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terça-feira, 4 de novembro de 2025

Memória dos Santos nas Igrejas particulares

Há cerca de um ano o Papa Francisco (†2025) publicou uma Carta exortando as Igrejas particulares (Dioceses, Prelazias...) a recordar os próprios Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus no dia 09 de novembro.

Não se trata de uma nova celebração litúrgica: nesse dia, com efeito, celebramos a Festa da Dedicação da Basílica do Latrão, a Catedral de Roma [1]. A proposta é de caráter pastoral: após a celebração da Solenidade de Todos os Santos no dia 01 de novembro (em alguns lugares transferida para o domingo seguinte), as Igrejas particulares são convidadas a dar a conhecer os próprios filhos que se destacaram por sua fidelidade a Cristo.

Cristo e Santas Mulheres
(Santuário Nacional de Aparecida)

Confira a Carta do falecido Pontífice na íntegra:

Papa Francisco
Carta sobre a memória nas Igrejas particulares dos próprios Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus

Com a Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (2018) eu quis voltar a propor aos fiéis discípulos de Cristo no mundo contemporâneo a vocação universal à santidade. Ela está no centro do ensinamento do Concílio Vaticano II, recordando que «todos os que creem em Cristo, seja qual for o seu estado ou condição, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade» (Lumen gentium, n. 40). Portanto, todos são chamados a acolher o amor de Deus, que «foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5). Com efeito, a santidade, mais do que ser fruto do esforço humano, consiste em dar espaço à ação de Deus.

sábado, 23 de novembro de 2024

Encíclica Dilexit nos (3)

No dia 24 de outubro de 2024 o Papa Francisco promulgou a Encíclica Dilexit nos (Amou-nos) sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus.

Dada a estreita relação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com a Liturgia e a extensão do documento (220 parágrafos), publicamos seu texto na íntegra dividido em três partes (1ª parte: nn. 1-77; 2ª parte: nn. 78-150). Confira nesta terceira parte, portanto, os nn. 151-220:

Papa Francisco
Encíclica Dilexit nos
Sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus

Capítulo IV: Amor que dá de beber

(Continuação)

A devoção da consolação

151. A chaga do lado, de onde brota a água viva, permanece aberta no Ressuscitado. Esta grande ferida causada pela lança, e as chagas da coroa de espinhos que aparecem com frequência nas representações do Sagrado Coração, são inseparáveis desta devoção. Nela contemplamos o amor de Jesus Cristo que foi capaz de se entregar até ao fim. O coração do Ressuscitado conserva estes sinais da doação total que implicou um intenso sofrimento por nós. Portanto, de algum modo, é inevitável que o fiel queira responder não só a este grande amor, mas também à dor que Cristo aceitou suportar por causa de tanto amor.

Sagrado Coração de Jesus
(Pompeo Batoni)

Com Ele na Cruz

152. Vale a pena recuperar esta expressão da experiência espiritual desenvolvida em torno do Coração de Cristo: o desejo interior de consolá-lo. Não tratarei agora da prática da “reparação”, que considero melhor inserida no contexto da dimensão social desta devoção, e que desenvolverei no próximo capítulo. Agora gostaria apenas de me concentrar naquele desejo que muitas vezes brota no coração do fiel enamorado quando contempla o mistério da Paixão de Cristo e o vive como um mistério que não só é recordado, mas que pela graça se torna presente, ou melhor, nos leva a estar misticamente presentes naquele momento redentor. Se o Amado é o mais importante, como não querer consolá-lo?

153. O Papa Pio XI procurou fundamentar esta afirmação convidando-nos a reconhecer que o mistério da redenção através da Paixão de Cristo, por graça de Deus, transcende todas as distâncias do tempo e do espaço. Deste modo, se Ele se entregou na Cruz também pelos pecados futuros, os nossos pecados, transcendendo o tempo, chegaram ao seu Coração ferido, assim como os atos que oferecemos hoje pela sua consolação: «Se, portanto, à vista de nossos pecados futuros, porém previstos, a alma de Jesus esteve triste até à morte, não há dúvida que desde então lhe tenha dado algum conforto a previsão do nosso desagravo, quando “lhe apareceu o Anjo do Céu” (Lc 22,43), a consolar-lhe o Coração oprimido de tristeza e de angústia. E assim também agora, de modo admirável, porém verdadeiro, podemos e devemos consolar este Coração Sacratíssimo, continuamente ofendido pelos pecados dos homens ingratos» (Encíclica Miserentissimus Redemptor, 08 de maio de 1928, n. 14).

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Encíclica Dilexit nos (2)

No dia 24 de outubro de 2024 o Papa Francisco promulgou a Encíclica Dilexit nos (Amou-nos) sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus.

Dada a estreita relação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com a Liturgia e a extensão do documento (220 parágrafos), estamos publicando seu texto na íntegra dividido em três partes. Após a primeira postagem, com os nn. 1-77, confira nesta segunda parte os nn. 78-150:

Papa Francisco
Encíclica Dilexit nos
Sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus

Capítulo III: Este é o Coração que tanto amou

(Continuação)

Expressões recentes do Magistério

78. O Coração de Cristo esteve presente na história da espiritualidade cristã de diversas maneiras. Na Bíblia e nos primeiros séculos da Igreja aparecia sob a figura do lado ferido do Senhor, quer como fonte de graça, quer como apelo a um encontro íntimo de amor. Assim reapareceu constantemente no testemunho de muitos santos até aos nossos tempos. Nos últimos séculos esta espiritualidade tomou a forma de um verdadeiro culto ao Coração do Senhor.

Sagrado Coração de Jesus
(Pompeo Batoni)

79. Alguns dos meus Predecessores referiram-se ao Coração de Cristo e, com expressões variadas, convidaram a unir-se a Ele. No final do século XIX, Leão XIII convidava a nos consagrarmos a Ele e, na sua proposta, unia ao mesmo tempo o apelo à união com Cristo e a admiração perante o esplendor do seu amor infinito [3]. Cerca de trinta anos depois, Pio XI apresentou esta devoção como o resumo da experiência da fé cristã [4]. Além disso, Pio XII sustentou que o culto do Sagrado Coração exprime de forma excelente, como uma síntese sublime, a nossa adoração a Jesus Cristo [5].

80. Mais recentemente, São João Paulo II apresentou o desenvolvimento deste culto nos séculos passados como uma resposta ao crescimento de formas de espiritualidade rigoristas e desencarnadas que esqueciam a misericórdia do Senhor, mas ao mesmo tempo como um apelo contemporâneo a um mundo que procura construir-se sem Deus: «A devoção ao Sagrado Coração, do modo como se desenvolveu na Europa há dois séculos, sob o impulso das experiências místicas de Santa Margarida Maria Alacoque, foi a resposta ao rigorismo jansenista, que tinha acabado por menosprezar a infinita misericórdia de Deus... O homem do ano 2000 tem necessidade do Coração de Cristo para conhecer Deus e para conhecer a si mesmo; tem necessidade dele para construir a civilização do amor» (Audiência Geral, 08 de junho de 1994).

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Encíclica Dilexit nos (1)

No dia 24 de outubro de 2024 o Papa Francisco promulgou a Encíclica Dilexit nos (Amou-nos) sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus.

Dada a estreita relação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com a Liturgia e a extensão do documento (220 parágrafos), publicaremos seu texto na íntegra dividido em três partes. Confira  nesta primeira parte os nn. 1-77:

Papa Francisco
Encíclica Dilexit nos
Sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus

1. «Amou-nos», diz São Paulo referindo-se a Cristo (Rm 8,37), para nos ajudar a descobrir que nada «será capaz de nos separar» desse amor (v. 39). Paulo afirmava-o com firme certeza, porque o próprio Cristo tinha garantido aos seus discípulos:  «Eu vos amei» (Jo 15,9.12). Disse também: «Chamei-vos amigos» (v. 15). O seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele amou-nos primeiro (cf. 1Jo 4,10). Graças a Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (v. 16).

Sagrado Coração de Jesus
(Pompeo Batoni)

Capítulo I: A importância do coração

2. Para exprimir o amor de Jesus Cristo recorre-se frequentemente ao símbolo do coração. Há quem se interrogue se isto atualmente tenha um significado válido. Porém, é necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente, sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência [1].

O que entendemos quando dizemos “coração”?

3. No grego clássico profano, o termo kardía designa a parte mais íntima dos seres humanos, dos animais e das plantas. Em Homero, indica não só o centro corpóreo, mas também a alma e o centro espiritual do ser humano. Na Ilíada, o pensamento e o sentimento pertencem ao coração e estão muito próximos um do outro (cf. canto XXI, verso 441). O coração aparece como o centro do desejo e o lugar onde são forjadas as decisões importantes de uma pessoa (cf. canto X, verso 244). Em Platão, o coração assume, de certa forma, uma função “sintetizante” do que é racional e das tendências de cada pessoa, uma vez que tanto o comando das faculdades superiores como as paixões se transmitem através das veias que convergem no coração (cf. Timeu, § 65c-d; § 70). Assim, desde a Antiguidade advertimos a importância de considerar o ser humano não como uma soma de diferentes capacidades, mas como um complexo anímico-corpóreo com um centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Encíclica Ecclesia de Eucharistia (2)

“Ecclesia de Eucharistia vivit” - “A Igreja vive da Eucaristia”.

Recordando os 20 anos do início do Ano da Eucaristia (17 de outubro de 2004), convocado por São João Paulo II, repropomos sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia, promulgada na Quinta-feira Santa de 2003.

Por sua importância e extensão, dividimos o documento em duas partes. Após a 1ª parte com os nn. 1-33, confira a seguir os Capítulos 4-6 e a Conclusão (nn. 34-62):

Papa João Paulo II
Encíclica Ecclesia de Eucharistia
Sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja

Capítulo IV: A Eucaristia e a comunhão eclesial

34. Em 1985 a Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos reconheceu a «eclesiologia da comunhão» como a ideia central e fundamental dos documentos do Concílio Vaticano II (cf. Relação final, II-C.1). Enquanto durar a sua peregrinação aqui na terra, a Igreja é chamada a conservar e promover tanto a comunhão com a Trindade divina como a comunhão entre os fiéis. Para isso, possui a Palavra e os sacramentos, sobretudo a Eucaristia; desta «vive e cresce» (Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 26), e ao mesmo tempo exprime-se nela. Não foi sem razão que o termo Comunhão se tornou um dos nomes específicos deste sacramento excelso.
Daí que a Eucaristia se apresente como o sacramento culminante para levar à perfeição a comunhão com Deus Pai através da identificação com o seu Filho Unigênito por obra do Espírito Santo. Com grande intuição de fé, um insigne escritor de tradição bizantina assim exprimia esta verdade: na Eucaristia, «mais do que em qualquer outro sacramento, o mistério [da comunhão] é tão perfeito que conduz ao apogeu de todos os bens: nela está o termo último de todo o desejo humano, porque nela alcançamos Deus e Deus se une conosco pela união mais perfeita» (Nicolau Cabasilas, A vida em Cristo IV, 10). Por isso mesmo, é conveniente cultivar continuamente na alma o desejo do sacramento da Eucaristia. Daqui nasceu a prática da «Comunhão espiritual» em uso na Igreja há séculos, recomendada por santos mestres de vida espiritual. Escrevia Santa Teresa de Jesus: «Quando não comungais e não participais na Missa, comungai espiritualmente, porque é muito vantajoso... Deste modo, imprime-se em vós muito do amor de nosso Senhor» (Caminho de perfeição, 35).

São João Paulo II celebra a Eucaristia
(Corpus Christi de 2001)

35. Entretanto, a celebração da Eucaristia não pode ser o ponto de partida da comunhão, cuja existência pressupõe, visando a sua consolidação e perfeição. O sacramento exprime esse vínculo de comunhão quer na dimensão invisível que em Cristo, pela ação do Espírito Santo, nos une ao Pai e entre nós, quer na dimensão visível que implica a comunhão com a doutrina dos Apóstolos, os sacramentos e a ordem hierárquica. A relação íntima entre os elementos invisíveis e os elementos visíveis da comunhão eclesial é constitutiva da Igreja enquanto sacramento de salvação (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão, n. 4). Somente neste contexto tem lugar a celebração legítima da Eucaristia e a autêntica participação nela. Por isso, uma exigência intrínseca da Eucaristia é que seja celebrada na comunhão e, concretamente, na integridade dos seus vínculos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Encíclica Ecclesia de Eucharistia (1)

“Ecclesia de Eucharistia vivit” - “A Igreja vive da Eucaristia”.

Recordando a eleição de São João Paulo II como Bispo de Roma (16 de outubro de 1978) e os 20 anos do início do Ano da Eucaristia (17 de outubro de 2004), uma das últimas iniciativas do Papa polonês, repropomos sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia, promulgada na Quinta-feira Santa de 2003.

Por sua importância e extensão, publicaremos o documento dividido em duas partes. Confira a seguir a Introdução e os Capítulos 1-3 (nn. 1-33):

Papa João Paulo II
Encíclica Ecclesia de Eucharistia
Sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja

Introdução

1. A Igreja vive da Eucaristia [Ecclesia de Eucharistia vivit]. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28,20); mas, na sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par. Desde o Pentecostes, quando a Igreja, povo da nova aliança, iniciou a sua peregrinação para a pátria celeste, este sacramento divino foi ritmando os seus dias, enchendo-os de consoladora esperança.

O Concílio Vaticano II justamente afirmou que o sacrifício eucarístico é «fonte e centro de toda a vida cristã» (Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 11). Com efeito, «na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo» (Decreto Presbyterorum ordinis, n. 5). Por isso, o olhar da Igreja volta-se continuamente para o seu Senhor, presente no sacramento do Altar, onde descobre a plena manifestação do seu imenso amor.

São João Paulo II celebra a Eucaristia
(Corpus Christi de 2001)

2. Durante o Grande Jubileu do Ano 2000 pude celebrar a Eucaristia no Cenáculo de Jerusalém, onde, segundo a tradição, o próprio Cristo a realizou pela primeira vez. O Cenáculo é o lugar da instituição deste santíssimo sacramento. Foi lá que Jesus tomou nas suas mãos o pão, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai todos e comei: Isto é o meu Corpo que será entregue por vós» (cf. Mt 26,26; Lc 22,19; 1Cor 11,24). Depois, tomou nas suas mãos o cálice com vinho e disse-lhes: «Tomai todos e bebei: Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados» (cf. Mc 14,24; Lc 22,20; 1Cor 11,25). Dou graças ao Senhor Jesus por me ter permitido repetir no mesmo lugar, obedecendo ao seu mandato: «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22,19), as palavras pronunciadas por Ele há dois mil anos.
Teriam os Apóstolos, que tomaram parte na Última Ceia, entendido o significado das palavras saídas dos lábios de Cristo? Talvez não. Aquelas palavras seriam esclarecidas plenamente só no fim do Triduum Sacrum, ou seja, aquele período de tempo que vai da tarde de Quinta-feira Santa até à manhã do Domingo de Páscoa. Nestes dias, está contido o mysterium paschale; neles está incluído também o mysterium eucharisticum.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Congresso Eucarístico 2024: Texto base (3)

De 08 a 15 de setembro de 2024 se celebra em Quito (Equador) o 53º Congresso Eucarístico Internacional, com o tema «Fraternidade para curar o mundo: “Todos vós sois irmãos” (Mt 23,8)».

Como fizemos com o Congresso Eucarístico de Budapeste (Hungria) em 2021, publicamos aqui no blog o texto base, dividido em três partes. Após a primeira postagem com a Introdução (nn. 1-11) e o Capítulo I (nn. 12-21) e a segunda postagem com o Capítulo II (nn. 22-39), confira o Capítulo III (nn. 40-53) e a Conclusão (nn. 54-58).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história dos Congressos Eucarísticos Internacionais.

53° Congresso Eucarístico Internacional - Quito (Equador)
08-15 de setembro de 2024
Texto base: Fraternidade para curar o mundo
«Todos vós sois irmãos» (Mt 23,8)

3. Fraternidade para curar o mundo
«Dai-lhes vós mesmos de comer» (Lc 9,13)

40. No texto da multiplicação dos pães que nos oferece o evangelista Lucas, não só acontece o milagre do alimento abundante para todos, até a saciedade e mais, mas também o de uma comunidade que, constituída em assembleia em torno do seu Mestre, recebe o mandamento da caridade. Assim, partilhando o que possui e o próprio esforço físico, sai de si mesma para alimentar a multidão faminta. Sinal eucarístico profético de um povo que não se fecha no intimismo dos seus templos, mas que é enviado pelo seu Senhor a ser também ele pão partido para a vida e a fraternidade do mundo de hoje.


A reconciliação e a violência
41. A ação curadora de Cristo sobre o mundo enfrenta as dramáticas realidades da nossa história, na qual a violência generalizada nos tornou todos vítimas e verdugos ao mesmo tempo. No Equador, país de maioria católica, por exemplo, falar de fraternidade reconciliada pode conter um sabor de incredulidade ao recordar o que aconteceu nas nossas prisões e nas nossas ruas, onde inocentes e culpados, sem distinção, perderam a vida, fazendo dos últimos anos os mais violentos da nossa história recente.
Somos conscientes de que a redenção é real, mas esta tem que alcançar sua consumação definitiva. O mundo foi curado, no seu coração e no seu destino, embora descubramos realidades onde esta cura ainda não se manifestou plenamente. A indignação diante da violência e o desejo de solucioná-la nos falam da certeza da cura. Podemos comprová-lo no testemunho de muitos homens e mulheres que, a partir do testemunho de Cristo, tornando-se seus discípulos missionários [44], souberam responder de maneira evangelicamente nova à crescente violência que aflige nossa maneira “natural” de nos relacionarmos uns com os outros.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Congresso Eucarístico 2024: Texto base (2)

De 08 a 15 de setembro de 2024 se celebra em Quito (Equador) o 53º Congresso Eucarístico Internacional, com o tema «Fraternidade para curar o mundo: “Todos vós sois irmãos” (Mt 23,8)».

Como fizemos com o Congresso Eucarístico de Budapeste (Hungria) em 2021, estamos publicando aqui no blog o texto base, dividido em três partes. Após a primeira postagem com a Introdução (nn. 1-11) e o Capítulo I (nn. 12-21), confira a seguir o Capítulo II do documento (nn. 22-39).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história dos Congressos Eucarísticos Internacionais.

53° Congresso Eucarístico Internacional - Quito (Equador)
08-15 de setembro de 2024
Texto base: Fraternidade para curar o mundo
«Todos vós sois irmãos» (Mt 23,8)

2. A fraternidade realizada em Cristo
«Vede como é bom e agradável que os irmãos vivam unidos!» (Sl 132,1)

22. Já o povo de Israel na sua peregrinação cantava a alegria do caminho fraterno. É a consciência de que a união da humanidade, na riqueza da diversidade, encontra sua origem no próprio Deus. Rostos, culturas, línguas e pensamentos “caminham juntos” rumo a Deus, princípio e meta da vida [23].


A Eucaristia, recapitulação da história
23. Nosso mundo ferido não foi abandonado à sua sorte, mas mereceu uma cura infinitamente maior do que a sua ferida. «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5,20). Deus nos curou e nos tornou seus filhos, assumindo nossa natureza humana, no Filho, para que possamos participar da sua natureza divina. «Admirável intercâmbio! O Criador da humanidade, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem. Feito homem, nos doou sua própria divindade!» [24].
Precisamente, onde a ferida do pecado construiu o reino da morte, Deus fez brotar a vida da ferida do lado de Cristo (cf. Jo 19,34). As chagas abertas de Cristo Crucificado são, no seio da história, a ferida de amor que cura as outras feridas do ódio e da violência que desfiguram nossas existências, privando-nos da identidade de filhos e irmãos. Assim o Verbo, ao fazer-se homem, redimiu toda a criação, porque o ser de Deus é criar e salvar.

“Abbá!”, grito fraterno dos filhos no Filho
24. A existência de Jesus está marcada por uma relação de intimidade e confiança com Deus, a quem chama “Abbá” (cf. Mt 6,9-13; Lc 11,1-4), expressão de proximidade nunca vista na espiritualidade judaica daquele tempo. Se a serpente desfigurou a imagem bondosa de Deus no Éden, fazendo com que o pecado rompesse o diálogo de vida com Adão e Eva, agora é Jesus, o Filho amado, que cura essa ferida de desobediência, autossuficiência e rebeldia com sua vida oferecida ao Pai até o fim na Cruz.
Ao mesmo tempo, a invocação do Pai é sempre fraterna, ou seja, “nosso”. Jesus ensinou seus discípulos a chamar Deus de «Pai nosso» (Mt 6,9). Somos filhos e, portanto, irmãos. Este “nós” é a comunidade eclesial, chamada a reconhecer, amadurecer e alimentar atitudes de fraternidade.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Congresso Eucarístico 2024: Texto base (1)

De 08 a 15 de setembro de 2024 se celebra em Quito (Equador) o 53º Congresso Eucarístico Internacional, com o tema «Fraternidade para curar o mundo: “Todos vós sois irmãos” (Mt 23,8)».

Como fizemos com o Congresso Eucarístico de Budapeste (Hungria) em 2021, nos próximos dias publicaremos o texto base do Congresso, dividido em três partes. Nesta primeira postagem trazemos a Introdução (nn. 1-11) e o Capítulo I (nn. 12-21).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história dos Congressos Eucarísticos Internacionais.

53° Congresso Eucarístico Internacional - Quito (Equador)
08-15 de setembro de 2024
Texto base: Fraternidade para curar o mundo
«Todos vós sois irmãos» (Mt 23,8)

Introdução: Um sonho de fraternidade
«Todos vós sois irmãos» (Mt 23,8)

1. Com estas palavras de Jesus no Evangelho de São Mateus, o Papa Francisco quis iluminar este 53º Congresso Eucarístico Internacional que vai se realizar na cidade de Quito, Equador [1]. É uma frase do Mestre exortando seus discípulos a tomar consciência da sua relação fraternal enquanto filhos de um mesmo Pai. A comunidade dos fiéis, por vocação divina, é chamada a fundamentar suas relações humanas no amor fraterno, relações de fraternidade que devem ser sinal de esperança para um mundo fragmentado, um bálsamo necessário para sarar as feridas. Através da sua Igreja, que peregrina entre tantos povos, o Mestre recorda à sociedade contemporânea: «Todos vós sois irmãos» (Mt 23,8).


2. O contexto deste Congresso Eucarístico expressa a urgência da fraternidade para curar o mundo. Vários países da América Latina e de outros continentes sofrem internamente com a instabilidade sociopolítica. Permanecem ainda resquícios de um colonialismo histórico, violento e silencioso, que responde a interesses transnacionais de características imperialistas [2]. Sucedem constantemente manifestações populares que rejeitam um sistema econômico cada vez mais injusto, onde crescem a pobreza e a injustiça. «A pobreza e a desigualdade na América Latina são uma chaga que se aprofunda em vez de diminuir. A pandemia e suas consequências, o agravamento do contexto mundial nas esferas política, econômica e militar, assim como a polarização ideológica, parecem fechar as portas aos esforços de desenvolvimento e aos anseios de libertação» [3]. A Europa encontra-se abalada por uma guerra às suas portas, recordando o horror vivido no século XX com as grandes guerras mundiais e a divisão do Ocidente em dois grandes blocos com visões distintas da sociedade. Do Oriente Médio chegam notícias de crescente tensão e constante violência. Da África, oprimida pela pobreza endêmica, continuam a zarpar barcos cheios de migrantes que buscam refúgio em um “mundo” melhor. “Mundo” que muitas vezes é inalcançável, porque não se chega a porto seguro, morrendo nas águas do Mediterrâneo.

3. Não se trata apenas de curar as relações entre os diversos povos que habitam a face da terra, mas também de curar as feridas do coração humano que dificultam a paz e a reconciliação. É preciso que «demo-nos conta que estamos no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas, ao mesmo tempo, importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos necessitados de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos» [4]. Este momento de graça, como é um Congresso Eucarístico, nos permite reavivar o dom de Deus e reconhecer que todos os povos, abraçados pelo amor eucarístico que brota do Coração de Cristo, são irmãos, filhos de um mesmo Pai, construtores de fraternidade. Fraternidade entre os homens e fraternidade com a criação.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Guia para as grandes celebrações

“Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9).

Daqui alguns dias celebraremos a Solenidade de Corpus Christi, na qual em muitos lugares se realizam grandes celebrações (por exemplo, a nível diocesano). Portanto, aproveitamos a ocasião para resgatar o “Guia para as grandes celebrações” publicado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos há 10 anos, em junho de 2014.

A partir da experiência da Santa Sé com as celebrações presididas pelo Papa, tanto em Roma como em suas Viagens Apostólicas, além de outros grandes eventos (Jornadas Mundiais da Juventude, Encontros Mundiais das Famílias, Congressos Eucarísticos Internacionais...), o Guia traz sugestões práticas para as grandes celebrações, que podem ser aplicadas conforme as circunstâncias.

Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos
Guia para as grandes celebrações

A reflexão sobre a necessária atenção a se prestar às celebrações litúrgicas especiais nas quais, além de um elevado número de fiéis, há também muitos sacerdotes concelebrantes, tinha sido programada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos na sequência da consideração sobre esse tema que emergiu no Sínodo dos Bispos de 2005 e que foi retomado no n. 61 da Exortação Apostólica Sacramentum Charitatis do Papa Bento XVI.
Ouvido o parecer de consultores e peritos, bem como de Organismos da Sé Apostólica implicados na matéria, publicou-se uma primeira contribuição sobre o assunto, intitulada “As grandes celebrações: Uma reflexão em curso” em Notitiae 43 (2007), pp. 535-542.

Missa de envio da Jornada Mundial da Juventude
(Rio de Janeiro - 2013)

A atenção ao tema prosseguiu, resultando na elaboração do presente “Guia para as grandes celebrações que se tornou público nas páginas de Notitiae. O texto, submetido em várias ocasiões ao exame dos Membros do Dicastério, obteve parecer positivo dos Padres na Reunião Ordinária de 22 de novembro de 2013 e recebeu o beneplácito do Papa Francisco na audiência concedida ao Cardeal Prefeito em 07 de junho de 2014.
Esta Congregação deseja que o Guia, no qual se recordam critérios, indicações e sugestões presentes nas normas vigentes, contribua de modo eficaz para a diligente preparação e frutuosa celebração dos santos mistérios em circunstâncias particulares, caracterizadas pelo elevado número de sacerdotes e fiéis leigos participantes.

Da Sede da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 13 de junho de 2014, Memória de Santo Antônio, Presbítero e Doutor da Igreja.

Cardeal Antonio Cañizares Llovera, Prefeito
Dom Arthur Roche, Secretário

Introdução

Importância, problemática, responsabilidade

1. Contemplando a realidade que nos rodeia, com as suas luzes e sombras, vemos “a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (Bento XVI, Motu proprio Porta fidei, n. 2). E a Liturgia é o lugar privilegiado do encontro com Cristo, vivente na Igreja. Neste sentido, também as grandes celebrações assumiram um papel específico.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Indulgências durante o Jubileu de 2025

Há uma semana, no dia 09 de maio de 2024, o Papa Francisco convocou oficialmente o Jubileu Ordinário de 2025, promulgando a Bula Spes non confundit.

Na sequência, a Penitenciaria Apostólica, tribunal responsável por algumas questões relativas ao Sacramento da Penitência, publicou as normas para a obtenção das indulgências durante o Jubileu.

A indulgência, com efeito, é uma graça especial concedida àqueles que, arrependidos dos seus pecados e absolvidos no Sacramento da Confissão, realizam uma obra de piedade (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1471-1479). No caso do Jubileu de 2025, destacam-se a peregrinação e as obras de misericórdia.

As Normas são assinadas pelo novo Penitenciário-Mor, Cardeal Angelo De Donatis, e pelo Regente da Penitenciaria Apostólica, Monsenhor Krzysztof Józef Nykiel, recentemente eleito Bispo Titular de Velia.

Penitenciaria Apostólica
Normas sobre a concessão da Indulgência durante o Jubileu Ordinário do Ano 2025 proclamado pelo Papa Francisco

“Agora chegou o momento de um novo Jubileu, em que se abre novamente de par em par a Porta Santa para oferecer a experiência viva do amor de Deus” (Spes non confundit, n. 6). Na Bula de proclamação do Jubileu Ordinário de 2025, o Santo Padre, no momento histórico atual em que, “esquecida dos dramas do passado, a humanidade encontra-se de novo submetida a uma difícil prova que vê muitas populações oprimidas pela brutalidade da violência” (ibid., n. 8), convida todos os cristãos a se tornarem peregrinos de esperança. Esta é uma virtude a redescobrir nos sinais dos tempos, os quais, contendo “o desejo do coração humano, carecido da presença salvífica de Deus, pedem para ser transformados em sinais de esperança” (ibid., n. 7), que deverá ser obtida sobretudo na graça de Deus e na plenitude da sua misericórdia.


Já na Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia de 2015, o Papa Francisco sublinhava o quanto a Indulgência adquiria, naquele contexto, “uma relevância particular” (Misericordiae vultus, n. 22), uma vez que a misericórdia de Deus “torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado” (ibid.). Do mesmo modo, hoje, o Santo Padre declara que o dom da Indulgência “permite-nos descobrir como é ilimitada a misericórdia de Deus. Não é por acaso que, na antiguidade, o termo «misericórdia» era intercambiável com o de «indulgência», precisamente porque pretende exprimir a plenitude do perdão de Deus que não conhece limites” (Spes non confundit, n. 23). A Indulgência é, pois, uma graça jubilar.

Também por ocasião do Jubileu Ordinário de 2025, portanto, por vontade do Sumo Pontífice, este “Tribunal de Misericórdia”, ao qual compete dispor tudo o que diz respeito à concessão e ao uso das Indulgências, pretende estimular os ânimos dos fiéis a desejar e alimentar o piedoso desejo de obter a Indulgência como dom de graça, próprio e peculiar de cada Ano Santo, e estabelece as seguintes prescrições, para que os fiéis possam usufruir das “disposições necessárias para poder obter e tornar efetiva a prática da Indulgência Jubilar” (ibid.).

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Bula Spes non confundit sobre o Jubileu de 2025

No dia 09 de maio de 2024, Solenidade da Ascensão do Senhor, o Papa Francisco promulgou a Bula “Spes non confundit- “A esperança não engana” (Rm 5,5), convocando o Jubileu Ordinário de 2025. Para saber mais, confira nossa postagem sobre os Jubileus na história da Igreja.

Spes non confundit
Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário do Ano de 2025

Francisco
Bispo de Roma, Servo dos servos de Deus
A quantos lerem esta Carta que a esperança lhes encha o coração

1. «Spes non confundit» - «A esperança não engana» (Rm 5,5). Sob o sinal da esperança, o Apóstolo Paulo infunde coragem à comunidade cristã de Roma. A esperança é também a mensagem central do próximo Jubileu, que, segundo uma antiga tradição, o Papa proclama a cada vinte e cinco anos. Penso em todos os peregrinos de esperança que chegarão a Roma para viver o Ano Santo e em quantos, não podendo vir à Cidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, vão celebrá-lo nas Igrejas particulares. Possa ser, para todos, um momento de encontro vivo e pessoal com o Senhor Jesus, «porta» de salvação (cf. Jo 10,7.9); com Ele, que a Igreja tem por missão anunciar sempre, em toda a parte e a todos, como sendo a «nossa esperança» (1Tm 1,1).

Todos esperam. No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expectativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã. Porém, esta imprevisibilidade do futuro faz surgir sentimentos por vezes contrapostos: desde a confiança ao medo, da serenidade ao desânimo, da certeza à dúvida. Muitas vezes encontramos pessoas desanimadas que olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade. Que o Jubileu seja, para todos, ocasião de reanimar a esperança! A Palavra de Deus ajuda-nos a encontrar as razões para isso. Deixemo-nos guiar pelo que o Apóstolo Paulo escreve precisamente aos cristãos de Roma.

Logotipo do Jubileu 2025

Uma Palavra de esperança
2. «Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele tivemos acesso, na fé, a esta graça na qual nos encontramos firmemente e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus (...). Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,1-2.5). São Paulo oferece-nos aqui vários pontos de reflexão. Sabemos que a Carta aos Romanos assinala uma passagem decisiva na sua atividade evangelizadora. Até então, desenvolvera-a na zona oriental do Império; agora espera-o Roma, com tudo o que esta representa aos olhos do mundo: um grande desafio, que há de enfrentar em nome do anúncio do Evangelho, que não conhece barreiras nem fronteiras. A Igreja de Roma não foi fundada por Paulo, mas este sente um vivo desejo de lá chegar logo que possível, para levar a todos o Evangelho de Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado, como anúncio da esperança que realiza as promessas, introduz na glória e não desilude porque está fundada no amor.

3. Com efeito, a esperança nasce do amor e funda-se no amor que brota do Coração de Jesus transpassado na cruz: «Se de fato, quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte de seu Filho, com muito mais razão, uma vez reconciliados, havemos de ser salvos pela sua vida» (Rm 5,10). E a sua vida manifesta-se na nossa vida de fé, que começa com o Batismo, desenvolve-se na docilidade à graça de Deus e é por isso animada pela esperança, sempre renovada e tornada inabalável pela ação do Espírito Santo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Nota Gestis verbisque sobre a validade dos Sacramentos

No dia 02 de fevereiro de 2024 o Dicastério para a Doutrina da Fé, com a aprovação do Papa Francisco, promulgou a Nota Gestis verbisque sobre a validade dos Sacramentos, exortando à fidelidade sobretudo em relação à matéria e à forma dos Sacramentos.

Confira o texto do documento na íntegra, em uma tradução livre nossa, precedido de uma Apresentação do Prefeito do Dicastério:

Dicastério para a Doutrina da Fé
Nota Gestis verbisque
Sobre a validade dos Sacramentos

Apresentação

Já por ocasião da Assembleia Plenária do Dicastério de janeiro de 2022, os Cardeais e os Bispos Membros manifestaram a sua preocupação pela multiplicação de situações em que foram obrigados a constatar a invalidade dos Sacramentos celebrados. As graves alterações introduzidas na matéria ou na forma dos Sacramentos, tornando nula a sua celebração, levaram então à necessidade de localizar as pessoas envolvidas para repetir o rito do Batismo ou da Confirmação, e um número significativo de fiéis exprimiu com razão a sua preocupação. Por exemplo, em vez de utilizar a fórmula estabelecida para o Batismo, foram utilizadas fórmulas como as seguintes: «Eu te batizo em nome do Criador...» e «Em nome do papai e da mamãe... nós te batizamos». Em tão grave situação se encontraram também sacerdotes. Estes últimos, tendo sido batizados com fórmulas deste tipo, descobriram dolorosamente a invalidade da sua ordenação e dos sacramentos celebrados até aquele momento.

Enquanto em outros âmbitos da ação pastoral da Igreja haja um amplo espaço para a criatividade, tal inventividade no contexto da celebração dos Sacramentos se transforma antes em uma “vontade manipuladora” e não pode, portanto, ser invocada [1]. Modificar, pois, a forma de um Sacramento ou a sua matéria é sempre um ato gravemente ilícito e merece uma pena exemplar, precisamente porque tais gestos arbitrários são capazes de produzir graves danos ao Povo fiel de Deus.

Símbolos dos sete Sacramentos

No discurso dirigido ao nosso Dicastério por ocasião da recente Assembleia Plenária, em 26 de janeiro de 2024, o Santo Padre recordou que «através dos Sacramentos, os fiéis se tornam capazes de profecia e de testemunho. E o nosso tempo necessita com particular urgência de profetas de vida nova e de testemunhas de caridade: portanto, amemos e façamos amar a beleza e a força salvífica dos Sacramentos!». Neste contexto indicou também que «aos ministros é exigido um particular cuidado ao administrar os Sacramentos e ao revelar aos fiéis os tesouros da graça que eles comunicam» [2].

É assim que, por um lado, o Santo Padre nos convida a agir de modo que os fiéis possam aproximar-se frutuosamente dos Sacramentos, enquanto, por outro lado, sublinha fortemente o apelo a um “particular cuidado” na sua administração.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Sugestão de leitura: Sacrosanctum Concilium - Texto e comentário

Neste mês de dezembro de 2023 comemoramos os 60 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) sobre a sagrada Liturgia, promulgada pelo Concílio Vaticano II a 04 de dezembro de 1963.

Portanto, nada mais justo que propor como sugestão de leitura para este mês a própria Constituição. Certamente há várias traduções desta no Brasil, tanto individualmente quanto como parte de “compêndios” com os 16 documentos do Concílio.

Nesta postagem sugerimos especificamente a edição intitulada “Sacrosanctum Concilium: Texto e comentário”, publicada em 2012 pela Editora Paulinas como parte da Coleção “Revisitar o Concílio”, nos 50 anos desse importantíssimo evento eclesial.


Em suas 158 páginas, após uma breve Introdução apresentando o documento, a obra traz o texto completo da Constituição, com seus 130 parágrafos, acompanhado dos comentários do Frei Alberto Beckhäuser (†2017) na forma de “notas de rodapé”.

Como indica a própria apresentação do livro feita pela editora, tais comentários destacam a recepção da Sacrosanctum Concilium no Brasil, com seus aspectos positivos e negativos.

Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia
Texto e comentário


Proêmio (nn. 1-4)
Nestes primeiros parágrafos apresenta-se o objetivo do Concílio a respeito da Liturgia.

Capítulo I: Princípios gerais para a reforma e incremento da sagrada Liturgia
Subdividido em cinco partes:

1. Natureza da sagrada Liturgia e sua importância na vida da Igreja (nn. 5-13)
Nesta parte encontram-se os parágrafos mais importantes da Constituição, com os fundamentos teológicos da Liturgia, vista como exercício do sacerdócio de Cristo para a glorificação de Deus e a santificação do homem, como fonte e ápice da vida da Igreja...

2. Necessidade de promover a formação litúrgica e a participação ativa (nn. 14-20)
Como o título indica, esses parágrafos tratam da importância da formação litúrgica e do conceito de participação, que ao longo do texto receberá cinco “notas”: ativa, consciente, plena, frutuosa e piedosa.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

60 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium

No dia 04 de dezembro de 2023 celebramos os 60 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia, promulgada no encerramento da 2ª sessão do Concílio Vaticano II.

Reproduzimos a seguir um texto do Padre Washington Paranhos, SJ, publicado em duas partes no site da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), no qual destaca alguns aspectos desse importantíssimo documento:

A Constituição Sacrosanctum Concilium e a reforma litúrgica 60 anos depois
Pe. Washington Paranhos, SJ

Com a Constituição Sacrosanctum Concilium, aprovada em 04 de dezembro de 1963, pela primeira vez um Concílio Geral da Igreja Católica promulgou um documento sobre a Liturgia do Rito Romano. A reforma da Liturgia fazia parte do aggiornamento do Concílio Vaticano II (1962-1965). O aggiornamento da vida eclesial não tem sido tão visível em nenhum outro lugar, mas também não tem sido tão controverso como no contexto da Liturgia. Como a hermenêutica do Concílio em geral, também hoje a hermenêutica da Constituição sobre a Liturgia é, em parte, objeto de acalorada controvérsia. Não é exagero falar em “batalha interpretativa”, como afirma Massimo Faggioli, e isso também se aplica à historiografia do Concílio.

Sessão do Concílio Vaticano II

Faz-se necessário reconhecer quão altamente eloquente foi a escolha de colocar a Liturgia em primeiro plano, fazendo da Sacrosanctum Concilium o primeiro documento promulgado pelo Concílio Vaticano II. Plenamente consciente do valor e do significado desta circunstância, o Papa Paulo VI fez-se intérprete da alegria de toda a Igreja:

“Exulta o nosso espírito com este resultado. Vemos que se respeitou nele a escala dos valores e dos deveres:  Deus está em primeiro lugar; a oração é a nossa primeira obrigação; a Liturgia é a fonte primeira da vida divina que nos é comunicada, a primeira escola da nossa vida espiritual, primeiro dom que podemos oferecer ao povo cristão que, juntamente conosco, crê e ora, e primeiro convite ao mundo, para que solte a sua língua muda em oração feliz e autêntica, e sinta a inefável força regeneradora, ao cantar conosco os louvores divinos e as esperanças humanas, por Cristo nosso Senhor e no Espírito Santo” (Paulo VI, Discurso no encerramento da segunda sessão do Concílio Vaticano II, 04 de dezembro de 1963).

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Sugestão de leitura: A Constituição Litúrgica do Vaticano II

Estamos às portas de celebrar os 60 anos da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) sobre a sagrada Liturgia, promulgada a 04 de dezembro de 1963, neste ano em que o Papa Francisco nos propõe “revisitar” as quatro Constituições do Concílio Vaticano II.

Neste sentido, propomos como sugestão de leitura para este mês de novembro a obra “A Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II: A Sacrosanctum Concilium a seu alcance”, escrita pelo Padre Valter Maurício Goedert, da Arquidiocese de Florianópolis (SC), em 2013, no contexto dos 50 anos do Concílio, e publicada pela Editora Ave-Maria.


Neste breve livro, de 144 páginas, o autor apresenta de forma sintética os principais aspectos da Sacrosanctum Concilium, subdivididos em 14 capítulos:

1. A Liturgia no Concílio Vaticano II (pp. 11-13)
Neste capítulo introdutório, após um breve histórico do Movimento Litúrgico, o autor apresenta a estrutura da SC, que será aprofundada ao longo da obra.

2. Princípios gerais da reforma litúrgica (pp. 15-25)
Aqui são apresentados os aspectos teológicos delineados nos primeiros 10 parágrafos da Constituição: a presença de Cristo na Liturgia, a relação entre Liturgia terrena e celeste, a Liturgia como fonte e ápice da vida da Igreja...

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Sugestão de leitura: Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário

Em 2019, quando começamos a propor uma sugestão de leitura mensal aqui em nosso blog, dentre as primeiras obras apresentadas estavam a Instrução Geral sobre o Missal Romano (IGMR) e o Elenco das Leituras da Missa (ELM), ambos com comentários do Padre José Aldazábal (†2006), publicados pela Editora Paulinas.

Em vista da entrada em vigor da tradução da 3ª edição típica do Missal Romano neste ano de 2023, as Edições CNBB publicaram uma nova edição desses dois importantes textos, unidos às Normas Universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral (NALC). São, pois, três documentos da Igreja reunidos em um único volume.

INSTRUÇÃO GERAL SOBRE O MISSAL ROMANO
(pp. 5-103)

A 3ª edição da IGMR, promulgada em sua forma típica (em latim) pelo Papa São João Paulo II no ano 2000, já havia sido traduzida oficialmente pela CNBB em 2004, sendo aqui publicada em uma versão revista conforme a nova tradução do Missal.

Vale recordar que desde 1991 nós utilizamos no Brasil a tradução da 2ª edição típica do Missal, promulgada em 1975. A partir do dia 03 de dezembro de 2023 passará a ser obrigatória a 3ª edição, promulgada em 2002 e revista em 2008, cuja tradução oficial foi confirmada no início desse ano de 2023 pelo Dicastério para o Culto Divino.


Após a Constituição Missale Romanum do Papa São Paulo VI (1969), promulgando o Missal renovado pelo Concílio, segue-se o texto da IGMR, composto por um proêmio e nove capítulos:

Proêmio (nn. 1-15): Apresentação do documento e síntese da proposta do Concílio.

Capítulo I: Importância e dignidade da Celebração Eucarística (nn. 16-26): Síntese da teologia eucarística.

Capítulo II: Estrutura, elementos e partes da Missa (nn. 27-90): Explicação do sentido de cada parte da Missa.

Capítulo III: Funções e ministérios na Missa (nn. 91-111): Apresentação dos diversos ministérios na celebração.

domingo, 24 de julho de 2022

Carta Apostólica Desiderio desideravi - Terceira parte (nn. 48-65)

Com esta postagem concluímos a publicação na íntegra da Carta Apostólica Desiderio desideravi (Desejei ardentemente) sobre a formação litúrgica do povo de Deus, promulgada pelo Papa Francisco no dia 29 de junho de 2022.

Dividimos nossa tradução do texto completo da Carta em três postagens. Assim, após os parágrafos nn. 01-26 (Primeira parte) e nn. 27-47 (Segunda parte), confira nesta Terceira e última parte os nn. 48-65:

Papa Francisco
Carta Apostólica Desiderio desideravi
Aos Bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos
Sobre a formação litúrgica do povo de Deus

Ars celebrandi

48. Um modo para conservar e para crescer na compreensão vital dos símbolos da Liturgia é certamente cuidar da arte de celebrar (ars celebrandi). Também essa expressão é objeto de diversas interpretações. Essa se esclarece se é compreendida tendo como referência o significado teológico da Liturgia descrito no n. 7 da Sacrosanctum Concilium, ao qual nos referimos várias vezes. A ars celebrandi não pode ser reduzida apenas à observância de um aparato de rubricas, nem tampouco pode ser pensada como uma fantasiosa - e às vezes selvagem - criatividade sem regras. O rito é por si mesmo norma, e a norma nunca é um fim em si mesma, mas sempre está a serviço da realidade mais elevada que quer conservar.


49. Como toda arte, requer distintos conhecimentos.
Antes de tudo, a compreensão do dinamismo que descreve a Liturgia. O momento da ação celebrativa é o lugar no qual, através do memorial, o Mistério Pascal se faz presente, para que os batizados, em virtude da sua participação, possam experimentá-lo em sua vida. Sem essa compreensão se cai facilmente no “exteriorismo” (mais ou menos refinado) e no “rubricismo” (mais ou menos rígido).
Também é preciso conhecer como o Espírito Santo age em cada celebração: a arte de celebrar deve estar em sintonia com a ação do Espírito. Só assim estará livre dos subjetivismos, que são o fruto da prevalência das sensibilidades individuais e dos culturalismos, que são aquisições acríticas de elementos culturais que nada têm a ver com um correto processo de inculturação.
É necessário, por fim, conhecer a dinâmica da linguagem simbólica, a sua peculiaridade, a sua eficácia.

sábado, 23 de julho de 2022

Carta Apostólica Desiderio desideravi - Segunda parte (nn. 27-47)

Na postagem anterior aqui em nosso blog começamos a publicar a Carta Apostólica Desiderio desideravi (Desejei ardentemente) sobre a formação litúrgica do povo de Deus, promulgada pelo Papa Francisco no dia 29 de junho de 2022.

Nossa tradução da Carta na íntegra está dividida em três partes. Assim, após os parágrafos nn. 01-26, confira a seguir os nn. 27-47:

Papa Francisco
Carta Apostólica Desiderio desideravi
Aos Bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos
Sobre a formação litúrgica do povo de Deus

A necessidade de uma séria e vital formação litúrgica

27. A questão fundamental é, portanto, esta: como recuperar a capacidade de viver em plenitude a ação litúrgica? Esse foi o objetivo da reforma do Concílio. O desafio é muito exigente porque o homem moderno - não do mesmo modo em todas as culturas - perdeu a capacidade de confrontar-se com a ação simbólica, que é uma característica essencial do ato litúrgico.

"A única grande reflexão do Concílio começou pela Liturgia"

28. A pós-modernidade - na qual o homem se sente ainda mais perdido, sem referências de qualquer tipo, desprovido de valores, porque se tornou indiferente, órfão de tudo, em uma fragmentação na qual parece impossível um horizonte de sentido - continua sobrecarregada pela pesada herança que a época precedente nos deixou, feita de individualismo e subjetivismo (que mais uma vez recordam o pelagianismo e o gnosticismo), bem como de um espiritualismo abstrato que contradiz a própria natureza do homem, espírito encarnado e, portanto, em si mesmo capaz de ação e de compreensão simbólicas.

29. É com a realidade da modernidade que a Igreja reunida no Concílio quis confrontar-se, reafirmando a consciência de ser sacramento de Cristo, luz dos povos (Lumen gentium), colocando-se em religiosa escuta da Palavra de Deus (Dei Verbum) e reconhecendo como próprias as alegrias e as esperanças (Gaudium et spes) dos homens de hoje. As grandes Constituições conciliares não são separáveis ​​e não é por acaso que esta única grande reflexão do Concílio Ecumênico - máxima expressão da sinodalidade da Igreja, de cuja riqueza sou chamado a ser, com todos vós, o guardião - começou pela Liturgia (Sacrosanctum Concilium).

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Carta Apostólica Desiderio desideravi - Primeira parte (nn. 01-26)

No dia 29 de junho de 2022 o Papa Francisco promulgou a Carta Apostólica Desiderio desideravi (Desejei ardentemente) sobre a formação litúrgica do povo de Deus.

Esta Carta é fruto da Assembleia Plenária do Dicastério para o Culto Divino (2019) e de uma reflexão feita pelo então Cardeal Jorge Mario Bergoglio em 2005 sobre a ars celebrandi, a “arte de celebrar”. Para acessar esse texto na íntegra, clique aqui.

Propomos aqui uma tradução nossa da Carta completa, a partir do seu texto italiano. Dividiremos os 65 parágrafos que a compõem em três postagens. Confira a seguir, pois, os nn. 01-26:

Papa Francisco
Carta Apostólica Desiderio desideravi
Aos Bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos
Sobre a formação litúrgica do povo de Deus

Desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum, antequam patiar” (Lc 22,15).

Caríssimos irmãos e irmãs,
1. Com esta Carta desejo chegar a todos - depois de ter escrito aos Bispos após a publicação do Motu Proprio Traditionis custodes - para compartilhar convosco algumas reflexões sobre a Liturgia, dimensão fundamental para a vida da Igreja. O tema é muito vasto e merece uma atenta consideração sobre todos os aspectos: todavia, com este escrito não pretendo tratar a questão de modo exaustivo. Desejo simplesmente oferecer alguns pontos de reflexão para contemplar a beleza e a verdade da celebração cristã.

"Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco" (Lc 22,15)

A Liturgia, “hoje” da história da salvação

2. “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco, antes de sofrer” (Lc 22,15). As palavras de Jesus, com as quais se abre o relato da última Ceia, são a “fresta” pela qual nos é dada a surpreendente possibilidade de intuir a profundidade do amor das Pessoas da Santíssima Trindade para conosco.

3. Pedro e João haviam sido enviados para preparar a Páscoa, mas, na verdade, toda a criação, toda a história - que finalmente estava prestes a revelar- se como a história de salvação - foi uma grande preparação para aquela Ceia. Pedro e os outros estão naquela mesa, inconscientes mas necessários: todo dom para ser tal deve ter alguém disposto a recebê-lo. Nesse caso, a desproporção entre a imensidão do dom e a pequenez de quem o recebe é infinita e não pode deixar de nos surpreender. No entanto - pela misericórdia do Senhor - o dom é confiado aos Apóstolos para que seja levado a cada ser humano.