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quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (5)

“Entoai juntos salmos, hinos e cânticos inspirados; cantai e celebrai o Senhor de todo o vosso coração” (Ef 5,19).

Nas postagens anteriores da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica). Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte / 4ª parte.

Agora nos cabe contemplar outro critério de seleção dos textos bíblicos: a leitura semicontínua.

Pregação de Paulo em Éfeso (At 19)
(Eustache Le Sueur)

3. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Leitura semicontínua

Conforme o n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM), a leitura semicontínua consiste na proclamação dos principais textos de um livro na sequência, oferecendo aos fiéis um contato mais amplo com a Palavra de Deus [1].

a) Celebração Eucarística

Na Celebração Eucarística, as Cartas Paulinas são lidas sob esse critério tanto nos domingos quanto nos dias de semana do Tempo Comum (cf. ELM, nn. 107.110) [2].

Primeiramente a Carta aos Efésios é lida de maneira semicontínua como 2ª leitura da Missa em sete domingos, do XV ao XXI Domingo do Tempo Comum do Ano B, entre a Segunda Carta aos Coríntios e a Carta de Tiago:
XV Domingo: Ef 1,3-14 (forma breve: Ef 1,3-10);
XVI Domingo: Ef 2,13-18;
XVII Domingo: Ef 4,1-6;
XVIII Domingo: Ef 4,17.20-24;
XIX Domingo: Ef 4,30–5,2;
XX Domingo: Ef 5,15-20;
XXI Domingo: Ef 5,21-32 [3].

Nos dias de semana do Tempo Comum, por sua vez, a Carta é lida por duas semanas: da quinta-feira da XXVIII semana à quinta-feira da XXX semana do Tempo Comum no ano par, entre outros dois escritos paulinos: a Carta aos Gálatas e a Carta aos Filipenses.

Nessas duas semanas a Carta aos Efésios é lida praticamente na íntegra, sendo omitidas apenas algumas partes da seção parenética que já foram lidas nos domingos ou em outras celebrações. A leitura está organizada da seguinte forma:

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (4)

“Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus” (Ef 4,24).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica), como indicado no Elenco das Leituras da Missa (n. 66) [1], na Celebração Eucarística, nos demais Sacramentos e nos Sacramentais.  Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte.

Nesta postagem concluiremos esse percurso com a Liturgia das Horas (LH).

Ruínas da cidade de Éfeso

2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

d) Liturgia das Horas

Em relação à leitura de Efésios em composição harmônica na Liturgia das Horas, é preciso distinguir entre leituras longas, proferidas no Ofício das Leituras, e leituras breves, proferidas nas outras horas (Laudes, Hora Média e Vésperas).

Iniciamos com as leituras longas do nosso escrito, que são seis:

- Ofício das Leituras da Festa da Sagrada Família (Domingo após o Natal): Ef 5,21–6,4 [2]. Enquanto na Missa da Festa se lê o “código doméstico” de Colossenses, como vimos em postagens anteriores, na LH se lê o “código doméstico” de Efésios.

- Ofício das Leituras da Solenidade da Ascensão do Senhor: Ef 4,1-24 [3], recordando o “duplo movimento” de Cristo: “Ele subiu! Que significa isso, senão que Ele desceu também às profundezas da terra! Aquele que desceu é o mesmo que subiu mais alto do que todos os céus, a fim de encher o universo” (vv. 9-10).

- Ofício das Leituras da Solenidade da Assunção da Virgem Maria (15 de agosto): Ef 1,16–2,10 [4], sobre a obra salvífica do Senhor: “Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Jesus Cristo” (v. 6).

- Ofício das Leituras das Festas dos Evangelistas São Marcos (25 de abril) e São Mateus, Apóstolo (21 de setembro): Ef 4,1-16 [5], perícope que atesta a diversidade de ministérios, incluindo os “apóstolos” e “evangelistas”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (3)

“Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo” (Ef 4,5).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica), como indicado pelo Elenco das Leituras da Missa (n. 66) [1], na Celebração Eucarística. Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte.

Agora prosseguiremos com os demais Sacramentos e os Sacramentais.


2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

b) Sacramentos

Além da Eucaristia, a Carta aos Efésios consta entre as opções de leitura ad libitum (à escolha) de todos os outros seis Sacramentos.

Primeiramente, em relação à Iniciação Cristã de Adultos, vale destacar o Rito da eleição ou inscrição do nome, que tradicionalmente se celebra no I Domingo da Quaresma e com o qual tem início o “Tempo da Purificação e Iluminação”. Quando esse rito se celebra na Missa, entoa-se a antífona da Comunhão da sexta-feira da IV semana da Quaresma, como vimos anteriormente: “Temos a redenção em Cristo pelo seu sangue e a remissão dos pecados segundo as riquezas de sua graça” (Ef 1,7) [2].

No IV Domingo da Quaresma, por sua vez, celebra-se o II Escrutínio, com uma leitura de Efésios, que é proclamada mesmo quando os Escrutínios são celebrados em outro tempo: Ef 5,8-14 [3], sobre o tema da “iluminação”.

Para a celebração do sacramento do Batismo há três leituras ad libitum (à escolha) da nossa Carta:
- Ef 1,3-10.13-14: o “hino”, que como o Batismo possui uma dinâmica trinitária, destacando-se aqui também o tema da adoção filial (vv. 5-6);
- Ef 4,1-6: a afirmação de que há “um só Senhor, uma só fé, um só Batismo”;
- Ef 5,8-14: esta leitura, sobre o tema da “iluminação” é prevista apenas para o Batismo de crianças, uma vez que os adultos já a ouviram no II Escrutínio [4].

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (2)

“Cristo é a nossa paz: do que era dividido, Ele fez uma unidade” (Ef 2,24).

Na postagem anterior desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1], ao longo do Ano Litúrgico e nas Missas dos Santos. Para acessar a 1ª parte, clique aqui.

Agora prosseguiremos com as Missas para diversas necessidades e votivas.

Representação do Concílio de Éfeso (431):
Epifania da Igreja

2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

a) Celebração Eucarística

Começamos esta segunda parte do nosso estudo com as Missas para diversas necessidades, formulários com várias opções de leituras ad libitum (à escolha), com textos de Efésios em dez formulários:

Na Missa pela Igreja, dada a importância da eclesiologia na Carta, são propostas duas leituras:
- Ef 1,3-14: o “hino” em ação de graças, todo no plural (Deus “nos abençoou... nos escolheu...”), uma vez que a Igreja é a destinatária das bênçãos;
- Ef 2,19-22: sobre a Igreja como “edifício que tem como fundamento os Apóstolos e os Profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal” (v. 20) [2].

Do “hino” da Carta é tomada também a antífona de entrada do 1º formulário de Missa pela Igreja: “Deus revelou-nos o mistério da sua vontade: restaurar todas as coisas que estão nos céus e na terra no Cristo Jesus” (cf. Ef 1,9a.10) [3].

Na Missa para a eleição do Papa ou Bispo é sugerido o texto de Ef 4,11-16 [4], sobre os diversos ministérios, destacando-se os “pastores e mestres” (v. 11), e recordando que Cristo é a Cabeça da Igreja: unido a Ele, o Corpo cresce na verdade e na caridade.

Para a Missa pelos sacerdotes propõe-se a leitura de Ef 4,1-7.11-13 [5], com a recordação dos diversos ministérios unida à exortação a praticar as virtudes: “humildade, mansidão, paciência...” (vv. 1-7). A mesma perícope é proposta na Missa pelos ministros da Igreja [6].

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Efésios (1)

“Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os Apóstolos e os Profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal” (Ef 2,20).

Nas postagens anteriores da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar as “Cartas do cativeiro” atribuídas a São Paulo, com importantes reflexões sobre Cristo e a Igreja.

Após a análise das Cartas aos Filipenses e aos Colossenses, concluiremos esse “bloco” com a Carta aos Efésios (Ef), Πρὸς Ἐφεσίους.

São Paulo escrevendo suas Cartas
(Rembrandt)

1. Breve introdução à Carta aos Efésios

Após uma breve passagem por Éfeso (na atual Turquia) no final da sua “segunda viagem missionária” (At 18,19-21), o Apóstolo Paulo visitou novamente a cidade na sua “terceira viagem” (At 19), permanecendo por um longo período, talvez como prisioneiro por um tempo (Ef 3,1; 4,1; 6,20).

A grande maioria dos estudiosos considera a Carta aos Efésios “dêutero-paulina”, isto é, escrita por um discípulo do Apóstolo, devido às diferenças de linguagem e de teologia em relação às Cartas proto-paulinas. Efésios é a maior das Cartas dêutero-paulinas, com seis capítulos.

O autor de Efésios baseia-se amplamente em Colossenses, de modo que se discute se as duas Cartas têm o mesmo autor ou se são autores distintos. De toda forma, Efésios teria sido escrita provavelmente entre os anos 80 e 90 do século I.

Embora use boa parte do material de Colossenses, a Carta possui textos próprios, como a “ação de graças” em estilo hínico (Ef 1,3-14) e parte da seção parenética (Ef 4,1-14). Além disso, o problema do “falso ensinamento” de Cl 2 não aparece aqui.

Não obstante, a estrutura de Efésios é a mesma, com uma seção teológica (doutrinal) e uma seção parenética (exortativa) “emolduradas” por uma introdução e uma conclusão:
a) Ef 1,1-23: Introdução, com a saudação (vv. 1-2) e a ação de graças (vv. 3-23);
b) Ef 2,1–3,20: Seção teológica;
c) Ef 4,1–6,20: Seção parenética;
d) Ef 6,21-24: Conclusão.

Assim como Filipenses e Colossenses, Efésios contém um “hino cristológico”, embora alguns estudiosos não o considerem como tal, preferindo falar de “ação de graças” em estilo hínico.

Em sua forma a composição possui elementos da tradição judaica, embora seu conteúdo seja autenticamente cristão. Podemos dividi-la em três estrofes, conforme as três Pessoas Divinas: nossa eleição por Deus Pai (vv. 3-6), a redenção operada por Cristo (vv. 7-12) e a obra do Espírito Santo (vv. 13-14). Cada uma das três estrofes conclui-se com um refrão: “Para louvor da sua glória” (vv. 6.12.14).

Outra divisão do cântico é conforme as seis bênçãos mencionadas após o v. 3, que serve de introdução: a eleição (v. 4), a adoção filial (vv. 5-6), a redenção (vv. 7-8), a revelação (vv. 9-10), novamente a eleição (vv. 11-12) e, por fim, os dons da Palavra de Deus e do Espírito Santo, aos quais respondemos com a fé (vv. 13-14).

Esse hino serve, com efeito, de “resumo” da Carta. Sua seção teológica está centrada na obra de Cristo já delineada no hino: a salvação, a unificação de judeus e gentios em um só povo (a Igreja) e a revelação do mistério de Deus (Ef 2,1–3,13), concluindo com uma “oração” (Ef 3,14-21).

Na seção parenética esses temas são retomados: o autor exorta à unidade, a colocar os próprios dons a serviço da Igreja (Ef 4,1-16) e a andar como “filhos da luz”, abandonando as “obras das trevas” (Ef 4,17–5,20), retomando a célebre metáfora dos “dois caminhos”. Por fim, conclui com um “código doméstico” (Ef 5,21–6,9), como em Colossenses, e uma exortação à oração (Ef 6,10-20).

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

São Paulo em Éfeso (At 19)
(Eustache Le Sueur)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Efésios: Composição harmônica

Como todos os livros estudados nesta série, analisaremos a leitura litúrgica da Carta aos Efésios a partir dos dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Iniciamos com o critério da composição harmônica: a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou a festa litúrgica.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (4)

“Cantai a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais, em ação de graças” (Cl 3,16).

Nas postagens anteriores da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar a presença da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica). Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte.

Agora cabe contemplar o outro critério de seleção dos textos bíblicos: a leitura semicontínua.

Jesus Cristo, Rei dos Anjos
(Jan Henryk de Rosen)

3. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Leitura semicontínua

De acordo com o n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM), a leitura semicontínua consiste na proclamação dos principais textos de um livro na sequência, oferecendo aos fiéis um contato mais amplo com a Palavra de Deus [1].

a) Celebração Eucarística

Na Celebração Eucarística, as Cartas Paulinas são lidas de maneira semicontínua tanto nos domingos quanto nos dias de semana do Tempo Comum (cf. ELM, nn. 107.110) [2].

Nos domingos a Carta aos Colossenses é a 2ª leitura da Missa do XV ao XVIII Domingo do Tempo Comum do Ano C, entre a leitura semicontínua da Carta aos Gálatas e da Carta aos Hebreus (cap. 11–12).

As quatro perícopes escolhidas do nosso livro aqui são:
XV Domingo: Cl 1,15-20;
XVI Domingo: Cl 1,24-28;
XVII Domingo: Cl 2,12-14;
XVIII Domingo: Cl 3,1-5.9-11 [3]

Nos dias de semana do Tempo Comum, por sua vez, a Carta é lida por oito dias: da quarta-feira da XXII semana à quinta-feira da XXIII semana do Tempo Comum no ano ímpar, entre a leitura da Primeira Carta aos Tessalonicenses e da Primeira Carta a Timóteo.

XXII semana do Tempo Comum (Ano ímpar):
Quarta-feira: Cl 1,1-8;
Quinta-feira: Cl 1,9-14;
Sexta-feira: Cl 1,15-20;
Sábado: Cl 1,21-23.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (3)

“Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza, habite em vós” (Cl 3,16).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística e nos demais Sacramentos. Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte.

Agora concluiremos a análise sob esse critério com os Sacramentais e a Liturgia das Horas.

Jesus Cristo, Senhor dos Anjos
(Edward Burne-Jones)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Composição harmônica

c) Sacramentais

Quanto aos Sacramentais, consideremos primeiramente aqueles que implicam a consagração de pessoas.

Na Bênção de abade ou abadessa consta dentre as leituras ad libitum (à escolha) o texto de Cl 3,12-17 [2], com a exortação à prática das virtudes. Destaca-se aqui o v. 16: “Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria”, recordando a função do abade ou abadessa como guia da comunidade.

Dessa mesma perícope é tomada uma das opções de aclamação ao Evangelho para essa celebração: “A paz de Cristo reine em vossos corações, para a qual fostes chamados num só corpo!” (Cl 3,15) [3].

Uma versão ligeiramente mais longa desse texto conta como 2ª opção de antífona de entrada para a Missa ritual: “Acima de tudo tende a caridade, que é laço da perfeição; e exulte em vossos corações a paz do Cristo” (Cl 3,14-15) [4].

Para a Consagração das virgens e a Profissão religiosa, que compartilham as mesmas opções de leituras, propõem-se dois textos à escolha: Cl 3,12-17, como acima, e Cl 3,1-4 [5], com a exortação a buscar “as coisas do alto, onde está Cristo”.

Na sequência contemplemos as bênçãos de pessoas, lugares e objetos, nas quais identificamos sete leituras do nosso escrito à escolha:

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (2)

“Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto” (Cl 3,1).

Em nossa postagem anterior desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística. Para acessar a 1ª parte, clique aqui.

Agora prosseguiremos com as Missas para diversas necessidades e votivas e os demais Sacramentos.

“A paz de Cristo exulte em vossos corações” (Cl 3,15)
O Ressuscitado comunica a paz aos Apóstolos

2. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Composição harmônica

Começamos esta segunda parte do nosso estudo contemplando as Missas para diversas necessidades, com várias opções de leituras ad libitum (à escolha), das quais são tomadas também algumas antífonas para essas Missas.

Primeiramente, a antífona de entrada da Missa por um Concílio ou Sínodo é uma exortação à caridade e à paz: “Tende acima de tudo a caridade, que é o vínculo da perfeição; e a paz de Cristo exulte em vossos corações” (Cl 3,14-15) [2].

Na sequência, nas Missas pelos sacerdotes e pelos ministros da Igreja é possível ler Cl 1,24-29 [3]. Aqui, como vimos na postagem anterior, o autor da Carta recorda seu ministério, destacando o anúncio da Palavra.

Dessa perícope é tomada a antífona de entrada do 1ª formulário da Missa pelo próprio sacerdote: “Eu me tornei ministro da Igreja por disposição divina que me foi confiada em relação a vós: anunciar-vos o Cristo...” (cf. Cl 1,25.28) [4].

Para a Missa pela unidade dos cristãos propõe-se a leitura de Cl 3,9b-17 [5], um trecho da seção parenética da Carta, exortando à prática das virtudes e concluindo com uma “bênção” evocando a paz e a unidade.

Dessa mesma perícope é tomada uma das opções de aclamação ao Evangelho (Cl 3,15) [6] e a antífona da Comunhão do 2ª formulário dessa Missa: “Tende acima de tudo a caridade, que é vínculo de perfeição; e exulte em vossos corações a paz do Cristo na qual sois chamados a ser um só corpo” (Cl 3,14-15) [7].

O mesmo texto de Cl 3,14-15 é proposto ainda como 2ª opção de antífona de entrada para a Missa para uma reunião espiritual ou pastoral [8].

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses (1)

“Amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14).

Em nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar as “Cartas do cativeiro” atribuídas ao Apóstolo Paulo, com importantes reflexões sobre Cristo e a Igreja: Filipenses, Colossenses e Efésios. Nesta postagem começaremos um percurso pela Carta aos Colossenses (Cl), Πρὸς Κολοσσαεῖς.

São Paulo escrevendo suas Cartas
(Rembrandt)

1. Breve introdução à Carta aos Colossenses

Diferentemente de Filipos, a comunidade de Colossas, na Frígia (na atual Turquia), não foi fundada por Paulo, mas provavelmente por Epafras, um discípulo do Apóstolo (Cl 1,7-8).

Enquanto há consenso acerca da autoria paulina de Filipenses, o mesmo não pode ser dito desta Carta. Para a maioria dos autores, dadas as diferenças de linguagem e teologia, Colossenses não foi escrita por Paulo, mas sim por um discípulo, provavelmente nos anos 80 do século I (antes de Efésios, que se baseará nesta Carta).

Esta é, portanto, uma “Carta dêutero-paulina”, embora também seja enquadrada no grupo das “Cartas do cativeiro”, uma vez que o autor “veste o manto” de Paulo na prisão (cf. Cl 4,3.10.18).

A Carta possui uma divisão semelhante a Romanos, com uma seção teológica (doutrinal) e uma seção parenética (exortativa ou moral), “emolduradas” por uma introdução e uma conclusão:
a) Cl 1,1-8: Introdução, com a saudação (vv. 1-2) e a ação de graças (vv. 3-8);
b) Cl 1,9–2,23: Seção teológica, centrada no tema da soberania de Cristo;
c) Cl 3,1–4,6: Seção parenética;
d) Cl 4,7-18: Conclusão, com as saudações finais.

Assim como em Filipenses, temos em Cl 1,15-20 um “hino cristológico”, provavelmente tomado da Liturgia da comunidade primitiva, que sintetiza a reflexão teológica da Carta. Podemos chamá-lo de “hino à soberania de Cristo”, sob dois aspectos: na ordem da criação (vv. 15-17) e na ordem da salvação (vv. 18-20).

O hino é marcado por paralelos: Cristo é o “primogênito de toda criatura” (v. 15) e o “primogênito dentre os mortos” (v. 18). A composição relaciona-se assim com a “sabedoria criadora” do Antigo Testamento (cf. Pv 8,22-31), embora Cristo seja não só a origem da criação, mas também seu fim: “Tudo foi criado por Ele e para Ele” (v. 16).

Destaca-se também a relação Cristo-Igreja: “Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo” (v. 18). Embora a metáfora do corpo já estivesse presente na Primeira Carta aos Coríntios e na Carta aos Romanos, ela é aqui ampliada, adquirindo um sentido mais universal.

O hino ajuda ainda a esclarecer os “falsos ensinamentos” (Cl 2,8-23). Trata-se aqui do perigo do sincretismo, isto é, da absorção de elementos de várias religiões. Por exemplo, se mencionam exageros no “culto dos anjos” (Cl 2,18), contra o qual o hino ressalta a soberania de Cristo (tema presente também em Hb 1,5–2,18).

Provavelmente esse culto tinha uma característica “dualista” (fenômeno ampliado pelo gnosticismo no século II): havia anjos bons e maus. A Carta afirma que Cristo é superior aos anjos bons por tê-los criado (Cl 1,16; 2,10) e que subjugou os anjos maus pelo seu sacrifício na cruz (Cl 1,20; 2,14-15).

Além do “culto aos anjos” parece que haviam práticas ascéticas, talvez relacionadas a proibições alimentares (Cl 2,16) e mortificações corporais (Cl 2,23), além de elementos dos “cultos de mistérios”, uma vez que o autor afirma que em Cristo o mistério de Deus foi revelado (Cl 1,25-29).

A seção parenética da Carta, além de catálogos de vícios e virtudes (Cl 3,5-17), traz um dos “códigos domésticos” do Novo Testamento (Cl 3,18-25), com exortações a esposos, pais e filhos, servos...

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

Sagrada Família
(Catedral de Westminster)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Colossenses: Composição harmônica

Como fizemos com as Cartas Paulinas e os demais livros nesta série, analisaremos a leitura litúrgica de Colossenses a partir dos dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Iniciamos nosso percurso pelo critério da composição harmônica: a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou a festa litúrgica.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses (4)

“Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1,21).

Nas últimas postagens da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura começamos a analisar a presença da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica (sintonia com o tempo ou a festa litúrgica). Para acessar, clique aqui: 1ª parte / 2ª parte / 3ª parte.

Agora nos cabe contemplar o outro critério de seleção dos textos bíblicos: a leitura semicontínua.

Escultura de Jesus Cristo na Alemanha
(Na base está escrito o texto de Fl 1,21)

3. Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses: Leitura semicontínua

Segundo o n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM), a leitura semicontínua consiste na proclamação dos principais textos de um livro na sequência, oferecendo aos fiéis um contato mais amplo com a Palavra de Deus [1].

a) Celebração Eucarística

Na Celebração Eucarística, as Cartas Paulinas são lidas de maneira semicontínua tanto nos domingos quanto nos dias de semana do Tempo Comum (cf. ELM, nn. 107.110) [2].

No ciclo dominical, a Carta aos Filipenses é proclamada como 2ª leitura do XXV ao XXVIII Domingo do Tempo Comum no Ano A, entre a Carta aos Romanos e a Primeira Carta aos Tessalonicenses:
XXV Domingo: Fl 1,20c-24.27a;
XXVI Domingo: Fl 2,1-11 (Forma breve: Fl 2,1-5);
XXVII Domingo: Fl 4,6-9;
XXVIII Domingo: Fl 4,12-14.19-20 [3].

Nos dias feriais do Tempo Comum, por sua vez, a Carta é lida da sexta-feira da XXX semana ao sábado da XXXI semana do Tempo Comum no ano par, após a leitura da Carta aos Efésios e antes das Cartas a Tito e a Filêmon.

Trata-se aqui de uma leitura substancial da Carta, sendo omitidos poucos textos, como podemos ver a seguir:

XXX semana do Tempo Comum (Ano par):
Sexta-feira: Fl 1,1-11;
Sábado: Fl 1,18b-26.

XXXI semana do Tempo Comum (Ano par):
Segunda-feira: Fl 2,1-4;
Terça-feira: Fl 2,5-11;
Quarta-feira: Fl 2,12-18;
Quinta-feira: Fl 3,3-8a;
Sexta-feira: Fl 3,17–4,1;
Sábado: Fl 4,10-19 [4].

Vale destacar ainda os dois textos da Carta propostos como versículos de aclamação ao Evangelho no Tempo Comum:

- “Como astros no mundo vós resplandeceis, mensagem de vida ao mundo anunciando...” (Fl 2,15d.16a): XXIX Domingo (Ano A), VIII Domingo (Ano C), sexta-feira da X semana e segunda-feira da XXXII semana [5];

- “Em tudo considero como perda e lixo, a fim de ganhar Cristo e ser achado n’Ele” (Fl 3,8-9): Quarta-feira da XXVI semana e quinta-feira da XXIX semana [6].

Papiro com um trecho da Carta aos Filipenses

b) Liturgia das Horas

Na Liturgia das Horas a Carta aos Filipenses é lida na íntegra no Ofício das Leituras da XXVI semana do Tempo Comum, entre a leitura do Livro de Ezequiel e da Primeira Carta a Timóteo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses (3)

“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto” (Fl 4,4-5).

Nas postagens anteriores desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos um estudo sobre a presença da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, analisamos sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística. Para acessar a primeira parte, clique aqui; para a segunda parte, clique aqui.

Nesta postagem concluiremos a análise sob esse critério com os demais Sacramentos, os Sacramentais e a Liturgia das Horas.

Batismo de Lídia em Filipos (At 16,11-15)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses: Composição harmônica

b) Sacramentos e Sacramentais

Além da Eucaristia, alguns textos da Carta aos Filipenses constam entre as leituras ad libitum (à escolha) dos Sacramentos da Unção dos Enfermos e do Matrimônio e de dois ritos relacionados ao Batismo.

Primeiramente, no contexto da Iniciação Cristã de adultos, quando estes recebem o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia na Vigília Pascal, na manhã do Sábado Santo podem celebrar-se os Ritos de preparação imediata. A leitura indicada para esses ritos é Fl 3,4-15 [2], na qual Paulo exorta a lançar-se “para frente”, isto é, para Cristo.

Para o Rito da Admissão dos batizados, pelo qual são acolhidas na Igreja pessoas já batizadas em outras comunidades eclesiais, sugere-se a leitura de Fl 4,4-8 [3], com o convite à alegria e a exortação a praticar a virtude.

Na Unção dos Enfermos, por sua vez, é possível ler Fl 2,25-30 [4], sobre a doença de Epafrodito, enviado da comunidade a Paulo, e sua recuperação: “Estava às portas da morte, mas Deus compadeceu-se dele” (v. 27).

Para o Matrimônio, por fim, a leitura sugerida da nossa Carta é Fl 4,4-9 [5], com o convite à alegria e a exortação à virtude, como vimos acima.

Quanto aos Sacramentais, consideremos primeiramente aqueles que dizem respeito à consagração de pessoas, com duas ocorrências da nossa Carta dentre as opções de leituras ad libitum (à escolha):

No novo rito da Instituição de Catequistas (De Institutione Catechistarum), promulgado pelo Dicastério para o Culto Divino em dezembro de 2021, propõe-se a leitura de Fl 4,4-9, destacando-se aqui a exortação do v. 9: “Praticai o que aprendestes”.

Para a Consagração das virgens e a Profissão religiosa, celebrações que compartilham as mesmas opções de leituras, propõem-se dois textos de Filipenses [6]:
- Fl 2,1-4: a exortação do Apóstolo à unidade, fundamental na vida religiosa: “Vivei em harmonia, procurando a unidade” (v. 3);
- Fl 3,8-14: o convite a “esquecer o que ficou para trás” e a lançar-se “para frente”, isto é, para Cristo.

Deste último texto é tomada também uma das opções de aclamação ao Evangelho para essas celebrações: “Em tudo considero como perda e lixo, a fim de ganhar Cristo e ser achado n’Ele” (Fl 3,8-9) [7].

Ainda em relação aos Sacramentais, contemplemos as bênçãos de pessoas, lugares e objetos, nas quais identificamos seis leituras da Carta à escolha:

- Bênção de noivos: Fl 2,1-5 [8], a exortação a viver “unidos no mesmo amor”.

- Bênção de idosos: Fl 3,20–4,1 [9], onde o Apóstolo exorta: “Permanecei firmes no Senhor”, pois “nós somos cidadãos do céu”.

Ruínas de um batistério na cidade de Filipos

- Bênção de edifício sede de comunicação: Fl 4,8-9 [10], com uma exortação à ética nas comunicações: “Irmãos, ocupai-vos com tudo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso...” (v. 8).

- Bênção de instalações esportivas: Fl 3,12-15 [11], aqui, como na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo usa a metáfora do esporte, afirmando: “Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus” (v. 14).

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses (2)

“Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho” (Fl 1,27).

Em nossa postagem anterior desta série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura iniciamos o estudo da presença da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl) nas celebrações do Rito Romano.

Após uma breve introdução, começamos a analisar sua leitura sob o critério da composição harmônica, isto é, da sintonia com o tempo ou a festa litúrgica (cf. Elenco das Leituras da Missa, n. 66) [1] na Celebração Eucarística. Para acessar a primeira parte, clique aqui.

Tendo considerado os diversos tempos do Ano Litúrgico, nesta postagem prosseguiremos com as Missas dos santos, para diversas necessidades e votivas.

“Ao nome de Jesus todo joelho se dobre” (Fl 2,10)

2. Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses: Composição harmônica

a) Celebração Eucarística

Iniciamos esta segunda parte da nossa pesquisa com o Próprio dos Santos, que inclui as celebrações do Senhor, da Virgem Maria e dos Santos com data fixa no calendário.

Encontramos a Carta aos Filipenses antes de tudo na Memória facultativa do Santíssimo Nome de Jesus (03 de janeiro), suprimida pela reforma litúrgica e resgatada na 3ª edição do Missal Romano. Nesta celebração o célebre “hino” da Carta está presente na leitura (Fl 2,6-11) e na antífona de entrada: “Ao nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra e nos abismos, e toda língua proclame, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor” (Fl 2,10-11).

A mesma antífona é proferida na Memória de Santo Inácio de Loyola, Presbítero (31 de julho), remetendo ao lema da Congregação fundada por Santo Inácio, a Companhia de Jesus: “Ad maiorem Dei gloriam” (Para maior glória de Deus) [2].

A leitura do “hino cristológico” de Fl 2,6-11 é indicada também na Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), como 2ª leitura quando a Festa cai em um domingo e como leitura à escolha quando cai em um dia de semana [3], destacando-se aqui a referência explícita à cruz, que se considera um acréscimo de Paulo ao hino: “Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (v. 8).

Quanto às celebrações dos santos, vale destacar a antífona da Comunhão da Festa de Santa Rosa de Lima, Virgem (23 de agosto), padroeira da América Latina: “Considero perda todas as coisas, comparadas com o valor insuperável do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor...” (Fl 3,8-9) [4].

Na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (02 de novembro), por sua vez, dentre as várias opções de leituras ad libitum (à escolha), consta Fl 3,20-21 [5]. Aqui o Apóstolo Paulo atesta: “Nós somos cidadãos do céu” (v. 20), recordando que Cristo glorificará o nosso corpo, isto é, nos ressuscitará. As leituras dessa celebração são indicadas também para o sacramental das Exéquias.

Dessa leitura é tomada uma das opções de aclamação ao Evangelho: “A nossa cidade é nos céus, de onde também esperamos o Cristo Jesus, Senhor nosso” (cf. Fl 3,20) [6]; e uma das opções de antífona da Comunhão para as Missas dos defuntos: “Esperamos como Salvador o Senhor Jesus Cristo; Ele transformará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o seu” (Fl 3,20-21) [7].

Na sequência consideremos o Comum dos Santos, com formulários para as várias “categorias” de santos. No Comum dos Santos propriamente dito há duas opções de leituras à escolha da nossa Carta:
- Fl 3,8-14, com a “definição” de santidade como “correr para alcançar Cristo” (v. 12);
- Fl 4,4-9, com a exortação a praticar a virtude, isto é, “tudo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso...” [8].

São Paulo e seus discípulos
(Com as Cartas aos Romanos, Coríntios e Filipenses)

Prosseguimos com as Missas para diversas necessidades, igualmente com várias opções de leituras ad libitum (à escolha), incluindo os seguintes textos da nossa Carta:

- Missa por um Concílio ou Sínodo: Fl 2,1-4 [9], com a exortação do Apóstolo à unidade: “Aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade” (v. 3).

- Missa pelos religiosos: O mesmo texto acima, Fl 2,1-4, com a exortação à unidade, fundamental na vida comunitária [10].

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses (1)

“Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Em nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura já contemplamos seis dos treze escritos atribuídos ao Apóstolo Paulo: as duas Cartas aos Tessalonicenses e as quatro “grandes Cartas” (a Carta aos Gálatas, as duas Cartas aos Coríntios e a Carta aos Romanos).

Dando continuidade à proposta, iniciaremos uma análise das três “Cartas do cativeiro”, com importantes reflexões sobre Cristo e a Igreja: Filipenses, Colossenses e Efésios. Começaremos pela Carta aos Filipenses (Fl), Πρὸς Φιλιππησίους.

São Paulo na prisão escrevendo suas Cartas
(Rembrandt)

1. Breve introdução à Carta aos Filipenses

Segundo os Atos dos Apóstolos, a cidade de Filipos, na Macedônia, foi visitada por Paulo em sua “segunda viagem missionária” (anos 50-52), sendo a primeira comunidade fundada pelo Apóstolo na Europa (At 16,11-40).

A Carta teria sido escrita da prisão (cf. Fl 1,7.12-13); porém, não está claro de qual se trata. Nos Atos são relatadas duas prisões de Paulo: Cesareia entre 58 e 60 (At 23–26) e Roma entre 61 e 63 (At 28). Sugere-se ainda uma prisão em Éfeso entre os anos 54 e 56. Na Segunda Carta aos Coríntios escrita em torno do ano 57, Paulo já fala de “prisões” no plural (2Cor 11,23).

Embora a autoria paulina não seja questionada, discute-se acerca da unidade da Carta. O texto é marcado por um tom bastante afetuoso, familiar; porém há uma mudança brusca no início do capítulo 3, dedicado a correções e polêmicas. Assim, alguns estudiosos postulam a existência de duas ou até mesmo três cartas dentro de Filipenses.

Não obstante estas questões, a Carta pode ser estruturada em seis partes, “emolduradas” por uma introdução e uma conclusão:
a) Fl 1,1-11: Introdução, com a saudação (vv. 1-2) e a ação de graças (vv. 3-11);
b) Fl 1,12-26: Situação de Paulo na prisão;
c) Fl 1,27–2,18: Exortação a seguir o exemplo de Cristo;
d) Fl 2,19–3,1a: Projeto de enviar Timóteo e Epafrodito a Filipos;
e) Fl 3,1b–4,1: Advertência contra os “falsos mestres”;
f) Fl 4,2-9: Exortação à unidade e à alegria;
g) Fl 4,10-20: Agradecimento pelo auxílio enviado pelos filipenses;
h) Fl 4,21-23: Conclusão, com as saudações finais.

Merece destaque a segunda seção (Fl 1,27–2,18), com a exortação a seguir o exemplo de Cristo, na qual se encontra o importantíssimo hino cristológico, que poderíamos chamar de “hino ao Mistério Pascal” (Fl 2,6-11). Este é o mais antigo hino em honra a Cristo que foi conservado, tendo sido provavelmente entoado na Liturgia da comunidade cristã primitiva e adaptado pelo Apóstolo em sua Carta.

O hino estrutura-se em dois movimentos: a katabasis (rebaixamento) ou kenosis (esvaziamento) de Cristo nos vv. 6-8 e a sua anabasis (exaltação) nos vv. 9-11. Trata-se de uma síntese histórico-salvífica do mistério de Cristo celebrado na Liturgia: Encarnação, Paixão e Ressurreição (expressa no hino como “exaltação”).

Alguns estudiosos veem na kenosis de Cristo um paralelo com Adão (imagem presente na Primeira Carta aos Coríntios e na Carta aos Romanos): enquanto Adão, sendo homem, quis se tornar igual a Deus, Jesus, sendo Deus, se fez homem.

Quanto ao tema dos “falsos mestres” no capítulo 3, chamados por Paulo de “maus operários” (v. 2) e “inimigos da cruz” (v. 18), parecem ser grupos de judaizantes (como na Carta aos Gálatas), uma vez que Paulo apresenta suas “credenciais” judaicas, afirmando que o mais importante é o conhecimento e o amor de Cristo (vv. 7-11).

Além disso, podemos supor que havia divisões internas na própria comunidade, dado que o Apóstolo insiste diversas vezes na importância da unidade e da humildade, recorrendo ao exemplo de Cristo, como vimos acima.

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

Restos arqueológicos da cidade de Filipos

2. Leitura litúrgica da Carta aos Filipenses: Composição harmônica

Como fizemos com as demais Cartas Paulinas, analisaremos a leitura litúrgica de Filipenses a partir dos dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Iniciamos nosso percurso com o critério da composição harmônica, isto é, a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou a festa litúrgica.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Leitura litúrgica dos Livros de Jonas e Abdias

“Cada um deve afastar-se do mau caminho e de suas práticas perversas” (Jn 3,8).

Embora tradicionalmente seja contado dentro do grupo dos “doze profetas menores”, o Livro de Jonas (Jn) não é um escrito profético, e sim uma narrativa ou “novela bíblica”, semelhante aos Livros de Rute, Ester, Judite e Tobias.

Nesta postagem da nossa série de postagens sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura contemplaremos, pois, esta obra ímpar do Antigo Testamento (AT), mencionada inclusive por Jesus no Evangelho.

No final da postagem, por sua vez, falaremos brevemente da leitura litúrgica do Livro de Abdias (Ab), completando assim o grupo dos “profetas menores”.

1. Breve introdução ao Livro de Jonas

“Jonas, filho de Amitai” (ou Amati) é citado como profeta em 2Rs 14,25, tendo vivido no tempo em que Jeroboão II era rei de Israel (782-753 a. C.). O autor anônimo do Livro de Jonas faz uma “homenagem” a este profeta, emprestando seu nome para o personagem principal da sua narrativa, uma “parábola” de caráter didático.

Profeta Jonas
(Michelangelo - Capela Sistina)

A linguagem de Jonas, com efeito, nos remete ao período pós-exílico, sendo datado entre o final do período persa e o início da época helenista, ou seja, entre os séculos V e IV a. C., próximo a Joel e ao Dêutero-Zacarias (Zc 9–14).

Nesse sentido, a referência à cidade de Nínive é simbólica, dado que esta cidade, antiga capital do Império Assírio, havia sido destruída em 612 a. C., como anunciado pelo profeta Naum. Nínive aqui representa os povos estrangeiros, que Deus também chama a conversão.

Cada um dos quatro capítulos da narrativa compõe uma cena:
a) Jn 1: Jonas no mar;
b) Jn 2: Jonas no ventre do monstro marinho;
c) Jn 3: Jonas dentro de Nínive;
d) Jn 4: Jonas fora de Nínive.

Na primeira cena, após Deus enviá-lo a Nínive para pregar (Jn 1,1-2), Jonas foge, atraindo a ira divina sobre o barco. Note-se que o profeta é a causa do infortúnio, mas permanece dormindo, enquanto os marinheiros estrangeiros tratam-no bem e são piedosos, rezando a Deus e até oferecendo-lhe um sacrifício (Jn 1,16).

Jonas, lançado ao mar, é engolido por uma espécie de “monstro marinho”, dentro do qual permanece por três dias (Jn 2,1), linguagem simbólica que será interpretada como profecia da Ressurreição de Cristo (cf. Mt 12,40). No ventre do monstro Jonas entoa uma súplica, inspirada nos salmos.

O início da terceira cena retoma o início do livro, repetindo a ordem de Deus (Jn 3,1-2). Desta vez o profeta obedece e anuncia a mensagem à cidade: “Ainda quarenta dias e Nínive será destruída” (Jn 3,4). Mais uma vez o autor insiste na retidão dos estrangeiros: precisariam “três dias para percorrer a cidade”, mas bastou um dia para que o povo se arrependesse de seus pecados, fazendo jejum e penitência. Assim, a terceira cena termina com o perdão de Deus (Jn 3,10).

Por fim, Jonas senta-se fora da cidade, esperando sua destruição. Como esta não acontece, tem “um grande desgosto” e “fica irado”, a ponto de lamentar-se com Deus. Este conclui a obra proclamando seu amor por todas as criaturas, como ironicamente o próprio Jonas admite, citando Ex 34,6-7: “És um Senhor benigno e misericordioso, paciente e cheio de bondade, e que facilmente perdoas a punição” (Jn 4,2).

A maioria dos estudiosos entende o Livro de Jonas como uma crítica às reformas de Esdras e Neemias, que “fecharam” o Judaísmo às influências externas, proibindo casamentos com estrangeiros e realizando a construção do “muro” de Jerusalém, literal e figurativamente. Jonas é imagem do povo de Israel que precisa converter-se, abrindo-se à salvação universal desejada por Deus.

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

Jonas escapa do monstro marinho
(Pieter Lastman) 

2. Leitura litúrgica de Jonas: Composição harmônica

A narrativa de Jonas tem uma presença bastante “modesta” na Liturgia do Rito Romano, como veremos ao analisar sua leitura seguindo os dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Começamos, naturalmente, pela composição harmônica: a escolha do texto por sua sintonia com o tempo ou festa litúrgica.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Leitura litúrgica do Livro de Zacarias 9–14

“Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém. Eis que teu rei vem ao teu encontro” (Zc 9,9).

Em uma postagem anterior da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura vimos que o Livro de Zacarias (Zc) é na verdade formado por duas obras de épocas diferentes: os capítulos 1–8, cuja presença na Liturgia analisamos na referida postagem, e os capítulos 9–14, que serão o conteúdo deste breve estudo.

1. Breve introdução ao Livro de Zacarias 9–14

Como vimos, os capítulos 1–8 são a obra do “Proto-Zacarias” (Primeiro Zacarias), contemporâneo do profeta Ageu, cuja preocupação central é a reconstrução do Templo de Jerusalém (520-518 a. C.).

Os capítulos 9–14, por sua vez, integram a obra do “Dêutero-Zacarias” (Segundo Zacarias), um profeta anônimo, cuja datação é incerta. A maioria dos estudiosos o situa no final do século IV a. C., no contexto das conquistas de Alexandre Magno da Macedônia. Isto faria do Dêutero-Zacarias o último dos profetas do Antigo Testamento.

Profeta Zacarias
(Michelangelo - Capela Sistina)

Embora alguns temas do Proto-Zacarias sejam retomados, como a aliança ou as promessas de abundância, desaparece aqui a preocupação central com o Templo e nenhum personagem é nomeado (como Zorobabel ou Josué, referidos diversas vezes nos capítulos 1–8).

No capítulos do Dêutero-Zacarias predominam os oráculos sobre a vinda do Messias, com frequentes referências a outros textos do Antigo Testamento (AT), sobretudo aos “profetas maiores” (Isaías, Jeremias e Ezequiel) e aos Salmos.

Podemos dividir esses capítulos em duas partes bem definidas (a ponto de alguns estudiosos defenderem que a segunda parte seria obra de um “terceiro-Zacarias”):

1ª parte: Zc 9–11:
a) Zc 9,1–10,2: o Messias humilde e pacífico contrapõe-se às nações estrangeiras em guerra;
b) Zc 10,3–11,3: espécie de “novo êxodo”, com um desfile jubiloso diante do qual caem as nações inimigas, representadas pelo Egito e pela Assíria;
c) Zc 11,4-17: acusação contra os maus pastores (Deus “quebra” sua aliança com eles).

2ª parte: Zc 12–14:
a) Zc 12–13: Deus promete proteger Jerusalém dos seus inimigos e o povo se purifica de seus pecados;
b) Zc 14: combate escatológico e vitória definitiva do Senhor.

Na primeira parte predomina a poesia e há várias referências geográficas, enquanto a segunda parte é em prosa e localizada em Jerusalém.

O tema da escatologia é bastante presente na obra, sobretudo na segunda parte, onde se repete 17 vezes a fórmula escatológica: “Naquele dia acontecerá...”. Utilizam-se também muitas imagens simbólicas, próprias da literatura apocalíptica.

Se no Proto-Zacarias tínhamos o Templo como centro, o Dêutero-Zacarias gira em torno da cidade de Jerusalém: sua purificação em Zc 13,1-2 pode ser considerada o centro da obra. A partir dela o Reino de Deus se estende por toda a terra.

As referências ao Messias, apresentado como rei, pastor e servo, tornaram este escrito um dos mais citados no Novo Testamento.

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

2. Leitura litúrgica de Zacarias 9–14: Composição harmônica

Não obstante sua presença relativamente “modesta” nas celebrações litúrgicas, analisaremos a leitura de Zacarias 9–14 seguindo os dois critérios de seleção dos textos indicados no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa (ELM): a composição harmônica e a leitura semicontínua [1].

Começamos por suas leituras em composição harmônica, isto é, quando a escolha do texto se dá em sintonia com o tempo ou festa litúrgica.

Entrada messiânica de Jesus em Jerusalém (cf. Zc 9,9-10)
(Hippolyte Flandrin)

a) Celebração Eucarística

Seguindo o ciclo do Ano Litúrgico, antes ainda de considerarmos as leituras propriamente ditas, cabe destacar duas antífonas tomadas do nosso livro e entoadas no Ciclo do Natal, ambas anunciando a vinda do Senhor: