terça-feira, 7 de abril de 2026

Vigília pelos novos mártires em Roma (2026)

No dia 31 de março de 2026, Terça-feira da Semana Santa, o Cardeal Claudio Gugerotti, Prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais, presidiu uma Vigília pelos novos mártires na Basílica de Santa Maria in Trastevere em Roma.

A iniciativa, promovida pela Comunidade de Santo Egídio (Comunità di Sant'Egidio), teve um alcance ecumênico, recordando os “mártires do nosso tempo” (séculos XX e XXI) das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais cristãs.

Após o Evangelho (Mc 13,5-13) e a homilia do Cardeal Gugerotti, foram recordados os mártires dos vários continentes: África, Ásia, América, Europa... Após a invocação dos nomes dos mártires e algumas preces - intercaladas pela súplica Kyrie, eleison - foi entronizada uma cruz representando cada continente, ladeada por velas e ramos de oliveira [1].

Ícone da face de Jesus e “cruzes dos continentes” junto ao altar
Procissão de entrada
Homilia

Entronização da cruz da África

Domingo de Ramos no Vaticano (2026)

Na manhã do dia 29 de março de 2026 o Papa Leão XIV celebrou a Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor (Ano A) na Praça de São Pedro.

A celebração teve início junto ao obelisco central da Praça com a bênção dos ramos. Seguiu-se a procissão até o adro da Basílica Vaticana, onde a Missa prosseguiu como de costume.

O Papa foi assistido por Dom Diego Giovanni Ravelli e pelo Monsenhor  Yala Banorani Djetaba. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Procissão de entrada


Ritos iniciais
Bênção dos ramos: Aspersão

Homilia do Papa: Domingo de Ramos - Ano A (2026)

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
Homilia do Papa Leão XIV
Praça de São Pedro
Domingo, 29 de março de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
Enquanto Jesus percorre o caminho da cruz, coloquemo-nos atrás d’Ele, sigamos os seus passos. E, caminhando com Ele, contemplemos a sua paixão pela humanidade, o seu coração que se parte, a sua vida que se torna dom de amor.

Olhemos para Jesus, que se apresenta como Rei da paz, enquanto à sua volta se prepara a guerra. Ele, que permanece firme na mansidão, enquanto os outros se agitam na violência. Ele, que se oferece como uma carícia para a humanidade, enquanto outros empunham espadas e paus. Ele, que é a luz do mundo, enquanto as trevas estão prestes a cobrir a terra. Ele, que veio trazer a vida, enquanto se cumpre o plano para condená-lo à morte.

Como Rei da Paz, Jesus quer reconciliar o mundo no abraço do Pai e derrubar todos os muros que nos separam de Deus e do próximo, porque «Ele é a nossa paz» (Ef 2,14).


Como Rei da paz, entra em Jerusalém montado em um jumento, não em um cavalo, cumprindo a antiga profecia que convidava a exultar pela chegada do Messias: «Eis que teu rei vem ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado em um jumento, um potro, cria de jumenta. Eliminará os carros de Efraim, os cavalos de Jerusalém; ele quebrará o arco de guerreiro, anunciará a paz às nações» (Zc 9,9-10).

Como Rei da paz, quando um dos seus discípulos desembainha a espada para defendê-lo e fere o servo do sumo sacerdote, imediatamente Ele o detém, dizendo: «Guarda a espada na bainha, pois todos os que usam a espada pela espada morrerão» (Mt 26,52).

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Catequese do Papa Bento XVI: Páscoa (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 19 de abril de 2006, Quarta-feira da Oitava da Páscoa, exatamente um anos após sua eleição como Bispo de Roma, o Papa Bento XVI (†2022) proferiu uma Catequese sobre a Páscoa que repropomos a seguir:

Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 19 de abril de 2006
A Páscoa

Queridos irmãos e irmãs,
1. O evangelista João narra que Jesus, precisamente depois da sua Ressurreição, chamou Pedro a cuidar do seu rebanho (cf. Jo 21,15-23). Quem poderia imaginar então o desenvolvimento que alcançaria ao longo dos séculos aquele pequeno grupo de discípulos do Senhor? Pedro, juntamente com os outros Apóstolos e depois os seus sucessores, primeiro em Jerusalém e, em seguida, até os últimos confins da terra, difundiram com coragem a mensagem evangélica cujo núcleo fundamental e imprescindível é constituído pelo Mistério Pascal: a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo.

A Igreja celebra esse mistério na Páscoa, prolongando seu eco jubiloso nos dias seguintes; canta o aleluia pelo triunfo de Cristo sobre o mal e sobre a morte.


«A celebração da Páscoa segundo uma data do calendário - observa o Papa São Leão Magno - nos recorda a festa eterna que supera todo tempo humano». «A Páscoa atual - observa ainda - é a sombra da Páscoa futura. É por isso que a celebramos para passar de uma festa anual a uma festa que será eterna».

A alegria desses dias se estende a todo o Ano Litúrgico e se renova particularmente no domingo, dia dedicado à recordação da Ressurreição do Senhor. Nele, que é como a “pequena Páscoa” de cada semana, a assembleia litúrgica reunida para a Santa Missa proclama no Creio que Jesus ressuscitou ao terceiro dia, acrescentando que nós esperamos «a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Indica-se assim que o acontecimento da Morte e Ressurreição de Jesus constitui o centro da nossa fé e é sobre este anúncio que se fundamenta e cresce a Igreja.

Catequese do Papa João Paulo II: Páscoa (2001)

Nesta Oitava da Páscoa recordamos a Catequese proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 18 de abril de 2001, Quarta-feira da Oitava Pascal, intitulada: “Contemplar o rosto do Ressuscitado”.

João Paulo II
Audiência Geral
Quarta-feira, 18 de abril de 2001
Contemplar o rosto do Ressuscitado

Caríssimos irmãos e irmãs,
1. A tradicional Audiência Geral da quarta-feira hoje é inundada pela alegria luminosa da Páscoa. Nestes dias a Igreja celebra com júbilo o grande mistério da Ressurreição. É uma alegria profunda e inextinguível, fundamentada no dom por parte de Cristo Ressuscitado da nova e eterna Aliança, que permanece porque Ele já não morre mais. Uma alegria que se prolonga não só pela Oitava da Páscoa, considerada pela Liturgia como um único dia, mas que se estende por cinquenta dias, até o Pentecostes. Mais ainda, chega a abraçar todos os tempos e todos os lugares.

Durante esse período a Comunidade cristã é convidada a uma nova e mais profunda experiência do Cristo Ressuscitado, vivo e atuante na Igreja e no mundo.


2. Neste esplêndido marco de luz e de alegria próprios do Tempo Pascal, desejamos agora nos deter a contemplar juntos o rosto do Ressuscitado, retomando e atualizando aquilo que não hesitei em indicar como «núcleo essencial» da grande herança que o Jubileu do Ano 2000 nos deixou. Com efeito, como realcei na Carta Apostólica Novo millennio ineunte, «se quiséssemos reconduzir ao núcleo essencial a grande herança que a experiência jubilar nos deixa, não hesitaria em vê-lo na contemplação do rosto de Cristo... acolhido na sua multiforme presença na Igreja e no mundo, confessado como sentido da história e luz do nosso caminho” (n. 15).

Como na Sexta-feira e no Sábado Santo contemplamos o rosto doloroso de Cristo, agora dirigimos o olhar cheio de fé, de amor e de gratidão para o rosto do Ressuscitado. Para Ele olha nestes dias a Igreja, seguindo os passos de Pedro, que confessa o seu amor a Cristo (cf. Jo 21,15-17), e de Paulo, iluminado por Jesus Ressuscitado no caminho de Damasco (cf. At 9,3-5).

domingo, 5 de abril de 2026

Mensagem do Papa Bento XVI: Páscoa (2006)

Neste Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor recordamos a Mensagem Urbi et Orbi (À cidade e ao mundo) proferida pelo Papa Bento XVI (†2005) há 20 anos, no dia 16 de abril de 2006, após a celebração da Missa do Domingo de Páscoa:

Papa Bento XVI
Mensagem Urbi et Orbi
Balcão central da Basílica de São Pedro
Domingo de Páscoa, 16 de abril de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
Christus resurrexit! Cristo ressuscitou!
1. A grande Vigília desta noite nos fez reviver o acontecimento decisivo e sempre atual da Ressurreição, mistério central da fé cristã. Inumeráveis círios pascais foram acesos nas igrejas para simbolizar a luz de Cristo que iluminou e ilumina a humanidade, vencendo para sempre as trevas do pecado e do mal. E hoje ressoam com força as palavras que deixaram admiradas as mulheres que, na madrugada do primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, onde o corpo de Cristo, descido apressadamente da cruz, havia sido depositado. Tristes e desoladas pela perda do seu Mestre, encontraram a grande pedra removida e, entrando, não encontraram o seu corpo. Enquanto estavam ali, incertas e desorientadas, dois homens com roupas brilhantes as surpreenderam dizendo: «Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!» (Lc 24,5-6). «Non est hic, sed resurrexit». Desde aquela manhã, estas palavras não cessam de ressoar pelo universo como um anúncio de alegria que atravessa os séculos imutável e, ao mesmo tempo, cheio de infinitas e sempre novas ressonâncias.


2. «Ele não está aqui. Ressuscitou!». Os mensageiros celestes comunicam, antes de tudo, que Jesus «não está aqui»: o Filho de Deus não ficou no sepulcro, porque não podia permanecer prisioneiro da morte (cf. At 2,24) e o túmulo não podia reter «o Vivente» (Ap 1,18), que é a própria fonte da vida. Como Jonas no ventre do peixe, do mesmo modo o Cristo Crucificado permaneceu engolido no seio da terra (cf. Mt 12,40) pelo transcorrer de um sábado. Aquele sábado verdadeiramente «era dia de festa solene», como escreve o evangelista João (Jo 19,31): o mais solene da história, porque nele o «Senhor do sábado» (Mt 12,8) levou a cumprimento a obra da criação (cf. Gn 2,1-4a), elevando o homem e o universo inteiro à liberdade da glória dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Cumprida esta obra extraordinária, o corpo inanimado foi atravessado pelo sopro vital de Deus e, rompidas as barreiras do sepulcro, ressuscitou glorioso. Por isso os anjos proclamam: «Não está aqui», não pode mais ser encontrado no túmulo. Peregrinou na terra dos homens, terminou o seu caminho no túmulo como todos, mas venceu a morte e de modo absolutamente novo, por um ato de puro amor, abriu a terra de par em par para o Céu.

Mensagem do Papa João Paulo II: Páscoa (2001)

Neste Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor recordamos a Mensagem Urbi et Orbi (À cidade e ao mundo) proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 15 de abril de 2001, após a celebração da Missa do Domingo de Páscoa:

Papa João Paulo II
Mensagem Urbi et Orbi
Praça de São Pedro
Domingo de Páscoa, 15 de abril de 2001

1. «Na Ressurreição de Cristo ressurgiu a vida para todos» (cf. Prefácio da Páscoa II).
Que o anúncio pascal chegue a todos os povos da terra e toda pessoa de boa vontade se sinta protagonista neste dia que o Senhor fez para nós, dia da sua Páscoa, no qual a Igreja, com sentimentos de júbilo, proclama que o Senhor verdadeiramente ressuscitou.

Esse grito, saído do coração dos discípulos no primeiro dia depois do sábado, atravessou os séculos e agora, neste preciso momento da história, volta a alentar as esperanças da humanidade com a certeza imutável da Ressurreição de Cristo, Redentor do homem.


2. «Na Ressurreição de Cristo ressurgiu a vida para todos».
O assombro incrédulo dos Apóstolos e das mulheres, que foram ao sepulcro ao nascer do sol, hoje se torna experiência comum de todo o Povo de Deus. Enquanto o novo milênio dá os seus primeiros passos, desejamos confiar às jovens gerações a certeza fundamental da nossa existência: Cristo ressuscitou e n’Ele ressurge a vida para todos.

«Glória a vós, Cristo Jesus, hoje e sempre vós reinareis» [1]. Volta à memória este cântico de fé, que tantas vezes repetimos ao longo da recente caminhada jubilar, aclamando Aquele que é «o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim» (Ap 22,13). A Ele permanece fiel a Igreja peregrina «entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho). Ela eleva o olhar a Ele e não teme. Caminha contemplando a sua face e repete aos homens do nosso tempo que Ele, o Ressuscitado, é «o mesmo ontem, hoje e sempre» (Hb 13,8).

sábado, 4 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Vigília Pascal (2006)

Há 20 anos, na noite do Sábado Santo, 15 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Vigília Pascal na Noite Santa da Ressurreição do Senhor (Ano B) na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu os Sacramentos da Iniciação Cristã a sete adultos de diversos países do mundo.

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Vigília Pascal na Noite Santa
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 15 de abril de 2006

1. «Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui» (Mc 16,6). Assim o mensageiro de Deus, vestido de branco, fala às mulheres que procuram o corpo de Jesus no túmulo. Mas, nesta noite santa, o evangelista diz a mesma coisa também a nós: Jesus não é um personagem do passado. Ele vive, e como vivente caminha à nossa frente; chama-nos a segui-lo, a Ele, o Vivente, e a encontrarmos assim também nós o caminho da vida.

2. «Ressuscitou. Não está aqui». Quando Jesus falou pela primeira vez da Cruz e da Ressurreição aos discípulos, descendo o monte da Transfiguração, eles se perguntavam o que queria dizer «ressuscitar dos mortos» (Mc 9,10). Na Páscoa nos alegramos porque Cristo não permaneceu no sepulcro, o seu corpo não conheceu a corrupção; pertence ao mundo dos vivos, não ao mundo dos mortos; nos alegramos porque - como proclamamos no rito do círio pascal - Ele é ao mesmo tempo o Alfa e o Ômega e, portanto, existe não apenas ontem, mas hoje e por toda a eternidade (cf. Hb 13,8).


Mas, de certa forma, a Ressurreição está tão além do nosso horizonte, tão além de todas as nossas experiências que, reentrando em nós mesmos, continuamos a discussão dos discípulos: em que consiste precisamente “ressuscitar”? O que significa para nós? O que significa para o mundo e para a história no seu conjunto? Um teólogo alemão disse ironicamente uma vez que o milagre de um cadáver reanimado - se é que isso realmente aconteceu, coisa que ele, porém, não acreditava - no fim das contas seria irrelevante porque, precisamente, não diz respeito a nós. Com efeito, se apenas uma vez alguém tivesse sido reanimado, e nada mais, de que modo isso teria a ver conosco? Mas a Ressurreição de Cristo é justamente algo mais, é uma coisa distinta. Se pudermos usar por uma vez a linguagem da teoria da evolução, ela é a maior “mutação”, o salto absolutamente mais decisivo para uma dimensão totalmente nova, como nunca tinha acontecido na longa história da vida e dos seus avanços: um salto de uma ordem completamente nova, que tem a ver conosco e diz respeito a toda a história.

Homilia do Papa João Paulo II: Vigília Pascal (2001)

Há 25 anos, na noite do Sábado Santo, 14 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Vigília Pascal na Noite Santa da Ressurreição do Senhor (Ano C) na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu os Sacramentos da Iniciação Cristã a seis adultos de diversos países do mundo.

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Vigília Pascal na Noite Santa
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 14 de abril de 2001

1. «Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!» (Lc 24,5-6).
Estas palavras de dois homens «com roupas brilhantes» reacendem a confiança nas mulheres que foram ao sepulcro de madrugada. Tinham vivido os acontecimentos trágicos que culminaram na crucificação de Cristo no Calvário; tinham experimentado a tristeza e a confusão. Porém, não tinham abandonado o seu Senhor na hora da provação.

Vão às escondidas ao lugar onde Jesus tinha sido sepultado para vê-lo mais uma vez e abraçá-lo pela última vez. O que as move é o amor; aquele mesmo amor que as tinha levado a segui-lo pelos caminhos da Galileia e da Judeia até o Calvário.

Mulheres bem-aventuradas! Não sabiam ainda que aquela era a madrugada do dia mais importante da história. Não podiam saber que elas, precisamente elas, seriam as primeiras testemunhas da Ressurreição de Jesus.


2. «Encontraram a pedra do túmulo removida» (Lc 24,2).
Assim narra o evangelista Lucas, e acrescenta que, «ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus» (v. 3). Em um instante tudo muda. Jesus «não está aqui. Ressuscitou». Este anúncio, que transformou a tristeza daquelas piedosas mulheres em alegria, ressoa com imutável eloquência na Igreja, durante esta Vigília Pascal.

Singular Vigília de uma noite singular. Vigília, mãe de todas as vigílias, durante a qual a Igreja inteira permanece à espera junto ao túmulo do Messias, sacrificado na Cruz. A Igreja espera e reza, ouvindo novamente as Escrituras que percorrem toda a história da salvação.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Discurso do Papa João Paulo II: Via Sacra no Coliseu (2001)

Há 25 anos, na noite da Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001, após a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a tradicional oração da Via Sacra junto ao Coliseu romano.

As meditações da Via Sacra foram tomadas dos escritos do Cardeal John Henry Newman (†1890) nos 200 anos do seu nascimento [1].

Reproduzimos aqui as palavras improvisadas pelo Papa no final da oração e o discurso que havia sido preparado para a ocasião:

Via Sacra no Coliseu
Discurso do Papa João Paulo II
Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001

Palavras improvisadas:

Ecce lignum crucis, in quo salus mundi pependit! Venite adoremus! [Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo! Vinde, adoremos!]

Hoje, pela primeira vez neste terceiro milênio, se proclamou esta palavra na Basílica de São Pedro. Neste mesmo dia, Sexta-feira Santa, a mesma verdade desconcertante foi proclamada em todos os continentes, em todos os países do mundo: Ecce lignum crucis!


A Igreja de Cristo confessa esta realidade divina e humana: Crux, ave Crux! Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum. [Cruz, salve, ó Cruz! Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa Cruz redimistes o mundo]

A Igreja confessou isso durante dois mil anos, os dois milênios passados. Hoje, pela primeira vez, o confessamos em todo o mundo e aqui, em Roma com esta Via Sacra junto ao Coliseu. Queremos transmitir, levar adiante esta verdade divina e humana no terceiro milênio. Queremos professar que, pela sua Cruz, o Filho de Deus, aceitando esta humilhação - uma condenação destinada aos escravos - abriu à humanidade o caminho para a glorificação. Por isso nós, hoje, rezamos ajoelhados, em adoração.

Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão (2006)

Há 20 anos, na tarde da Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro.

Como de costume, a homilia foi confiada ao Pregador da Casa Pontifícia, Padre Raniero Cantalamessa, que seria criado Cardeal em 2020). Em seu reflexão este recordou a primeira Encíclica do Papa, Deus caritas est, publicada em dezembro de 2005:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006
Deus demonstra o seu amor por nós

1. “Cristãos, movei-vos com mais firmeza

«Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas» (2Tm 4,3-4).

Estas palavras da Escritura - sobretudo a referência ao prurido da curiosidade - está se realizando de modo novo e impressionante nos nossos dias. Enquanto nós celebramos aqui a recordação da Paixão e Morte do Salvador, milhões de pessoas são levadas por hábeis modificadores de lendas antigas a crer que Jesus de Nazaré, na realidade, nunca foi crucificado. Nos Estados Unidos é um best seller do momento uma edição do Evangelho de Tomé, apresentado como o Evangelho que «nos evita a crucificação, torna desnecessária a Ressurreição e não nos obriga a crer no Deus chamado Jesus» [1].


O maior estudioso bíblico da história da Paixão, Raymond Brown, escreveu há alguns anos: «É uma constatação pouco lisonjeira para a natureza humana: quanto mais fantástico é o cenário imaginado, mais sensacional é a propaganda que recebe e maior o interesse que suscita. Pessoas que nunca se dedicariam a ler uma análise séria das tradições históricas sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, sentem-se fascinadas por qualquer teoria nova segundo a qual Ele não foi crucificado e não morreu, especialmente se a continuação da história inclui a sua fuga com Maria Madalena para a Índia - ou para a França, segundo a versão mais atualizada... Essas teorias demonstram que quando se trata da Paixão de Jesus, apesar da expressão popular, a fantasia supera a realidade e, infelizmente, também rende mais» [2].

Fala-se tanto da traição de Judas e não percebemos que a estamos renovando. Cristo continua sendo vendido, não mais aos chefes do Sinédrio por trinta denários, mas a editores e livreiros por milhões de denários... Ninguém conseguirá para esta tendência especulativa, que, ao contrário, aumentará com o iminente lançamento de certo filme, mas, tendo-me ocupado por anos de história das origens cristãs, sinto o dever de chamar a atenção para um grande equívoco que está na base de toda esta literatura pseudo-histórica.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Missa da Ceia do Senhor (2006)

Há 20 anos, na tarde da Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Ceia do Senhor na Basílica do Latrão, a Catedral de Roma. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa da Ceia do Senhor
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica do Latrão
Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006

Caros irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Amados irmãos e irmãs,
«Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1): Deus ama a sua criatura, o homem; ama-o mesmo na sua queda e não o abandona a si mesmo. Ele ama até o fim. Vai com o seu amor até o fim, até o extremo: desce da sua glória divina. Depõe as vestes da sua glória divina e endossa as vestes do servo. Desce até a extrema baixeza da nossa queda. Ajoelha-se diante de nós e presta-nos o serviço do servo; lava os nossos pés sujos, para que possamos ser admitidos à mesa de Deus, para que nos tornemos dignos de nos sentarmos à sua mesa - o que, por nós mesmos, nunca poderíamos nem deveríamos fazer.


Deus não é um Deus distante, muito distante e muito grande para se ocupar das nossas insignificâncias. Porque Ele é grande, pode interessar-se também pelas coisas pequenas. Porque Ele é grande, a alma do homem, o mesmo homem criado para o amor eterno, não é uma coisa pequena, mas grande e digna do seu amor. A santidade de Deus não é só um poder incandescente, diante do qual devemos nos retirar aterrorizados; é poder de amor e por isso é poder que purifica e restabelece.

Deus desce e se torna servo, lava os nossos pés para que possamos estar à sua mesa. Nisso se exprime todo o mistério de Jesus Cristo. Nisso se torna visível o que significa redenção. O banho no qual nos lava é o seu amor pronto a enfrentar a morte. Só o amor tem aquela força purificadora que nos tira a nossa impureza e nos eleva às alturas de Deus. O banho que nos purifica é Ele mesmo, que se doa totalmente a nós - até as profundezas do seu sofrimento e da sua morte. Ele é continuamente este amor que nos lava; nos Sacramentos da purificação - o Batismo e a Penitência - Ele está continuamente ajoelhado diante dos nossos pés e presta-nos o serviço do servo, o serviço da purificação, que nos torna capazes de Deus. O seu amor é inexaurível, vai verdadeiramente até o fim.

Homilia do Papa João Paulo II: Missa da Ceia do Senhor (2001)

Há 25 anos, na tarde da Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Ceia do Senhor na Basílica do Latrão, a Catedral de Roma. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa da Ceia do Senhor
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica do Latrão
Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001

1. «In supremae nocte Cenae recumbens cum fratribus...» - «Na noite da Última Ceia, estando à mesa com os irmãos... com as suas próprias mãos deu-se a si mesmo em alimento aos Doze».

Com estas palavras o belo hino “Pange lingua apresenta a Última Ceia, na qual Jesus nos deixou o admirável Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. As leituras proclamadas há pouco ilustram o seu sentido profundo. Elas formam como que um tríptico: apresentam a instituição da Eucaristia, a sua prefiguração no Cordeiro pascal e a sua tradução existencial no amor e no serviço fraterno.


Foi o Apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, a recordar-nos o que Jesus fez «na noite em que foi entregue». Ao relato do fato histórico Paulo acrescentou seu comentário: «Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11,26). A mensagem do Apóstolo é clara: a comunidade que celebra a Ceia do Senhor atualiza a Páscoa. A Eucaristia não é a simples memória de um rito passado, mas a viva representação do gesto supremo do Salvador. Essa experiência não pode deixar de impelir a comunidade cristã a fazer-se profecia do mundo novo, inaugurado na Páscoa. Contemplando esta tarde o mistério de amor que a Última Ceia nos repropõe, permaneçamos também nós em comovida e silenciosa adoração.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Missa Crismal (2006)

Há cerca de 20 anos, na manhã da Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa Crismal (Missa dos Santos Óleos) na Basílica de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa Crismal
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006

Caros irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
1. A Quinta-feira Santa é o dia no qual o Senhor confiou aos Doze a tarefa sacerdotal de celebrar, no pão e no vinho, o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue até a sua volta. O cordeiro pascal e todos os sacrifícios da Antiga Aliança são substituídos pelo dom do seu Corpo e do seu Sangue, pelo dom de si mesmo. Assim, o novo culto se fundamenta no fato de que, antes de tudo, Deus nos concede um dom e nós, repletos deste dom, nos tornamos seus: a criação regressa ao Criador. Assim, também o sacerdócio se tornou uma coisa nova: não é mais questão de descendência, mas um encontrar-se no mistério de Jesus Cristo.


Ele é sempre Aquele que doa e nos eleva, nos atrai a si. Somente Ele pode dizer: «Isto é o meu Corpo - Isto é o meu Sangue». O mistério do sacerdócio da Igreja se encontra no fato de que nós, pobres seres humanos, em virtude do Sacramento podemos falar com o seu Eu: in persona Christi. Ele quer exercer o seu sacerdócio através de nós. Este mistério comovedor, que em cada celebração do Sacramento nos toca novamente, nós o recordamos de maneira particular na Quinta-feira Santa. Para que a vida quotidiana não desperdice o que é grande e misterioso, temos necessidade dessa lembrança específica, precisamos retornar àquela hora em que Ele impôs as suas mãos sobre nós e nos tornou participantes desse mistério.

Homilia do Papa João Paulo II: Missa Crismal (2001)

Há cerca de 25 anos, na manhã da Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa Crismal (Missa dos Santos Óleos) na Basílica de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa Crismal
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001

1. «Spiritus Domini super me, eo quod unxerit Dominus me» - «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu» (Is 61,1).

Nestes versículos, tomados do Livro de Isaías, está contido o “fio-condutor” da Missa Crismal. A nossa atenção se concentra sobre a unção, dado que daqui a pouco serão abençoados o Óleo dos Catecúmenos, o Óleo dos Enfermos e o Crisma.

Vivemos esta manhã uma festa particular no sinal do «óleo da alegria» (Sl 44,8). É festa do povo de Deus, que hoje fixa o olhar no mistério da unção, que marca a vida de cada cristão, a partir do dia do Batismo.


É festa, de maneira especial, de todos nós, caríssimos e venerados irmãos no Sacerdócio, ordenados presbíteros para o serviço do povo cristão. Agradeço-vos cordialmente pela vossa numerosa presença em torno do altar da Confissão de São Pedro. Vós representais o presbitério romano e, em certo sentido, o presbitério do mundo.

Celebramos a Missa Crismal às portas do Tríduo Pascal, centro e ápice do Ano Litúrgico. Este sugestivo rito toma a sua luz, por assim dizer, do Cenáculo, isto é, do mistério de Cristo Sacerdote, que na Última Ceia se consagra a si mesmo, antecipando o sacrifício cruento do Gólgota. É da Mesa eucarística que desce a sagrada unção. O Espírito divino difunde o seu místico perfume em toda a casa (cf. Jo 12,3), isto é, na Igreja, e torna especialmente os sacerdotes participantes da mesma consagração de Jesus (cf. Coleta).

Catequeses do Jubileu 2025: Páscoa de Jesus 4

Quase concluindo as reflexões sobre a Páscoa de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, confira as duas meditações do Papa Leão XIV ligadas ao Sábado Santo: o sepulcro (Jo 19,38-42) e a descida (1Pd 3,18-19).

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.7. A Páscoa de Jesus: O sepulcro (Jo 19,38-42)

Queridos irmãos e irmãs,
No nosso caminho de Catequeses sobre Jesus, nossa esperança, contemplemos hoje o mistério do Sábado Santo. O Filho de Deus jaz no sepulcro. Mas esta sua “ausência” não é um vazio: é espera, plenitude contida, promessa guardada na escuridão. É o dia do grande silêncio, no qual o céu parece mudo e a terra imóvel, mas é precisamente ali que se realiza o mistério mais profundo da fé cristã. É um silêncio “grávido” de sentido, como o ventre de uma mãe que guarda o filho que ainda não nasceu, mas já está vivo.

O corpo de Jesus, descido da cruz, é cuidadosamente envolvido em faixas, como se faz com o que é precioso. O evangelista João nos diz que foi sepultado em um jardim, dentro de «um túmulo novo, onde ninguém ainda tinha sido sepultado» (Jo 19,41). Nada é deixado ao acaso. Aquele jardim remete ao Éden perdido, o lugar onde Deus e o homem estavam unidos. E aquele sepulcro nunca usado fala de algo que ainda deve acontecer: é um limiar, não um fim. No início da criação, Deus plantou um jardim; agora também a nova criação tem início em um jardim: com um túmulo fechado que logo se abrirá!

Sepultamento de Jesus (Alessandro Tiarini)

O Sábado Santo é também um dia de repouso. Segundo a Lei judaica, no sétimo dia não se deve trabalhar: com efeito, após seis dias de criação, Deus descansou (cf. Gn 2,2). Agora também o Filho, depois de ter completado a sua obra de salvação, descansa. Não porque está cansado, mas porque terminou o seu trabalho. Não porque se rendeu, mas porque amou até o fim. Não há mais nada a acrescentar. Esse descanso é o selo da obra realizada, é a confirmação de que aquilo que devia ser feito foi verdadeiramente concluído. É um descanso repleto da presença oculta do Senhor.

Temos dificuldade de parar e descansar. Vivemos como se a vida nunca fosse suficiente. Corremos para produzir, para demonstrar, para não perder terreno. Mas o Evangelho nos ensina que saber parar é um gesto de confiança que devemos aprender a realizar. O Sábado Santo nos convida a descobrir que a vida nem sempre depende daquilo que fazemos, mas também de como sabemos nos desapegar daquilo que pudemos fazer.