segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Homilia do Papa: Missa de conclusão do Sínodo


Santa Missa na Conclusão da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos
Homilia do Papa Francisco
Domingo, 28 de outubro de 2018

O episódio escutado é o último narrado pelo evangelista Marcos no ministério itinerante de Jesus, que, pouco depois, entra em Jerusalém para morrer e ressuscitar. Assim, Bartimeu é o último que segue Jesus ao longo do caminho: de mendigo na margem da estrada para Jericó, torna-se discípulo que vai juntamente com os outros para Jerusalém. Também nós caminhamos juntos, «fizemos sínodo» e agora este Evangelho corrobora três passos fundamentais no caminho da fé.
Antes de mais nada, olhemos para Bartimeu: o seu nome significa «filho de Timeu». O próprio texto o especifica: «Bartimeu, o filho de Timeu» (Mc 10,46). Mas o Evangelho, ao mesmo tempo que o reitera, põe a descoberto um paradoxo: o pai está ausente. Bartimeu jaz sozinho na estrada, fora de casa e sem pai: não é amado, mas abandonado. É cego e não tem quem o ouça; e, quando queria falar, mandavam-no calar. Jesus ouve o seu grito. E, quando Se encontra com ele, deixa-o falar. Não era difícil intuir o pedido que faria Bartimeu: é óbvio que um cego queira ver ou reaver a vista. Mas Jesus não tem pressa, reserva tempo para a escuta. E aqui temos o primeiro passo para ajudar o caminho da fé: escutar. É o apostolado do ouvido: escutar, antes de falar.
Em vez disso, muitos dos que estavam com Jesus repreendiam Bartimeu para que estivesse calado (10,48). Para estes discípulos, o indigente era um transtorno no caminho, um imprevisto no programa pré-estabelecido. Preferiam os seus tempos aos do Mestre, as suas palavras à escuta dos outros: seguiam Jesus, mas tinham em mente os seus projetos. Trata-se dum risco do qual sempre nos devemos precaver. Ao contrário, para Jesus, o grito de quem pede ajuda não é um transtorno que estorva o caminho, mas uma questão vital. Como é importante, para nós, escutar a vida! Os filhos do Pai celeste prestam ouvidos aos irmãos: não às críticas inúteis, mas às necessidades do próximo. Ouvir com amor, com paciência, como Deus faz conosco, com as nossas orações muitas vezes repetitivas. Deus nunca Se cansa, sempre Se alegra quando O procuramos. Peçamos, também nós, a graça dum coração dócil a escutar. Gostaria de dizer aos jovens, em nome de todos nós, adultos: desculpai, se muitas vezes não vos escutamos; se, em vez de vos abrir o coração, vos enchemos os ouvidos. Como Igreja de Jesus, desejamos colocar-nos amorosamente à vossa escuta, certos de duas coisas: que a vossa vida é preciosa para Deus, porque Deus é jovem e ama os jovens; e que, também para nós, a vossa vida é preciosa, mais ainda necessária para se avançar.
Depois da escuta, um segundo passo para acompanhar o caminho de fé: fazer-se próximo. Vejamos Jesus, que não delega em ninguém da «grande multidão» que O seguia, mas encontra Ele pessoalmente Bartimeu. Diz-lhe: «Que queres que Eu faça por ti?» (10,51). Que queres – Jesus amolda-Se a Bartimeu, não prescinde das suas expetativas – que Eu faça – fazer, não se limita a falar – por ti – não segundo ideias pré-estabelecidas para todos, mas para ti, na tua situação. É assim que Deus procede, envolvendo-Se pessoalmente com um amor de predileção por cada um. Na sua maneira de proceder, ressalta já a sua mensagem: assim a fé germina na vida.
A fé passa para a vida. Quando a fé se concentra apenas em formulações doutrinárias, arrisca-se a falar apenas à cabeça, sem tocar o coração. E quando se concentra apenas na ação, corre o risco de tornar-se moralismo e reduzir-se ao social. Ao contrário, a fé é vida: é viver o amor de Deus que mudou a nossa existência. Não podemos ser doutrinaristas ou ativistas; somos chamados a levar para a frente a obra de Deus segundo o modo de Deus, na proximidade: unidos intimamente a Ele, em comunhão entre nós, próximo dos irmãos. Proximidade: aqui está o segredo para transmitir, não algum aspeto secundário, mas o coração da fé.
Fazer-se próximo é levar a novidade de Deus à vida do irmão, é o antídoto contra a tentação das receitas prontas. Interroguemo-nos se somos cristãos capazes de nos tornar próximo, capazes de sair dos nossos círculos para abraçar aqueles que «não são dos nossos» e a quem Deus ansiosamente procura. Sempre existe aquela tentação que reaparece tantas vezes na Escritura: lavar as mãos, desinteressar-se. É o que faz a multidão no Evangelho de hoje, é o que fez Caim com Abel, é o que fará Pilatos com Jesus: lavar as mãos. Nós, pelo contrário, queremos imitar Jesus e, como Ele, meter as mãos na massa, sujá-las. Ele, o caminho (cf. Jo 14,6), por Bartimeu deteve-Se ao longo da estrada; Ele, a luz do mundo (cf. Jo 9,5), inclinou-Se sobre um cego. Reconhecemos que o Senhor sujou as mãos por cada um de nós e, fixando a Cruz, recomecemos de lá, da lembrança de Deus que Se fez meu próximo no pecado e na morte. Fez-Se meu próximo: tudo começa de lá. E, quando por amor d’Ele também nós nos fazemos próximo, tornamo-nos portadores de vida nova: não mestres de todos, não especialistas do sagrado, mas testemunhas do amor que salva.
Testemunhar é o terceiro passo. Olhemos os discípulos que chamam Bartimeu: não vão junto dele, que mendigava, levar uma moedinha para o contentar ou dar-lhe conselhos; vão em nome de Jesus. De facto, dirigem-lhe apenas três palavras, todas de Jesus: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te» (10,49). No resto do Evangelho, só Jesus diz «coragem!», porque só Ele ressuscita o coração. No Evangelho, só Jesus é que diz «levanta-te», para curar o espírito e o corpo. Só Jesus chama, mudando a vida de quem O segue, colocando de pé quem está por terra, levando a luz de Deus às trevas da vida. Tantos filhos, tantos jovens, como Bartimeu, procuram uma luz na vida! Procuram amor verdadeiro. E como Bartimeu que, apesar da multidão, só invoca Jesus, também eles imploram vida, mas frequentemente só encontram promessas falsas e poucos que se interessem verdadeiramente por eles.
Não é cristão esperar que os irmãos inquietos batam às nossas portas; somos nós que devemos ir ter com eles, não lhes levando a nós mesmos, mas Jesus. Ele manda-nos, como aqueles discípulos, para encorajar e levantar em seu nome. Manda-nos dizer a cada um: «Deus pede para te deixares amar por Ele». Quantas vezes, em vez desta mensagem libertadora de salvação, nos levamos a nós mesmos, as nossas «receitas», as nossas «etiquetas» na Igreja! Quantas vezes, em vez de fazer nossas as palavras do Senhor, despachamos como palavra d’Ele as nossas ideias! Quantas vezes as pessoas sentem mais o peso das nossas instituições que a presença amiga de Jesus! Então aparecemos como uma ONG, uma organização parestatal, e não como a comunidade dos redimidos que vivem a alegria do Senhor.
Ouvir, fazer-se próximo, testemunhar. No Evangelho, o caminho de fé termina, de maneira bela e surpreendente, com Jesus que diz: «Vai, a tua fé te salvou» (10,52). E todavia Bartimeu não fez profissões de fé, não realizou ação alguma; pediu apenas piedade. Sentir-se necessitado de salvação é o início da fé. É o caminho direto para encontrar Jesus. A fé, que salvou Bartimeu, não estava nas suas ideias claras sobre Deus, mas no facto de O procurar, de O querer encontrar. A fé é questão de encontro, não de teoria. No encontro, Jesus passa; no encontro, palpita o coração da Igreja. Então serão eficazes, não as nossas homilias, mas o testemunho da nossa vida.
E a todos vós que participastes neste «caminhar juntos», digo obrigado pelo vosso testemunho. Trabalhamos em comunhão e com ousadia, com o desejo de servir a Deus e ao seu povo. Que o Senhor abençoe os nossos passos, para podermos escutar os jovens, fazer-nos próximo e testemunhar-lhes a alegria da nossa vida: Jesus.


Fonte: Santa Sé

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Nota de falecimento: Padre Robert Taft

Faleceu hoje, 02 de novembro de 2018, aos 86 anos, o Padre Robert Francis Taft, S.J., um dos maiores estudiosos das Liturgias Orientais, particularmente da Liturgia Bizantina.


Robert Taft nasceu no dia 09 de janeiro de 1932 na cidade de Providence, estado de Rhode Island, nos EUA. Ingressou na Companhia de Jesus (Jesuítas) em 14 de agosto de 1949, sendo ordenado sacerdote de Rito Bizantino em 07 de junho de 1963.

Enviado a Roma para os estudos no Pontifício Instituto Oriental, concluiu sua célebre tese de doutorado sobre a Grande Entrada na Divina Liturgia de Rito Bizantino em 1975. Imediatamente tornou-se professor no mesmo Instituto, ofício que exerceu até 2011. Foi ainda Vice-reitor da instituição de 1995 a 2001.

Sua obra abrange mais de 800 produções acadêmicas, entre artigos e livros. Dentre estes, destacam-se Uma História da Liturgia de São João Crisóstomo, em 6 volumes (1978-2008) e A Liturgia das Horas no Oriente e no Ocidente (1986).


Além disso, foi diretor do jornal Orientalia Christiana Periodica de 1972 a 1976 e editor da coleção Orientalia Christiana Analecta de 1987 a 2004, ambas publicações do Pontifício Instituto Oriental. Foi ainda por muitos anos consultor da Congregação para as Igrejas Orientais e fundador da Societas Orientalium Liturgiarum.

O Padre Taft teve um importante papel na fundamentação teológica do decreto sobre a recepção da Eucaristia na Igreja Assíria do Orientepor fiéis católicos, promulgado em 2001.

Em 1998, Taft foi elevado à categoria de Arquimandrita (o equivalente a Monsenhor no Rito Romano) pela Igreja Greco-Católica Ucraniana. Ao longo de sua trajetória acadêmica recebeu ainda muitas condecorações por universidades do mundo todo.

Em 2002 aposentou-se do ofício de professor e em 2011 retornou aos Estados Unidos, passando a residir em uma casa dos jesuítas na cidade de Weston, estado de Massachusetts, onde faleceu neste dia 02 de novembro.

Que Deus o receba em sua glória e o recompense por todo o bem que fez! Que sua memória seja eterna! вічна пам'ять!


Informações biográficas: Wikipedia

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate

No dia 19 de março deste ano, Solenidade de São José, o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e exultai), sobre o chamado à santidade no mundo atual. O documento está estruturado em cinco capítulos com 177 parágrafos.

Embora não trate diretamente da Liturgia, o documento traz uma série de temas relacionados: por exemplo, o cap. 3 traz um comentário sobre as Bem-aventuranças, evangelho recorrente na Liturgia (inclusive nessa Solenidade de Todos os Santos), enquanto os nn. 147-157 apresentam uma reflexão sobre a oração.

Neste dia em que a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos, publicamos aqui o documento na íntegra:

Santo Padre Francisco
Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate
Sobre a chamada à santidade no mundo atual

1. «Alegrai-vos e exultai» (Mt 5,12), diz Jesus a quantos são perseguidos ou humilhados por causa d’Ele. O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: «anda na minha presença e sê perfeito» (Gn 17,1).
2. Não se deve esperar aqui um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor» (cf. Ef 1,4).

Capítulo I: A chamada à santidade

Os santos que nos encorajam e acompanham
3. Na Carta aos Hebreus, mencionam-se várias testemunhas que nos encorajam a «correr com perseverança a prova que nos é proposta» (12,1): fala-se de Abraão, Sara, Moisés, Gedeão e vários outros (cf. cap. 11). Mas, sobretudo somos convidados a reconhecer-nos «circundados de tal nuvem de testemunhas» (12,1), que incitam a não deter-nos no caminho, que nos estimulam a continuar a correr para a meta. E, entre tais testemunhas, podem estar a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós (cf. 2Tm 1,5). A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor.
4. Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse, quando fala dos mártires intercessores: «Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: “Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar?”» (6,9-10). Podemos dizer que «estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (...) Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me» [1].
5. Nos processos de beatificação e canonização, tomam-se em consideração os sinais de heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e também os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte. Esta doação manifesta uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração dos fiéis [2]. Lembremos, por exemplo, a Beata Maria Gabriela Sagheddu, que ofereceu a sua vida pela unidade dos cristãos.

Os santos ao pé da porta
6. Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque «aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente» [3]. O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo.
7. Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade» [4].
8. Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade que o Senhor nos apresenta através dos membros mais humildes deste povo que «participam também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade» [5]. Como nos sugere Santa Teresa Benedita da Cruz, pensemos que é através de muitos deles que se constrói a verdadeira história: «Na noite mais escura, surgem os maiores profetas e os santos. Todavia a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o está oculto for revelado» [6].
9. A santidade é o rosto mais belo da Igreja. Mas, mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita «sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo» [7]. Por outro lado, São João Paulo II lembrou-nos que o «testemunho, dado por Cristo até ao derramamento do sangue, tornou-se patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes» [8]. Na sugestiva comemoração ecumênica, que ele quis celebrar no Coliseu durante o Jubileu do ano 2000, defendeu que os mártires são «uma herança que fala com uma voz mais alta do que os fatores de divisão» [9].


A história da Solenidade de Todos os Santos

A Solenidade de Todos os Santos, celebrada no Rito Romano no dia 01 de novembro [1], tem suas raízes em uma festa de todos os mártires, celebrada em Antioquia em meados do século IV no domingo depois de Pentecostes, como atesta uma homilia de São João Crisóstomo. Esta data é conservada até hoje na tradição bizantina.


No final do século IV, a mesma festa era celebrada em Edessa no dia 13 de maio, como testemunha um hino de Santo Efrém, e no início do século V na Síria Oriental na sexta-feira da oitava da Páscoa, como atesta um calendário de 411.

Esta tríplice tradição influenciou posteriormente as igrejas ocidentais. O Lecionário de Würzburg, do início do século VII, contém a indicação Dominica in Natale Sanctorum, isto é, Domingo do Nascimento dos Santos [2] no domingo depois de Pentecostes.

Com o tempo, porém, esta data é abandonada no Ocidente, sobretudo a partir do desenvolvimento das têmporas de verão, celebradas na oitava de Pentecostes. A festa passa a ser celebrada então no dia 13 de maio, sobretudo a partir de 609, quando nesse dia o Papa Bonifácio IV dedicou a igreja do antigo Panteão Romano, Santa Maria ad Martyres.

Panteão romano (Santa Maria ad martyres)
O aniversário dessa dedicação era celebrado todos os anos com grande solenidade e presença de muitos peregrinos. Do alto da abertura central da igreja se fazia chover uma nuvem de pétalas de rosa vermelhas, uma alusão ao sangue dos mártires derramado por causa do Evangelho. Posteriormente este gesto foi transferido para o dia de Pentecostes, como alusão à efusão dos dons do Espírito, costume conservado até hoje.

O Papa Gregório III deu um novo impulso ao culto não apenas dos mártires mas de todos os santos em 741, quando dedicou na Basílica de São Pedro um oratório em honra de todos os santos, onde todos os dias eram celebradas Missas e rezadas vigílias.

Um século depois, em 835, o Papa Gregório IV solicitou a Luís I, o Piedoso, Rei dos Francos, que estabelecesse por decreto real a celebração da Festa de Todos os Santos no dia 01 de novembro em todo o império, pedido que foi prontamente atendido. Rapidamente a festa se espalhou por toda a Europa, como atesta o Sacramentário de Pádua, da primeira metade do século IX, que contém já as orações para este dia.

Rei Luís I, o Piedoso
Não se sabe ao certo porque o dia 01 de novembro foi o escolhido para a celebração de todos os santos. É provável que a escolha tenha sido por influência da Inglaterra e Irlanda, que já possuíam nesse dia uma festa em honra dos santos.

Esta celebração contava ainda com uma vigília e uma oitava, esta instituída pelo Papa Sisto IV no século XV. Ambas foram suprimidas pelo Papa Pio XII em 1955.

As orações da Solenidade de Todos os Santos

As orações da festa foram tomadas das memórias de vários santos, com as devidas adaptações: primeiramente o Intróito foi tomado da Festa de Santa Ágata. Cumpre dizer que pequenas variações desse texto aparecem também em outras festas, como na Assunção de Maria.

Gaudeamus omnes in Domino, diem festum celebrantes sub honore Sanctorum omnium: de quorum solemnitate gaudent angeli, et collaudant Filium Dei.
Exsultate, justi, in Domino: rectos dacet collaudatio (Sl 32,1).


A coleta, conservada até hoje, foi adaptada de uma celebração descrita no Sacramentário Gelasiano em honra dos Doze Apóstolos, celebrada na oitava da Solenidade de São Pedro e São Paulo. As outras orações e o prefácio são composições mais recentes.

A leitura é, desde o século VII, o trecho do Apocalipse já atestado pelo Lecionário de Würzburg: Ap 7,2-12 (Atualmente ligeiramente adaptada: Ap 7,2-4.9-14). A reforma litúrgica do Vaticano II acrescentou a segunda leitura (1Jo 3,1-3), própria dos domingos e solenidades,

O salmo gradual, tomado da festa de São Ciríaco, era um trecho do Salmo 32 (33), o mesmo já referido no Intróito, segundo a versão da Vulgata: “Timete Dominum omnes sancti ejus...”, atualmente substituído pelo Salmo 23 (24).

O versículo do Aleluia é Mt 11,28, enquanto o Evangelho recorda o texto das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ambos presentes até hoje na Liturgia romana. Do Evangelho também é tirada a Antífona de Comunhão (Mt 5,8-10).

Quanto à Liturgia das Horas, destaque para as Matinas, enriquecida inicialmente com uma série de antífonas e responsórios em honra de todas as classes de santos: primeiro em honra da Trindade, fonte de toda a santidade, seguindo-se os textos em honra da Virgem Maria, dos anjos, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens e por fim de todos os santos.


Esta referência aos vários grupos de santos permanece em diversas partes do Ofício dessa solenidade (hinos, antífonas do Cântico Evangélico e Preces). Textos similares estão presentes em outras tradições litúrgicas, como este da Liturgia bizantina:

“Vinde, fiéis, exultemos de alegria, celebremos piedosamente neste dia a solenidade de todos os santos e veneremos a sua gloriosa memória dizendo: Salve, apóstolos, profetas e mártires, pontífices, justos, bem-aventurados e santas mulheres; orai ao Cristo pelo mundo inteiro para que lhe conceda a paz e às nossas almas a salvação”.

[1] No Brasil, esta solenidade é transferida para o domingo seguinte.
[2] Nascimento entendido aqui como nascimento para o céu, isto é, o martírio.

Fontes:
ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico: Sua história e seu significado segundo a renovação litúrgica. São Paulo: Paulinas, 1982, pp. 223-224.

DONADEO, Madre Maria. O Ano Litúrgico Bizantino. São Paulo: Ave Maria, 1998, pp. 111-114.

RIGHETTI, Mario. Historia de la Liturgia, v. I: Introducción general; El año litúrgico; El Breviario. Madrid: BAC, 1945, pp. 964-968.

SCHUSTER, Cardeal Alfredo Ildefonso. Liber Sacramentorum: Note storiche e liturgiche sul Messale Romano, v. IX: I Santi nel mistero dela Redenzione. Torino-Roma: Marietti, 1932, pp. 75-80.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Homilia na Solenidade da Dedicação da Catedral de Lisboa

No último dia 25 de outubro o Patriarca de Lisboa, Cardeal Manuel Clemente, celebrou a Santa Missa na Catedral Patriarcal de Santa Maria em Lisboa, por ocasião da Solenidade do aniversário da sua Dedicação. Publicamos aqui sua homilia:

Homilia na Solenidade da Dedicação da Sé
Longe ou perto, o necessário é mostrar Cristo presente!

«Arrasai este templo, e eu o levantarei em três dias. […] Jesus falava do templo do seu corpo». Assim acabamos de ouvir no Evangelho. Assim o havemos de entender cada vez mais e melhor, como agora celebrando a Dedicação da nossa Sé de Lisboa.
Jesus referia-se primeiro ao templo de Jerusalém. Referia-se depois à sua ressurreição, ao terceiro dia. Para relermos este trecho, entendamos que se refere também a nós, como aqui estamos hoje.
O templo de Jerusalém, na reconstrução de Herodes, era efetivamente espantoso. Sucedia a outros anteriores, começando pelo de Salomão e ao que se fizera depois do exílio de Babilônia. Templos levantados e templos destruídos, como voltaria a acontecer. Resta o muro ocidental, impropriamente chamado “das lamentações”, a que continuam a acorrer muitos judeus atuais. 
É uma memória viva e – mesmo para nós – relevante. São muitas as páginas bíblicas que nos falam do templo de Jerusalém, como sinal da presença de Deus no meio do seu povo, como apelo ao povo para se centrar no seu Deus. Os salmos de peregrinação adivinhavam no templo antigo a promessa do “Deus conosco”, ontem como hoje, realização dum pleno encontro existencial de que não queremos desistir.
“Deus conosco”, Emanuel, que Jesus foi e indicava em si próprio. Assim o reconhecemos nós, os cristãos, daí tirando a necessária consequência. Podemos traduzi-la assim: Templo significa lugar de encontro, com Deus e com os outros. Um lugar de encontro cultual, apelando a um encontro total. Em plena recepção da Constituição Sinodal de Lisboa, fixamo-nos este ano no seu número 47, assim formulado: “Viver a Liturgia como lugar de encontro com Deus e também da comunidade cristã enquanto Povo de Deus que celebra”.
Sabemos por experiência própria que os encontros plenos são os que se realizam pessoa a pessoa, quando somos realmente pessoas para os outros e quando alguém o é para nós. Já no Antigo Testamento os profetas lembravam que o templo não valeria por si, se não fosse lugar de encontro com o Senhor do Templo. Se não fosse lugar de conversão verdadeira à sua Lei, com tudo o que tal implicava de religião solidária. Porque assim não foi, também o templo ruiu, uma e outra vez. Como voltaria a ruir, pouco tempo depois das advertências não atendidas de Jesus.

Lições de ontem, lições de hoje. Esta mesma sé, erguida de raiz nos primeiros tempos portugueses, sucedeu-se a outras, entretanto desaparecidas, de romanos, visigodos e moçárabes. Mas o que assinala, tão vivamente assinala, é uma comunidade persistente que em todas essas épocas viveu e transmitiu o Evangelho vivo, que sempre sobra e nos reconstrói agora. 
Aqui entrou, ainda no século XII, um menino que se chamou depois Santo António e bem podemos tomar como emblema do que a Igreja de Lisboa foi e há de ser no seu melhor, como terra onde se nasce e vive, como terra de muitas partidas, ingressos e regressos, sempre mais além. 
Chamaram-lhe justamente “o santo de todo o mundo”, como de Lisboa se navegou depois para o mundo inteiro – e como o mundo inteiro parece chegar agora a Lisboa. De Lisboa a Coimbra e depois, já franciscano, a Marrocos, à Sicília, à Itália, à França e outra vez Itália, António conclamou incansavelmente a conversão evangélica a Deus e ao próximo – ao próximo em quem Deus nos espera. 
Séculos depois, perto daqui também, nasceram António Vieira e São João de Brito, que no Brasil ou na Índia lhe repetiam o clamor. Aqui entrariam eles e tantos mais, cujas orações ecoam nas que elevamos hoje. Aqui se ouviu o Evangelho e se celebraram os ritos que sacramentalmente o atualizam para existencialmente o reproduzirem nas nossas próprias vidas. É esta persistência que nos garante o templo, porque só a caridade nunca acabará. Dito doutro modo, que tudo nos transforme em Cristo, de palavra, sentimento e ação, pois é Ele o novo templo levantado, no terceiro dia da Páscoa em que revivemos. Tudo o que é material é indispensável para vivermos e convivermos, ainda que efémero. O espirito que o faz é imortal, se participa no Espírito de Cristo. 
Falando do seu corpo como templo novo, Jesus falava de si mesmo, como vida entregue e assim mesmo alargada em quem o receber. Na arquitetura românica desta sé, isto mesmo se mostra, por ser como um corpo. O trecho longitudinal, do pórtico à cabeceira, alarga-se no transepto em dois braços abertos. No cruzamento está felizmente o altar, como coração de tudo o mais. 
Reparando bem, nós que aqui estamos incorporamo-nos no corpo arquitetônico deste templo inteiro. Feliz arquitetura onde a Liturgia se desenvolve e nos desenvolve a nós. A Palavra escutada vai-nos germinando, como semente em boa terra. O gesto sacramental de Cristo reparte-O como pão vivo que nos faz viver. Quase afirmaríamos que mais nos comunga Ele a nós do que nós a Ele, pois nos incorpora a si. Como São Paulo sentia e perguntava, com toda a exigência teológica e moral que isso mesmo implica: «- Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?» (1Cor 6,15).

Irmãos caríssimos: Celebrar a Dedicação da Nossa Sé é reconhecer e dar graças por tudo quanto ela significa e induz, para nós que aqui vimos e para os outros que nos aguardam. Transporta-nos para Deus que nos espera em todos, especialmente nos que mais precisam de ser tocados pela caridade de Cristo, que se alonga em nós. 
Mais do que há oito séculos – mas como já prometia – Lisboa é terra de muitas gentes e a Diocese também cresce assim. Na cidade, entre residentes e de passagem, cruza-se uma centena de proveniências, de várias etnias, línguas e culturas. Da catedral às casas de cada um, aos mais diversos âmbitos da sociocultura, há de crescer um corpo, precisamente o de Cristo, cuja vida ressuscitada se quer alargar nos cristãos que a transportam. Vida aqui celebrada e ali repartida, onde for preciso acolher quem chega, cuidar de quem está, elevar o espírito e sustentar a esperança.
Templos, materialmente falando, são como formas do que neles se cria e subsistirá além deles. Naquele dia em Jerusalém, estava Cristo no templo. Não demorou muito até desaparecer o templo. Persistiu Cristo, que em si mesmo realizava tudo quanto o templo antigo quis significar como lugar de Deus entre o seu povo, anúncio do que seria para os povos todos. Persistiu Cristo, cujo anúncio aqui chegou, há tantos séculos já. Para se assinalar também nesta sé erguida. 
Retenhamos a lição: A Dedicação da Sé dedica-nos a nós, refeitos em Cristo para sermos Cristo na cidade. É também por isso que, com Santo António e São João de Brito, tudo aqui nos fala de missão. Como cantamos no nosso Sínodo Diocesano: «É o sonho missionário / de chegar a toda a gente. / Longe ou perto, o necessário / É mostrar Cristo presente!» Presente em toda a parte e simbolizado aqui - nesta bela catedral que nos incorpora nele e nele nos expande. 
Sé de Lisboa, 25 de outubro de 2018.

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Rosácea da Catedral representando Cristo e os Apóstolos

Fonte: Patriarcado de Lisboa

Peregrinação dos Padres Sinodais ao Túmulo de Pedro

No contexto do Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, os Padres Sinodais e os jovens auditores realizaram no último dia 25 de outubro uma peregrinação até o Túmulo de São Pedro, percorrendo cerca de 6 Km de uma antiga estrada de peregrinos em direção a Roma.

Chegando na Basílica Vaticana, os Bispos e os jovens participaram da Santa Missa no Altar da Cátedra, presidida pelo Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário Geral do Sínodo. O Papa Francisco também esteve presente, assistindo à Missa.

Chegada dos peregrinos ao Túmulo de São Pedro

Palavras do Papa Francisco

Santa Missa: Incensação do altar

XII Catequese do Papa sobre os Mandamentos: Não cometer adultério I

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 24 de outubro de 2018
Os Mandamentos (12): Não cometer adultério I

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
No nosso itinerário de catequeses sobre os Mandamentos, hoje chegamos à sexta Palavra, que se refere à dimensão afetiva e sexual, e recita: «Não cometerás adultério».
A exortação imediata é à fidelidade e, com efeito, nenhum relacionamento humano é autêntico sem fidelidade e lealdade.
Não se pode amar só enquanto for “conveniente”; o amor manifesta-se precisamente além do limite da própria vantagem, quando se doa tudo incondicionalmente. Como afirma o Catecismo: «O amor quer ser definitivo. Não pode ser “até nova ordem”» (n. 1.646). A fidelidade é a caraterística da relação humana livre, madura, responsável. Até um amigo se demonstra autêntico, porque permanece tal em qualquer eventualidade, caso contrário não é um amigo. Cristo revela o amor autêntico, Ele que vive do amor ilimitado do Pai, e em virtude disto é o Amigo fiel que nos acolhe mesmo quando erramos e quer sempre o nosso bem, até quando não o merecemos.
O ser humano tem necessidade de ser amado sem condições, e quem não recebe este acolhimento tem em si uma certa incompletude, muitas vezes sem o saber. O coração humano procura preencher este vazio com sucedâneos, aceitando compromissos e mediocridades que só têm um gosto vago do amor. O risco consiste em chamar “amor” a relações acerbas e imaturas, com a ilusão de encontrar luz de vida em algo que, no melhor dos casos, é apenas um seu reflexo.
Assim acontece, por exemplo, que sobrestimamos a atração física, a qual em si é uma dádiva de Deus, mas finalizada a preparar o caminho para uma relação autêntica e fiel com a pessoa. Como dizia São João Paulo II, o ser humano «é chamado à plena e madura espontaneidade dos relacionamentos», que «é o fruto gradual do discernimento dos impulsos do próprio coração». É algo que se conquista, uma vez que cada ser humano, «com perseverança e coerência, deve aprender qual é o significado do corpo» (cf. Catequese, 12 de novembro de 1980).
Portanto, a chamada à vida conjugal exige um discernimento atento sobre a qualidade da relação e um período de noivado para a averiguar. A fim de aceder ao Sacramento do Matrimónio, os noivos devem amadurecer a certeza de que no seu vínculo está a mão de Deus, que os precede e acompanha, permitindo-lhes dizer: «Com a graça de Cristo, prometo ser-te sempre fiel». Não podem prometer-se fidelidade «na alegria e na dor, na saúde e na doença», nem amar-se e honrar-se todos os dias da sua vida, unicamente com base na boa vontade ou na esperança de que “isto funcione”. Precisam de se fundamentar no terreno firme do Amor fiel de Deus. E per isso, antes de receber o Sacramento do Matrimónio, é necessária uma preparação atenta, diria um catecumenato, porque a vida inteira depende do amor, e com o amor não se brinca. Não se pode definir “preparação para o casamento” três ou quatro encontros realizados na paróquia; não, isto não é preparação: é falsa preparação. E a responsabilidade de quem faz isto cai sobre ele: sobre o pároco, sobre o bispo que permite tais situações. A preparação deve ser madura e leva tempo. Não é um ato formal: é um Sacramento. Mas deve-se preparar com um verdadeiro catecumenato.
Com efeito, a fidelidade é um modo de ser, um estilo de vida. Trabalha-se com lealdade, fala-se com sinceridade, permanecendo fiel à verdade nos próprios pensamentos, nas próprias ações. Uma vida tecida de fidelidade exprime-se em todas as dimensões e leva a ser homens e mulheres fiéis e confiáveis em todas as circunstâncias.
Mas para chegar a uma vida tão bonita não é suficiente a nossa natureza humana, é preciso que a fidelidade de Deus entre na nossa existência, nos contagie. Esta sexta Palavra chama-nos a dirigir o olhar para Cristo que, com a sua fidelidade, pode tirar de nós um coração adúltero e doar-nos um coração fiel. N’Ele, e somente n’Ele, existe o amor sem reservas nem arrependimentos, a doação completa, sem parênteses, e a tenacidade do acolhimento total.
A nossa fidelidade deriva da sua morte e ressurreição, a constância nos relacionamentos deriva do seu amor incondicional. A comunhão entre nós e o saber viver na fidelidade os nossos vínculos derivam da comunhão com Ele, com o Pai e com o Espírito Santo.


Fonte: Santa Sé