terça-feira, 31 de março de 2020

Ângelus do Papa: V Domingo da Quaresma - Ano A

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 29 de março de 2020

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste Quinto Domingo da Quaresma é o  da Ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-45). Lázaro era irmão de Marta e de Maria; eram muito amigos de Jesus. Quando Ele chegou a Betânia, Lázaro já estava morto há quatro dias; Marta correu ao encontro do Mestre e disse-lhe: «Se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!» (v. 21). Jesus respondeu-lhe: «Teu irmão há de ressuscitar» (v. 23); e acrescenta: «Eu sou a Ressurreição e a Vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá» (v. 25). Jesus mostra-se como o Senhor da vida, Aquele que é capaz de dar vida até mesmo aos mortos. Depois chega Maria e outras pessoas, todas em lágrimas, e então Jesus - diz o Evangelho - «comoveu-Se profundamente [...] e chorou» (vv. 33-35). Com esta perturbação no coração, foi ao túmulo, agradece ao Pai que sempre o escuta, manda abrir o túmulo bradou em voz alta: «Lázaro, sai para fora» (v. 43). E Lázaro saiu tendo «os pés e as mãos ligados com faixas e o rosto envolto num sudário» (v. 44).
Aqui constatamos diretamente que Deus é vida e dá vida, mas Ele assume o drama da morte. Jesus poderia ter evitado a morte do seu amigo Lázaro, mas ele quis fazer sua a nossa dor pela morte de entes queridos, e acima de tudo ele quis mostrar o domínio de Deus sobre a morte. Neste trecho do Evangelho, vemos que a fé do homem e a omnipotência de Deus, do amor de Deus procuram-se e, por fim, encontram-se. É como um caminho duplo: a fé do homem e a omnipotência do amor de Deus que se procuram,  no final encontram-se. Vemo-lo no grito de Marta e de Maria e de todos nós com elas: «Se Tu estivesses aqui!...». E a resposta de Deus não é um discurso, não, a resposta de Deus ao problema da morte é Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida... Tende fé! No meio do choro continuai a ter fé, mesmo que a morte pareça ter vencido. Tirai a pedra do vosso coração! Que a Palavra de Deus restitua a vida onde há a morte».
Ainda hoje Jesus nos repete: «Tirai a pedra». Deus não nos criou para o túmulo, Ele criou-nos para a vida, bela, boa, alegre. Mas «a morte entrou no mundo por inveja do diabo» (Sb 2, 24), diz o Livro da Sabedoria, e Jesus Cristo veio para nos libertar dos seus laços.
Por isso, somos chamados a remover as pedras de tudo o que cheira a morte: por exemplo, a hipocrisia com que se vive a fé é morte; a crítica destrutiva dos outros é morte; a ofensa, a calúnia, é  morte; a marginalização dos pobres é morte. O Senhor pede-nos para remover estas pedras do coração, e a vida então florescerá novamente ao nosso redor. Cristo vive, e aquele que o acolhe e adere a ele entra em contacto com a vida. Sem Cristo, ou fora de Cristo, não só a vida não está presente, mas cai-se de novo na morte.
A ressurreição de Lázaro é também um sinal da regeneração que se dá no crente através do Batismo, com plena inserção no Mistério Pascal de Cristo. Pela ação e poder do Espírito Santo, o cristão é uma pessoa que caminha na vida como uma nova criatura: uma criatura para a vida e que vai em direção à vida.
Que a Virgem Maria nos ajude a ser tão compassivos quanto o seu Filho Jesus, que fez sua a nossa dor. Que cada um de nós esteja próximo daqueles que estão na prova, tornando-se para eles um reflexo do amor e ternura de Deus, que liberta da morte e faz vencer a vida.


Fonte: Santa Sé

segunda-feira, 30 de março de 2020

Fotos da Bênção Urbi et Orbi Extraordinária no Vaticano

No último dia 27 de março o Papa Francisco concedeu uma Bênção Urbi et Orbi Extraordinária por ocasião da atual pandemia de coronavírus (Covid-19).

Depois da proclamação do Evangelho e da reflexão do Santo Padre na Praça de São Pedro, houve um momento de adoração eucarística no átrio da Basílica Vaticana, no final do qual o Papa concedeu a Bênção Eucarística Urbi et Orbi.

O Santo Padre foi assistido por Mons. Guido Marini.

Chegada do Santo Padre
Oração inicial
Reflexão do Santo Padre


Homilia do Papa: Bênção Urbi et Orbi Extraordinária

Papa Francisco
Momento Extraordinário de Oração em tempo de epidemia
Adro da Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 27 de março de 2022

«Ao entardecer…» (Mc 4,35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4,38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.
Rever-nos nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na popa, na parte do barco que se afunda primeiro... E que faz? Não obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4,40).
Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4,38) Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: «Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados.
A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.
Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.
«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»
«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Senhor, lanças-nos um apelo, um apelo à fé. Esta não é tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: «Convertei-vos…». «Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2,12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. É a vida do Espírito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17,21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras.
«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais.
O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42,3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.
Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.
«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Queridos irmãos e irmãs, deste lugar que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14,27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1Pd 5,7).


Fonte: Santa Sé

Jubileu e Liturgia: Encontro de Pastoral Litúrgica 2000

Em nossa série de postagens sobre os Encontros de Pastoral Litúrgica (ENPL) promovidos pelo Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal, apresentamos neste mês o 26º ENPL, que aconteceu de 24 a 28 de julho de 2000, com o tema “O Jubileu da Encarnação na Liturgia da Igreja”.

O tema escolhido insere-se naturalmente no contexto do Grande Jubileu do ano 2000, convocado pelo Papa João Paulo II para celebrar os dois mil anos da Encarnação do Verbo e para introduzir a Igreja no terceiro milênio da era cristã.

Seguem os áudios de quatro conferências do Encontro:

Pe. Dr. Mário Tavares de Oliveira
Nesta primeira conferência o palestrante reflete sobre a dimensão trinitária do Jubileu da Encarnação, proposta pelo Papa João Paulo II na Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente.

Côn. José Ferreira
Partindo do conceito de mistério como manifestação de Deus, o palestrante reflete sobre as manifestações de Deus na história da salvação à luz das leituras da Vigília Pascal, culminando na Encarnação do Filho.

Pe. Dr. Luís Manuel Pereira da Silva
À luz do ano jubilar, o palestrante reflete aqui sobre a centralidade do domingo como o “dia do Senhor”, o “primeiro” e o “oitavo” dia, resgatando os testemunhos da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja.

Pe. Dr. Manuel Joaquim F. da Costa
Por fim, nesta última conferência o palestrante reflete sobre a estreita relação entre o ano jubilar e a piedade popular, desde as suas origens, sobretudo no que se refere à peregrinação, e sua relação com o ano litúrgico.


domingo, 29 de março de 2020

O ícone da ressurreição de Lázaro

“Hoje, com tua palavra portadora de vida, libertas o amigo, como Deus que és, da corrupção do abismo profundo” - Santo André de Creta [1]

Até o momento, em nossa série de postagens, trouxemos os ícones de algumas das principais festas litúrgicas do Oriente e do Ocidente. O relato evangélico que apresentaremos aqui não é conteúdo de uma das grandes festas, embora seja celebrado de formas distintas nas diversas igrejas. Trata-se da ressurreição de Lázaro.

A ressurreição de Lázaro no Oriente e no Ocidente

Na tradição romana, a perícope (Jo 11,1-45) é proclamada no V Domingo da Quaresma no ano A. Neste ciclo se reforça o caráter batismal do tempo quaresmal, servindo os três últimos domingos como uma grande catequese, evidenciando os símbolos do Batismo: a água (diálogo de Jesus com a samaritana), a luz (cura do cego de nascença) e a vida (ressurreição de Lázaro) [2].

Completando assim as catequeses batismais e os sete “sinais” do Evangelho de João, somos colocados às portas da celebração pascal: “a Liturgia deste domingo nos conduz até o âmago da mensagem cristã de salvação. Já é o mistério pascal, como indica o Prefácio próprio: Compadecendo-se da humanidade, que jaz na morte do pecado, por seus sagrados mistérios Ele nos eleva ao Reino da vida nova’” [3]

Na tradição bizantina, por sua vez, este relato encontra lugar no sábado que antecede o Domingo de Ramos, o qual é conhecido justamente como “sábado de Lázaro”.  Uma semana antes do Sábado Santo, este Evangelho prefigura a sepultura do Senhor e a sua Ressurreição: “a Semana Santa vem assim situada entre duas ressurreições: a primeira como sinal e antecipação da do Redentor” [4].

O primeiro testemunho da celebração do “sábado de Lázaro” vem do Itinerarium de Etéria, referente à Liturgia de Jerusalém no século IV. Neste dia, segundo a peregrina, se celebrava no Lazarium, isto é, na igreja em Betânia. Desta tradição hierosolimitana deriva a celebração bizantina.

Mesmo que as igrejas do Oriente e do Ocidente enfatizem diferentes aspectos do relato (ápice das catequeses batismais no Rito Romano e profecia da Páscoa no Rito Bizantino), em ambas a ressurreição de Lázaro é lida à luz do Mistério Pascal de Cristo.

O ícone


O ambiente: Dois conjuntos de montanhas servem de moldura às muralhas de uma cidade, representadas ao fundo. Na base de uma das montanhas encontra-se o túmulo de Lázaro, escavado na rocha.

O interesse do artista não é geográfico, indicando que os túmulos se situavam fora da cidade, mas teológico: a cidade ao longe é antes de tudo profecia da Paixão de Cristo, que seria morto fora das muralhas de Jerusalém (Hb 13,12).

Às vezes a cidade é representada com tinta muito fraca, indicando que “não temos aqui cidade permanente” (Hb 13,14): “o homem é um peregrino entre duas cidades; e a vida não é senão uma passagem da cidade inferior para a cidade superior, a Jerusalém celeste, significada pela ressurreição” [5].

A representação da cidade pode indicar ainda o vaticínio de Cristo sobre a ruína de Jerusalém e seu fechamento à sua mensagem. Esta proposição é bastante interessante, já que as duas únicas vezes em que os Evangelhos descrevem Jesus chorando são diante de Jerusalém e do túmulo de Lázaro (Lc 19,41; Jo 11,35).

Abaixo da cidade, entre as duas montanhas, está retratada a multidão. Nela encontramos duas atitudes diante da cena: alguns olham para Lázaro - são os que “creram” (Jo 11,45) - enquanto outros olham para Jesus - são os que tramarão em seguida a sua morte (Jo 11,46-53). Alguns têm uma atitude maravilhada diante da ressurreição de Lázaro, com os braços levantados, enquanto outros, incrédulos, tapam o nariz pelo suposto “mau cheiro” (Jo 11,39).

Cristo: Em pé, na parte esquerda do ícone, está representado Cristo. Ele está revestido com as vestes tradicionais (a túnica vermelha de quem assumiu nossa humanidade, o manto azul da divindade, a estola da dignidade sacerdotal e régia) e acompanhado dos doze Apóstolos, retratados atrás d’Ele.

O Cristo tem o braço direito estendido em direção a Lázaro, com o tradicional gesto de bênção com os três dedos levantados, em alusão à Trindade. Neste momento, o Filho evoca o poder criador de toda a Trindade, ao ordenar “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). “Como na primeira criação, também na segunda é a voz divina, a voz do Criador, que vai realizá-la. Ali, o Criador chamou tudo pelo nome, outorgando, assim, a tudo existência e vida; aqui, chama Lázaro pelo nome e o ressuscita dos mortos” [6].

Na mão esquerda Ele empunha um rolo: é o quirógrafo dos pecados de Lázaro, que Cristo arrebata ao Hades (Cl 2,13-14). Por isso Ele e Lázaro são os únicos personagens retratados com o nimbo ou halo da santidade (nem os Apóstolos são retratados assim, talvez prefigurando sua traição e abandono do Mestre durante os eventos da Paixão). Jesus é por natureza o “três vezes Santo”, fonte de toda santidade, enquanto Lázaro é santificado por sua Palavra.

Ao lado de Cristo, entre Ele e Lázaro, vemos um arbusto vicejante, bem no centro do ícone. Trata-se da árvore da vida, recordando a autoafirmação central do Mestre na perícope: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25).

Lázaro: O lado direito do ícone é dominado por Lázaro, que sai do sepulcro auxiliado por dois homens: obedientes às ordens de Cristo, um remove a pedra do sepulcro, enquanto o outro começa a desatar Lázaro das faixas que o envolviam.

O fato de Lázaro ser retratado ainda preso às faixas simboliza que a morte ainda tem poder sobre ele. Sua ressurreição é apenas profecia, figura daquela que será a Ressurreição de Cristo.

Lázaro é retratado diante do túmulo, retratado em forte cor negra, a mesma da gruta da Natividade e da morada dos mortos no ícone da Ressurreição do Senhor. A montanha na qual está a caverna costuma ser pintada em um leve tom de vermelho, para dar a ideia do órgão de um animal vivo, o Hades, o qual, porém, empalideceu diante da ação de Cristo:

Ai de mim, que estou perdido. Assim, entre alaridos, falava à Morte o Hades, e dizia: Eis que o Nazareno humilhou meus reinos subterrâneos ; rasgando-me o próprio ventre e chamando-o unicamente pelo nome, devolveu a vida a um corpo sem alento” [7].

Marta e Maria: Por fim, aos pés de Jesus, encontramos as duas irmãs de Lázaro, Marta e Maria. Elas parecem encarnar aqui a dupla natureza de Cristo: Marta, retratada de joelhos, é aquela que professou a fé em Jesus como Filho de Deus (Jo 11,27); recorda-nos, portanto, inclusive pela cor azul que veste (a cor do céu) a divindade do Filho.

Maria, por sua vez, é anacronicamente retratada aos pés do Senhor, remetendo-nos à unção de Betânia que terá lugar seis dias antes da Páscoa (Jo 12,1-8). Sendo esta unção “em vista da sepultura” do Senhor, Maria evoca aqui a sua humanidade, imagem corroborada pela cor vermelha de suas vestes.

Ó Cristo, alegria de todos, verdade, luz, vida do mundo e nossa ressurreição, na tua bondade te manifestaste aos que estão na terra, tornando-te modelo da ressurreição e concedendo a todos o perdão divino
 Kontákion do dia [8]

[1] PASSARELLI, Gaetano. O ícone da ressurreição de Lázaro. São Paulo: Ave Maria, 1996, p. 18. Coleção: Iconostásio, 12.
[2] No calendário bizantino as perícopes da samaritana e do cego de nascença são proclamadas respectivamente no V e no VI Domingos da Páscoa (cf. DONADEO, Madre Maria. O Ano Litúrgico Bizantino. São Paulo: Ave Maria, 1998, pp. 105-108).
[3] ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico: Sua história e seu significado segundo a renovação litúrgica. São Paulo: Loyola, 2019, p. 77.
[4] PASSARELLI, op. cit., p. 18.
[5] ibid., p. 25.
[6] ibid., p. 18.
[7] ibid., p. 27.
[8] DONADEO, op. cit., p. 92.

sábado, 28 de março de 2020

Homilia: V Domingo da Quaresma - Ano A

Santo Efrém
Sermão sobre o final e admoestação
Que tua Ressurreição, ó Jesus, comunique a sua grandeza a nosso homem espiritual

Dissipa, Senhor, com a luz claríssima de tua sabedoria as trevas noturnas de nossa mente, para que, iluminados por ti, vos sirvamos com um espírito renovado e puro. O nascer do sol assinala o começo das obras dos mortais; prepara, Senhor, em nossos corações uma morada para aquele dia que não conhece ocaso. Concede-nos, Senhor, que cheguemos a contemplar em nós mesmos a vida da ressurreição, e que nada afaste nossas mentes das tuas delícias. Imprime em nossos corações, Senhor, por nossa constante adesão a ti, o selo desse dia eterno que não principia nem se rege pelo movimento solar.
Diariamente vos abraçamos em teus sacramentos e te recebemos em nosso corpo; torna-nos dignos de sentir em nossa pessoa a ressurreição que esperamos. Com a graça do Batismo escondemos em nosso coração o tesouro que nos destes; este mesmo tesouro está crescendo na mesa de teus sacramentos: concede-nos a alegria de tua graça. Possuímos, Senhor, o teu memorial recebido na mesa espiritual; faz que o desfrutemos em sua realidade plena na renovação futura.
Que possamos compreender a beleza de nossa condição através dessa beleza espiritual que tua vontade imortal depositou nas próprias criaturas mortais. Tua crucificação, Senhor, foi o término de tua vida corporal; concede-nos que nosso espírito esteja também crucificado em nossa vida espiritual. Que tua ressurreição, ó Jesus, comunique sua grandeza a nosso homem espiritual; que a contemplação de teus mistérios sirva para nós como reflexo para conhecê-la. Teus desígnios divinos, ó Salvador nosso, são figura do mundo espiritual. Concede-nos a graça de correr nele como homens espirituais.
Não prives, Senhor, o nosso espírito de tua manifestação espiritual, nem afasteis de nós o calor de tua suavidade. A mortalidade latente em nosso corpo nos conduz à corrupção; que a efusão de teu amor espiritual repare seus efeitos em nosso coração. Concede-nos, Senhor, chegar apressadamente à nossa cidade celeste e, assim como Moisés desde o cume do monte, possamos desde agora desfrutá-la por tua revelação.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 69-70. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

Confira também uma homilia de São Pedro Crisólogo para este domingo clicando aqui.

Raniero Cantalamessa: III Pregação de Quaresma 2020

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
III pregação de Quaresma
27 de março de 2019

“Perto da Cruz de Jesus estava Maria sua mãe”: Maria no Calvário

A palavra de Deus que nos acompanha em nossa meditação é a de João, aquele que “viu e que, por isso, sabe que fala a verdade” (Jo 19,35):
Perto da cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse a sua mãe: ‘Mulher, este é o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Esta é a tua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo (Jo 19,25-27).
Desse texto, tão denso, vamos considerar agora só a narrativa, deixando para a próxima vez a meditação do restante da passagem evangélica que contém as palavras de Jesus.
Se, no Calvário, junto da cruz de Jesus, estava Maria, sua Mãe, isso quer dizer que ela estava em Jerusalém na­queles dias; se estava em Jerusalém, então viu tudo, assistiu a tudo. Ouviu os gritos: “Esse não, mas Barrabás!”, assistiu ao Ecce homo, viu a carne da sua carne açoitada, sangrante, coroada de espinhos, seminua perante a multidão, estremecendo sacudida por arrepios de morte na cruz. Ouviu o barulho dos golpes de martelo e os insultos: “Se és o Filho de Deus...”. Viu os soldados dividindo entre si as vestes, a túnica que talvez ela mesma tinha tecido.
“Perto da cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena”. Havia, pois, um grupo de mulheres, quatro no total (como aparece no ícone). Maria não estava, pois, sozinha; era uma das mulheres. Sim, Maria estava ali como “sua mãe” e isto muda tudo, pondo Maria numa situação totalmente diferente. Assisti, às vezes, ao funeral de alguns jovens; penso particularmente no de um rapaz. Várias mulheres seguiam o féretro. Todas vestidas de preto, todas chorando. Pareciam todas iguais. Mas entre elas havia uma diferente, uma na qual pensavam todos os presentes, e para a qual todos olhavam disfarçadamente: a mãe. Era viúva e tinha só aquele filho. Olhava para o caixão, percebia-se que seus lábios repetiam sem parar o nome do filho. Quando os fiéis, no momento do Sanctus, começaram a proclamar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do universo”, também ela, talvez sem o perceber, começou a murmurar: Santo, Santo, Santo... Naquele momento pensei em Maria aos pés da cruz. Mas a ela foi pedido algo de mais difícil: perdoar. Quando ouviu o Filho dizendo: Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem! (Lc 23,34), ela entendeu o que o Pai do céu esperava dela: que dissesse com o coração as mesmas palavras: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”. E ela as disse. Perdoou.
Se Maria pôde ser tentada, como o foi também Jesus no deserto, isto aconteceu particularmente junto da cruz. E foi uma tentação profundíssima e dolorosíssima, porque tinha como causa o mesmo Jesus. Ela acreditava nas promessas, acreditava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus; sabia que, se Jesus tivesse pedido, o Pai lhe teria enviado “mais de doze legiões de anjos” (cf. Mt 26,53). Mas percebe que Jesus não faz nada. Libertando a si mesmo da cruz, libertaria também ela de sua terrível dor, mas não o faz. Maria, porém, não grita: “Desce da cruz; salva-te a ti mesmo e a mim!”; ou: “Salvaste muitos outros, por que não salvas agora também a ti mesmo, ó meu filho?”, ainda que seja fácil entender como seria natural que semelhantes pensamentos e desejos surgissem no coração de uma mãe. Maria cala-se.
Humanamente falando, Maria tinha todos os motivos para gritar a Deus: “Tu me enganaste!”, ou, como um dia gritou o profeta Jeremias: “Tu me seduziste e eu me deixei seduzir!” (cf. Jr 20,7), e fugir do Calvário. Ela, pelo contrário, não fugiu, mas ficou “de pé”, em silêncio, tornando-se assim, de maneira toda especial, mártir da fé e, seguindo o Filho, testemunha suprema da confiança em Deus. Esta visão de Maria que se une ao sacrifício do Filho encontrou uma expressão sóbria e solene num texto do Concilio Vaticano II:
“Assim a Bem-aventurada Virgem avançou em peregrinação de fé. Manteve fielmente sua união com o Filho até à cruz, onde esteve não sem desígnio divino. Veementemente sofreu junto com seu Unigénito. E com ânimo materno se associou ao seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima por ela mesma gerada” [1].
Maria não estava, pois, “junto da cruz de Jesus”, perto dele, só num sentido físico e geográfico, mas também num sentido espiritual. Ela estava unida à cruz de Jesus; estava no mesmo sofrimento; sofria com ele. Sofria no seu coração o que o Filho sofria na carne. E quem poderia pensar diversamente, se, ao menos, sabe o que significa ser mãe?
Jesus era também homem; enquanto homem, diante de todos ele não é, neste momento, senão um filho justiçado na presença de sua mãe. Jesus já não diz: Que temos nós com isso, mulher? A minha hora ainda não chegou (Jo 2,4). Agora que a sua “hora” chegou, há entre ele e sua mãe algo de grande em comum: o mesmo sofrimento. Naqueles momentos extremos, quando também o Pai se escondeu misteriosamente do seu olhar de homem, restou para Jesus somente o olhar de sua mãe onde procurar refúgio e consolação. Por acaso vai desdenhar esta presença e esta consolação materna aquele que, no Getsêmani, suplicou aos três discípulos: Ficai aqui e vigiai comigo (Mt 26,38)?

sexta-feira, 27 de março de 2020

Catequese do Papa sobre a Anunciação

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 25 de março de 2020

Caros irmãos e irmãs, bom dia!
Vinte e cinco anos atrás, nesta mesma data de 25 de março, que na Igreja é a solene festa da Anunciação do Senhor, São João Paulo II promulgava a Encíclica Evangelium vitae, sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana.
A ligação entre a Anunciação e o “Evangelho da vida” é estreita e profunda, como sublinhou São João Paulo em sua Encíclica. Hoje, nos encontramos relançando esse ensino no contexto de uma pandemia que ameaça a vida humana e a economia mundial. Uma situação que torna ainda mais exigente as palavras com as quais a Encíclica tem início. Aqui estão elas: “O Evangelho da vida está no coração da mensagem de Jesus. Acolhido pela Igreja todos os dias com amor, deve ser anunciado com corajosa fidelidade, como boa notícia para os homens de todas as idades e culturas” (n. 1).
Como todo anúncio do Evangelho, isso também deve ser testemunhado antes de tudo. E penso com gratidão no testemunho silencioso de muitas pessoas que, de maneiras diferentes, estão fazendo o possível para servir os doentes, os idosos, os solitários e os mais necessitados. Eles colocam em prática o Evangelho da vida, como Maria, que, aceitando o anúncio do anjo, foi ajudar sua prima Isabel, que precisava dela.
De fato, a vida que somos chamados a promover e defender não é um conceito abstrato, mas sempre se manifesta em uma pessoa em carne e osso: uma criança recém-concebida, uma pobre pessoa marginalizada, um paciente solitário e desanimado ou em estado terminal. Alguém que perdeu o emprego ou não consegue encontrar outra oportunidade, um migrante recusado ou guetizado... A vida se manifesta de modo concreto nas pessoas.
Todo ser humano é chamado por Deus para desfrutar da plenitude da vida; e sendo confiado ao cuidado materna da Igreja, toda ameaça à dignidade e à vida humana não pode deixar de afetar seu coração, em suas “vísceras maternas”. A defesa da vida para a Igreja não é uma ideologia, é uma realidade, uma realidade humana que envolve todos os cristãos, precisamente porque são cristãos e porque são humanos.
Os ataques à dignidade e à vida das pessoas continuam Infelizmente mesmo em nossa era que é a era dos direitos humanos universais; pelo contrário, somos confrontados com novas ameaças e nova escravidão, e nem sempre a legislação protege a vida humana mais fraca e vulnerável.
A mensagem da Encíclica Evangelium vitae é, portanto, mais atual do que nunca. Além das emergências, como a que estamos enfrentando, é uma questão de atuar no nível cultural e educativo para transmitir às gerações futuras a atitude de solidariedade, cuidado, acolhida, sabendo bem que a cultura da vida não é um patrimônio exclusivo dos cristãos, mas pertencem a todos aqueles que, lutando pela construção de relacionamentos fraternos, reconhecem o valor adequado de cada pessoa, mesmo quando são frágeis e sofredores.
Queridos irmãos e irmãs, toda vida humana, única e irrepetível é válida por si mesma, constitui um valor inestimável. Isso sempre deve ser anunciado novamente, com a coragem da palavra e a coragem das ações. Isso exige solidariedade e amor fraterno pela grande família humana e por cada um de seus membros.
Portanto, com São João Paulo II, que fez essa encíclica, com ele reafirmo com renovada convicção o apelo que fez a todos, vinte e cinco anos atrás: “Respeite, defenda, ame e sirva a vida, toda vida, toda vida humana ! Somente neste caminho você encontrará justiça, desenvolvimento, liberdade, paz e felicidade! ” (Enc. Evangelium vitae, 5).


quinta-feira, 26 de março de 2020

Missa do Papa na Basílica do Santo Sepulcro - Jubileu 2000

No dia 26 de março do ano 2000, no contexto do Grande Jubileu, o Papa João Paulo II celebrou a Santa Missa do III Domingo da Quaresma (ano B) na Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém como parte da sua peregrinação à Terra Santa.

Confira a homilia do Papa na ocasião:
 
Missa na Basílica do Santo Sepulcro
Homilia do Papa João Paulo II
Jerusalém, 26 de março de 2000

Creio... em Jesus Cristo... que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado... ressuscitou ao terceiro dia”.
1. Seguindo o caminho da história da salvação, tal como é narrado pelo Credo Apostólico, a minha Peregrinação Jubilar conduziu-me à Terra Santa. De Nazaré, onde Jesus foi concebido da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, cheguei a Jerusalém, onde Ele “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Aqui, na Basílica do Santo Sepulcro, ajoelho-me diante do lugar da sua sepultura: “Vede o lugar onde O tinham depositado” (Mc 16,6).
O sepulcro está vazio. É uma testemunha silenciosa do evento central da história humana: a Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Durante quase dois mil anos, o sepulcro vazio deu testemunho da vitória da Vida sobre a morte. Com os Apóstolos e os Evangelistas, com a Igreja de todos os tempos e lugares, também nós damos testemunho e proclamamos: “Cristo ressuscitou! Ressuscitado dos mortos, Ele já não morre; a morte já não tem poder sobre Ele” (cf. Rm 6,9).
Mors et vita duello conflixere mirando; dux vitae mortuus, regnat vivus” (Sequência pascal Victimae Paschali). O Senhor da Vida estava morto; agora reina vitorioso sobre a morte, fonte de vida eterna para todos os que creem.


2. Nesta igreja, “Mãe de todas as Igrejas” (São João Damasceno), apresento as minhas cordiais saudações a Sua Beatitude o Patriarca Michel Sabbah, aos Ordinários das outras comunidades católicas, ao Padre Giovanni Battistelli e aos Frades Menores da Custódia da Terra Santa, assim como aos sacerdotes, religiosos e fiéis.
Com fraterna estima e afeto saúdo o Patriarca Diodoros da Igreja greco-ortodoxa e o Patriarca Torkom da Igreja ortodoxa armênia, os representantes das Igrejas copta, síria e etíope, assim como os das comunidades anglicana e luterana.
Aqui, onde nosso Senhor Jesus Cristo morreu “para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11,52), oxalá o Pai misericordioso fortaleça o nosso desejo de unidade e paz entre todos aqueles que receberam o dom da nova vida mediante a água salvífica do Batismo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Missa do Papa em Nazaré - Jubileu 2000

No dia 25 de março do ano 2000, no contexto do Grande Jubileu, o Papa João Paulo II celebrou a Santa Missa da Solenidade da Anunciação do Senhor na Basílica da Anunciação em Nazaré como parte da sua peregrinação à Terra Santa.

Confira a homilia do Papa na ocasião:
 
Missa em Nazaré
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica da Anunciação, Nazaré
25 de março de 2000

Eis aqui a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra”.
Senhor Patriarca, venerados irmãos no Episcopado, reverendo Padre Guardião,
Caríssimos irmãos e irmãs!

1. Hoje, 25 de março de 2000, Solenidade da Anunciação no ano do Grande Jubileu: os olhos de toda a Igreja estão dirigidos para Nazaré. Desejei voltar à cidade de Jesus, para sentir mais uma vez, no contato com este lugar, a presença da mulher da qual Santo Agostinho escreveu: “Ele escolheu a mãe que havia criado; criou a mãe que escolhera” (cf. Sermo 69, 3, 4). É particularmente fácil compreender aqui por que todas as gerações chamam Maria bem-aventurada (cf. Lc 1,48).


Saúdo cordialmente Sua Beatitude o Patriarca Michel Sabbah, ao qual agradeço as gentis palavras de introdução. Juntamente com o Arcebispo Boutros Mouallem e com todos vós, Bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, rejubilo com a graça desta solene celebração. Sinto-me feliz por ter a oportunidade de saudar o Ministro-Geral Franciscano Padre Giacomo Bini, que me recebeu no momento da minha chegada, e de exprimir ao Guardião, Padre Giovanni Battistelli, bem como aos irmãos da Custódia a admiração da Igreja inteira pela devoção com que desempenhais a vossa vocação única. Presto homenagem com gratidão à vossa fidelidade à tarefa que vos foi confiada pelo próprio São Francisco e confirmada pelos Pontífices ao longo dos séculos.

O ícone da Anunciação do Senhor

“Hoje a alegria contagia a todos, porque a antiga condenação fica sem efeito. Hoje chega Aquele que está em todos os lugares, a fim de encher de alegria todas as coisas” - Santo André de Creta [1]

Em nossa série de postagens sobre os ícones das festas litúrgicas, meditaremos hoje sobre a última das celebrações ligadas ao mistério da Encarnação do Senhor, que do ponto de vista cronológico é, na verdade, a primeira: a solenidade da Anunciação do Senhor, comemorada nove meses antes do Natal, no dia 25 de março.

Origem e conteúdo da festa

A origem da festa remonta, no Oriente, ao Concílio de Éfeso (431), que promulgou o dogma da maternidade divina de Maria. Ao lado do Natal, que proclamava a verdade da Encarnação, isto é, a humanidade do Filho, começou-se a celebrar a festa da Anunciação para professar, à luz do Evangelho (Lc 1,26-38), sua divindade.

Inicialmente no domingo anterior ao Natal ou uma semana antes deste (no dia 18 de dezembro), a festa passou, no século VI, a ser celebrada nove meses antes da Natividade, isto é, no dia 25 de março. Este dia, próximo ao equinócio de primavera no hemisfério norte, era, além disso, considerado o dia da criação do mundo. Assim, a festa da Anunciação proclama a nova criação que se inicia no seio de Maria.

Em Roma esta festa foi introduzida pelo Papa Sérgio I (687-701), o qual prescreveu uma procissão festiva em honra da Mãe de Deus. De fato, durante muitos séculos esta festa, no Ocidente, enfatizou demais o papel da Virgem Maria, tendo readquirido seu caráter cristológico com a reforma do Concílio Vaticano II.

Uma dificuldade em relação ao dia 25 de março é que coincide sempre com o período da Quaresma, razão pela qual a Anunciação não é celebrada com grande solenidade no Ocidente. No Oriente, porém, mesmo que coincida com um dia da Semana Santa, é celebrada festivamente.

Com efeito, a importância desta festa é visível nas igrejas bizantinas, que colocam seu ícone no lugar de maior destaque, isto é, nas portas centrais da iconostase, que dão acesso ao santuário.

A festa celebra o mistério da Encarnação na sua totalidade, recordando tanto a Mãe quanto Filho, novo Adão e nova Eva que, com sua obediência, desfazem o “nó” do pecado original e dão início a uma nova criação.

O ícone


O ambiente: Como no ícone da Natividade de Maria, o ambiente é a casa, o espaço familiar: “o anjo entrou onde ela estava” (Lc 1,28). No fundo, cobrindo toda a cena, costuma ser representado um véu de cor vermelha. Este véu une o Antigo Testamento, cujas promessas estão para cumprir-se, com o Novo Testamento, prestes a começar com o “sim” de Maria.

O véu simboliza também o amor de Deus que a todos envolve e o mistério de Deus escondido no ventre de Maria: o véu servia para ocultar o local da manifestação de Deus na tenda da reunião do Êxodo e no Templo de Jerusalém. Este véu só irá rasgar-se definitivamente no momento da Paixão do Senhor (Mt 27,51).

Ainda na casa de Nazaré, onde se desenrola a cena, costuma ser representado um vaso de flores, que nos remete ao jardim do Éden. Com a obediência de Maria, que se contrapõe à desobediência de Adão e Eva, abre-se para eles a possibilidade de, na Ressurreição do Senhor, ingressar no paraíso.

Este paralelo entre o Gênesis e o Evangelho é notório na Porta Santa da Basílica de São Pedro (painéis 1 a 4): de um lado, a expulsão dos primeiros pais do paraíso por um anjo com uma espada flamejante; do outro, a Anunciação a Maria, com o anjo portando uma flor.

Por fim, algumas representações deste ícone retratam um poço entre o anjo e a Virgem. O poço quadrado é símbolo da criação (indicando os quatro pontos cardeais, isto é, a totalidade do mundo). É, além disso, um poço vazio: está à espera de receber a água da vida, oferecida pelo Cristo (Jo 4,14).

A criação que espera a salvação através da resposta de Maria aparece em uma célebre homilia de São Bernardo: “Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera (...) Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta” [3]

O anjo: A parte esquerda do ícone é dominada pela figura do Anjo Gabriel, facilmente identificado por suas grandes asas, geralmente na cor vermelha, a cor do fogo, indicando que ele é impelido pelo amor de Deus (2Cor 5,14).

Suas vestes geralmente são brancas: “é a cor que precede à luz da manhã, a cor que anuncia o nascimento, a vida” [4]. Não obstante, também o encontramos em vestes verdes (símbolo da vida, remetendo às plantas vivas) ou azuis (a cor do céu, indicando sua origem). Às vezes possui uma faixa azul no ombro, indicando que vem do céu, da parte de Deus, ou uma faixa dourada, indicando sua nobreza: é o mensageiro do Rei.

Na mão esquerda, Gabriel “empunha comprido bastão, símbolo da autoridade e da dignidade da pessoa, do mensageiro, do peregrino” [5], enquanto que a mão direita está estendida em direção à Virgem, com três dedos levantados, um gesto de bênção em alusão à Trindade, a qual cobrirá Maria com sua sombra.

Às vezes o anjo aparece, por fim, sobre um pequeno pedestal na cor azul, indicando sua origem celeste. Este pedestal se contrapõe ao poço, símbolo do mundo.

A Virgem: Maria domina o lado direito do ícone, ora sentada sobre um trono, ora em pé à frente deste. Esta representada, como de costume, por uma túnica na cor azul e um longo manto na cor vermelha.

Este manto (omophorion), porém, costuma ter aqui uma tonalidade mais escura: “a cor escura significa a humildade; a terra arada pronta para receber a semente que a fará frutificar” [6]. Sobre o manto, como é comum nas representações da Mãe de Deus, encontramos três estrelas: na fronte e nos ombros, símbolos da Trindade que a envolveu com sua sombra e de sua virgindade perpétua: antes da Anunciação, no momento da concepção do Verbo e durante toda a sua vida.

Maria é retratada aqui com ao menos uma das mãos levantadas, gesto de espanto diante do anúncio do anjo, conforme narrado no Evangelho. Em algumas versões do ícone segura na outra mão um rolo de linha vermelha com a agulha. É uma profecia do que vai acontecer em seguida: a humanidade do Filho vai ser “tecida” em seu ventre.

Sua representação sentada ou diante de um trono evoca sua realeza: a partir deste momento ela é a gebirah, a Rainha-Mãe. “O Senhor Deus lhe dará [ao seu Filho] o trono de seu pai Davi” (Lc 1,32). O célebre hino Akathistos saúda repetidas vezes Maria como “trono de Deus” ou “trono da Sabedoria”.

Diante do trono há um pedestal sobre o qual Maria pisa. Se há no ícone um pedestal para Gabriel, o de Maria é maior, indicando que com o seu “sim” galgou um lugar superior aos coros dos anjos.

A luz do Altíssimo: Por fim, no topo do ícone encontramos um raio de luz que desce do céu e aponta para a Virgem. Este raio é, naturalmente, a presença de Deus, como no ícone da Teofania.

De fato, toda a Trindade participa deste acontecimento, como podemos concluir pelas palavras do Anjo (Lc 1,35):
a) “O Espírito virá sobre ti”: como professamos no Símbolo, o Filho foi concebido pelo poder ou pela ação do Espírito Santo. Ele às vezes aparece no ícone como uma pomba que desce sobre Maria;
b) “O poder do Altissimo te cobrirá com sua sombra”: No Antigo Testamento a principal imagem de Deus Pai era a sombra ou nuvem. Está presente no nimbo de cor mais escura bem no alto da tela;
c) “O menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus”: Por fim, o Filho é o próprio raio que desce do céu e toca a Virgem.

Em algumas interessantes representações deste evento, o raio toca o ouvido de Maria, pois ela concebe ao ouvir a Palavra de Deus anunciada pelo Anjo.  A morte entrou no mundo através do ouvido de Eva: por isso a vida deveria entrar no mundo através do ouvido de Maria” [7]. Ou, para usar a célebre expressão de Santo Agostinho: “antes de conceber Jesus em seu seio, Maria o concebeu em seu coração”.

Hoje é o começo da nossa salvação e a manifestação do eterno mistério: o Filho de Deus torna-se Filho da Virgem e Gabriel anuncia a graça.
Com ele aclamamos, pois, à Mãe de Deus: Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo!
 Tropário da festa [8]

[1] PASSARELLI, Gaetano. O ícone da Anunciação. São Paulo: Ave Maria, 1996, p. 11. Coleção: Iconostásio, 11.
[2] Sobre a história desta festa confira:
ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico: Sua história e seu significado segundo a renovação litúrgica. São Paulo: Loyola, 2019, pp. 112-113.
DONADEO, Madre Maria. O Ano Litúrgico Bizantino. São Paulo: Ave Maria, 1998, pp. 56-60.
RIGHETTI, Mario. Historia de la Liturgia, v. I: Introducción general; El año litúrgico; El Breviario. Madrid: BAC, 1945, pp. 912-914.
[3] 2ª leitura do Ofício das Leituras do dia 20 de dezembro. in: OFÍCIO DIVINO. Liturgia das Horas segundo o Rito Romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Paulus, 1999, v. 1: Tempo do Advento e Tempo do Natal, p. 310.
[4] PASSARELLI, op. cit., p. 22.
[5] ibid.
[6] ibid., p. 27.
[7] ibid., p. 34.
[8] DONADEO, op. cit., p. 57.

terça-feira, 24 de março de 2020

Ângelus do Papa: IV Domingo da Quaresma - Ano A

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 22 de março de 2020

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
No centro da liturgia deste quarto domingo de Quaresma está o tema da luz. O Evangelho (cf. Jo 9,1-41) relata o episódio do cego de nascença, ao qual Jesus dá a vista. Este sinal milagroso é a confirmação das palavras de Jesus que diz de si mesmo: «Eu sou a luz do mundo» (v. 5), a luz que ilumina as nossas trevas. Este é Jesus. Ele realiza a iluminação em dois níveis: um físico e um  espiritual: primeiro o cego recebe a visão dos olhos e depois é levado à  no «Filho do Homem» (v. 35), ou seja, em Jesus. É tudo um caminho. Hoje seria bom que todos vós pegásseis no Evangelho de João, capítulo nove, e lêsseis esta passagem: é tão bonita e nos fará bem lê-la uma ou duas vezes. Os prodígios que Jesus realiza não são gestos espetaculares, mas destinam-se a conduzir à fé através de um caminho de transformação interior.
Os doutores da lei - que estavam lá, um grupo - persistem em não admitir o milagre, e fazem perguntas insidiosas ao homem curado. Mas ele desconcerta-os com a força da realidade: «Uma coisa eu sei: havendo sido cego, agora vejo» (v. 25). Entre a  desconfiança e a hostilidade dos que o rodeiam e o interrogam incrédulos, ele realiza  um itinerário que gradualmente o leva a descobrir a identidade d'Aquele que lhe abriu os olhos e a confessar a fé nele. Primeiro considera-o profeta (cf. v. 17); depois reconhece-o como alguém que vem de Deus (cf. v. 33); por fim acolhe-o como o Messias e prostra-se diante dele (cf. vv. 36-38). Compreendeu que ao dar-lhe a visão Jesus «manifestava nele as obras de Deus» (cf. v. 3).
Que também nós possamos fazer esta experiência! Com a luz da fé, aquele que era cego descobre a sua nova identidade. Ele é agora uma «nova criatura», capaz de ver a sua vida e o mundo ao seu redor sob uma nova luz, porque entrou em comunhão com Cristo, entrou noutra dimensão. Ele já não é um mendigo marginalizado pela comunidade; já não é um escravo da cegueira e do preconceito. O seu caminho de iluminação é uma metáfora para o caminho de libertação do pecado a que somos chamados. O pecado é como um véu escuro que cobre o nosso rosto e nos impede de ver claramente a nós mesmos e o mundo; o perdão do Senhor tira este manto de sombra e escuridão e restitui-nos nova luz. A Quaresma que estamos a viver seja um tempo oportuno e precioso para nos aproximarmos do Senhor, pedindo a Sua misericórdia, nas diferentes formas que a Mãe Igreja nos propõe.
O cego curado, que agora vê com os olhos do corpo e da alma, é a imagem de todos os batizados que, imersos na Graça, foram arrancados das trevas e colocados na luz da fé. Mas não é suficiente receber a luz, é preciso tornar-se luz. Cada um de nós é chamado a receber a luz divina a fim de a manifestar com toda a nossa vida. Os primeiros cristãos, os teólogos dos primeiros séculos, disseram que a comunidade dos cristãos, ou seja, a Igreja, é o «mistério da lua», porque dava luz mas não tinha luz própria, era a luz que recebia de Cristo. Também nós devemos ser «mistério da lua»: dar a luz recebida do sol, que é Cristo,  Senhor. São Paulo recorda-nos isto hoje: «Comportai-vos, pois, como filhos da luz; agora o fruto da luz consiste na bondade, na justiça e na verdade» (Ef 5,8-9). A semente de vida nova colocada em nós no Batismo é como a centelha de um fogo, que nos purifica antes de tudo, queimando o mal nos nossos corações, e permite-nos brilhar e iluminar. Com a luz de Jesus.
Que Maria Santíssima nos ajude a imitar o homem cego do Evangelho, para que sejamos inundados pela luz de Cristo e nos coloquemos com Ele no caminho da salvação.


Fonte: Santa Sé

Domingo da Santa Cruz em Moscou

No último sábado, dia 21 de março, o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa celebrou a Vigília do III Domingo da Quaresma, o "Domingo da Santa Cruz", na  Catedral Patriarcal do Cristo Salvador.