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sábado, 15 de agosto de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Assunção de Maria (2006)

Há 20 anos, no dia 15 de agosto de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria na Paróquia Santo Tomás de Villanova, junto ao Palácio Apostólico de Castel Gandolfo (Itália).

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião e sua meditação durante a oração do Ângelus:

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria
Homilia do Papa Bento XVI
Paróquia Santo Tomás de Villanova, Castel Gandolfo
Terça-feira, 15 de agosto de 2006

Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
No Magnificat, o grande cântico da Virgem que acabamos de ouvir no Evangelho (cf. Lc 1,46-55), encontramos uma palavra surpreendente. Maria diz: «Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada» (v. 48). A Mãe do Senhor profetiza os louvores marianos da Igreja por todo o futuro, a devoção mariana do Povo de Deus até o fim dos tempos. Louvando Maria, a Igreja não inventou algo “ao lado” da Escritura: respondeu a essa profecia feita por Maria naquela hora de graça.

E essas palavras de Maria não eram só palavras pessoais, talvez arbitrárias. Como diz São Lucas, Isabel havia exclamado, cheia do Espírito Santo: «Bem-aventurada aquela que acreditou» (v. 45). E Maria, também cheia do Espírito Santo, continua e completa o que disse Isabel, afirmando: «Todas as gerações me chamarão bem-aventurada». É uma verdadeira profecia, inspirada pelo Espírito Santo, e a Igreja, venerando Maria, responde a uma ordem do Espírito Santo, faz o que deve fazer.


Nós não louvamos a Deus suficientemente nos calando sobre os seus santos, sobretudo sobre “a Santa”, que se tornou a sua morada na terra, Maria. A luz simples e multiforme de Deus só se manifesta a nós na sua variedade e riqueza no rosto dos santos, que são o verdadeiro espelho da sua luz. E precisamente contemplando o rosto de Maria podemos ver melhor do que de outros modos a beleza de Deus, a sua bondade, a sua misericórdia. Podemos realmente perceber a luz divina neste rosto.

«Todas as gerações me chamarão bem-aventurada». Nós podemos louvar Maria, venerar Maria, porque é «bem-aventurada», bem-aventurada para sempre. Este é o conteúdo da Solenidade de hoje. É bem-aventurada porque está unida a Deus, vive com Deus e em Deus. O Senhor, na véspera da sua Paixão, despedindo-se dos seus, disse: «Na casa de meu Pai há muitas moradas. (...) Vou preparar um lugar para vós» (Jo 14,2). Maria, ao dizer: «Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38), preparava aqui na terra a morada para Deus; ela se tornou essa morada de corpo e alma, e assim abriu a terra ao céu.

Homilia do Papa João Paulo II: Assunção de Maria (2001)

Há 25 anos, no dia 15 de agosto de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria no pátio do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo (Itália).

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião e sua meditação durante a oração do Ângelus:

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria
Homilia do Papa João Paulo II
Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Quarta-feira, 15 de agosto de 2001

1. «O último inimigo a ser destruído é a morte» (1Cor 15,26).
As palavras de Paulo, que acabam de ressoar na 2ª Leitura, nos ajudam a compreender o significado da Solenidade que hoje celebramos. Em Maria, assunta ao Céu no final da sua vida terrena, resplandece a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, a qual entrou no mundo por causa do pecado de Adão. Foi Cristo, o “novo” Adão, que venceu a morte, oferecendo-se em sacrifício no Calvário, em atitude de amor obediente ao Pai. Assim, Ele nos resgatou da escravidão do pecado e do mal. No triunfo da Virgem, a Igreja contempla aquela que o Pai escolheu como verdadeira Mãe do seu Filho Unigênito, associando-a intimamente ao desígnio salvífico da Redenção.

É por isso que Maria, como bem evidencia a Liturgia, é sinal consolador da nossa esperança. Olhando para ela, arrebatada na exultação dos coros dos anjos, toda a existência humana, mesclada de luzes e sombras, se abre à perspectiva da eterna bem-aventurança. Se a experiência quotidiana nos faz experimentar como a peregrinação terrena está marcada pela incerteza e pela luta, a Virgem elevada à glória do Paraíso nos assegura que jamais nos faltará a proteção divina.


2. «Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol» (Ap 12,1).
Olhemos para Maria, caríssimos irmãos e irmãs, reunidos aqui em um dia tão querido à devoção do povo cristão. Saúdo-vos com grande afeto. Saúdo de modo particular o Cardeal Angelo Sodano, meu primeiro colaborador, e o Bispo de Albano, com o seu Auxiliar, agradecendo-lhes pela sua presença [1]. Saúdo também o pároco com os sacerdotes que o ajudam, os religiosos, as religiosas e todos os fiéis aqui presentes, de maneira especial os consagrados salesianos, a comunidade de Castel Gandolfo e a das Vilas Pontifícias. Estendo o meu pensamento aos peregrinos de diversas línguas que quiseram unir-se à nossa celebração. Desejo a cada um que viva com alegria a Solenidade deste dia, rica de motivos de meditação.

Um grande sinal apareceu para nós no céu hoje: a Virgem Mãe! É dela que o autor sagrado do Livro do Apocalipse nos fala com linguagem profética na 1ª Leitura. Que extraordinário prodígio se apresenta diante dos nossos olhos espantados! Acostumados a olhar para as realidades da terra, somos convidados a elevar o olhar para o Alto: para o Céu, que é a nossa Pátria definitiva, onde a Santíssima Virgem nos espera.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Ângelus: XIX Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 09 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Hoje o Evangelho nos fala de Jesus que, caminhando sobre as águas do mar da Galileia, vai ter com os discípulos no meio de uma tempestade (Mt 14,22-33).

Após o milagre dos pães e dos peixes (cf. Mt 14,13-21) o Mestre manda os seus discípulos embarcar e ir adiante, para a outra margem, enquanto Ele se retira em um monte, sozinho, para rezar. Longe da costa, porém, encontram-se à mercê do vento e têm dificuldade em avançar. Depois de uma experiência bem-sucedida, na qual tinham sido protagonistas de um sinal prodigioso, encontram-se agora impotentes e assustados perante a ameaça das ondas e do vento contrário.

No final da noite, Jesus vai ao encontro deles sobre as águas agitadas, e, assustados, o confundem com um fantasma (v. 26). Mas Ele lhes diz: «Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo!» (v. 27). A presença do Senhor muda tudo: Pedro chega até mesmo a dar alguns passos sobre as ondas em direção a Ele; depois se assusta, começa a afundar e Jesus o salva. Quando o Mestre entra no barco, a tempestade se acalma e então brota espontaneamente do coração dos discípulos a profissão de fé: « Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus!» (v. 33).

Para chegar a este ponto não lhes bastou assistir a um milagre, nem ter tido bom êxito diante das pessoas: tiveram que passar pela experiência da própria fraqueza, reconhecendo nela a presença de Deus. Só assim conseguiram verdadeiramente abrir os olhos e o coração à sua proximidade, reencontrando a paz mesmo no meio da tempestade.

Um dia, mais tarde, Jesus lhes dirá: «Se tiverdes fé e não duvidardes (...), se disserdes a este monte: “Arranca-te daí e lança-te ao mar”, acontecerá» (Mt 21,21). E foi precisamente isso que eles experimentaram no lago: a paz de Cristo, que tinha estado na montanha rezando, alcançou-os no meio da fúria das águas.

Com efeito, este milagre nos ensina algo importante: em primeiro lugar, a não nos vangloriarmos do sucesso e a nunca nos considerarmos superiores aos outros; depois, a não perdermos a esperança, nem mesmo nos momentos de escuridão, quando nos sentimos impotentes perante os problemas que, apesar dos nossos esforços, nos fazem pensar que estamos recuando em vez de avançar. Em qualquer circunstância, Jesus não nos abandona e, se o acolhermos humildemente no barco da nossa vida - através da oração, dos Sacramentos e da escuta da Palavra -, n’Ele encontraremos a paz, a luz e a força para o nosso caminho.

Que Maria nos ajude a viver assim, com confiante abandono em Deus, ela que foi proclamada bem-aventurada pela sua fé (cf. Lc 1,45).

Jesus caminha sobre as águas
(Walter Rane)

Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Ângelus: XVIII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 02 de agosto de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Quando ouvimos o Evangelho, frequentemente escutamos falar dos sinais realizados por Jesus: são gestos que manifestam a sua dedicação especial por nós, ou seja, a salvação que Ele traz ao mundo. O Senhor é recordado como Aquele que dá sentido à vida, libertando-a do mal e do pecado.

Ao dar a visão aos cegos e a audição aos surdos, Cristo não se limita a realizar milagres, mas anuncia a todos que o Reino de Deus está próximo. Por isso, o Evangelho de hoje (Mt 14,13-21) testemunha que Jesus não se limita a restaurar os sentidos a quem deles carece, mas também dá sabor aos nossos sentidos. A quem era surdo e passa a ouvir, o Senhor dirige a Boa Nova para ser ouvida; a quem era cego e passa a ver, mostra a esplêndida obra da redenção que é realizada por Ele. Da mesma forma, Jesus dá aos que têm fome o alimento para comer: o episódio da multiplicação dos pães significa que o encontro com o Senhor é uma experiência nutritiva. No deserto, ou seja, no lugar da nossa necessidade, Cristo é o pão da vida. Com Ele, o essencial é abundante: «Todos comeram e ficaram satisfeitos» e, com o que sobrou, «recolheram ainda doze cestos cheios» (v. 20). Este número realça que a dádiva do Senhor é universal e que a sua providência para conosco nunca falha.

Caríssimos, Cristo sacia verdadeiramente a fome da humanidade, a nossa fome de verdade e de vida. Ao mesmo tempo, o seu gesto ensina que nada se desperdiça quando é partilhado. A acumulação e o desperdício, por outro lado, são duas faces do mesmo mal: a ganância. Esta doença da alma faz perder o juízo, porque embriaga de riquezas, ao ponto de ignorar aqueles que choram de fome e clamam de sede. E assim, perante a opulência das coisas que perecem, estão as mãos estendidas de quem não tem o que comer, as casas incendiadas de quem não tem paz.

No deserto da guerra e da arrogância, observemos com que benevolência o Senhor «ergueu os olhos para o céu», «pronunciou a bênção», «partiu os pães e os deu» aos seus discípulos, para que os distribuíssem à multidão (v. 19). Neste milagre da caridade reconhecemos os gestos característicos de Jesus, que encontram na Última Ceia o seu ápice. Com efeito, nessa ocasião o Filho de Deus nos entrega a sua própria vida, como nosso irmão na humanidade. Enquanto saboreamos a graça da Eucaristia, comprometamo-nos a testemunhar a sua beleza nos nossos gestos quotidianos, a começar pela bênção da mesa, quando partilhamos o pão em família e entre amigos. Na companhia de Jesus, também as férias podem se tornar um tempo de serenidade fraterna, envolvendo aqueles que, ao nosso lado, se encontram em necessidade.

Peçamos, portanto, à Virgem Maria, mãe atenciosa, que nos faça crescer na caridade, para que a ninguém falte o pão de cada dia.

Multiplicação dos pães
(Vasily Nesterenko)

Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Ângelus: XVII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 26 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
No centro do ensinamento de Jesus está o mistério do Reino de Deus, que o Evangelho de hoje compara a uma pérola e a um tesouro (cf. Mt 13,44-52). As parábolas dão a entender a surpresa de quem encontra algo que nem sequer podia esperar, a tal ponto que vender ou deixar tudo já não aparece como uma renúncia, mas sim como um ganho. Na verdade, os evangelistas, desde as primeiras páginas, descrevem o chamado de Jesus a segui-lo como irresistível: livre, certamente, mas urgente e capaz de suscitar uma resposta imediata e movida pelo desejo. Este é um primeiro e importante aspecto do modo como Deus está próximo e se deixa encontrar: o encontro com o seu Reino é uma reviravolta que não restringe, mas alarga a vida. Se algo agora precisa mudar, é para trazer mais possibilidades, não menos.

Há um segundo aspecto ao qual Jesus parece dar muita importância: quem encontra o tesouro escondido no campo é provavelmente um agricultor; a pérola, por sua vez, é reconhecida como sendo de grande valor por um negociante, talvez um viajante. Seguem-se outras duas parábolas, nas quais os protagonistas são pescadores e um escriba entendido em coisas velhas e novas. Existem outras, ainda, nas quais o Reino se deixa vislumbrar em uma mulher que amassa a farinha, em outra que arruma a casa, em um rei que prepara a guerra, em um homem que projeta construir uma torre, em administradores que gerem pagamentos ou investimentos, em pastores e agricultores. O Reino de Deus, em suma, revela a sua beleza inestimável de diversas formas, mas chama todos - homens e mulheres, jovens e idosos, pobres e ricos - a uma profunda renovação. Todos podem compreendê-lo e são atraídos por ele.

Também hoje a Igreja é uma comunhão de pessoas diferentes quanto à sua origem, à cultura, às competências e ao nível de responsabilidade, mas todas chamadas a se reconhecerem como “um” em Jesus Cristo: é Ele o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede que recolhe os dispersos. Com efeito, desde o princípio, Jesus chamou e reuniu em torno de si pessoas que, de outro modo, nunca se teriam relacionado. Precisamente assim demonstrou que Deus não faz distinção de pessoas e que a sua eleição é predileção, especialmente por quem é pequeno e rejeitado.

Irmãos e irmãs, só nos resta pedir um dom, o mesmo que o jovem rei Salomão invocou (cf. 1Rs 3,5.7-12). É o dom de distinguir a pérola de grande valor, de saber reconhecer o tesouro pelo qual vale a pena vender tudo. Enquanto a indústria do consumo nos altera o paladar, suscitando sempre novas necessidades para depois nos vender respostas que não saciam e, por vezes, envenenam o coração, temos que aprender a perceber o que realmente importa, o tesouro da relação com Deus, que nos abre à alegria e ajuda a viver da melhor maneira as relações entre nós.

Que a intercessão de Maria, Sede da Sabedoria, oriente para Jesus o nosso desejo de vida, para que se realize em plenitude.


Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Ângelus: XVI Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 19 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Após a parábola do semeador, Jesus continua a falar às multidões por meio de algumas imagens: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento na farinha (Mt 13,24-43).

Trata-se de três pequenas parábolas que pretendem evocar a chegada do Reino de Deus na história, a sua ação na vida dos homens, a maneira como cresce, se expande e transforma o mundo a partir de dentro. Com esses relatos, Jesus nos adverte contra a tentação de pensar em Deus como uma figura poderosa, que se impõe pela força, que ocupa o espaço para dominar, que chega de forma triunfante. Pelo contrário, Deus prefere a pequenez, sinal de seu amor discreto. Ele nos deixa livres para acolhê-lo ou rejeitá-lo, procura abrir caminho mesmo em meio ao joio e age de forma oculta e invisível, como a menor de todas as sementes, fermentando a massa sem fazer barulho.

Irmãos e irmãs, com essas parábolas Jesus nos diz algo importante sobre o modo como Deus opera em nossa vida e na história. Às vezes esperamos algo espetacular, desejamos um Deus que intervenha do alto, arrancando imediatamente o joio, que é o mal. Imaginamos um Deus forte e poderoso e, infelizmente, também adequamos nossa maneira de ser cristãos e de ser Igreja a essa imagem. Em vez disso, o Reino de Deus se difunde também em meio ao joio e nos pede um olhar capaz de reconhecer o bem que brota mesmo nas trevas do mal, sem que julguemos tudo apressadamente. Ele vem como a menor das sementes e exige, portanto, a paciência de saber acompanhar os processos, reconhecendo-o na simplicidade do cotidiano e na singeleza da vida comum. Cresce invisivelmente, como o fermento na farinha, e assim nos liberta do desânimo, convidando-nos a ter confiança, ainda que nos pareça que Deus está ausente. Pois, na verdade, Ele nos acompanha continuamente e seu amor está sempre agindo em nosso favor.

Esse estilo de Deus deve se tornar também o modelo segundo o qual vivemos a realidade que nos rodeia, tanto como indivíduos quanto como Igreja. Somos chamados a assumir um estilo evangélico, sem adotarmos precipitadamente uma postura de oposição marcada por julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força e sem perdermos a confiança na obra de Deus. Trata-se - dizia o então Cardeal Ratzinger - de nos submetermos à lógica da semente, que não é a do sucesso e da grandeza, mas que nos pede para nos tornarmos pequenos e servirmos à vida das pessoas (cf. Discurso no Congresso dos Catequistas e dos Professores de Religião, 10 de dezembro de 2000). Assim, nós mesmos nos tornaremos como uma pequena semente do Evangelho que brota e como um fermento de amor que transforma a massa do mundo.

Oremos a Maria Santíssima, que soube acolher a semente da Palavra em sua humildade, para que ela nos sustente em nosso caminho e interceda por nós.


Fonte: Santa Sé.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ângelus: XV Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça da Liberdade (Castel Gandolfo)
Domingo, 12 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bom domingo!
Na Liturgia de hoje o evangelista Mateus nos apresenta a parábola do semeador (Mt 13,1-23), que descreve a generosidade e a confiança com que Deus espalha a sua Palavra no nosso coração e o seu poder em nós.

O próprio Jesus, o Verbo que se fez homem, que deu a sua vida pela nossa salvação, é a semente que o Pai continua a espalhar pelo mundo para que, ao morrer, dê muito fruto (cf. Jo 12,24). É verdade que, às vezes, Ele encontra em nós um terreno duro e insensível; outras vezes, distraído, semelhante ao solo batido dos caminhos, ao terreno pedregoso ou aos arbustos espinhosos; mas há momentos em que encontra uma terra receptiva e fértil, e então se desencadeiam milagres de amor capazes de mudar tudo, como também nós certamente já experimentamos na nossa vida. Por isso o Pai não desiste de semear, porque sabe que o poder do seu amor é mais forte do que a nossa fraqueza (cf. 2Cor 12,9-10).

É o que afirma São João Crisóstomo, referindo-se à “semente” da Palavra de Deus: «Como pode ser razoável semear entre espinhos, em terreno pedregoso, à beira do caminho? No caso das sementes e da terra, isso não seria razoável, mas no caso das almas e dos ensinamentos, isso é muito louvável» (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 44, 3). Na verdade, é possível que, nas mãos de Deus, «o terreno pedregoso se transforme, tornando-se terra fértil; que o caminho deixe de ser pisado e de estar exposto a todos os transeuntes, passando a ser solo fértil; que os espinhos sejam eliminados e as sementes desfrutem de uma situação de grande segurança» (ibid.).

A generosidade de Deus para conosco não é ingénua, mas sábia, e sabe aproveitar em nós a possibilidade de um bem que, por vezes, nem sequer percebemos. Por isso o Senhor, que conhece o terreno do nosso coração melhor do que nós mesmos, não deixa de acreditar em nós: naquilo que somos e naquilo em que podemos nos tornar, dia após dia, se nos entregarmos a Ele com fé.

Assim, a partir da gratuidade e confiança com que a semente é lançada e da humildade e disponibilidade com que é recebida, crescem em nós e se difundem, como ensina São Paulo, os frutos do Espírito Santo: «caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência» (Gl 5,22-23). Como o nosso mundo precisa destes frutos e de ser preenchido e transformado por eles!

Com efeito, especialmente nestes dias de férias, empenhemo-nos em dedicar tempo à escuta, à leitura e à meditação da Palavra de Deus, cultivando, junto ao descanso e à diversão saudável, momentos significativos de silêncio e oração. Retornaremos às nossas ocupações habituais renovados no corpo e no espírito, prontos para anunciar a Boa Nova do Evangelho e cada vez mais capazes de cooperar no crescimento do Reino de Deus.

Que Maria, Rainha dos Apóstolos e Estrela da Evangelização, nos ajude nisto.


Fonte: Santa Sé.

Confira também a meditação do Papa Leão XIV sobre a “parábola do semeador” na primeira Audiência Geral após sua eleição, no contexto do Jubileu Ordinário de 2025.

sábado, 25 de julho de 2026

Ângelus: XIV Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 05 de julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho da Liturgia de hoje (Mt 11,25-30) nos convida a partilhar o louvor que Jesus eleva ao Pai, «Senhor do céu e da terra» (v. 25). O Filho de Deus feito homem manifesta o seu amor envolvendo todas as criaturas nesta ação de graças.

A simplicidade de um gesto tão espontâneo e alegre corresponde ao estilo de Deus, que gosta de se revelar «aos pequeninos», enquanto permanece escondido «aos sábios e entendidos» (v. 25). Na verdade, estes estão de tal forma cheios das próprias ideias que não reconhecem a presença de Cristo, o Messias que visita o seu povo. A sabedoria humana, então, se torna arrogância e a doutrina degenera em soberba. Pelo contrário, a verdadeira sabedoria de Deus se revela na humildade da carne e o seu ensinamento se dirige àqueles que passam por maiores dificuldades: «Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados» (v. 28), diz o Senhor. Ir ao encontro de Jesus significa corresponder ao seu amor e partilhar a sua vida até a cruz, como Ele mesmo nos explicou: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (Mt 16,24). É precisamente o dom de si mesmo por amor que constitui o “jugo” de Jesus (cf. Mt 11,29), isto é, a síntese do seu ensinamento, o cerne da sua sabedoria, ardente de caridade para com todos.

Irmãos e irmãs, como pode ser “leve” e “suave” o peso da cruz (cf. v. 30)? Só por uma razão: porque o Senhor o carrega primeiro e com todos nós, sem nunca nos deixar sozinhos diante do que nos oprime. Como autêntico mestre, Jesus toma sobre si a humanidade ferida pelo mal, para cuidar dela. A sabedoria que Ele nos dá é um anúncio de salvação e o seu jugo nos levanta de todas as quedas. Ao seguir Cristo, o nosso caminho não é, portanto, uma ascese que mortifica: é uma escola de liberdade, que leva a sério o drama da história e ilumina sempre o seu sentido, sobretudo nos momentos mais sombrios. Com efeito, só na Cruz de Jesus é que o mal é redimido: só na sua Paixão é que o nosso cansaço mortal encontra consolo e resgate.

Em situações de escravidão, Cristo é libertação. No flagelo da guerra, Cristo é esperança. Na hora do pecado, Cristo é perdão. Esta é a verdadeira sabedoria, isto é, o caminho que queremos percorrer juntos, unidos como discípulos em seu nome. Jesus nos ensina isso como Filho, tornando-se nosso irmão: com a força do Espírito Santo, Ele mesmo manifesta à Igreja a verdade de Deus e do homem, pois «ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (v. 27).

Caríssimos, ao darmos graças ao Senhor por esta sua confidência cheia de amor, imploremos a intercessão de Maria, Rainha da Paz, pelo bem da Igreja e do mundo inteiro.

“Vinde a mim...”
(Igreja do Sagrado Coração de Jesus - Augsburg, Alemanha)

Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Ângelus: Solenidade de São Pedro e São Paulo (2026)

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Segunda-feira, 29 de junho de 2026

Irmãos e irmãs, bom dia!
Celebramos hoje a Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, Padroeiros de Roma. Esta festa recorda o vínculo originário que une, em uma comunhão de fé e caridade, a Igreja que está em Roma a todas as outras Igrejas do mundo.

O testemunho destes dois Apóstolos é quase um selo do Novo Testamento. O sangue derramado por eles nesta cidade revela até onde chega o amor de Deus que o Senhor Jesus nos concedeu. Sim, foi graças à sua palavra e ao seu martírio que o Evangelho de Cristo se enraizou, por assim dizer, em Roma, manifestando precisamente aqui, na capital do Império, a sua capacidade de renovação: um novo conhecimento de Deus e da infinita dignidade de cada ser humano, uma nova experiência da força, não como domínio, mas como serviço à vida.

O Senhor, que morreu e ressuscitou por amor, ainda hoje se torna presente nas suas testemunhas, chega aos centros e às periferias, às capitais e às regiões mais remotas, através das vozes, dos rostos e das escolhas corajosas daqueles que responderam ao seu convite: “Segue-me!”. Assim, este dia de festa nos envolve na missão de Pedro e Paulo, ou seja, na missão do próprio Jesus. Deus confia em nós, que somos pecadores perdoados por Ele, em nós que não somos perfeitos, para que a sua graça brilhe nas nossas histórias e se revele a sua força, que muda o mal em bem.

Caríssimos, talvez Pedro e Paulo não pudessem ter sido mais diversos um do outro. Diversos na origem, na formação e no caráter; não só antes de terem sido chamados, mas também depois; e o seu único Senhor não os uniformizou. O Evangelho é compreendido e anunciado com um sotaque específico por cada um deles; e o Espírito Santo, ao inspirar os autores bíblicos, não quis que ficassem escondidas as suas divergências, as quais na verdade nos são narradas como uma boa nova. Todavia, no colégio dos Apóstolos, Pedro e Paulo não foram adversários. Pelo contrário, tornaram-se quase o símbolo de muitas outras diversidades que o único Espírito compõe em unidade. Assim, os Padroeiros da Igreja de Roma viveram o esforço da comunhão, conhecendo-a, servindo-a e anunciando-a como sacramento da vida divina. O seu testemunho contribuiu de forma determinante para que a presença cristã na história se orientasse não para o domínio, mas para o serviço, a unidade e a reconciliação.

Por intercessão de São Pedro e São Paulo o Senhor nos conceda apreciar cada vez mais a catolicidade da Igreja, reconhecer o seu valor a serviço do encontro fraterno entre as pessoas e os povos, evitar tudo o que desgasta ou prejudica a comunhão, e perseverar no caminho ecumênico e no diálogo atento e franco com todos.

Que Maria, Rainha dos Apóstolos, proteja sempre o Povo de Deus, em Roma e no mundo inteiro.

São Pedro e São Paulo (José de Ribera)

Fonte: Santa Sé.

sábado, 18 de julho de 2026

Ângelus: XIII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 28 de junho de 2026

Irmãos e irmãs, bom domingo!
Também no Evangelho de hoje (Mt 10,37-42) escutamos algumas exortações de Jesus para vivermos o seguimento e sermos testemunhas do seu Reino. Não se trata de uma ação exterior, mas de nos dedicarmos totalmente a uma relação de amor com Ele. E para dar fruto, o amor requer pelo menos três coisas: o desapego, a perda e a acolhida.

Em primeiro lugar, o desapego. Jesus diz: «Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim» (v. 37). Quando começa a enviar os seus Apóstolos em missão, o Senhor deseja que eles sejam livres de qualquer vínculo. Mas é válido para todos que mesmo os afetos mais importantes encontram a sua plenitude graças ao amor que Cristo nos dá. Pensemos, por exemplo, na vida matrimonial: só é possível vivê-la plenamente “deixando” a casa dos pais (cf. Mt 19,6) para dedicar-se à relação conjugal. Pensemos também no crescimento dos filhos: só é possível ajudá-los a realizar-se e a ser felizes, educando-os a “caminhar com as próprias pernas” e a fazer as suas escolhas. Diz Santo Agostinho: «É doloroso separar-se daquilo que se ama. Mas mesmo o agricultor perde temporariamente o que semeia» (Sermão 330, 2). Só “perdendo” aquela semente, lançada à terra, é que poderá vê-la florescer.

Neste sentido, o amor é também perda. É difícil compreendê-lo, especialmente em um mundo no qual perder parece ser uma fraqueza e se vive obcecado por ter e possuir. O amor, porém, só produz fruto ao doar-se: quando estamos dispostos a perder um pouco do nosso “eu” para dar espaço ao outro, a perder um pouco de tempo para escutar um amigo, a perder um pouco de conforto para compartilhar uma situação de dificuldade. Quem conserva a vida apenas para si mesmo, diz o Evangelho, na realidade a perde (cf. v. 39), porque ela não se abre à alegria do amor e se torna estéril. Por isso Jesus nos convida a abraçar a Cruz: Ele se ofereceu, perdeu-se a si mesmo e, precisamente assim, pudemos receber a sua vida em abundância. Da mesma forma, se vivermos segundo a lógica do dom, também nós seremos capazes de gerar vida nova nas nossas relações.

Por fim, a acolhida. O amor, com efeito, se expressa em escolhas e ações concretas, em um empenho feito de pequenos gestos quotidianos, como oferecer um copo de água a quem tem sede (cf. v. 42). Jesus, enviando os seus discípulos à sua frente, lhes pede para irem sem provisões, isto é, para serem necessitados, pois assim poderão suscitar acolhida naqueles que encontrarem. Deste modo, acolhendo quem vem em nome de Jesus, se acolhe Ele e o Pai celeste que o enviou. O amor ao Senhor passa sempre pela acolhida dos irmãos.

Caríssimos, rezemos à Virgem Maria, que amou o seu Filho sabendo também perdê-lo: que ela nos ajude a ser testemunhas humildes e alegres do amor de Cristo.


Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Ângelus: XII Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 21 de junho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
No Evangelho da Liturgia de hoje (Mt 10,26-33), Jesus, ao enviar os discípulos em missão, lhes dirige, entre outras coisas, esta exortação: «O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!» (v. 27).

Ele estabelece uma ligação entre o que ouvimos “ao pé do ouvido”, isto é, no íntimo do coração, e aquilo que somos chamados a proclamar a todos, recordando-nos que o anúncio do Evangelho é, antes de tudo, a partilha de um encontro pessoal com Ele, único para cada um.

A força do apostolado, com efeito, para além de técnicas e instrumentos, se baseia na ação do Espírito Santo em nós e na autenticidade da nossa resposta. Santo Tomás de Aquino se referia à pregação como a transmissão aos outros daquilo que contemplamos: «contemplata aliis tradere» (cf. Suma Teológica, III, q. 40, a. 1, ad 2).

E não devemos pensar que a contemplação seja uma experiência exclusiva, reservada a alguns santos ou aos monges e eremitas. Todos nós podemos fazê-la, esforçando-nos por reservar, entre as ocupações do nosso dia-a-dia, momentos de quietude nos quais nos colocamos em silêncio diante de Deus, para ouvir a sua voz, confiar-lhe as nossas alegrias e preocupações, examinar com Ele a nossa vida. Isto nos torna cada vez mais pessoas de uma fé sólida e consciente e, consequentemente, apóstolos credíveis e livres, homens e mulheres capazes de refletir a luz do Evangelho em cada ambiente e em cada situação da vida, e de testemunhá-lo mesmo onde o seu valor não é compreendido ou aceito.

São Mateus, autor da passagem bíblica a que nos referimos, escrevia para comunidades que não tinham uma vida fácil. Deviam enfrentar hostilidades e perseguições, como acontece ainda hoje a tantos cristãos em vários lugares do mundo, e a tentação de desanimar e de se deixar vencer pelo cansaço ou pelo medo era grande.

Como naquela época, também hoje é um desafio permanecer fiéis aos ensinamentos de Jesus e anunciar a sua Palavra: responder ao ódio com o amor, à arrogância com a mansidão, ao desânimo com a perseverança. Por isso, é necessário que aprofundemos as raízes da nossa fé e a nossa missão em uma relação intensa com Ele (cf. Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 8). Esta relação nos dá a força para não desistirmos e para continuarmos a transmitir a todos, em cada circunstância, a sua mensagem de esperança, de amor e de paz. O mundo precisa tanto disso!

Que a Virgem Maria nos ajude a ser discípulos missionários do Senhor Jesus, cada um segundo a sua vocação.


Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Ângelus: XI Domingo do Tempo Comum - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 14 de junho de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
O Evangelho de hoje (Mt 9,36–10,8) nos traz um grande presente, pois envolve todos aqueles que o escutam sob o olhar de Jesus: é um relato que, além de nos dizer o que o Senhor observa, testemunha a atenção do seu olhar. Com efeito, lemos que «vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas» (v. 36). Fazendo-se nosso irmão, o Filho de Deus olha para as pessoas, olha para a humanidade: vê a opressão que subjuga e a violência que tira as forças. Vê as feridas das guerras e o vazio do consumismo. Vê rostos reduzidos a máscaras, famílias destruídas pelo mal e jovens iludidos por falsos ideais. Jesus vê e ama. Ama e sofre por nós e conosco: a sua compaixão expressa não só proximidade fraterna, mas também vontade de redenção.

Ele, com efeito, conhece o nosso coração e cuida dele: diante de tantas pessoas que são «como ovelhas que não têm pastor» (v. 36), Cristo se dedica a todas como bom pastor e, como senhor da messe, envia trabalhadores para o campo do mundo (cf. v. 38). Qual é o trabalho que devem realizar? Oferecer o conforto de Deus a quem sofre: levar caridade onde há miséria, esperança onde há aflição, fé onde há desconfiança.

O Evangelho menciona os nomes dos primeiros doze “trabalhadores”: são discípulos feitos apóstolos, isto é, missionários e pregadores. Entre eles está Simão, chamado Pedro, o primeiro, e também Judas Iscariotes, o último, para nos lembrar que é possível seguir Jesus e traí-lo, mas o Evangelho permanece para todos como palavra viva e verdadeira. A Boa Nova que atravessa os séculos é idêntica, sempre jovem, fresca e libertadora: «O Reino dos Céus está próximo» (Mt 10,7)! Sim, está próximo porque, em Jesus Cristo, Deus se faz próximo de cada homem e mulher, de cada povo e nação. Quando este Evangelho é anunciado e praticado, o mal desmorona como uma doença que chega ao fim (cf. v. 8), como uma noite que dá lugar à aurora, como a morte vencida pelo Ressuscitado.

É assim que o olhar de Jesus transforma a realidade: plena de amor, a sua iniciativa dá vida a um povo novo, a Igreja, chamado a continuar a missão dos Apóstolos: «De graça recebestes, de graça deveis dar» (v. 8). Sim, o dom de Jesus é totalmente gratuito, porque o seu valor ultrapassa toda medida: é impossível merecê-lo ou “comprá-lo”. Esta graça é o belíssimo nome da misericórdia de Deus, que nos alcança em qualquer lugar, para nos levar a si. «Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita» (Mt 9,38)!

Caríssimos, a tarefa de evangelizar nasce do dom de Deus que, em Cristo, se torna perdão para o mundo, serviço aos pequenos e pobres, compromisso pela justiça. Peçamos a ajuda da Virgem Maria, cheia de graça, para respondermos com alegria e coragem à missão à qual Jesus nos chama.

Cristo com os Doze Apóstolos [1]

Fonte: Santa Sé.

Nota
[1] Fachada da Basílica de Santa Maria de Montserrat (Espanha), visitada pelo Papa no dia 10 de junho de 2026.

domingo, 28 de junho de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: São Pedro e São Paulo (2006)

Há 20 anos, no dia 29 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, na Basílica Vaticana.

Recordamos aqui sua homilia (centrada na missão de Pedro) e sua meditação durante a oração do Ângelus na ocasião:

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Concelebração Eucarística e Imposição do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 29 de junho de 2006

1. «Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja» (Mt 16,18). O que o Senhor diz exatamente a Pedro com estas palavras? Que promessa lhe faz com elas e que tarefa lhe confia? E o que diz a nós - ao Bispo de Roma, que está na Cátedra de Pedro, e à Igreja de hoje?

Se quisermos compreender o significado das palavras de Jesus, é útil recordar que os Evangelhos nos narram três situações diversas nas quais o Senhor, cada vez de um modo particular, transmite a Pedro a tarefa que deverá realizar. Trata-se sempre da mesma tarefa, mas, pela diversidade das situações e das imagens usadas, torna-se mais claro para nós o que queria e o que quer dele o Senhor.


2. No Evangelho de Mateus que ouvimos há pouco, Pedro faz sua profissão de fé a Jesus, reconhecendo-o como Messias e Filho de Deus. Com base nisso lhe é conferida sua tarefa particular mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra fundamental ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Neste momento não pretendo interpretar mais uma vez estas três imagens que a Igreja, ao longo dos séculos, explicou sempre de novo; desejaria antes chamar a atenção para o lugar geográfico e o contexto cronológico destas palavras.

A promessa é feita junto às fontes do rio Jordão, na fronteira da terra judaica, nos confins com o mundo pagão. O momento da promessa marca uma virada decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor se encaminha para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho rumo à Cidade Santa é o caminho rumo à Cruz: «Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (Mt 16,21).

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Ângelus: Santíssima Trindade - Ano A (2026)

Solenidade da Santíssima Trinidade
Papa Leão XIV
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 31 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Há uma semana, com a Solenidade de Pentecostes, se concluiu o Tempo Pascal. Celebrando hoje o Mistério do Deus Trindade, nos é oferecida a oportunidade de repensar o caminho percorrido a partir do seu centro: a vida de Deus que nos foi dada em Jesus Cristo. Esta vida é uma comunhão dinâmica, inesgotável, fecunda, que agora nos envolve: o Espírito que une o Pai e o Filho, com efeito, foi derramado nos nossos corações, de modo que no mundo toma forma a Igreja, sacramento de comunhão, espaço de encontro, de amor e de vida no qual o céu e a terra já se tocam.

O Evangelho da Liturgia de hoje (Jo 3,16-18) nos apresenta Nicodemos, uma importante personalidade de Israel que se sentiu profundamente atraído por Jesus. Com efeito, foi encontrá-lo - à noite, para não ser visto -, ansioso por conhecer melhor este misterioso Mestre e de fazer-lhe algumas perguntas. Recebendo-o, o Senhor deu importância à sua busca. Surpreendeu-o, indicando-lhe que também um adulto pode renascer; deixou-o intuir que a vida de Deus poderia transformar a sua vida. Jesus falou a Nicodemos sobre o Espírito Santo, iluminou a sua noite com a verdade que, na festa de hoje, ressoa em todas as nossas igrejas: «Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que não morra todo o que n’Ele crer, mas tenha a vida eterna» (v. 16). E ainda: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (v. 17).

Caríssimos, no Mistério de Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, estamos em casa, assim como Nicodemos se sentiu em casa junto a Jesus. A vida de Deus é maravilhosa e envolvente, traz paz ao nosso coração, muitas vezes tão inquieto, e nos faz encontrar irmãos e irmãs na alegria do Espírito. A Trindade nos leva a amar tudo e todos: descobrimos que cada criatura foi feita para a comunhão, a relação, o encontro. E, por contraste, compreendemos porque as divisões, as polarizações, o desprezo pelas diversidades trazem ao mundo destruição, tristeza e aridez.

Nicodemos fazia parte do Sinédrio, o Conselho dos chefes de Israel. Quando ouviu ali palavras de desprezo contra Jesus, convidou todos a ouvi-lo antes de condená-lo. Tinha recebido de Deus, através do próprio Cristo, o Espírito de comunhão, que abre o coração à nova verdade e à verdadeira novidade. Quem não acolhe este Espírito envelhece cedo, na lamentação; encontra-se sozinho, nunca tem alegria no coração. Hoje, porém, queridos irmãos e irmãs, é festa! A festa de Deus é a nossa festa. Por isso São Paulo escreve aos coríntios: «Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco» (2Cor 13,11).

E agora, com a oração do Ângelus, dirigimo-nos à Virgem Maria: no seu “sim” à Vontade divina floresça também o nosso “sim” ao amor da Santíssima Trindade.

“Trindade misericordiosa”:
O Pai, o Filho e o Espírito Santo de debruçam sobre o ser humano

Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Corpus Christi (2006)

Por ocasião da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa Bento XVI (†2022) há 20 anos, no dia 15 de junho de 2006, durante a Missa da Solenidade (Ano B) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.

Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 18 de junho.

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa Bento XVI
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 15 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
Na véspera da sua Paixão, durante a Ceia pascal, como ouvimos há pouco no Evangelho, o Senhor «tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu e o entregou aos discípulos, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele. Jesus lhes disse: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos”» (Mc 14,22-24). Toda a história de Deus com os homens está resumida nessas palavras. Não só é recolhido e interpretado o passado, mas também é antecipado o futuro - a vinda do Reino de Deus ao mundo. O que Jesus diz não são simplesmente palavras. O que Jesus diz é acontecimento, o acontecimento central da história do mundo e da nossa vida pessoal.


Essas palavras são inesgotáveis. Porém, neste momento gostaria de meditar convosco apenas um aspecto: Jesus, como sinal da sua presença, escolheu pão e vinho. Com cada um dos dois sinais Ele se doa inteiramente, não só uma parte de si. O Ressuscitado não está dividido. Ele é uma pessoa que, através dos sinais, se aproxima de nós e se une a nós.

Mas cada um dos sinais representa, a seu modo, um aspecto particular do seu mistério e, com a sua manifestação típica, querem falar a nós, para que aprendamos a compreender um pouco mais do mistério de Jesus Cristo. Durante a procissão e na adoração nós contemplamos a Hóstia consagrada - a forma mais simples de pão e de alimento, feito apenas com um pouco de farinha e água. Assim ele se apresenta como o alimento dos pobres, aos quais o Senhor destinou em primeiro lugar a sua proximidade.

Homilia do Papa João Paulo II: Corpus Christi (2001)

Nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 14 de junho de 2001, na Missa da Solenidade (Ano C) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.

Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 17 de junho.

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa João Paulo II
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 14 de junho de 2001

1. «Ecce panis Angelorum, factus cibus viatorum: vere panis filiorum» - «Eis o pão dos Anjos, feito alimento dos peregrinos: verdadeiro pão dos filhos» (Sequência).
Hoje a Igreja mostra ao mundo o Corpus Christi, o Corpo de Cristo, e nos convida a adorá-lo: Venite adoremus! Vinde, adoremos!

O olhar dos fiéis se concentra no Sacramento, no qual Cristo deixou todo o seu ser: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Por isso foi sempre considerado o mais Santo: o “Santíssimo Sacramento”, memorial vivo do Sacrifício redentor.


Na Solenidade do Corpus Christi voltamos àquela “Quinta-feira” que todos chamamos “Santa”, na qual o Redentor celebrou a sua última Páscoa com os discípulos: foi a Última Ceia, cumprimento da ceia pascal hebraica e inauguração do rito eucarístico.

Por isso a Igreja, há séculos, escolheu uma quinta-feira para a Solenidade do Corpus Christi, festa de adoração, de contemplação e de exaltação. Festa na qual o Povo de Deus se reúne em torno do tesouro mais precioso herdado de Cristo, o Sacramento da sua própria Presença, e o louva, o canta e o leva em procissão pelas ruas da cidade.

2. «Lauda, Sion, Salvatorem!» - «Louva Sião, o Salvador!» (Sequência).
A nova Sião, a Jerusalém espiritual, na qual se reúnem os filhos de Deus de todos os povos, línguas e culturas, louva o Salvador com hinos e cânticos. Com efeito, a admiração e o reconhecimento pelo dom recebido são inexauríveis. Este dom «supera todo louvor, não há cântico que lhe seja digno» (ibid.).

Eis um mistério sublime e inefável. Mistério diante do qual permanecemos espantados e silenciosos, em atitude de contemplação profunda e extasiada.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Regina Coeli: Domingo de Pentecostes (2026)

Papa Leão XIV
Regina Coeli
Praça de São Pedro
Domingo, 24 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Nesta Solenidade de Pentecostes somos chamados a contemplar o dom do Espírito Santo, derramado em abundância sobre a Igreja nascente e, hoje, novamente dado aos seus membros, como luz e força que os acompanha em cada situação da vida.

Podemos nos deter em uma imagem do Espírito que nos é oferecida pela Liturgia de hoje: o Espírito abre as portas. Com efeito, o Evangelho nos diz que estavam «fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam» (Jo 20,19), e, ao mesmo tempo, o Livro dos Atos dos Apóstolos nos conta que o Espírito irrompeu como um vento impetuoso (cf. At 2,2), que abriu aquelas portas, impelindo os discípulos a sair e a anunciar a Boa Nova de Cristo Ressuscitado.

Podemos nos perguntar também hoje: que portas abre o Espírito Santo?

A primeira porta é aquela do próprio Deus, no sentido em que nos abre o acesso ao mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo. Com o dom do seu Espírito, Deus nos doa a verdadeira fé, nos faz compreender o sentido das Escrituras, se dá a conhecer como próximo e nos permite participar na sua própria vida. O Espírito Santo nos ajuda a fazer uma experiência pessoal de Deus, a encontrá-lo em Jesus e não apenas na observância de uma lei, a reconhecê-lo em nós e a descobrir os sinais da sua presença na vida quotidiana.

A segunda porta é aquela do Cenáculo, isto é, da Igreja. Sem o fogo do Espírito, a Igreja permanece prisioneira do medo, assustada diante dos desafios do mundo, fechada em si mesma e, portanto, incapaz de dialogar com os tempos que mudam. O Espírito abre as portas da Igreja para que esta seja acolhedora e hospitaleira em relação a todos, mesmo aqueles que fecharam as portas a Deus, aos outros, à esperança, à alegria de viver. Como recordava o Papa Francisco, somos chamados a ser «uma Igreja que abençoa e encoraja (...) uma Igreja das portas abertas a todos» (Homilia na Missa de Abertura da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 04 de outubro de 2023).

Por fim, o Espírito Santo abre as portas dos nossos corações, ajudando-nos a vencer as resistências, os egoísmos, as desconfianças e os preconceitos, e tornando-nos capazes de viver como filhos de Deus e irmãos entre nós. Onde está o Espírito do Senhor nasce a fraternidade entre as pessoas, os grupos, os povos da Terra, e todos falam a única língua do amor, que une e harmoniza as diversidades.

Irmãos e irmãs, também nos nossos dias, especialmente neste dia de Pentecostes, devemos invocar o Espírito Santo, para que abra todas as portas que ainda permanecem fechadas. Precisamos redescobrir Deus como Pai que nos ama, edificar uma Igreja onde todos se sintam em casa e fazer crescer um mundo fraterno, no qual reine a paz entre todos os povos.

Como os primeiros discípulos, confiemos na intercessão da Virgem Maria, Morada do Espírito Santo e Mãe da Igreja.

Pentecostes
(Igreja de Santa Maria dell' Anima, Roma)

Fonte: Santa Sé.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Regina Coeli: Ascensão do Senhor - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Regina Coeli
Praça de São Pedro
Domingo, 17 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Hoje, em muitos países do mundo, celebra-se a Solenidade da Ascensão do Senhor.

A imagem de Jesus que - como diz o texto bíblico (cf. At 1,1-11) -, elevando-se da terra, sobe ao Céu, poderia nos levar a perceber esse Mistério como um acontecimento distante. Contudo, não é assim. Na realidade, estamos unidos a Jesus como os membros à cabeça, em um único corpo, e a sua Ascensão ao Céu também nos atrai, com Ele, para a plena comunhão com o Pai. A este respeito, Santo Agostinho afirmava: «A precedência da cabeça constitui a esperança dos membros» (Sermo 265, 1.2).

Toda a vida de Cristo é um movimento de ascensão, que abraça e envolve, através da sua humanidade, todo o cenário do mundo, elevando e resgatando o homem da sua condição de pecado, levando luz, perdão e esperança onde havia trevas, injustiça e desespero, para chegar à vitória definitiva da Páscoa, na qual o Filho de Deus «morrendo destruiu a morte e ressurgindo restaurou a vida» (Prefácio da Páscoa I).

A Ascensão, então, não nos fala de uma promessa distante, mas de um vínculo vivo, que também nos atrai para a glória celestial, alargando e elevando já nesta vida o nosso horizonte e aproximando cada vez mais a nossa maneira de pensar, de sentir e de agir à medida do coração de Deus.

E deste percurso de ascensão nós conhecemos o caminho (cf. Jo 14,1-6). Encontramo-lo em Jesus, na dádiva da sua vida, nos seus exemplos e nos seus ensinamentos, assim como o vemos traçado na Virgem Maria e nos santos: aqueles que a Igreja nos apresenta como modelos universais e aqueles - como o Papa Francisco gostava de dizer - «ao pé da porta» (cf. Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, n. 7), com quem partilhamos o nosso dia-a-dia, pais, mães, avós, pessoas de todas as idades e condições, que com alegria e empenho se esforçam sinceramente por viver segundo o Evangelho.

Com eles, com o seu apoio e graças à sua oração, também nós podemos aprender a subir, dia após dia, para o Céu, fazendo objeto dos nossos pensamentos, como diz São Paulo, «tudo o que é verdadeiro... justo... amável» (Fl 4,8) e pondo em prática, com a ajuda de Deus, aquilo que “vimos e ouvimos” (cf. v. 9), fazendo crescer, em nós e à nossa volta, a vida divina que recebemos no Batismo e que nos atrai constantemente para o Alto, para o Pai, e difundindo no mundo frutos preciosos de comunhão e de paz.

Que Maria, Rainha do Céu, nos ajude, iluminando e guiando o nosso caminho a cada momento.

Ascensão do Senhor
(Igreja de Santa Maria dell' Anima, Roma)

Fonte: Santa Sé.

sábado, 23 de maio de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Pentecostes (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 04 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de Pentecostes na Praça de São Pedro. Confira a seguir sua homilia na ocasião:

Solenidade de Pentecostes
Homilia do Papa Bento XVI
Praça de São Pedro
Domingo, 04 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
No dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu com poder sobre os Apóstolos; teve início assim a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os Onze para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua Ressurreição (cf. At 1,3). Antes da Ascensão ao Céu, ordenou que “não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem que se realizasse a promessa do Pai” (cf. vv. 4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos para se prepararem a receber o dom do Espírito Santo. E eles se reuniram em oração com Maria no Cenáculo à espera do acontecimento prometido (cf. v. 14).

Permanecer juntos foi a condição posta por Jesus para receber o dom do Espírito Santo; pressuposto da sua concórdia foi uma prolongada oração. Encontramos delineada assim uma formidável lição para toda comunidade cristã. Às vezes se pensa que a eficiência missionária dependa principalmente de uma atenta programação e da sucessiva realização inteligente através de um empenho concreto. Certamente o Senhor pede a nossa colaboração, mas antes de qualquer resposta nossa é necessária a sua iniciativa: é o seu Espírito o verdadeiro protagonista da Igreja. As raízes do nosso ser e do nosso agir estão no silêncio sábio e providente de Deus.


As imagens que São Lucas usa para indicar o irromper do Espírito Santo - o vento e o fogo - recordam o Sinai, onde Deus tinha se revelado ao povo de Israel e lhe tinha concedido a sua aliança (cf. Ex 19,3ss). A festa do Sinai, que Israel celebrava cinquenta dias depois da Páscoa, era a festa da Aliança. Falando de línguas de fogo (cf. At 2,3), São Lucas quer representar o Pentecostes como um novo Sinai, como a festa da nova Aliança, na qual a Aliança com Israel é estendida a todos os povos da Terra. A Igreja é católica e missionária desde a sua origem. A universalidade da salvação é evidenciada significativamente pelo elenco das numerosas etnias a que pertencem aqueles que escutam o primeiro anúncio dos Apóstolos (cf. vv. 9-11).

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Regina Coeli: VI Domingo da Páscoa - Ano A (2026)

Papa Leão XIV
Regina Coeli
Praça de São Pedro
Domingo, 10 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!
Hoje, no Evangelho (Jo 14,15-21), escutamos algumas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos durante a Última Ceia. Ao fazer do pão e do vinho o sinal vivo do seu amor, Cristo diz: «Se me amais, guardareis os meus mandamentos» (v. 15). Esta afirmação nos liberta de um equívoco, ou seja, da ideia de sermos amados se observarmos os mandamentos: a nossa justiça seria então condição para o amor de Deus. Pelo contrário, é o amor de Deus a condição para a nossa justiça. Observamos verdadeiramente os mandamentos, segundo a vontade de Deus, se reconhecermos o seu amor por nós, tal como Cristo o revela ao mundo. As palavras de Jesus, portanto, são um convite à relação, não uma chantagem ou uma incerteza.

Eis porque o Senhor manda que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo 13,34): é o amor de Jesus que gera em nós o amor. O próprio Cristo é o critério, o paradigma do verdadeiro amor: que é fiel para sempre, puro e incondicional; que não conhece nem “mas” nem “talvez”; que se doa sem querer possuir; que dá vida sem tomar nada em troca. Porque Deus nos ama primeiro, também nós podemos amar; e, quando amamos de verdade a Deus, amamo-nos de verdade uns aos outros. Acontece como com a vida: só quem a recebeu pode viver, e assim só quem foi amado pode amar. Os mandamentos do Senhor, portanto, são uma regra de vida que nos cura dos falsos amores; são um estilo espiritual, que é caminho para a salvação.

Precisamente porque nos ama, o Senhor não nos deixa sozinhos nas provações da vida: promete-nos o Paráclito, ou seja, o Advogado defensor, o «Espírito da Verdade» (Jo 14,17). É um dom que «o mundo não é capaz de receber» (ibid.) enquanto se obstinar no mal que oprime o pobre, exclui o fraco, mata o inocente. Quem, pelo contrário, corresponde ao amor que Jesus nutre por todos, encontra no Espírito Santo um aliado que nunca falha: «Vós o conheceis - diz Jesus -, porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós» (ibid.). Então, podemos testemunhar sempre e em toda a parte Deus que é amor: esta palavra não significa uma ideia da mente humana, mas a realidade da vida divina, pela qual todas as coisas foram criadas do nada e salvas da morte.

Ao nos oferecer o amor verdadeiro e eterno, Jesus partilha conosco a sua identidade de Filho amado: «Eu estou no meu Pai e vós em mim e Eu em vós» (v. 20). Esta envolvente comunhão de vida desmente o Acusador, ou seja, o adversário do Paráclito, o espírito contrário ao nosso defensor. Com efeito, enquanto o Espírito Santo é força de verdade, este Acusador é «pai da mentira» (Jo 8,44), que deseja opor o homem a Deus e os homens entre si: precisamente o contrário do que faz Jesus, salvando-nos do mal e unindo-nos como povo de irmãos e irmãs na Igreja.

Caríssimos, cheios de gratidão por este dom, confiemo-nos à intercessão da Virgem Maria, Mãe do Amor Divino.

Jesus com os Apóstolos durante a Última Ceia
(Eugène Burnand)

Fonte: Santa Sé.