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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Sequência do Natal: Eia recolamus

“Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador” (Lc 2,11).

Há um ano, em dezembro de 2023, publicamos aqui em nosso blog um artigo sobre a sequência Grates nunc omnes para a Missa da Noite da Solenidade do Natal do Senhor.

Durante a Idade Média, com efeito, as principais celebrações do Ano Litúrgico contavam geralmente com uma ou mais sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa, até que a reforma do Concílio de Trento (século XVI) infelizmente as reduziu a apenas quatro [1].

Era o caso da Solenidade do Natal do Senhor, que contava com ao menos três sequências, em alusão às três Missas (da Noite, da Aurora e do Dia): Grates nunc omnes, Eia recolamus e Natus ante saecula.

Adoração dos pastores
(Gerard van Honthorst) 

Essas composições foram elencadas pelo célebre Notker Balbulus (†912), monge da Abadia beneditina de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, em seu Liber Sequentiarum, no qual compila 38 sequências.

Após apresentamos a sequência Grates nunc omnes em 2023, nesta postagem damos continuidade à proposta com Eia recolamus laudibus piis digna, geralmente indicada para a Missa da Aurora (In aurora, In primo mane).

Contudo, uma vez que essa sequência era bastante popular em toda a Europa, às vezes aparecia indicada para a “Missa principal” do Natal (In summa Missa Nativitatis Domini, In magna Missa), isto é, a Missa com maior concurso de povo, ou então para a Missa da Noite (In galli cantu).

No Missal de Sarum, utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, por sua vez, essa sequência era indicada para o dia 01 de janeiro, Oitava do Natal e Festa da Circuncisão do Senhor (In Octava Nativitatis Domini, In die Circumcisionis Domini).

Não está claro se Notker foi o autor do texto ou apenas o compilou. Alguns estudiosos sugerem que se trata de uma composição anônima realizada na Alemanha entre os séculos X e XI.

Não obstante, assim como outras sequências atribuídas a Notker, sua divisão em estrofes não é clara. Propomos aqui uma divisão em nove estrofes de dois versos de métrica desigual, exceto a primeira e a última estrofes, com três versos.

A composição, ademais, se caracteriza por uma espécie de “assonância”: várias palavras terminam em “a” ou em variantes (“am”, “at”), o que dá grande musicalidade ao texto.

Segue, pois, o texto da sequência no original (em latim) e em uma tradução nossa bastante livre (mais uma adaptação do que uma tradução), seguidos de um breve comentário sobre a sua teologia.


Sequentia in Nativitate Domini: Eia recolamus

1. Eia recolamus laudibus piis digna,
Hujus diei gaudia, in qua nobis lux oritur gratissima.
Noctis inter nebulosa pereunt nostri criminis umbracula.

2. Hodie saeculo maris stella est enixa novae salutis gaudia,
Quem tremunt barathra, mors cruenta pavet ipsa, a quo peribit mortua.

3. Gemit capta pestis antiqua, coluber lividus perdit spolia.
Homo lapsus, ovis abducta, revocatur ad aeterna gaudia.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Sequência da Páscoa: Laudes Salvatori

“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Sl 117,24).

Um símbolo recorrente nas diversas tradições religiosas é o “centro” ou “eixo do mundo” (em latim, axis mundi): uma árvore, uma montanha, um templo... a partir do qual o ser humano podia conectar-se com a divindade.

A árvore como axis mundi
(Hilma af Klint - Tree of Knowledge)

Na tradição judaica, por exemplo, o “centro do mundo” era situado no Templo de Jerusalém. No Cristianismo, porém, o próprio Jesus diz à mulher samaritana que o mais importante não é onde adorar a Deus, mas sim como adorá-lo: “em espírito e verdade” (cf. Jo 4).

Assim, embora os cristãos construam templos onde a comunidade se reúne para partilhar a Palavra e os Sacramentos, no Cristianismo de certa forma “o tempo é mais importante que o espaço”. 

Portanto, mais do que o “axis mundi”, a tradição cristã reflete sobre o “axis temporis”, o “eixo do tempo”: a Encarnação do Verbo de Deus, entendida aqui em sentido amplo, desde sua Concepção até sua Ascensão aos céus.

O próprio Jesus inicia sua pregação afirmando que “o tempo se cumpriu” (Mc 1,15). O mesmo atesta São Paulo, situando a vinda do Filho de Deus “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4; cf. também Hb 1,2).

Não é de estranhar, portanto, que uma das antigas sequências propostas para o Domingo de Páscoa seja uma grande “recapitulação” da vida de Jesus. Trata-se da sequência “Laudes Salvatori” (Os louvores do Salvador), prescrita para o “dia santo da Páscoa” (in die sancto Paschae) ou “na Ressurreição do Senhor” (in Resurrectione Domini). Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história do Domingo de Páscoa.

Esta “sequência pascal” (Sequentia Paschalis) é a nona das 38 composições presentes no Liber Sequentiarum compilado por Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça.

As sequências, com efeito, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa, se popularizaram no Rito Romano a partir do século X. A reforma do Concílio de Trento (séc. XVI), porém, infelizmente as reduziu a apenas quatro, conservando para a Missa do Domingo de Páscoa a sequência “Victimae paschali laudes”, atribuída a Wippo de Borgonha (†1050) [1].

No Missal de Sarum, por sua vez, utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, era prescrita uma sequência para cada dia da Oitava Pascal, incluindo “Laudes Salvatori” no II Domingo da Páscoa [2].

Outra sequência pascal sobre a qual já falamos aqui em nosso blog era “Zyma vetus expurgetur”, atribuída a Adão de São Vítor (†1146), na qual vários acontecimentos do Antigo Testamento são lidos à luz do mistério de Cristo (leitura tipológica).

Na sequência “Laudes Salvatori”, como afirmamos anteriormente, os eventos da vida terrena de Cristo são lidos à luz da sua Páscoa. O próprio Evangelho atesta que os discípulos só compreenderam muitas coisas que Jesus fez e disse “depois que Ele ressuscitou dos mortos” (cf., por exemplo, Jo 2,22-24).

Além disso, embora a Igreja tenha distribuído “pedagogicamente” a celebração dos mistérios de Cristo no ciclo do Ano Litúrgico (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 102), cada celebração litúrgica é celebração do mistério de Cristo em sua totalidade, sobretudo do Mistério Pascal da sua Morte-Ressurreição.

A anamnese (memorial) da história da salvação presente na sequência encontra eco também em alguns candelabros para o círio pascal realizados durante a Idade Média: essas “colunas pascais” costumavam retratar diversas cenas da vida de Cristo, culminando em seu Mistério Pascal. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Vigília Pascal.

Coluna pascal
Basílica de São Paulo fora dos muros (Roma)

Como já fizemos com outras composições aqui em nosso blog, propomos a seguir a sequência Laudes Salvatori em seu texto original em latim, seguida de uma tradução nossa bastante livre e de alguns comentários destacando suas diversas citações bíblicas.

Como as demais sequências atribuídas a Notker, sua divisão em estrofes não é clara. Propomos aqui uma divisão em dez estrofes com distintos números de versos.

Sequentia Paschalis
Laudes Salvatori voce modulemur supplici

1. Laudes Salvatori voce modulemur supplici. 

2. Et devotis melodiis caelesti
Domino iubilemus Messiae,
qui se ipsum exinanivit ut nos
perditos liberaret homines.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Sequência da Apresentação do Senhor: Concentu parili hic te

“Quando se completaram os dias para a purificação da Mãe e do Filho, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22).

No dia 02 de fevereiro, 40 dias após o Natal, a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor, conforme o relato do Evangelho de Lucas (Lc 2,22-40).

Entre os cristãos orientais, onde a festa teve sua origem, esta é conhecida como Hypapanté, “Encontro”, pois celebra o encontro entre o Antigo e o Novo Testamento, entre Deus e o seu povo, que esperava a salvação.

Quando foi acolhida no Ocidente a partir do século VII, porém, a festa adquiriu um caráter mais mariano, sendo conhecida como “Purificação de Maria”. A ênfase cristológica só seria recuperada com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.
Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Festa da Apresentação do Senhor.

Apresentação do Senhor (Giotto)

Por esse motivo, a sequência proposta para o dia 02 de fevereiro possui um forte acento mariano: Concentu parili hic te (Unanimemente o povo te venera). Esta é a oitava das 38 composições presentes no Liber Sequentiarum compilado por Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça.

A partir do século X, com efeito, se tornaram muito populares no Rito Romano as sequências, composições poéticas em honra do mistério celebrado que eram entoadas antes do Evangelho da Missa. Infelizmente a reforma litúrgica do Concílio de Trento (séc. XVI) as reduziu a apenas quatro [1].

A fim de resgatar esse precioso tesouro da Igreja, como já fizemos com outras composições, publicamos a seguir o texto original da sequência para a Festa da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria (In Purificatione Beatae Mariae Virginis), seguido de uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”) e um breve comentário sobre o texto.

Propomos uma divisão da sequência em sete estrofes de seis ou oito versos (à exceção da última, com sete versos).

Sequentia in Purificatione Beatae Mariae Virginis:
Concentu parili hic te

1. Concentu parili hic te,
Maria, veneratur populus
teque piis colit cordibus.
Generosi Abrahae tu filia
veneranda, regia de Davidis
stirpe genita.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Sequência da Epifania: Festa Christi omnis

“Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorar o Senhor” (cf. Mt 2,2).

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, a partir do século X se tornaram muito populares no Rito Romano as sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa em honra do mistério celebrado [1].

No início do século X, com efeito, Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum [2].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a sétima sequência compilada por Notker, intitulada Festa Christi omnis (“A festa de Cristo”), para a Solenidade da Epifania do Senhor (In Epiphania Domini), celebrada pelas Igrejas do Oriente e o Ocidente no dia 06 de janeiro.

A jornada dos Magos a Belém, guiados pela estrela
(Leopold Kupelwieser)

Publicamos a seguir o texto original da sequência (em latim) e uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Como as demais composições de Notker, a sequência Festa Christi omnis não possui uma divisão em estrofes clara. Propomos uma divisão dos seus 40 versos em 10 estrofes de quatro ou seis versos, à exceção da primeira e da última, com apenas dois versos.

A divisão temática, por sua vez, é notória: após uma introdução (versos 1-6), contempla-se a visita dos Magos (vv. 7-16), o massacre dos Inocentes (vv. 17-24) e, por fim, o Batismo do Senhor (vv. 25-40).

A Solenidade da Epifania do Senhor, com efeito, contempla a “manifestação” de Cristo em um sentido amplo, embora com diferentes ênfases: no Ocidente se enfatiza a visita dos Magos ao Menino e no Oriente o Batismo do Senhor no Jordão.

Sequentia in Epiphania Domini: Festa Christi omnis

1. Festa Christi omnis
Christianitas celebret.

2. Quae miris sunt modis ornata
cunctisque veneranda populis
Per omnitenentis adventum
atque vocationem gentium.

3. Ut natus est Christus, est stella
magis visa lucida.
At illi, non cassam putantes
tanti signi gloriam.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Sequência do Natal: Grates nunc omnes

“Uma multidão da coorte celeste cantava louvores, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus...’” (cf. Lc 2,13-14).

Das cinco grandes Solenidades do Senhor elencadas nos nn. 1-2 da Tabela de precedência dos dias litúrgicos (Páscoa, Natal, Epifania, Ascensão e Pentecostes), duas possuem atualmente uma sequência própria: a Páscoa (Victimae paschali laudes) e o Pentecostes (Veni, Sancte Spiritus).

Entre os séculos X e XVI, porém, todas as principais celebrações do Ano Litúrgico contavam com uma ou mais sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa que sintetizam o mistério celebrado, até que a reforma do Concílio de Trento as reduziu a apenas quatro [1].

Sandro Botticelli - Natividade mística (detalhe)

A Solenidade do Natal do Senhor, com efeito, contava com ao menos três sequências, em alusão às três Missas (da Noite, da Aurora e do Dia): Grates nunc omnes, Eia recolamus e Natus ante saecula.

Essas composições foram elencadas pelo célebre Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, em seu Liber Sequentiarum [2].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a sequência Grates nunc omnes (“Demos graças, todos, agora”), ora indicada para a Missa da Noite do Natal (In galli cantu, In prima Missa), ora para a Missa da Aurora (In primo mane). Contudo, é mais adequada para a primeira, dada sua referência ao canto dos anjos, recordado no Evangelho da Missa da Noite (Lc 2,1-14).

A maioria dos estudiosos considera que essa sequência não é de Notker, sendo acrescentada posteriormente em seu elenco. Trata-se, provavelmente, de uma composição anônima realizada no sul da Alemanha no século XI.

Originalmente era composta por apenas duas estrofes: Grates nunc omnes reddamus Domino Deo (5 versos) e Huic oportet ut canamus (3 versos). Logo, porém, foi enriquecida com outras cinco estrofes de 5 versos.

Com efeito, se a primeira estrofe nos convida a dar graças a Cristo, as seguintes estendem a ação de graças ao Pai e ao Espírito Santo (estrofes 2-3), à Trindade como um todo (4), à Virgem Maria (5) e aos anjos (6).

Nessa “forma longa” da sequência, a segunda estrofe do texto original, Huic oportet, podia também ser entoada como refrão, repetida a cada estrofe.

A composição, com efeito, era muito popular entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, sendo acolhida inclusive em ambiente luterano, recebendo adaptações para as línguas vernáculas, e entoada em diversos momentos do culto.

Em alguns lugares, pois, era entoada como canto de entrada ou de Comunhão, considerando sua forma de “ladainha”, intercalando o “convite ao louvor” a um refrão.

Além disso, o convite “reddamus”, do verbo “reddere” (“dar”, no sentido de “dar graças”), pode ser facilmente associado ao verbo “redire” (“retornar”, no sentido de “retornar a Deus”, simbolismo expresso no gesto da procissão).

Sandro Boticelli - Natividade mística (detalhe)

Segue, pois, o texto da sequência Grates nunc omnes (forma longa) no original (em latim) e em uma tradução nossa bastante livre.

Sequentia in Nativitate Domini: Grates nunc omnes

1. Grates nunc omnes
reddamus Domino Deo,
qui sua nativitate
nos liberavit
de diabolica potestate.

2. Grates nunc omnes
reddamus aeterno Patri,
pro sua qui pietate
mundo salutem
de matris contulit puritate.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Sequência da Natividade de Maria: Stirpe Maria regia

“É hoje o nascimento de Maria, a Virgem santa, descendente de Davi” [1].

As sequências, composições poéticas a serem entoadas antes do Evangelho da Missa e que sintetizam o mistério celebrado, se popularizaram no Rito Romano a partir do século X [2].

No início do século X, com efeito, um monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, Notker Balbulus (†912), isto é, Notker “o Gago”, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum [3].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a 20ª sequência compilada por Notker: Stirpe Maria regia (“Descendente de estirpe régia”), para a Festa da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, celebrada no dia 08 de setembro.

Vitral representando a “Árvore de Jessé”

Publicaremos aqui o texto original da sequência (em latim) e uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Assim como as demais sequências compiladas por Notker, não há rimas e a divisão em estrofes não está clara. Propomos a seguir uma divisão em 07 estrofes de dois ou três versos.

Sequentia: Stirpe Maria regia
In Nativitate Virginis Mariae

1. Stirpe Maria regia
Procreata regem generans Iesum.

2. Laude digna angelorum sanctorum,
Et nos peccatores tibi devotos intuere benigna.

3. Tu pios patrum mores ostentas in te,
Sed excellis eosdem.

4. Patris tui Salomonis in te lucet sophia
Et Ezechiae apud Deum cor rectum,
Sed numquam in te corrumpendum.

5. Patris Iosiae adimplevit te religiositas,
Summi etiam patriarchae te fides
Totam possedit, patris tui.

6. Sed quid nos istos recensemus heroas,
Cum tuus natus omnes praecellat illos
Atque cunctos per orbem?

7. Nos hac die tibi gregatos serva,
Virgo, in lucem mundi qua prodisti,
Paritura caelorum lumen [4].

Notker Balbulus, compilador da sequência

Sequência: Descendente de estirpe régia
Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria

1. Descendente de estirpe régia,
Maria gerou o Rei Jesus.

2. Digna do louvor dos santos anjos,
Ela olha benigna por nós, pecadores, seus devotos.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Sequência da Assunção de Maria: Congaudent angelorum chori

“Maria é elevada ao céu, alegram-se os coros dos anjos”.

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, entre os séculos X e XVI as principais celebrações do Ano Litúrgico eram enriquecidas com uma ou mais sequências, composições poéticas a serem entoadas antes do Evangelho da Missa que sintetizavam o mistério celebrado [1].

No início do século X, Notker Balbulus (†912), isto é, Notker “o Gago”, monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum [2].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar a 19ª sequência compilada por Notker: Congaudent angelorum chori (“Alegram-se os coros dos anjos”), para a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, celebrada no dia 15 de agosto (ou transferida para o domingo seguinte, como no caso do Brasil).

Maria, assunta aos céus, é acolhida pelos anjos
(Fra Angelico, detalhe)

Propomos a seguir o texto original da sequência (em latim) e uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” do que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Assim como as demais sequências compiladas por Notker, não há rimas e a divisão em estrofes não está clara. A publicamos aqui dividida em 10 estrofes com dois ou três versos.

Sequentia: Congaudent angelorum chori
De Assumptione Beatae Virginis Mariae

1. Congaudent angelorum chori gloriosae virgini,
Quae sine virili commixtione genuit
Filium, qui suo mundum cruore medicat.

2. Nam ipsa laetatur, quo caeli iam conspicatur principem,
In terris cui quondam sugendas virgo mamillas praebuit.

3. Quam celebris angelis Maria, Iesu mater, creditur,
Qui filii illius débitos se cognoscunt famulos.

4. Qua gloria in caelis ista virgo colitur,
Quae Domino caeli praebuit hospitium sui sanctissimi corporis.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Sequência da Visitação: Decet huius cunctis horis

“Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti!” (Sf 3,14.17).

Há um ano publicamos aqui em nosso blog um breve histórico da Festa da Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria (Visitatio Beatae Mariae Virginis), celebrada pela Igreja de Rito Romano no dia 31 de maio.

Como vimos, um dos grandes promotores da Festa foi Johann von Jenstein (†1400), Arcebispo de Praga, no então Reino da Boêmia (atual República Tcheca), que a teria celebrado em sua diocese no ano de 1386.

A Johann von Jenstein (em tcheco, Jan z Jenštejna) atribuem-se ao menos três composições que posteriormente seriam acolhidas como sequências em algumas regiões vizinhas, tanto para a própria Festa quanto para sua Oitava: Ave Verbi Dei parens, Decet huius cunctis horis e Illibata mente sana.

Visitação - Anônimo do século XIV
Mesmo século da composição da sequência

As sequências, composições poéticas a serem entoadas antes do Evangelho na Missa, tornaram-se muito populares no Rito Romano a partir dos séculos IX e X, até que, infelizmente, a reforma litúrgica do Concílio de Trento (séc. XVI) as reduziu a apenas quatro [1].

Nesta postagem gostaríamos de apresentar uma das sequências compostas por Johann von Jenstein no século XIV: Decet huius cunctis horis, ou, em português, “Convém fazer memória”.

O poema está dividido em sete estrofes, as cinco primeiras com seis versos e as duas últimas com oito versos. Os breves versos, de sete ou oito sílabas, compõem rimas tanto emparelhadas quanto intercaladas (AAC - BBC).

Reproduzimos a seguir o texto original da sequência, em latim, seguido de uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” que uma “tradução”, uma vez que o original possui várias “licenças poéticas”) e um breve comentário sobre o texto:

Sequentia de Visitatione Beatae Mariae Virginis:
Decet huius cunctis horis

Festi voce dulcioris
Facere memoriam;
Nec indignum sed benignum
Voce, corde, dare signum
Mariae in gloriam.

2. Innovemus mente sana,
Mater quod petit montana
Salutare gravidam;
Paranympho comitata,
Fuerat quo salutata,
Senem mulcet pavidam.

sábado, 28 de maio de 2022

Sequência de Pentecostes: Sancti Spiritus adsit nobis gratia

“Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra” (Sl 103,30).

Os católicos de Rito Romano estão familiarizados com a sequência Veni, Sancte Spíritus (“Espírito de Deus, enviai dos céus”), entoada no Domingo de Pentecostes.

Essa, com efeito, é uma das poucas sequências que “sobreviveram” à reforma litúrgica do Concílio de Trento. Anteriormente, entre os séculos X e XVI, praticamente todas as solenidades e festas do Ano Litúrgico possuíam uma ou mais sequências, composições poéticas que sintetizavam o mistério celebrado [1].

Além de Veni, Sancte Spíritus, composição do século XIII atribuída a Stephen Langton (†1228), Arcebispo de Canterbury (Inglaterra), a Solenidade de Pentecostes era enriquecida com a sequência Sancti Spiritus adsit nobis gratia (em uma tradução livre, “Que o Espírito Santo derrame sobre nós a sua graça”).

Para saber mais sobre o Pentecostes, confira nossa postagem sobre a história desta Solenidade.

Vitral do Espírito Santo
(Catedral de Santa Maria, Glasgow)

Esta sequência remonta ao início do século X, sendo talvez a mais famosa dentre as atribuídas a Notker Balbulus (†912), monge beneditino da Abadia de Sankt Gallen (Suíça).

Notker “o Gago”, venerado como Beato pelos beneditinos, compilou 38 composições em seu Liber Sequentiarum, das quais já falamos aqui no blog sobre três:
- Sancti Baptistae, Christi praeconis (Natividade de São João Batista);
- Petre, summe Christi pastor (Solenidade de São Pedro e São Paulo);
- Summi triumphum Regis (Solenidade da Ascensão do Senhor).

Entre os séculos XIII e XVI as duas sequências - Veni, Sancte Spíritus e  Sancti Spiritus adsit nobis - eram entoadas intercaladamente no Domingo de Pentecostes e durante a sua Oitava, até que o Concílio de Trento fixou a primeira como a única sequência para essa Solenidade [2].

Não obstante, a fim de dar a conhecer cada vez mais o riquíssimo patrimônio litúrgico da Igreja, apresentamos a seguir a sequência Sancti Spiritus adsit nobis gratia em seu texto original (em latim) e em uma tradução nossa bastante livre (mais uma “adaptação” que uma “tradução”), além de um breve comentário sobre o texto.

Esta sequência se aproxima muito à composição de Notker para a Ascensão (Summi triumphum Regis): não há rimas e a divisão em estrofes não é bem clara: em algumas fontes ela aparece simplesmente estruturada em 24 versos. Propomos aqui uma divisão em 11 estrofes, a primeira e a última com três versos e as demais com dois versos.

Notker representado em um manuscrito do século XI
(Note-se o início da sequência Sanctis Spiritus adsit no livro)

Sequentia: Sancti Spiritus adsit nobis gratia

1. Sancti Spiritus adsit nobis gratia (Aleluia),
Quae corda nostra sibi faciat habitaculum,
Expulsis inde cunctis vitiis spiritalibus.

2. Spiritus alme, illustrator hominum,
Horridas nostrae mentis purga tenebras.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Sequência da Ascensão: Summi triumphum Regis

“Contemplamos, ó Senhor, vosso cortejo que desfila: é a entrada do meu Deus, do meu Rei, no santuário!” (Sl 67,25).

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, entre os séculos X e XVI todas as principais celebrações do Ano Litúrgico possuíam uma ou mais sequências, composições poéticas entoadas antes do Evangelho da Missa que sintetizavam o mistério celebrado [1].

Nesta postagem, gostaríamos de destacar uma das sequências da Ascensão do Senhor (In Ascensione Domini), Solenidade celebrada 40 dias após a Páscoa, na quinta-feira da VI semana (ou transferida para o domingo seguinte, como é o caso no Brasil).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Solenidade da Ascensão.

Ascensão do Senhor ao céu, circundado por anjos

A composição que propomos intitula-se Summi triumphum Regis (Ao triunfo do Rei supremo), atribuída a Notker Balbulus (†912), isto é, Notker “o Gago”, monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na Suíça, o qual teria sido beatificado em 1512.

Aqui em nosso blog já destacamos duas sequências compiladas por Notker entre o final do século IX e o início do século X: Sancti Baptistae, Christi praeconis (Natividade de São João Batista) e Petre, summe Christi pastor (São Pedro e São Paulo).

A seguir apresentamos a sequência Summi triumphum Regis, a 13ª das 38 sequências compiladas no Liber Sequentiarum de Notker, em seu texto original (em latim), seguida de uma tradução nossa bastante livre e algumas notas destacando alguns aspectos do texto.

Mais do que poesia, a composição aproxima-se mais da prosa: não há rimas e a divisão em estrofes não é bem clara. Propomos aqui uma divisão em oito estrofes, a primeira e a última com três versos e as demais com dois versos.

Sequentia: Summi triumphum Regis

Summi triumphum Regis prosequamur laude,
Qui caeli, qui terrae regit sceptra, inferni iure domito,
Qui sese pro nobis redimendis permagnum dedit pretium.

Huic nomen exstat conveniens Idithum,
Nam transilivit omnes strenue Montes colliculosque Bethel.

quarta-feira, 30 de março de 2022

A sequência pascal Zyma vetus expurgetur

“O Cristo, nossa Páscoa, foi imolado: celebremos a festa com pão sem fermento, o pão da retidão e da verdade. Aleluia!” [1].

A Páscoa (do hebraico “pessach”, salto), remonta a duas celebrações ligadas ao início da primavera no hemisfério norte: uma de caráter pastoril, marcada pela imolação do cordeiro, e outra de caráter agrícola: a “festa dos ázimos” (Ex 12–13). Posteriormente, ambas fora unidas em uma grande comemoração do êxodo, isto é, da saída do povo de Israel do Egito.

Confira nossa postagem sobre a história da celebração da Páscoa clicando aqui.

Os pães ázimos (do grego ἄζυμος, em latim azymus, sem fermento; matzá em hebraico) simbolizam a “pressa” dos judeus no contexto da fuga do Egito e também a humildade diante de Deus, uma vez que o fermento (hametz, em hebraico) “incha” o pão.

Cristo, "nossa Páscoa", parte o pão ázimo

Com efeito, o pão que se utiliza na Celebração Eucarística do Rito Romano, chamado comumente de “hóstia” (“vítima” em latim), deve sempre ser ázimo (cf. Código de Direito Canônico, cân. 926; Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 48).

Nesse sentido, em sua Primeira Carta aos Coríntios São Paulo exorta-nos a lançar fora o “velho fermento” para celebrar a Páscoa “com os pães ázimos da pureza e da verdade” (1Cor 5,6b-8).

Confira nossas postagens sobre a leitura litúrgica da Primeira Carta aos Coríntios clicando aqui.

Esse simbolismo é evocado no início de uma das antigas sequências propostas para a Páscoa da Ressurreição: “Zyma vetus expurgetur”, expressão que poderia ser traduzida como “Expurgado o velho fermento”.

As sequências são composições que se popularizaram no Rito Romano a partir do século X. Eram entoadas antes do Evangelho na Missa, exprimindo poeticamente o mistério da festa celebrada.

A reforma do Concílio de Trento (séc. XVI) infelizmente reduziu as sequências do Rito Romano a apenas quatro, conservando para a Missa do Domingo de Páscoa a composição “Victimae paschali laudes”, do século XI, atribuída a Wippo de Borgonha.

A sequência “Zyma vetus expurgetur”, por sua vez, remonta ao século XII, sendo atribuída a Adão de São Vítor (†1146), monge da Abadia de São Vítor em Paris (França).

Essa “sequência pascal” (Sequentia paschalis) era entoada tanto no Domingo da Ressurreição quanto durante o Tempo Pascal. Por exemplo, no Missal de Sarum (utilizado na Inglaterra durante a Idade Média, particularmente na Diocese de Salisbury), que prescreve uma sequência para cada dia da Oitava Pascal, “Zyma vetus” era entoada na segunda-feira [2].

A sequência é composta por 13 estrofes: as estrofes 1-10 com seis versos, as estrofes 11-12 com oito versos e a última com dez versos. Todas as estrofes possuem tanto rimas emparelhadas quanto alternadas: A-A, C, B-B, C.

O “tema” da composição, por sua vez, é a “leitura tipológica da Sagrada Escritura”, tão querida pelos Padres da Igreja: através desse “método” os acontecimentos do Antigo Testamento são lidos como “profecias” ou “modelos” (em grego, τύπος, typos) do mistério de Cristo realizado no Novo Testamento.

O recente Diretório para a Catequese recorda em seu n. 170 que: “A catequese e a Liturgia jamais se limitaram a ler separadamente os livros do Antigo e do Novo Testamento, mas lendo-os juntos demonstraram como somente uma leitura tipológica da Sagrada Escritura permite colher plenamente o significado dos eventos e dos textos que narram a única história da salvação” [3].

Para acessar nossa série de postagens sobre a Liturgia no Diretório para a Catequese, clique aqui.

O próprio Senhor nos Evangelhos faz uso dessa leitura tipológica, particularmente em relação ao Mistério Pascal da sua Morte-Ressurreição (cf. Jo 3,14; Mt 12,40).

Vale destacar que a sequência contempla o Mistério Pascal em sua totalidade, pois, como bem sintetiza o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia: “a Morte e a Ressurreição de Cristo são inseparáveis na narrativa evangélica e no projeto salvífico de Deus” (n. 128) [4].

Alegoria do Antigo e do Novo Testamento
(Hans Holbein o Jovem)

Confira a seguir, pois, a sequência Zyma vetus expurgetur em seu texto original em latim, seguida de uma tradução nossa bastante livre e de alguns comentários sobre a sua teologia, indicando as “profecias” mencionadas em cada estrofe. Vale recordar, porém, que a ordem de alguns versos pode variar conforme a versão do poema.

Sequentia paschalis: Zyma vetus expurgetur

1. Zyma vetus expurgetur,
Ut sincere celebretur
Nova resurrectio:
Haec est dies nostrae spei,
Huius mira vis diei
Legis testimonio.

2. Haec Aegyptum spoliavit
Et Hebraeos liberavit
De fornace ferrea;
His in agro constitutis
Opus erat servitutis
Lutum, later, palea.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Sequência da Anunciação: Ave Maria, Virgo serena

“Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7,10).

Como vimos em postagens anteriores aqui em nosso blog, a partir dos séculos IX e X tornaram-se muito populares no Rito Romano as “sequências”, composições poéticas a serem entoadas antes da aclamação do Evangelho na Missa.

Nesse período praticamente todas as grandes celebrações do Ano Litúrgico possuíam uma sequência, até que, infelizmente, a reforma litúrgica do Concílio de Trento (séc. XVI), as reduzisse a apenas quatro [1].

No esforço de resgatar esse precioso patrimônio da Igreja, que é um tesouro que pertence a todos nós, no ano de 2021 publicamos aqui em nosso blog três sequências para as celebrações dos santos:
- Sancti Baptistae, Christi praeconis, para a Solenidade da Natividade de São João Batista (24 de junho);
- Petre, summe Christi pastor, para a Solenidade de São Pedro e São Paulo (29 de junho);
- Psallite regi nostro, para a Memória do Martírio de São João Batista (29 de agosto).

As duas primeiras remontam ao século X, sendo atribuídas ao monge beneditino Notker Balbulus, enquanto a terceira é do século XI, atribuída ao sacerdote Gottschalk de Aachen.

Também do século XI é a sequência Ave Maria, gratia plena (Ave Maria, cheia de graça), às vezes referida como Ave Maria, Virgo serena (Ave Maria, Virgem serena) para distingui-la da própria oração da “Ave Maria”.

Anunciação: "Ave Maria, gratia plena"
(Vitral da igreja do Sagrado Coração - Edimburgo, Escócia)

Esta sequência, uma composição anônima realizada no sul da Alemanha, é indicada para a Solenidade da Anunciação do Senhor (In festo Annuntiationis gloriosae Virginis Mariae), no dia 25 de março. No Missal de Sarum, por sua vez, o qual era utilizado na Inglaterra durante a Idade Média (particularmente na Diocese de Salisbury), é prescrita para a oitava da Solenidade da Assunção de Maria [2].

Para acessar nossa postagem sobre a história da Solenidade da Anunciação do Senhor, clique aqui.

Essa sequência se popularizou por toda a Europa a partir dos séculos XII e XIII. Sua primeira estrofe, com efeito, foi utilizada pelo compositor francês Josquin des Prez (†1521) para seu célebre moteto de mesmo nome: “Ave, Maria, gratia plena; Dominus tecum, Virgo serena”.

A composição de Josquin, porém, contempla toda a vida de Maria, desde sua Concepção até sua Assunção aos céus. A sequência do século XI, por sua vez, trata especificamente da Anunciação, celebrando-a como mistério da Mãe e do Filho (cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis cultus, n. 6).

A primeira parte da sequência é uma reelaboração da oração da “Ave Maria”, que na época era formada apenas saudações do Anjo e de Isabel (Lc 1,28.42) [3].

Após uma “ladainha” de títulos da Virgem e do Senhor Jesus Cristo, a composição conclui-se com uma súplica invocando a intercessão de Maria junto ao seu Filho.

Destacam-se também as rimas, ora emparelhadas oraintercaladas, que dão grande musicalidade ao texto, dividido em sete estrofes com um número desigual de versos (2, 4, 6 ou 8).

Anunciação (Anônimo do séc. XIV)

Confira a seguir, pois, o texto original da sequência, em latim, seguido de uma tradução nossa bastante livre:

Sequentia: Ave Maria gratia plena (Ave Maria, Virgo serena)

1. Ave, Maria, gratia plena;
Dominus tecum, Virgo serena.

2. Benedicta tu in mulieribus,
Quae peperisti pacem hominibus
Et angelis gloriam.
Et benedictus fructus ventris tui,
Qui, coheredes ut essemus sui
nos, fecit per gratiam.

domingo, 29 de agosto de 2021

Sequência do Martírio de João Batista: Psallite regi nostro

"Diante dos reis falo da vossa aliança, sem temer a vergonha" (cf. Sl 118,46)
(Antífona de entrada da Memória do Martírio de São João Batista)

Na Idade Média, a partir dos séculos IX e X, as “sequências”, composições poéticas a serem entoadas antes da aclamação do Evangelho na Missa, se tornaram muito populares no Rito Romano.

Nesse período, praticamente todas as grandes celebrações do Ano Litúrgico possuíam uma sequência. Infelizmente a reforma litúrgica do Concílio de Trento, no século XVI, as reduziu a apenas quatro [1].

Já apresentamos aqui em nosso blog a sequência Sancti Baptistae, Christi praeconis, composta no século X para a Solenidade da Natividade de São João Batista (24 de junho) e atribuída ao monge beneditino Notker Balbulus.

No século XI, por sua vez, teria sido composta a sequência Psallite regi nostro (Cantai louvores ao nosso Rei), para a Memória do Martírio de São João Batista (In decollatione Sancti Iohannis Baptistae), celebrada no dia 29 de agosto.

Esta sequência é atribuída a Gottschalk de Aachen, também chamado de Gottschalk de Limburg (Godescalcus Lintpurgensis, em latim), sacerdote que viveu no século XI e que teria sido chanceler do Imperador Romano-Germânico Henrique IV.

A dança de Salomé e o martírio de João Batista
(Benozzo Gozzoli - séc. XV)

A seguir apresentamos a sequência em seu texto original (em latim), seguida de uma tradução nossa bastante livre, além de alguns comentários sobre sua teologia.

A composição está dividida em 12 estrofes de dois versos cada, exceto a primeira e a última, com apenas um verso.

Psallite regi nostro
(Sequentia: In decollatione Sancti Iohannis Baptistae)

Psallite regi nostro, psallite, psallite, psallite prudenter.

Nam psalterium est iucundum cum cithara,
Nato virginis quo psallens natus sterilis

Citharam carnis percussit in domo Domini,
Dum, quod sonabat clamando, docuit vivendo;

Mortificando quae super terram sunt membra, et hoc alios docendo;
Praeparans Christo plebem perfectam Iohannes, vox clamantis in deserto.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Sequência de São Pedro e São Paulo: Petre, summe Christi pastor

“Eis os santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”
(Antífona de entrada da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Missa do Dia).

Notker Balbulus (840-912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na atual Suíça, compilou em seu Liber Sequentiarum 38 sequências, composições poéticas a serem entoadas antes da aclamação do Evangelho na Missa, que se popularizaram no Rito Romano a partir dos séculos IX-X [1].

A 16ª sequência é indicada para a Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, no dia 29 de junho. Esta é intitulada “Petre, summe Christi pastor” (Pedro, pastor excelso de Cristo), às vezes referida com o início do 3º verso: “Ecclesiam vestris doctrinis illuminatam” (A Igreja, iluminada pela vossa doutrina).

Assim, após revisarmos e ampliarmos nossa postagem sobre a história da Solenidade de São Pedro e São Paulo, e fim de dar a conhecer cada vez mais a riqueza do patrimônio litúrgico e espiritual da Igreja, apresentamos a seguir essa sequência em seu original em latim e com uma tradução nossa bastante livre, destacando em seguida alguns aspectos do texto (como temos feito com os hinos da Liturgia das Horas).

Cabe ressaltar que este texto não deve ser usado na Missa, podendo ser recitado em um momento de devoção em honra dos Apóstolos ou em nossa oração pessoal.

São Pedro e São Paulo, Apóstolos
Note-se as coroas e as palmas, símbolos do martírio
(Igreja de São Miguel - St Albans, Inglaterra)

Petre, summe Christi pastor

Petre, summe Christi pastor, et Paule, gentium doctor,
Ecclesiam vestris doctrinis illuminatam per circulum terrae precatus adiuvet vester.

Nam Dominus, Petre, caelorum claves dono dedit.
Armigerum Benjamin, Christus te scit tuum vasque electum.

Mare planta te, Petre, Christus conculcare tuae dedit charitati;
Umbram tui corporis infirmis debilibusque fecit medicinam.

Doctiloquos philosophos te, Paule, Christus dat vincere sua voce;
Multiplices victorias tu, Paule, Christo per populos acquisisti.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Sequência da Natividade de João Batista: Sancti Baptistae, Christi praeconis

A partir dos séculos IX e X popularizaram-se no Rito Romano as “sequências”, composições poéticas a serem entoadas antes da aclamação do Evangelho (o Aleluia) na Missa.

Embora a reforma do Concílio de Trento (1545-1563) as tenha reduzido drasticamente [1], apenas a Notker Balbulus, isto é, Notker, o Gago (840-912), monge beneditino da Abadia de São Galo (Sankt Gallen), na atual Suíça, são atribuídas 50 sequências.

Seu Liber Sequentiarum recolhe na verdade 38 composições. Notker, porém, não foi necessariamente o autor de todas, tendo mais provavelmente compilado textos anteriores [2].

A 15ª dessas sequências é indicada como De Natale Sancti Joannis Baptistae, isto é, para a Natividade de São João Batista, celebrada no dia 24 de junho. A composição é intitulada com seu primeiro verso: “Sancti Baptistae, Christi praeconis” - “Santo Batista, Precursor de Cristo”.

São João Batista com a inscrição "Eis o Cordeiro de Deus" (Jo 1,29)
(Taddeo di Bartolo - Yale University Art Gallery)

A fim de dar a conhecer cada vez mais a riqueza do patrimônio litúrgico e espiritual da Igreja, apresentamos a seguir essa sequência em seu original em latim e com uma tradução nossa bastante livre, com algumas notas destacando alguns aspectos do texto.

Cabe ressaltar que este texto não deve ser usado na Missa, podendo ser recitado em um momento de devoção em honra de São João Batista ou em nossa oração pessoal:

Sequentia: Sancti Baptistae, Christi praeconis

Sancti Baptistae, Christi praeconis,
Sollemnia celebrantes moribus ipsum sequamur,
Ut ad viam, quam praedixit, asseclas suos perducat.

Devoti te, sanctissime hominum, amice Jesu Christi, flagitamus, ut gaudia percipiamus,
Apparens quae Zachariae Gabriel repromisit, qui tuam celebrarent obsequiis nativitatem,
Ut per haec festa aeterna gaudia adipiscamur
Qua sancti Dei sacris deliciis laeti congaudent.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Victimae paschali laudes: A sequência da Páscoa

A Páscoa, maior de todas as solenidades, é enriquecida com uma sequência: a Victimae paschali laudes (Cantai, cristãos, afinal). Este texto é entoado após a 2ª leitura, obrigatoriamente no Domingo de Páscoa e de maneira facultativa durante a Oitava Pascal (até o II Domingo da Páscoa, inclusive).

Sua origem remonta provavelmente ao século XI, sendo atribuída ao presbítero Wippo de Borgonha, capelão do Imperador Conrado III do Sacro Império Romano-Germânico. Porém, não há consenso quanto à sua autoria: outros atribuem-na ao Abade Notker Balbulus (autor de várias sequências no século X) ou a Adão de São Vítor (grande poeta do século XII).

De toda forma, esta sequência foi provavelmente composta para práticas de piedade popular na manhã do Domingo de Páscoa, devido à sua melodia simples e caráter didático: a estrutura do hino prevê, após uma introdução (estrofes 1-3), um diálogo entre os Apóstolos e Maria Madalena (estrofes 4-6), seguido de uma solene conclusão entoada por ambos (estrofe 7).

É possível que originalmente esse hino acompanhasse alguma representação do encontro de Maria Madalena com os Apóstolos; porém longo começou a fazer parte da Liturgia. A reforma litúrgica do Concílio de Trento a inseriu no Missal, permanecendo até hoje.


Confira a seguir o texto original da sequência (em latim) e sua tradução oficial para o português do Brasil, conforme consta no Lecionário Dominical:

Sequentia: Victimae paschali laudes

1. Victimae paschali laudes
Immolent christiani.

2. Agnus redemit oves:
Christus innocens Patri
Reconciliavit peccatores.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Dies irae: Uma meditação sobre o fim dos tempos

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, da Arquidiocese de Cuiabá (MT), publicou no dia 02 de dezembro de 2013 uma vídeo-aula comentando o Dies irae (Dia de ira), antiga sequência das Missas dos defuntos, atualmente proposto como hino facultativo da Liturgia das Horas para a última semana do Ano Litúrgico.

Para acessar nossa postagem sobre o Dies irae, clique aqui.

Juízo final (Hans Memling)

O comentário recorda a interpretação do hino feita por Wolfgang Amadeus Mozart (†1791) em sua famosa Missa de Réquiem (no vídeo da aula é possível ouvir o trecho intercalando os comentários).

A aula infelizmente não encontra-se mais disponível no Youtube, mas pode ser acessada no site do Padre Paulo Ricardo. A seguir publicamos seu texto, presente no mesmo site (em negrito encontra-se o texto do hino em latim com sua tradução).

Dies irae: Uma meditação sobre o fim dos tempos

A expressão Dies irae (“dia da ira”) é extraída da Bíblia: “Esse dia será um dia da ira, dia de angústia e de aflição, dia de ruína e de devastação; dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e de névoas espessas, dia de trombeta e de alarme, contra as cidades fortes e as torres elevadas” (Sf 1,15-16).

A “ira” de Deus consiste em uma expressão do seu amor, em uma forma de recordar aos homens que suas ações têm consequências. Faz parte da pedagogia de Deus corrigir o homem, enquanto se encontra neste mundo, a fim de que se salve. Infelizmente, tem quem teime em encaixar a ira divina apenas no Antigo Testamento, acabando por cair no erro do heresiarca Marcião, cuja doutrina gnóstica distinguia o “deus” da lei judaica do “deus” do Novo Testamento. Ora, é evidente que, para os cristãos, que “veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 123), não há diferença alguma entre o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e o Deus que se revelou em Jesus Cristo. “Por isso a sã doutrina cristã sempre recusou qualquer forma emergente de marcionismo, que tende de diversos modos a contrapor entre si o Antigo e o Novo Testamento” (Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Verbum Domini, n. 40).

Dies irae

Canta o hino:
“Dies irae, dies illa / solvet saeclum in favílla, / teste David cum Sibýlla”;
“Dia da ira, dia aquele / O mundo se dissolve em cinza, / Como foi atestado por Davi e pela Sibila”.
“Como foi atestado por Davi”, quer dizer, como foi confirmado pelo próprio Antigo Testamento; “e pela Sibila”, isto é, até mesmo as religiões pagãs reconheceram a existência deste “dia final”. Ninguém ignora a existência do fim dos tempos.

“Quantus tremor est futúrus, / quando iudex est ventúrus / cuncta stricte discussúrus!”
“Quanto tremor acontecerá, / Quando o juiz vier / Para tudo julgar estritamente!”.
Narra o Evangelho que “os homens desmaiarão de medo e ansiedade, pelo que vai acontecer no universo” (Lc 21,26). Nestes primeiros versos, o Dies irae canta justamente este aspecto terrível do Juízo: o tremor das criaturas diante d'Aquele que é o Rei de todo o universo.

Tuba mirum

Na peça de Mozart, neste momento, o barítono (aquele com a voz mais grave) imita o som da trombeta, da qual fala São Paulo a Tessalônica: “Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu...” (1Ts 4,16):
“Tuba mirum spargens sonum / per sepúlcra regiónum, / coget omnes ante thronum”;
“A trombeta espalhando o som admirável / Pela região dos sepulcros, / Leva todos diante do trono”.

Segue-se, então, a ressurreição dos mortos (ibid.):
“Mors stupébit et natúra, / cum resúrget creatúra / iudicánti responsúra”;
“A morte e a natureza se espantarão, / Quando a criatura ressurgir / Respondendo ao que irá julgar”.
Aqui, Tomás de Celano utiliza-se de uma prosopopeia: ele dá características humanas à morte e à natureza, que “se espantarão” diante da ressurreição dos mortos, diante da glorificação daquela matéria sobre a qual dominava a concupiscência. Iudicánti responsúra: os mortos se levantarão à simples voz do Juiz, para respondê-Lo prontamente.