domingo, 23 de maio de 2021

O ícone da Sabedoria

A Festa de Pentecostes (cinquenta, em grego; conhecida em hebraico como Shavuot, Festa das Semanas), como o nome indica, é celebrada no 50º dia após a Páscoa.

Inicialmente uma festa de ação de graças pela colheita, na tradição judaica celebra também a entrega dos Dez Mandamentos (cf. Ex 20). A partir do Novo Testamento, por sua vez, foi-lhe acrescentado um novo significado: a entrega da nova lei do Espírito após a Ressurreição (At 2,1-11).

Celebrada no 50º dia após a Páscoa, a festa do Pentecostes nos remete ao simbolismo do número “sete”: 7x7+1=50.

O número sete é particularmente simbólico em várias tradições religiosas, sendo o intervalo médio de cada uma das fases do ciclo lunar e o número de “planetas” conhecidos na Antiguidade (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, além do Sol e da Lua), que em algumas línguas nomeiam os dias da semana (septimana, em latim).

Portanto, julgamos que a Solenidade de Pentecostes é a ocasião adequada para apresentarmos o ícone da Sabedoria do Senhor.

(Para conhecer o simbolismo do ícone da festa de Pentecostes, clique aqui).

O ícone da Sabedoria: Modelo de Kiev

Na tradição bizantina há diversos modelos de ícones da Sabedoria (Sophia, em grego). Por exemplo, retratando o episódio do encontro de Jesus com os doutores no templo aos doze anos (cf. Lc 2,41-51); ou com o Cristo sentado no trono, geralmente ladeado pela Virgem Maria e por João Batista, formação conhecida como deesis (oração ou súplica) e associada ao juízo final, quando o Senhor virá para julgar com sabedoria.

O ícone da Sabedoria que queremos apresentar nesta postagem, porém, é conhecido como o “modelo de Kiev”, uma vez que é venerado na Catedral de Santa Sofia (Santa Sabedoria) em Kiev (Ucrânia), igreja construída no século XI e que atualmente serve como um museu.

O ícone da Sabedoria venerado nessa igreja remonta à segunda metade do século XVII, período em que a pintura bizantina recebeu algumas influências da tradição ocidental. Não obstante, a temática recorrente no ícone são os diversos simbolismos do número sete, como veremos a seguir.

 O ícone da Sabedoria venerado na Catedral de Santa Sofia em Kiev

Cristo, Sabedoria de Deus

No Novo Testamento, Jesus é definido como “Sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1,22-24), sendo associado à Sabedoria personificada presente em alguns escritos do Antigo Testamento (cf., por exemplo, Pr 8–9).

Em nosso ícone Cristo é retratado exatamente no centro, como uma criança envolvida em uma mandorla diante do seio da Virgem Maria. Ele é o Emmanuel, Deus-conosco (Is 7,14; Mt 1,23), a Sabedoria que “armou sua tenda” entre nós (Eclo 24; Jo 1,14).

A mandorla (amêndoa, em italiano), por sua vez, remete tanto à Encarnação quanto à Ressurreição: sendo uma auréola oval, remete ao simbolismo do ovo, com sua promessa de uma nova vida.

Maria, o trono da Sabedoria

A Virgem Maria pode ser invocada como Trono ou Sede da Sabedoria tanto em sentido relativo, sendo a Mãe de Jesus, a Sabedoria encarnada; quanto em sentido próprio, pois é a mulher sábia que “escolheu a melhor parte” (Lc 10,42); acolhendo a Palavra de Deus em seu coração (Lc 2,19.51).

(Para acessar os textos da Missa de Maria, Sede da Sabedoria, clique aqui)

Em nosso ícone a Virgem serve como “moldura” para seu Filho, o qual, como vimos, ocupa o centro da composição em uma mandorla diante do seu ventre. É retratada segundo o modelo da “orante”: a mulher de braços abertos, imagem da Igreja-Esposa.

sábado, 22 de maio de 2021

Homilia: Solenidade de Pentecostes

São Leão Magno
Tratado 75
O Espírito da verdade vos guiará até a plena verdade

Que a presente solenidade, amadíssimos, deve ser venerada entre as principais festas, é algo que intui qualquer coração católico; pois não é possível duvidar da grande reverência que este dia merece, o qual foi consagrado pelo Espírito Santo com o estupendo milagre de seu dom. Este dia é, de fato, o décimo a partir daquele em que o Senhor subiu à extremidade dos céus para sentar-se à direita do Pai, e o quinquagésimo a partir do dia de sua Ressurreição, dia que para nós brilhou naquele no qual teve sua origem, e que contém em si grandes mistérios tanto da antiga quanto da nova economia. Neles se manifesta com muita clareza que a graça foi preanunciada pela Lei e que a Lei recebeu sua plenitude pela graça. Na realidade, assim como cinquenta dias depois da imolação do cordeiro foi entregue em outro tempo a Lei, no monte Sinai, ao povo hebreu libertado dos egípcios, da mesma forma, após a Paixão de Cristo, na qual foi imolado o verdadeiro Cordeiro de Deus, cinquenta dias depois de sua Ressurreição desceu o Espírito Santo sobre os Apóstolos e sobre o grupo dos crentes, a fim de que facilmente o cristão conheça atento que os começos do Antigo Testamento serviram de base para os primeiros passos do Evangelho, e que a segunda aliança foi selada pelo mesmo Espírito que tinha instituído a primeira.

Pois, como nos assegura a história apostólica, todos os discípulos estavam juntos no dia de Pentecostes. De repente veio um ruído do céu, como de um vento forte, ressoou em toda a casa aonde se encontravam. Viram aparecer algumas línguas de fogo, que se repartiam, pousando sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em línguas estrangeiras, cada um na língua que o Espírito lhe sugeria. Ó, que veloz é a palavra da sabedoria, e quando o mestre é Deus, prontamente se aprende o que se ensina! Não foi necessário intérprete para entender, nem aprendizagem para poder utilizá-las, nem tempo para estudá-las, mas, o Espírito da verdade, soprando aonde quer, os diferentes idiomas de cada nação se converteram em línguas universais na boca da Igreja. E foi a partir deste dia que ressoou a trombeta da pregação evangélica; a partir deste dia a chuva de carismas e os rios de bênçãos regaram todo lugar deserto e toda terra árida: porque para repovoar a face da terra o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas, e, para afugentar as antigas trevas, cintilavam os fulgores de uma nova luz, quando ao clamor do esplendor de algumas línguas cintilantes, nasceu a norma do Senhor que ilumina e a palavra ardente, as quais, para iluminar as inteligências e aniquilar o pecado, foram-lhe conferidas a capacidade de iluminar e a força de abrasar.

Todavia, ainda que a forma mesma, amadíssimos, em que se desenrolaram os acontecimentos fosse realmente admirável, nem ficava a menor dúvida de que, naquela exultante harmonia de todas as linguagens humanas, esteve presente a majestade do Espírito Santo: contudo, ninguém deve cair no erro de crer que, naqueles fenômenos que os olhos humanos contemplaram, se fez presente a sua própria substância. Não: a natureza invisível, que possui em comum com o Pai e o Filho, mostrou o caráter de seu dom e de sua obra mediante os sinais que ela mesma escolheu, porém reteve na intimidade de sua deidade o que é próprio de sua essência; pois assim como o Pai e o Filho não podem ser vistos por olhos humanos, o mesmo ocorre com o Espírito Santo. Realmente, na Trindade divina nada há de diferente, nada desigual; e quantos atributos possam ser pensados daquela substância, não se distinguem nem no poder, nem na glória, nem na eternidade. E mesmo quando na propriedade das Pessoas um é o Pai, outro o Filho e outro distinto o Espírito Santo, apesar disso, não é diversa nem a deidade nem a natureza. E se é certo que o Filho Unigênito nasce do Pai e que o Espírito Santo é espírito do Pai e do Filho, no entanto, não o é como uma criatura qualquer que fosse propriedade conjunta do Pai e do Filho, mas como quem comparte a vida e o poder com ambos, e o comparte desde toda a eternidade, visto que é subsistente assim como o Pai e o Filho.

Por isso, o Senhor, à véspera de sua Paixão, ao prometer aos discípulos a vinda do Espírito Santo, lhes disse: Muitas coisas me restam para dizer-vos, mas não podeis suportá-las agora; quando Ele vier, o Espírito da verdade, vos guiará até a plena verdade. Pois o que falar não será seu, falará do que ouve e vos comunicará o que está por vir. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que tomará do que é meu e vos anunciará. Disto se deduz que o Pai, o Filho e o Espírito não vivem em regime de separação de bens, mas tudo o que o Pai tem, o tem o Filho e o tem o Espírito Santo; nem houve momento algum em que na Trindade não se desse esta comunhão, pois na Trindade possuir tudo e existir sempre são conceitos sinônimos. Tratando-se da Trindade devemos excluir as categorias de tempo, de procedência ou diferenciais; e se ninguém pode explicar o que Deus é, que não se atreva também a afirmar o que Ele não é. Mas escusável é, de fato, não expressar-se dignamente sobre esta inefável natureza do que definir o que lhe é contrário.

Portanto, tudo quanto um coração piedoso é capaz de conceber referente à sempiterna e incomutável glória do Pai, deve entendê-lo inseparável e indiferentemente ao mesmo tempo do Filho e do Espírito Santo. Em consequência, confessamos que esta Trindade é um só Deus, visto que nestas três Pessoas não se dá diversidade alguma nem na substância, nem no poder, nem na vontade, nem na operação.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 362-364. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

Para ler uma homilia de Orígenes para esta Solenidade, clique aqui.

Reciprocidade entre fé e sacramentos (6): Matrimônio

Esta é a sexta e última postagem sobre o Documento "A Reciprocidade entre a Fé e os Sacramentos na Economia Sacramental", promulgado pela Comissão Teológica Internacional em 2020, que por sua relevância e extensão (195 parágrafos) dividimos em seis partes (confira os links para as anteriores no final desta postagem).

Aqui trazemos a segunda parte do capítulo IV, que iniciamos na postagem anterior, dedicado ao sacramento do Matrimônio e sua relação com a fé, além da Conclusão do Documento (nn. 168-195):

Comissão Teológica Internacional
A Reciprocidade entre a Fé e os Sacramentos na Economia Sacramental

Sumário:
4. A reciprocidade entre fé e Matrimônio
4.3 A intenção e constituição do vínculo matrimonial na ausência de fé
    a) A intenção é necessária para que haja sacramento
    b) Compreensão cultural predominante sobre o Matrimônio
    c) A falta de fé pode comprometer a intenção de contrair Matrimônio natural
5. Conclusão: A reciprocidade entre fé e sacramentos na economia sacramental


4.3 A intenção e a constituição do vínculo matrimonial na ausência de fé

a) A intenção é necessária para que haja um sacramento

168. [Necessidade da intenção]. Como já dissemos [218] (cf. §§ 67-69), pertence à doutrina tradicional dos sacramentos a convicção de que para o sacramento a ser dado se exige pelo menos a intenção de fazer o que a Igreja faz: “Todos esses sacramentos se realizados por três elementos: das coisas, como a matéria; das palavras, como forma; e da pessoa do ministro, que confere o sacramento com a intenção de fazer o que a Igreja faz (cum intentione faciendi quod facit Ecclesia). Se um deles estiver faltando, o sacramento não se realiza” [219]. De acordo com a opinião comum da teologia latina, os ministros do sacramento do Matrimônio são os cônjuges, que se doam reciprocamente o Matrimônio [220]. No caso do Matrimônio sacramental, se requer ao menos a intenção de realizar um Matrimônio natural. Contudo, o Matrimônio natural, tal como o entende a Igreja, inclui como propriedades essenciais a indissolubilidade, a fidelidade e a ordenação ao bem dos cônjuges e ao bem da prole. Portanto, se a intenção de contrair Matrimônio não inclui essas propriedades, ao menos implicitamente, se dá uma carência grave na intenção, capaz de pôr em questão a própria existência do Matrimônio natural, base necessária para o Matrimônio sacramental [221].



169. [Inter-relação entre fé e intenção]. Com ênfase variada, o Magistério dos três últimos Pontífices constata a interconexão entre uma fé viva e explícita e a intenção de celebrar um verdadeiro Matrimônio natural: indissolúvel e exclusivo, focado no bem dos cônjuges, mediante sincera caridade oblativa, e aberto à prole. João Paulo II pede para não se aceitar os cônjuges que rejeitam “de modo explícito e formal o que a Igreja realiza ao celebrar Matrimônios entre batizados” (cf. § 153), uma vez que mantém a necessidade “da reta intenção de se casar segundo a realidade natural do matrimônio” (cf. § 154). Bento XVI destaca o notável impacto da ausência de fé na concepção da vida, nas relações, no próprio vínculo matrimonial e no bem dos cônjuges, podendo chegar a “ferir também os bens do Matrimônio” (cf. § 161). Francisco indica como raiz da crise do Matrimônio a “crise do conhecimento iluminado pela fé” (cf. § 163) e cita a falta de fé como um possível motivo para a simulação no consentimento (cf. § 164). A jurisprudência da Rota Romana segue a linha apontada por Bento XVI (cf. § 156). Precisando ainda mais, as instâncias eclesiais mencionadas e os dois últimos Pontífices estimam que a falta de fé viva e explícita suscita suspeitas fundadas sobre a intenção de realmente celebrar um Matrimônio indissolúvel, definitivo e exclusivo, como doação recíproca gratuita e aberta à prole, mesmo que em princípio não excluam a possibilidade de isso ocorrer. Em nenhum caso se trata de um automatismo sacramental simplista.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Reciprocidade entre fé e sacramentos (5): Matrimônio

Ao longo dessa semana estamos apresentando aqui em nosso blog o Documento "A Reciprocidade entre a Fé e os Sacramentos na Economia Sacramental", promulgado pela Comissão Teológica Internacional em 2020, que por sua relevância e extensão (195 parágrafos) dividimos em seis partes.

As primeiras duas partes cobriram os capítulos I e II, sobre à relação entre fé e sacramentos em geral (nn. 1-41 e nn. 42-79), enquanto as duas postagens seguintes foram dedicadas ao capítulo III, sobre os sacramentos da Iniciação Cristã:  Batismo e Confirmação (nn. 80-101) e Eucaristia (nn. 102-131).

Cabe-nos agora, portanto, iniciar aqui o capítulo IV (nn. 132-167), que reflete sobre o sacramento do Matrimônio e sua relação com a fé:

Comissão Teológica Internacional
A Reciprocidade entre a Fé e os Sacramentos na Economia Sacramental

Sumário:
4. A reciprocidade entre fé e Matrimônio
4.1 O sacramento do Matrimônio
    a) Fundamentação bíblica
    b) Luzes a partir da tradição
    c) O Matrimônio como sacramento
    d) A fé e os bens do Matrimônio
4.2 Uma quaestio dubia: A qualidade sacramental do Matrimônio dos “batizados não-crentes”
    a) Abordagem da questão
    b) Estado e termos da questão

4. A reciprocidade entre fé e Matrimônio

132. [Problemática]. Se há um sacramento no qual a reciprocidade essencial entre fé e sacramentos, por várias razões, é posta em prova, este é o Matrimônio. Na própria definição do sacramento do Matrimônio, segundo a Igreja latina, a fé não aparece de modo explícito (cf. § 143). Fica pressuposto, por assim dizer, pelo fato prévio do Batismo, o sacramento da fé por excelência. Além disso, para a validade do Matrimônio entre batizados na Igreja latina não se requer a intenção de celebrar um sacramento [151]: não é necessário o desejo ou a consciência da sacramentalidade da união matrimonial, mas apenas a intenção de contrair um matrimônio natural, isto é, de acordo com a ordem da criação, com as propriedades que a Igreja considera inerentes ao matrimônio natural. Dentro dessa compreensão do Matrimônio, compete à teologia elucidar o complexo caso de Matrimônios entre “batizados não-crentes”. Uma defesa definitiva da sacramentalidade de tais uniões minaria a reciprocidade essencial entre fé e sacramentos, como característica da economia sacramental, apoiando, pelo menos no caso do Matrimônio, um automatismo sacramental que temos rejeitado como impróprio da fé cristã (cf. cap. 2).

133. [Abordagem]. Cientes da dificuldade da questão colocada sob o título “Reciprocidade entre fé e Matrimônio”, procederemos da seguinte maneira. Primeiro, já que, mesmo compartilhando um tronco comum, há diferenças notáveis ​​na teologia do Matrimônio entre a tradição latina e a oriental, nos concentramos exclusivamente no entendimento latino. A rica tradição oriental possui uma fisionomia própria. Apontamos alguns aspectos distintos entre ambas. Enquanto na teologia latina predomina a compreensão de que os cônjuges são os ministros do sacramento e que esse acontece através do mútuo consentimento livre dos cônjuges, para a tradição oriental a bênção do Bispo ou do sacerdote pertence em si à essência do sacramento [152]. Somente ao ministro sagrado foi conferido o poder de invocar o Espírito (epiclese) para que ele realize a santificação inerente ao sacramento. Possui uma própria regulamentação canônica completa [153]. Isto se deve a uma concepção do sacramento do Matrimônio que brota de uma teologia com personalidade e perfil próprios, na qual se põe em primeiro plano os efeitos santificantes do sacramento [154].
134. Em segundo lugar, tratamos, de acordo com a metodologia habitual (cf. § 80), com suas adaptações, o caso ordinário do sacramento do Matrimônio. Em seguida, investigamos a questão duvidosa sobre a qualidade sacramental dos Matrimônios entre “batizados não-crentes”, com uma abordagem dupla: o estado da questão e uma proposta teológica de solução, congruente com a reciprocidade entre fé e sacramentos, que não nega a teologia matrimonial vigente.


XXXIV Catequese do Papa sobre a oração

Na última quarta-feira, 19 de maio, o Papa Francisco prosseguiu com suas Catequeses sobre a oração à luz do Catecismo da Igreja Católica. Ainda dentro do tema do “combate da oração” (nn. 2725-2751), o Papa refletiu sobre três inimigos da oração (nn. 2729-2733):

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 19 de maio de 2021
A oração (34): Distrações, aridez, acídia

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Seguindo o exemplo do Catecismo, nesta catequese referimo-nos à experiência vivida da oração, procurando mostrar algumas das suas dificuldades muito comuns, que devem ser identificadas e superadas. Rezar não é fácil: há muitas dificuldades que surgem na oração. É preciso conhecê-las, identificá-las e superá-las.

O primeiro problema que se apresenta para aqueles que rezam é a distração (cf. CIC, 2729). Começas a rezar e depois a mente roda, roda pelo mundo inteiro; o teu coração está ali, a mente está acolá... a distração da prece. A oração convive frequentemente com a distração. De fato, a mente humana tem dificuldade de se concentrar por muito tempo num único pensamento. Todos nós experimentamos este turbilhão contínuo de imagens e ilusões em movimento perpétuo, que nos acompanha até durante o sono. E todos sabemos que não é bom dar seguimento a esta inclinação fragmentada.
A luta para alcançar e manter a concentração não se limita à oração. Se não se atinge um grau de concentração suficiente, não se pode estudar com proveito, nem se pode trabalhar bem. Os atletas sabem que as competições são ganhas não só pelo treino físico, mas também pela disciplina mental: acima de tudo, pela capacidade de estarem concentrados e de manter alerta a atenção.
As distrações não são culpadas, mas devem ser combatidas. No patrimônio da nossa fé há uma virtude que é frequentemente esquecida, mas que está muito presente no Evangelho. Chama-se “vigilância”. E Jesus repete-o com frequência: “Vigiai. Rezai”. O Catecismo menciona-a explicitamente na sua instrução sobre a oração (cf. n. 2730). Jesus chama frequentemente os discípulos ao dever de uma vida sóbria, guiada pelo pensamento de que mais cedo ou mais tarde Ele voltará, como um noivo volta das bodas ou um senhor da viagem. No entanto, sem saber o dia nem a hora do Seu regresso, todos os minutos da nossa vida são preciosos e não devem ser desperdiçados em distrações. Num momento que não conhecemos, a voz do nosso Senhor ressoará: nesse dia, bem-aventurados os servos que Ele encontrará laboriosos, ainda concentrados no que realmente importa. Não se dispersaram perseguindo todas as atrações que lhes vinham à mente, mas procuraram empreender o caminho certo, praticando o bem e desempenhando a própria tarefa. Esta é a distração: que a imaginação roda, roda, roda... Santa Teresa definia esta imaginação que roda, roda na oração, “a louca da casa”: é como uma louca que te faz rodar, rodar... Devemos impedi-la e aprisioná-la com a atenção.

O tempo da aridez merece um discurso diferente. O Catecismo descreve-o deste modo: «O coração está seco, sem gosto pelos pensamentos, lembranças e sentimentos, mesmo espirituais. É o momento da fé pura, que se aguenta fielmente ao lado de Jesus na agonia e no sepulcro» (n. 2731). A aridez faz-nos pensar na Sexta-Feira Santa, na noite e no Sábado Santo, o dia inteiro: Jesus não está presente, está no sepulcro; Jesus morreu: estamos sozinhos. E este é o pensamento-mãe da aridez. Muitas vezes não sabemos quais são as razões da aridez: pode depender de nós, mas também de Deus, que permite certas situações na vida exterior ou interior. Ou, às vezes, pode ser uma dor de cabeça ou no fígado que te impede de entrar na oração. Com frequência não sabemos a razão. Os mestres espirituais descrevem a experiência da fé como uma alternância contínua de tempos de consolação e tempos de desolação; momentos em que tudo é fácil, enquanto outros são marcados por uma grande dificuldade. Muitas vezes, ao encontrarmos um amigo, dizemos: “Como estás?”  - “Hoje me sinto abatido”. Acontece que às vezes nos sentimos “abatidos”, isto é, não temos sentimentos, não temos consolação, não aguentamos mais. São aqueles dias cinzentos... e existem muitos na vida! Mas o perigo é ter o coração cinzento: quando este “sentir-se abatido” chega ao coração e o faz adoecer... e há pessoas que vivem com o coração cinzento. Isto é terrível: não se pode rezar, não se pode sentir consolação com o coração cinzento! Ou não se pode levar adiante uma aridez espiritual com o coração cinzento. O coração deve ser aberto e luminoso, para que entre a luz do Senhor. E se não entrar, é preciso aguardá-la com esperança. Mas não devemos fechá-la no cinzento.

Depois, algo diverso é a acídia, outro defeito, outro vício, que é uma verdadeira tentação contra a oração e, mais geralmente, contra a vida cristã. A acídia é «uma forma de depressão devida ao relaxamento da ascese, à diminuição da vigilância, à negligência do coração» (CIC, 2733). É um dos sete “pecados capitais” pois, alimentado pela presunção, pode levar à morte da alma.

O que devemos fazer, então, nesta sucessão de entusiasmos e desânimos? Deve-se aprender a caminhar sempre. O verdadeiro progresso na vida espiritual não consiste em multiplicar os êxtases, mas em ser capaz de perseverar em tempos difíceis: caminha, caminha, caminha... E se te sentires cansado, para um pouco e volta a caminhar. Mas com perseverança. Recordemos a parábola de São Francisco sobre a alegria perfeita: não é nas infinitas fortunas que caem do céu que se mede a capacidade de um frade, mas em caminhar com constância, mesmo quando não se é reconhecido, mesmo quando se é maltratado, ou quando tudo perdeu o sabor do princípio. Todos os santos passaram por este “vale escuro”, e não nos escandalizemos se, lendo os seus diários, ouvirmos o relato de noites de oração sem vontade, vivida sem gosto. Temos de aprender a dizer: “Ainda que Tu, meu Deus, pareças fazer tudo para que eu deixe de acreditar em Ti, continuo a rezar a Ti”. Os crentes nunca apagam a oração! Por vezes pode assemelhar-se à oração de Jó, o qual não aceita que Deus o trate injustamente, protesta e chama-o em juízo. Mas, muitas vezes, protestar diante de Deus é também um modo de rezar ou, como dizia aquela velhinha, “zangar-se com Deus também é um modo de rezar”, pois com frequência o filho zanga-se com o pai: é um modo de se relacionar com o pai; pois o reconhece como “pai”, zanga-se...
E também nós, que somos muito menos santos e pacientes do que Jó, sabemos que no final, no fim deste tempo de desolação, em que elevamos ao Céu gritos silenciosos e muitos “por quês?”, Deus nos responderá. Não esqueçais a oração do “por quê?”: é a prece que recitam as crianças quando começam a não entender as coisas e os psicólogos definem-na “a idade dos por quês”, pois a criança pergunta ao pai: “Pai, por quê...? Pai, por quê...? Papai, por quê...?”. Mas prestemos atenção: a criança não ouve a resposta do pai. O pai começa a responder e a criança apresenta outro por quê. Só quer chamar para si a atenção do pai; e quando nos zangamos um pouco com Deus e começamos a pronunciar os por quês, estamos a atrair o coração do nosso Pai na direção da nossa miséria, da nossa dificuldade, da nossa vida. Mas sim, tende coragem de dizer a Deus: “Mas por quê...?”. Pois às vezes, zangar-se um pouco faz bem, faz-nos despertar esta relação de filho com o Pai, de filha com o Pai, que devemos manter com Deus. E até as nossas expressões mais duras e amargas, Ele as acolherá com o amor de um pai, e as considerará como um ato de fé, como uma oração.


Fonte: Santa Sé

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Catequeses sobre os Salmos (17): Laudes da segunda-feira da III semana

As Catequeses sobre os salmos e o cântico das Laudes da segunda-feira da III semana do Saltério foram proferidas pelo Papa João Paulo II nos dias 28 de agosto (Sl 83), 04 de setembro (Is 2,2-5) e 18 de setembro de 2002 (Sl 95).

48. Saudades do templo do Senhor: Sl 83(84),2-13
28 de agosto de 2002

1. Damos continuidade ao nosso itinerário no âmbito dos Salmos da Liturgia das Laudes. Ouvimos agora o Salmo 83, atribuído pela tradição judaica “aos filhos de Coré”, uma família sacerdotal que se ocupava do serviço litúrgico e guardava a entrada da tenda da arca da Aliança (cf. 1Cr 9,19).
Trata-se de um cântico muito suave, repassado por uma aspiração mística ao Deus da vida, celebrado várias vezes com o título de “Senhor dos exércitos” (vv. 2.4.9.13), isto é, Senhor das estrelas e, por conseguinte, do universo [no Brasil traduz-se diretamente por “Senhor do universo”]. Por outro lado, este título estava relacionado especialmente com a arca conservada no templo, chamada “a arca do Deus dos exércitos que se senta sobre os querubins” (1Sm 4,4; cf. Sl 79,2). De fato, ela era sentida como o sinal da proteção divina nos dias do perigo e da guerra (cf. 1Sm 4,3-5; 2Sm 11,11).
O quadro de todo o Salmo está representado pelo templo para o qual se dirige a peregrinação dos fiéis. A estação parece ser a outonal, porque se fala da “primeira chuva” que alivia a aridez do verão (v. 7). Por isso, poderíamos pensar na peregrinação rumo a Sião, para a terceira festividade principal do ano hebraico, a dos Tabernáculos, memória da peregrinação de Israel no deserto.

2. O templo está presente com todo o seu fascínio desde o início até ao fim do Salmo. Na abertura (vv. 2-4) encontramos a admirável e delicada imagem das aves que construíram os seus ninhos no santuário, privilégio invejável.
Esta é uma representação da felicidade de todos os que como os sacerdotes do Templo têm uma residência fixa na Casa de Deus, gozando da sua intimidade e da sua paz. Com efeito, todo o ser do crente está orientado para o Senhor, estimulado por um desejo quase físico e instintivo: “Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor! Meu coração e minha carne rejubilam e exultam de alegria no Deus vivo!” (v. 3). Depois, o Templo volta a aparecer no fim do Salmo (vv. 11-13). O peregrino exprime a sua grande felicidade de estar algum tempo nos átrios da casa de Deus e opõe esta felicidade espiritual à ilusão idólatra, que impulsiona para a “mansão dos pecadores”, isto é, os templos aviltantes da injustiça e da perversão.

"Felizes os que em Vós têm sua força, e se decidem a partir quais peregrinos!" (Sl 83,6)
(Jesus, "peregrino" com os discípulos de Emaús)

3. Só no santuário do Deus vivo existem a luz, a vida e a alegria, e é “bem-aventurado todo aquele que põe sua esperança” no Senhor, escolhendo o caminho da justiça (vv. 12.13). A imagem do caminho conduz-nos ao centro do Salmo (vv. 5-9), onde se desenvolve outra peregrinação mais significativa. Se é bem-aventurado aquele que habita no Templo de maneira estável, é muito mais bem-aventurado aquele que decide empreender uma viagem de fé até Jerusalém.
Também os Padres da Igreja nos seus comentários ao Salmo 83 dão um realce particular ao v. 6: “Felizes os que em vós têm sua força, e se decidem a partir quais peregrinos!”. As antigas traduções do Saltério falavam da decisão de realizar as “ascensões” rumo à cidade santa. Portanto, para os Padres, a peregrinação a Sião tornava-se o símbolo do progresso contínuo dos justos para as “tendas eternas”, onde Deus acolhe os seus amigos na alegria total (cf. Lc 16,9).
Gostaríamos de nos deter um momento acerca desta “ascensão” mística, que tem na peregrinação terrena uma imagem e um sinal. E o faremos com as palavras de um escritor cristão do século VII, abade do mosteiro do Sinai.

Reciprocidade entre fé e sacramentos (4): Eucaristia

Já foram três as postagens aqui em nosso blog dedicadas a apresentar o Documento "A Reciprocidade entre a Fé e os Sacramentos na Economia Sacramental", promulgado pela Comissão Teológica Internacional em 2020. Por sua relevância e extensão (195 parágrafos), o projeto é publicá-lo dividido em seis partes.

As primeiras duas partes cobriram os capítulos I e II, dedicados à relação entre fé e sacramentos em geral (nn. 1-41 e nn. 42-79). Na terceira postagem iniciamos o capítulo III, dedicado especificamente aos sacramentos da Iniciação Cristã. Após o Batismo  e a Confirmação (nn. 80-101), segue a reflexão sobre a Eucaristia (nn. 102-131):

Comissão Teológica Internacional
A Reciprocidade entre a Fé e os Sacramentos na Economia Sacramental

Sumário:
3. A reciprocidade entre fé e sacramentos na Iniciação Cristã
3.3 Reciprocidade entre fé e Eucaristia
    a) Fundamentação bíblica
    b) Fé e Eucaristia
    c) Problemática atual
    d) Luzes a partir da Tradição
    e) Proposta pastoral: Fé para a Eucaristia

3. A reciprocidade entre fé e sacramentos na Iniciação Cristã

3.3 Reciprocidade entre fé e Eucaristia

a) Fundamentação bíblica
102. O acontecimento da Última Ceia (Mt 26,26-29; Mc 14,22-26; Lc 22,14-23; 1Cor 11,23-26) sempre foi considerado a instituição da Eucaristia. A esses relatos fundamentais devemos acrescentar outros nos quais a Igreja viu um teor eucarístico: as multiplicações dos pães (Mc 6,30-44 e par.; 8,1-10 e par.; Jo 6,1-14), as advertências de Paulo à comunidade de Corinto (1Cor 10-11); ou o episódio que encerra o encontro dos discípulos de Emaús com o Ressuscitado (Lc 24,30-31.35). Seguindo a força do mandato “Fazei isso em memória de mim” (1Cor 11,24-25; Lc 22,19), desde o início (por exemplo, At 2,42.46; 20,7; 27,35) até hoje, onde há cristãos e Igreja, se celebra a Eucaristia, o memorial da Paixão e Ressurreição do Senhor até que Ele volte, sua entrega salvífica por “muitos”, por todos (cf. Rm 5,18-19; 8,32).
103. Na Última Ceia, o Senhor Jesus condensa o significado de toda a sua vida, de sua Morte iminente e de sua futura Ressurreição, para transmiti-la a seus discípulos como memorial e sinal eminente de seu amor. Por isso, o que ali aconteceu e a memória sacramental de sua Paixão e Ressurreição mostram uma densidade extraordinária. A Igreja celebra na Eucaristia a “presencialização” e atualização da entrega de Cristo por todos nós ao Pai, de seu sacrifício. Na Eucaristia, a ação de graças ao Pai “por Cristo, com Cristo e em Cristo” [115], que se faz presente pela ação do Espírito, a Igreja se une a Cristo, associa-se a Ele e se torna seu Corpo. Por esse motivo, foi possível afirmar com verdade que a Igreja nasce da Eucaristia [116]. Como a Eucaristia reúne a própria essência da vida de Cristo e, portanto, da vida cristã, é a fonte e o ponto culminante da vida cristã (Sacrosanctum Concilium, n. 10; Lumen Gentium, n. 11).


b) Fé e Eucaristia
104. [Fé trinitária]. Cada Eucaristia começa “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”: com uma memória da fórmula batismal, do credo trinitário, que percorre e permeia toda a celebração. “O primeiro conteúdo da fé eucarística é o próprio mistério de Deus, amor trinitário” [117]. Na Eucaristia, pois, entramos na comunhão de vida com o amor do Deus trinitário. Como sinal máximo de seu amor, o Pai entregou seu Filho para nossa salvação; o qual, por sua vez, ofereceu a si mesmo “movido pelo Espírito eterno” (Hb 9,14). Na Eucaristia, somos feitos participantes dessa corrente amorosa, inserida na intimidade divina. Ao Deus trinitário apresentamos o melhor louvor possível por Cristo na unidade do Espírito, como proclama solenemente a doxologia com a qual culmina a Oração Eucarística. A ação de graças ao Pai, pelo Filho entregue por nós através do dom do Espírito, é confirmada com o louvor que compromete o testemunho pessoal na vida cotidiana.