sábado, 18 de fevereiro de 2017

Homilia: VII Domingo do Tempo Comum - Ano A

 São João Crisóstomo
Sermão 18 sobre o Evangelho de São Mateus
“Subir os degraus até atingir o cume da virtude”

Ouvistes o que foi dito: amarás a teu próximo e odiarás o teu inimigo. Porém, eu vos digo: amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus, que faz se levantar o sol sobre bons e maus e faz chover sobre os justos e injustos.
Observa como colocou a conclusão de todos os bens. Por isso ensinou a ter paciência com aqueles que nos esbofeteiam e até mesmo a apresentar-lhes a outra face; e não apenas juntar o manto à túnica, mas a caminhar por duas milhas mais com quem nos requisitou para uma, para que em seguida aceitasse com maior facilidade o que era superior a estes preceitos; ou seja, que quem cumprir tudo isso não tenha inimigos. Pois bem: existe algo ainda mais perfeito, porque Ele não diz “não odeies”, mas “ama”. Não disse “não prejudiques”, mas sim “favoreça”. Se alguém examina cuidadosamente, encontrará um acréscimo muito maior que este. Porque agora não só manda amá-los, mas a também rogar por eles.
Observas a que degraus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude? Quero que o medites, enumerando-os desde o princípio: o primeiro degrau é não injuriar; o segundo, quando injuriados, não nos vingarmos; o terceiro, não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão; o quarto, oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias; o quinto, oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige; o sexto, não odiar a quem nos faz semelhante injustiça; o sétimo, inclusive amá-lo; o oitavo, ainda favorecê-lo. Finalmente, o nono: rogar a Deus por ele.
Vês o auge da virtude? Por isto seu reino é magnífico! O preceito era difícil e necessitava um espírito generoso e muito aplicado, pelo qual assinalou um prêmio tão grande como não o tinha feito antes com os preceitos anteriores. Aqui Ele não traz à memória a terra, como ao tratar dos mansos, nem a consolação e a misericórdia, como ao tratar dos que choram e se compadecem, nem o Reino dos Céus, mas diz – o que é um supremo grau admirável – que serão semelhantes a Deus. Porque diz: para que sejais semelhantes ao vosso Pai que está nos céus.
Deves observar como nem aqui nem no anterior chama “seu” ao Pai. Quando tratou dos juramentos falou de Deus e do grande reino; porém aqui fala do Pai dos ouvintes. Pois bem: Ele o faz atendendo a oportunidade dos tempos e aguardando para ela tais formas de falar. Logo avança, declara e explica a semelhança que tinha apenas deixado indicada, dizendo: o qual faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e pecadores. De maneira que não odeia, mas até faz benefícios àqueles que o injuriam. Ainda que, para dizer a verdade, não existe nisso igualdade alguma, não só a respeito da grandeza dos benefícios, mas também na altíssima dignidade.
Tu és desprezado por um conservo; Ele por um servo a quem cumulou de infinitos benefícios. Tu, quando oras pelo conservo oferece palavras; mas ele concede coisas muito maiores e admiráveis; é evidente, a luz do sol e as chuvas anuais. Mas mesmo assim, parece dizer: concedo-te que sejas igual a Deus, tanto quanto o homem pode sê-lo.



Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 141-142.

XI Catequese do Papa sobre a esperança

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!
Desde a infância nos ensinam que não é bom orgulhar-se. Na minha terra, aqueles que se vangloriam são chamados «pavões». E é correto, porque orgulhar-nos daquilo que somos ou do que possuímos, além de uma certa soberba, revela também uma falta de respeito pelos outros, especialmente por quantos são mais desafortunados do que nós. Mas neste trecho da Carta aos Romanos, o Apóstolo Paulo surpreende-nos porque por duas vezes nos exorta a orgulhar-nos. Então, do que é correto orgulhar-se? Pois se ele exorta a orgulhar-se, é correto orgulhar-se de algo. E como é possível fazer isto, sem ofender o próximo, sem excluir ninguém?
No primeiro caso, somos convidados a orgulhar-nos da abundância da graça que nos permeia em Jesus Cristo, por meio da fé. Paulo deseja levar-nos a compreender que, se aprendermos a ver tudo na luz do Espírito Santo, compreenderemos que tudo é graça! Tudo é dom! Com efeito, se prestarmos atenção, quem age - tanto na história como na nossa vida - não somos nós, mas antes de tudo Deus. Ele é o protagonista absoluto, que cria tudo como dádiva de amor, que tece a trama do seu desígnio de salvação e que o leva a cumprimento por nós, mediante o seu Filho Jesus. A nós pede-se que reconheçamos tudo isto, que o recebamos com gratidão e que o levemos a tornar-se motivo de louvor, de bênção e de grande alegria. Se fizermos isto, estaremos em paz com Deus e faremos experiência da liberdade. E depois esta paz propaga-se a todos os âmbitos e a todos os relacionamentos da nossa vida: estamos em paz connosco mesmos, estamos em paz em família, na nossa comunidade, no trabalho e com as pessoas que encontramos todos os dias ao longo do nosso caminho.
Mas Paulo exorta a orgulhar-se também nas tribulações. Isto não é fácil de entender. Para nós isso é mais difícil e pode parecer que nada tem a ver com a condição de paz há pouco descrita. Ao contrário, constitui o seu pressuposto mais autêntico e mais verdadeiro. Com efeito, a paz que o Senhor nos oferece e nos garante não deve ser entendida como ausência de preocupações, de desilusões, de faltas, de motivos de sofrimento. Se fosse assim, caso conseguíssemos estar em paz, esse momento acabaria depressa e inevitavelmente cairíamos no desânimo. Ao contrário, a paz que brota da fé é um dom: é a graça de experimentar que Deus nos ama e que está sempre ao nosso lado, não nos deixa sós nem sequer um instante da nossa vida. E isto, como afirma o Apóstolo, gera paciência porque sabemos que, até nos momentos mais difíceis e desconcertantes, a misericórdia e a bondade do Senhor são maiores do que tudo e nada nos tirará das suas mãos e da comunhão com Ele.
Eis, então, por que a esperança cristã é sólida, eis por que não desilude. Nunca desilude. A esperança não desengana! Não está fundada no que nós podemos fazer ou ser, e nem sequer naquilo em que podemos acreditar. O seu fundamento, ou seja, o fundamento da esperança cristã, é o que de mais fiel e seguro pode existir, isto é, o amor que o próprio Deus alimenta por cada um de nós. É fácil dizer: Deus ama-nos. Todos o dizemos. Mas pensai um pouco: cada um de nós é capaz de dizer: estou convicto de que Deus me ama? Não é tão fácil dizê-lo. Mas é verdade. É um bom exercício, dizer a si mesmo: Deus ama-me. Esta é a raiz da nossa segurança, a raiz da esperança. E o Senhor infundiu abundantemente nos nossos corações o Espírito - que é o amor de Deus - como artífice, como garante, exatamente para que possa nutrir a fé dentro de nós e manter viva esta esperança. E esta segurança: Deus ama-me. «Mas neste momento difícil» - Deus ama-me. «E eu, que cometi esta ação feia e má?» - Deus ama-me. Ninguém nos priva desta segurança. E devemos repeti-lo como prece: Deus ama-me. Estou convicto de que Deus me ama. Estou convencida de que Deus me ama.
Agora compreendemos por que razão o Apóstolo nos exorta a orgulhar-nos sempre de tudo isto. Orgulho-me do amor de Deus, porque Ele me ama. A esperança que nos é oferecida não nos separa dos outros, e muito menos nos leva a desacreditá-los ou a marginalizá-los. Ao contrário, trata-se de uma dádiva extraordinária da qual somos chamados a tornar-nos «canais» para todos, com humildade e simplicidade. E então o nosso maior orgulho consistirá em ter como Pai um Deus que não tem preferências, que não exclui ninguém, mas que abre a sua casa a todos os seres humanos, a começar pelos últimos e pelos distantes a fim de que, como seus filhos, aprendamos a consolar-nos e a ajudar-nos uns aos outros. E não vos esqueçais: a esperança não desilude!


Fonte: Santa Sé

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ordenação Diaconal no Rito Bizantino em Curitiba

No último dia 12 de fevereiro, Domingo do Filho Pródigo no Rito Bizantino, o Bispo da Metropolia São João Batista para os Católicos Ucranianos em Curitiba, Dom Volodemer Koubetch, O.S.B.M., celebrou a Divina Liturgia de São João Crisóstomo na Catedral Metropolitana para a Ordenação Diaconal do Seminarista Juliano Rumoviski.

Ritos iniciais
Homilia
O candidato lava as mãos do Bispo antes da Grande Entrada
Início do Rito de Ordenação
O candidato beija os quatro cantos do altar

Angelus do Papa: VI Domingo do Tempo Comum

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Domingo, 12 de fevereiro de 2017

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A liturgia hodierna apresenta-nos outra página do Sermão da montanha, que encontramos no Evangelho de Mateus (cf. 5, 17-37). Neste trecho, Jesus quer ajudar os seus ouvintes a fazer uma releitura da lei mosaica. O que foi dito na antiga aliança era verdadeiro, mas não era tudo: Jesus veio para dar cumprimento e para promulgar de forma definitiva a lei de Deus, até ao último jota (cf. v. 18). Ele manifesta as suas finalidades originárias e cumpre os seus aspectos autênticos, e faz tudo isto mediante a sua pregação e mais ainda com o dom de si mesmo na cruz. Assim Jesus ensina como fazer plenamente a vontade de Deus e usa esta palavra: com uma “justiça superior” em relação à dos escribas e dos fariseus (cf. v. 20). Uma justiça animada pelo amor, pela caridade, pela misericórdia, e portanto capaz de realizar a substância dos mandamentos, evitando o risco do formalismo. O formalismo: isto posso, isto não posso; até aqui posso, até aqui não posso... Não: mais, mais.
Em particular, no Evangelho de hoje Jesus examina três aspetos, três mandamentos: o homicídio, o adultério e o juramento.
Relativamente ao mandamento “não matar”, Ele afirma que foi violado não só pelo homicídio efetivo, mas também por aqueles comportamentos que ofendem a dignidade da pessoa humana, inclusive as palavras injuriosas (cf. v. 22). Certamente, estas palavras injuriosas não têm a mesma gravidade e culpabilidade do assassínio, mas estão na mesma linha, porque são premissas destes e revelam a mesma malevolência. Jesus convida-nos a não estabelecer uma classificação das ofensas, mas a considerá-las todas prejudiciais, pois são movidas pelo intento de fazer mal ao próximo. E Jesus dá o exemplo. Insultar: estamos acostumados a insultar, é como dizer “bom dia”. E isto está na mesma linha do homicídio. Quem insulta o irmão, mata no próprio coração o irmão. Por favor, não insulteis! Não ganhamos nada...
Outro cumprimento é relativo à lei matrimonial. O adultério era considerado uma violação do direito de propriedade do homem sobre a mulher. Ao contrário, Jesus vai à raiz do mal. Assim como se chega ao homicídio por meio de injúrias, ofensas e insultos, também se chega ao adultério mediante as intenções de posse em relação a uma mulher que não é a própria esposa. O adultério, como o furto, a corrupção e todos os outros pecados, são concebidos primeiro no nosso íntimo e, depois de o coração ter feito a escolha errada, ganham forma no comportamento concreto. E Jesus diz: quem olha para uma mulher que não é a própria com sentimentos de posse é um adúltero no seu coração, começou o caminho rumo ao adultério. Pensemos um pouco sobre isto: sobre os maus pensamentos que vêm nesta linha.
Depois, Jesus diz aos seus discípulos para não jurar, pois o juramento é sinal da insegurança e da duplicidade mediante a qual se desenrolam as relações humanas. Instrumentaliza-se a autoridade de Deus para dar garantia às nossas vicissitudes humanas. Pelo contrário, fomos chamados para instaurar entre nós, nas nossas famílias e nas nossas comunidades um clima de clareza e de confiança recíproca, para que possamos ser considerados sinceros sem recorrer a intervenções superiores a fim de sermos credíveis. A desconfiança e a suspeita recíproca sempre ameaçam a serenidade!
Que a Virgem Maria, mulher da dócil escuta e da obediência jubilosa, nos ajude a aproximar-nos cada vez mais do Evangelho, para sermos cristãos não “de fachada”, mas de substância! E isto é possível com a graça do Espírito Santo, que nos permite fazer tudo com amor, e assim realizar plenamente a vontade de Deus.


Fonte: Santa Sé

Memória de Nossa Senhora de Lourdes em Westminster

No último dia 11 de fevereiro, Memória de Nossa Senhora de Lourdes, o Arcebispo de Westminster, Cardeal Vicent Gerard Nichols, celebrou a Santa Missa na Catedral do Preciosíssimo Sangue, durante a qual foi conferido o Sacramento da Unção dos Enfermos a alguns doentes, uma vez que nesta data se celebra igualmente o Dia Mundial do Enfermo.

Imagem de N. Sra. de Lourdes
Procissão de entrada


Liturgia da Palavra

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Homilia: VI Domingo do Tempo Comum - Ano A

 São Doroteu de Gaza
Conferência sobre o rancor
“O rancor deve ser cortado na raiz”

Evágrio disse: “Encolerizar-se e contristar a alguém são coisas impróprias ao monge”. E também: “Quem tem triunfado da cólera, tem triunfado dos demônios. Porém, aquele que é presa desta paixão está em absoluta oposição à vida monástica”. Que há que dizer de nós que, sem limitar-nos à irritação e a cólera, chegamos às vezes ao rancor? O que temos de fazer a não ser chorar nosso estado tão lastimoso e indigno do homem? Sejamos vigilantes, irmãos, cooperemos com Deus, para preservar-nos do amargor desta funesta paixão.
Talvez alguém se desculpe com seu irmão pela perturbação causada ou a ferida infligida, porém, mesmo depois da desculpa, permanece incomodado e conserva pensamentos contra seu irmão. Ele não deve dar importância a esses pensamentos e rechaçá-los imediatamente. Isso é o rancor, e para não colocar-se em perigo detendo-se nele é preciso, como disse, muita vigilância; é necessária a desculpa e é imperativo o combate. Ao pedir desculpas simplesmente para cumprir com o preceito, curou-se da cólera momentaneamente, mas não lutou ainda contra o rancor: conserva-se o rancor contra o seu irmão. Uma coisa é o rancor, outra a cólera, a irritação, e outra a desavença.
Vou dar-vos um exemplo que vos fará compreender: alguém acende um fogo. A princípio não consegue mais do que um pequeno carvão. Isso representa a palavra do irmão que nos ofende. Vede, não é mais do que um pequeno carvão, porque, o que é uma simples palavra de vosso irmão? Se a suportais, extinguis o carvão. Se, ao contrário, começas a pensar: “Por que disse isso? Posso bem responder-lhe! Se não quisesse ofender-me, não teria me falado assim! Que ele saiba que eu também posso prejudica-lo”. Como alguém que acende um fogo, vós estais lançando ali raminhos ou qualquer outra coisa e produzis fumaça, que é a perturbação. A perturbação não é mais que o movimento e a afluência de pensamentos que despertem e inquietam o coração. E essa excitação, chamada também ira, impulsiona a vingar-se do ofensor. Como disse o abade Marcos: “A malícia introduzida nos pensamentos excita o coração; mas, dissipada com a oração e a esperança, perece”.
Suportando uma simples palavra de vosso irmão, vocês podem extinguir o pequeno carvão antes que a perturbação apareça. Porém, inclusive esse ânimo perturbado ainda podeis acalmá-lo facilmente enquanto nasce, com o silêncio, com a oração, com uma simples satisfação que brote do coração. Se, ao contrário, continuais a produzir fumaça, ou seja, exaltando e excitando o vosso coração, pensando: “Por que me disse aquilo? Eu também posso lhe responder!”, a afluência e o entrechoque dos pensamentos avivando e ebulindo o coração provocam a chama da exasperação. Esta, segundo Basílio, é somente a ebulição do sangue em torno ao coração. Isso é a irritação, chamada também rancor. Se quiserdes, ainda podeis extingui-la antes que se transforme em cólera. Mas se continuais a perturbar-vos e a perturbar aos demais, fazeis como o que joga troços de madeira à fogueia para avivar o fogo: a lenha se transforma em brasas, e isto é a cólera.
É o mesmo que dizia o abade Zósimo quando lhe pediram que explicasse esta sentença: “Onde não há irritação, não há combate”. Se ao começo da perturbação, assim como aparecem a fumaça e as chispas, alguém se adianta e acusa a si mesmo e oferece uma satisfação, antes que se eleve a chama da irritação, permanece em paz. Mas se, provocada a irritação, esta não se acalma e persiste na perturbação e na exaltação, se parece ao que lança madeira ao fogo e continua a alimentá-lo até que se torne em brasas vivas. Como as brasas, feitas carvão e postas de lado, subsistem anos sem se corromper, mesmo que se lance água em cima, assim a cólera que se prolonga se converte em rancor e já não é possível livrar-se dele a não ser vertendo sangue.
Disse-vos a diferença dos quatro graus: compreendam-nos bem. Agora sabeis o que é a primeira perturbação, o que é a exasperação, o que é a cólera e o que é o rancor. Percebeis como uma só palavra chega a produzir um mal tão grande? Se desde o começo se tivesse censurado a si mesmo, se tivesse suportado pacientemente a palavra do irmão, sem querer se vingar, nem responder duas ou cinco palavras por uma só, e responder ao mal com o mal, se teriam evitado todos esses males. Por isso não cesso de recomendar-vos, extirpai vossas paixões enquanto são jovens, antes que se endureçam em vós e que não tenhais que sofrer. Pois uma coisa é arrancar uma planta pequena e outra desarraigar uma grande árvore.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 135-137.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Enfermo

Mensagem de Sua Santidade Francisco
 para a XXV Jornada Mundial do Doente 2017
 (Lourdes, 11 de fevereiro de 2017)
Admiração pelo que Deus faz: “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 49)

Queridos irmãos e irmãs,
No próximo dia 11 de fevereiro, celebrar-se-á em toda a Igreja, e de forma particular em Lourdes, a XXV Jornada Mundial do Doente, sob o tema: «Admiração pelo que Deus faz: “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1, 49)». Instituída pelo meu predecessor São João Paulo II em 1992 e celebrada a primeira vez precisamente em Lourdes no dia 11 de fevereiro de 1993, tal Jornada dá ocasião para se prestar especial atenção à condição dos doentes e, mais em geral, a todos os atribulados; ao mesmo tempo convida quem se prodigaliza em seu favor, a começar pelos familiares, profissionais de saúde e voluntários, a dar graças pela vocação recebida do Senhor para acompanhar os irmãos doentes. Além disso, esta recorrência renova, na Igreja, o vigor espiritual para desempenhar sempre da melhor forma a parte fundamental da sua missão que engloba o serviço aos últimos, aos enfermos, aos atribulados, aos excluídos e aos marginalizados (cf. João Paulo II, Motu proprio Dolentium hominum, 11 de fevereiro de 1985, 1). Com certeza, os momentos de oração, as Liturgias Eucarísticas e da Unção dos Enfermos, a interajuda aos doentes e os aprofundamentos bioéticos e teológico-pastorais que se realizarão em Lourdes, naqueles dias, prestarão uma nova e importante contribuição para tal serviço.
Sentindo-me desde agora presente espiritualmente na Gruta de Massabiel, diante da imagem da Virgem Imaculada, em quem o Todo-Poderoso fez maravilhas em prol da redenção da humanidade, desejo manifestar a minha proximidade a todos vós, irmãos e irmãs que viveis a experiência do sofrimento, e às vossas famílias, bem como o meu apreço a quantos, nas mais variadas tarefas de todas as estruturas sanitárias espalhadas pelo mundo, com competência, responsabilidade e dedicação se ocupam das melhoras, cuidados e bem-estar diário de todos vós. Desejo encorajar-vos a todos – doentes, atribulados, médicos, enfermeiros, familiares, voluntários – a olhar Maria, Saúde dos Enfermos, como a garante da ternura de Deus por todo o ser humano e o modelo de abandono à vontade divina; e encorajar-vos também a encontrar sempre na fé, alimentada pela Palavra e os Sacramentos, a força para amar a Deus e aos irmãos mesmo na experiência da doença.
Como Santa Bernadete, estamos sob o olhar de Maria. A jovem humilde de Lourdes conta que a Virgem, por ela designada «a Bela Senhora», a fixava como se olha para uma pessoa. Estas palavras simples descrevem a plenitude dum relacionamento. Bernadete, pobre, analfabeta e doente, sente-se olhada por Maria como pessoa. A Bela Senhora fala-lhe com grande respeito, sem Se pôr a lastimar a sorte dela. Isto lembra-nos que cada doente é e permanece sempre um ser humano, e deve ser tratado como tal. Os doentes, tal como as pessoas com deficiências mesmo muito graves, têm a sua dignidade inalienável e a sua missão própria na vida, não se tornando jamais meros objetos, ainda que às vezes pareçam de todo passivos, mas, na realidade, nunca o são.
Bernardete, depois de estar na Gruta, graças à oração, transforma a sua fragilidade em apoio para os outros; graças ao amor, torna-se capaz de enriquecer o próximo e sobretudo oferece a sua vida pela salvação da humanidade. O facto de a Bela Senhora lhe pedir para rezar pelos pecadores lembra-nos que os doentes, os atribulados não abrigam em si mesmos apenas o desejo de curar, mas também o de viver cristãmente a sua existência, chegando a doá-la como autênticos discípulos missionários de Cristo. A Bernadete, Maria dá a vocação de servir os doentes e chama-a para ser Irmã da Caridade, uma missão que ela traduz numa medida tão elevada que se torna modelo que todo o profissional de saúde pode tomar como referência. Por isso, peçamos à Imaculada Conceição a graça de saber sempre relacionar-nos com o doente como uma pessoa que certamente precisa de ajuda – e, por vezes, até para as coisas mais elementares – mas também é portadora do seu próprio dom que deve partilhar com os outros.
O olhar de Maria, Consoladora dos aflitos, ilumina o rosto da Igreja no seu compromisso diário a favor dos necessitados e dos doentes. Os preciosos frutos desta solicitude da Igreja pelo mundo dos atribulados e doentes são motivo de agradecimento ao Senhor Jesus, que Se fez solidário connosco, obedecendo à vontade do Pai até à morte na cruz, para que a humanidade fosse redimida. A solidariedade de Cristo, Filho de Deus nascido de Maria, é a expressão da omnipotência misericordiosa de Deus que se manifesta na nossa vida – sobretudo quando é frágil, está ferida, humilhada, marginalizada, atribulada –, infundindo nela a força da esperança que nos faz levantar e sustenta.
Uma riqueza tão grande de humanidade e de fé não deve ficar perdida, mas sim ajudar-nos a enfrentar as nossas fraquezas humanas e, ao mesmo tempo, os desafios presentes em âmbito sanitário e tecnológico. Por ocasião da Jornada Mundial do Doente, podemos encontrar novo impulso a fim de contribuir para a difusão duma cultura respeitadora da vida, da saúde e do meio ambiente; encontrar um renovado impulso a fim de lutar pelo respeito da integridade e dignidade das pessoas, inclusive mediante uma abordagem correta das questões bioéticas, a tutela dos mais fracos e o cuidado pelo meio ambiente.
Por ocasião da XXV Jornada Mundial do Doente, reitero a minha proximidade feita de oração e encorajamento aos médicos, enfermeiros, voluntários e a todos os homens e mulheres consagrados comprometidos no serviço dos doentes e necessitados; às instituições eclesiais e civis que trabalham nesta área; e às famílias que cuidam amorosamente dos seus membros doentes. A todos, desejo que possam ser sempre sinais jubilosos da presença e do amor de Deus, imitando o testemunho luminoso de tantos amigos e amigas de Deus, dentre os quais recordo São João de Deus e São Camilo de Lélis, Padroeiros dos hospitais e dos profissionais de saúde, e Santa Teresa de Calcutá, missionária da ternura de Deus.
Irmãs e irmãos todos – doentes, profissionais de saúde e voluntários –, elevemos juntos a nossa oração a Maria, para que a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo seu Filho a esperança no caminho da cura e da saúde, o sentido da fraternidade e da responsabilidade, o compromisso pelo desenvolvimento humano integral e a alegria da gratidão sempre que Ele nos maravilha com a sua fidelidade e a sua misericórdia:

Ó Maria, nossa Mãe, que, em Cristo, acolheis a cada um de nós como filho, sustentai a expectativa confiante do nosso coração, socorrei-nos nas nossas enfermidades e tribulações, guiai-nos para Cristo, vosso filho e nosso irmão, e ajudai a confiarmo-nos ao Pai que faz maravilhas.

A todos vós, asseguro a minha recordação constante na oração e, de coração, concedo a Bênção Apostólica.
Vaticano, 8 de dezembro - Festa da Imaculada Conceição - de 2016.
FRANCISCO



Fonte: Santa Sé