quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

A história do culto a São José (1)

“José era justo” (Mt 1,19)

Nas últimas semanas publicamos aqui em nosso blog um estudo sobre o culto a São João Batista, o último e maior dos Profetas. Complementando este estudo, analisaremos agora o culto a São José, o último e maior dos Patriarcas.

Nesta primeira parte analisaremos sua presença nas celebrações litúrgicas em geral, enquanto na próxima postagem trataremos das suas celebrações específicas: 19 de março e 01 de maio.

São José está em destaque desde o último dia 08 de dezembro, com a publicação da Carta Apostólica Patris corde (Com coração de pai) do Papa Francisco e a concessão de indulgências por ocasião dos 150 anos da sua proclamação como Padroeiro da Igreja Universal.


1. Uma breve introdução ao culto de São José

Na postagem sobre São João Batista, vimos como seu culto teve desde cedo um alcance universal. O mesmo não se pode dizer, porém, de São José: seu culto é, como veremos, relativamente recente na história da Liturgia.

O Cardeal Schuster, em seu Liber Sacramentorum, assim como Mario Righetti em sua Historia de la Liturgia, analisam a precedência que o Batista obteve em relação a José. Da reflexão de Schuster podemos colher três motivos: a “bula de canonização” do Batista assinada pelo próprio Jesus - “De todos os homens que já nasceram, nenhum é maior que João” (Mt 11,11; Lc 7,28); sua ampla presença nos Evangelhos; e o seu  martírio (no início da Igreja os únicos santos venerados eram os mártires).

Apesar do seu papel singular na história da salvação como esposo de Maria e pai nutrício de Jesus, José é uma figura muito discreta nos Evangelhos: aparece poucas vezes e nunca chega a tomar a palavra. Desaparece após os relatos de infância, salvo nas menções a Jesus como “filho de José” (Lc 4, 22) ou “filho do carpinteiro” (Mt 13,55) [1].

Os textos apócrifos tentam “preencher as lacunas”, como o Proto-Evangelho de Tiago (séc. II) e a História de José, o Carpinteiro (séc. VI-VII). Estes, porém, tiveram mais influência sobre o Oriente: seus manuscritos mais antigos são todos em línguas orientais, como o copta e o siríaco, e as cópias em latim vieram muito depois.

O culto a São José no Ocidente seria promovido a partir do século XV pelos franciscanos, especialmente São Bernardino de Sena (1380-1444) e o Beato Bernardino de Feltre (1439-1494), ambos na Itália; pelos carmelitas e pelo teólogo Jean Gerson (1363-1429), Chanceler da Universidade de Paris.

São Bernardino de Sena

Porém, será apenas com os Papas dos séculos XIX e XX que São José ganharia um culto universal. O Beato Pio IX (1846-1878), através do Decreto Quemadmodum Deus, de 08 de dezembro de 1870, atendendo ao pedido feito por alguns Bispos durante o Concílio Vaticano I, proclamou São José como Patrono da Igreja Universal: assim como cuidou do Cristo-Cabeça, cabe a ele o cuidado do seu Corpo, que é a Igreja.

Beato Pio IX

Em seguida, seu sucessor Leão XIII (1878-1903), escreveu em 15 de agosto de 1889 a Encíclica Quamquam Pluries, promovendo a devoção a São José e compondo uma oração em sua honra, a ser recitada no final do rosário.

São Pio X (1903-1914) aprovou em 1909 a Ladainha de São José, sobre a qual falaremos adiante; Bento XV (1914-1922) aprovou em 1919 o Prefácio de São José, sendo então o único santo a possuir um prefácio próprio; Pio XII (1939-1958) instituiu em 1955 a Memória de São José Operário (que trataremos na próxima postagem).

São João XXIII (1958-1963), através da Carta Apostólica Le Voci, de 19 de março de 1961, confiou a São José o patrocínio do Concílio Vaticano II. Por fim, São João Paulo II (1978-2005), dedicou-lhe a Exortação Apostólica Redemptoris Custos (promulgada a 15 de agosto de 1989).

2. A presença de São José nas celebrações litúrgicas

a) Advento

Juntamente com João Batista, José está entre as “figuras-modelo” do Advento elencadas por Augusto Bergamini: “José é o anel de conjunção que, através de Davi, de quem descende, une Cristo à ‘grande promessa’, isto é, a Abraão” [2].

Como indica o n. 93 do Elenco das Leituras da Missa, o Evangelho do IV Domingo do Advento refere-se “aos acontecimentos que preparam de perto o nascimento do Senhor” [3]. A presença de José é destacada no IV Domingo do ano A, através da perícope de Mt 1,18-24, o relato mateano da “origem de Jesus Cristo”, onde José é o destinatário do anúncio do anjo em um sonho [4], o que remete a outros patriarcas, como Jacó, que sonha com os anjos e a escada para o céu (Gn 28,10-19).

Nos últimos dias antes do Natal, quando novamente “leem-se os acontecimentos que preparam imediatamente o nascimento do Senhor” [5], propõe-se, no dia 17 de dezembro, a genealogia de Jesus, na qual José aparece como último elo da corrente (Mt 1,1-17); no dia 18, por sua vez, retoma-se o “sonho de José” (Mt 1,18-24).

Ainda sobre o Advento, vale recordar a Festa do anúncio a São José do Rito Ambrosiano (próprio da Arquidiocese de Milão), no dia 16 de dezembro. Esta antecede os dias de preparação próxima para o Natal (17 a 24 de dezembro).

O sonho de José (Batistério de Florença)

b) Natal

Fazendo a ponte entre o Advento e o Natal, na Missa da Vigília desta solenidade se propõe novamente o Evangelho da genealogia de Jesus e o anúncio do anjo a José (Mt 1,1-25). Porém, essa Missa raramente é celebrada, sendo “eclipsada” pela Missa da Noite (com o Evangelho de Lc 2,1-14).

Ainda nesse Tempo, São José aparece naturalmente na Festa da Sagrada Família, no domingo após o Natal (ou no dia 30 de dezembro, quando o Natal cai no domingo).

Dentre os Evangelhos dessa festa, merece destaque novamente o ano A, com a leitura de Mt 2,13-15.19-23, a fuga e o retorno do Egito, onde José é destacado. Nos Evangelhos do ano B (Lc 2,22-40: a apresentação de Jesus no templo) e do ano C (Lc 2,41-52: Jesus entre os doutores), José é apenas mencionado.

No Rito Bizantino, o Patriarca está diretamente ligado ao Natal: o domingo anterior ao Natal é o “Domingo da genealogia”, enquanto o domingo seguinte  é a celebração de José junto com seu antepassado, o rei Davi, como canta o tropárion desse dia:

“Ó José, anuncia a Davi, ancestral do Senhor, os prodígios: viste a Virgem grávida, glorificaste com os Pastores, adoraste com os Magos e foste avisado pelo Anjo. Intercede perante o Cristo Deus pela salvação de nossas almas!” [6].

Cabe mencionar ainda a Festa dos “Esponsais” de Maria e José (Desponsatione B. Mariae Virginis cum S. Joseph), que em alguns calendários locais era celebrada no dia 23 de janeiro, após a Festa da Sagrada Família (então no domingo após a Epifania). A festa do casamento de Maria e José foi suprimida no Missale Romanum de 1962.

O casamento da Virgem Maria e de São José
(Bartolomé Esteban Murillo - séc. XVII)

c) Oração Eucarística:

Uma vez mencionado o Missale Romanum de 1962, promulgado por São João XXIII, cabe ressaltar o acréscimo de São José no Cânon Romano, na época a única Oração Eucarística do Rito Romano.

Como vimos na postagem sobre João Batista, o Cânon traz dois grupos de santos: no Communicantes temos a Virgem Maria seguida dos doze Apóstolos e doze Mártires; e, no Nobis quoque, o Batista seguido de sete homens e sete mulheres.

A inserção de São José no Communicantes está diretamente relacionada ao seu papel de esposo de Maria. Podemos até dizer que os dois compõem uma só invocação, afinal, uma vez que se casaram, “já não são dois, mas sim uma só carne” (Mt 19,6):

“Em comunhão com toda a Igreja, veneramos a sempre virgem Maria, mãe de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo; e também São José, esposo de Maria...” (Missal Romano, p. 470).

No final do seu pontificado, o Papa Bento XVI desejava inserir o nome de São José também nas outras três Orações Eucarísticas principais do Rito Romano (II, III e IV), o que acabou sendo feito pelo Papa Francisco, com o Decreto Paternas vices de 01 de maio de 2013.

d) Ladainhas e piedade popular:

Na Liturgia, o importante papel de José é reforçado por sua invocação em todas as versões atuais da Ladainha de Todos os Santos (Vigília Pascal, Batismo, Ordenações, Profissão religiosa, etc.), logo após João Batista e antes dos Apóstolos. Ele é mencionado também, após a Virgem Maria, na “fórmula de louvores” recitada após a Bênção com o Santíssimo Sacramento.

Além disso, José é o único santo a possuir uma Ladainha própria reconhecida oficialmente pela Igreja [7]. Esta, como vimos acima, foi aprovada pelo Papa São Pio X em 1909 e consta de 24 invocações, algumas inspiradas na Ladainha de Nossa Senhora.


Dentre as demais devoções ligadas a São José, o Diretório sobre Piedade popular e Liturgia (n. 222) menciona [8]:

- “As sete quartas-feiras em sua honra”: na próxima postagem veremos como a quarta-feira tornou-se um dia de devoção a São José, mas cabe salientar que originalmente seu dia votivo era o sábado, junto com a Virgem Maria.

- “As piedosas invocações que florescem nos lábios dos fiéis”: por exemplo, jaculatórias pedindo a sua intercessão junto aos agonizantes, uma vez que, segundo a tradição, em sua morte ele teria sido assistido por Jesus e Maria. Um exemplo: “Jesus, Maria e José, assisti-me na última agonia” [9];

- “A coroa das sete dores e sete alegrias de São José”: derivada da devoção às dores e alegrias de Maria (recordadas, respectivamente, na Quaresma e na Páscoa).

Cabe mencionar ainda a devoção ao coração de José, que partindo de Portugal e Espanha chegou ao Brasil no século XVIII, derivada sem dúvida da devoção aos Corações de Jesus e Maria e relacionada à devoção da Sagrada Família.

Enquanto o Coração de Jesus é retratado com a coroa de espinhos e o de Maria com uma coroa de rosas, ao coração de José é anteposto um lírio, símbolo bíblico de eleição e de pureza [10], sinal portanto de sua eleição como casto esposo de Maria.


e) Arte sacra:

Sobre a iconografia de José, entre os orientais ela é incipiente, salvo nos ícones das festas onde aparece (como a Natividade e a Apresentação do Senhor). No Ocidente seu retrato é muito mais frequente, ora como jovem, ora como velho (influência dos apócrifos), geralmente com os instrumentos de trabalho e o lírio.

Detalhe para algumas representações de José com um livro nas mãos. Como não foi escritor, não aparece a pena (atributo, por exemplo, dos Evangelistas), mas sim é retratado lendo o livro, simbolizando que, atento à palavra do anjo, obedeceu sempre a Deus (Mt 1,24; 2,14.21).

Imagem de São José com o livro, de Ambrogio Buonvicino
(Basílica de Santa Maria Maior, Roma)

Localização da estátua de São José na Capela Paulina da Basílica (à direita da foto)
(À esquerda da foto encontramos a estátua de S. João Evangelista)

Notas:

[1] Embora José seja comumente referido como “carpinteiro”, o termo usado no Evangelho é τέκτων (tékton), relacionado à palavra τέχνη (tékhne, arte ou ofício manual, donde vem “técnica”), que pode referir-se a qualquer pessoa que trabalha com as mãos, por exemplo, um pedreiro - como em ἀρχιτέκτων (arkhitékton, chefe dos construtores). Em latim, São Jerônimo usou na Vulgata o termo faber, que é usado para qualquer operário que trabalha com materiais duros (pedra, madeira, mármore, etc.).

[2] BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja: O ano litúrgico. 3ª ed. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 186.

[3] ALDAZÁBAL, José. A Mesa da Palavra I: Elenco das Leituras da Missa - Texto e Comentário. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 93.

[4] O Evangelho de Mateus foi escrito para uma comunidade de cristãos de origem judaica. Assim, o autor quer demonstrar como em Jesus cumpriram-se as profecias do Antigo Testamento. Por isso o destaque dado a José, descendente de Davi.

[5] ALDAZÁBAL, op. cit., p. 94.

[6] SPERANDIO, João Manoel; TAMANINI, Paulo Augusto (orgs.). Liturgikon: Próprio das Festas no Rito Bizantino. Teresina: Editora da Universidade Federal do Piauí, 2015, p. 25.

[7] O Manual das Indulgências lista seis ladainhas aprovadas: do Santíssimo Nome de Jesus, do Sagrado Coração de Jesus, do Preciosíssimo Sangue de Jesus, de Nossa Senhora, de São José e de Todos os Santos (INDULGÊNCIAS: Orientações Litúrgico-pastorais. São Paulo: Paulus, 2005, p. 62). Em 2013 a Congregação para o Culto Divino aprovou outras duas: a Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima e a Ladainha do Santíssimo Sacramento (cf. Revista Notitiae, 561-562, vol. 49 (2013), nn. 5-6, pp. 236-247).

[8] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia: Princípios e orientações. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 191.

[9] RITUAL DA UNÇÃO DOS ENFERMOS E SUA ASSISTÊNCIA PASTORAL. Tradução portuguesa da edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 2000, p. 76.

[10] cf. HEINZ-MOHR, Gerd. Dicionário dos símbolos: Imagens e sinais da arte cristã. São Paulo: Paulus, 1994, pp. 222-223.

Referências:
ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico: Sua história e seu significado segundo a renovação litúrgica. São Paulo: Loyola, 2019, pp. 169-171.
RIGHETTI, Mario. Historia de la Liturgia, v. I: Introducción general; El año litúrgico; El Breviario. Madrid: BAC, 1955, pp. 950-953.
SCHUSTER, Cardeal Alfredo Ildefonso. Liber sacramentorum, v. VII: Le Feste dei Santi dalla Quaresima all'ottava dei Principi degli Apostoli. Torino-Roma: Marietti, 1930, pp. 273-274 (para a questão da precedência entre João Batista e José).

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