quarta-feira, 13 de agosto de 2014

História da Solenidade da Assunção da Virgem Maria

A solenidade da Assunção é a mais antiga das festas marianas. Segundo a versão siríaca do texto apócrifo De transitu Mariae (Da passagem de Maria), atribuído a São João Evangelista, esta festa remonta ao período apostólico.


O texto (do final do século IV) indica que os Apóstolos teriam instituído três festas em honra da Santa Mãe de Deus, todas ligadas ao calendário agrícola: 25 de janeiro (semeadura), 15 de maio (colheita) e 15 de agosto (vindima).

No século V, as igrejas da Armênia, de Jerusalém e de Constantinopla continham em seus calendários a seguinte indicação para o dia 15 de agosto: “Dia de Maria, Mãe de Deus”. Vê-se claramente que se tratava ainda de uma festa genérica em honra de Maria, sem fazer menção à Assunção ou, para usar o termo oriental, à Dormição.

No século VI, a partir da igreja da Síria, a festa de 15 de agosto passa a ser dedicada ao mistério da Dormição da Virgem Maria. O mesmo logo se dá na igreja de Jerusalém, onde os fieis passam a peregrinar ao local onde, segundo a tradição, Maria teria subido aos céus de corpo e alma.

Igreja da "Tumba de Maria" em Jerusalém
No Ocidente, a festa da Dormição começa a ser celebrada igualmente no século VI, a partir da influência da igreja copta (Egito). No século seguinte, os sacramentários apresentam duas festas marianas: a primeira em janeiro, dedicada à sua Divina Maternidade; e a segunda em agosto, dedicada ao mistério da Assunção.

Curioso que neste período, a perícope evangélica indicada para a solenidade era Lc 10,38-42, isto é, o episódio de Jesus na casa de Marta e Maria. Este mesmo texto era lido nas Missas das santas virgens, para evidenciar aquelas que “escolheram a melhor parte”. Este texto foi substituído por Lc 1,39-56 (Magnificat) na reforma litúrgica do Concílio de Trento, permanecendo até hoje.

Na igreja romana, a festa da Assunção atingiu logo grande prestígio, sendo-lhe acrescida inclusive uma Missa da Vigília, algo característico das grandes solenidades (Páscoa, Natal, Pentecostes). No final do século VII o Papa Sérgio (687-701) introduziu uma procissão com o canto das ladainhas, que possuía grande popularidade.

Na manhã do dia 14, o Papa dirigia-se com os Cardeais à Basílica do Latrão, onde em uma pequena capela era conservado um ícone de Jesus em tamanho quase natural, que era venerado nas grandes festas. Esta imagem era chamada de achiropita (não pintada), pois se atribuía-lhe uma origem miraculosa. Cumpre notar que esta imagem, revestida de uma cobertura de prata colocada por Inocêncio III (1160-1216), ainda conserva-se na Basílica Lateranense, embora não seja mais usada nas grandes celebrações.
 
Imagem achiropita do Senhor (Basílica Lateranense)
O Papa, descalço, ajoelhava-se sete vezes, beijava os pés da imagem e, após entoar o Te Deum, a apresentava para a veneração dos presentes. À tarde, na Basílica de Santa Maria Maior, celebravam-se às vésperas e as matinas, com nove leituras.

À meia-noite, tinha início a procissão da Basílica do Latrão à Basílica de Santa Maria Maior. Os diáconos levavam o ícone do Senhor em um portatorium, acompanhados de acólitos com velas acesas e seguidos pelo Papa, pelos cardeais e pelo povo, que cantavam salmos. As casas que estavam no caminho da procissão eram ornadas com velas acesas e flores.

Basílica de Santa Maria Maior
Este gesto de conduzir um ícone cristológico na procissão da Assunção é uma referência ao relato apócrifo do De transitu Mariae, que narra a aparição de Cristo no momento da Assunção, dado que aliás tornou-se característico na iconografia bizantina desta festa (veja a primeira imagem deste post):

“A Mãe do Senhor disse aos Apóstolos: ‘Atirai incenso, pois Cristo já está vindo com um exército de anjos’. No mesmo instante Cristo apresentou-se-nos sentando sobre um trono de querubins. E, enquanto todos estávamos orando, apareceram multidões incontáveis de anjos, e o Senhor estava pleno de majestade sobre os querubins. E eis que um eflúvio resplandecente irradiou-se sobre a santa Virgem por virtude da presença de seu Filho Unigênito, e todas as divindades celestiais caíram por terra e O adoraram” (De transitu Mariae, n. 38).

Algumas vezes durante o trajeto, a procissão parava e os pés da imagem eram lavados com um líquido chamado basilicum, que consistia uma infusão de flores e ervas aromáticas. Tal gesto faz alusão ao episódio em que uma mulher lava os pés de Jesus com perfume. Este líquido era igualmente aspergido sobre os fieis, que cantavam repetidas vezes: Kyrie eleison e Christe eleison (Senhor, tende piedade de nós / Cristo, tende piedade de nós).

Tal gesto ainda é praticado na Liturgia Bizantina da Exaltação da Santa Cruz, como pode ver-se no vídeo abaixo, a partir de 1min23seg:


Ao chegar à Basílica de Santa Maria Maior, já perto do início da manhã, o Papa celebrava a Missa e abençoava os fieis, cansados pela longa procissão. Contudo, devido a alguns abusos que se introduziram ao longo dos anos (os quais contudo desconhecemos), a procissão foi abolida pelo Papa São Pio V em 1566.

Um costume ligado a esta data, que perdurou ao menos até o século X, foi a bênção das ervas medicinais. Tal prática relaciona-se ao antiquíssimo costume de confiar à Virgem Maria a proteção dos campos, donde a bênção das ervas que eram usadas como um sinal da proteção divina contra calamidades naturais e influxos diabólicos.

Ainda sobre a festa da Assunção merece destaque a elaboração de belíssimas composições musicais para a Missa da solenidade a partir do século XI, como é o caso da Messe de Notre Dame, de Guillaume de Machaut, composta em 1363 e que conjuga o canto gregoriano com a ars nova (polifonia).


Por fim, cumpre dizer que esta solenidade ganhou novo impulso a partir de 01 de novembro de 1950, quando o Papa Venerável Pio XII definiu o Dogma da Assunção de Maria, através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial.

Histórica imagem da definição do Dogma da Assunção (1950)

REFERÊNCIAS:

PROENÇA, Eduardo (Org.) Apócrifos e pseudo-epígrafos da Bíblia. São Paulo: Fonte Editorial, 2005, p. 759-769.

BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja: O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 461-466.

RIGHETTI, Mario. Historia de la Liturgia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1945, vol. I, p. 895-904.

PIO XII. Constituição Apostólica Munificentissimus Deus. 01 de novembro de 1950.

Nenhum comentário:

Postar um comentário