quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Via Sacra: Meditações do Cardeal Ravasi

Na sequência da nossa postagem sobre a Via Sacra Bíblica, gostaríamos de propor aqui as meditações (seguindo esse formulário) feitas pelo então Monsenhor Gianfranco Ravasi, depois criado Cardeal pelo Papa Bento XVI e atualmente Prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, para a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu na Sexta-feira Santa de 2007.

No final da postagem é possível ver também o vídeo da celebração.

Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via-Sacra no Coliseu presidida pelo Santo Padre Bento XVI
Sexta-Feira Santa de 2007

Meditações de Mons. Gianfranco Ravasi

Apresentação
Era o final de uma manhã de primavera entre os anos 30 e 33 da nossa época. Numa estrada de Jerusalém – que nos séculos sucessivos receberia o nome emblemático de «Via Dolorosa» - acontecia um pequeno cortejo: um condenado à morte, escoltado por uma divisão do exército romano, se encaminhava, trazendo o patibulum, ou seja, o braço transversal da cruz cuja haste principal já estava colocada no alto, entre as pedras de um pequeno promontório rochoso chamado em aramaico Gólgota e em latim Calvário, isto é, «crânio».
Esta era a última etapa de uma história conhecida por todos, em cujo centro se destaca a figura de Jesus Cristo, o homem crucificado e humilhado e o Senhor ressuscitado e glorioso. Uma história iniciada no silêncio profundo da noite precedente, junto das oliveiras de um jardim denominado Getsêmani, isto é «lagar para as azeitonas». Uma história que se desenrolou de modo acelerado nos palácios do poder religioso e político e que se concluiu por uma condenação à pena capital. Até mesmo a sepultura, oferecida generosamente por um proprietário chamado José de Arimateia, que não teria concluído a vicissitude daquele condenado, como aconteceu para tantos corpos martirizados no cruel suplício da crucifixão, destinado pelos romanos ao julgamento dos revolucionários e dos escravos.
Teria havido uma etapa posterior, surpreendente e inesperada: aquele condenado, Jesus de Nazaré, revelou de modo fulgurante uma outra sua natureza sob o perfil do seu rosto e do seu corpo de homem, o ser Filho de Deus. A cruz e a sepultura não foram o destino final daquela história, mas sim a luz da sua ressurreição e da sua glória. Como cantaria poucos anos depois o apóstolo Paulo, aquele que se despojou do seu poder, tornando-se impotente e fraco como os homens e humilhando-se até à morte infame por crucifixão, foi exaltado pelo Pai divino que o tinha constituído Senhor da terra e do céu, da história e da eternidade (cf. Fl 2,6-11).

Durante séculos os cristãos desejaram percorrer novamente as etapas dessa Via Crucis, um itinerário rumo à colina da crucificação mas com o olhar voltado para a última meta, a luz pascal. Fizeram-no como peregrinos naquela mesma estrada de Jerusalém, mas igualmente nas suas cidades, nas suas igrejas e nas suas casas. Durante séculos escritores e artistas, famosos ou desconhecidos procuraram fazer reviver diante dos olhos estarrecidos e comovidos dos fiéis, as etapas ou «estações», verdadeiras pausas meditativas no caminho para o Gólgota. Surgiram assim imagens ora poderosas, ora simples, altivas e populares, dramáticas e ingênuas.
Também em Roma, guiada pelo seu Bispo, o Papa Bento XVI, com toda a cristandade presente no mundo unida ao seu pastor universal, em cada Sexta-feira Santa realiza-se aquela viagem do espírito seguindo as pegadas de Jesus Cristo.
Este ano, as reflexões – de modo narrativo-meditativo –, destinadas a proclamar em cada parada orante, seguindo a trama da narração da Paixão segundo o Evangelista Lucas, serão propostas por um biblista, Mons. Gianfranco Ravasi, Prefeito da Biblioteca-Pinacoteca Ambrosiana de Milão, instituição cultural fundada há quatro séculos pelo Cardeal Federico Borromeo, Arcebispo daquela cidade e primo de São Carlos, o qual teve, há um século atrás, entre os seus Prefeitos Achille Ratti, o futuro Papa Pio XI.
Iniciemos agora, ao longo deste itinerário na oração, não por uma simples memória histórica de um evento passado e de um defunto, mas, para viver a realidade áspera e crua de um acontecimento aberto à esperança, à alegria, à salvação. Conosco, caminharão talvez aqueles que ainda estão na busca, progredindo na inquietude das suas interrogações. E enquanto seguirmos, de etapa em etapa, este caminho de dor e de luz, ressoarão as palavras vibrantes do apóstolo Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Mas sejam dadas graças a Deus que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1Cor 15,54-55.57).

Oração Inicial
O Santo Padre:
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
R. Amém.

Irmãos e irmãs, as sombras noturnas desceram sobre Roma como naquela noite sobre as casas e jardins de Jerusalém. Também nós nos aproximaremos das oliveiras do Getsêmani e começaremos a seguir os passos de Jesus de Nazaré nas últimas horas da sua vida terrena.
Será uma viagem na dor, na solidão, na crueldade, no mal e na morte. Mas, será igualmente um percurso na fé, na esperança e no amor, pois a sepultura da última etapa do nosso caminho não permanecerá selada para sempre. Passadas as sombras, na alvorada da Páscoa, levantar-se-á a luz da alegria, o silêncio será substituído pela palavra de vida, à morte sucederá a glória da ressurreição.
Rezemos, portanto, entrelaçando as nossas palavras com aquelas de uma antiga voz do Oriente cristão:
Senhor Jesus concedei-nos as lágrimas que no momento não possuímos, para lavar os nossos pecados. Dai-nos a coragem de suplicar a vossa misericórdia. No dia do último juízo, arrancai as páginas que enumeram os nossos pecados e fazei que não existam mais [Nil Sorkij (1433-1580), da Orazione Penitenziale].
Senhor Jesus, vós repetis também para nós, nesta noite, as palavras que um dia dissestes a Pedro: «Segue-me». Obedecendo ao vosso convite, queremos seguir-vos, passo a passo, no caminho da vossa Paixão, para também nós aprendermos a pensar segundo Deus e não segundo os homens. Amém.

I Estação: Jesus no Horto das Oliveiras

V. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Evangelho segundo São Lucas 22,39-46
Saiu então, e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele. Quando chegou ao local, disse-lhes: «Orai, para que não entreis em tentação». Depois afastou-Se bruscamente deles até à distância de um tiro de pedra, aproximadamente; e, posto de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice; não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua». Então vindo do Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava. Cheio de angústia, pôs-Se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caiam na terra. Depois de ter orado, levantou-Se e foi ter com os discípulos, encontrando-os a dormir, devido à tristeza. Disse-lhes: «Por que dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação».

Meditação
Quando o véu das sombras desce sobre Jerusalém, as oliveiras do Getsêmani parecem-nos reconduzir, ainda hoje, com o sussurrar das suas folhas, àquela noite de sofrimento e de oração vivida por Jesus. Ele se destaca solitário, no centro da cena, ajoelhado no chão daquele jardim. Como cada pessoa que está diante da morte, também Cristo se sente afligido pela angústia; aliás, a palavra originária que o evangelista Lucas utiliza é «agonia», ou seja, luta. Então, a oração de Jesus é dramática, tensa como num combate, e o suor estriado de sangue que se escorre pelo seu rosto é sinal de um tormento áspero e duro. O grito é lançado para o alto, em direção ao Pai que parece misterioso e mudo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice», o cálice da dor e da morte. Também um dos grandes Pais de Israel, Jacó, em uma noite escura na margem de um afluente do Jordão tinha encontrado Deus como uma pessoa misteriosa, que «lutara com ele até o surgir da aurora» (Gn 32,23-32). Rezar em tempo de prova é uma experiência que perturba corpo e alma e também Jesus, nas trevas daquela noite, «oferece orações e súplicas com fortes gritos e lágrimas àquele que pode libertá-lo da morte» (Hb 5,7).

No Cristo do Getsêmani, em luta com a angústia, reencontramo-nos a nós mesmos quando atravessamos a noite da dor lancinante, da solidão dos amigos, do silêncio de Deus. É por isso que Jesus – como foi dito - «estará em agonia até o fim dos tempos: não é necessário dormir até àquele momento pois ele procura companhia e conforto» (Blaise Pascal, Pensieri, n. 553), como todo sofredor da terra. Nele descobrimos também o nosso rosto, quando é regado pelas lágrimas e é marcado pela desolação. Mas a luta de Jesus não chega à tentação da rendição desesperada, mas à profissão de confiança no Pai e no seu misterioso desígnio. São as palavras do «Pai nosso» que ele repropõe naquela hora amarga: «Orai para que não entreis... não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua». E eis que então, aparece o anjo da consolação, do apoio e do conforto que auxilia Jesus e a nós a continuar até o final o nosso caminho.

Pater noster...

Stabat mater dolorosa,
iuxta crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

A Via Sacra Bíblica

“Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Uma das práticas de piedade popular mais queridas pelos fiéis, sobretudo no tempo da Quaresma, é a Via Sacra. Acompanhando Jesus nos últimos passos de sua vida, o cristão é convidado a meditar o mistério de sua Paixão e, assim, obedecer ao convite do próprio Senhor: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e me siga” (Lc 9,23).

Já tratamos aqui em nosso blog sobre esta devoção (para ler a postagem, clique aqui). Neste texto, gostaríamos de falar de um texto alternativo ao esquema tradicional: a Via Sacra Bíblica.


O Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, publicado pela Congregação para o Culto Divino em 2003, menciona a possibilidade de formas alternativas para a Via Sacra:

“Em todo o caso, há formas alternativas de Via Sacra, aprovadas pela Sé Apostólica ou publicamente usadas pelo Romano Pontífice: devem ser consideradas como genuínas, às quais se pode recorrer segundo a oportunidade” (n. 134).

Este parágrafo remete a duas notas de rodapé (notas 33 e 34), que mencionam quais seriam tais formulários aprovados: o texto proposto no Livro do Peregrino, publicado por ocasião do Jubileu de 1975; e os textos utilizados na Via Sacra presidida pelo Papa São João Paulo no Coliseu em 1991, 1992 e 1994.

Dom Piero Marini, Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias de 1987 a 2007, publicou no site da Santa Sé um texto aprofundando a temática. Dom Marini explica que tanto no Jubileu de 1975 quanto no Coliseu utilizou-se um formulário para a Via Sacra mais condizente com os textos bíblicos.

Nesta Via Sacra Bíblica não aparecem as estações que são fruto da tradição e não constam nas Sagradas Escrituras: as quedas de Jesus e os encontros com Maria e com Verônica a caminho do Calvário. Em contrapartida, o formulário engloba outros textos dos relatos da Paixão, como a agonia no Getsêmani, verdadeiro início da Paixão, a prisão de Jesus, as negações de Pedro, entre outros:

I - Jesus em agonia no Getsêmani
II - Jesus, traído por Judas, é preso
III - Jesus é condenado pelo Sinédrio
IV - Jesus é renegado por Pedro
V - Jesus é julgado por Pilatos
VI - Jesus é flagelado e coroado de espinhos
VII - Jesus carrega a cruz
VIII - Jesus é ajudado pelo Cireneu a carregar a cruz
IX - Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
X - Jesus é crucificado
XI - Jesus promete o Reino ao bom ladrão
XII - A Mãe e o discípulo junto à cruz
XIII - Jesus morre na cruz
XIV - Jesus é sepultado

Agonia no Getsêmani: início da Paixão
Na Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu, este formulário já foi utilizado diversas vezes, tanto no pontificado de São João Paulo II quanto no de Bento XVI (nomeadamente nos anos de 1991-1992, 1994-1995, 1997, 2002, 2004, 2007-2009).

Interessante notar que, sobretudo com São João Paulo II, as meditações preparadas para este esquema foram confiadas inclusive a não católicos, tanto ortodoxos quanto protestantes (incluindo o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla e o Catholicos Armênio Karekin I). Vê-se, assim, como a Via Sacra Bíblica tem uma alcance ecumênico.

Como Dom Piero Marini salienta em seu artigo, não se trata de substituir o formulário tradicional, que continua plenamente válido. Pelo contrário, ambos podem coexistir em nossas comunidades, destacando aspectos diferentes do mesmo mistério. Pois o mistério da Paixão é tão grande que nenhum formulário pode abarcá-lo completamente.

De toda forma, seja utilizando um ou outro esquema, a Palavra de Deus deve ser sempre um elemento fundamental em toda oração cristã. Como indica o Diretório sobre a Piedade Popular ao falar da Via Sacra: “de preferência usem-se textos nos quais ressoe, corretamente aplicada, a palavra bíblica e que sejam escritos numa linguagem nobre e simples” (n. 135).

A oração da Via Sacra não deve ser, portanto, um espaço para análises sócio-políticas da atualidade, mas sim um lugar para o encontro com Cristo. Claro que a Palavra pode ser atualizada e, à sua luz, podemos rezar pelas necessidades atuais. Mas que jamais se perca de vista o centro: Jesus Cristo.

Rezar a Via Sacra é viver aquilo que diz Paulo: “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5). Ou ainda, para usar a bela definição de Dom Piero Marini: “Participando da Via Sacra, cada discípulo de Jesus deve reafirmar a própria adesão ao Mestre: para chorar o próprio pecado como Pedro; para abrir-se, como o Bom Ladrão, à fé em Jesus, Messias sofredor; para permanecer junto à Cruz de Cristo, como a Mãe e o discípulo, e ali acolher com eles a Palavra que salva, o Sangue que purifica, o Espírito que dá a vida” [tradução nossa].

Na sequência, publicaremos um modelo de Via Sacra Bíblica, utilizado na celebração presidida pelo Papa no Coliseu. Outros podem ser encontrados no site da Santa Sé: alguns em português, outros em outras línguas.


REFERÊNCIAS:

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia: Princípios e orientações. São Paulo: Paulinas, 2003.

MARINI, Piero. La Via Crucis: Presentazione. Disponível em: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/documents/ns_lit_doc_via-crucis_it.html Acesso em: 21/02/2018.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quarta-feira de Cinzas em Cracóvia

O Arcebispo de Cracóvia, Dom Marek Jędraszewski, celebrou no último dia 14 de fevereiro na Catedral dos Santos Venceslau e Estanislau, a Catedral de Wawel, a Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas com a bênção e imposição das cinzas.

Procissão de entrada

Saudação inicial

Liturgia da Palavra

Fotos da Quarta-feira de Cinzas em Roma

No último dia 14 de fevereiro o Papa Francisco celebrou, na forma das antigas estações quaresmais romanas, a Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma:

A celebração iniciou-se na igreja de Santo Anselmo no Aventino, de onde partiu a procissão penitencial, acompanhada do canto da Ladainha de Todos os Santos, até a Basílica de Santa Sabina, onde o Papa celebrou a Missa com a bênção e imposição das cinzas.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Diego Giovanni Ravelli. O livreto da celebração pode ser visto aqui e a homilia do Papa pode ser lida aqui.

Início da celebração na igreja de Santo Anselmo
Oração inicial
Procissão penitencial


Homilia do Papa: Quarta-feira de Cinzas

Celebração da Quarta-Feira de Cinzas
Santa Missa, Bênção e Imposição das Cinzas
Homilia do Papa Francisco
Basílica de Santa Sabina
Quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O tempo de Quaresma é propício para corrigir os acordes dissonantes da nossa vida cristã e acolher a notícia sempre nova, feliz e esperançosa da Páscoa do Senhor. Na sua sabedoria materna, a Igreja propõe-nos prestar especial atenção a tudo o que possa arrefecer e oxidar o nosso coração crente.
Múltiplas são as tentações, a que nos vemos expostos. Cada um de nós conhece as dificuldades que deve enfrentar. E é triste constatar, nas vicissitudes diárias, como se levantam vozes que, aproveitando-se da amargura e da incerteza, nada mais sabem semear senão desconfiança. E, se o fruto da fé é a caridade – como gostava de repetir Santa Teresa de Calcutá –, o fruto da desconfiança é a apatia e a resignação. Desconfiança, apatia e resignação: os demônios que cauterizam e paralisam a alma do povo crente.
A Quaresma é tempo precioso para desmascarar estas e outras tentações e deixar que o nosso coração volte a bater segundo as palpitações do coração de Jesus. Toda esta liturgia está impregnada por este sentir, podendo-se afirmar que o mesmo ecoa em três palavras que nos são oferecidas para «aquecer o coração crente»: para, olha e regressa.
Para um pouco, deixa esta agitação e este correr sem sentido que enche a alma de amargura sentindo que nunca se chega a parte alguma. Para, deixa esta obrigação de viver de forma acelerada, que dispersa, divide e acaba por destruir o tempo da família, o tempo da amizade, o tempo dos filhos, o tempo dos avós, o tempo da gratuidade... o tempo de Deus.
Para um pouco com essa necessidade de aparecer e ser visto por todos, mostrar-se constantemente «em vitrine», que faz esquecer o valor da intimidade e do recolhimento.
Para um pouco com o olhar altivo, o comentário ligeiro e desdenhoso que nasce de se ter esquecido a ternura, a compaixão e o respeito pelo encontro com os outros, especialmente os vulneráveis, feridos e até imersos no pecado e no erro.
Para um pouco com essa ânsia de querer controlar tudo, saber tudo, devassar tudo, que nasce de se ter esquecido a gratidão pelo dom da vida e tanto bem recebido.
Para um pouco com o ruído ensurdecedor que atrofia e atordoa os nossos ouvidos e nos faz esquecer a força fecunda e criativa do silêncio.
Para um pouco com a atitude de fomentar sentimentos estéreis e infecundos que derivam do fechamento e da autocomiseração e levam a esquecer de sair ao encontro dos outros para compartilhar as cargas e os sofrimentos.
Para diante do vazio daquilo que é instantâneo, momentâneo e efémero, que nos priva das raízes, dos laços, do valor dos percursos e de nos sentirmos sempre a caminho.
Para, para olhar e contemplar!
Olha os sinais que impedem de se apagar a caridade, que mantêm viva a chama da fé e da esperança. Rostos vivos com a ternura e a bondade de Deus, que age no meio de nós.
Olha o rosto das nossas famílias que continuam a apostar dia após dia, fazendo um grande esforço para avançar na vida e, entre muitas carências e privações, não descuram tentativa alguma para fazer da sua casa uma escola de amor.
Olha os rostos interpeladores das nossas crianças e jovens carregados de futuro e de esperança, carregados de amanhã e de potencialidades que exigem dedicação e salvaguarda. Rebentos vivos do amor e da vida que sempre conseguem abrir caminho por entre os nossos cálculos mesquinhos e egoístas.
Olha os rostos dos nossos idosos, enrugados pelo passar do tempo: rostos portadores da memória viva do nosso povo. Rostos da sabedoria operante de Deus.
Olha os rostos dos nossos doentes e de quantos se ocupam deles; rostos que, na sua vulnerabilidade e no seu serviço, nos lembram que o valor de cada pessoa não pode jamais reduzir-se a uma questão de cálculo ou de utilidade.
Olha os rostos arrependidos de muitos que procuram remediar os seus erros e disparates e, a partir das suas misérias e amarguras, lutam por transformar as situações e continuar para diante.
Olha e contempla o rosto do Amor Crucificado, que continua hoje, a partir da cruz, a ser portador de esperança; mão estendida para aqueles que se sentem crucificados, que experimentam na sua vida o peso dos fracassos, dos desenganos e das desilusões.
Olha e contempla o rosto concreto de Cristo crucificado por amor de todos sem exclusão. De todos? Sim; de todos. Olhar o seu rosto é o convite cheio de esperança deste tempo de Quaresma para vencer os demónios da desconfiança, da apatia e da resignação. Rosto que nos convida a exclamar: o Reino de Deus é possível!
Para, olha e regressaRegressa à casa de teu Pai. Regressa sem medo aos braços ansiosos e estendidos de teu Pai, rico em misericórdia (cf. Ef 2,4), que te espera!
Regressa! Sem medo: este é o tempo oportuno para voltar a casa, a casa do «meu Pai e vosso Pai» (cf. Jo 20,17). Este é o tempo para se deixar tocar o coração... Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa muito diferente, e bem o sabe o nosso coração. Deus não Se cansa nem Se cansará de estender a mão (cf. Bula Misericordiae Vultus, 19).
Regressa sem medo para experimentar a ternura sanadora e reconciliadora de Deus! Deixa que o Senhor cure as feridas do pecado e cumpra a profecia feita a nossos pais: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração da pedra e vos darei um coração de carne» (Ez 36,26).
Para, olha e regressa!


Fonte: Santa Sé

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

X Catequese do Papa sobre a Missa: Creio e Preces

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Missa (10): Creio e Preces

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Bom dia mesmo se o dia é um pouco feio. Mas se a alma estiver em alegria é sempre um dia bom. Portanto, bom dia! Hoje a audiência será feita em dois lugares: um pequeno grupo de doentes está na Sala, devido ao tempo e nós estamos aqui. Mas nós vemo-los e eles veem a nós através dos grandes écrans. Saudemo-los com um aplauso.
Continuemos com a Catequese sobre a Missa. A escuta das Leituras bíblicas, prolongada na homilia, ao que corresponde? Corresponde a um direito: o direito espiritual do povo de Deus a receber com abundância o tesouro da Palavra de Deus (cf. Introdução ao Lecionário, 45). Cada um de nós, quando vai à Missa, tem o direito de receber abundantemente a Palavra de Deus bem lida, bem proclamada e depois, bem explicada na homilia. É um direito! E quando a Palavra de Deus não é bem lida, não é pregada com fervor pelo diácono, pelo sacerdote ou pelo bispo não se cumpre um direito dos fiéis. Nós temos o direito de ouvir a Palavra de Deus. O Senhor fala para todos, Pastores e fiéis. Ele bate à porta do coração de quantos participam na Missa, cada um na sua condição de vida, idade, situação. O Senhor consola, chama, suscita rebentos de vida nova e reconciliada. E isto por meio da sua Palavra. A sua Palavra bate ao coração e muda os corações!
Por isso, depois da homilia, um tempo de silêncio permite sedimentar no ânimo a semente recebida, a fim de que nasçam propósitos de adesão ao que o Espírito sugeriu a cada um. O silêncio depois da homilia. Um bom silêncio deve ser feito ali e cada um deve pensar naquilo que ouviu.
Depois deste silêncio, como prossegue a Missa? A resposta pessoal de fé insere-se na profissão de fé da Igreja, expressa no “Credo”. Todos nós recitamos o “Credo” na Missa. Recitado por toda a assembleia, o Símbolo manifesta a resposta comum a quanto se ouviu juntos acerca da Palavra de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, 185-197). Há uma ligação vital entre a escuta e a fé. Estão unidas. Com efeito, ela - a fé - não nasce da fantasia de mentes humanas mas, como recorda São Paulo, «é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus» (Rm 10,17). Por conseguinte, a fé alimenta-se com a escuta e leva ao Sacramento. Assim, a recitação do “Credo” faz com que a assembleia litúrgica «medite novamente e professe os grandes mistérios da fé, antes da sua celebração na Eucaristia» (Introdução Geral do Missal Romano, 67).
O Símbolo de fé vincula a Eucaristia ao Batismo, recebido «no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo», e recorda-nos que os Sacramentos são compreensíveis à luz da fé da Igreja.
A resposta à Palavra de Deus acolhida com fé expressa-se depois na súplica comum, denominada Oração universal, porque abraça as necessidades da Igreja e do mundo (cf. IGMR, 69-71; Introdução ao Lecionário, 30-31). É chamada também Oração dos fiéis.
Os padres do Vaticano II quiseram inserir de novo esta oração depois do Evangelho e da homilia, sobretudo aos domingos e dias festivos, para que, «com a participação do povo, se façam preces pela santa Igreja, pelos que nos governam, por aqueles a quem a necessidade oprime, por todos os homens e pela salvação de todo o mundo» (Const. Sacrosanctum concilium, 53; cf. 1Tm 2,1-2). Por conseguinte, sob a guia do sacerdote que introduz e conclui, «o povo, exercendo o seu sacerdócio batismal, oferece a Deus orações pela salvação de todos» (IGMR, 69). E depois das intenções particulares, propostas pelo diácono ou por um leitor, a assembleia une a sua voz invocando: «Ouvi-nos Senhor».
Com efeito, recordemos quanto nos disse o Senhor Jesus: «Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedi tudo o que quiserdes, e vos será feito» (Jo 15,7). “Mas nós não acreditamos nisto, porque temos pouca fé”. Mas se nós tivéssemos uma fé - diz Jesus - como o grão de mostarda, teríamos recebido tudo. “Pedi tudo o que quiserdes, e vos será feito”. E neste momento da oração universal depois do Credo, é o momento de pedir ao Senhor as coisas mais fortes na Missa, as coisas de que precisamos, aquilo que desejamos. “Vos será feito”; de uma maneira ou doutra mas “vos será feito”. “Tudo é possível para aquele que crê”, disse o Senhor. O que respondeu aquele homem ao qual o Senhor se dirigiu para dizer estas palavras - tudo é possível para aquele que crê -? Respondeu: “Senhor, eu creio. Ajuda a minha pouca fé”. Também nós podemos dizer: “Senhor, eu creio. Mas ajuda a minha pouca fé”. E devemos proferir a oração com este espírito de fé: “Senhor, eu creio, mas ajuda a minha pouca fé”. As pretensões de lógicas mundanas, ao contrário, não levantam voo rumo ao Céu, assim como permanecem desatendidos os pedidos autorreferenciais (cf. Tg 4,2-3). As intenções pelas quais se convida o povo fiel a rezar devem dar voz às necessidades concretas da comunidade eclesial e do mundo, evitando recorrer a fórmulas convencionais e míopes. A oração “universal”, que conclui a liturgia da Palavra, exorta-nos a fazer nosso o olhar de Deus, que cuida de todos os seus filhos.


Fonte: Santa Sé

Bispos melquitas participam de Missa com o Papa

No último dia 13 de fevereiro, terça-feira da VI semana do Tempo Comum, os Bispos da Igreja Greco-Melquita com seu Patriarca, Youssef Absi, participaram da Missa com o Papa Francisco na Capela da Casa Santa Marta para expressar a Ecclesiastica Communio (Comunhão Eclesiástica) após a eleição do Patriarca, em junho de 2017.

Procissão de entrada
Palavras do Papa no início da celebração
Oração do dia
Liturgia da Palavra
Epiclese