quarta-feira, 2 de março de 2022

História da Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu

Dentre as celebrações presididas pelo Papa ao longo do Ano Litúrgico, uma das mais eloquentes é a Via Sacra na noite da Sexta-feira Santa junto ao Coliseu. Nesta postagem gostaríamos de traçar brevemente a sua história.

Via Sacra no Coliseu, Sexta-feira Santa de 2018

1. O Coliseu romano e sua relação com a Igreja

O Anfiteatro Flávio (Amphitheatrum Flavium, em latim), mais conhecido como Coliseu (Colosseum), foi construído junto ao Monte Palatino, uma das sete colinas “originais” de Roma, durante o governo dos três Imperadores da chamada “Dinastia Flávia” (ou Flaviana): Vespasiano (69-79) e seus filhos Tito (79-81) e Domiciano (81-96).

Anteriormente, após o Grande Incêndio de Roma no ano 64, o Imperador Nero (54-68) mandou construir nesse local um grande palácio, a Domus Aurea (Casa Dourada), junto à qual se encontrava uma grande estátua representando-o como o deus-sol: o chamado Colosso de Nero (Collossus Neronis).

Vespasiano, no ano 72, para agradar o povo de Roma, mandou demolir o palácio e construir no lugar o célebre anfiteatro como espaço para entretenimento público (no contexto da chamada “política do pão e circo”, panem et circenses).

Após sua inauguração no ano 80, com efeito, o Coliseu sediava as famosas lutas de gladiadores (munera gladiatoria), espetáculos com animais (venationes), execução de criminosos, encenações de batalhas e de dramas da mitologia, entre outros eventos.

Após a queda do Império Romano do Ocidente no ano 476, o Coliseu teve vários usos: cemitério, mercado, habitação, além de acolher alguns espetáculos teatrais. O historiador Mariano Armellini (†1896), por exemplo, atesta que a edícula de Santa Maria della Pietà al Colosseo era o “camarim” de uma companhia teatral antes de ser convertida em capela no tempo do Papa Paulo IV (†1559).

O Coliseu Romano

Após ser danificado por um terremoto em 1349, o anfiteatro foi sistematicamente saqueado, com suas pedras utilizadas na construção de outros edifícios públicos, de igrejas e mesmo de casas particulares.

O saque do Coliseu foi interrompido a partir do Jubileu de 1675, quando foi proposto como lugar sagrado em memória dos mártires cristãos.

Em 1744 o Papa Bento XIV (†1758) mandou edificar as quatorze estações da Via Sacra ao redor da antiga arena em vista do Jubileu de 1750, durante o qual o franciscano São Leonardo de Porto Maurício (†1751), grande promotor dessa devoção, teria conduzido a oração da Via Sacra (também chamada Via Crucis ou Via Dolorosa).

Apesar dessa associação com o martírio, não há um testemunho seguro sobre a execução de cristãos no Coliseu. Os chamados “Protomártires Romanos”, por exemplo, foram executados em sua maioria no Circo de Nero, junto à colina do Vaticano, o qual acolhia sobretudo corridas de carruagens. Outras execuções ocorreram no Circo Máximo (Circus Maximus), entre os Montes Aventino e Palatino.

Não obstante, uma vez que durante os jogos ocorriam comumente execuções de criminosos, é possível que cristãos tenham sido martirizados no Coliseu. Este, com efeito, permanece como símbolo do Império Romano e, portanto, das perseguições [1].

Ilustração do Coliseu (Giovanni Battista Piranesi, 1776)
Notem-se a cruz e as quatorze estações da Via Sacra

Os cristãos, ao se recusarem a adorar os deuses do Império (incluindo, às vezes, o próprio Imperador como deus), eram acusados de impiedade e condenados, por exemplo, à crucificação (damnatio in crucem), à fogueira (damnatio ad flammas) ou à exposição a animais selvagens (damnatio ad bestias).

Cabe recordar, porém, que as perseguições aos cristãos ocorreram em períodos específicos da história do Império, intercalando-se com períodos de paz.

2. A Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu

Após o Jubileu de 1750, devido à deterioração do anfiteatro, a devoção da Via Sacra no Coliseu foi lentamente abandonada. As 14 estações permaneceram até meados do século XIX, quando, nas várias restaurações pelas quais passou o anfiteatro, a arena foi removida e o hipogeu ficou a descoberto.

Via Sacra no Coliseu só seria retomada por São Paulo VI (†1978) na primeira Sexta-feira Santa do seu pontificado, no dia 27 de março de 1964. Desde então, os Papas têm acompanhado sempre esse piedoso exercício na noite da Sexta-feira Santa, geralmente proferindo um breve discurso ou uma oração.

Durante a década de 1970, a Via Sacra presidida por Paulo VI seria acompanhada por meditações dos escritos de vários santos, sobretudo dos Padres da Igreja (teólogos dos primeiros séculos do Cristianismo) e de santos místicos de épocas mais recentes.

Paulo VI - Via Sacra de 1977

A primeira Via Sacra do pontificado de São João Paulo II (†2005), na Sexta-feira Santa de 1979, foi enriquecida com meditações dos discursos de Paulo VI. Nos anos seguintes, por sua vez, se retomariam os textos dos santos até 1984, Jubileu Extraordinário da Redenção, quando as meditações foram elaboradas pelo próprio Papa polonês.

Em 1985, por sua vez, João Paulo II deu início ao costume de convidar cada ano uma pessoa ou grupo de pessoas para escrever as meditações da Via Sacra: Bispos, sacerdotes, religiosos e leigos de várias partes do mundo, incluindo fiéis de outras Igrejas e Comunidades eclesiais.

Sobretudo nos anos em que foram convidados fiéis não católicos para escrever as meditações foi utilizado o esquema da chamada “Via Sacra Bíblica”, já proposta durante o Jubileu de 1975.

Os sucessores do Papa polonês mantiveram o costume de convidar um fiel ou grupo de fiéis para escrever as meditações da Via Sacra a cada ano. Segue abaixo a lista dos autores das meditações, algumas das quais podem ser conferidas na íntegra aqui em nosso blog:

Cruz dentro do Coliseu

São João Paulo II

1985: Italo Alighiero Chiusano, escritor italiano

1986: André Frossard, jornalista e escritor francês

1987: Cardeal Miguel Obando Bravo, Arcebispo de Manágua (Nicarágua)

1988: Hans Urs von Balthasar, teólogo suíço

1989: Marek Skwarnicki, escritor polonês

1990: Dom Michel Sabbah, Patriarca Latino de Jerusalém

1991: Padre Ignacio M. Calabuig Adan, OSM e Padre Silvano M. Maggiano, OSM

1992: Dom Miloslav Vlk, Arcebispo de Praga (Tchecoslováquia)

1993: Madre Anna Maria Canopi, Abadessa da Abadia Benedetina “Mater Ecclesiae” - Isola San Giulio (Novara)

1994: Bartolomeu, Patriarca Ecumênico de Constantinopla

1995: Irmã Minke de Vries, monja da Comunidade de Grandchamp (Suíça)

João Paulo II - Via Sacra de 1979

1996: Cardeal Vinko Puljiċ, Arcebispo de Vrhbosna-Sarajevo (Bósnia e Herzegovina)

1997: Karekin I, Catholicos de todos os Armênios

1998: Olivier Clement, teólogo ortodoxo francês

1999: Mario Luzi, poeta italiano

2001Cardeal John Henry Newman (Canonizado em 2019)


2003: Meditações compostas pelo Cardeal Karol Wojtyła (Papa João Paulo II) para os Exercícios Espirituais da Cúria Romana de 1976

2004: Dom André Louf, monge cisterciense (Via Sacra Bíblica)

2005Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (em seguida eleito Papa Bento XVI)

João Paulo II - Via Sacra de 2005

Papa Bento XVI

2006Dom Ângelo Comastri, Vigário Geral para a Cidade do Vaticano, posteriormente criado Cardeal

2007Monsenhor Gianfranco Ravasi, Prefeito da Biblioteca Ambrosiana (Milão), posteriormente criado Cardeal (Via Sacra Bíblica)

2008: Cardeal Joseph Zen Ze-Kiun, S.D.B., Bispo de Hong Kong

2009: Dom Thomas Menamparampil, S.D.B, Arcebispo de Guwahati (Índia)

2010Cardeal Camillo Ruini, Vigário Geral Emérito para a Diocese de Roma

Bento XVI - Via Sacra de 2006

Papa Francisco

2014: Dom Giancarlo Maria Bregantini, Arcebispo de Campobasso-Boiano (Itália)

2015: Dom Renato Corti, Bispo Emérito de Novara (Itália), posteriormente criado Cardeal

2016: Cardeal Gualtiero Bassetti, Arcebispo de Perugia - Città della Pieve (Itália)

2017: Sra. Anne-Marie Pelletier (Via Sacra Bíblica)


2019Irmã Eugenia Bonetti, Missionária da Consolata



2022: Um grupo de famílias (Via Sacra Bíblica)

2023: “Vozes de paz em um mundo de guerra” (14 testemunhos de fiéis provenientes dos países visitados pelo Papa nos 10 anos de pontificado)

2024: Meditações do Papa Francisco no contexto do Ano da Oração em vista do Jubileu 2025

2025: Meditações do Papa Francisco, poucos dias antes do seu falecimento

Francisco - Via Sacra de 2020

Papa Leão XIV

2026: Padre Francesco Patton, OFM (Custódio da Terra Santa de 2016 a 2025)

* * *

Vale recordar ainda que o Papa costuma presidir a Via Sacra durante os encontros internacionais da Jornada Mundial da Juventude (JMJ):


Papa Leão XIV - Via Sacra de 2026

Notas:
[1] Durante o Grande Jubileu do Ano 2000 o Papa João Paulo II presidiu a Comemoração das Testemunhas da fé do século XX junto ao Coliseu. Após o Jubileu, por sua vez, foi inaugurada uma cruz dentro do anfiteatro. Confira uma breve descrição do rito e a homilia do Papa.

[2] Devido à pandemia de Covid-19, nos anos de 2020 e 2021 a Via Sacra teve lugar na Praça de São Pedro no Vaticano.

Imagens: Wikimedia Commons / Vatican News.

Postagem publicada em 02 de março de 2022. Última atualização: 10 de abril de 2026 (Meditações da Via Sacra no Coliseu 2026).

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