quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Vida de Jesus 1

Dando continuidade às Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, após a seção sobre a infância de Jesus, publicaremos as reflexões sobre a vida pública de Jesus, subdivididas em três partes (os encontros, as parábolas e as curas).

Confira nesta postagem, portanto, as primeiras duas meditações sobre os “encontros” de Jesus: com Nicodemos (Jo 3) e com a samaritana (Jo 4).

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 19 de março de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.1. A vida de Jesus - Os encontros: Nicodemos (Jo 3)

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Com esta Catequese começamos a contemplar alguns encontros narrados nos Evangelhos, para compreender o modo como Jesus dá esperança. Com efeito, há encontros que iluminam a vida e dão esperança. Pode acontecer, por exemplo, que alguém nos ajude a ver uma dificuldade ou um problema que estamos vivendo de uma perspectiva diferente; ou pode acontecer que alguém simplesmente nos dê uma palavra que não nos faça sentir sozinhos na dor que estamos atravessando. Podem ocorrer às vezes também encontros silenciosos, nos quais nada é dito, mas esses momentos nos ajudam a retomar o caminho.

O primeiro encontro sobre o qual gostaria de me deter é o de Jesus com Nicodemos, narrado no capítulo 3 do Evangelho de João. Começo por este episódio porque Nicodemos é um homem cuja história mostra que é possível sair das trevas e encontrar a coragem de seguir Cristo.

Jesus e Nicodemos (Henry Ossawa Tanner)

Nicodemos vai ter com Jesus à noite: uma hora incomum para um encontro. Na linguagem de João, as referências temporais têm muitas vezes um valor simbólico: aqui a noite é provavelmente o que está no coração de Nicodemos. É um homem que se encontra na escuridão da dúvida, naquela escuridão que experimentamos quando já não compreendemos o que está acontecendo na nossa vida e não vemos claramente o caminho a seguir.

Se estamos nas trevas, certamente buscamos a luz. E João, no início do seu Evangelho, escreve assim: «A luz verdadeira, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano» (Jo 1,9). Nicodemos, portanto, busca Jesus porque pressente que Ele pode iluminar as trevas do seu coração.

No entanto, o Evangelho nos diz que Nicodemos não consegue compreender imediatamente o que Jesus lhe diz. Vemos assim que há muitos desentendimentos neste diálogo, e também muita ironia, que é uma característica do evangelista João. Nicodemos não compreende o que Jesus lhe diz porque continua a pensar com a sua lógica e as suas categorias. É um homem com uma personalidade bem definida, desempenha um papel público, é um dos chefes dos judeus. Mas provavelmente as contas já não batem para ele. Nicodemos sente que algo já não está funcionando na sua vida. Sente a necessidade de mudar, mas não sabe por onde começar.

Isto acontece a todos nós em algum momento da vida. Se não aceitamos a mudança, se nos fechamos na nossa rigidez, nos nossos hábitos ou nas nossas formas de pensar, corremos o risco de morrer. A vida está na capacidade de mudar para encontrar um novo modo de amar. Com efeito, Jesus fala a Nicodemos de um novo nascimento, que não só é possível, mas é até necessário em certos momentos do nosso caminho. Na verdade, a expressão usada no texto já é em si mesma ambivalente, porque anothen (ἄνωθεν) pode ser traduzida tanto por “do alto” como por “de novo”. Lentamente Nicodemos compreenderá que estes dois significados estão interligados: se permitimos que o Espírito Santo gere uma nova vida em nós, nasceremos de novo. Reencontraremos essa vida, que talvez estivesse se apagando em nós.

Escolhi começar por Nicodemos também porque ele é um homem que, com a sua própria vida, mostra que esta mudança é possível. Nicodemos triunfará: no final, ele estará entre aqueles que vão a Pilatos para pedir o corpo de Jesus (cf. Jo 19,39). Nicodemos finalmente veio à luz, renasceu, e já não precisa estar na noite.

Às vezes as mudanças nos assustam. Por um lado, nos atraem; certas vezes, as desejamos; mas, por outro lado, preferimos permanecer na nossa zona de conforto. Por isso o Espírito nos encoraja a enfrentar esses medos. Jesus recorda a Nicodemos - que é um mestre em Israel - que vos israelitas tiveram medo enquanto caminhavam no deserto. E se fixaram tanto nas suas preocupações que, a certo ponto, esses medos tomaram a forma de serpentes venenosas (cf. Nm 21,4-9). Para serem libertados tinham que olhar para a serpente de bronze que Moisés tinha colocado sobre uma haste, ou seja, tinham que olhar para cima e ficar diante do objeto que representava os seus medos. Só olhando aquilo que nos dá medo no rosto é que podemos começar a ser libertados.

Nicodemos, como todos nós, pode olhar para o Crucificado, Aquele que venceu a morte, a raiz de todos os nossos medos. Levantemos também nós o olhar para Aquele que eles transpassaram, deixemo-nos também nós encontrar por Jesus. N’Ele encontramos a esperança para enfrentar as mudanças da nossa vida e nascer de novo.

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 26 de março de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.2. A vida de Jesus - Os encontros: A samaritana (Jo 4)

Queridos irmãos e irmãs,
Depois de termos meditado sobre o encontro de Jesus com Nicodemos, que tinha ido à sua procura, hoje reflitamos sobre aqueles momentos em que parece que Ele estivesse à nossa espera precisamente ali, naquela encruzilhada da nossa vida. São encontros que nos surpreendem e, no início, talvez fiquemos até um pouco desconfiados: procuramos ser prudentes e compreender o que está acontecendo.

Esta provavelmente foi também a experiência da mulher samaritana, da qual se fala no capítulo 4 do Evangelho de João. Ela não esperava encontrar um homem no poço ao meio-dia, aliás, não esperava encontrar ninguém. Com efeito, ela vai buscar água ao poço em uma hora incomum, quando está muito quente. Talvez essa mulher se envergonhasse da sua vida, talvez se sentia julgada, condenada, incompreendida, e por isso tinha se isolado, rompendo relações com todos.

Para ir da Judeia à Galileia, Jesus poderia ter escolhido outro caminho, sem atravessar a Samaria. Teria sido até mais seguro, dadas as relações tensas entre judeus e samaritanos. Ele, ao contrário, quer passar por ali e se detém naquele poço precisamente naquela hora! Jesus nos espera e se deixa encontrar precisamente quando pensamos que já não há esperança para nós. No antigo Oriente Médio, o poço é um lugar de encontro, onde às vezes se arranjam casamentos, é um lugar de compromisso. Jesus quer ajudar essa mulher a compreender onde procurar a verdadeira resposta ao seu desejo de ser amada.

O tema do desejo é fundamental para entender este encontro. Jesus é o primeiro a manifestar o seu desejo: «Dá-me de beber!» (Jo 4,10). Para começar um diálogo, Jesus se faz ver frágil, para colocar a outra pessoa à vontade, para que não se assuste. A sede é muitas vezes, até na Bíblia, a imagem do desejo. Mas Jesus aqui tem sede sobretudo da salvação daquela mulher. Diz Santo Agostinho: «Aquele que pede de beber tinha sede da fé dessa mulher» (Homilia 15, 11).

Enquanto Nicodemos foi ao encontro de Jesus à noite, aqui Jesus encontra a samaritana ao meio-dia, no momento em que há mais luz. Com efeito, é um momento de revelação. Jesus se dá a conhecer a ela como o Messias e, além disso, ilumina a sua vida. Ajuda-a a reler de modo novo a sua história, que é complicada e dolorosa: teve cinco maridos e agora está com um sexto, que não é seu marido. O número seis não é casual, mas geralmente indica imperfeição. Talvez seja uma alusão ao sétimo esposo, aquele que finalmente poderá saciar o desejo desta mulher de ser amada verdadeiramente. E aquele esposo só pode ser Jesus.

Quando percebe que Jesus conhece a sua vida, a mulher desvia a conversa para a questão religiosa que dividia judeus e samaritanos. Isto acontece às vezes também quando rezamos: no momento em que Deus toca a nossa vida, com os seus problemas, nos perdemos às vezes em reflexões que nos dão a ilusão de uma oração bem feita. Na realidade erguemos barreiras de proteção. O Senhor, porém, é sempre maior, e àquela mulher samaritana, a quem - segundo os esquemas culturais - não deveria sequer dirigir a palavra, oferece a mais excelsa revelação: fala-lhe do Pai, que deve ser adorado em espírito e verdade. E quando ela, novamente surpreendida, observa que sobre estas coisas é melhor esperar o Messias, Ele lhe diz: «Sou eu, que estou falando contigo» (v. 26). É como uma declaração de amor: Aquele que esperas sou eu, Aquele que pode finalmente responder ao teu desejo de ser amada.

Naquele momento a mulher corre a chamar os habitantes do povoado, pois é precisamente da experiência de sentir-se amado que nasce a missão. E o que poderia ela anunciar senão a sua experiência de ser compreendida, acolhida, perdoada? É uma imagem que deveria nos fazer refletir sobre a nossa procura de novas formas de evangelizar.

Tal como uma pessoa apaixonada, a samaritana esquece o seu cântaro aos pés de Jesus. O peso daquele cântaro sobre sua cabeça, cada vez que regressava a casa, lhe recordava a sua condição, a sua vida atribulada. Mas agora o cântaro é colocado aos pés de Jesus. O passado já não é um fardo; ela está reconciliada. E é assim também para nós: para ir anunciar o Evangelho, primeiro é preciso depositar o peso da nossa história aos pés do Senhor, entregar-lhe o fardo do nosso passado. Só pessoas reconciliadas podem anunciar o Evangelho.

Caros irmãos e irmãs, não percamos a esperança! Ainda que a nossa história nos pareça pesada, complicada, talvez até mesmo arruinada, temos sempre a possibilidade de confiá-la a Deus e de recomeçar o nosso caminho. Deus é misericórdia e está sempre à nossa espera! 

Jesus e a samaritana (Angelica Kauffmann)

Fonte: Santa Sé (19 de março e 26 de março de 2025).

Observação: As duas Catequeses acima foram preparadas pelo Papa Francisco e divulgadas pela Santa Sé, uma vez que este se encontrava hospitalizado.

Confira também as demais Catequeses sobre a vida de Jesus a serem publicadas:
Os encontros
3. Zaqueu (Lc 19,1-10) 
4. O homem rico (Mc 10,17-22)
As parábolas
5. O pai misericordioso / 6. O semeador (04 de fevereiro)
7. O bom samaritano / 8. Os operários na vinha (11 de fevereiro)
As curas
9. Bartimeu / 10. O paralítico (25 de fevereiro)
11. A hemorroíssa e a filha de Jairo / 12. O surdo (04 de março)

Nenhum comentário:

Postar um comentário