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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Meditações da Via Sacra no Coliseu 2026

As meditações da primeira Via Sacra no Coliseu do pontificado do Papa Leão XIV, na noite da Sexta-feira Santa, 03 de abril de 2026, foram preparadas pelo Padre Francesco Patton, OFM, Custódio da Terra Santa de 2016 a 2025.

Em suas meditações foram citados vários textos de São Francisco de Assis, tomados das Fontes Franciscanas (FF), por ocasião dos 800 anos da sua morte (1226-2026).

Para saber mais, confira nossas postagem sobre a Via Sacra e sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

Sexta-feira Santa
Via Sacra no Coliseu presidida pelo Papa Leão XIV
03 de abril de 2026

Meditações com os textos de São Francisco de Assis:
Padre Francesco Patton, OFM

Canto inicial
Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi: quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. R: Amém.
O Senhor Jesus, que padeceu por nós e nos remiu pelo Mistério Pascal, esteja convosco. R. Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo.


Introdução

A Via Dolorosa passa pelas ruelas da Cidade Velha de Jerusalém e nos leva a percorrer o caminho de Jesus desde o local da sua condenação até o da sua crucificação e sepultura, que é também o local da sua Ressurreição.
Não é um percurso entre pessoas devotas e silenciosas. Como no tempo de Jesus, nos encontramos caminhando em um ambiente caótico, perturbado e ruidoso, no meio de pessoas que partilham a fé n’Ele, mas também de outras que zombam e insultam. Assim é a vida de cada dia.
A Via Sacra não é o caminho de quem vive em um mundo assepticamente devoto e de recolhimento abstrato, mas é o exercício de quem sabe que a fé, a esperança e a caridade devem ser encarnadas no mundo real, onde o fiel é constantemente desafiado e deve continuamente assumir como próprio o modo de agir de Jesus.
São Francisco de Assis, de quem se comemora este ano o oitavo centenário da morte, descreve a nossa vida cristã tomando emprestadas as palavras do Apóstolo Pedro, recordando-nos que somos chamados a «seguir os passos de Cristo, que chamou o seu traidor de amigo e se ofereceu espontaneamente aos que o crucificaram» (Regra não bulada XXII, 2: FF 56; cf. 1Pd 2,21). O Poverello nos exorta a fixar o olhar em Jesus: «Consideremos, irmãos todos, o bom pastor, que para salvar suas ovelhas sofreu a paixão da cruz» (Admoestações VI: FF 155).
Ao percorrer esta Via Sacra, portanto, acolhamos o convite de São Francisco a fazer um caminho seguindo os passos de Jesus, que não seja meramente ritual ou intelectual, mas que envolva toda a nossa pessoa e toda a nossa vida: «Oferecei vossos corpos e carregai sua santa cruz, e segui até o fim seus santíssimos preceitos» (Ofício da Paixão do Senhor XV, 13: FF 303).

I Estação: Jesus é condenado à morte

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Meditações da Via Sacra no Coliseu 2011

Nesta primeira sexta-feira da Quaresma, como é tradição neste blog, publicamos um modelo de meditações para a Via Sacra. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra.

Nesta ocasião recordamos a Via Sacra presidida pelo Papa Bento XVI (†2022) junto ao Coliseu na noite da Sexta-feira Santa de 2011Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

As meditações foram escritas pela Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A., Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália. Com essa postagem, portanto, honramos o Papa Leão XIV, que também pertence à Ordem de Santo Agostinho (O.S.A.).

Como ilustrações, por sua vez, propomos as esculturas realizadas pelo artista Mickey Wells para o Santuário da Paixão de Cristo (Shrine of Christ’s Passion) na cidade de St. John (Indiana, EUA), próximo de Chicago (Illinois), cidade natal do primeiro Papa norte-americano [1].

Ofício das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via Sacra no Coliseu presidida pelo Papa Bento XVI
Sexta-feira Santa, 22 de abril de 2011

Meditações da Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A.
Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália

Apresentação

«Se alguém contemplasse de longe a sua pátria, mas no meio estivesse o mar, veria aonde chegar, mas não disporia dos meios para chegar. O mesmo se passa conosco... Vislumbramos a meta a alcançar, mas no meio está o mar deste século... Ora, para que pudéssemos dispor também dos meios para chegar, veio de lá Aquele para quem nós queríamos ir... e forneceu-nos o madeiro com o qual atravessar o mar. De fato, ninguém pode atravessar o mar deste século se não é levado pela cruz de Cristo... Não abandones [pois] a cruz, e a cruz te levará».
Estas palavras de Santo Agostinho, tomadas do seu Comentário ao Evangelho de João (2, 2), nos introduzem na oração da Via Sacra (Via Crucis).


A Via Sacra, com efeito, quer estimular em nós este gesto de nos agarrarmos ao madeiro da Cruz de Cristo ao longo do mar da vida. A Via Sacra, portanto, não é uma simples prática de devoção popular com caráter sentimental, mas exprime a essência da experiência cristã: «Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (Mc 8,34).

(...) No início de cada estação, depois da clássica enunciação, aparece uma brevíssima frase que pretende oferecer a chave de leitura da respectiva estação. Podemos recebê-la idealmente como pronunciada por uma criança, quase como um apelo à simplicidade dos pequeninos, que sabem captar o coração da realidade, e em um espaço simbólico de acolhida, na oração de Igreja, da voz da infância por vezes ofendida e explorada.

A Palavra de Deus proclamada é tomada do Evangelho de João, exceto nas estações sem texto evangélico de referência ou que o têm em outros Evangelhos. Com esta escolha se pretende evidenciar a mensagem de glória da Cruz de Jesus.
Em seguida o texto bíblico é ilustrado por uma breve reflexão, clara e original.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Mensagem do Papa: Quaresma 2026

Confira a seguir a Mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026, com o tema «Escutar e jejuar: Quaresma como tempo de conversão»:

Papa Leão XIV
Mensagem para a Quaresma 2026
Escutar e jejuar: Quaresma como tempo de conversão

Queridos irmãos e irmãs,
A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude materna, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.

Todo caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe para Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição.


Escutar

Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar espaço à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.

O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor» (Ex 3,7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Semana da Unidade 2025: Leituras e orações (2)

Em nossas postagens anteriores destacamos os materiais da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2025, preparados pela comunidade monástica de Bose (Itália), formada por monges de diferentes tradições cristãs.

À luz do tema: “Crês isto?” (Jo 11,26), tendo em vista os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), o subsídio inclui um roteiro de Celebração Ecumênica e um “oitavário” de reflexões e orações à luz do Símbolo Niceno-Constantinopolitano.

Para cada um dos oito dias são propostas leituras bíblicas, leituras patrísticas de diversas “tradições” (latina, grega, siríaca e armênia), orações e preces.

Se na postagem anterior trouxemos as reflexões para os primeiros quatro dias, centradas em Deus Pai e em Jesus Cristo, nesta postagem concluímos a publicação dos materiais com os textos para os últimos quatro dias, sobre o Espírito Santo, a Igreja, o Batismo e a vida eterna.

Esses textos, com efeito, não se restringem ao ano de 2025, podendo ser utilizados em momentos ecumênicos ou de reflexão sobre a fé, ou ainda em nossa oração pessoal.

Ícone do Creio

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025
Reflexões e orações para os oito dias
“Crês isto?” (Jo 11,26)

5º dia: Creio no Espirito Santo, Senhor que dá a vida

Leituras bíblicas: Ez 36,24-28 / Sl 103(104),24-25.27-29.33-34 / Jo 3,4-8

Leitura patrística

Da tradição siríaca
Não é correto dizer que o Espírito se afasta quando pecamos para retornar quando nos convertemos. (...) De que me serve se Ele habita em mim somente depois de me tornar justo? Se no momento da queda Ele não permanece em mim, não me dá a mão e não me levanta, como farei experiência da sua ajuda? Que médico, vendo um enfermo que adoece, vai embora e o abandona, para retornar quando ele estiver saudável? Não é mais útil que o médico esteja com o enfermo no momento da sua doença?
(Filoxeno de Mabbug, Sobre a habitação do Espírito Santo)

Oração

Vós sois o Espírito soprado sobre Adão, tornando a carne humana um ser vivente.
R. Amém, amém! Aleluia!

Vós sois o Espírito dado pelo Ressuscitado, perdoando nossos pecados.
R. Amém, amém! Aleluia!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Semana da Unidade 2025: Leituras e orações (1)

Em nossa postagem anterior destacamos a Celebração Ecumênica da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2025, com o tema: “Crês isto?” (Jo 11,26).

Além da Celebração, o material elaborado pela comunidade monástica de Bose (Itália), formada por monges de diferentes tradições cristãs, inclui um “oitavário” de reflexões e orações à luz do Símbolo Niceno-Constantinopolitano, tendo em vista os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325).

Para cada um dos oito dias são propostas leituras bíblicas, leituras patrísticas de diversas “tradições” (latina, grega, siríaca e armênia), orações e preces.

Confira nesta postagem as reflexões para os primeiros quatro dias, centradas em Deus Pai (Todo-poderoso e Criador) e em Jesus Cristo (Encarnação e Mistério Pascal). Na próxima postagem, por sua vez, traremos os textos para os últimos quatro dias.

Esses textos, com efeito, não se restringem ao ano de 2025, podendo ser utilizados em momentos ecumênicos ou de reflexão sobre a fé, ou ainda em nossa oração pessoal.

Ícone do Creio

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025
Reflexões e orações para os oito dias
“Crês isto?” (Jo 11,26)

1º dia: Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso

Leituras bíblicas: Is 63,15-17 / Sl 138(139),1-3.13.23.24b / 1Cor 8,5-6

Leitura patrística

Da tradição grega
Contemplai os mistérios do amor, e então podereis contemplar o seio do Pai, que só o Filho Unigênito de Deus revelou. Deus é amor e graças ao amor podemos contemplá-lo. E embora em sua natureza inefável Ele seja Pai, sua compaixão por nós se fez mãe.
(Clemente de Alexandria, Qual rico se salvará? 37,1-2)

Oração

Nós vos bendizemos, Senhor, Pai das luzes: de vós provém todo bem e todo dom perfeito.
R. Graças e louvores a vós, Senhor!

Vós criastes o mundo e tudo o que ele contém, Vós sois o Senhor do céu e da terra. A nós, mortais, dais vida, alento e todo bem.
R. Graças e louvores a vós, Senhor!

terça-feira, 22 de abril de 2025

Meditações da Via Sacra no Coliseu 2025

Neste Ano Jubilar de 2025, assim como em 2024, as meditações para a tradicional oração da Via Sacra junto ao Coliseu na noite da Sexta-feira Santa foram escritas pelo Papa Francisco. Este foi um dos últimos textos do Pontífice, falecido na segunda-feira, 21 de abril.

Para saber mais, confira nossas postagem sobre a Via Sacra e sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

Sexta-feira Santa
Via Sacra no Coliseu
18 de abril de 2025
Meditações do Papa Francisco

Canto inicial
Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi: quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. R: Amém.

Introdução
O caminho para o Calvário passa pelas estradas do nosso dia-a-dia. Nós, Senhor, vamos normalmente na direção oposta à vossa. Por isso mesmo pode acontecer que encontremos o vosso rosto e que cruzemos com o vosso olhar. Caminhamos como de costume e Vós vindes ao nosso encontro. Os vossos olhos leem o nosso coração. Hesitamos, então, em continuar como se nada tivesse acontecido. Podemos dar meia-volta, olhar para Vós e vos seguir. Podemos nos identificar com o vosso caminho e perceber que é melhor mudar de rumo.


Do Evangelho segundo Marcos (Mc 10,21)
Jesus olhou para ele com amor, e disse: «Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!».

Jesus é o vosso nome e verdadeiramente em Vós «Deus salva». O Deus de Abraão que chama, o Deus de Isaac que provê, o Deus de Jacó que abençoa, o Deus de Israel que liberta: no vosso olhar, Senhor, que percorreis Jerusalém, há toda uma revelação. Nos vossos passos que saem da cidade está o nosso êxodo para uma nova terra. Viestes para mudar o mundo: para nós isso significa mudar de direção, ver a bondade dos vossos passos, deixar trabalhar no nosso coração a memória do vosso olhar.
A Via Sacra é a oração de quem está em movimento. Interrompe os nossos caminhos habituais, para que do cansaço passemos à alegria. É verdade que nos custa trilhar o caminho de Jesus: neste mundo que tudo calcula, a gratuidade tem um preço elevado. No dom gratuito, porém, tudo volta a florescer: uma cidade dividida em facções e dilacerada por conflitos caminha em direção à reconciliação; uma religiosidade estéril redescobre a fecundidade das promessas de Deus; até um coração de pedra pode transformar-se em um coração de carne. Basta ouvir o convite: «Vem e segue-me!», e confiar nesse olhar de amor.

I Estação: Jesus é condenado à morte

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 11

Concluindo a publicação das Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes que realizamos ao longo da Quaresma deste Ano Jubilar de 2025, trazemos suas meditações sobre a maior das virtudes teologais, a caridade, e sobre a virtude da humildade.

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 15 de maio de 2024
Os vícios e as virtudes (19): A caridade

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje falaremos da terceira virtude teologal, a caridade. As outras duas, recordemos, são a fé e a esperança: hoje falaremos da terceira, a caridade. Ela é o ápice de todo o itinerário que percorremos nas Catequeses sobre as virtudes. Pensar na caridade dilata imediatamente o coração e a mente, segundo as palavras inspiradas de São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios. Concluindo aquele maravilhoso hino, São Paulo cita a tríade de virtudes teologais, exclamando: «Agora, pois, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade. Mas a maior delas é a caridade» (1Cor 13,13).

As três virtudes teologais
(August Kiss, Cripta da Catedral de Berlim)

Paulo dirige estas palavras a uma comunidade muito longe de ser perfeita no amor fraterno: os cristãos de Corinto eram bastante turbulentos, havia divisões internas, havia aqueles que pretendiam ter sempre razão e não ouviam os outros, considerando-os inferiores. Paulo recorda-lhes que a ciência ensoberbece, enquanto a caridade edifica (cf. 1Cor 8,1). Além disso, o Apóstolo fala de um escândalo que atinge até o momento de maior união de uma comunidade cristã, ou seja, a “Ceia do Senhor”, a Celebração Eucarística: também ali há divisões, e há quem se aproveite para comer e beber, excluindo os que nada têm (cf. 1Cor 11,18-22). Perante isto, Paulo pronuncia um juízo severo: «Quando, pois, vos reunis, já não comeis a Ceia do Senhor» (v. 20), tendes outro ritual, que é pagão, não é a Ceia do Senhor.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (4)

Com esta publicação concluímos as meditações do Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, sobre a teologia do Oriente e do Ocidente, proferidas durante a Quaresma de 2015 e repropostas aqui no contexto dos 1700 anos do I Concílio de Niceia (325).

Confira nesta quarta e última postagem a meditação sobre o mistério da salvação:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
V pregação de Quaresma
27 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério da salvação

Com esta meditação encerramos o nosso percurso pela fé comum do Oriente e do Ocidente, e o encerramos com o que nos diz respeito mais diretamente: o problema da salvação, ou seja, como ortodoxos e o mundo latino compreenderam o conteúdo da salvação cristã.

É, provavelmente, o campo em que é mais necessário para nós, latinos, voltar o olhar para o Oriente, a fim de enriquecer e, em parte, corrigir o nosso modo difuso de conceber a redenção operada por Cristo. Temos o privilégio de fazê-lo nesta Capela, onde a obra de Cristo e do mistério da salvação foi representada pela arte do Padre Rupnik, de acordo com a concepção da Igreja do Oriente e da iconografia bizantina.

Juízo final, tendo ao centro Cristo Redentor

Vamos começar com uma autorizada apresentação do modo diferente de entender a salvação entre Oriente e Ocidente, exposta no Dictionnaire de Spiritualité e que sintetiza a opinião dominante nos círculos teológicos:
“O propósito da vida para os cristãos gregos é a divinização; o dos cristãos do Ocidente é a conquista da santidade... O Verbo se fez carne, de acordo com os gregos, para restituir ao homem a semelhança divina perdida em Adão e para divinizá-lo. De acordo com os latinos, Ele se fez homem para redimir a humanidade... e para pagar a dívida devida à justiça de Deus” [1].

Procuraremos ver em que se baseia essa diferença de visão e o que há de verdadeiro na maneira de apresentá-la.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 10

Quase concluindo a publicação das Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes que estamos realizando durante a Quaresma deste Ano Jubilar de 2025, confira suas meditações sobre as duas primeiras virtudes teologais: a fé e a esperança.

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 01 de maio de 2024
Os vícios e as virtudes (17): A fé

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de falar sobre a virtude da . Com a caridade e a esperança, esta virtude é chamada “teologal. São três as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Por que são teologais? Porque só podem ser vividas graças ao dom de Deus. As três virtudes teologais são os grandes dons que Deus concede à nossa capacidade moral. Sem elas, poderíamos ser prudentes, justos, fortes e temperantes, mas não teríamos olhos que veem até no escuro, não teríamos um coração que ama até quando não é amado, não teríamos uma esperança que ousa contra toda a esperança.

As três virtudes teologais
(Heinrich Maria von Hess)

O que é a fé? O Catecismo da Igreja Católica explica-nos que a fé é o ato com o qual o ser humano se abandona livremente a Deus (n. 1814). Nesta fé, Abraão foi o grande pai. Quando aceitou deixar a terra dos seus antepassados para se dirigir rumo à terra que Deus lhe indicaria, provavelmente foi considerado louco: por que deixar o conhecido pelo desconhecido, o certo pelo incerto? Por que fazer isto? É louco? Mas Abraão põe-se a caminho, como se visse o invisível. É o que a Bíblia diz de Abraão: “Partiu, como se visse o invisível”. Isto é lindo! E será ainda este invisível que o fará subir à montanha com o seu filho Isaac, o único filho da promessa, que só no último momento será poupado do sacrifício. Nesta fé, Abraão torna-se o pai de uma longa linhagem de filhos. A fé tornou-o fecundo.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (3)

No contexto da celebração dos 1700 anos do I Concílio de Niceia (325) pelas Igrejas do Oriente e do Ocidente estamos recordando as quatro meditações do Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, sobre a teologia do Oriente e do Ocidente durante a Quaresma de 2015

Propomos a seguir a terceira meditação, sobre o mistério do Espírito Santo:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
IV pregação de Quaresma
20 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério do Espírito Santo

Meditaremos hoje sobre a fé comum do Oriente e do Ocidente no Espírito Santo e procuraremos fazê-lo “no Espírito”, em sua presença, sabendo que, como diz a Escritura, “antes mesmo de nossa palavra chegar à língua, Ele já a conhece” (cf. Sl 138,4).

1. Rumo ao acordo sobre o Filioque

Durante séculos a doutrina sobre a origem do Espírito Santo no seio da Trindade foi o ponto de maior atrito e tema de acusações mútuas entre o Oriente e o Ocidente, por causa do famoso “Filioque”. Tentarei reconstruir o estado da questão para avaliar melhor a graça que Deus está nos dando de chegar ao entendimento também neste problema espinhoso.

Vitral do Espírito Santo
(Abside da Basílica de São Pedro)

A fé da Igreja no Espírito Santo foi definida, como se sabe, no Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 381, com as seguintes palavras: “(cremos) no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, Ele que falou pelos profetas” (Denzinger, n. 150). Esta fórmula contém a resposta para as duas perguntas fundamentais sobre o Espírito Santo. À pergunta “quem é o Espírito Santo”, responde-se que é “Senhor” (isto é, pertence à esfera do Criador, não das criaturas), que procede do Pai e, na adoração, é igual ao Pai e ao Filho; à pergunta “o que o Espírito Santo faz”, responde-se que Ele “dá a vida” (o que resume toda a obra santificadora, interior e renovadora do Espírito) e que “falou pelos profetas” (o que resume a ação carismática do Espírito Santo).

segunda-feira, 31 de março de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 9

Após refletir sobre as quatro virtudes cardeais em sua série de Catequeses sobre os vícios e as virtudes, que estamos publicando nesta Quaresma do Ano Jubilar de 2025, e antes de falar das três virtudes teologais, o Papa Francisco dedicou uma meditação à vida da graça segundo o Espírito:

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 24 de abril de 2024
Os vícios e as virtudes (16): A vida da graça segundo o Espírito

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Nas últimas semanas refletimos sobre as virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. São estas as quatro virtudes cardeais. Como já salientamos várias vezes, estas quatro virtudes pertencem a uma sabedoria muito antiga, precedente até ao Cristianismo. Já antes de Cristo a honestidade era preconizada como dever cívico, a sabedoria como regra das ações, a coragem como ingrediente fundamental para uma vida que tende para o bem e a moderação como medida necessária para não se deixar dominar pelos excessos. Esta herança tão antiga, legado da humanidade, não foi substituída pelo Cristianismo, mas esclarecida, valorizada, purificada e integrada na fé.

Portanto, no coração de cada homem e mulher existe a capacidade de procurar o bem. O Espírito Santo é concedido para que aqueles que o recebem possam distinguir claramente o bem do mal, ter a força de aderir ao bem evitando o mal e, agindo assim, alcançar a plena realização pessoal.

O Espírito Santo, fonte das virtudes

Mas no caminho que todos percorremos rumo à plenitude da vida, que pertence ao destino de cada pessoa - o destino de cada pessoa é a plenitude, ser cheia de vida -, o cristão conta com uma ajuda especial do Espírito Santo, o Espírito de Jesus. Ela é implementada com o dom de outras três virtudes, distintamente cristãs, que nos escritos do Novo Testamento são frequentemente mencionadas juntas. Estas atitudes fundamentais, que distinguem a vida do cristão, são três virtudes que agora diremos juntos: fé, esperança e caridade. Digamo-las juntos: fé, esperança e caridade. Os escritores cristãos logo as chamaram virtudes “teologais”, pois são recebidas e vividas na relação com Deus, para diferenciá-las das outras quatro virtudes chamadas “cardeais”, uma vez que constituem as “dobradiças” de uma vida boa. Essas três são recebidas no Batismo e derivam do Espírito Santo. Todas, tanto as virtudes teologais como as cardeais, confrontadas em muitas reflexões sistemáticas, compuseram assim um maravilhoso setenário, que muitas vezes é oposto ao elenco dos sete vícios capitais. É assim que o Catecismo da Igreja Católica define a ação das virtudes teologais: «Fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão. Informam e vivificam todas as virtudes morais. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para torná-los capazes de proceder como seus filhos e assim merecerem a vida eterna. São o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser humano» (n. 1813).

sexta-feira, 28 de março de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (2)

Neste ano de 2025, no qual as Igrejas do Oriente e do Ocidente celebram os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), recordamos as quatro meditações sobre a teologia do Oriente e do Ocidente proferidas pelo Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, durante a Quaresma de 2015.

Confira nesta postagem a segunda meditação, sobre o mistério da Pessoa de Cristo:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
III pregação de Quaresma
13 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério da Pessoa de Cristo

1. Paulo e João: o Cristo visto de dois ângulos

Em nosso esforço de compartilhar os tesouros espirituais do Oriente e do Ocidente, vamos refletir hoje sobre a fé comum em Jesus Cristo. Tentemos fazê-lo como quem fala de alguém presente, não de um ausente. Se não fosse pelo nosso “peso” humano, que nos atrapalha, deveríamos pensar que, toda vez que pronunciamos o nome de Jesus, Ele se sente chamado pelo nome e se volta para nos olhar. Hoje também Ele está aqui conosco e escuta o que diremos d’Ele (esperemos que com indulgência).

Cristo Pantocrator
(Catedral de Cefalù, Itália)

Comecemos pelas raízes bíblicas da “questão Jesus”. No Novo Testamento vemos delinear-se duas vias de expressão do mistério de Cristo. A primeira delas é a de São Paulo. Resumamos os traços peculiares dessa linha, os traços que a tornarão modelo e arquétipo cristológico no desenvolvimento do pensamento cristão. Esta linha:
- Parte da humanidade para alcançar a divindade de Cristo; parte da história para atingir a pré-existência; é, portanto, um caminho ascendente; segue a ordem do manifestar-se de Cristo, a ordem em que os homens o conheceram, não a ordem do ser;
- Parte da dualidade de Cristo (carne e espírito) para chegar à unidade do sujeito “Jesus Cristo, nosso Senhor”;
- Tem no centro o Mistério Pascal, o operatum, mais do que a pessoa de Cristo. O grande marco entre as duas fases da existência de Cristo é a Ressurreição dos mortos.

Para nos convencermos de que esta consideração é acertada, basta reler a densíssima passagem, uma espécie de credo embrionário, com que o Apóstolo começa a Carta aos Romanos. O mistério de Cristo é assim resumido: “Descendente de Davi segundo a carne, autenticado como Filho de Deus com poder, pelo Espírito de santidade que o ressuscitou dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1,3-4).

segunda-feira, 24 de março de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 8

Nesta postagem da série de Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes publicadas aqui no blog durante a Quaresma do Ano Jubilar de 2025 trazemos as meditações sobre as duas últimas virtudes cardeais: a fortaleza e a temperança.

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 10 de abril de 2024
Os vícios e as virtudes (14): A fortaleza

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!
A Catequese de hoje é dedicada à terceira das virtudes cardeais, ou seja, à fortaleza. Comecemos pela descrição dada pelo Catecismo da Igreja Católica: «A fortaleza é a virtude moral que, no meio das dificuldades, assegura a firmeza e a constância na busca do bem. Torna firme a decisão de resistir às tentações e de superar os obstáculos na vida moral. A virtude da fortaleza dá capacidade para vencer o medo, até da morte, e enfrentar a provação e as perseguições» (n. 1808). Isto diz o Catecismo da Igreja Católica sobre a virtude da fortaleza.

A sabedoria expulsa os vícios do jardim das virtudes
(Andrea Mantegna)

Eis, pois, a mais “combativa” das virtudes. Enquanto a primeira das virtudes cardeais, isto é, a prudência, estava principalmente associada à razão do homem, e a justiça encontrava a sua morada na vontade, esta terceira virtude, a fortaleza, é frequentemente ligada pelos autores escolásticos àquilo que os antigos chamavam o “apetite irascível”. O pensamento antigo não imaginava um homem desprovido de paixões: seria uma pedra. E as paixões não são necessariamente o resíduo de um pecado; mas devem ser educadas, devem ser orientadas, devem ser purificadas com a água do Batismo, ou melhor, com o fogo do Espírito Santo. O cristão sem coragem, que não inclina as próprias forças para o bem, que não incomoda ninguém, é um cristão inútil. Pensemos nisto! Jesus não é um Deus diáfano e asséptico, que desconhece as emoções humanas. Pelo contrário. Perante a morte do amigo Lázaro, desata em lágrimas; e em algumas das suas expressões transparece o seu espírito apaixonado, como quando diz: «Vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já se tivesse aceso!» (Lc 12,49); e diante do comércio no templo, reage vigorosamente (cf. Mt 21,12-13). Jesus tinha paixão!

sexta-feira, 21 de março de 2025

Raniero Cantalamessa: Oriente e Ocidente (1)

Neste ano de 2025 celebramos os 1700 anos do I Concílio de Niceia (325), que contou com a participação de Bispos do Oriente e do Ocidente.

Aproveitamos a ocasião para recordar as quatro meditações sobre a teologia do Oriente e do Ocidente proferidas pelo Padre Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia, durante a Quaresma de 2015 (precedidas de uma meditação sobre a Exortação Apostólica Evangelii gaudium).

Confira a seguir a primeira meditação, dedicada ao mistério da Trindade:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
II pregação de Quaresma
06 de março de 2015
Oriente e Ocidente perante o mistério da Trindade

1. Compartilhar o que nos une

A recente visita do Papa Francisco à Turquia (novembro de 2014), que terminou com o encontro com o Patriarca Ortodoxo Bartolomeu e, especialmente, a sua exortação a compartilhar plenamente a fé comum do Oriente cristão e do Ocidente latino, me convenceram da utilidade de usar as meditações quaresmais deste ano para atender esse desejo do Papa, que é desejo, também, de toda a cristandade.

Este desejo de compartilhar não é novo. O Concílio Vaticano II, na Unitatis Redintegratio, já exortava a uma especial atenção às Igrejas Orientais e às suas riquezas (n. 14). São João Paulo II, na Carta Apostólica Orientale Lumen, de 1995, escreveu: “Porque acreditamos que a venerável e antiga tradição das Igrejas Orientais é parte integrante do patrimônio da Igreja de Cristo, a primeira necessidade para os católicos é conhecê-la, a fim de poderem nutrir-se dela e favorecer, do modo possível a cada um, o processo da unidade” (n. 1).

Ícone da Trindade (detalhe)

O mesmo Santo Pontífice formulou um princípio que eu considero fundamental para o caminho da unidade: “compartilhar as muitas coisas que nos unem e que certamente são mais numerosas do que as coisas que nos dividem” (Tertio millennio adveniente, n. 16). A Ortodoxia e a Igreja Católica compartilham a mesma fé na Trindade; na Encarnação do Verbo; em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem em uma só pessoa, que morreu e ressuscitou para a nossa salvação, que nos deu o Espírito Santo; acreditamos que a Igreja é o seu Corpo animado pelo Espírito Santo; que a Eucaristia é “fonte e ápice da vida cristã”; que Maria é a Theotokos, a Mãe de Deus; que temos como destino a vida eterna. O que pode haver de mais importante do que isto? As diferenças se manifestam na maneira de entender e de explicar alguns desses mistérios e, portanto, são secundárias, não primárias.

segunda-feira, 17 de março de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 7

Prosseguindo com a postagem das Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes nesta Quaresma do Ano Jubilar de 2025, confira suas meditações sobre a paciência (proferida durante a Semana Santa) e sobre a justiça, segunda das virtudes cardeais:

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 27 de março de 2024
Os vícios e as virtudes: A paciência

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
No domingo passado ouvimos a narração da Paixão do Senhor. Aos sofrimentos que padece, Jesus responde com uma virtude que, embora não esteja contemplada entre as tradicionais, é muito importante: a virtude da paciência. Trata-se de suportar o sofremos: não é por acaso que paciência tem a mesma raiz de paixão. E é precisamente na Paixão que sobressai a paciência de Cristo, que com mansidão e docilidade aceita ser preso, esbofeteado e condenado injustamente; diante de Pilatos não recrimina; suporta os insultos, os escarros e a flagelação dos soldados; suporta o peso da cruz; perdoa aqueles que o pregam no madeiro e, na cruz, não responde às provocações, mas oferece misericórdia. Esta é a paciência de Jesus! Tudo isto nos diz que a paciência de Jesus não consiste em uma resistência estoica ao sofrimento, mas é o fruto de um amor maior.

Cristo, o Bom Pastor, rodeado por virtudes
(Catedral de Dublin, Irlanda)

O Apóstolo Paulo, no chamado “hino à caridade” (cf. 1Cor 13,4-7), une estreitamente amor e paciência. Com efeito, descrevendo a primeira qualidade da caridade, recorre a uma palavra que se traduz por “magnânima”, “paciente”. A caridade é magnânima, é paciente. Ela exprime um conceito surpreendente, que aparece muitas vezes na Bíblia: Deus, perante a nossa infidelidade, mostra-se «lento para a ira» (cf. Ex 34,6; Nm 14,18): em vez de desabafar o seu desgosto pelo mal e pelo pecado do homem, revela-se maior, sempre pronto a recomeçar com uma paciência infinita. Este é, para Paulo, o primeiro traço do amor de Deus que, perante o pecado, propõe o perdão. Mas não só: é o primeiro traço de todo o grande amor, que sabe responder ao mal com o bem, que não se fecha na ira nem no desânimo, mas persevera e relança. A paciência que recomeça! Por isso, na raiz da paciência está o amor, como diz Santo Agostinho: «Uma pessoa é tanto mais forte ao suportar qualquer mal quanto maior for o amor de Deus nela» (De patientia, XVII).

segunda-feira, 10 de março de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 6

Dando início à segunda parte das Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes que estamos publicando no contexto da Quaresma deste Ano Jubilar de 2025, confira as meditações sobre o agir virtuoso e sobre a prudência, primeira das virtudes cardeais:

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 13 de março de 2024
Os vícios e as virtudes (11): O agir virtuoso

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Depois de ter concluído a panorâmica sobre os vícios, chegou o momento de dirigir o olhar para o quadro simétrico, que se opõe à experiência do mal. O coração do homem pode ceder às más paixões, pode dar ouvidos a tentações nocivas disfarçadas sob vestes convincentes, mas também pode opor-se a tudo isto. Por mais difícil que seja, o ser humano foi feito para o bem, que o realiza verdadeiramente, e pode também praticar esta arte, fazendo com que certas disposições se tornem permanentes nele. A reflexão sobre esta nossa maravilhosa possibilidade constitui um capítulo clássico da filosofia moral: o capítulo das virtudes.

Os filósofos romanos chamavam-lhe virtus, os gregos areté. O termo latino realça sobretudo que a pessoa virtuosa é forte, corajosa, capaz de disciplina e ascese; por isso, o exercício das virtudes é fruto de uma longa germinação, que exige esforço e até sofrimento. Por outro lado, a palavra grega areté indica algo que excede, que emerge, que suscita admiração. Portanto, a pessoa virtuosa é aquela que não se desvirtua, deformando-se, mas é fiel à sua vocação, realiza-se plenamente.

A inocência rodeada por outras virtudes
(Adriaen van de Velde)

Estaríamos no caminho errado se pensássemos que os santos são exceções da humanidade: uma espécie de círculo restrito de campeões que vivem além dos limites da nossa espécie. Nesta perspectiva que acabamos de introduzir sobre as virtudes, os santos são sobretudo aqueles que se tornam plenamente eles mesmos, que realizam a vocação própria de cada homem. Como o mundo seria feliz se a justiça, o respeito, a benevolência mútua, a abertura de espírito e a esperança fossem a normalidade compartilhada, e não uma rara anomalia! Por isso, o capítulo do agir virtuoso, nestes nossos tempos dramáticos em que muitas vezes nos confrontamos com o pior do humano, deveria ser redescoberto e praticado por todos. Em um mundo deformado, devemos recordar o modo como fomos moldados, a imagem de Deus que está impressa para sempre em nós.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Meditações da Via Sacra no Coliseu 2015

Nesta primeira sexta-feira da Quaresma, como de costume aqui em nosso blog, publicamos um esquema de meditações para a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.
Para saber mais, confira nossas postagens sobre a Via Sacra e sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

Nesta postagem recordamos as meditações proferidas há 10 anos, na Via Sacra presidida pelo Papa Francisco na Sexta-feira Santa de 2015, elaboradas por Dom Renato Corti (†2020), Bispo Emérito de Novara (Itália), criado Cardeal no ano seguinte.

Como ilustrações, propomos a Via Sacra realizada pelo pintor italiano Gaetano Previati (†1920), realizada entre 1901 e 1902 e conservada nos Museus Vaticanos.

Ofício das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via-Sacra no Coliseu presidida pelo Papa Francisco
Sexta-feira Santa, 03 de abril de 2015

Meditações de Dom Renato Corti
Bispo Emérito de Novara (Itália)

A Cruz, ápice luminoso do amor de Deus que nos guarda
Chamados, também nós, a sermos guardiões por amor

Canto inicial:
Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi,
quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
Domine, miserere nobis.

Caminho do Calvário (Gaetano Previati, Milão)

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. R. Amém.

Estávamos no dia 19 de março de 2013. O Papa Francisco tinha sido eleito poucos dias antes. Fez a homilia sobre São José, dizendo que era o «guardião» de Maria e de Jesus (cf. Mt 1,24) e que o seu estilo era feito de discrição, humildade, silêncio, presença constante e fidelidade total.
Na Via Sacra que estamos prestes a começar haverá uma referência constante ao dom de sermos guardados pelo amor de Deus, nomeadamente por Jesus Crucificado, e ao dever de, por nossa parte, sermos por amor guardiões da criação inteira, de todas as pessoas, especialmente das mais pobres, de nós mesmos e das nossas famílias, para fazer brilhar a estrela da esperança.
Queremos viver esta Via Sacra em uma profunda intimidade com Jesus. Vendo com atenção aquilo que está escrito nos Evangelhos, se individuarão discretamente alguns sentimentos e pensamentos que poderiam ocupar a mente e o coração de Jesus naquelas horas de provação.
Ao mesmo tempo, nos deixaremos interpelar por algumas situações de vida que caracterizam - positiva ou negativamente - os nossos dias. Expressaremos assim uma ressonância, que traduz o nosso desejo de realizar algum passo de imitação de nosso Senhor Jesus Cristo na sua Paixão.

Oremos
Ó Pai, que quisestes salvar os homens com a morte do vosso Filho na Cruz, concedei-nos que, tendo conhecido na terra o seu mistério de amor, sejamos suas testemunhas, por palavras e obras, junto de todos aqueles que nos fazeis encontrar na vida diária. Por Cristo, nosso Senhor. R. Amém.

I Estação: Jesus é condenado à morte
Intimidade, traição, condenação

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

terça-feira, 4 de março de 2025

Mensagem do Papa: Quaresma 2025

Papa Francisco
Mensagem para a Quaresma de 2025
Caminhemos juntos na esperança

Queridos irmãos e irmãs!
Com o sinal penitencial das cinzas sobre as nossas cabeças iniciamos na fé e na esperança a peregrinação anual da Santa Quaresma. A Igreja, mãe e mestra, convida-nos a preparar os nossos corações e a abrir-nos à graça de Deus para podermos celebrar com grande alegria o triunfo pascal de Cristo, o Senhor, sobre o pecado e a morte, como exclamava São Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» (1Cor 15,54-55). Realmente, Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado, é o centro da nossa fé e a garantia da nossa esperança na grande promessa do Pai, já realizada n’Ele, seu Filho amado: a vida eterna (cf. Jo 10,28; 17,3; cf. Encíclica Dilexit nos, n. 220).

Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa caminhar juntos na esperança e evidenciar os apelos à conversão que a misericórdia de Deus dirige a todos nós, enquanto indivíduos e comunidades.


Antes de tudo, caminhar. O lema do Jubileu - “Peregrinos de Esperança” - traz à mente a longa travessia do povo de Israel em direção à Terra Prometida, narrada no Livro do Êxodo: a difícil passagem da escravidão para a liberdade, desejada e guiada pelo Senhor, que ama o seu povo e sempre lhe é fiel. E não podemos recordar o êxodo bíblico sem pensar em tantos irmãos e irmãs que, hoje, fogem de situações de miséria e violência e vão à procura de uma vida melhor para si e para seus entes queridos. Aqui surge um primeiro apelo à conversão, porque todos nós somos peregrinos na vida, mas cada um pode se perguntar: como me deixo interpelar por esta condição? Estou realmente a caminho ou estou paralisado, estático, com medo e sem esperança, acomodado na minha zona de conforto? Busco caminhos de libertação das situações de pecado e falta de dignidade? Seria um bom exercício quaresmal confrontar-nos com a realidade concreta de algum migrante ou peregrino e deixar que ela nos interpele, para descobrir o que Deus pede de nós para sermos melhores viajantes rumo à casa do Pai. Esse é um bom “exame” para o viandante.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 5

Concluindo a primeira parte das Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes às portas da Quaresma deste Ano Jubilar de 2025, confira as meditações sobre os vícios da inveja, da vanglória e da soberba:

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024
Os vícios e as virtudes (9): A inveja e a vanglória

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje vamos analisar dois vícios capitais que encontramos nos grandes elencos que a tradição espiritual nos deixou: a inveja e a vanglória.

Comecemos pela inveja. Se lermos a Sagrada Escritura, ela se apresenta como um dos vícios mais antigos: o ódio de Caim em relação a Abel desencadeia-se quando ele se dá conta de que os sacrifícios do seu irmão são agradáveis a Deus (cf. Gn 4). Caim era o primogênito de Adão e Eva, tinha recebido a parte mais importante da herança do pai; no entanto, é suficiente que Abel, o irmão mais novo, alcance um pequeno sucesso para que Caim se indigne. O rosto do invejoso é sempre triste: o olhar é cabisbaixo, parece que perscruta continuamente o terreno, mas na realidade não vê nada, porque a mente está mergulhada em pensamentos cheios de maldade. A inveja, se não for controlada, leva ao ódio pelo outro. Abel será morto pelas mãos de Caim, que não era capaz de suportar a felicidade do irmão.

A escolha entre os vícios e as virtudes
(Frans Francken II)

A inveja é um mal investigado não apenas no âmbito cristão: chamou a atenção de filósofos e sábios de todas as culturas. Na sua base existe uma relação de ódio e de amor: quer-se o mal do outro, mas secretamente deseja-se ser como ele. O outro é a epifania daquilo que gostaríamos de ser e que, na realidade, não somos. A sua sorte parece-nos uma injustiça: certamente - pensamos - teríamos merecido muito mais os seus sucessos ou a sua boa sorte!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Catequeses do Papa Francisco: Vícios e virtudes 4

Prosseguindo com a postagem das Catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes em vista da Quaresma deste Ano Jubilar de 2025, trazemos suas meditações sobre os vícios da “tristeza” e da acídia (preguiça):

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 07 de fevereiro de 2024
Os vícios e as virtudes (7): A tristeza

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
No nosso itinerário de Catequeses sobre os vícios e as virtudes hoje meditamos sobre um vício bastante negativo, a tristeza, entendida como um abatimento da alma, uma aflição constante que impede o homem de sentir alegria pela sua existência.

Em primeiro lugar é preciso observar que, no que diz respeito à tristeza, os Padres elaboraram uma distinção importante. Com efeito, existe uma tristeza que convém à vida cristã e que, com a graça de Deus, se transforma em alegria: evidentemente, ela não deve ser rejeitada e faz parte do caminho de conversão. Mas existe também uma segunda figura de tristeza, que se insinua na alma, prostrando-a em um estado de desânimo: é este segundo tipo de tristeza que deve ser combatido com determinação e com toda a força, porque deriva do Maligno. Encontramos esta distinção também em São Paulo que, escrevendo aos coríntios, diz: «A tristeza segundo Deus produz uma mudança de vida e, assim, leva à salvação. Mas a tristeza segundo o mundo produz a morte» (2Cor 7,10).

Tentações de Santo Antônio (ou Santo Antão)
(Hieronymus Bosch)

Portanto, existe uma tristeza amiga, que nos conduz à salvação. Pensemos no filho pródigo da parábola: quando toca o fundo da sua degeneração, sente grande amargura, que o leva a recuperar a razão e a decidir regressar para a casa do pai (cf. Lc 15,11-20). É uma graça gemer sobre os próprios pecados, recordar o estado de graça do qual caímos, chorar porque perdemos a pureza com que Deus nos sonhou.