguém viu no seu apelido “Iscariotes” uma deformação de “sicariota”, ou seja, pertencente ao grupo de zelotes extremistas que atuavam como “sicários” contra os romanos; outros pensaram que Judas estivesse desapontado com a maneira em que Jesus realizou a sua ideia do “reino de Deus” e quisesse forçá-lo a agir no plano político contra os pagãos. É o Judas do famoso musical “Jesus Christ Superstar” e de outros espetáculos e novelas recentes. Um Judas muito semelhante a outro célebre traidor do próprio benfeitor: Brutus, que matou Júlio César para salvar a República!


São reconstruções que devem ser respeitadas quando contêm alguma dignidade literária ou artística, mas não têm nenhuma base histórica. Os Evangelhos - as únicas fontes confiáveis ​​que temos sobre o personagem - falam de um motivo muito mais “pé no chão”: o dinheiro. Judas tinha a responsabilidade da bolsa comum do grupo; na ocasião da unção em Betânia havia protestado contra o desperdício do perfume precioso derramado por Maria aos pés de Jesus, não porque se preocupasse pelos pobres, assinala João, mas porque “era ladrão; ele tomava conta da bolsa comum e roubava o que se depositava nela” (Jo 12,6). A sua proposta aos chefes dos sacerdotes é explícita: “O que me dareis se vos entregar Jesus?”. Combinaram, então, trinta moedas de prata (Mt 26,15).

segunda-feira, 11 de março de 2024

Cardeal Cantalamessa: III Pregação de Quaresma 2024

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
III pregação de Quaresma
08 de março de 2024
“Eu sou o bom pastor

1. Continuemos a nossa reflexão sobre os grandes “Eu sou” de Cristo no Evangelho de João. Desta vez, Jesus não se apresenta a nós com símbolos de realidades físicas inanimadas - o pão, a luz -, mas com um personagem humano, o pastor: “Eu sou o bom pastor!”. Escutemos a parte do discurso em que está contida a autoproclamação de Cristo:
Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá sua vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, enquanto o lobo as ataca e as dispersa. De fato, ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,11-15).


A imagem de Cristo “Bom Pastor” tem um lugar privilegiado na arte e nas inscrições paleocristãs. O Bom Pastor é apresentado, segundo o módulo clássico, no esplendor da juventude. Traz sobre as costas a ovelha, bem segura pelas patas. A imagem joanina do bom pastor é já amalgamada com aquela sinótica do pastor que vai em busca da ovelha perdida (Lc 15,4-7).

O contexto da passagem sobre o bom pastor é o mesmo dos dois capítulos precedentes, isto é, a discussão com “os judeus”, que acontece em Jerusalém, por ocasião da Festa das Tendas. Mas, em João, sabe-se que o contexto conta relativamente, porque, diferentemente dos Evangelhos Sinóticos, ele não está preocupado em nos dar um relatório histórico e coerente da vida de Jesus (que parece dar por conhecido), mas um conjunto de “sinais” e ensinamentos do Mestre. Contudo, estes jamais aparecem fora do tempo e do espaço, como acontece nos livros de teologia, mas situados em lugares e tempos precisos (às vezes, mais precisos do que os próprios Sinóticos), que lhes conferem um valor “histórico” no sentido mais profundo do termo.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Cardeal Cantalamessa: II Pregação de Quaresma 2024

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
II pregação de Quaresma
01 de março de 2024
“Eu sou a luz do mundo”

1. Nestas pregações de Quaresma propomo-nos a meditar sobre os grandes “Eu sou” (Ego eimi) pronunciados por Jesus no Evangelho de João. Há, porém, uma pergunta que se põe, a propósito deles: foram realmente pronunciados por Jesus, ou são devidos à reflexão posterior do evangelista, como tantas partes do Quarto Evangelho? A resposta que hoje praticamente todos os exegetas dariam a esta pergunta é a segunda. Estou convencido, porém, de que tais afirmações são “de Jesus”, e procuro explicar porque.

Há uma verdade histórica e uma verdade que podemos chamar de real ou ontológica. Tomemos um desses “Eu sou” de Jesus, por exemplo, o que diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Se, por alguma improvável nova descoberta, se viesse a conhecer que a frase foi, de fato e historicamente, pronunciada pelo Jesus terreno, não é isto que a tornaria “verdadeira”. Pode-se sempre pensar, de fato, que quem a pronuncia seja um iludido e se engane! (Muitos acreditaram ser a luz do mundo antes e depois dele!). O que a torna “verdadeira” é o fato de que - na realidade e acima de toda contingência histórica - Ele é o caminho, a verdade e a vida.


Neste sentido mais profundo e mais importante, todas e cada uma das afirmações que Jesus faz no Evangelho de João são “verdadeiras”, também aquela em que diz: “Antes que Abraão existisse, Eu sou” (Jo 8,58). A definição clássica de verdade é “correspondência entre a coisa e a ideia que se tem dela” (adaequatio rei et intellectus); a verdade revelada é correspondência entre a realidade e a palavra inspirada que a proclama. As grandes palavras que meditaremos são, portanto, de Jesus: não do Jesus histórico, mas do Jesus que - como tinha prometido aos discípulos - nos fala com a autoridade do Ressuscitado, mediante o seu Espírito (Jo 16,12-15).

2. Da sinagoga de Cafarnaum na Galileia passemos hoje ao templo de Jerusalém, na Judeia, onde Jesus se dirigiu por ocasião da Festa das Tendas. Aqui se desenvolve o debate com “os judeus”, no qual está inserida a autoproclamação de Jesus, que, nesta meditação, queremos acolher: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão, mas terá a luz da vida (Jo 8,12).

sexta-feira, 1 de março de 2024

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão 2013

A segunda homilia do Cardeal Raniero Cantalamessa na Celebração da Paixão do Senhor que queremos resgatar nesta Quaresma é aquela da Sexta-feira Santa de 2013, a primeira do pontificado do Papa Francisco:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 29 de março de 2013
Justificados gratuitamente por meio da fé no sangue de Cristo

1. “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo. Deus o destinou a ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a realidade da fé... Assim Ele demonstra sua justiça no tempo presente, para ser Ele mesmo justo, e tornar justo aquele que vive a partir da fé em Jesus” (Rm 3,23-26).

Chegamos ao ápice do Ano da Fé e ao seu momento decisivo. Esta é a fé que salva, “a fé que vence o mundo” (1Jo 5,5)! A fé, apropriação pela qual tornamos nossa a salvação operada por Cristo e nos vestimos do manto da sua justiça. Por um lado, temos a mão estendida de Deus, que oferece a sua graça ao homem; por outro, a mão do homem, que se estende para recebê-la mediante a fé. A “nova e eterna aliança” é selada com um aperto de mão entre Deus e o homem.

Nós temos a possibilidade de tomar, neste dia, a decisão mais importante da vida, aquela que nos abre de par em par os portões da eternidade: acreditar! Acreditar que “Jesus morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação” (Rm 4,25)! Em uma homilia pascal do século IV, o Bispo proclamava estas palavras excepcionalmente contemporâneas e, de certa forma, existenciais: “Para cada homem, o princípio da vida é que Cristo foi imolado por ele. Mas Cristo é imolado por ele quando este reconhece a graça e se torna consciente da vida que lhe foi dada por aquela imolação” (Homilia pascal do ano 387; SCh 36, pp. 59s).


Que extraordinário! Esta Sexta-feira Santa, celebrada no Ano da Fé e na presença do novo Sucessor de Pedro, poderá ser, se quisermos, o início de uma nova vida. O Bispo Hilário de Poitiers, que se converteu ao Cristianismo quando já era adulto, dizia a Jesus, ao repensar sua vida passada: “Antes de te conhecer, eu não existia”.

O necessário é apenas nos situarmos na verdade, reconhecermos que precisamos ser justificados, que não nos auto-justificamos. O publicano da parábola subiu ao templo e fez uma brevíssima oração: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. E Jesus diz que aquele homem foi para casa “justificado”, ou seja, transformado em homem justo, perdoado, feito criatura nova; cantando alegremente, penso, dentro do seu coração (Lc 18,13-14). O que ele tinha feito de tão extraordinário? Nada. Ele se colocou na verdade diante de Deus, e esta é a única coisa que Ele precisa para agir.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Cardeal Cantalamessa: I Pregação de Quaresma 2024

Cardeal Raniero Cantalamessa, OFMCap
I pregação de Quaresma
23 de fevereiro de 2024
“Eu sou o pão da vida”

1. No início destas pregações da Quaresma, retomemos o diálogo entre Jesus e os Apóstolos em Cesareia de Filipe:
“Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?’. Eles responderam: ‘Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros, que é Jeremias ou um dos profetas’. Então disse-lhes: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’. Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’” (Mt 16,13-16).

De todo o diálogo, interessa-nos, pelo momento, apenas e exclusivamente, a segunda pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Não a tomemos, contudo, no sentido com que esta pergunta é normalmente entendida; isto é, como se a Jesus interessasse saber o que pensa d’Ele a Igreja, ou o que nossos estudos de teologia nos dizem d’Ele. Não! Tomemos essa pergunta como deve ser tomada toda palavra que sai da boca de Jesus, isto é, como se dirigida, hic et nunc (aqui e agora), a quem a escuta, individualmente, pessoalmente.


Para realizar este exame, deixemo-nos ajudar pelo evangelista João. Em seu Evangelho, encontramos uma série de declarações de Jesus, os famosos Ego eimi, “Eu sou”, com os quais revela o que pensa, Ele, de si mesmo, quem diz, Ele, ser: “Eu sou o pão da vida”, “Eu sou a luz do mundo”, e assim por diante. Veremos cinco destas autorrevelações e nos perguntaremos cada vez se Ele é realmente para nós aquilo que afirma ser e como fazer para que o seja sempre mais.

Será um momento para se viver de modo particular. Isto é, não com o olhar voltado para o exterior, aos problemas do mundo e da própria Igreja, como somos levados a fazer em outros contextos, mas um olhar introspectivo. Um momento, então, intimista e separado e, por isso, egoísta? Totalmente o contrário! É um evangelizar-nos para evangelizar, um preencher-nos de Jesus para falar d’Ele “por redundância de amor”, como as primitivas Constituições da minha Ordem Capuchinha recomendavam aos pregadores; isto é, por íntima convicção, não apenas para cumprir um mandato.

2. Iniciemos pelo primeiro destes “Eu sou” de Jesus que encontramos no Quarto Evangelho, no capítulo sexto: “Eu sou o pão da vida”. Escutemos primeiramente a parte do trecho que mais diretamente nos interessa:

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão 2012

Ao longo dessa Quaresma gostaríamos de propor, de maneira retrospectiva, as homilias do Cardeal Raniero Cantalamessa na Celebração da Paixão do Senhor que não foram publicadas aqui no blog a seu tempo.

Começamos com a homilia da Sexta-feira Santa de 2012, a última do pontificado do Papa Bento XVI:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 06 de abril de 2012
Passar de espectadores a atores

1. Alguns Padres da Igreja concentraram em uma imagem todo o mistério da redenção. Dizem: imagina que aconteceu uma luta épica na arena. Um herói enfrentou o cruel tirano que escravizava a cidade e, com enorme esforço e sofrimento, o venceu. Você estava na arquibancada, não lutou, não se esforçou nem se feriu. Mas, se você admira o herói, se alegra com ele pela vitória, tece-lhe uma coroa, se anima e exalta a plateia por ele, se ajoelha com alegria diante do vencedor, beija a sua cabeça e aperta a sua mão direita; em suma, se tanto se exalta por ele, a ponto de considerar como sua a vitória dele, eu lhe digo que você terá certamente parte no prêmio do vencedor.

E mais: supondo que o vencedor não tenha necessidade alguma do prêmio que conquistou para si, mas que deseje, mais do que tudo, ver honrado o seu admirador e considere que o prêmio da sua luta seja a coroação do seu amigo, em tal caso aquele homem não terá talvez a coroa, mesmo sem ter lutado e sem ter feridas? Certamente a obterá (cf. Nicolau Cabasilas, Vita in Christo, I, 9; PG 150, 517).

Dessa forma, dizem esses Padres, acontece entre nós e Cristo. Ele, na cruz, derrotou o antigo adversário. “As nossas espadas - exclama São João Crisóstomo - não estão sujas de sangue, não estivemos na arena, não temos lesões, nem sequer vimos a batalha, e eis que obtivemos a vitória. Sua foi a luta, nossa a coroa. E porque também nós vencemos, imitemos o que fazem os soldados nesse caso: com vozes de alegria exaltemos a vitória, entoemos hinos de louvor ao Senhor” (São João Crisóstomo, De coemeterio et de cruce; PG 49, 596). Não poderia ser explicado melhor o significado da Liturgia que estamos celebrando.


2. Mas o que estamos fazendo é, em si, uma imagem, a representação de uma realidade passada, ou é a própria realidade? Ambas as coisas! “Nós - dizia Santo Agostinho ao povo - sabemos e acreditamos com fé certíssima que Cristo morreu uma vez só por nós... Sabeis perfeitamente que tudo isto aconteceu apenas uma vez, e ainda assim a solenidade o renova periodicamente... Verdade histórica e solenidade litúrgica não estão em contradição entre si, como se a segunda fosse falsa e só a primeira correspondesse à verdade. O que a história afirma ter acontecido uma só vez na realidade, a solenidade renova muitas vezes através da celebração nos corações dos fiéis” (Santo Agostinho, Sermão 220; PL 38, 1089).