Dando continuidade às Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, após a seção sobre a infância de Jesus, publicaremos as reflexões sobre a vida pública de Jesus, subdivididas em três partes (os encontros, as parábolas e as curas).
Confira nesta postagem, portanto, as primeiras duas meditações sobre os “encontros” de Jesus: com Nicodemos (Jo 3) e com a samaritana (Jo 4).
Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 19 de março de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.1. A vida de Jesus - Os encontros: Nicodemos (Jo 3)
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Com esta Catequese começamos a contemplar alguns encontros
narrados nos Evangelhos, para compreender o modo como Jesus dá esperança. Com efeito,
há encontros que iluminam a vida e dão esperança. Pode acontecer, por exemplo,
que alguém nos ajude a ver uma dificuldade ou um problema que estamos vivendo de
uma perspectiva diferente; ou pode acontecer que alguém simplesmente nos dê uma
palavra que não nos faça sentir sozinhos na dor que estamos atravessando. Podem
ocorrer às vezes também encontros silenciosos, nos quais nada é dito, mas esses
momentos nos ajudam a retomar o caminho.
O primeiro encontro sobre o qual gostaria de me deter é o de
Jesus com Nicodemos, narrado no capítulo 3 do Evangelho de João. Começo
por este episódio porque Nicodemos é um homem cuja história mostra que é
possível sair das trevas e encontrar a coragem de seguir Cristo.
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| Jesus e Nicodemos (Henry Ossawa Tanner) |
Nicodemos vai ter com Jesus à noite: uma hora incomum para
um encontro. Na linguagem de João, as referências temporais têm muitas vezes um
valor simbólico: aqui a noite é provavelmente o que está no coração de
Nicodemos. É um homem que se encontra na escuridão da dúvida, naquela escuridão
que experimentamos quando já não compreendemos o que está acontecendo na nossa
vida e não vemos claramente o caminho a seguir.
Se estamos nas trevas, certamente buscamos a luz. E João, no
início do seu Evangelho, escreve assim: «A luz verdadeira, vindo ao
mundo, ilumina todo ser humano» (Jo 1,9). Nicodemos, portanto, busca
Jesus porque pressente que Ele pode iluminar as trevas do seu coração.
No entanto, o Evangelho nos diz que Nicodemos não consegue
compreender imediatamente o que Jesus lhe diz. Vemos assim que há muitos
desentendimentos neste diálogo, e também muita ironia, que é uma característica
do evangelista João. Nicodemos não compreende o que Jesus lhe diz porque
continua a pensar com a sua lógica e as suas categorias. É um homem com uma
personalidade bem definida, desempenha um papel público, é um dos chefes dos
judeus. Mas provavelmente as contas já não batem para ele. Nicodemos sente que
algo já não está funcionando na sua vida. Sente a necessidade de mudar, mas não
sabe por onde começar.
Isto acontece a todos nós em algum momento da vida. Se não
aceitamos a mudança, se nos fechamos na nossa rigidez, nos nossos hábitos ou nas
nossas formas de pensar, corremos o risco de morrer. A vida está na capacidade
de mudar para encontrar um novo modo de amar. Com efeito, Jesus fala a
Nicodemos de um novo nascimento, que não só é possível, mas é até
necessário em certos momentos do nosso caminho. Na verdade, a expressão usada
no texto já é em si mesma ambivalente, porque anothen (ἄνωθεν) pode ser
traduzida tanto por “do alto” como por “de novo”. Lentamente
Nicodemos compreenderá que estes dois significados estão interligados: se
permitimos que o Espírito Santo gere uma nova vida em nós, nasceremos de novo.
Reencontraremos essa vida, que talvez estivesse se apagando em nós.
Escolhi começar por Nicodemos também porque ele é um homem
que, com a sua própria vida, mostra que esta mudança é possível. Nicodemos
triunfará: no final, ele estará entre aqueles que vão a Pilatos para pedir o
corpo de Jesus (cf. Jo 19,39). Nicodemos
finalmente veio à luz, renasceu, e já não precisa estar na noite.
Às vezes as mudanças nos assustam. Por um lado, nos atraem;
certas vezes, as desejamos; mas, por outro lado, preferimos permanecer na nossa
zona de conforto. Por isso o Espírito nos encoraja a enfrentar esses medos.
Jesus recorda a Nicodemos - que é um mestre em Israel - que vos israelitas tiveram
medo enquanto caminhavam no deserto. E se fixaram tanto nas suas preocupações
que, a certo ponto, esses medos tomaram a forma de serpentes venenosas (cf. Nm 21,4-9).
Para serem libertados tinham que olhar para a serpente de bronze que Moisés
tinha colocado sobre uma haste, ou seja, tinham que olhar para cima e ficar
diante do objeto que representava os seus medos. Só olhando aquilo que nos dá medo
no rosto é que podemos começar a ser libertados.
Nicodemos, como todos nós, pode olhar para o Crucificado,
Aquele que venceu a morte, a raiz de todos os nossos medos. Levantemos também
nós o olhar para Aquele que eles transpassaram, deixemo-nos também nós encontrar
por Jesus. N’Ele encontramos a esperança para enfrentar as mudanças da nossa
vida e nascer de novo.
Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 26 de março de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.2. A vida de Jesus - Os encontros: A samaritana (Jo 4)
Queridos irmãos e irmãs,
Depois de termos meditado sobre o encontro de Jesus com
Nicodemos, que tinha ido à sua procura, hoje reflitamos sobre aqueles momentos
em que parece que Ele estivesse à nossa espera precisamente ali, naquela
encruzilhada da nossa vida. São encontros que nos surpreendem e, no início,
talvez fiquemos até um pouco desconfiados: procuramos ser prudentes e
compreender o que está acontecendo.
Esta provavelmente foi também a experiência da mulher samaritana,
da qual se fala no capítulo 4 do Evangelho de João. Ela não esperava
encontrar um homem no poço ao meio-dia, aliás, não esperava encontrar ninguém.
Com efeito, ela vai buscar água ao poço em uma hora incomum, quando está muito quente.
Talvez essa mulher se envergonhasse da sua vida, talvez se sentia julgada,
condenada, incompreendida, e por isso tinha se isolado, rompendo relações com
todos.
Para ir da Judeia à Galileia, Jesus poderia ter escolhido
outro caminho, sem atravessar a Samaria. Teria sido até mais seguro, dadas as
relações tensas entre judeus e samaritanos. Ele, ao contrário, quer passar por
ali e se detém naquele poço precisamente naquela hora! Jesus nos espera e se deixa
encontrar precisamente quando pensamos que já não há esperança para nós. No
antigo Oriente Médio, o poço é um lugar de encontro, onde às vezes se arranjam
casamentos, é um lugar de compromisso. Jesus quer ajudar essa mulher a
compreender onde procurar a verdadeira resposta ao seu desejo de ser amada.
O tema do desejo é fundamental para entender este encontro.
Jesus é o primeiro a manifestar o seu desejo: «Dá-me de beber!» (Jo 4,10).
Para começar um diálogo, Jesus se faz ver frágil, para colocar a outra pessoa à
vontade, para que não se assuste. A sede é muitas vezes, até na Bíblia, a
imagem do desejo. Mas Jesus aqui tem sede sobretudo da salvação daquela mulher.
Diz Santo Agostinho: «Aquele que pede de beber tinha sede da fé dessa mulher» (Homilia 15,
11).
Enquanto Nicodemos foi ao encontro de Jesus à noite, aqui
Jesus encontra a samaritana ao meio-dia, no momento em que há mais luz. Com
efeito, é um momento de revelação. Jesus se dá a conhecer a ela como o Messias
e, além disso, ilumina a sua vida. Ajuda-a a reler de modo novo a sua história,
que é complicada e dolorosa: teve cinco maridos e agora está com um sexto, que
não é seu marido. O número seis não é casual, mas geralmente indica
imperfeição. Talvez seja uma alusão ao sétimo esposo, aquele que finalmente
poderá saciar o desejo desta mulher de ser amada verdadeiramente. E aquele
esposo só pode ser Jesus.
Quando percebe que Jesus conhece a sua vida, a mulher desvia
a conversa para a questão religiosa que dividia judeus e samaritanos. Isto
acontece às vezes também quando rezamos: no momento em que Deus toca a nossa
vida, com os seus problemas, nos perdemos às vezes em reflexões que nos dão a
ilusão de uma oração bem feita. Na realidade erguemos barreiras de proteção. O
Senhor, porém, é sempre maior, e àquela mulher samaritana, a quem - segundo os
esquemas culturais - não deveria sequer dirigir a palavra, oferece a mais
excelsa revelação: fala-lhe do Pai, que deve ser adorado em espírito e verdade.
E quando ela, novamente surpreendida, observa que sobre estas coisas é melhor
esperar o Messias, Ele lhe diz: «Sou eu, que estou falando contigo» (v. 26). É
como uma declaração de amor: Aquele que esperas sou eu, Aquele que pode
finalmente responder ao teu desejo de ser amada.
Naquele momento a mulher corre a chamar os habitantes do
povoado, pois é precisamente da experiência de sentir-se amado que nasce a
missão. E o que poderia ela anunciar senão a sua experiência de ser
compreendida, acolhida, perdoada? É uma imagem que deveria nos fazer refletir
sobre a nossa procura de novas formas de evangelizar.
Tal como uma pessoa apaixonada, a samaritana esquece o seu cântaro
aos pés de Jesus. O peso daquele cântaro sobre sua cabeça, cada vez que
regressava a casa, lhe recordava a sua condição, a sua vida atribulada. Mas
agora o cântaro é colocado aos pés de Jesus. O passado já não é um fardo; ela
está reconciliada. E é assim também para nós: para ir anunciar o Evangelho,
primeiro é preciso depositar o peso da nossa história aos pés do Senhor,
entregar-lhe o fardo do nosso passado. Só pessoas reconciliadas podem anunciar
o Evangelho.
Caros irmãos e irmãs, não percamos a esperança! Ainda que a
nossa história nos pareça pesada, complicada, talvez até mesmo arruinada, temos
sempre a possibilidade de confiá-la a Deus e de recomeçar o nosso caminho. Deus
é misericórdia e está sempre à nossa espera!
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| Jesus e a samaritana (Angelica Kauffmann) |
Fonte: Santa Sé (19 de março e 26 de março de 2025).
Observação: As duas Catequeses acima foram preparadas pelo Papa Francisco e divulgadas pela Santa Sé, uma vez que este se encontrava hospitalizado.
Confira também as demais Catequeses sobre a vida de Jesus a serem publicadas:
Os encontros
3. Zaqueu (Lc 19,1-10)
4. O homem rico (Mc 10,17-22)
As parábolas
5. O pai misericordioso / 6. O semeador (04 de fevereiro)
7. O bom samaritano / 8. Os operários na vinha (11 de fevereiro)
As curas
9. Bartimeu / 10. O paralítico (25 de fevereiro)
11. A hemorroíssa e a filha de Jairo / 12. O surdo (04 de março)


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