segunda-feira, 22 de julho de 2019

Festa de São Sérgio de Radonezh em Moscou

Nos dias 17 e 18 de julho o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa presidiu as celebrações da Festa de São Sérgio de Radonezh no Mosteiro da Trindade, por ele fundado próximo a Moscou.

No dia 17 o Patriarca presidiu a Vigília da Festa na igreja da Santíssima Trindade, onde estão as relíquias de São Sérgio, e no dia 18 a Divina Liturgia com uma Ordenação Episcopal na igreja da Dormição da Mãe de Deus, a principal do mosteiro, seguida de procissão com o ícone do santo.

Na tradição bizantina os santos monges são celebrados em verde, a cor da vida divina, usada também nas celebrações do Espírito Santo.

Dia 17: Vigília

Entrada do Patriarca

Acólitos junto às relíquias de São Sérgio
Incensação das relíquias

sábado, 20 de julho de 2019

Homilia: XVI Domingo do Tempo Comum - Ano C

São Gregório Magno
Sermão sobre o Livro do Profeta Ezequiel
“Sobre a vida ativa e contemplativa”

A vida ativa consiste em dar pão ao faminto, ensinar a sabedoria ao ignorante, corrigir ao que erra, reconduzir o soberbo ao caminho da humildade, cuidar do enfermo, proporcionar a cada qual o que lhe convém e prover os meios de subsistência aos que nos foram confiados.
A vida contemplativa, porém, consiste, é verdade, em manter com toda a alma a caridade de Deus e do próximo, mas abstendo-se de toda atividade exterior e deixando-se invadir somente pelo desejo do Criador, de modo que já não encontre atrativo em atuar, porém, descartada qualquer outra preocupação, a alma arda em desejos de ver a face de seu Criador, até o ponto de que começa a suportar com fastio o peso da carne corruptível e aspirar com todo o dinamismo do desejo unir-se aos coros angélicos que entoam hinos, confundir-se entre os cidadãos do céu e gozar na presença de Deus da eterna incorrupção.
Um bom modelo destes dois tipos de vida foram aquelas duas mulheres, a saber, Marta e Maria, das quais uma se desdobrava para dar conta do serviço, enquanto a outra, sentada aos pés do Senhor, escutava as palavras de sua boca. Como Marta se queixa de que sua irmã não se preocupava de ajudá-la, o Senhor lhe contestou: Marta, andas inquieta e nervosa com muitas coisas; mas somente uma é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e não lhe será tirada. Observa que não se reprova a parte de Marta, mas se louva a de Maria. Nem se limita a dizer que Maria escolheu a boa parte, mas a parte melhor, para indicar que também a parte de Maria era boa. E porque a parte de Maria seja a melhor, o destaca na continuação, dizendo: E não lhe será tirada.
De fato, a vida ativa acaba com a morte. Pois quem pode dar pão ao faminto na pátria eterna, na qual ninguém terá fome? Quem pode dar de beber ao sedento, se ninguém tem sede? Quem pode enterrar os mortos, se ninguém morre? Portanto, enquanto que a vida ativa acaba neste mundo, a vida contemplativa, iniciada aqui, aperfeiçoa-se na pátria celestial, pois o fogo do amor que aqui começa a arder, à vista do Amado ainda se aviva em seu amor.
Assim, a vida contemplativa não cessará jamais, pois alcança precisamente sua perfeição ao apagar-se a luz do mundo atual.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 679-680. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

Confira também uma homilia de Santo Ambrósio para este domingo clicando aqui.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O rito e o Missal Romano

O site Vatican News publicou recentemente em sua coluna "Memória histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II" um breve texto no qual se traça um perfil histórico do Missal Romano, principal livro litúrgico do nosso rito:

12 de junho de 2019

No nosso espaço “Memória Histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II”, vamos falar no programa de hoje sobre “O rito e o Missal Romano” [1].
O Missal Romano (Missale Romanum), é o Missal do Rito Romano da Igreja Católica. A primeira edição impressa de um livro com o título de Missale Romanum e que se propunha trazer os textos da Santa Missa segundo os usos da Cúria Romana (“Ordo Missalis Secundum Consuetudinem Curiae Romanae”) remonta a 1474 e foi impressa em Milão [2]. Daquela data até a publicação da primeira edição oficial do Missal Romano, publicada pela Santa Sé, passou-se quase um século. Durante este período, surgiram pelo menos outras 14 edições do livro litúrgico: dez em Veneza, três em Paris e uma em Lyon. Devido à falta de um órgão de supervisão de sua qualidade, estas diferentes edições acabaram sofrendo várias modificações pelos editores, algumas dos quais não foram triviais.
A edição de 1474 é considerada o arquétipo de todas as publicações que mais tarde se fundiram na edição oficial aprovada pelo Papa Pio V em 1570, também conhecido como “Missal Tridentino” ou “Missal de São Pio V” [3]. As notas do Cardeal Guglielmo Sirleto em um exemplar da edição com o título “Missale secundum morem Sanctae Romanae Ecclesiae”, impresso em Veneza em 1497 (substancialmente idêntico ao de 1474), demonstram que esta edição veneziana foi usada como modelo para a edição de 1570 [4].
Missais com maior ou menor número de modificações foram publicados sucessivamente pelos Papas Clemente VIII em 1604, Urbano VIII em 1634, Leão XIII em 1884, Bento XV em 1920 (Missal cuja revisão foi iniciada por Pio X).
Pio XII reformou profundamente a Liturgia da Semana Santa e da Vigília Pascal, modificando não somente o texto das orações, mas também o horário das celebrações.
A sexta e última edição típica do Missal Romano “revisado por decreto do Concílio de Trento” foi aquela publicada pelo Papa João XXIII em 1962.
Ao aplicar a Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI, assistido por uma comissão de Cardeais, Bispos e peritos (o Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia), criou uma nova edição do Missal Romano, promulgada com a Constituição Apostólica Missale Romanum de 03 de abril de 1969 e que entrou em vigor em 30 de novembro sucessivo, início do novo Ano Litúrgico. A forma ordinária da celebração da Missa segundo o Rito Romano continua a ser a do Missal Romano reformado e publicado por Paulo VI.
Antes da grande reforma litúrgica realizada por Paulo VI, o Missal Romano previa a celebração da chamada Missa tridentina, que era a forma anterior do Rito Romano e cujo uso foi amplamente restaurado pelo Papa Bento XVI através do Motu Proprio Summorum Pontificum e da instrução Universae Ecclesiae.

Apenas três anos depois do término do Concilio Vaticano II, o Papa Paulo VI surpreendia o universo católico com a publicação de um novo “Ordo missae” - um novo Missal Romano - que levava a data de 6 de abril de 1969.  Os Papas, até Paulo VI, não modificaram o Ordo Missae , mesmo introduzindo-se modos próprios para novas festas, o que não destrói a chamada Missa Tridentina ou Missa de São Pio V.
Uma Missa Tridentina ou de São Pio V na verdade nunca existiu, já que, seguindo as instâncias do Concílio de Trento, não foi formado um Novus Ordo Missae, dado que a Missa de Pio V não é mais que o Missal da Cúria Romana, que foi se formando em Roma muitos séculos antes, e difundido especialmente pelos franciscanos em numerosas regiões do Ocidente. As modificações efetuadas em sua época por São Pio V são tão pequenas, que são perceptíveis tão somente pelos olhos dos especialistas.
O que fez, na verdade, Pio V? Não fez grande modificação. Tomou o Missal em uso em Roma e em tantos outros lugares, deu-lhe retoques, especialmente reduzindo o número das festas dos Santos que continha. Não o tornou obrigatório para toda a Igreja. Respeitou até as tradições locais que pudessem se gloriar de ter, pelo menos, duzentos anos de idade.
Assim, propriamente, era suficiente que o Missal estivesse em uso, pelo menos, há duzentos anos, para que pudesse permanecer em uso ao lado e no lugar daquele publicado por São Pio V.
O fato de que o Missale Romanum tenha se difundido tão rapidamente e tenha sido espontaneamente adotado também em dioceses que tinham o modo próprio mais que bicentenário, deve-se a outras causas. Roma não exerceu sobre elas nenhuma pressão, e isto numa época em que, bem diferente do que acontece hoje, não se falava de pluralismo, nem de tolerância.
Portanto, deixando de lado a expressão imprópria de Missa Tridentina, falamos melhor de um Ritus Romanus. O Rito Romano remonta em suas partes mais importantes pelo menos ao século V, e mais precisamente ao Papa São Dâmaso (366-384).
O Canon Missae, com exceção de alguns retoques efetuados por São Gregório I (590-604), alcançou com São Gelásio I (492-496) a forma que conservou até há pouco. A única coisa sobre a qual os Romanos Pontífices não cessaram de insistir, do século V em diante, foi a importância para todos de adotar o Canon Missae Romanae, dado que dito cânon remonta nada menos que ao próprio Apóstolo Pedro.
O primeiro Papa que ousou inovar o Missal tradicional foi Pio XII, quando modificou a Liturgia da Semana Santa. Seja-nos permitido observar, a respeito, que nada impedia de restabelecer a Missa do Sábado Santo no curso da noite de Páscoa, ainda que sem modificar o rito. João XXIII o seguiu por este caminho, retocando as rubricas. Mas nem um nem o outro ousaram inovar sobre o Ordo Missae, que continuou invariável. Porém, a porta tinha sido aberta, e por ela cruzaram aqueles que queriam uma substituição radical da Liturgia tradicional e que a obtiveram.
Muitos não concordaram com as mudanças de Paulo VI com um novo Rito Romano e preveem consequências desastrosas. Outros, no lado oposto, prefeririam ainda inventar uma Liturgia totalmente nova, perdendo-se a tradição milenar. Mas sabemos que conservar o Rito Romano não é uma questão puramente de estética, de conservadorismo, mas de zelar pela natureza própria da Liturgia milenar, que remonta à comunidade primitiva. Por isso, o Papa Paulo VI trouxe essa renovação, conservando a tradição, com a publicação de um novo “Ordo Missae” – o novo Missal Romano - em 1969, três anos depois do Concilio Vaticano II.

[1] Resgate histórico feito por Monsenhor Klaus Gamber, Reforma da Liturgia Romana. Disponível em: http://www.unavocesevilla.info/reformaliturgia.pdf
[3] Manlio Sodi e Achille Maria Triacca. Missale Romanum: Editio Princeps (1570) (Libreria Editrice Vaticana, 1998), p. XV.


quinta-feira, 18 de julho de 2019

O sacerdote no Rito da Comunhão da Missa

Na continuidade da série de textos sobre a relação do sacerdote com a Celebração Eucarística, divulgados pela Santa Sé durante o Ano Sacerdotal (2009-2010), chegamos hoje ao sexto artigo, que trata do Rito da Comunhão:

Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
O sacerdote no Rito da Comunhão da Santa Missa

O sacerdote que se prepara para o Rito da Comunhão na Missa é predisposto pela Oração Eucarística, que acaba de completar, a reconhecer que «na narrativa da instituição, a eficácia das palavras e das ações de Cristo e a força do Espírito Santo tornam sacramentalmente presente sob as espécies do pão e do vinho o seu Corpo e o seu Sangue, o seu sacrifício oferecido sob a cruz uma vez por todas» [1]. Por outro lado, quando chega o momento em que o sacerdote e os fiéis recebem a Santa Eucaristia, ou seja, quando se preparam para comer o Corpo do Senhor e beber o seu Sangue, é preciso recordar o discurso de Jesus em Cafarnaum, que apresenta a recepção da Santa Eucaristia tanto como uma vinda quanto como um encontro [2].

No que diz respeito ao tema da vinda, o Evangelho de São João diz: «O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo» [3]. Sobre o encontro, a Eucaristia é concebida como expressão da relação interna da Santíssima Trindade, testemunhada na relação filial de Jesus com o seu Pai celeste. Jesus a explica com as palavras: «Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo, quem crê, possui a vida eterna. Eu sou o pão da vida» [4]. «Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim» [5]. Em consequência, a preparação pessoal e pública para receber a Santa Eucaristia, que os Ritos da Comunhão favorecem de modo mais intenso, seja na Forma Ordinária que naquela Extraordinária da Missa, não preparam o sacerdote para receber uma coisa, mas uma Pessoa. Assim resume Romano Guardini: «Não isso, mas Ele, a Pessoa suprema louvada por toda a eternidade» [6].


A Forma Ordinária do Rito Romano

Na Forma Ordinária (ou Missa de Paulo VI), no início do Rito da Comunhão, guiados pelo sacerdote, o povo está em pé. A nível simbólico, a imagem do sacerdote que está no centro do altar, circundado pela assembleia em pé, representa uma antecipação da Igreja que estará com Cristo no céu no final dos tempos. O sacerdote introduz o Pater Noster utilizando uma das fórmulas previstas, antes que recitemos ou cantemos juntos a oração do Senhor. As palavras que Jesus nos ensinou para que rezássemos com confiança, e que nós usamos antes de aproximarmo-nos da Santa Eucaristia, foram comentadas por diversos autores. Por exemplo, alguns textos tomados do comentário de São Cipriano de Cartago sobre a oração do Senhor foram inseridos no Ofício das Leituras da Liturgia das Horas na XI semana do Tempo Comum, para nos educar a uma maior apreciação do significado de tais palavras [7]. Os textos de São Cipriano recordam ao sacerdote que cada recitação do Pater Noster é um ato eclesial, que traz consequências na vida dos outros. São Cipriano escreveu:

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Solenidade da Dedicação da Basílica do Santo Sepulcro

No último dia 15 de julho o Custódio da Terra Santa, Padre Francesco Patton, celebrou a Santa Missa na Basílica do Santo Sepulcro por ocasião da Solenidade do aniversário da Dedicação desta igreja.

A Basílica do Santo Sepulcro, inicialmente foi dedicada em setembro de 335. Porém, após ser atacada pelos muçulmanos durante as Cruzadas, foi restaurada e novamente dedicada em 15 de julho de 1149.

Procissão de entrada
 
Ritos iniciais
Evangelho
Bênção com o Livro dos Evangelhos

Exéquias do Cardeal Paolo Sardi

No último dia 15 de julho foram celebradas no altar da Cátedra da Basílica Vaticana as Exéquias do Cardeal Paolo Sardi, Patrono Emérito da Ordem de Malta, falecido no dia 13 aos 84 anos.

A Santa Missa Exequial foi presidida pelo Cardeal Tarcísio Bertone, Secretário de Estado Emérito. No final da celebração o Papa Francisco presidiu os ritos da Última Encomendação e Despedida.

O Santo Padre foi assistido pelo Monsenhor Pier Enrico Stefanetti, uma vez que Mons. Guido Marini está na África preparando a Viagem Apostólica do Papa ao continente no próximo mês de setembro.

Papa recita a oração da Encomendação
Aspersão

Incensação


terça-feira, 16 de julho de 2019

Ângelus: XV Domingo do Tempo Comum - Ano C

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 14 de julho de 2019


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje o Evangelho apresenta a célebre parábola do “bom samaritano” (Lc 10,25-37). Interrogado por um doutor da lei sobre o que é necessário para herdar a vida eterna, Jesus o convida a encontrar a resposta nas Escrituras e diz: «Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e ao teu próximo como a ti mesmo» (v. 27). Porém, havia diversas interpretações sobre quem se deveria entender como “próximo”. Com efeito, aquele homem pergunta de novo: «E quem é o meu próximo?» (v. 29). Neste ponto, Jesus responde com a parábola, esta bela parábola: convido todos vós a tomar hoje o Evangelho, Evangelho de Lucas, capítulo 10, versículo 25. É uma das parábolas mais belas do Evangelho. E esta parábola se tornou paradigmática da vida cristã. Tornou-se o modelo de como deve agir um cristão. Graças ao evangelista Lucas, temos este tesouro.

O protagonista do breve relato é um samaritano, que encontra ao longo da estrada um homem assaltado e espancado por ladrões e que toma conta dele. Sabemos que os judeus tratavam com desprezo os samaritanos, considerando-os estrangeiros em relação ao povo eleito. Portanto, não é uma coincidência que Jesus escolha justamente um samaritano como personagem positivo da parábola. Deste modo quer superar o preconceito, mostrando que também um estrangeiro, também alguém que não conhece o verdadeiro Deus e não frequenta o seu templo, é capaz de comportar-se segundo a Sua vontade, demonstrando compaixão pelo irmão necessitado e socorrendo-o com todos os meios à sua disposição.

Por aquela estrada, antes do samaritano, haviam já passado um sacerdote e um levita, isto é, pessoas dedicadas ao culto de Deus. Porém, vendo o pobre homem no chão, seguiram adiante sem deter-se, provavelmente para não contaminar-se com seu sangue. Haviam anteposto uma regra humana - não contaminar-se com sangue -, vinculada ao culto, ao grande mandamento de Deus, que quer antes de tudo a misericórdia.

Jesus, portanto, propõe como modelo o samaritano, precisamente um que não possuía fé! Também nós pensemos em tantas pessoas que conhecemos, talvez agnósticas, que fazem o bem. Jesus escolhe como modelo alguém que não era um homem de fé. E este homem, amando o irmão como a si mesmo, demonstra amar a Deus com todo o seu coração e com todas as suas forças - o Deus que não conhecia! -, e exprime ao mesmo tempo verdadeira religiosidade e plena humanidade.

Depois de ter contado esta parábola tão bela, Jesus se dirige de novo ao doutor da Lei que lhe havia perguntado «Quem é o meu próximo?», e lhe diz: Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? » (v. 36). Deste modo, inverte a pergunta do seu interlocutor, e também a lógica de todos nós. Faz-nos compreender que não somos nós que, com base em nossos critérios, definimos quem é o próximo e quem não é, mas é a pessoa em situação de necessidade que deve poder reconhecer quem é o seu próximo, isto é, «aquele que usou de misericórdia para com ele» (v. 37). Sermos capazes de ter compaixão: esta é a chave. Esta é a nossa chave. Se tu não sentes compaixão diante de uma pessoa necessitada, se o teu coração não se comove, então alguma coisa não está bem. Esteja atento, estejamos atentos. Não nos deixemos arrastar pela insensibilidade egoísta. A capacidade de compaixão tornou-se a “pedra de toque” do cristão, mais, do ensinamento de Jesus. O próprio Jesus é a compaixão do Pai para conosco. Se tu vais pela estrada e vê um sem-teto deitado e passas sem olhar para ele ou pensas: “É efeito do vinho. É um bêbado”, pergunta não se aquele homem está embriagado, pergunta se o teu coração não está endurecido, se o teu coração não se tornou gelo. Esta conclusão indica que a misericórdia para com uma vida humana em estado de necessidade é o verdadeiro rosto do amor. É assim que nos tornamos verdadeiros discípulos de Jesus e se manifesta o rosto do Pai: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6,36). E Deus, nosso Pai, é misericordioso, porque tem compaixão: é capaz de ter esta compaixão, de aproximar-se da nossa dor, do nosso pecado, dos nossos vícios, das nossas misérias.

A Virgem Maria nos ajude a compreender e sobretudo a viver sempre mais o vínculo indissolúvel que há entre o amor por Deus, nosso Pai, e o amor concreto e generoso pelos nossos irmãos, e nos dê a graça de ter compaixão e crescer na compaixão.


Tradução livre do original italiano.