Dando início às reflexões sobre as “parábolas”, segunda parte da seção sobre a vida pública de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos nesta postagem a última Catequese preparada pelo Papa Francisco antes da sua morte, sobre a parábola do pai misericordioso (Lc 15,11-32), e a primeira Catequese proferida pelo Papa Leão XIV após sua eleição, sobre a parábola do semeador (Mt 13,1-23).
Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 16 de abril de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.5. A vida de Jesus - As parábolas: O pai misericordioso (Lc 15,11-32)
Queridos irmãos e irmãs,
Depois de ter meditado sobre os encontros de Jesus com
alguns personagens do Evangelho, a partir desta Catequese gostaria de refletir
sobre algumas parábolas. Como sabemos, são relatos que retomam imagens e
situações da realidade diária. Por isso tocam também a nossa vida. Provocam-nos.
E pedem-nos que tomemos uma posição: onde eu estou nesse relato?
Comecemos com a parábola mais famosa, que todos nós conhecemos,
talvez desde a infância: a parábola do pai e dos dois filhos (cf. Lc 15,11-32).
Nela encontramos o coração do Evangelho de Jesus, isto é, a misericórdia de
Deus.
O evangelista Lucas diz que Jesus conta essa parábola aos
fariseus e escribas, que murmuravam porque Ele comia com os pecadores (vv. 1-3).
Por isso, poderíamos dizer que se trata de uma parábola dirigida àqueles que se
perderam, mas não o sabem e julgam os outros.
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| O retorno do filho pródigo (Rembrandt) (Obra mencionada pelo Papa na Catequese) |
O Evangelho quer nos confiar uma mensagem de esperança,
porque nos diz que onde quer que tenhamos nos perdido, seja como for que
tenhamos nos perdido, Deus vem sempre à nossa procura! Talvez tenhamos nos
perdido como uma ovelha que se desviou do caminho para pastar ou que ficou para
trás devido ao cansaço (cf. vv. 4-7). Ou talvez tenhamos nos
perdido como uma moeda, que porventura caiu no chão e já não pode ser
encontrada, ou que alguém colocou em algum lugar e já não se lembra onde (vv.
8-10). Ou talvez tenhamos nos perdido como os dois filhos desse pai: o mais
novo, porque se cansou de estar em uma relação que lhe parecia demasiado
exigente; mas o mais velho também se perdeu, pois não basta permanecer em casa
se no coração houver orgulho e rancor.
O amor é sempre um compromisso, há sempre algo que devemos
perder para ir ao encontro do outro. Mas o filho mais novo da parábola só pensa
em si mesmo, como acontece em certas fases da infância e da adolescência. Na
realidade, ao nosso redor vemos também muitos adultos assim, que não conseguem
levar adiante uma relação porque são egoístas. Têm a ilusão de encontrar a si
mesmos, mas, ao contrário, se perdem, pois só quando vivemos para alguém é que vivemos
verdadeiramente.
Este filho mais novo, como todos nós, tem fome de afeto,
quer ser amado. Mas o amor é um dom precioso, a ser tratado com cuidado. No
entanto, ele o desperdiça, se vende, não se respeita. Compreende isso em tempos
de escassez, quando ninguém se preocupa com ele. O risco é que, nesses
momentos, comecemos a mendigar afeto e nos apeguemos ao primeiro patrão que
aparecer.
São essas experiências que fazem nascer dentro de nós a
convicção deturpada de que só podemos estar em uma relação como servos, como se
tivéssemos que expiar uma culpa ou como se não pudesse existir o amor
verdadeiro. Com efeito, quando toca o fundo do poço, o filho mais novo pensa em
voltar para a casa do pai, a fim de recolher do chão algumas migalhas de afeto.
Só quem nos ama verdadeiramente pode nos libertar dessa
falsa visão do amor. Na relação com Deus fazemos precisamente esta experiência.
Em um famoso quadro, o grande pintor Rembrandt representou maravilhosamente o
regresso do filho pródigo. Há sobretudo dois detalhes que me chamam a atenção:
a cabeça do jovem está raspada, como a de um penitente, mas parece também a
cabeça de uma criança, porque este filho está renascendo. E depois as mãos do
pai: uma masculina e outra feminina, para descrever a força e a ternura no
abraço do perdão.
Mas é o filho mais velho que representa aqueles para os
quais a parábola é contada: é o filho que sempre ficou em casa com o pai, e
que, no entanto, estava longe dele, longe do coração. Talvez este filho também quisesse
partir, mas por medo ou por dever permaneceu ali, naquela relação. Contudo,
quando nos adaptamos de má vontade, começamos a alimentar a raiva dentro de nós
e, mais cedo ou mais tarde, esta raiva explode. Paradoxalmente, é precisamente
o filho mais velho que, no fim, corre o risco de permanecer fora de casa, pois
não partilha a alegria do pai.
O pai sai também ao encontro dele. Não o repreende nem o
chama ao dever. Só quer que sinta o seu amor. Convida-o a entrar e deixa a
porta aberta. Aquela porta permanece aberta também para nós. Com efeito, esta é
a razão da esperança: podemos esperar, pois sabemos que o Pai nos espera, nos
vê de longe e deixa sempre a porta aberta.
Amados irmãos e irmãs, perguntemo-nos então onde nos
encontramos neste maravilhoso relato. E peçamos a Deus Pai a graça de poder encontrar,
também nós, o caminho de volta para casa.
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 21 de maio de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.6. A vida de Jesus - As parábolas: O semeador (Mt 13,1-23)
Queridos irmãos e irmãs,
Estou feliz por vos acolher nesta minha primeira Audiência Geral.
Retomo hoje o ciclo de Catequeses jubilares, sobre o tema «Jesus Cristo, nossa
esperança», iniciado pelo Papa Francisco.
Hoje continuamos a meditar sobre as parábolas de Jesus, que
nos ajudam a redescobrir a esperança, porque nos mostram como Deus age na
história. Hoje gostaria de meditar sobre uma parábola especial, pois é uma
espécie de introdução a todas as parábolas. Refiro-me à parábola do semeador (cf.
Mt 13,1-23). Em certo sentido, neste relato podemos reconhecer o modo de
comunicar de Jesus, que tem muito a nos ensinar para o anúncio do Evangelho
hoje.
Cada parábola conta uma história tirada da vida de todos os
dias, mas quer nos dizer algo mais, remetendo-nos a um significado mais
profundo. A parábola desperta em nós interrogações, convida-nos a não nos determos
nas aparências. Diante da história que é contada ou da imagem que é apresentada,
posso me perguntar: onde eu estou nesta história? O que diz esta imagem para a
minha vida? Aliás, o termo parábola vem do verbo grego paraballein,
que significa lançar para a frente. A parábola projeta diante de
mim uma palavra que me desperta e me leva a questionar-me.
A parábola do semeador fala precisamente da dinâmica da Palavra
de Deus e dos efeitos que ela produz. Com efeito, cada palavra do Evangelho é
como uma semente lançada no terreno da nossa vida. Jesus usa muitas vezes a
imagem da semente, com diversos significados. No capítulo 13 do Evangelho de
Mateus, a parábola do semeador introduz uma série de outras pequenas
parábolas, algumas das quais falam precisamente do que acontece na terra: o
trigo e o joio, o pequeno grão de mostarda, o tesouro escondido no campo. O que
é, então, essa terra? É o nosso coração, mas é também o mundo, a comunidade, a
Igreja. Com efeito, a Palavra de Deus fecunda e provoca toda realidade.
No início vemos Jesus que sai de casa e uma grande multidão se
reúne em torno d’Ele (cf. Mt 13,1). A sua palavra
fascina e intriga. Entre as pessoas há obviamente muitas situações diferentes.
A palavra de Jesus é para todos, mas age em cada um de modo diferente. Este
contexto nos permite compreender melhor o sentido da parábola.
Um semeador muito original sai para semear, mas não se
preocupa com o lugar onde cai a semente. Lança a semente até onde é improvável
que dê fruto: à beira do caminho, em terreno pedregoso, no meio dos espinhos.
Esta atitude surpreende o ouvinte e o leva a questionar-se: como é possível?
Estamos acostumados a calcular as coisas - e às vezes é
necessário -, mas isto não vale no amor! O modo como este semeador “esbanjador”
lança a semente é uma imagem do modo com que Deus nos ama. É verdade, com
efeito, que o destino da semente dependa também do modo com que o terreno a
acolhe e da situação em que se encontra, mas nesta parábola Jesus nos diz
sobretudo que Deus lança a semente da sua Palavra em todo tipo de terra, isto
é, em qualquer situação em que nos encontremos: às vezes somos mais superficiais
e distraídos, outras vezes nos deixamos levar pelo entusiasmo, às vezes nos sentimos
oprimidos pelas preocupações da vida, mas há também momentos em que estamos
disponíveis e somos acolhedores. Deus confia e espera que, mais cedo ou mais
tarde, a semente floresça. É assim que nos ama: não espera que nos tornemos o
melhor terreno, mas nos concede sempre e generosamente a sua Palavra. Talvez
precisamente vendo que Ele confia em nós, nasça o desejo de sermos uma terra
melhor. Esta é a esperança, fundada na rocha da generosidade e da misericórdia
de Deus.
Narrando o modo como a semente dá fruto, Jesus está falando
também da sua vida. Jesus é a Palavra, é a Semente. E a semente, para dar
fruto, deve morrer. Esta parábola, então, nos diz que Deus está pronto a se “desperdiçar”
por nós e que Jesus está disposto a morrer para transformar a nossa vida.
Tenho em mente aquela belíssima pintura de Vincent van
Gogh: O semeador ao pôr do sol. Essa imagem do semeador sob o sol escaldante
me fala também do trabalho do camponês. E me surpreende que, atrás do semeador,
van Gogh representou o grão já maduro. Parece-me precisamente uma imagem de
esperança: de um modo ou de outro, a semente deu fruto. Não sabemos bem como,
mas é assim! No centro da cena, porém, não está o semeador, que se encontra ao
lado, mas toda a pintura é dominada pela imagem do sol, talvez para nos
recordar que é Deus quem move a história, embora às vezes pareça ausente ou
distante. É o sol que aquece os torrões da terra e faz amadurecer a semente.
Caros irmãos e irmãs, em que situação da vida nos alcança hoje
a Palavra de Deus? Peçamos ao Senhor a graça de acolher sempre essa semente que
é a sua Palavra. E se percebermos que não somos um terreno fecundo, não
desanimemos, mas peçamos a Ele que nos trabalhe ainda mais para fazer de nós
uma terra melhor.
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| O semeador (Vincent van Gogh) (Obra mencionada pelo Papa na Catequese) |
Fonte: Santa Sé (16 de abril e 21 de maio de 2025).


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