Há 25 anos, no dia 01 de janeiro de 2001, pouco antes da conclusão do Grande Jubileu, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Nesta mesma ocasião foi celebrado o 34º Dia Mundial da Paz, com o tema “Diálogo entre as culturas para uma civilização do amor e da paz”. Repropomos aqui sua homilia na ocasião:
Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
34º Dia Mundial da Paz
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Segunda-feira, 01 de janeiro de 2001
1. “Os pastores foram às pressas e encontraram Maria e
José, e o Recém-nascido, deitado na manjedoura” (Lc 2,16).
Hoje, Oitava de Natal, a Liturgia nos anima com essas palavras a
caminhar, com novo e consciente ardor, rumo a Belém para adorar o
divino Menino, nascido para nós. Convida-nos a seguir os passos
dos pastores que, ao entrarem na gruta, reconhecem naquele pequeno ser humano, “nascido
de uma mulher, nascido sujeito à Lei” (Gl 4,4), o Todo-poderoso que
se fez um de nós. Ao lado d’Ele, José e Maria são testemunhas silenciosas do
prodígio do Natal. Eis o mistério que também nós, hoje, contemplamos com
admiração: nasceu para nós o Senhor. Maria “deu à luz o Rei que governa o céu e
a terra pelos séculos eternos” (cf. Sedúlio, Antífona de
entrada).
Ficamos extasiados diante da cena que o evangelista nos narra. De
modo particular, detenhamo-nos para contemplar os pastores. Simples
e alegres modelos da busca humana, especialmente no contexto do Grande Jubileu,
eles põem em evidência quais devem ser as condições interiores para encontrar
Jesus.
A desarmante ternura do Menino, a surpreendente pobreza em que Ele
se encontra e a humilde simplicidade de Maria e de José transformam a vida dos
pastores: eles se tornam assim mensageiros de salvação, evangelistas ante
litteram [“precursores”]. Escreve São Lucas: “Os pastores
voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme
lhes tinha sido dito” (Lc 2,20). Partiram felizes e enriquecidos por um
acontecimento que tinha transformado a sua existência. Nas suas palavras encontra-se
o eco de uma alegria interior que se faz cântico: “Voltaram, glorificando e
louvando a Deus”.
2. Também nós, neste Ano Jubilar, nos colocamos a caminho para
encontrar Cristo, o Redentor do homem. Atravessando a Porta Santa,
experimentamos a sua misteriosa presença, graças à qual é dada ao homem a
possibilidade de passar do pecado à graça, da morte à vida. O Filho de Deus,
que se fez homem por nós, permitiu-nos ouvir o poderoso chamado à conversão e
ao amor.
Quantos dons, quantas ocasiões extraordinárias o Grande Jubileu
ofereceu aos fiéis! Na experiência do perdão recebido e concedido, na
recordação dos mártires, na escuta do grito dos pobres do mundo e nos
testemunhos repletos de fé transmitidos pelos nossos irmãos fiéis de todos os
tempos, também nós entrevimos a presença salvífica de Deus na história. Quase
tocamos com a mão o seu amor que renova a face da terra.
Daqui alguns dias se concluirá esse tempo especial de graça. Como
aos pastores que correram para adorá-lo, Cristo pede aos fiéis, aos quais
concedeu a alegria de encontrá-lo, uma corajosa disponibilidade a partir de
novo para anunciar o seu Evangelho, antigo e sempre novo. Convida-os a
vivificar a história e as culturas dos homens com a sua mensagem salvífica.
3. “Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus” (Lc 2,20).
Também nós, encorajados e enriquecidos pela graça jubilar, iniciamos este novo
ano que o Senhor nos concede. As palavras da 1ª leitura, que renovam a bênção
do Criador, nos sirvam de conforto: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor
faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o
seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). O Senhor nos conceda a sua
paz, não como fruto de compromissos humanos, mas como surpreendente efeito do
seu olhar benévolo sobre nós. Eis a paz que invocamos hoje, celebrando o 34º Dia
Mundial da Paz.
Saúdo com grande afeto os ilustres senhores Embaixadores do Corpo
Diplomático acreditado junto à Santa Sé presentes nesta solene Liturgia. Saúdo,
de modo particular, o caro Dom François Xavier Nguyên Van Thuân, Presidente do
Pontifício Conselho “Justiça e Paz” [1], juntamente com os colaboradores do
Dicastério, que tem a tarefa específica de representar a solicitude do Papa e
da Sé Apostólica para a promoção de um mundo mais justo e harmonioso. Saúdo as
Autoridades e quantos quiseram participar deste encontro de oração pela paz. A
todos desejo repropor idealmente a Mensagem para o Dia Mundial da Paz
deste ano, na qual abordei um tema particularmente atual: o diálogo
entre as culturas para uma civilização do amor e da paz.
4. Renovo hoje, neste sugestivo quadro litúrgico, o premente apelo
a cada pessoa de boa vontade a percorrer com confiança e tenacidade o
caminho privilegiado do diálogo. Só assim as riquezas específicas, que
caracterizam a história e a vida dos homens e dos povos, não se perderão, mas, ao
contrário, poderão concorrer para a construção de uma nova era de fraterna
solidariedade. Que o esforço de todos promova uma autêntica cultura da
solidariedade e da justiça, intimamente “ligada ao valor da paz, objetivo
primário de toda sociedade e da convivência nacional e internacional” (Mensagem
para o 34º Dia Mundial da Paz, n. 18).
Isso é ainda mais necessário no atual contexto mundial, que se
tornou complexo devido à difundida mobilidade humana, à comunicação global e ao
encontro nem sempre fácil entre culturas diversas. Ao mesmo tempo, deve ser
reafirmada com vigor a urgência de defender a vida, bem
fundamental da humanidade, pois “não podemos invocar a paz e desprezar a vida”
(ibid., n. 19).
Dirigimos ao Senhor a nossa oração, para que o respeito por esses
valores fundamentais, patrimônio de toda cultura, contribua para a edificação
da almejada civilização do amor e da paz. Obtenha-nos isto Cristo, Príncipe da
Paz, a quem contemplamos na pobreza do presépio.
5. “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e
meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19).
Hoje a Igreja celebra a Solenidade de Maria, Mãe de Deus. Depois
de apresentá-la como aquela que oferece o Menino à solícita busca dos pastores,
o evangelista Lucas nos dá um ícone de Maria, simples e ao mesmo tempo
majestoso. Maria é a mulher de fé, que reservou um lugar para Deus
no seu coração, nos seus projetos, no seu corpo, na sua experiência de esposa e
de mãe. É a mulher fiel, capaz de captar na extraordinária vicissitude do Filho
o advento daquela “plenitude dos tempos” (Gl 4,4) na qual Deus,
escolhendo os caminhos simples da existência humana, decidiu comprometer-se pessoalmente
na obra de salvação.
A fé leva a Virgem Santíssima a percorrer caminhos desconhecidos e
imprevisíveis, conservando tudo no seu coração, ou seja, na intimidade do seu
espírito, para responder com renovada adesão a Deus e ao seu desígnio de amor.
6. No início deste novo ano, é a ela que dirigimos a nossa oração.
Ajuda-nos também a nós, ó Maria, a sempre repensar a nossa
existência com espírito de fé. Ajuda-nos a saber conservar espaços de silêncio
e de contemplação na frenética vida quotidiana. Faz com que nos orientemos
sempre para as exigências da verdadeira paz, dom do Nascimento de Cristo.
A ti, neste primeiro dia de 2001, confiamos as expectativas e as
esperanças de toda a humanidade: “À tua proteção recorremos, Santa Mãe de Deus:
não desprezes as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livra-nos sempre de
todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!” (cf. Liturgia das Horas,
Antífona no final das Completas).
Virgem Mãe de Deus, intercede por nós junto do teu Filho, para que
o seu rosto resplandeça sobre o caminho do novo milênio e cada homem possa
viver na justiça e na paz. Amém!
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| Virgem Maria com o Menino Jesus (Francesco Solimena) |
Nota:
[1] François Xavier Nguyên Van Thuân (†2002), que deu um grande
testemunho de fé durante vários anos de cárcere no Vietnã, seria criado Cardeal
no dia 21 de fevereiro de 2001. Foi declarado Venerável em 2017 e sua causa de
Beatificação permanece aberta.
Fonte: Santa Sé.


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