sexta-feira, 22 de junho de 2018

II Catequese do Papa sobre os Mandamentos: As Dez Palavras

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 20 de junho de 2018
Os Mandamentos (2): As “Dez Palavras”

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Na quarta-feira passada demos início a um novo ciclo de catequeses sobre os mandamentos. Vimos que o Senhor Jesus não veio para abolir a Lei, mas para a cumprir. Contudo, devemos entender melhor esta perspectiva.
Na Bíblia, os mandamentos não vivem por si sós, mas fazem parte de um relacionamento, de uma relação. O Senhor Jesus não veio para abolir a Lei, mas para a cumprir. Existe esta relação da Aliança [1] entre Deus e o seu Povo. No início do capítulo 20 do livro do Êxodo lemos - e isto é importante - «Deus pronunciou todas estas palavras» (v. 1).
Parece uma abertura como outras, mas na Bíblia nada é banal. O texto não diz: “Deus pronunciou estes mandamentos”, mas «estas palavras». A tradição judaica chamará sempre ao Decálogo “as dez Palavras”. E o termo “decálogo” quer dizer exatamente isto [2]. Contudo, têm forma de leis, objetivamente são mandamentos. Portanto, por que o Autor sagrado usa, precisamente aqui, o termo “dez palavras”? Por que não diz “dez mandamentos”?
Que diferença existe entre um comando e uma palavra? O comando é uma comunicação que não requer o diálogo. A palavra, ao contrário, é o meio essencial do relacionamento como diálogo. Deus Pai cria por meio da sua palavra, e o seu Filho é a Palavra que se fez carne. O amor alimenta-se de palavras, como também a educação, ou a colaboração. Duas pessoas que não se amam, não conseguem comunicar-se. Quando alguém fala ao nosso coração, a nossa solidão acaba. Recebe uma palavra, verifica-se a comunicação, e os mandamentos são palavras de Deus: Deus comunica-se nestas dez Palavras e aguarda a nossa resposta.
Uma coisa é receber uma ordem, outra coisa é sentir que alguém procura falar conosco. Um diálogo é muito mais que a comunicação de uma verdade. Eu posso dizer-vos: “Hoje é o último dia de primavera, primavera quente, mas hoje é o último dia”. Esta é uma verdade, não um diálogo. Mas se eu vos disser: “Que pensais desta primavera?”, começo um diálogo. Os mandamentos são um diálogo. A comunicação realiza-se pelo prazer de falar e pelo bem concreto que se comunica entre aqueles que se amam por meio das palavras. É um bem que não consiste em coisas, mas nas próprias pessoas que doam reciprocamente no diálogo (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 142).
Mas esta diferença não é algo artificial. Vejamos o que aconteceu no início. O tentador, o diabo, quer enganar o homem e a mulher neste ponto: quer convencê-los de que Deus lhes proibiu comer o fruto da árvore do bem e do mal, para os manter submissos. O desafio consiste exatamente nisto: a primeira norma que Deus ofereceu ao homem foi a imposição de um déspota que proíbe e obriga, ou foi o esmero de um pai que cuida dos seus filhos e os protege contra a autodestruição? É uma palavra, ou um comando? A mais trágica das várias mentiras que a serpente diz a Eva é a sugestão de uma divindade invejosa - “Mas não, Deus é invejoso de vós” - de uma divindade possessiva - “Deus não quer que tenhais liberdade”. Os acontecimentos demonstram dramaticamente que a serpente mentiu (cf. Gn 2,16-17; 3,4-5), levando a crer que uma palavra de amor fosse uma ordem.
O homem está diante desta encruzilhada: Deus impõe-me as coisas, ou cuida de mim? Os seus mandamentos são apenas uma lei, ou contêm uma palavra, para cuidar de mim? Deus é patrão ou Pai? Deus é Pai: nunca vos esqueçais disto! Até nas situações mais negativas, pensai que temos um Pai que ama todos nós. Somos vassalos ou filhos? Este combate, dentro e fora de nós, apresenta-se continuamente: temos que escolher muitas vezes entre uma mentalidade de escravos e uma mentalidade de filhos. A ordem é do patrão, a palavra é do Pai.
O Espírito Santo é um Espírito de filhos, é o Espírito de Jesus. Um espírito de escravos não pode deixar de receber a Lei de modo opressivo, e pode produzir dois resultados opostos: ou uma vida feita de deveres e de obrigações, ou então uma reação violenta de rejeição. Todo o Cristianismo é a passagem da letra da Lei para o Espírito que vivifica (cf. 2Cor 3,6-17). Jesus é a Palavra do Pai, não a condenação do Pai. Jesus veio para salvar com a sua Palavra, não para nos condenar.
Vê-se quando um homem ou uma mulher viveram ou não esta passagem. As pessoas dão-se conta quando o cristão raciocina como filho ou como escravo. E nós mesmos recordamos que os nossos educadores cuidaram de nós como pais e mães, ou se somente nos impuseram regras. Os mandamentos são o caminho para a liberdade, porque constituem a palavra do pai que nos liberta neste caminho.
O mundo não tem necessidade de legalismo, mas de cuidado. Precisa de cristãos com coração de filhos [3]. Há necessidade de cristãos com coração de filhos: não vos esqueçais disto!

[1] O cap. 20 do livro do Êxodo é precedido pela oferta da Aliança, no cap. 19, onde é central o pronunciamento: «Agora, pois, se obedecerdes à minha voz e guardardes a minha aliança, sereis o meu povo particular entre todos os povos. Toda a terra é minha, mas para mim vós sereis um reino de sacerdotes, uma nação consagrada» (Ex 19,5-6). Esta terminologia encontra uma síntese emblemática em Lv 26,12: «Caminharei no meio de vós: serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo» e chegará até ao nome prenunciado do Messias, em Isaías 7,14 ou seja, Emmanuel, que leva a Mateus: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que se chamará Emmanuel, que significa: “Deus conosco”» (Mt 1,23). Tudo isto indica a natureza essencialmente relacional da fé judaica e, ao máximo grau, da fé cristã.
[2] Cf. também Ex 34,28b: «E o Senhor escreveu nas tábuas o texto da aliança, as dez palavras».
[3] Cf. João Paulo II, Carta Enc. Veritatis splendor, 12: «O dom do Decálogo é promessa e sinal da Nova Aliança, quando a lei for nova e definitivamente escrita no coração do homem (cf. Jr 31,31-34), substituindo a lei do pecado, que aquele coração tinha deturpado (cf. Jr 17,1). Então será dado “um coração novo”, porque nele habitará “um espírito novo”, o Espírito de Deus (cf. Ez 36,24-28)».


Fonte: Santa Sé

Angelus do Papa: XI Domingo do Tempo Comum - Ano B

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Domingo, 17 de junho de 2018

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Na hodierna página evangélica (cf. Mc 4,26-34), Jesus fala às multidões sobre o Reino de Deus e os dinamismos do seu crescimento, e fá-lo narrando duas breves parábolas.
Na primeira (cf. vv. 26-29), o Reino de Deus é comparado com o crescimento misterioso da semente, que é lançada à terra e depois germina, cresce e produz a espiga, independentemente do cuidado do agricultor, que quando ela estiver madura se ocupará da colheita. A mensagem que esta parábola nos ensina é a seguinte: mediante a pregação e a ação de Jesus, o Reino de Deus é anunciado, irrompe no campo do mundo e, como a semente, cresce e desenvolve-se por si mesmo, pela sua força e segundo critérios humanamente não decifráveis. No seu crescer e germinar dentro da história, ele não depende tanto da obra do homem, mas é sobretudo expressão do poder e da bondade de Deus, da força do Espírito Santo que leva por diante a vida cristã no Povo de Deus.
Por vezes a história, com as suas vicissitudes e os seus protagonistas, parece caminhar em sentido contrário ao desígnio do Pai celeste, que quer para todos os seus filhos a justiça, a fraternidade e a paz. Mas nós somos chamados a viver estes períodos como estações de provação, de esperança e de expetativa vigilante da colheita. Com efeito, tanto ontem como hoje, o Reino de Deus cresce no mundo de maneira misteriosa, surpreendente, revelando o poder escondido do pequeno grão, a sua vitalidade vitoriosa. Nos meandros de vicissitudes pessoais e sociais que por vezes parecem marcar o naufrágio da esperança, é preciso permanecer confiante no agir de Deus, delicado mas poderoso. Por isso, nos momentos de escuridão e de dificuldade não devemos desanimar, mas permanecer ancorados na fidelidade de Deus, na sua presença que salva sempre. Recordai-vos disto: Deus salva sempre. É o salvador.
Na segunda parábola (cf. vv. 30-32), Jesus compara o Reino de Deus com um pequeno grão de mostarda. É uma semente muito pequenina, mas desenvolve-se tanto que se torna a maior de todas as plantas da horta: um crescimento imprevisível, surpreendente. Não é fácil para nós entrar nesta lógica da imprevisibilidade de Deus e aceitá-la na nossa vida. Mas hoje o Senhor exorta-nos a ter uma atitude de fé que supera os nossos projetos, os nossos cálculos, as nossas previsões. Deus é sempre o Deus das surpresas. O Senhor surpreende-nos sempre. É um convite a abrir-nos com mais generosidade aos planos de Deus, quer a nível pessoal quer comunitário. Nas nossas comunidades é preciso prestar atenção às pequenas e grandes ocasiões de bem que o Senhor nos oferece, deixando-nos envolver nas suas dinâmicas de amor, de acolhimento e de misericórdia para com todos.
A autenticidade da missão da Igreja não deriva do sucesso nem da gratificação dos resultados, mas do ir em frente com a coragem da confiança e a humildade do abandono em Deus. Ir em frente na confissão de Jesus e com a força do Espírito Santo. É a consciência de sermos pequenos e débeis instrumentos, que nas mãos de Deus e com a sua graça podemos realizar obras grandes, fazendo progredir o seu Reino que é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17). A Virgem Maria nos ajude a ser simples, a estar atentos, a fim de colaborarmos com a nossa fé e com o nosso trabalho no desenvolvimento do Reino de Deus nos corações e na história.


Fonte: Santa Sé

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A viagem do Papa a Genebra


No dia 21 de junho de 2018 o Papa Francisco realiza uma viagem a Genebra (Suíça), para visitar a sede do Conselho Mundial de Igrejas (World Council of Churches) em seu 70º aniversário de fundação. Esta é sua vigésima terceira viagem fora da Itália e será uma “peregrinação ecumênica”, nos passos de sua visita à Suécia nos 500 anos da Reforma.

Símbolo do Conselho Mundial de Igrejas
Francisco é o terceiro Papa a visitar Genebra: Paulo VI esteve na cidade suíça em 10 de junho de 1969 e João Paulo II em duas ocasiões: 15 de junho de 1982 e 12 de junho de 1984. Ambos visitaram o Conselho Mundial de Igrejas, entidade que congrega cerca de 350 igrejas protestantes e ortodoxas.

(João Paulo esteve na Suíça também nos dias 5-6 de junho de 2004, visitando a cidade de Berna.)

Paulo VI em Genebra (1969)
Programa da viagem:

O Papa chega ao Aeroporto Internacional de Genebra, onde encontra-se privadamente com o Presidente da Suíça. Em seguida dirige-se à sede do Conselho Mundial de Igrejas, onde participa de uma Celebração Ecumênica.

Após o almoço com os líderes do Conselho, o Papa participa de uma reunião com os representantes das igrejas cristãs.

À tarde o Santo Padre celebra a Santa Missa no Palexpo, centro de exposições de Genebra. Após um breve encontro com os Bispos e colaboradores da Nunciatura, o Papa retorna a Roma.

João Paulo II em Genebra (1984)
Alguns dados da Igreja Católica na Suíça:

Número de católicos: 3.398.000 (40,8% da população)
Dioceses e outras circunscrições eclesiásticas: 8
Paróquias: 1.632
Outros centros de pastoral: 141

Bispos: 22
Sacerdotes diocesanos: 1.451
Sacerdotes religiosos: 796
Diáconos permanentes: 265
Religiosos (as): 4.660
Seminaristas: 135

Escolas católicas:  36 (6.515 estudantes)
Universidades católicas: 4 (1.319 estudantes)
Hospitais: 2
Asilos: 11
Orfanatos: 10
Outras instituições sociais: 16



Informações: Santa Sé

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Festa de Santo Antônio em Jerusalém

No último dia 13 de junho o Custódio da Terra Santa, Padre Francesco Patton, celebrou na igreja do Santíssimo Salvador em Jerusalém, por ocasião da Solenidade de Santo Antônio, Padroeiro da Custódia Franciscana na Terra Santa.

No dia anterior, Padre Patton celebrou as I Vésperas da Solenidade com a tradicional bênção dos pães de Santo Antônio.

Dia 12 de junho: I Vésperas


Procissão de entrada
Versículo introdutório
Homilia
Incensação do altar durante o Magnificat

I Catequese do Papa sobre os Mandamentos: Introdução

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 13 de junho de 2018
Os Mandamentos (1): Introdução

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje começamos um novo itinerário de catequeses sobre o tema dos mandamentos. Os mandamentos da lei de Deus. Para o introduzir, inspiramo-nos no trecho que acabamos de ouvir: o encontro entre Jesus e um homem - é um jovem - que, de joelhos, lhe pergunta como pode herdar a vida eterna (cf. Mc 10,17-21). E naquela pergunta há o desafio de cada existência, também da nossa: o desejo de uma vida plena, infinita. Mas como fazer para a alcançar? Que caminho percorrer? Viver verdadeiramente, viver uma existência nobre... Quantos jovens procuram “viver” e depois destroem-se, indo atrás de coisas efémeras.
Alguns pensam que é melhor suprimir este impulso - o impulso de viver - porque é perigoso. Gostaria de dizer, especialmente aos jovens: o nosso pior inimigo não são os problemas concretos, por mais sérios e dramáticos que sejam: o maior perigo da vida é um mau espírito de adaptação, que não é mansidão nem humildade, mas mediocridade, pusilanimidade [1]. Um jovem medíocre tem futuro ou não? Não! Permanece ali, não cresce, não terá sucesso. A mediocridade ou a pusilanimidade. Aqueles jovens que têm medo de tudo: “Não, eu sou assim...”. Estes jovens não irão em frente. Mansidão, fortaleza e nenhuma pusilanimidade, nenhuma mediocridade. O Beato Pier Giorgio Frassati - que era um jovem - dizia que é preciso viver, não ir vivendo [2]. Os medíocres vão vivendo. Viver com a força da vida. É necessário pedir ao Pai celeste para os jovens de hoje o dom da saudável inquietação. Mas em casa, nos vossos lares, em cada família, quando se vê um jovem sentado o dia inteiro, às vezes a mãe e o pai pensam: “Mas ele está doente, tem algo”, e levam-no ao médico. A vida do jovem é ir em frente, ser desassossegado, a saudável inquietação, a capacidade de não se contentar com uma vida sem beleza, sem cor. Se os jovens não forem famintos de vida autêntica, pergunto-me, que fim terá a humanidade? Onde vai parar a humanidade com jovens quietos, e não inquietos?
A pergunta daquele homem do Evangelho que ouvimos ressoa dentro de cada um de nós: como se encontra a vida, a vida em abundância, a felicidade? Jesus responde: «Tu conheces os mandamentos» (v. 19), e cita uma parte do Decálogo. É um processo pedagógico, com o qual Jesus quer orientar para um lugar específico; com efeito, da sua pergunta já é claro que aquele homem não tem a vida plena, procura mais, está inquieto. Portanto, o que deve entender? Diz: «Mestre, «tenho observado tudo isto desde a minha mocidade!» (v. 20).
Como se passa da mocidade para a maturidade? Quando se começa a aceitar os próprios limites. Tornamo-nos adultos quando nos relativizamos e adquirimos a consciência daquilo «que falta» (cf. v. 21). Este homem é obrigado a reconhecer que tudo o que pode “fazer” não supera um “teto”, não vai além de uma margem.
Como é bom ser homens e mulheres! Como é preciosa a nossa existência! E no entanto, existe uma verdade que na história dos últimos séculos o homem rejeitou frequentemente, com consequências trágicas: a verdade dos seus limites.
No Evangelho, Jesus diz algo que nos pode ajudar: «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para os levar a cumprimento» (Mt 5,17). O Senhor Jesus concede o cumprimento, Ele veio para isto. Aquele homem devia chegar ao limiar de um salto, onde se abre a possibilidade de deixar de viver de si mesmo, das próprias obras, dos próprios bens e - precisamente porque falta a vida plena - deixar tudo para seguir o Senhor [3]. Analisando bem, no convite final de Jesus - imenso, maravilhoso - não há a proposta da pobreza, mas da verdadeira riqueza: «Só te falta uma coisa; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!» (v. 21).
Quem, podendo escolher entre um original e uma cópia, escolheria a cópia? Eis o desafio: encontrar o original da vida, não a cópia. Jesus não oferece sucedâneos, mas vida verdadeira, amor verdadeiro, riqueza verdadeira! Como poderão os jovens seguir-nos na fé, se não nos virem escolher o original, se nos virem habituados às meias-medidas? É desagradável encontrar cristãos medianos, cristãos - permiti-me a palavra - “anões”; crescem até a uma certa estatura e depois não; cristãos com o coração reduzido, fechado. É desagradável encontrar isto. É necessário o exemplo de alguém que me convida a um “além”, a um “acréscimo”, a crescer um pouco. Santo Inácio denominava-o “magis”, «o fogo, o fervor da ação, que desperta os sonolentos» [4].
O caminho do que falta passa por aquilo que existe. Jesus não veio para abolir a Lei ou os Profetas, mas para levar a cumprimento. Devemos partir da realidade para dar o salto naquilo “que falta”. Temos que sondar o ordinário para nos abrirmos ao extraordinário.
Nestas catequeses pegaremos nas duas tábuas de Moisés como cristãos, de mãos dadas com Jesus, a fim de passar das ilusões da juventude para o tesouro que está no céu, caminhando atrás dele. Em cada uma daquelas leis, antigas e sábias, descobriremos a porta aberta pelo Pai que está nos céus para que o Senhor Jesus, que a cruzou, nos conduza à vida verdadeira. A sua vida. A vida dos filhos de Deus!

[1] Os Padres falam de pusilanimidade (oligopsychía). São João Damasceno define-a como «o receio de realizar uma ação» (Exposição exata da fé ortodoxa, II, 15), e São João Clímaco acrescenta que «a pusilanimidade é uma disposição pueril, numa alma que já não é jovem» (A Escada, XX, 1, 2).
[2] Cf. Carta a Isidoro Bonini, 27 de fevereiro de 1925.
[3] «O olho foi criado para a luz, o ouvido para os sons, cada coisa para a sua finalidade, e o desejo da alma para se lançar rumo a Cristo» (Nicolau Cabasilas, A vida em Cristo, II, 90).
[4] Discurso à XXXVI Congregação Geral da Companhia de Jesus, 24 de outubro de 2016: «Trata-se do “magis”, do plus que leva Inácio a inaugurar processos, a acompanhá-los e a avaliar a sua real incidência na vida das pessoas, em matéria de fé, ou de justiça, ou a misericórdia e caridade».


Fonte: Santa Sé

sábado, 16 de junho de 2018

Homilia: XI Domingo do Tempo Comum - Ano B

Orígenes
Do Comentário sobre o Cântico dos Cânticos
Pelas coisas que vemos na terra podemos perceber e compreender as que existem no céu

O Apóstolo Paulo nos ensina a compreender as coisas invisíveis de Deus através das visíveis, e a contemplar, sobre a base da razão e da semelhança, as coisas que não se veem, partindo das que se percebem. Com isso Paulo nos demonstra que este mundo visível nos instrui sobre o invisível, e que esta situação terrenal contém certas reproduções das realidades celestes, de modo que a partir das coisas de baixo podemos subir às do alto, e pelas que vemos na terra podemos perceber e compreender as que existem no céu.
A semelhança destas realidades celestes, para que se pudessem perceber e deduzir mais facilmente as diferenças, o Criador conferiu a forma às criaturas terrenais. E, como fez ao homem à sua imagem e semelhança, possivelmente também criou as demais criaturas à imagem de certas realidades celestes por razão de semelhança.
E possivelmente também cada uma das realidades terrenas tem imagem e semelhança nas celestes, a tal ponto de que o próprio grão de mostarda, que é a menor de todas as sementes, tem sua parcela de imagem e semelhança nos céus; e o fato de que tenha um desenvolvimento natural tão complexo que, mesmo sendo a menor entre as sementes, se torna o maior dos arbustos, tanto que as aves do céu podem vir e habitar em seus ramos, faz com que tenha semelhança, não só de qualquer realidade celeste, mas do próprio Reino dos Céus. Por isso é possível que também as outras sementes que existem na terra tenham nos céus alguma semelhança e razão. E se isto têm as sementes, também o terão as plantas; e se as plantas, também e sem dúvida os animais: alados, répteis ou quadrúpedes.
Mas ainda pode-se entender outra coisa: como o grão de mostarda não oferece apenas uma semelhança, ou seja, a do Reino dos Céus e morada dos pássaros em seus ramos, mas tem também outra semelhança, a saber: é imagem da perfeição da fé, tanto que, se alguém tem fé assim como um grão de mostarda, pode dizer ao monte que se translade e ele se transladará, da mesma forma é possível que também as demais coisas terrenas sejam portadoras de imagem e semelhança das realidades celestes, não mais sob um só aspecto, mas em vários.
E como, por exemplo, no grão de mostarda são muitas as propriedades que representam imagens das realidades celestes, e a última de todas é o uso que dele fazem os homens no serviço do corpo, assim também nos outros: sementes, plantas, raízes de ervas, e inclusive animais, podemos entender que certamente prestam aos homens um uso e um serviço corporal, mas que ainda têm formas e imagens de realidades incorpóreas  com as quais a alma pode aprender e instruir-se para contemplar também as realidades invisíveis e celestes.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 408-409.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Angelus do Papa: X Domingo do Tempo Comum - Ano B

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
Domingo, 10 de junho de 2018

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste domingo (cf. Mc 3,20-35) mostra-nos dois tipos de incompreensão que Jesus teve que enfrentar: a dos escribas e a dos seus próprios familiares.
A primeira incompreensão. Os escribas eram homens instruídos nas Sagradas Escrituras e encarregados de as explicar ao povo. Alguns deles são enviados de Jerusalém à Galileia, onde a fama de Jesus começava a difundir-se, a fim de o desacreditar aos olhos do povo; para desempenhar a função de linguarudos, desacreditar o outro, privar da autoridade, que coisa feia! E eles foram enviados para fazer isto. Estes escribas chegam com a acusação clara e terrível - eles não poupam meios, vão ao centro e dizem o seguinte: «Ele tem Belzebu, é pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios» (v. 22). Ou seja, é o chefe dos demônios que O impele; que equivale a dizer mais ou menos: “ele é um endemoninhado”. Com efeito, Jesus curava muitos doentes, e eles pretendem fazer crer que não o faz com o Espírito de Deus - como fazia Jesus - mas com o do Maligno, com a força do diabo. Jesus reage com palavras fortes e claras, não tolera isto, pois aqueles escribas, talvez sem se darem conta, estão a cair no pecado mais grave: negar e blasfemar o Amor de Deus que está presente e age em Jesus. E a blasfema, o pecado contra o Espírito Santo, é o único pecado imperdoável - assim diz Jesus - porque parte de um fechamento do coração à misericórdia de Deus que age em Jesus.
Mas este episódio contém uma admoestação que serve a todos nós. Com efeito, pode acontecer que uma grande inveja pela bondade e pelas boas obras de uma pessoa possa levar a acusá-la falsamente. Há nisto um grande veneno mortal: a maldade com que, de maneira intencional se pretende destruir a boa fama do outro. Deus nos livre desta terrível tentação! E se, examinando a nossa consciência, nos apercebemos que esta erva daninha está a germinar dentro de nós, vamos imediatamente confessá-lo no sacramento da Penitência, antes que se desenvolva e produza os seus efeitos malvados, que são incuráveis. Estai atentos, pois esta atitude destrói as famílias, as amizades, as comunidades e até a sociedade.
O Evangelho de hoje fala-nos também de outra incompreensão, muito diversa, em relação a Jesus: a dos seus familiares. Eles estavam preocupados, porque a sua nova vida itinerante lhes parecia uma loucura (cf. v. 21). Com efeito, Ele mostrava-se muito disponível com o povo, sobretudo com os doentes e os pecadores, a ponto de não ter tempo nem sequer para comer. Jesus era assim: primeiro as pessoas, servir o povo, ajudar o povo, ensinar ao povo, curar as pessoas. Era para as pessoas. Não tinha tempo nem sequer para comer. Por conseguinte, os seus familiares decidem reconduzi-lo a Nazaré, a casa. Chegam ao lugar onde Jesus está a pregar e mandam chamá-lo. Disseram-lhe: «Estão ali fora, Tua mãe e Teus irmãos que te procuram» (v. 32). Ele respondeu: «Quem são Minha mãe e Meus irmãos?», e olhando para as pessoas que estavam em seu redor a ouvi-lo, acrescentou: «Aí estão Minha mãe e Meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe» (vv. 33-34). Jesus formou uma nova família, já não baseada nos vínculos de sangue, mas na fé n’Ele, no seu amor que nos acolhe e nos une, no Espírito Santo. Todos aqueles que acolherem a palavra de Jesus são filhos de Deus e irmãos entre si. Acolher a palavra de Jesus torna-nos irmãos entre nós, faz de nós a família de Jesus. Falar mal dos outros, destruir a fama dos outros, torna-nos a família do diabo.
Aquela resposta de Jesus não é uma falta de respeito para com a sua mãe e os seus familiares. Aliás, para Maria é o maior reconhecimento, pois precisamente ela é a discípula perfeita que obedeceu em tudo à vontade de Deus. Que a Virgem Mãe nos ajude a viver sempre em comunhão com Jesus, reconhecendo a obra do Espírito Santo que age n’Ele e na Igreja, regenerando o mundo para a vida nova.


Fonte: Santa Sé