segunda-feira, 27 de março de 2017

II pregação de Quaresma do Padre Cantalamessa

Padre Raniero Cantalamessa
II pregação de Quaresma
17 de março de 2017
"O Espírito Santo nos introduz no mistério da divindade de Cristo"

1. A fé de Nicéia
Continuamos, nesta meditação, a reflexão sobre o papel do Espírito Santo no conhecimento de Cristo. A este respeito, não podemos silenciar uma ideia presente no mundo de hoje. Há muito tempo existe um movimento chamado “Hebreus messiânicos”, ou seja, Hebreus-cristãos. ("Cristo" e "cristão" são apenas a tradução grega do hebraico Messias messiânico!). Uma estimativa fala de cerca de 150 mil membros, divididos em grupos e associações entre eles, espalhados especialmente nos Estados Unidos, Israel e vários países europeus.
São hebreus que acreditam que Jesus, Yeshua, é o Messias prometido, o Salvador e o Filho de Deus, mas não querem absolutamente renunciar de sua identidade e tradição hebraica. Não aderem oficialmente a nenhuma das Igrejas cristãs tradicionais, porque pretendem reconectar-se e reviver a Igreja primitiva dos judeu-cristãos, cuja experiência foi interrompida bruscamente por conhecidos eventos traumáticos.
A Igreja Católica e as outras Igrejas sempre se abstiveram de promover, ou até mesmo nomear, este movimento por óbvias razões de diálogo com o hebraísmo oficial. Eu mesmo nunca falei deles. Mas agora está surgindo a convicção de que não é correto continuar a ignorá-los ou, pior, pô-los no ostracismo de um lado e do outro. Acaba de surgir na Alemanha um estudo de vários teólogos sobre o fenômeno[1]. Se eu falo nesta sede é por um motivo específico, pertinente ao tema destas meditações. Em uma pesquisa sobre os fatores e circunstâncias que estiveram presente na origem da sua fé em Jesus, mais de 60% das pessoas em causa respondeu: "uma transformação interior por obra do Espírito Santo"; em segundo lugar é a leitura da Bíblia e em terceiro os contatos pessoais[2]. É uma confirmação da vida que o Espírito Santo é aquele que dá o verdadeiro e íntimo conhecimento de Cristo.
Retomemos, portanto, o fio das nossas considerações históricas. Enquanto a fé cristã permaneceu restrita ao âmbito bíblico e judaico, a proclamação de Jesus como Senhor ("Creio em um só Senhor Jesus Cristo"), satisfazia todas as exigências da fé cristã e justificava o culto de Jesus “como Deus”. Senhor, Adonai, era, de fato, para Israel um título inequívoco; ele pertence somente a Deus. Chamar Jesus Senhor, portanto, é o mesmo que proclamá-lo Deus. Temos provas irrefutáveis do papel desempenhado pelo título Kyrios no início da Igreja como expressão de culto divino atribuído a Cristo. Na sua versão aramaica Maran-atha (O Senhor vem), ou Marana-tha (Vem, Senhor!), já aparece em São Paulo como fórmula litúrgica (1 Cor 16, 22) e é uma das poucas palavras preservadas na língua da comunidade primitiva[3].
Mas assim que o cristianismo entrou no mundo greco-romano ao redor, o título de Senhor, Kyrios, não era suficiente. O mundo pagão conhecia muitos e diversos "senhores", em primeiro lugar, é claro, o imperador romano. Era necessário encontrar uma outra maneira de garantir a plena fé em Cristo e o seu culto divino. A crise ariana ofereceu uma oportunidade.
Isso nos leva à segunda parte do artigo sobre Jesus, que foi adicionada ao símbolo da fé no Concílio de Nicéia, em 325: “nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial (homoousios) ao Pai”.
O bispo de Alexandria, Atanásio, indiscutível paladino da fé de Nicéia, está bem convencido de que não foi ele, nem a Igreja de seu tempo, que descobriu a divindade de Cristo. Todo o seu trabalho consistirá, pelo contrário, em mostrar que esta sempre foi a fé da Igreja; que nova não é a verdade, mas a heresia contrária. A sua convicção sobre este ponto encontra uma confirmação na carta que Plínio o Jovem, governador da Bitinia, escreveu ao imperador Traiano por volta do ano 111 d.C. A única informação confiável que ele diz que tem sobre os cristãos é que “normalmente se reunem antes do amanhecer, em um dia fixo da semana, e cantam hinos a Cristo como a Deus” ("carmenque Christo quasi Deo dicere[4]").
A crença na divindade de Cristo, portanto, já existia e é só ignorando completamente a história que alguém poderia afirmar que a divindade de Cristo é um dogma querido e imposto pelo imperador Constantino no Concílio de Nicéia. A contribuição dos Padres de Nicéia, e em particular de Atanásio, foi, antes de mais nada, a de remover os obstáculos que haviam impedido até então um reconhecimento pleno e sem reticências da divindade de Cristo nas discussões teológicas.
Um desses obstáculos era o hábito grego de definir a essência divina com o termo agennetos, ingênito. Como proclamar que o Verbo é verdadeiro Deus, uma vez que ele é Filho, ou seja, gerado do Pai? Era fácil para Ario estabelecer a equivalência: gerado, igual feito, ou seja, passar gennetos a genetos, e concluir com a célebre frase que fez explodir o caso: "Houve um tempo em que não havia" (en ote ouk en). Isso era equivalente a fazer de Cristo uma criatura, embora não "como as outras criaturas". Atanásio resolve a disputa com uma observação elementar: O termo agenetos foi inventado pelos gregos porque ainda não conheciam o Filho[5]" e defendeu com garra a expressão “gerado, mas não feito”, genitus non factus, de Nicéia.
Outro obstáculo cultural para o pleno reconhecimento da divindade de Cristo, no qual Ario podia apoiar a sua tese, era a doutrina de uma divindade intermediária, o deuteros theos, responsável pela criação do mundo. De Platão em diante, isso tornou-se um dado comum em muitos sistemas religiosos e filosóficos da antiguidade. A tentação de assimilar o Filho, “por meio do qual todas as coisas foram criadas”, a esta entidade intermediária ficava insinuando-se na especulação cristã (Apologistas, Orígenes), embora estranha à vida interna da Igreja. O resultado era um esquema tripartido do ser: no topo, o Pai ingênito; depois dele, o Filho (e mais tarde também o Espírito Santo); em terceiro lugar, as criaturas.
A definição do "genitus non factus” e do homoousios, remove este obstáculo e obra a catarse cristã do universo metafísico dos gregos. Com esta definição, uma única linha de demarcação é desenhada sobre a vertical do ser. Existem apenas dois modos de ser: o do criador e o das criaturas e o Filho se coloca no primeiro modo, não no segundo.
Querendo colocar em uma frase o significado perene da definição de Nicéia, poderíamos formular desta forma: em cada época e cultura, Cristo deve ser proclamado "Deus", não em algum significado derivado ou secundário, mas na acepção mais forte que a palavra "Deus" tem em tal cultura.
É importante saber o que motiva Atanásio e os outros teólogos ortodoxos na batalha, ou seja, de onde lhes vêm uma certeza tão absoluta. Não da especulação, mas da vida; mais precisamente, da reflexão sobre a experiência que a Igreja, graças à ação do Espírito Santo, faz da salvação em Cristo Jesus.
O argumento soteriológico não nasce com a controvérsia ariana; ele está presente em todas as grandes controvérsias cristológicas antigas, daquela antignóstica àquela antimonotelita. Na sua formulação clássica soa assim: "O que não é assumido não é salvo" ("Quod non est assumptum non est sanatum[6]"). No uso que lhe dá Atanásio, ele pode ser entendido da seguinte maneira: "Aquilo que não é assumido por Deus não é salvo", onde a força está naquele breve adendo “por Deus”. A salvação exige que o homem não seja assumido por qualquer intermediário, mas pelo próprio Deus: "Se o Filho é uma criatura - escreve Atanásio – o homem permaneceria mortal, não estando unido a Deus", e ainda: "O homem não seria divinizado, se o Verbo que se tornou carne não fosse da mesma natureza do Pai[7]”.
No entanto, é necessário fazer um esclarecimento importante. A divindade de Cristo não é um "postulado" prático, como é, para Kant, a própria existência de Deus[8]. Não é um postulado, mas a explicação de um dado de fato. Seria um postulado - e, portanto, uma dedução teológica humana – se partisse de uma certa ideia de salvação e dessa se deduzisse a divindade de Cristo como a única capaz de obrar tal salvação; no entanto, é a explicação de um dado se parte, como faz Atanásio, de uma experiência de salvação e mostra-se como ela não poderia existir se Cristo não fosse Deus. Em outras palavras, não é na salvação que se fundamenta a divindade de Cristo, mas é na divindade de Cristo que se fundamenta a salvação.

XIV Catequese do Papa sobre a esperança

Papa Francisco
Audiência Geral
Praça São Pedro
Quarta-feira, 15 de março de 2017

Bom dia, estimados irmãos e irmãs!
Sabemos bem que o grande mandamento que o Senhor Jesus nos deixou é o de amar: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente, e amar o próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22, 37-39), ou seja, somos chamados ao amor, à caridade. E esta é a nossa vocação mais sublime, a nossa vocação por excelência; e a ela está vinculado também o júbilo da esperança cristã. Quem ama tem a alegria da esperança, de chegar a encontrar o grande amor que é o Senhor.
No trecho da Carta aos Romanos que há pouco ouvimos (Rm 12,9-13), o Apóstolo Paulo alerta-nos: existe o risco de que a nossa caridade seja hipócrita, que o nosso amor seja hipócrita. Então, devemos interrogar-nos: quando se verifica esta hipocrisia? E como podemos estar certos de que o nosso amor é sincero, que a nossa caridade é autêntica? Que não fingimos que praticamos a caridade ou que o nosso amor não é uma telenovela: amor sincero, forte...
hipocrisia pode insinuar-se em toda a parte, até no nosso modo de amar. Isto verifica-se quando o nosso amor é interesseiro, impelido por interesses pessoais; e quantos amores interesseiros existem... quando os serviços de caridade nos quais parece que trabalhamos são realizados para nos mostrarmos ou para nos sentirmos satisfeitos: «Mas como sou bom!». Não, isto é hipocrisia! Ou então quando visamos situações que tenham «visibilidade» para mostrar a nossa inteligência ou a nossa capacidade. Por detrás de tudo isto existe uma ideia falsa, enganadora, ou seja, se amamos é porque somos bons; como se a caridade fosse uma criação do homem, um produto do nosso coração. Ao contrário, a caridade é antes de tudo uma graça, um presente; poder amar é uma dádiva de Deus, que devemos pedir. E Ele concede-o de bom grado, se lho pedirmos. A caridade é uma graça: não consiste em fazer transparecer o que nós somos, mas aquilo que o Senhor nos oferece e que nós recebemos livremente; e não se pode expressar no encontro com o próximo, se antes não for gerado pelo encontro com o semblante manso e misericordioso de Jesus.
Paulo convida-nos a reconhecer que somos pecadores e que até o nosso modo de amar é marcado pelo pecado. No entanto, ao mesmo tempo faz-se portador de um anúncio novo, um anúncio de esperança: o Senhor abre-nos um caminho de libertação, uma vereda de salvação. É a possibilidade de vivermos, também nós, o grande mandamento do amor, de nos tornamos instrumentos da caridade de Deus. E isto acontece quando nos deixamos curar e renovar o coração por Cristo ressuscitado. O Senhor ressuscitado que vive no meio de nós, que vive ao nosso lado, é capaz de curar o nosso coração: e fá-lo se lho pedirmos. É Ele quem nos permite, não obstante a nossa pequenez e pobreza, experimentar a compaixão do Pai e celebrar as maravilhas do seu amor. Então, compreende-se que tudo o que podemos ver e fazer pelos irmãos é apenas a resposta àquilo que Deus fez e continua a fazer por nós. Aliás, é o próprio Deus que, fazendo morada no nosso coração e na nossa vida, continua a aproximar-se e a servir todos aqueles que encontramos todos os dias no nosso caminho, a começar pelos últimos e pelos mais necessitados, nos quais Ele é o primeiro que se reconhece.
Então, com estas palavras o Apóstolo Paulo não quer tanto repreender-nos, como ao contrário encorajar-nos e reavivar a nossa esperança. Com efeito, todos nós fazemos a experiência de não viver o mandamento do amor plenamente ou como deveríamos. Mas também isto é uma graça, porque nos leva a compreender que sozinhos não somos capazes de amar de maneira autêntica: temos necessidade de que o Senhor renove continuamente este dom no nosso coração, através da experiência da sua misericórdia infinita. Só assim voltaremos a apreciar as pequenas coisas, as coisas simples, ordinárias; só assim voltaremos a valorizar todas estas pequenas coisas de todos os dias e seremos capazes de amar os outros como Deus os ama, desejando o seu bem, isto é, que sejam santos, amigos de Deus; e ficaremos contentes com a possibilidade de nos tornarmos próximos de quantos são pobres e humildes, como Jesus faz com cada um de nós quando nos afastamos dele, de nos inclinarmos aos pés dos irmãos como Ele, Bom Samaritano, faz com cada um de nós, mediante a sua compaixão e o seu perdão.
Amados irmãos, o que o Apóstolo Paulo nos recordou é o segredo para sermos - uso as suas palavras - o segredo para sermos «alegres na esperança» (Rm 12, 12): alegres na esperança. O júbilo da esperança, pois sabemos que em cada circunstância, até na mais adversa e inclusive através dos nossos próprios fracassos, o amor de Deus não esmorece. Então, com coração visitado e habitado pela sua graça e pela sua fidelidade, vivamos na jubilosa esperança de partilhar com os irmãos, no pouco que podemos, aquilo que recebemos dele todos os dias. Obrigado!


Fonte: Santa Sé

Fotos da Missa do Papa no II Domingo da Quaresma

No último dia 12 de março o Papa Francisco celebrou a Santa Missa do II Domingo da Quaresma na Paróquia de Santa Madalena de Canossa em Roma.

O Santo Padre foi assistido por Mons. Guido Marini.

Procissão de entrada
Incensação do altar

Ritos iniciais
Liturgia da Palavra

Homilia do Papa no II Domingo da Quaresma

Visita Pastoral à Paróquia Romana de Santa Madalena de Canossa
Homilia do Papa Francisco
Domingo, 12 de março de 2017

Neste trecho do Evangelho (cf. Mt 17, 1-9), faz-se referência duas vezes à beleza de Jesus, de Jesus-Deus, de Jesus luminoso, de Jesus cheio de alegria e de vida. Primeiro, na visão: “E foi transfigurado”. Transfigura-se diante deles, dos discípulos: “O seu rosto brilhou como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz». E Jesus transforma-se, transfigura-se. A segunda vez, enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes que não falassem desta visão antes que Ele ressuscitasse da morte, ou seja, na ressurreição Jesus terá - tivera, mas naquele momento ainda não tinha ressuscitado - o mesmo rosto luminoso, brilhante, será assim! Mas o que pretendia dizer? Que entre esta transfiguração, tão bonita, e aquela ressurreição, haverá outro rosto de Jesus: haverá um rosto não tão belo; haverá um rosto feio, desfigurado, torturado, desprezado, ensanguentado pela coroa de espinhos... Todo o corpo de Jesus será precisamente como algo para deitar fora. Duas transfigurações e no meio Jesus Crucificado, a cruz. Devemos olhar muito para a cruz! É Jesus-Deus - “este é o meu Filho”, “este é o meu Filho muito amado!” - Jesus, o Filho de Deus, o próprio Deus, no qual o Pai pôs todo o seu enlevo: ele aniquilou-se para nos salvar! E para usar uma palavra demasiado forte, muito forte, talvez uma das palavras mais fortes do Novo Testamento, uma palavra que Paulo usa: fez-se pecado (cf. 2 Cor 5, 21). O pecado é a coisa mais desagradável; o pecado é a ofensa a Deus, a bofetada a Deus, é dizer não a Deus: “Não me importo de ti, prefiro isto...”. E Jesus fez-se pecado, aniquilou-se, abaixou-se até ali... E a fim de preparar os discípulos para não se escandalizar por o ver assim, na cruz, fez esta transfiguração.
Nós estamos habituados a falar dos pecados: quando nos confessamos - “Cometi este e aquele pecado” - e também na Confissão, quando somos perdoados, sentimos que estamos perdoados porque Ele assumiu este pecado na Paixão: Ele fez-se pecado. Nós estamos habituados a falar dos pecados dos outros. Não é bom fazê-lo... Em vez de falar dos pecados do próximo, não digo que nos façamos nós pecado, porque não podemos, mas olhemos para os nossos pecados e para Ele, que se fez pecado.
Este é o caminho rumo à Páscoa, rumo à Ressurreição: ir em frente com a segurança desta transfiguração; ver este rosto tão luminoso, tão belo que será o mesmo na Ressurreição e o mesmo que encontraremos no Céu, e ver também o outro rosto, que se fez pecado, pagando assim, por todos nós. Jesus fez-se pecado, fez-se maldição de Deus por nós: o Filho bendito, na Paixão tornou-se maldito porque assumiu sobre si os nossos pecados (cf. Gl 3, 10-14). Pensemos nisto. Quanto amor! Quanto amor! E pensemos também na beleza do rosto transfigurado de Jesus que encontraremos no Céu. E que esta contemplação dos dois rostos de Jesus - o transfigurado e o que se fez pecado, feito maldição - nos encoraje a ir em frente pelo caminho da vida, pelo caminho da vida cristã. Nos encoraje a pedir perdão pelos nossos pecados, a não pecar tanto... Nos encoraje sobretudo a ter confiança, porque se Ele se fez pecado foi porque assumiu sobre si os nossos. E Ele está sempre disposto a perdoar-nos. Devemos apenas pedi-lo.


Fonte: Santa Sé

sábado, 25 de março de 2017

Angelus do Papa: II Domingo da Quaresma

Papa Francisco
Angelus
Praça São Pedro
II Domingo de Quaresma, 12 de março de 2017

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste segundo domingo de Quaresma apresenta-nos a narração da Transfiguração de Jesus (cf. Mt 17, 1-9). Tomou consigo em particular três apóstolos, Pedro, Tiago e João, subiu com eles a um alto monte, e lá deu-se este singular fenómeno: o rosto de Jesus «brilhou como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (v. 2). Deste modo o Senhor fez resplandecer na sua própria pessoa aquela glória divina que se podia obter com a fé na sua pregação e nos seus gestos milagrosos. E a transfiguração, no monte, é acompanhada pela aparição de Moisés e Elias, «que conversavam com Ele» (v. 3).
A «luminosidade» que caracteriza este evento extraordinário simboliza a sua finalidade: iluminar as mentes e os corações dos discípulos para que possam compreender claramente quem é o seu Mestre. É um raio de luz que se abre de repente sobre o mistério de Jesus e ilumina toda a sua pessoa e toda a sua vicissitude.
Agora decididamente encaminhado para Jerusalém, onde deverá sofrer a condenação à morte por crucificação, Jesus quer preparar os seus para este escândalo - o escândalo da cruz - para este escândalo demasiado forte para a sua fé e, ao mesmo tempo, prenunciar a sua ressurreição, manifestando-se como o Messias, o Filho de Deus. Com efeito, Jesus estava a demonstrar-se um Messias diverso em relação às expetativas, àquilo que eles imaginavam acerca do Messias, como era o Messias: não um rei poderoso e glorioso, mas um servo humilde e desarmado; não um senhor de grandes riquezas, sinal de bênção, mas um homem pobre, que não tem onde reclinar a cabeça; não um patriarca com descendência numerosa, mas um solteiro sem casa nem refúgio. É deveras uma revelação invertida de Deus, e o sinal mais desconcertante desta escandalosa inversão é a cruz. Mas precisamente através da cruz Jesus chegará à ressurreição gloriosa, que será definitiva, não como esta transfiguração que durou um momento, um instante.
Jesus transfigurado no monte Tabor quis mostrar aos seus discípulos a sua glória, não para evitar que eles passassem através da cruz, mas para indicar onde carregar a cruz. Quem morre com Cristo, com Cristo ressuscitará. E a cruz é a porta da ressurreição. Quem luta juntamente com Ele, com Ele triunfará. Eis a mensagem de esperança que a cruz de Jesus contém, exortando à fortaleza na nossa existência. A Cruz cristã não é um adorno de casa nem um ornamento pessoal, mas a cruz cristã é uma chamada ao amor com o qual Jesus se sacrificou para salvar a humanidade do mal e do pecado. Neste tempo de Quaresma, contemplemos com devoção a imagem do crucificado, Jesus na cruz: ele é o símbolo da fé cristã, é o emblema de Jesus, morto e ressuscitado por nós. Façamos com que a Cruz ritme as etapas do nosso itinerário quaresmal para compreender cada vez mais a gravidade do pecado e o valor do sacrifício com o qual o Redentor salvou todos nós.
A Virgem Santa soube contemplar a glória de Jesus escondida na sua humildade. Que ela nos ajude a estar com Ele na oração silenciosa, a deixarmo-nos iluminar pela sua presença, para trazer ao coração, através das noites mais escuras, um reflexo da sua glória.


Fonte: Santa Sé

Homilia: II Domingo da Quaresma - Ano A

Santo Efrém
Sermão I sobre a Transfiguração
“A transfiguração, suporte da fé dos discípulos”

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz.
Ele os levou até a montanha para mostrar-lhes a glória de sua divindade, e lhes ensinar que Ele era o Redentor de Israel, tal como já tinha revelado por seus profetas; e também para prevenir todo escândalo à vista dos sofrimentos que livremente iria sofrer por nós em sua natureza humana. Eles, de fato, o conheciam como homem, mas ignoravam que fosse Deus; conheciam-no como filho de Maria, um homem que vivia com eles no mundo, mas sobre a montanha revelou-lhes que era o Filho de Deus, e o próprio Deus.
Eles o tinham visto comer e beber, fatigar-se e descansar, cochilar e dormir, apavorar-se até gotejar de suor, coisas que não pareciam estar em harmonia com sua natureza divina, nem convir à sua humanidade. Por isso os trouxe sobre a montanha, para que o Pai o chamasse seu Filho, e lhes mostrasse que Ele era realmente Filho d’Ele, e que Ele era Deus. Ele os levou sobre a montanha e mostrou-lhes sua realeza antes de sofrer, seu poder antes de morrer, sua glória antes de ser ultrajado, e sua honra antes de sofrer a ignomínia. Assim, quando fora tomado e crucificado pelos judeus, seus Apóstolos compreendessem que não foi por fraqueza, mas por consentimento e de plena vontade para a salvação do mundo.
Ele os levou sobre a montanha e mostrou-lhes, antes de sua Ressurreição, a glória de sua divindade. Deste modo, quando ressuscitasse dentre os mortos na glória de sua divindade, seus discípulos reconheceriam que não recebia esta glória em recompensa de suas aflições, como se precisasse delas, mas porque já lhe pertencia bem antes dos séculos, com o Pai e para o Pai, assim como Ele mesmo lhe disse ao aproximar-se voluntariamente de sua Paixão: Pai, glorifica-me junto de ti, concedendo-me a glória que tive contigo, antes que o mundo fosse criado.
E então, na montanha, Ele mostrou aos seus Apóstolos a glória de sua divindade, oculta e escondida por sua humanidade. Porque eles viram o seu rosto brilhante como um relâmpago, e suas roupas brancas como a luz. Eles viram dois sóis, um no céu, como de costume, e um incomum; um visível no firmamento e iluminando o mundo, e outro, a sua face, visível somente a eles.



Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 59-60.

I pregação de Quaresma do Padre Cantalamessa

Padre Raniero Cantalamessa
I pregação de Quaresma
10 de março de 2017
“O Espírito Santo nos introduz no mistério do Senhorio de Jesus"

1. "Ele me fará testemunho"
Lendo a Oração da Coleta da Primeiro Domingo da Quaresma, me tocou este ano um detalhe. Nela, não se pede a Deus para para dar-nos a força de realizar alguma das obras clássicas deste tempo: jejum, oração, esmola; pede-se somente uma coisa: de fazer-nos "crescer no conhecimento de Cristo". Creio que seja realmente a obra mais bela e mais agradável ao Salvador e é o objetivo com o qual gostaria de contribuir com as meditações quaresmais deste ano.
Prosseguindo a reflexão iniciada na pregação do Advento sobre o Espírito Santo que deve permear toda a vida e anúncio da Igreja ("Teologia do terceiro artigo!"), nestas meditações quaresmais nos propomos subir da terceira para a segunda parte do Creio. Em outras palavras, buscaremos ressaltar como o Espírito Santo "no introduz na verdade plena" sobre Cristo e sobre seu mistério pascal, isto é, sobre o ser e sobre o agir do Salvador.
Do agir de Cristo em sintonia com o tempo litúrgico da Quaresma, procuraremos aprofundar o papel que o Espírito Santo desenvolve na morte e na ressurreição de Cristo e após ele, na nossa morte e na nossa ressurreição.
A segunda parte do Creio, na sua forma completa, diz assim: "Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial Pai: Por Ele todas as coisas foram criadas".
Esta parte central do Creio reflete dois estágios diferentes da fé. A frase "Creio em um só Senhor Jesus Cristo", reflete a primeiríssima fé da Igreja, logo após a Páscoa. O que segue nesta parte do Creio: "Filho Unigênito de Deus..." reflete um estágio posterior, mais evoluído, sucessivo à controvérsia ariana e ao Concílio de Nicéia. Dediquemos a presente meditação à primeira parte - "creio em um só Senhor Jesus Cristo" - e vejamos o que o Novo Testamento nos diz sobre o Espírito Santo como autor do verdadeiro conhecimento de Cristo.
São Paulo afirma que Jesus Cristo foi estabelecido "Filho de Deus com o poder mediante o Espírito de santidade" (Rom 1,4), isto é, por obra do Espírito Santo. Chega a afirmar que "ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo" (1 Cor 12,3), isto é, graças a uma iluminação interior sua. Atribui ao Espírito Santo "a compreensão do mistério de Cristo" que foi dada a ele como a todos os santos apóstolos e profetas (cf. Ef 3, 4-5); diz que aqueles que creem serão capazes de "compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer a caridade (o amor) de Cristo que desafia todo o conhecimento" somente se forem "repletos do Espírito" (Ef 3, 16-19).
No Evangelho de João, Jesus mesmo anuncia esta obra do Paráclito em relação a eles. Ele tomará do que é seu e o anunciará aos discípulos; recordará a eles tudo aquilo que disse; os conduzirá à verdade plena sobre sua relação com o Pai e os fará testemunhas (cf. Jo 16, 7-15). Precisamente isto será, desde então, o critério para reconhecer se se trata do verdadeiro Espírito de Deus e não de outro espírito: se leva a reconhecer Jesus que veio na carne (cf. 1 Jo 4,2-3).
Alguns acreditam que a ênfase atual sobre o Espírito Santo possa colocar na sombra a obra de Cristo, como se esta fosse incompleta ou perfectível. É uma incompreensão total. O Espírito nunca diz "eu", nunca fala em primeira pessoa, não pretende fundar uma obra própria, mas sempre faz referência a Cristo. O Espírito Santo não faz coisas novas, mas faz novas todas as coisas! Não acrescenta nada às coisas "instituídas" por Jesus, mas as vivifica e renova.
A vinda do Espírito Santo em Pentecostes traduz-se em uma repentina iluminação de todas as ações e a pessoa de Cristo. Pedro concluiu o seu discurso de Pentecostes com a solene definição, que hoje se diria "urbi et orbi": "Que toda a casa de Israel saiba, portanto, com a maior certeza de que este Jesus que vós crucificastes, Deus o constituiu Senhor (Kyrios) e Messias" (At 2,36).
A partir daquele dia, a comunidade primitiva começou a repassar a vida de Jesus, a sua morte e a sua ressurreição, de maneira diversa; tudo pareceu claro, como se tivesse sido tirado um véu de seus olhos (cf. 2 Cor 3,16). Mesmo vivendo lado a lado com ele, sem o Espírito não tinham podido penetrar em profundidade em seu mistérios.
Hoje está em andamento uma reaproximação entre teologia ortodoxa e teologia católica sobre este tema da relação entre Cristo e o Espírito. O teólogo Johannes Zizioulas, em um encontro realizado em Bolonha em 1980, por um lado manifestava reservas sobre a eclesiologia do Concílio Vaticano II porque, segundo ele, "o Espírito Santo era introduzido na eclesiologia depois que se tinha construído o edifício da Igreja somente com material cristológico"; por outro, porém, reconhecia que também a teologia ortodoxa tinha necessidade de repensar a relação entre cristologia e pneumatologia, para não construir a eclesiologia somente sobre uma base pneumatológica. Em outras palavras, nós latinos somos estimulados a aprofundar o papel do Espírito Santo na vida interna da Igreja (que foi o que ocorreu após o Concílio), e os irmãos ortodoxos o de Cristo e da presença na Igreja na história.

2. Conhecimento objetivo e conhecimento subjetivo de Cristo
Voltemos, portanto, ao papel do Espírito Santo em relação ao conhecimento de Cristo. Delineiam-se já, no âmbito do Novo Testamento, dois tipos de conhecimento de Cristo, ou dois âmbitos onde o Espírito desenvolve a sua ação. Existe um conhecimento objetivo de Cristo, de seu ser, de seu mistério e de sua pessoa, e existe um conhecimento mais subjetivo, funcional e interior, que tem por objeto o que Jesus "faz por mim", mais do que aquilo que ele "é em si mesmo".
Em Paulo prevalece ainda o interesse pelo conhecimento daquilo que Cristo fez por nós, pela obra de Cristo e em particular o seu mistério pascal; já em João prevalece o interesse por aquilo que Cristo é: o "Logos" eterno que estava junto de Deus e veio na carne, que é "um com o Pai" (Jo 10,30).
Para João, Cristo é sobretudo o Revelador, para Paulo é sobretudo o Salvador. Mas é somente nos fatos sucessivos que estas duas tendências ficarão evidentes. Fazemos uma breve referência a elas, porque isto nos ajudará a compreender qual é o dom que o Espírito Santo faz, neste campo, na Igreja hoje.
Na época patrística, o Espírito Santo aparece sobretudo como garante da tradição apostólica em torno a Jesus, contra as inovações dos gnósticos. À Igreja - afirma Santo Irineu - foi confiado o Dom de Deus que é o Espírito; dele não são partícipes os que se separam da verdade pregada pela Igreja com suas falsas doutrinas. As Igrejas apostólicas - argumenta Tertuliano - não podem ter errado ao pregar a verdade. Pensar o contrário, significaria que "o Espírito Santo, para esta finalidade enviado por Cristo impetrado pelo Pai como mestre da verdade, ele que é o vigário de Cristo e o seu administrador, teria falhado no cumprimento de sua missão”. 
Na época das grandes controvérsias dogmáticas, o Espírito Santo é visto como o custódio da ortodoxia cristológica. Nos concílios, a Igreja tem a firme certeza de ser "inspirada" pelo Espírito ao formular a verdade sobre as duas naturezas de Cristo, a unidade de sua pessoa, a totalidade de sua humanidade. O acento, portanto, é claramente sobre o conhecimento objetivo, dogmático, eclesial de Cristo.
Esta tendência predominou, na teologia, até a Reforma. Com uma diferença, porém. Os dogmas que no momento de serem formulados eram questões vitais, fruto de viva participação, de toda a Igreja, uma vez sancionados e transmitidos, tendem a perder pungência, a tornarem-se formais. "Duas naturezas, uma pessoa", torna-se uma fórmula bela e acabada, mais do que o ponto de chegada de um longo e sofrido processo. Certamente não faltaram, em todo este tempo, esplêndidas experiências de um conhecimento de Cristo íntimo, pessoal, repleto de fervorosa devoção a Cristo, como aquelas de São Bernardo e de São Francisco de Assis; mas isso não influenciava muito na teologia. Também hoje disso se fala na história da espiritualidade, não naquela da teologia.
Os reformadores protestantes invertem esta situação e dizem: "Conhecer Cristo significa reconhecer os seus benefícios, não pesquisar as suas naturezas e os modos de encarnação". O Cristo "para mim" aparece em primeiro plano. Ao conhecimento objetivo, dogmático, se opõe um conhecimento subjetivo, íntimo; ao testemunho externo da Igreja e das próprias Escrituras sobre Jesus, se antepõe o "testemunho interno" que o Espírito Santo dá a Jesus no coração de cada cristão.
Quando, mais tarde, esta novidade teológica tenderá, ela mesma, no protestantismo oficial, a transformar-se em "morta ortodoxia", surgirão periodicamente movimentos, como o Pietismo no âmbito luterano e o Metodismo no anglicano, para trazê-la novamente à vida. O ápice do conhecimento de Cristo coincide, nestes âmbitos, com o momento em que, movido pelo Espírito Santo, o cristão toma conhecimento de que Jesus morreu "por ele", precisamente por ele, e o reconhece como seu Salvador pessoal:
"Pela primeira vez de todo o coração eu acreditei;
acreditei de fé divina,
e no Espírito Santo encontrei a força
de chamar meu o Salvador.
Senti o sangue da expiação de meu Senhor
diretamente derramado em minha alma".
Completemos este rápido olhar para a história, acenando a uma terceira fase na maneira de perceber a relação entre o Espírito Santo e o conhecimento de Cristo, aquela que caracterizou os séculos do Iluminismo, do qual nós somos herdeiros diretos. Volta a predominar um conhecimento objetivo, separado; não mais, porém, do tipo ontológico, como na época antiga, mas histórico.
Em outras palavras, não interessa saber quem é Jesus Cristo (a pré-existência, as naturezas, a pessoa), mas quem ele foi na realidade da história. É a época da busca do assim chamado "Jesus histórico"!
Nesta fase, o Espírito Santo não desempenha mais nenhum papel no conhecimento de Cristo; está totalmente ausente. O "testemunho interno" do Espírito Santo passa a ser identificado com a razão e com o espírito humano. O "testemunho externo" é o único importante, mas com ele não se entende mais o testemunho apostólico da Igreja, mas unicamente aquele da história, comprovado com os diversos métodos críticos. O pressuposto comum deste esforço era de que para encontrar o verdadeiro Jesus, é necessário buscar fora da Igreja, separá-lo "das vendas do dogma eclesiástico".
Sabemos qual foi o êxito de toda esta busca do Jesus histórico: o fracasso, o que não significa que não tenha trazido muitos frutos positivos. Persiste ainda, a este respeito, um equívoco de fundo. Jesus Cristo - e depois dele outros homens, como São Francisco de Assis - simplesmente não vive na história, mas criou uma história, e vive agora na história que criou, como um som na onde que provocou. O esforço obstinado dos historiadores racionalistas parece aquele de separá-lo da história que criou, para restituí-lo àquela comum e universal, como se assim fosse possível perceber melhor o som na sua originalidade, separando-o da onda que o transporta. A história que Jesus iniciou, ou a onda que emitiu, é a fé da Igreja animada pelo Espírito Santo e é somente por meio dela que se remete à sua fonte.
Não está excluída com isto a legitimidade também da normal busca histórica sobre ele, mas esta deveria ser mais consciente de seu limite e reconhecer que não exaure tudo o que se pode saber de Cristo. Como o ato mais nobre da razão é reconhecer que existe algo que a supera, assim o ato mais honesto do historiador é reconhecer que existe algo que não se pode alcançar somente com a história.