terça-feira, 23 de junho de 2015

A ação silenciosa do coração: Artigo do Cardeal Sarah

A ação silenciosa do coração

Por Cardeal Robert Sarah - L’Osservatore Romano, 12 de junho de 2015
Cinquenta anos após a sua promulgação pelo Papa Paulo VI, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II será lida? “Sacrosanctum Concilium” não é, de fato, um simples “livro de receitas” da reforma, mas uma verdadeira “Carta Magna” de toda a ação litúrgica.
Com ela, o concílio ecumênico nos dá uma lição magisterial. Na verdade, longe de estar contente com uma abordagem multidisciplinar e exterior, o concílio quer fazer-nos refletir sobre o que a liturgia é em sua essência. A prática da Igreja sempre vem do que Ela recebe e contempla no Apocalipse. O cuidado pastoral não pode ser desligado da doutrina.
Na Igreja, “a ação é ordenada à contemplação” (cfr. N. 2). A Constituição do concílio convida-nos a redescobrir a origem trinitária da ação litúrgica. Com efeito, o concílio estabelece a continuidade entre a missão do Cristo Redentor e a missão litúrgica da Igreja. “Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos” para que “mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica” eles realizem “a obra da salvação”. (N.6).
Operar a liturgia é, portanto, nada mais do que a operação da obra de Cristo. A liturgia em sua essência é “actio Christi”. [É] a obra de Cristo, o Senhor, da “redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus.” (N.5) É Ele quem é o eminente Sacerdote, o verdadeiro sujeito, o verdadeiro protagonista na liturgia (n.7 ). Se este princípio essencial não é aceito, existe o risco de transformar a liturgia em uma obra humana, uma auto-celebração da comunidade.
Em contrapartida, o verdadeiro trabalho da Igreja consiste em inserir-se na ação de Cristo, em unir-se a essa obra que Ele recebeu como uma missão do Pai. Assim, “nos deu a plenitude do culto divino”, pois “sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação” (n.5). A Igreja, Corpo de Cristo, deve, portanto, tornar-se por sua vez um instrumento nas mãos do Verbo.
Este é o sentido último do conceito-chave da Constituição Conciliar: “participatio actuosa”. Tal participação da Igreja consiste em tornar-se o instrumento de Cristo - O Sacerdote, com o objetivo de partilhar de Sua missão trinitária. A Igreja participa ativamente da ação litúrgica de Cristo, na medida em que Ela é seu instrumento. Neste sentido, falar de “uma comunidade celebrante” “não é desprovido de ambiguidade e exige prudência. (Instrução “Redemptoris sacramentum”, n. 42). A “Participatio actuosa” não deve, então, ser concebida como a necessidade de fazer alguma coisa. Sobre este ponto, a doutrina do concílio tem sido frequentemente deformada. Antes, trata-se de permitir que Cristo nos tome e nos ligue ao Seu Sacrifício.
A “Participatio” litúrgica deve, portanto, ser concebida como uma graça de Cristo, que “associa sempre a si a Igreja.” (SC n. 7) Ele é quem tem a iniciativa e a primazia. A Igreja “invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai” (n.7).
O sacerdote deve tornar-se, assim, este instrumento que permite que Cristo transpareça. Assim como nosso Papa Francisco nos lembrou, recentemente, que o celebrante não é apresentador de um espetáculo; ele não deve visar a popularidade, colocando-se diante dos fiéis como seu principal interlocutor. Entrar no espírito do concílio significa, pelo contrário, fazer-se desaparecer - abandonando o centro do palco.
Ao contrário do que às vezes tem sido sustentado, e em conformidade com a Constituição conciliar, é absolutamente apropriado que, durante o ato penitencial, o canto do Glória, as orações e Oração Eucarística, todos – o sacerdote e os fiéis - voltem-se juntos à direção “ad orientem”, expressando a sua vontade de participar da obra de adoração e redenção realizada por Cristo. Esta maneira de agir poderia ser convenientemente realizada nas catedrais onde a vida litúrgica deve ser exemplar (n. 4).
Para ser muito claro, há outras partes da Missa, onde o padre, agindo “in persona Christi Capitis” entra em diálogo com a congregação. Mas este cara-a-cara não tem outro objetivo senão levá-los a um tête-à-tête com Deus, que, através da graça do Espírito Santo, irá torná-lo ‘coração-à-coração”. O concílio oferece outros meios para favorecer a participação: “as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes corporais” (n. 30).
Uma leitura excessivamente rápida e superficial deduziu que os fiéis tinham de ser mantidos constantemente ocupados. A mentalidade ocidental contemporânea, moldada pela tecnologia e enfeitiçada pelos meios de comunicação de massa, queria tornar a liturgia uma obra de pedagogia eficaz e proveitosa. Neste espírito, houve a tentativa de fazer dela um espaço de socialização. Os atores litúrgicos, animados por motivos pastorais, tentam, às vezes, fazer dela uma obra didática, através da introdução de elementos seculares e espetaculares. Não vemos, por acaso, um crescimento de testemunhos, performances e palmas? Eles acreditam que a participação é favorecida desta forma, quando, na realidade, a liturgia está a ser reduzida a uma atividade humana.
“O silêncio não é uma virtude, nem o ruído um pecado, é verdade”, diz Thomas Merton, “mas o tumulto contínuo, confusão e barulho na sociedade moderna ou em certas liturgias eucarísticas africanas são uma expressão da atmosfera de seus pecados mais graves e de sua impiedade e desespero. Um mundo de propaganda e intermináveis argumentações, de inventivas, críticas ou mera tagarelice, é um mundo em que a vida não vale a pena viver. A Missa torna-se um barulho confuso, as orações um ruído exterior ou interior“ (Thomas Merton, “The Sign of Jonah” edição francesa, Albin Michel, Paris, 1955 – 322 p.).
Corremos o risco real de não deixar espaço para Deus em nossas celebrações. Corremos o risco da tentação dos hebreus no deserto. Eles tentaram criar um culto de acordo com sua própria estatura e medida, [mas] não nos esqueçamos que acabaram se prostrando diante do ídolo do Bezerro de Ouro.
É hora de começar a ouvir o concílio. A liturgia é “principalmente culto da majestade divina” (n.33). Isto tem valor pedagógico, na medida em que é totalmente ordenada à glorificação de Deus e ao culto divino. A Liturgia verdadeiramente nos coloca na presença da transcendência divina. A verdadeira participação significa renovar em nós mesmos aquela “maravilha” que São João Paulo II tinha em grande consideração (Ecclesia de Eucharistia n. 6). Esta santa admiração, esta alegre reverência, requer o nosso silêncio diante da Majestade Divina. Frequentemente, esquecemos que o santo silêncio é um dos meios indicados pelo concílio para favorecer a participação.
Se a liturgia é a obra de Cristo, é necessário que o celebrante introduza seus próprios comentários? Devemos lembrar que, quando o Missal autoriza uma intervenção, este não deve se transformar em um discurso secular e humano, um comentário mais ou menos sutil em algo de interesse tópico, nem uma saudação mundana para as pessoas presentes, mas uma breve exortação, como introdução ao Mistério (Apresentação Geral do Missal Romano, n.50). Em relação à homilia, é em si um ato litúrgico, que tem as suas próprias regras.
A “Participatio actuosa” na obra de Cristo pressupõe que deixemos o mundo secular, de modo a entrar na “ação sagrada por excelência” (Sacrosanctum concilium, n.7). De fato, “nós reivindicamos, com uma certa arrogância – participar do divino” (Robert Sarah, “Dieu ou rien”, p 178.).
Em tal sentido, é deplorável que o altar, em nossas igrejas, não seja um lugar estritamente reservada para o Culto Divino, que as roupas seculares sejam usadas nele e que o espaço sagrado não seja claramente definido pela arquitetura. Uma vez que, como ensina o concílio, Cristo está presente na sua Palavra, quando esta for proclamada, é igualmente prejudicial que os leitores não usem roupas adequadas, indicando que eles não estão pronunciando palavras humanas, mas do Verbo Divino.
A liturgia é fundamentalmente mística e contemplativa, e, consequentemente, para além da nossa ação humana; ainda, a “participatio” é uma graça de Deus. Portanto, ela pressupõe da nossa parte uma abertura ao mistério celebrado. Assim, a Constituição recomenda plena compreensão dos ritos (n.34) e ao mesmo tempo estabelece que “os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem “(n.54).
Na realidade, a compreensão dos ritos não é um ato de razão, deixada à sua própria capacidade, que deve aceitar tudo, compreender tudo, dominar tudo. A compreensão dos ritos sagrados é a do “sensus fidei”, que exercita a fé viva através de símbolos e que conhece através da “harmonia”, mais do que pelo conceito. Esse entendimento pressupõe que nos aproximamos do Mistério Divino com humildade.
Mas será que vamos ter a coragem de seguir o concílio até este ponto? Tal leitura, iluminada pela fé, é, no entanto, fundamental para a evangelização. Na verdade, “mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações, para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor ” (n.2). Ela [a leitura da SC] deve deixar de ser um lugar de desobediência às prescrições da Igreja.
Mais especificamente, não pode ser uma ocasião para divisão entre os católicos. As leituras dialéticas da “Sacrosanctum Concilium”, ou seja a hermenêutica da ruptura em um sentido ou outro, não é o fruto de um espírito de fé. O concílio não queria romper com as formas litúrgicas herdados da tradição, mas sim queria aprofundá-las. A Constituição estabelece que “as novas formas como que surjam a partir das já existentes.” (N.23).
Neste sentido, é necessário que aqueles que celebram conforme o “usus antiquior” devam fazê-lo sem qualquer espírito de oposição e, portanto, dentro do espírito da “Sacrosanctum Concilium”. Da mesma forma, seria errado considerar a forma extraordinária do Rito Romano como derivando de outra teologia que não da liturgia reformada. Seria também desejável que o ato penitencial e o Ofertório da “antiquior usus” fosse inserido como um apêndice na próxima edição do Missal [de Paulo VI], com o objetivo de ressaltar que as duas reformas litúrgicas iluminam uma à outra, na continuidade e sem oposição .
Se vivemos com esse espírito, então a liturgia vai deixar de ser um lugar de rivalidade e críticas, em última análise, para nos permitir participar ativamente em na liturgia “celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo”(n.8).


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ângelus: XI Domingo do Tempo Comum - Ano B

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 14 de junho de 2015

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho de hoje é formado por duas parábolas muito breves: a da semente que germina e cresce sozinha e a do grão de mostarda (Mc 4,26-34). Através destas imagens tiradas do mundo rural, Jesus apresenta a eficácia da Palavra de Deus e as exigências do seu Reino, mostrando as razões da nossa esperança e do nosso compromisso na história.

Na primeira parábola a atenção é dada ao fato de que a semente, lançada na terra, ganha raiz e se desenvolve sozinha, quer o camponês durma quer vigie. Ele tem confiança no poder interno da semente e na fertilidade do terreno. Na linguagem evangélica, a semente é símbolo da Palavra de Deus, cuja fecundidade é recordada por esta parábola. Do mesmo modo como a semente humilde se desenvolve na terra, também a Palavra age com o poder de Deus no coração de quem a ouve. Deus confiou a sua Palavra à nossa terra, ou seja, a cada um de nós com a nossa humanidade concreta. Podemos ser confiantes, porque a Palavra de Deus é palavra criadora, destinada a tornar-se «o grão abundante na espiga» (v. 28). Esta Palavra, se for aceite, certamente dará os seus frutos, porque o próprio Deus a faz germinar e maturar através de veredas que nem sempre podemos verificar e de um modo que nós não sabemos (cf. v. 27). Tudo isto faz compreender que é sempre Deus, é sempre Deus quem faz crescer o seu Reino - por isso rezamos tanto para que «venha a nós o vosso Reino» - é Ele quem o faz crescer, o homem é seu humilde colaborador, que contempla e rejubila pela criadora ação divina e aguarda paciente os seus frutos.

A Palavra de Deus faz crescer, dá vida. E aqui gostaria de vos recordar mais uma vez a importância de ter o Evangelho, a Bíblia, ao alcance - o Evangelho pequeno na bolsa, no bolso - e de nos alimentarmos todos os dias com esta Palavra viva de Deus: ler todos os dias um excerto do Evangelho, um trecho da Bíblia. Nunca vos esqueçais disto, por favor. Porque é esta a força que faz germinar em nós a vida do Reino de Deus.

A segunda parábola utiliza a imagem do grão de mostarda. Apesar de ser a mais pequenina de todas as sementes, está cheia de vida e cresce até se tornar «a planta mais frondosa do horto» (Mc 4,32). É assim o Reino de Deus: uma realidade humanamente pequena e de aparência irrelevante. Para fazer parte dele é preciso ser pobre de coração; não confiar nas próprias capacidades, mas no poder do amor de Deus; não agir para ser importante aos olhos do mundo, mas precioso aos olhos de Deus, que tem predileção pelos simples e humildes. Quando vivemos assim, através de nós irrompe a força de Cristo e transforma o que é pequenino e modesto numa realidade que faz fermentar toda a massa do mundo e da história.

Obtemos destas duas parábolas um ensinamento importante: o Reino de Deus requer a nossa colaboração, mas é sobretudo iniciativa e dom do Senhor. A nossa obra frágil, aparentemente pequenina face à complexidade dos problemas do mundo, se for inserida na de Deus não receia as dificuldades. A vitória do Senhor é certa: o seu amor fará germinar e crescer todas as sementes de bem presentes na terra. Isto abre-nos à confiança e à esperança, não obstante os dramas, as injustiças, os sofrimentos que encontramos. A semente do bem e da paz germina e desenvolve-se, porque o amor misericordioso de Deus a faz amadurecer.

A Virgem Santa, que acolheu como «terra fecunda» a semente da Palavra divina, nos ampare nesta esperança que nunca nos desilude.


Fonte: Santa Sé.

Fotos do Corpus Christi em Lisboa

No último dia 07 de junho o Cardeal Manuel José Macário do Nascimento Clemente, Patriarca de Lisboa, celebrou na Catedral Patriarcal de Santa Maria Maior a Santa Missa da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).

No final da Missa, que foi celebrada pela manhã, Dom Clemente expôs o Santíssimo Sacramento. Os fieis permaneceram em adoração durante o dia e no fim da tarde foi realizada a procissão eucarística.

Procissão de entrada
Incensação do altar
Ritos iniciais
Liturgia da Palavra 
Evangelho

quarta-feira, 17 de junho de 2015

XIX Catequese do Papa sobre a Família

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 10 de Junho de 2015
A Família (19): Família e doença

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Continuemos com as catequeses sobre a família, e nesta audiência gostaria de me referir a um aspecto muito comum na vida das nossas famílias, a doença. Trata-se de uma experiência da nossa fragilidade, que vivemos principalmente em família, desde a infância e depois sobretudo na velhice, quando chegam os achaques. No âmbito dos vínculos familiares, a enfermidade das pessoas que amamos é padecida com um «suplemento» de dor e de angústia. É o amor que nos faz sentir este «suplemento». Muitas vezes para um pai e uma mãe é mais difícil suportar o mal de um filho, de uma filha, do que uma dor pessoal. Podemos dizer que a família foi desde sempre o «hospital» mais próximo. Ainda hoje, em muitas regiões do mundo, o hospital é um privilégio para poucos, e muitas vezes fica distante. São a mãe, o pai, os irmãos, as irmãs, as avós que garantem os cuidados e ajudam a curar.
Nos Evangelhos, muitas páginas narram os encontros de Jesus com os doentes e o seu compromisso por cuidar deles. Ele apresenta-se publicamente como alguém que luta contra a enfermidade e que veio para curar o homem de todos os males: o mal do espírito e o mal do corpo. É verdadeiramente comovedora a cena evangélica recém-narrada pelo Evangelho de Marcos. Reza assim: «À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e endemoninhados» (1,32). Se penso nas grandes cidades contemporâneas, pergunto-me onde estão as portas ao limiar das quais levar os enfermos, na esperança de que sejam curados! Jesus nunca se subtraiu aos seus cuidados. Jamais passou além, nunca virou o rosto para o outro lado. E quando um pai ou uma mãe, ou então até simplesmente pessoas amigas traziam um doente à sua presença para que o tocasse e curasse, não perdia tempo; a cura vinha antes da lei, até daquela tão sagrada como o descanso do sábado (cf. Mc 3,1-6). Os doutores da lei repreendiam Jesus porque Ele curava no dia de sábado, fazia o bem no dia de sábado. Mas o amor de Jesus consistia em dar a saúde, em fazer o bem: e isto vem sempre em primeiro lugar!
Jesus manda os discípulos realizar a obra que Ele mesmo faz, conferindo-lhes o poder de curar, ou seja, de se aproximar dos enfermos e de cuidar deles até ao fim (cf. Mt 10,1). Devemos ter presente aquilo que Ele disse aos discípulos no episódio do cego de nascença (cf. Jo 9,1-5). Os discípulos - com o cego ali em frente! - debatiam sobre quem tivesse pecado por ter nascido cego, ele ou os seus pais, para provocar a sua cegueira. O Senhor disse claramente: nem ele, nem os seus pais; é assim para que nele se manifestem as obras de Deus. E curou-o. Eis a glória de Deus! Eis a tarefa da Igreja! Ajudar os doentes, sem se perder em bisbilhotices, assistir sempre, consolar, aliviar, estar próximo dos doentes; esta é a sua tarefa.
A Igreja convida à oração incessante pelos nossos entes queridos, atingidos pelo mal. A prece pelos doentes nunca deve faltar. Aliás, temos que rezar ainda mais, tanto pessoalmente como em comunidade. Pensemos no episódio evangélico da mulher cananeia (cf. Mt 15,21-28). Trata-se de uma mulher pagã, não pertence ao povo de Israel, mas é uma pagã que suplica a Jesus a cura da própria filha. Para pôr à prova a sua fé, Jesus primeiro responde duramente: «Não posso, devo pensar primeiro nas ovelhas de Israel!». A mulher não desiste - quando pede ajuda para a sua criatura, uma mãe nunca cede; todos nós sabemos que as mães lutam pelos seus filhos - e responde: «Até os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos!», como se dissesse: «Trata-me pelo menos como uma cachorrinha!». Então, Jesus diz-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu desejas» (v. 28).
Diante da doença, até em família surgem dificuldades, por causa da debilidade humana. Mas em geral o tempo da enfermidade faz aumentar a força dos vínculos familiares. E penso como é importante educar desde crianças os filhos para a solidariedade na hora da doença. Uma educação que mantenha à distância a sensibilidade pela enfermidade humana torna árido o coração. E leva os jovens a ser «anestesiados» em relação ao sofrimento do próximo, incapazes de se confrontar com o sofrimento e de viver a experiência do limite. Quantas vezes nós vemos chegar ao trabalho um homem, uma mulher com o rosto cansado, com uma atitude fatigada, e quando lhe perguntamos: «O que acontece?», responde: «Eu dormi só duas horas, porque em casa nos revezamos para estar próximos do filho, da filha, do doente, do avô, da avó». E o dia continua com o trabalho. São coisas heróicas, é a heroicidade das famílias! Estas formas de heroicidade escondida verificam-se com ternura e com coragem, quando em casa alguém está doente.
A debilidade e o sofrimento dos nossos afetos mais queridos e mais sagrados podem ser, para os nossos filhos e os nossos netos, uma escola de vida - é importante educar os filhos, os netos, para que compreendam esta proximidade na doença em família - e tornam-se tal quando os momentos de enfermidade são acompanhados pela oração e pela proximidade carinhosa e cheia de esmero dos familiares. A comunidade cristã sabe bem que, na prova da doença, a família não deve ser deixada sozinha. E temos que dar graças ao Senhor pelas lindas experiências de fraternidade eclesial que ajudam as famílias a atravessar o árduo momento da dor e do sofrimento. Esta proximidade cristã, de uma família em relação à outra, é um verdadeiro tesouro para a paróquia; um tesouro de sabedoria, que assiste as famílias nas fases difíceis, levando-as a compreender o Reino de Deus melhor do que muitos discursos! São carícias de Deus!


Fonte: Santa Sé

domingo, 14 de junho de 2015

Ângelus: Corpus Christi - Ano B

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 07 de junho de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Celebra-se hoje em muitos países, entre os quais a Itália, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, ou, segundo a expressão latina, mais conhecida, a Solenidade do Corpus Christi.

O Evangelho apresenta a narração da instituição da Eucaristia, feita por Jesus durante a Última Ceia, no cenáculo de Jerusalém. Na vigília da sua morte redentora na cruz, Ele realizou o que tinha predito: «Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que deverei dar pela vida do mundo é a minha carne... Aquele que come a minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e Eu nele» (Jo 6,51.56). Jesus toma nas mãos o pão e diz: «Tomai, isto é o meu corpo» (Mc 14,22). Com este gesto e com estas palavras, Ele atribui ao pão uma função que já não é a de simples alimento físico, mas de tornar presente a sua Pessoa no meio da comunidade dos crentes.

A Última Ceia representa o ponto de chegada de toda a vida de Cristo. Não é apenas antecipação do seu sacrifício que se cumprirá na cruz, mas também síntese de uma existência oferecida pela salvação da humanidade inteira. Por conseguinte, não é suficiente afirmar que Jesus está presente na Eucaristia, mas é necessário ver nela a presença de uma vida oferecida e participar nela. Quando tomamos e comemos aquele Pão, somos associados à vida de Jesus, entramos em comunhão com Ele, comprometemo-nos a realizar a comunhão entre nós, a transformar a nossa vida em dom, sobretudo aos mais pobres.

A festa de hoje evoca esta mensagem solidária e incentiva-nos a aceitar o seu íntimo convite à conversão e ao serviço, ao amor e ao perdão. Estimula-nos a tornarmo-nos, com a vida, imitadores daquilo que celebramos na liturgia. Cristo, que nos alimenta sob as espécies consagradas do pão e do vinho, é o mesmo que vem ao nosso encontro nos acontecimentos diários; está no pobre que estende a mão, no sofredor que implora ajuda, no irmão que pede a nossa disponibilidade e aguarda o nosso acolhimento. Está na criança que nada sabe de Jesus, da salvação, que não tem a fé. Está em cada ser humano, até no mais pequenino e indefeso.

A Eucaristia, fonte de amor para a vida da Igreja, é escola de caridade e de solidariedade. Quem se alimenta do Pão de Cristo não pode ficar indiferente diante de quantos não têm o pão de cada dia. E hoje, sabemo-lo, é um problema cada vez mais grave.

A festa do Corpus Christi inspire e alimente cada vez mais em cada um de nós o desejo e o compromisso por uma sociedade acolhedora e solidária. Deponhamos estes auspícios no coração da Virgem Maria, Mulher eucarística. Que ela suscite em todos a alegria de participar na Santa Missa, sobretudo aos domingos, e a coragem jubilosa de testemunhar a caridade infinita de Cristo.


Depois do Ângelus:

Amados irmãos e irmãs!
Leio acolá: Bem-vindo! Obrigado, porque ontem fui a Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, como peregrino de paz e de esperança. Sarajevo é uma cidade símbolo. Durante séculos foi lugar de convivência entre povos, religiões, a ponto de ser chamada «Jerusalém do Ocidente!». No passado recente tornou-se símbolo das destruições da guerra. Agora está a decorrer um bom processo de reconciliação, e eu fui lá sobretudo para isto: encorajar este caminho de convivência pacífica entre populações diversas; um caminho cansativo, difícil, mas possível! E estão a fazê-lo bem! Renovo o meu agradecimento às Autoridades e a todos os habitantes o caloroso acolhimento. Agradeço à querida comunidade católica, à qual quis levar o afeto da Igreja universal e agradeço em particular também a todos os fiéis: ortodoxos, muçulmanos, judeus e os de outras minorias religiosas. Apreciei o compromisso de colaboração e solidariedade entre estas pessoas que pertencem a religiões diversas, estimulando todos a levar por diante a obra de reconstrução espiritual e moral da sociedade. Trabalham juntos como verdadeiros irmãos. O Senhor abençoe Sarajevo e a Bósnia Herzegovina.

Fonte: Santa Sé.

Fotos da Missa do Papa em Sarajevo

No último dia 06 de junho o Papa Francisco celebrou a Santa Missa pela paz e reconciliação no estádio Koševo em Sarajevo, durante sua viagem á Bósnia-Herzegovina).

Pouco antes da celebração a férula papal (modelo de Scorzelli) quebrou-se, tendo sido emendada com fita adesiva para a Missa.

O Santo Padre foi assistido por Monsenhores Guido Marini e Vincenzo Peroni.

Procissão de entrada

Nota-se a férula emendada com fita adesiva
Incensação do altar

Homilia do Papa na Missa em Sarajevo

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO A SARAJEVO
(BÓSNIA-HERZEGÓVINA)
HOMILIA DO SANTO PADRE
Estádio Koševo de Sarajevo
Sábado, 6 de Junho de 2015

Amados irmãos e irmãs!
Nas leituras bíblicas que ouvimos, ressoou várias vezes a palavra «paz». Palavra profética por excelência! Paz é o sonho de Deus, é o projecto de Deus para a humanidade, para a história, com toda a criação. E é um projecto que encontra sempre oposição por parte do homem e por parte do maligno. Também no nosso tempo, a aspiração pela paz e o compromisso de a construir colidem com o facto dos numerosos conflitos armados existentes no mundo. É uma espécie de terceira guerra mundial travada «aos pedaços»; e, no contexto da comunicação global, sente-se um clima de guerra.
Há quem queira deliberadamente criar e fomentar este clima, de modo particular aqueles que procuram o conflito entre culturas e civilizações diferentes e também quantos, para vender armas, especulam sobre as guerras. Mas a guerra significa crianças, mulheres e idosos nos campos de refugiados; significa deslocamentos forçados; significa casas, estradas, fábricas destruídas; significa sobretudo tantas vidas destroçadas. Bem o sabeis vós, que experimentastes isto mesmo precisamente aqui: quanto sofrimento, quanta destruição, quanta tribulação! Hoje, amados irmãos e irmãs, desta cidade ergue-se mais uma vez o grito do povo de Deus e de todos os homens e mulheres de boa vontade: Nunca mais a guerra!
Dentro deste clima de guerra salienta-se, como um raio de sol que atravessa as nuvens, a palavra de Jesus no Evangelho: «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Trata-se dum apelo sempre actual, que vale para cada geração. Jesus não diz «Felizes os pregadores de paz»: todos são capazes de a proclamar, até de maneira hipócrita ou mesmo enganadora. Não. Ele diz: «Felizes ospacificadores», isto é, aqueles que a fazem. Fazer a paz é um trabalho artesanal: requer paixão, paciência, experiência, tenacidade. Felizes são aqueles que semeiam paz com as suas acções diárias, com atitudes e gestos de serviço, de fraternidade, de diálogo, de misericórdia... Estes sim, «serão chamados filhos de Deus», porque Deus semeia paz, sempre, por todo o lado; na plenitude dos tempos, semeou no mundo o seu Filho, para que tivéssemos a paz! Fazer a paz é um trabalho que se deve realizar todos os dias, passo a passo, sem nunca nos cansarmos.
E como se faz, como se constrói a paz? Recordou-no-lo, de forma essencial, o profeta Isaías: «A paz será obra da justiça» (32, 17). A frase «opus iustitiae pax» – segundo a versão da «Vulgata» – tornou-se um lema célebre, profeticamente adoptado pelo próprio Papa Pio XII. A paz é obra da justiça. Também aqui falamos, não duma justiça declamada, teorizada, planificada, mas da justiça praticada, vivida. E o Novo Testamento ensina-nos que o pleno cumprimento da justiça é amar o próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22, 39; Rom 13, 9). Quando, ajudados pela graça de Deus, seguimos este mandamento, como mudam as coisas! Porque mudamos nós! Aquela pessoa, aquele povo que eu via como inimigo, na realidade tem o meu próprio rosto, o meu próprio coração, a minha própria alma. Temos o mesmo Pai nos Céus. Então a verdadeira justiça é fazer àquela pessoa, àquele povo, o mesmo que eu queria que fosse feito a mim, ao meu povo (cf. Mt 7, 12).
São Paulo, na segunda Leitura, indicou-nos as atitudes necessárias para fazer a paz: «Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também» (Col 3, 12-13).
Eis aqui as atitudes para ser «artesãos» de paz no dia a dia, onde quer que vivamos. Não nos iludamos, porém, de que isto dependa só de nós; cairíamos num moralismo ilusório. A paz é dom de Deus, não em sentido mágico, mas porque Ele, com o seu Espírito, pode imprimir estas atitudes nos nossos corações e na nossa carne, e fazer de nós verdadeiros instrumentos da sua paz. E, lendo em profundidade, o Apóstolo diz que a paz é dom de Deus, porque é fruto da sua reconciliação connosco. Somente se o homem se deixar reconciliar com Deus, é que pode tornar-se um obreiro de paz.
Amados irmãos e irmãs, hoje peçamos juntos ao Senhor, por intercessão da Virgem Maria, a graça de ter um coração simples, a graça da paciência, a graça de lutar e trabalhar pela justiça, de ser misericordiosos, de trabalhar pela paz, de semear a paz e não guerra e discórdia. Este é o caminho que torna felizes, que torna bem-aventurados.



Fonte: Santa Sé