“Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo”.
Com este
versículo, recitado tantas vezes nos ofícios em honra da Paixão do Senhor, damos início a um
breve percurso pela história da Festa da
Exaltação da Santa Cruz, celebrada pelas Igrejas do Oriente e do Ocidente
no dia 14 de setembro.
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| A Cruz, “árvore da vida” (Mosaico da Basílica de São Clemente, Roma) |
1. As origens da Festa em Jerusalém
A Exaltação da
Santa Cruz é uma festa sui generis
dentro do Ano Litúrgico, uma vez que não é a celebração de um evento ocorrido
durante a vida terrena de Jesus, mas sim um acontecimento que teve lugar no
século IV da Era Cristã: a dedicação da Basílica do Santo Sepulcro em
Jerusalém.
Embora a obra da
nossa redenção, “chegada a plenitude dos tempos” (Gl 4,4), tenha sido realizada “principalmente” (praecipue) pelo Mistério Pascal da
Morte-Ressurreição de Cristo (cf.
Sacrosanctum Concilium, n. 05), a história da salvação continua até a sua última
vinda (ibid., n. 102). Portanto, a
dedicação da Basílica do Santo Sepulcro está perfeitamente integrada na
história da salvação.
Vale lembrar que
já no Antigo Testamento se celebrava o aniversário da dedicação do Templo na Festa
de Hanukkah (“dedicação” em hebraico;
cf. 1Mc 4,52-59; Jo 10,22). No Rito Romano celebramos o aniversário da dedicação das quatro Basílicas Maiores e da Catedral da diocese [1]. Não se trata, porém, de uma mera recordação da
construção de um edifício, mas sim da atualização da aliança nupcial entre Deus
e o seu povo, templo edificado com pedras vivas (cf. Ef 2,19-22; 1Cor
3,16-17; 1Pd 2,5).
Para saber mais, confira nossa postagem sobre “Por que celebramos a Dedicação da Basílica do Latrão?”.
Com a publicação
do Edito de Milão pelo Imperador Constantino (†337) no ano de 313, proibindo as
perseguições aos cristãos, começam a ser construídas as primeiras basílicas na
Terra Santa, sob o patrocínio da sua mãe, Santa Helena (†330), que visitou a
Cidade Santa entre os anos de 326 e 328.
A dedicação da Basílica do Santo Sepulcro
teve lugar no dia 13 de setembro de 335.
A peregrina Etéria (ou Egéria), que visitou Jerusalém em meados do século IV,
testemunha a celebração do aniversário da dedicação, a “Festa das Encênias” (termo
grego para “dedicação”, τὰ ἐγκαίνια):
“Os dias
chamados da dedicação (Encênias) são aqueles em que a santa
igreja que está no Gólgota, à que chamam Martyrium,
foi consagrada a Deus; e também a santa igreja situada na Anástasis, isto é, naquele lugar onde o Senhor ressuscitou após a
Paixão, e que foi consagrada a Deus nesse mesmo dia. As Encênias destas santas igrejas celebram-se, pois, com uma grande
solenidade (...). Nestes dias das Encênias,
a decoração de todas as igrejas é idêntica à da Páscoa e da Epifania” [2].
Com efeito, a
primitiva Basílica era formada por duas igrejas: a igreja maior, em honra da
Paixão do Senhor (Martyrium), e a
igreja menor, de forma redonda, em honra da Ressurreição (Anástasis). Ambas eram separadas por um pequeno pátio (ante Crucem), no qual se encontrava
parte da rocha do Calvário.
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| A Basílica do Santo Sepulcro no século IV: À direita o Martyrium, no centro o pátio e à esquerda a Anástasis |
A Basílica
sofreria com sucessivos ataques e desastres naturais nos séculos seguintes, até
ser restaurada na época das Cruzadas, unificando o “Calvário” e o “Sepulcro” no
mesmo templo, dedicado em 15 de julho de 1149. Para saber mais sobre a Basílica do Santo Sepulcro, clique aqui.
Não obstante,
conserva-se no Rito Romano a memória da dedicação no dia 13 de setembro entre
as “comemorações” do Martirológio Romano
para esse dia: “Em Jerusalém, a dedicação
das Basílicas que o imperador Constantino quis piedosamente edificar sobre o
monte Calvário e sobre o sepulcro do Senhor” [3].























