A solenidade da
Assunção é a mais antiga das festas marianas. Segundo a versão siríaca do texto
apócrifo De transitu Mariae (Da
passagem de Maria), atribuído a São João Evangelista, esta festa remonta ao período
apostólico.
O texto (do
final do século IV) indica que os Apóstolos teriam instituído três festas em
honra da Santa Mãe de Deus, todas ligadas ao calendário agrícola: 25 de janeiro
(semeadura), 15 de maio (colheita) e 15 de agosto (vindima).
No século V, as
igrejas da Armênia, de Jerusalém e de Constantinopla continham em seus
calendários a seguinte indicação para o dia 15 de agosto: “Dia de Maria, Mãe de
Deus”. Vê-se claramente que se tratava ainda de uma festa genérica em honra de
Maria, sem fazer menção à Assunção ou, para usar o termo oriental, à Dormição.
No século VI, a partir
da igreja da Síria, a festa de 15 de agosto passa a ser dedicada ao mistério da
Dormição da Virgem Maria. O mesmo logo se dá na igreja de Jerusalém, onde os
fieis passam a peregrinar ao local onde, segundo a tradição, Maria teria subido
aos céus de corpo e alma.
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| Igreja da "Tumba de Maria" em Jerusalém |
No Ocidente, a
festa da Dormição começa a ser celebrada igualmente no século VI, a partir da
influência da igreja copta (Egito). No século seguinte, os sacramentários
apresentam duas festas marianas: a primeira em janeiro, dedicada à sua Divina
Maternidade; e a segunda em agosto, dedicada ao mistério da Assunção.
Curioso que
neste período, a perícope evangélica indicada para a solenidade era Lc
10,38-42, isto é, o episódio de Jesus na casa de Marta e Maria. Este mesmo
texto era lido nas Missas das santas virgens, para evidenciar aquelas que
“escolheram a melhor parte”. Este texto foi substituído por Lc 1,39-56
(Magnificat) na reforma litúrgica do Concílio de Trento, permanecendo até hoje.
Na igreja
romana, a festa da Assunção atingiu logo grande prestígio, sendo-lhe acrescida
inclusive uma Missa da Vigília, algo característico das grandes solenidades
(Páscoa, Natal, Pentecostes). No final do século VII o Papa Sérgio (687-701)
introduziu uma procissão com o canto das ladainhas, que possuía grande
popularidade.
Na manhã do dia
14, o Papa dirigia-se com os Cardeais à Basílica do Latrão, onde em uma pequena
capela era conservado um ícone de Jesus em tamanho quase natural, que era
venerado nas grandes festas. Esta imagem era chamada de achiropita (não pintada), pois se atribuía-lhe uma origem
miraculosa. Cumpre notar que esta imagem, revestida de uma cobertura de prata
colocada por Inocêncio III (1160-1216), ainda conserva-se na Basílica
Lateranense, embora não seja mais usada nas grandes celebrações.
O Papa,
descalço, ajoelhava-se sete vezes, beijava os pés da imagem e, após entoar o Te Deum, a apresentava para a veneração
dos presentes. À tarde, na Basílica de Santa Maria Maior, celebravam-se às
vésperas e as matinas, com nove leituras.
À meia-noite,
tinha início a procissão da Basílica do Latrão à Basílica de Santa Maria Maior.
Os diáconos levavam o ícone do Senhor em um portatorium,
acompanhados de acólitos com velas acesas e seguidos pelo Papa, pelos cardeais
e pelo povo, que cantavam salmos. As casas que estavam no caminho da procissão
eram ornadas com velas acesas e flores.
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| Basílica de Santa Maria Maior |
Este gesto de
conduzir um ícone cristológico na procissão da Assunção é uma referência ao
relato apócrifo do De transitu Mariae, que
narra a aparição de Cristo no momento da Assunção, dado que aliás tornou-se
característico na iconografia bizantina desta festa (veja a primeira imagem deste post):
“A Mãe do Senhor disse aos Apóstolos:
‘Atirai incenso, pois Cristo já está vindo com um exército de anjos’. No mesmo
instante Cristo apresentou-se-nos sentando sobre um trono de querubins. E,
enquanto todos estávamos orando, apareceram multidões incontáveis de anjos, e o
Senhor estava pleno de majestade sobre os querubins. E eis que um eflúvio
resplandecente irradiou-se sobre a santa Virgem por virtude da presença de seu
Filho Unigênito, e todas as divindades celestiais caíram por terra e O
adoraram” (De transitu Mariae, n. 38).
Algumas vezes
durante o trajeto, a procissão parava e os pés da imagem eram lavados com um
líquido chamado basilicum, que
consistia uma infusão de flores e ervas aromáticas. Tal gesto faz alusão ao episódio
em que uma mulher lava os pés de Jesus com perfume. Este líquido era
igualmente aspergido sobre os fieis, que cantavam repetidas vezes: Kyrie eleison e Christe eleison (Senhor, tende piedade de nós / Cristo, tende
piedade de nós).
Ao chegar à
Basílica de Santa Maria Maior, já perto do início da manhã, o Papa celebrava a
Missa e abençoava os fieis, cansados pela longa procissão. Contudo, devido a
alguns abusos que se introduziram ao longo dos anos (os quais contudo
desconhecemos), a procissão foi abolida pelo Papa São Pio V em 1566.
Um costume
ligado a esta data, que perdurou ao menos até o século X, foi a bênção das
ervas medicinais. Tal prática relaciona-se ao antiquíssimo costume de confiar à
Virgem Maria a proteção dos campos, donde a bênção das ervas que eram usadas
como um sinal da proteção divina contra calamidades naturais e influxos
diabólicos.
Ainda sobre a
festa da Assunção merece destaque a elaboração de belíssimas composições
musicais para a Missa da solenidade a partir do século XI, como é o caso da
Messe de Notre Dame, de Guillaume de Machaut, composta em 1363 e que conjuga o
canto gregoriano com a ars nova
(polifonia).
Por fim, cumpre
dizer que esta solenidade ganhou novo impulso a partir de 01 de novembro de
1950, quando o Papa Venerável Pio XII definiu o Dogma da Assunção de Maria,
através da Constituição Apostólica Munificentissimus
Deus:
Pelo que, depois de termos dirigido a Deus
repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para
glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial
benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do
pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e
júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos
bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos,
declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da
vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial.
| Histórica imagem da definição do Dogma da Assunção (1950) |
REFERÊNCIAS:
PROENÇA,
Eduardo (Org.) Apócrifos e
pseudo-epígrafos da Bíblia. São Paulo: Fonte Editorial, 2005, p. 759-769.
BERGAMINI,
Augusto. Cristo, festa da Igreja: O
Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 461-466.
RIGHETTI,
Mario. Historia de la Liturgia.
Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1945, vol. I, p. 895-904.
PIO XII. Constituição Apostólica Munificentissimus Deus. 01 de
novembro de 1950.




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