Vigília Pascal na Noite Santa (Ano A)
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 04 de abril de 2026
«Esta noite (...) dissipa o ódio e dobra os poderosos, enche de luz e
paz os corações» (Precônio Pascal).
Assim, queridos irmãos e irmãs, no início desta celebração, o diácono
exaltou a luz de Cristo Ressuscitado, simbolizada no Círio Pascal. A partir
deste único Círio todos acendemos as nossas velas e, cada um portando uma
pequena chama tomada do mesmo fogo, iluminamos esta grande Basílica. É o sinal
da luz pascal, que nos une na Igreja como lâmpadas para o mundo. À proclamação
do diácono respondemos “Amém”, afirmando o nosso compromisso de abraçar esta
missão, e daqui a pouco repetiremos o nosso “sim” renovando as Promessas
Batismais.
Caríssimos, esta é uma Vigília repleta de luz, a mais antiga da
tradição cristã, conhecida como «a mãe de todas as vigílias». Nela revivemos o
memorial da vitória do Senhor da vida sobre a morte e sobre os infernos.
Fazemo-lo depois de ter percorrido, nos últimos dias, como em uma única grande
celebração, os mistérios da Paixão do Deus que por nós se fez «homem coberto de
dores», «desprezado como o último dos mortais» (Is 53,3), torturado
e crucificado.
Existe caridade maior? Existe gratuidade mais completa? O Ressuscitado
é o próprio Criador do universo que, como nos primórdios da história nos deu a
existência a partir do nada, assim também na cruz, para nos mostrar o seu amor
sem limites, nos deu a vida.
A 1ª leitura, com o relato das origens, no-lo recordou. «No princípio
Deus criou o céu e a terra» (Gn 1,1), tirando do caos o cosmos, da
desordem a harmonia, e confiando a nós, criados à sua imagem e semelhança, a
tarefa de sermos seus guardiões. E mesmo quando, com o pecado, o homem não
correspondeu a esse projeto, o Senhor não o abandonou, mas lhe revelou de forma
ainda mais surpreendente, no perdão, o seu rosto misericordioso.
O «santo mistério desta noite», portanto, afunda suas raízes também lá
onde se consumou o primeiro fracasso da humanidade, e se estende ao longo dos
séculos como caminho de reconciliação e de graça.
A Liturgia nos propôs algumas etapas desse caminho através dos textos
sagrados que acabamos de escutar. Recordou-nos como Deus deteve a mão de
Abraão, prestes a sacrificar o seu filho Isaac, para nos indicar que não quer a
nossa morte, mas antes que nos consagremos a ser, nas suas mãos, membros vivos
de uma descendência de salvos (cf. Gn 22,11-12.15-18).
Da mesma forma, nos convidou a refletir sobre como o Senhor libertou os
israelitas da escravidão do Egito, fazendo do mar, lugar de morte e obstáculo
intransponível, a porta de entrada para o início de uma vida nova e livre. E a
mesma mensagem ressoou como um eco nas palavras dos Profetas, nas quais ouvimos
os louvores do Senhor como esposo que chama e reúne (cf. Is 54,5-7),
fonte que sacia, água que fecunda (cf. Is 55,1.10), luz
que mostra o caminho da paz (cf. Br 3,14), Espírito que
transforma e renova os corações (Ez 36,26).
Em todos esses momentos da história da salvação vimos como Deus, diante
da dureza do pecado que divide e mata, responde com a força do amor que une e
restitui a vida. Recordamo-los juntos, intercalando a narrativa com salmos e
orações, para lembrarmos que, pela Páscoa de Cristo, «sepultados com Ele na
morte (...) também nós levemos uma vida nova (...) mortos para o pecado e vivos
para Deus, em Jesus Cristo» (Rm 6,4.11), consagrados no Batismo ao
amor do Pai, unidos na comunhão dos santos, feitos pela graça pedras vivas para
a construção do seu Reino (cf. 1Pd 2,4-5).
Nessa perspectiva lemos o relato da Ressurreição, que acabamos de
ouvir no Evangelho segundo Mateus. Na manhã de Páscoa, as mulheres,
vencendo a dor e o medo, se puseram a caminho. Queriam ir ao túmulo de Jesus.
Esperavam encontrá-lo selado, com uma grande pedra à entrada e soldados a
guardá-lo. Isto é o pecado: uma barreira pesadíssima que nos fecha e nos separa
de Deus, tentando fazer morrer em nós as suas Palavras de esperança. Maria
Madalena e a outra Maria, porém, não se deixaram intimidar. Foram ao sepulcro
e, graças à sua fé e ao seu amor, foram as primeiras testemunhas da
Ressurreição. No terremoto e no anjo, sentado sobre a pedra derrubada, viram o
poder do amor de Deus, mais forte do que qualquer força do mal, capaz de
“dissipar o ódio” e “dobrar os poderosos”. O homem pode matar o corpo, mas a
vida do Deus do amor é vida eterna, que vai além da morte e que nenhum túmulo
pode aprisionar. Assim, o Crucificado reinou a partir da cruz, o anjo se sentou
sobre a pedra e Jesus se apresentou a elas vivo, dizendo: « Alegrai-vos!» (Mt 28,9).
Hoje, caríssimos, é esta também a nossa mensagem ao mundo, o encontro
que queremos testemunhar, com as palavras da fé e com as obras da caridade,
cantando com a vida o “Aleluia” que proclamamos com os lábios (cf. Santo
Agostinho, Sermão 256, 1). Como as mulheres, que correram a levar o
anúncio aos irmãos, também nós queremos partir, esta noite, desta Basílica,
para levar a todos a boa-nova de que Jesus ressuscitou e que, com a sua força,
ressuscitados com Ele, também nós podemos dar vida a um mundo novo, de paz, de
unidade, como «multidão de homens e, ao mesmo tempo, (...) um único homem, porque,
embora os cristãos sejam muitos, um só é o Cristo» (Santo Agostinho, Enarrationes
in Psalmos, 127,3).
A essa missão se consagram os irmãos e irmãs aqui presentes,
provenientes de várias partes do mundo, que daqui a pouco receberão o Batismo.
Após o longo caminho do catecumenato, hoje renascem em Cristo para ser novas
criaturas (cf. 2Cor 5,17), testemunhas do Evangelho. A
eles, e a todos nós, repetimos o que Santo Agostinho dizia aos cristãos do seu
tempo: «Anunciai o Cristo, semeai (...), espalhai por toda a parte o que
concebestes no vosso coração» (Sermão 116, 23-24).
Irmãos, irmãs, também nos nossos dias não faltam sepulcros a abrir, e
muitas vezes as pedras que os fecham são tão pesadas e bem vigiadas que parecem
inamovíveis. Algumas oprimem o coração do homem, como a desconfiança, o medo, o
egoísmo, o rancor; outras, consequência daquelas interiores, destroem os
vínculos entre nós, como a guerra, a injustiça, o fechamento entre povos e
nações. Não nos deixemos paralisar por elas! Tantos homens e mulheres, ao longo
dos séculos, com a ajuda de Deus, removeram essas pedras, talvez com grande
esforço e por vezes à custa da própria vida, mas com frutos de bem dos quais
ainda hoje nos beneficiamos. Não são personagens inacessíveis, mas pessoas como
nós que, fortalecidas pela graça do Ressuscitado, na caridade e na verdade,
tiveram a coragem de falar, como diz o Apóstolo Pedro, «com palavras de Deus» e
de agir «com capacidade proporcionada por Deus, para que, em todas as coisas,
Deus seja glorificado» (1Pd 4,11).
Deixemo-nos inspirar pelo seu exemplo e, nesta Noite Santa, façamos
nosso o seu empenho, para que, em toda a parte e sempre, cresçam e floresçam no
mundo os dons pascais da concórdia e da paz.
Fonte: Santa Sé.


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