sábado, 21 de fevereiro de 2026

Ângelus: VI Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 15 de fevereiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Também hoje ouvimos no Evangelho uma parte do “Sermão da montanha” (Mt 5,17-37). Depois de proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a entrar na novidade do Reino de Deus e, para nos guiar neste caminho, revela o verdadeiro significado dos preceitos da Lei de Moisés: eles não servem para satisfazer uma necessidade religiosa exterior a fim de nos sentirmos bem diante de Deus, mas para nos fazer entrar na relação de amor com Deus e com os irmãos. Por isso, Jesus diz que não veio para abolir a Lei, «mas para dar-lhe pleno cumprimento» (v. 17).

O cumprimento da Lei é precisamente o amor, que realiza o seu significado profundo e o seu fim último. Trata-se de adquirir uma “justiça maior” (v. 20) do que aquela dos escribas e fariseus, uma justiça que não se limita a observar os mandamentos, mas nos abre ao amor e nos compromete com ele. Na verdade, Jesus examina precisamente alguns preceitos da Lei que se referem a casos concretos da vida e utiliza uma fórmula linguística - as antinomias - precisamente para mostrar a diferença entre uma justiça religiosa formal e a justiça do Reino de Deus: por um lado: «Ouvistes o que foi dito aos antigos», e, por outro lado, Jesus que afirma: «Eu, porém, vos digo» (vv. 21-37).

Esta abordagem é muito importante. Ela nos diz que a Lei foi dada a Moisés e aos profetas como um caminho para começarmos a conhecer Deus e o seu projeto sobre nós e sobre a história ou, para usar uma expressão de São Paulo, como um pedagogo que nos guiou até Ele (cf. Gl 3,23-25). Mas agora Ele mesmo veio a nós na pessoa de Jesus, o qual cumpriu a Lei, tornando-nos filhos do Pai e dando-nos a graça de entrar em relação com Ele como filhos e como irmãos entre nós.

Irmãos e irmãs, Jesus ensina-nos que a verdadeira justiça é o amor e que, em cada preceito da Lei, devemos perceber uma exigência de amor. Com efeito, não basta não matar fisicamente uma pessoa, se depois a matamos com palavras ou não respeitamos a sua dignidade (vv. 21-22). Da mesma forma, não basta ser formalmente fiel ao cônjuge e não cometer adultério, se nesta relação faltam a ternura recíproca, a escuta, o respeito, o cuidado mútuo e o caminhar juntos em um projeto comum (vv. 27-28.31-32). A estes exemplos, que o próprio Jesus nos oferece, poderíamos acrescentar também outros. O Evangelho nos oferece este precioso ensinamento: não basta uma justiça mínima, é preciso um amor grande, que é possível graças à força de Deus.

Invoquemos juntos a Virgem Maria, que deu ao mundo o Cristo, Aquele que leva à perfeição a Lei e o projeto da salvação: que ela interceda por nós, nos ajude a entrar na lógica do Reino de Deus e a viver a sua justiça.

Jesus ensinando
(Note-se na sua mão o rolo da Lei)

Fonte: Santa Sé.

Homilia do Papa João Paulo II: Cátedra de São Pedro (2001)

Há 25 anos, no dia 22 de fevereiro de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Festa da Cátedra de São Pedro com os novos Cardeais criados no Consistório do dia 21 de fevereiro [1].

Embora neste ano de 2026 não celebremos essa Festa (por coincidir com o I Domingo da Quaresma), reproduzimos aqui a homilia do Papa polonês na ocasião:

Festa da Cátedra de São Pedro
Concelebração Eucarística com os novos Cardeais
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Quinta-feira, 22 de fevereiro de 2001

1. “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,15-16).
Este diálogo entre Cristo e os seus discípulos, que ouvimos há pouco, é sempre atual na vida da Igreja e do cristão. Em cada momento da história, sobretudo naqueles mais decisivos, Jesus interpela os seus e, depois de interrogá-los sobre o que “os homens” pensam d’Ele, “estreita o foco” e lhes pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”.

Ouvimos esta pergunta ecoar, no fundo, durante todo o Grande Jubileu do Ano 2000. E todos os dias a Igreja respondeu incessantemente com uma unânime profissão de fé: “Tu és o Cristo, o Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre”. Uma resposta universal, na qual à voz do Sucessor de Pedro se uniram as vozes dos Pastores e dos fiéis de todo o Povo de Deus.


2. Uma única e solene profissão de fé: Tu és o Cristo! Esta profissão de fé é o grande dom que a Igreja oferece ao mundo no início do terceiro milênio, enquanto prossegue no “vasto oceano” que se abre diante dela (cf. Carta Apostólica Novo millennio ineunte, n. 58). A festa de hoje põe em primeiro plano o papel de Pedro e dos seus Sucessores na condução da barca da Igreja nesse “oceano”. Portanto, é particularmente significativo que nesta festa litúrgica esteja junto ao Papa o Colégio Cardinalício, com os novos Cardeais criados ontem no primeiro Consistório depois do Grande Jubileu.

Juntos queremos dar graças a Deus por ter fundado a sua Igreja sobre a rocha de Pedro. Como sugere a oração “coleta”, queremos rezar intensamente para que ela “não seja abalada por nenhuma perturbação”, mas prossiga com coragem e confiança.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Meditações da Via Sacra no Coliseu 2011

Nesta primeira sexta-feira da Quaresma, como é tradição neste blog, publicamos um modelo de meditações para a Via Sacra. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra.

Nesta ocasião recordamos a Via Sacra presidida pelo Papa Bento XVI (†2022) junto ao Coliseu na noite da Sexta-feira Santa de 2011Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

As meditações foram escritas pela Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A., Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália. Com essa postagem, portanto, honramos o Papa Leão XIV, que também pertence à Ordem de Santo Agostinho (O.S.A.).

Como ilustrações, por sua vez, propomos as esculturas realizadas pelo artista Mickey Wells para o Santuário da Paixão de Cristo (Shrine of Christ’s Passion) na cidade de St. John (Indiana, EUA), próximo de Chicago (Illinois), cidade natal do primeiro Papa norte-americano [1].

Ofício das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via Sacra no Coliseu presidida pelo Papa Bento XVI
Sexta-feira Santa, 22 de abril de 2011

Meditações da Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A.
Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália

Apresentação

«Se alguém contemplasse de longe a sua pátria, mas no meio estivesse o mar, veria aonde chegar, mas não disporia dos meios para chegar. O mesmo se passa conosco... Vislumbramos a meta a alcançar, mas no meio está o mar deste século... Ora, para que pudéssemos dispor também dos meios para chegar, veio de lá Aquele para quem nós queríamos ir... e forneceu-nos o madeiro com o qual atravessar o mar. De fato, ninguém pode atravessar o mar deste século se não é levado pela cruz de Cristo... Não abandones [pois] a cruz, e a cruz te levará».
Estas palavras de Santo Agostinho, tomadas do seu Comentário ao Evangelho de João (2, 2), nos introduzem na oração da Via Sacra (Via Crucis).


A Via Sacra, com efeito, quer estimular em nós este gesto de nos agarrarmos ao madeiro da Cruz de Cristo ao longo do mar da vida. A Via Sacra, portanto, não é uma simples prática de devoção popular com caráter sentimental, mas exprime a essência da experiência cristã: «Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (Mc 8,34).

(...) No início de cada estação, depois da clássica enunciação, aparece uma brevíssima frase que pretende oferecer a chave de leitura da respectiva estação. Podemos recebê-la idealmente como pronunciada por uma criança, quase como um apelo à simplicidade dos pequeninos, que sabem captar o coração da realidade, e em um espaço simbólico de acolhida, na oração de Igreja, da voz da infância por vezes ofendida e explorada.

A Palavra de Deus proclamada é tomada do Evangelho de João, exceto nas estações sem texto evangélico de referência ou que o têm em outros Evangelhos. Com esta escolha se pretende evidenciar a mensagem de glória da Cruz de Jesus.
Em seguida o texto bíblico é ilustrado por uma breve reflexão, clara e original.

Posse do Arcebispo de Westminster

Na manhã do sábado, 14 de fevereiro de 2026, teve lugar na Catedral Metropolitana do Preciosíssimo Sangue de Jesus em Londres (Inglaterra) a posse do novo Arcebispo Metropolitano de Westminster, Dom Charles Phillip Richard Moth, nomeado pelo Papa Leão XIV no dia 19 de dezembro de 2025.

Como indicado no livreto da celebração, algumas particularidades do rito remontam a um Pontifical inglês do século XV, conservadas tanto pela Igreja Católica quanto pela Comunhão Anglicana.

No início da celebração o novo Bispo, endossando o pluvial, dirigiu-se em procissão do Arcebispado (residência episcopal) até a Catedral, onde foi recebido na porta pelos Cônegos. Em seguida, diante do altar, o Preboste (Provost) recitou uma oração pelo novo Pastor.

Após a leitura da bula de nomeação o Preboste conduziu Dom Charles Moth até a cátedra e o Arcebispo Emérito, Cardeal Vincent Gerard Nichols, lhe entregou o báculo que pertenceu ao Cardeal Edward Henry Howard (†1892).

Após ser saudado pelos Cônegos e por alguns fiéis o Arcebispo endossou a casula e presidiu a Missa da Memória de São Cirilo, Monge, e São Metódio, Bispo, com suas orações e leituras.

Após a Comunhão, por sua vez, foi entoado o hino Te Deum laudamus e o novo Arcebispo percorreu a nave da igreja abençoando os fiéis (mesmo gesto realizado na Ordenação Episcopal).

Destaque para o cálice utilizado na Missa, realizado em 1529, antes do cisma anglicano. O  pluvial, a casula, as dalmáticas e o frontal do altar, por sua vez, foram elaborados em 2009 para a posse do Cardeal Nichols. O formal ou racional (broche do pluvial), porém, na forma de uma grande cruz com ametistas, é mais antigo.

Dom Charles Moth na capela do Arcebispado
Procissão até a Catedral


Oração silenciosa na porta da Catedral

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Quarta-feira de Cinzas (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 01 de março de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou pela primeira vez no seu pontificado a Missa da Quarta-feira de Cinzas, dando início ao Tempo da Quaresma. Repropomos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa, Bênção e Imposição das Cinzas
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de Santa Sabina
Quarta-feira, 01 de março de 2006

Senhores Cardeais,
Venerados irmãos no Episcopado e no Presbiterado,
Amados irmãos e irmãs!
A procissão penitencial, com a qual iniciamos a celebração de hoje, ajudou-nos a entrar no clima típico da Quaresma, que é uma peregrinação pessoal e comunitária de conversão e de renovação espiritual. Segundo a antiquíssima tradição romana das estações quaresmais, durante este tempo os fiéis, juntamente com os peregrinos, se reúnem todos os dias e param (statio) junto a uma das numerosas “memórias” dos Mártires, que constituem os fundamentos da Igreja de Roma. Nas Basílicas, onde são expostas as suas relíquias, é celebrada a Santa Missa precedida de uma procissão, durante a qual se cantam as Ladainhas dos Santos. Faz-se memória assim daqueles que deram testemunho de Cristo com o seu sangue, e a sua evocação torna-se estímulo para cada cristão a renovar a própria adesão ao Evangelho. Apesar do passar dos séculos, estes ritos conservam o seu valor, porque recordam como é importante, mesmo no nosso tempo, acolher sem concessões as palavras de Jesus: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23).


Outro rito simbólico, gesto próprio e exclusivo do primeiro dia da Quaresma, é a imposição das cinzas. Qual é o seu significado mais profundo? Certamente não se trata de mero ritualismo, mas de algo bastante profundo, que toca o nosso coração. Esse gesto nos faz compreender a atualidade da exortação do profeta Joel, que ressoou na 1ª leitura, exortação que conserva também para nós a sua saudável validez: aos gestos exteriores deve sempre corresponder a sinceridade da alma e a coerência das obras. Com efeito, pergunta o autor inspirado, para que serve rasgar as vestes, se o coração permanece distante do Senhor, isto é, do bem e da justiça? Eis aquilo que realmente conta: voltar para Deus, com o coração sinceramente arrependido, para obter a sua misericórdia (cf. Jl 2,12-18). Um coração renovado e um espírito novo: é o que pedimos com o Salmo penitencial por excelência, o Miserere, que hoje cantamos com o refrão “Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos”. O verdadeiro fiel, consciente de ser pecador, aspira com todo o seu ser - espírito, alma e corpo - ao perdão divino, como uma nova criação, capaz de restituir-lhe alegria e esperança (cf. Sl 50,3.5.12.14).

Homilia do Papa João Paulo II: Quarta-feira de Cinzas (2001)

Nesta Quarta-feira de Cinzas, início do Tempo da Quaresma, recordamos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, durante a Missa no dia 28 de fevereiro de 2001 [1]:

Santa Missa, Bênção e Imposição das Cinzas
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de Santa Sabina
Quarta-feira, 28 de fevereiro de 2001

1. Deixai-vos reconciliar com Deus... É agora o momento favorável (2Cor 5,20; 6,2).
Este é o convite que a Liturgia nos faz no início da Quaresma, exortando-nos a tomar consciência do dom da salvação oferecida, em Cristo, a todos os homens.

Falando do “momento favorável”, o Apóstolo Paulo refere-se à “plenitude do tempo” (cf. Gl 4,4), isto é, o tempo em que Deus, através de Jesus, “atendeu” e “socorreu” o seu povo, realizando plenamente as promessas dos profetas (cf. Is 49,8). Em Cristo se cumpre o tempo da misericórdia e do perdão, o tempo da alegria e da salvação.

Do ponto de vista histórico, o “momento favorável” é o tempo em que o Evangelho é anunciado pela Igreja aos homens de todas as raças e culturas para que se convertam e se abram ao dom da redenção. Então a vida é totalmente transformada.

O Papa recebe as cinzas

2. “É agora o momento favorável”.
A Quaresma, que hoje se inicia, é certamente, ao longo do Ano Litúrgico, um “momento favorável” para acolher com maior disponibilidade a graça de Deus. Precisamente por isso ela é definida “sinal sacramental da nossa conversão” (Coleta do I Domingo da Quaresma) [2]: sinal e instrumento eficaz daquela radical mudança de vida que requer ser constantemente renovada nos fiéis. A fonte desse extraordinário dom divino é o Mistério Pascal, o mistério da Morte e Ressurreição de Cristo, do qual brota a redenção para cada homem, para a história e para todo o universo.

A este mistério de sofrimento e de amor refere-se, em certo sentido, o tradicional rito da imposição das cinzas, iluminado pelas palavras que o acompanham: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Também se refere a esse mistério o jejum que hoje observamos, para iniciar um caminho de verdadeira conversão, no qual a união com a Paixão de Cristo nos permita enfrentar e vencer o combate contra o espírito do mal (cf. Coleta da Quarta-feira de Cinzas).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Mensagem do Papa: Quaresma 2026

Confira a seguir a Mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026, com o tema «Escutar e jejuar: Quaresma como tempo de conversão»:

Papa Leão XIV
Mensagem para a Quaresma 2026
Escutar e jejuar: Quaresma como tempo de conversão

Queridos irmãos e irmãs,
A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude materna, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.

Todo caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe para Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição.


Escutar

Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar espaço à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.

O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor» (Ex 3,7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.