quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Homilia na Solenidade da Dedicação da Catedral de Lisboa

No último dia 25 de outubro o Patriarca de Lisboa, Cardeal Manuel Clemente, celebrou a Santa Missa na Catedral Patriarcal de Santa Maria em Lisboa, por ocasião da Solenidade do aniversário da sua Dedicação. Publicamos aqui sua homilia:

Homilia na Solenidade da Dedicação da Sé
Longe ou perto, o necessário é mostrar Cristo presente!

«Arrasai este templo, e eu o levantarei em três dias. […] Jesus falava do templo do seu corpo». Assim acabamos de ouvir no Evangelho. Assim o havemos de entender cada vez mais e melhor, como agora celebrando a Dedicação da nossa Sé de Lisboa.
Jesus referia-se primeiro ao templo de Jerusalém. Referia-se depois à sua ressurreição, ao terceiro dia. Para relermos este trecho, entendamos que se refere também a nós, como aqui estamos hoje.
O templo de Jerusalém, na reconstrução de Herodes, era efetivamente espantoso. Sucedia a outros anteriores, começando pelo de Salomão e ao que se fizera depois do exílio de Babilônia. Templos levantados e templos destruídos, como voltaria a acontecer. Resta o muro ocidental, impropriamente chamado “das lamentações”, a que continuam a acorrer muitos judeus atuais. 
É uma memória viva e – mesmo para nós – relevante. São muitas as páginas bíblicas que nos falam do templo de Jerusalém, como sinal da presença de Deus no meio do seu povo, como apelo ao povo para se centrar no seu Deus. Os salmos de peregrinação adivinhavam no templo antigo a promessa do “Deus conosco”, ontem como hoje, realização dum pleno encontro existencial de que não queremos desistir.
“Deus conosco”, Emanuel, que Jesus foi e indicava em si próprio. Assim o reconhecemos nós, os cristãos, daí tirando a necessária consequência. Podemos traduzi-la assim: Templo significa lugar de encontro, com Deus e com os outros. Um lugar de encontro cultual, apelando a um encontro total. Em plena recepção da Constituição Sinodal de Lisboa, fixamo-nos este ano no seu número 47, assim formulado: “Viver a Liturgia como lugar de encontro com Deus e também da comunidade cristã enquanto Povo de Deus que celebra”.
Sabemos por experiência própria que os encontros plenos são os que se realizam pessoa a pessoa, quando somos realmente pessoas para os outros e quando alguém o é para nós. Já no Antigo Testamento os profetas lembravam que o templo não valeria por si, se não fosse lugar de encontro com o Senhor do Templo. Se não fosse lugar de conversão verdadeira à sua Lei, com tudo o que tal implicava de religião solidária. Porque assim não foi, também o templo ruiu, uma e outra vez. Como voltaria a ruir, pouco tempo depois das advertências não atendidas de Jesus.

Lições de ontem, lições de hoje. Esta mesma sé, erguida de raiz nos primeiros tempos portugueses, sucedeu-se a outras, entretanto desaparecidas, de romanos, visigodos e moçárabes. Mas o que assinala, tão vivamente assinala, é uma comunidade persistente que em todas essas épocas viveu e transmitiu o Evangelho vivo, que sempre sobra e nos reconstrói agora. 
Aqui entrou, ainda no século XII, um menino que se chamou depois Santo António e bem podemos tomar como emblema do que a Igreja de Lisboa foi e há de ser no seu melhor, como terra onde se nasce e vive, como terra de muitas partidas, ingressos e regressos, sempre mais além. 
Chamaram-lhe justamente “o santo de todo o mundo”, como de Lisboa se navegou depois para o mundo inteiro – e como o mundo inteiro parece chegar agora a Lisboa. De Lisboa a Coimbra e depois, já franciscano, a Marrocos, à Sicília, à Itália, à França e outra vez Itália, António conclamou incansavelmente a conversão evangélica a Deus e ao próximo – ao próximo em quem Deus nos espera. 
Séculos depois, perto daqui também, nasceram António Vieira e São João de Brito, que no Brasil ou na Índia lhe repetiam o clamor. Aqui entrariam eles e tantos mais, cujas orações ecoam nas que elevamos hoje. Aqui se ouviu o Evangelho e se celebraram os ritos que sacramentalmente o atualizam para existencialmente o reproduzirem nas nossas próprias vidas. É esta persistência que nos garante o templo, porque só a caridade nunca acabará. Dito doutro modo, que tudo nos transforme em Cristo, de palavra, sentimento e ação, pois é Ele o novo templo levantado, no terceiro dia da Páscoa em que revivemos. Tudo o que é material é indispensável para vivermos e convivermos, ainda que efémero. O espirito que o faz é imortal, se participa no Espírito de Cristo. 
Falando do seu corpo como templo novo, Jesus falava de si mesmo, como vida entregue e assim mesmo alargada em quem o receber. Na arquitetura românica desta sé, isto mesmo se mostra, por ser como um corpo. O trecho longitudinal, do pórtico à cabeceira, alarga-se no transepto em dois braços abertos. No cruzamento está felizmente o altar, como coração de tudo o mais. 
Reparando bem, nós que aqui estamos incorporamo-nos no corpo arquitetônico deste templo inteiro. Feliz arquitetura onde a Liturgia se desenvolve e nos desenvolve a nós. A Palavra escutada vai-nos germinando, como semente em boa terra. O gesto sacramental de Cristo reparte-O como pão vivo que nos faz viver. Quase afirmaríamos que mais nos comunga Ele a nós do que nós a Ele, pois nos incorpora a si. Como São Paulo sentia e perguntava, com toda a exigência teológica e moral que isso mesmo implica: «- Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?» (1Cor 6,15).

Irmãos caríssimos: Celebrar a Dedicação da Nossa Sé é reconhecer e dar graças por tudo quanto ela significa e induz, para nós que aqui vimos e para os outros que nos aguardam. Transporta-nos para Deus que nos espera em todos, especialmente nos que mais precisam de ser tocados pela caridade de Cristo, que se alonga em nós. 
Mais do que há oito séculos – mas como já prometia – Lisboa é terra de muitas gentes e a Diocese também cresce assim. Na cidade, entre residentes e de passagem, cruza-se uma centena de proveniências, de várias etnias, línguas e culturas. Da catedral às casas de cada um, aos mais diversos âmbitos da sociocultura, há de crescer um corpo, precisamente o de Cristo, cuja vida ressuscitada se quer alargar nos cristãos que a transportam. Vida aqui celebrada e ali repartida, onde for preciso acolher quem chega, cuidar de quem está, elevar o espírito e sustentar a esperança.
Templos, materialmente falando, são como formas do que neles se cria e subsistirá além deles. Naquele dia em Jerusalém, estava Cristo no templo. Não demorou muito até desaparecer o templo. Persistiu Cristo, que em si mesmo realizava tudo quanto o templo antigo quis significar como lugar de Deus entre o seu povo, anúncio do que seria para os povos todos. Persistiu Cristo, cujo anúncio aqui chegou, há tantos séculos já. Para se assinalar também nesta sé erguida. 
Retenhamos a lição: A Dedicação da Sé dedica-nos a nós, refeitos em Cristo para sermos Cristo na cidade. É também por isso que, com Santo António e São João de Brito, tudo aqui nos fala de missão. Como cantamos no nosso Sínodo Diocesano: «É o sonho missionário / de chegar a toda a gente. / Longe ou perto, o necessário / É mostrar Cristo presente!» Presente em toda a parte e simbolizado aqui - nesta bela catedral que nos incorpora nele e nele nos expande. 
Sé de Lisboa, 25 de outubro de 2018.

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Rosácea da Catedral representando Cristo e os Apóstolos

Fonte: Patriarcado de Lisboa

Peregrinação dos Padres Sinodais ao Túmulo de Pedro

No contexto do Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, os Padres Sinodais e os jovens auditores realizaram no último dia 25 de outubro uma peregrinação até o Túmulo de São Pedro, percorrendo cerca de 6 Km de uma antiga estrada de peregrinos em direção a Roma.

Chegando na Basílica Vaticana, os Bispos e os jovens participaram da Santa Missa no Altar da Cátedra, presidida pelo Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário Geral do Sínodo. O Papa Francisco também esteve presente, assistindo à Missa.

Chegada dos peregrinos ao Túmulo de São Pedro

Palavras do Papa Francisco

Santa Missa: Incensação do altar

XII Catequese do Papa sobre os Mandamentos: Não cometer adultério I

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 24 de outubro de 2018
Os Mandamentos (12): Não cometer adultério I

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
No nosso itinerário de catequeses sobre os Mandamentos, hoje chegamos à sexta Palavra, que se refere à dimensão afetiva e sexual, e recita: «Não cometerás adultério».
A exortação imediata é à fidelidade e, com efeito, nenhum relacionamento humano é autêntico sem fidelidade e lealdade.
Não se pode amar só enquanto for “conveniente”; o amor manifesta-se precisamente além do limite da própria vantagem, quando se doa tudo incondicionalmente. Como afirma o Catecismo: «O amor quer ser definitivo. Não pode ser “até nova ordem”» (n. 1.646). A fidelidade é a caraterística da relação humana livre, madura, responsável. Até um amigo se demonstra autêntico, porque permanece tal em qualquer eventualidade, caso contrário não é um amigo. Cristo revela o amor autêntico, Ele que vive do amor ilimitado do Pai, e em virtude disto é o Amigo fiel que nos acolhe mesmo quando erramos e quer sempre o nosso bem, até quando não o merecemos.
O ser humano tem necessidade de ser amado sem condições, e quem não recebe este acolhimento tem em si uma certa incompletude, muitas vezes sem o saber. O coração humano procura preencher este vazio com sucedâneos, aceitando compromissos e mediocridades que só têm um gosto vago do amor. O risco consiste em chamar “amor” a relações acerbas e imaturas, com a ilusão de encontrar luz de vida em algo que, no melhor dos casos, é apenas um seu reflexo.
Assim acontece, por exemplo, que sobrestimamos a atração física, a qual em si é uma dádiva de Deus, mas finalizada a preparar o caminho para uma relação autêntica e fiel com a pessoa. Como dizia São João Paulo II, o ser humano «é chamado à plena e madura espontaneidade dos relacionamentos», que «é o fruto gradual do discernimento dos impulsos do próprio coração». É algo que se conquista, uma vez que cada ser humano, «com perseverança e coerência, deve aprender qual é o significado do corpo» (cf. Catequese, 12 de novembro de 1980).
Portanto, a chamada à vida conjugal exige um discernimento atento sobre a qualidade da relação e um período de noivado para a averiguar. A fim de aceder ao Sacramento do Matrimónio, os noivos devem amadurecer a certeza de que no seu vínculo está a mão de Deus, que os precede e acompanha, permitindo-lhes dizer: «Com a graça de Cristo, prometo ser-te sempre fiel». Não podem prometer-se fidelidade «na alegria e na dor, na saúde e na doença», nem amar-se e honrar-se todos os dias da sua vida, unicamente com base na boa vontade ou na esperança de que “isto funcione”. Precisam de se fundamentar no terreno firme do Amor fiel de Deus. E per isso, antes de receber o Sacramento do Matrimónio, é necessária uma preparação atenta, diria um catecumenato, porque a vida inteira depende do amor, e com o amor não se brinca. Não se pode definir “preparação para o casamento” três ou quatro encontros realizados na paróquia; não, isto não é preparação: é falsa preparação. E a responsabilidade de quem faz isto cai sobre ele: sobre o pároco, sobre o bispo que permite tais situações. A preparação deve ser madura e leva tempo. Não é um ato formal: é um Sacramento. Mas deve-se preparar com um verdadeiro catecumenato.
Com efeito, a fidelidade é um modo de ser, um estilo de vida. Trabalha-se com lealdade, fala-se com sinceridade, permanecendo fiel à verdade nos próprios pensamentos, nas próprias ações. Uma vida tecida de fidelidade exprime-se em todas as dimensões e leva a ser homens e mulheres fiéis e confiáveis em todas as circunstâncias.
Mas para chegar a uma vida tão bonita não é suficiente a nossa natureza humana, é preciso que a fidelidade de Deus entre na nossa existência, nos contagie. Esta sexta Palavra chama-nos a dirigir o olhar para Cristo que, com a sua fidelidade, pode tirar de nós um coração adúltero e doar-nos um coração fiel. N’Ele, e somente n’Ele, existe o amor sem reservas nem arrependimentos, a doação completa, sem parênteses, e a tenacidade do acolhimento total.
A nossa fidelidade deriva da sua morte e ressurreição, a constância nos relacionamentos deriva do seu amor incondicional. A comunhão entre nós e o saber viver na fidelidade os nossos vínculos derivam da comunhão com Ele, com o Pai e com o Espírito Santo.


Fonte: Santa Sé

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Festa de São João Paulo II em Cracóvia

No último dia 22 de outubro o Arcebispo de Cracóvia, Dom Marek Jędraszewski, celebrou a Santa Missa no Santuário de São João Paulo II por ocasião da Memória deste santo (celebrada com grau de solenidade em seu Santuário).

A celebração encerrou as comemorações dos 40 anos da eleição do Papa polonês, ocorrida em 16 de outubro de 1978. No dia 22 de outubro recorda-se a Missa de início do seu pontificado.

Procissão de entrada
Relíquia de São João Paulo II

Incensação
Ritos iniciais

Solenidade da Dedicação do Duomo de Milão

No último dia 21 de outubro o Arcebispo de Milão, Dom Mario Enrico Delpini, celebrou a Santa Missa na Solenidade do Aniversário da Dedicação do Duomo de Milão (Catedral de Santa Maria Nascente), celebrada sempre no terceiro domingo de outubro.

A Missa foi celebrada em ação de graças pela canonização do Papa Paulo VI, que foi Arcebispo de Milão de 1954 a 1963.

Imagem do Papa Paulo VI como Arcebispo de Milão
Oração do dia
Homilia

Incensação das relíquias de São Paulo VI

Ângelus: XXIX Domingo do Tempo Comum - Ano B

Papa Francisco
Ângelus
Domingo, 21 de outubro de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A página evangélica hodierna (Mc 10,35-45) descreve Jesus que, mais uma vez e com grande paciência, procura corrigir os seus discípulos convertendo-os da mentalidade do mundo para aquela de Deus. A ocasião é-lhe proporcionada pelos irmãos Tiago e João, dois dos primeiros com os quais Jesus se encontrou, chamando-os a segui-lo. Já tinham percorrido muita estrada com Ele e pertenciam precisamente ao grupo dos doze Apóstolos. Portanto, enquanto estavam a caminho rumo a Jerusalém, onde os discípulos esperavam com ansiedade que Jesus, por ocasião da festa de Páscoa, instaurasse finalmente o Reino de Deus, os dois irmãos ganham confiança, aproximam-se e dirigem ao Mestre o seu pedido: «Concede-nos que nos sentemos na tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda» (v. 37).

Jesus sabe que Tiago e João estão animados pelo grande entusiasmo por Ele e pela causa do Reino, mas sabe também que as suas expectativas e o seu zelo são contaminados, pelo espírito do mundo. Portanto retorquiu: «Não sabeis o que pedis» (v. 38). E enquanto eles falavam sobre os “tronos de glória” no qual se sentar ao lado do Cristo Rei, Ele fala de um «cálice» que deve ser bebido, de um «batismo» que deve ser recebido, ou seja, da sua paixão e morte. Tiago e João, tendo sempre como objetivo o privilégio almejado, dizem de ímpeto: sim, «podemos»! Mas, também neste caso, não se dão realmente conta daquilo que afirmam. Jesus prenuncia que o seu cálice o beberão e o seu batismo o receberão, ou seja, que também eles, como os outros Apóstolos, participarão na sua cruz, quando chegar a sua vez. Contudo - concluiu Jesus - «quanto ao assentardes à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim: o lugar compete àqueles a quem está destinado» (v. 40). Como se quisesse dizer: agora, segui-me e aprendei o caminho do amor “em perda”, e o Pai celeste pensará no prémio. O caminho do amor está sempre «em perda», pois amar significa pôr de lado o egoísmo, a autorreferencialidade, para servir os outros.

Jesus dá-se conta também que os outros dez Apóstolos se irritam com Tiago e João, demonstrando deste modo que têm a mesma mentalidade mundana. E isto oferece-lhe a inspiração para lhes dar uma lição que é válida para os cristãos de todos os tempos, inclusive para nós. É o seguinte: «Sabeis que os que são considerados chefes das nações dominam sobre elas e os seus intendentes exercem poder sobre elas. Entre vós, porém, não será assim: todo o que quiser tornar-se grande entre vós, seja o vosso servo; e todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja escravo de todos (vv. 42-44). É a regra do cristão. A mensagem do Mestre é clara: enquanto os grandes da terra constroem “tronos” para o próprio poder, Deus escolhe um trono incômodo, a cruz, do qual reina dando vida: «Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos» (v. 45).

O caminho do serviço é o antídoto mais eficaz contra a doença da busca dos primeiros lugares; é o remédio para os carreiristas, esta busca dos primeiros lugares, que contagia muitos contextos humanos e não poupa os cristãos, o povo de Deus, nem sequer a hierarquia eclesiástica. Portanto, como discípulos de Cristo, acolhemos este Evangelho como apelo à conversão, para testemunhar com coragem e generosidade uma Igreja que se inclina aos pés dos últimos, para os servir com amor e simplicidade. A Virgem Maria, que aderiu plena e humildemente à vontade de Deus, nos ajude a seguir com alegria Jesus no caminho do serviço, a via mestra que leva ao Céu.


Fonte: Santa Sé.

domingo, 28 de outubro de 2018

Homilia: XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B

São Gregório Magno
Homilia 2 sobre os Evangelhos
Este cego é todo o gênero humano

Nosso Redentor, conhecendo que os corações de seus discípulos haviam de ser gravemente perturbados em sua sagrada Paixão, muito antes que essa acontecesse, deu-lhes notícia sobre ela e da ressurreição: para que ao verem-lhe morrer, como ele tinha dito, estivessem certos de que haveria de ressuscitar. Porém, sabendo o Senhor que os discípulos enquanto carnais não podiam compreender as palavras deste mistério, quis realizar em sua presença um milagre, e então deu visão para um cego, para levá-los à firmeza da fé com obras extraordinárias, já que não conseguiam compreender bem as palavras. Mas os milagres de nosso Redentor devem se ouvir de modo que creiais que aconteceram assim como são referidos, e juntamente com isso haveis de crer que possuem em seu interior outro simbolismo. Suas obras são tão cheias de surpresas, que por uma parte mostram exteriormente seu maravilhoso poder, e por outra encerram interiormente um mistério divino.

Não sabemos, na verdade, quem era este cego, porém sabemos no mistério a quem representa. É evidente que este cego é todo o gênero humano: o qual em nosso primeiro pai foi lançado das alegrias do paraíso, e sendo ignorante e privado da claridade da luz soberana, padece as trevas às quais foi condenado; porém, é iluminado com a presença do Salvador, para que ao menos dentro da alma sinta luz para desejar o bem, e com este desejo comece a caminhar pelo caminho das boas obras para alcançar-lhe.

Mas haveis de notar que o cego é iluminado quando Jesus Cristo nosso Salvador chega a Jericó: Jericó em nossa língua quer dizer “lua”! A lua na Sagrada Escritura denota a deficiência da natureza humana, porque, alternando-se e diminuindo-se de hora em hora, assinala os defeitos e mudanças que em nós se encontram. Chegando, pois, nosso Senhor a Jericó, o cego recupera a vista, porque é manifesto que, quando Deus uniu consigo a fraqueza de nossa humanidade, a linhagem humana recobrou a vista que tinha perdido: porque abaixando-se Deus a sofrer coisas de homem, foi elevado o homem a degustar coisas de Deus.

E vem muito a propósito dizer que este cego estava sentado à beira do caminho e mendigando, porque a própria Verdade, Cristo nosso Senhor, falando de si diz: Eu sou o caminho. É claro que é cego aquele que não sente em si a claridade da luz soberana; mas quando já tem o princípio, que é crer em seu Redentor, podemos dizer que está sentado junto do caminho. E se havendo crido, silencia e não pede misericórdia para ver a luz eterna, e cessa de pedir esta graça, diremos que o cego está junto ao caminho, mas que não pede esmola; mas se junto com o ato de crer pede a graça de Deus, diremos que o cego está junto ao caminho, e que está pedindo.

Olhem, portanto, meus irmãos! Quem quer que conheça as trevas de sua cegueira, quem quer que entenda que lhe falta a luz soberana, arranque o clamor do coração, e com verdadeiro grito da alma diga: Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim. Mas, vejamos, que acontece a este cego que grita tantas vezes? Muitos o repreendiam para que se calasse. Quem pensais que são estes que, vindo nosso Redentor, vão à frente gritando? Sabeis que são os desejos carnais, e os esquadrões dos vícios, para impedir que Deus nos ouça e que o chamemos com atenção, dissipam nossos bons pensamentos, desordenam com suas tentações qualquer boa deliberação que nossa alma faz, e quando o coração quer estar mais atento na oração, ali o procuram para lhe perturbar.

Este é o artifício de nosso inimigo, que, quando queremos deixar os pecados e voltar a Deus - e para isto nos coloquemos em oração pedindo que sua majestade nos ajude -, então se declaram por sua artimanha ao nosso coração as visões assustadoras dos pecados que temos cometido, e querem ofuscar a nossa alma, confundir o nosso coração, e tirar-nos a fala. Diz, portanto, que aqueles que iam à frente o repreendiam, dizendo que se calasse: porque, para impedir que Deus venha à nossa alma, os pecados passados interrompem os pensamentos, procurando perturbar nossa oração. Porém, saibamos o que fez o cego contra tudo isso para ser iluminado: mas ele gritava mais ainda: Filho de Davi, tem piedade de mim.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 493-494. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

Para ler uma homilia de Santo Agostinho para este domingo, clique aqui.

sábado, 27 de outubro de 2018

Missa nos 40 anos da eleição de João Paulo II: Wadowice

No último dia 17 de outubro o Arcebispo de Cracóvia, Dom Marek Jędraszewski, celebrou a Santa Missa na nova igreja paroquial de São Pedro em Wadowice, cidade natal de São João Paulo II, por ocasião dos 40 anos da sua eleição como Bispo de Roma.

As celebrações iniciaram-se na antiga igreja paroquial, a Basílica da Apresentação de Nossa Senhora, onde João Paulo II foi batizado. Após venerar a pia batismal, o Arcebispo participou de uma procissão até a nova igreja paroquial, presidida pelo Cardeal Angelo Bagnasco, Arcebispo de Gênova (Itália) e Presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa.

Arcebispo Marek e Cardeal Bagnasco rezam na Basílica da Apresentação
Veneração da pia batismal
Procissão
Jovens carregam a relíquia de São João Paulo II


XI Catequese do Papa sobre os Mandamentos: Não matarás II

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Os Mandamentos (11): Não matarás II

Bom dia, queridos irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de prosseguir a catequese sobre a quinta Palavra do Decálogo, «Não matarás». Como já salientamos, este mandamento revela que aos olhos de Deus a vida humana é preciosa, sagrada e inviolável. Ninguém pode desprezar a vida do próximo, nem sequer a própria; com efeito o homem traz em si a imagem de Deus e é objeto do seu amor infinito, independentemente da condição em que foi chamado à existência.
No trecho do Evangelho que há pouco ouvimos, Jesus revela-nos um sentido ainda mais profundo deste mandamento. Ele afirma que, diante do tribunal de Deus, até a ira contra o irmão é uma forma de homicídio. Por isso, o Apóstolo João escreverá: «Quem odeia o seu irmão é assassino» (1Jo 3,15). Mas Jesus não se limita a isto, e na mesma lógica acrescenta que até o insulto e o desprezo podem matar. E é verdade que nós estamos habituados a insultar. Em nós o insulto nasce espontâneo como se fosse um respiro. Mas Jesus diz-nos: “Detém-te, porque o insulto faz mal, mata!”. O desprezo. «Mas eu... desprezo esta gente”. E esta é uma forma de matar a dignidade de uma pessoa. Como seria bom se este ensinamento de Jesus entrasse na mente e no coração, e cada um de nós dissesse: “Nunca insultarei ninguém”. Seria um bom propósito, porque Jesus nos diz: “Olha, se tu desprezares, insultares, odiares, isto é um homicídio”.
Nenhum código humano equipara gestos tão diferentes, atribuindo-lhes o mesmo grau de juízo. E, coerentemente, Jesus convida até a interromper a oferenda do sacrifício no templo, se nos recordarmos que um irmão está ofendido connosco, a ir à sua procura para nos reconciliarmos com ele. Também nós, quando vamos à Missa, deveríamos ter esta atitude de reconciliação com as pessoas com as quais tivemos problemas. Só pensar mal delas, já é um insulto. Muitas vezes, enquanto esperamos que o sacerdote chegue para celebrar a Missa, bisbilhotamos um pouco e falamos mal do próximo. Mas não se pode fazer isto! Pensemos na gravidade do insulto, do desprezo, do ódio: Jesus coloca-os no nível do assassínio.
O que tenciona dizer Jesus, ampliando a tal ponto o âmbito da quinta Palavra? O homem tem uma vida nobre, muito sensível, e possui um eu recôndito não menos importante que o seu ser físico. Com efeito, para ofender a inocência de uma criança é suficiente uma frase inoportuna. Para ferir uma mulher, pode bastar um gesto de insensibilidade. Para partir o coração de um jovem, é suficiente negar-lhe a confiança. Para aniquilar um homem basta ignorá-lo. A indiferença mata. É como se disséssemos a outrem: “Para mim estás morto”, porque tu o mataste no teu coração. Não amar é o primeiro passo para matar; e não matar é o primeiro passo para amar.
No início da Bíblia lê-se aquela frase terrível que saiu dos lábios do primeiro homicida, Caim, depois de o Senhor lhe ter perguntado onde está o seu irmão. Caim respondeu: «Não sei! Sou porventura eu o guarda do meu irmão?» (Gn 4,9) [1]. Assim falam os assassinos: “Não me diz respeito”, “são problemas teus”, e outras frases semelhantes. Procuremos responder a esta pergunta: somos nós os guardas dos nossos irmãos? Sim, somos! Somos guardas uns dos outros! E este é o caminho da vida, é a vereda do não-assassínio.
A vida humana precisa de amor. E qual é o amor autêntico? É aquele que Cristo nos mostrou, ou seja, a misericórdia. O amor ao qual não podemos renunciar é aquele que perdoa, que acolhe quem nos fez mal. Nenhum de nós pode sobreviver sem misericórdia; todos temos necessidade do perdão. Portanto, se matar significa destruir, suprimir, eliminar alguém, então não matar quer dizer cuidar, valorizar, incluir. E também perdoar.
Ninguém se pode iludir, pensando: “Estou tranquilo, pois não faço nada de mal”. Um mineral ou uma planta têm este tipo de existência, mas um homem não. Uma pessoa - um homem ou uma mulher - não! Exige-se mais de um homem ou de uma mulher. Há o bem a fazer, preparado para cada um de nós, cada qual o seu, que nos torna nós mesmos até ao fundo. “Não matarás” é um apelo ao amor e à misericórdia, é uma chamada a viver segundo o Senhor Jesus, que deu a vida por nós, e por nós ressuscitou. Certa vez repetimos todos juntos, aqui na Praça, uma frase dum Santo sobre isto. Talvez nos ajude: “Não praticar o mal é algo bom. Mas não praticar o bem não é bom”. Devemos praticar sempre o bem. Ir além!
Ele, o Senhor que, encarnando-se, santificou a nossa existência; Ele que, com o seu sangue, a tornou inestimável; Ele, «o Autor da vida» (At 3,15), graças ao qual cada pessoa é um dom do Pai. N’Ele, no seu amor mais forte do que a morte, e pelo poder do Espírito que o Pai nos confere, podemos acolher a Palavra «Não matarás» como o apelo mais importante e essencial: ou seja, não matarás significa um apelo ao amor.

[1] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2.259: «A Sagrada Escritura, na narrativa da morte de Abel por parte do seu irmão Caim, revela, desde os primórdios da história humana, a presença no homem da cólera e da inveja, consequências do pecado original. O homem tornou-se inimigo do seu semelhante. Deus denuncia a perversidade deste fratricídio: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra por mim. No futuro, serás maldito sobre a terra, que abriu a sua boca para beber, da tua mão, o sangue do teu irmão” (Gn 4,10-11)».


Fonte: Santa Sé

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Catequese do Papa João Paulo II sobre a Prudência

Depois das catequeses do Papa João Paulo I, publicaremos as primeiras Catequeses de São João Paulo II, na comemoração dos 40 anos de sua eleição. Hoje recordamos sua primeira Catequese, na qual refletiu sobre a virtude da prudência:

João Paulo II
Audiência Geral
Quarta-feira, 25 de Outubro de 1978
A virtude da prudência

Quando na quarta-feira, 27 de setembro, o Santo Padre João Paulo I falou aos que tomavam parte na audiência geral, ninguém podia imaginar que se tratasse da última vez. A sua morte - depois de 33 dias de pontificado - surpreendeu e encheu o mundo inteiro de luto profundo. Ele que despertou na Igreja tão grande alegria e inspirou nos corações dos homens tanta esperança, em tão breve tempo consumou e levou a termo a sua missão. Na morte que teve, verificaram-se as palavras tão repetidas do Evangelho: Estai preparados, porque o Filho do homem virá na hora em que menos pensardes (Mt 24,44). João Paulo I vigiava sempre. A chamada do Senhor não o surpreendeu. Seguiu-a com a mesma vibrante prontidão com que, a 26 de Agosto, tinha aceitado a eleição para o sólio de São Pedro.
Hoje apresenta-se a vós, pela primeira vez, João Paulo II. À distância de quatro semanas daquela audiência geral, deseja saudar-vos e falar convosco. Deseja continuar os temas já iniciados por João Paulo I. Recordamos que falou das três virtudes teologais - fé, esperança e caridade. Acabou tratando da caridade. Esta virtude - que formou o seu último ensinamento - é na terra a maior, como ensinou São Paulo (1Cor 13,13); é a que atravessa o limiar entre a vida e a morte. Pois, quando termina o tempo da fé e da esperança, continua o Amor. João Paulo I já passou o tempo da fé e da esperança; e também o de a caridade se expressar na terra tão magnificamente, a caridade cuja plenitude só na eternidade se revela.
Hoje devemos falar doutra virtude, porque dos apontamentos do Pontífice falecido conclui que era sua intenção tratar, não só das três virtudes teologais - fé, esperança e caridade -, mas também das quatro virtudes chamadas cardeais. João Paulo I queria falar das "sete lâmpadas" da vida cristã; assim lhes chamava o Papa João XXIII.
Pois bem, hoje eu quero continuar esse esquema, que o Papa desaparecido preparara, e falar brevemente da virtude da prudência. Desta virtude não pouco trataram já os antigos. Devemos-lhes, por isso, reconhecimento profundo e gratidão. Em certo sentido ensinaram-nos que o valor do homem deve medir-se com o metro do bem moral, que ele realiza durante a vida. É isto exatamente o que, em primeiro lugar, assegura a virtude da prudência. O homem prudente, que se aplica a tudo o que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir todas as coisas, todas as situações e todo o seu operar, pelo metro do bem moral. Prudente não é pois aquele que - como muitas vezes se entende - sabe arranjar-se na vida e sabe tirar dela o maior proveito; mas aquele que sabe construir toda a sua existência segundo a voz da reta consciência e segundo as exigências da moral justa.
Assim a prudência constituí a chave para a realização do encargo fundamental que Deus confiou a cada um. Este encargo é a perfeição do próprio homem. Deus entregou a cada um de nós a humanidade que tem. É necessário que nós correspondamos ao encargo recebido programando-o como ele requer.
Mas o cristão tem o direito e o dever de observar a virtude da prudência, também noutra perspectiva. A prudência é como imagem e semelhança da Providência de Deus nas dimensões do homem concreto. Porque o homem sabemo-lo pelo livro do Gênesis - foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o Seu plano na história da criação e sobretudo na história da humanidade. A finalidade deste desígnio é - como ensina São Tomás - o bem último do universo. O mesmo desígnio torna-se na história da humanidade simplesmente o desígnio da salvação, o desígnio que diz respeito a todos nós. No ponto central da sua realização encontra-se Jesus Cristo no Qual se expressou o eterno amor e a solicitude do próprio Deus, Pai, pela salvação do homem. Esta é, ao mesmo tempo, a plena expressão da Divina Providência.
Pois bem, o homem que é a imagem de Deus, deve ser - como de novo ensina São Tomás - de certo modo, a providência. Mas na medida da sua vida. Ele pode participar neste grande caminho de todas as criaturas para o termo, que é o bem do que foi criado. Deve - exprimindo-nos ainda mais na linguagem da fé - participar no divino desígnio da salvação. Deve caminhar para a salvação e ajudar os outros a salvarem-se. Ajudando os outros, salva-se a si mesmo.
Peço a quem me escuta que pense agora, a esta luz, na própria vida. Sou prudente? Vivo em consequência com o que sou, responsavelmente? O programa que realizo serve para o verdadeiro bem? Serve para a salvação que querem de nós Cristo e a Igreja? Se hoje me escuta um estudante ou uma estudante, um filho ou uma filha, olhe a esta luz para as próprias obrigações de escola, as leituras, os interesses, os passatempos e o ambiente dos amigos e das amigas. Se me escuta um pai ou uma mãe de família, pense um pouco nos seus deveres conjugais e de progenitura. Se me escuta um ministro ou homem de Estado, olhe para a extensão dos seus deveres e responsabilidades. Procura ele o bem verdadeiro da sociedade, da nação e da humanidade? Ou só interesses particulares e parciais? Se me escuta um jornalista, um publicista, uni homem que exerce influxo na opinião pública, reflita sobre o valor e sobre o fim desta sua influência.
Também eu que vos falo, eu o Papa, que devo fazer para atuar prudentemente? Vêm-me ao espírito as cartas de Albino Luciani, então Patriarca de Veneza, a São Bernardo. Na sua resposta ao Cardeal Luciani, o Abade de Claraval - Doutor da Igreja - recorda com grande insistência que deve ser "prudente" quem governa. Que há de fazer então o novo Papa a fim de proceder prudentemente? Sem dúvida muito deve fazer neste sentido. Deve sempre aprender e sempre meditar em tais problemas. Mas, além disso, que pode Ele fazer? Deve orar e fazer o possível por ter aquele dom do Espírito Santo que se chama dom do conselho. E todos quantos desejam que o novo Papa seja Pastor prudente da Igreja, peçam para Ele o dom do conselho. E para si mesmos, peçam também este dom, por meio da especial intercessão da Mãe do Bom Conselho. Porque deve desejar-se muito que todos os homens se comportem prudentemente e que procedam com verdadeira prudência aqueles que exercem o poder. Para que a Igreja - prudentemente, fortificando-se com os dons do Espírito Santo e em particular com o dom do conselho - participe com eficácia neste grande itinerário para o bem de todos, e para que a todos mostre o caminho da salvação eterna.


Fonte: Santa Sé

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Missa nos 40 anos da eleição de João Paulo II: Cracóvia

No Santuário de São João Paulo II em Cracóvia o último dia 16 de outubro foi um dia de festa, celebrando os 40 anos da eleição de Karol Józef Wojtyła como Bispo de Roma.

Ao longo de todo o dia aconteceram celebrações no Santuário, destacando-se a Missa presidida pelo Núncio Apostólico na Polônia, Dom Salvatore Pennacchio. A homilia ficou a cargo do Arcebispo Emérito de Cracóvia e Secretário de João Paulo II, Cardeal Stanisław Dziwisz.

Procissão de entrada

Ritos iniciais
Acolhida do Arcebispo, Dom Marek Jędraszewski
Leituras

Missa nos 40 anos da eleição de João Paulo II: Roma

Na manhã do último dia 16 de outubro o Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito Emérito da Congregação para a Educação Católica, presidiu no altar de São Sebastião da Basílica de São Pedro, sob o qual está sepultado o corpo de São João Paulo II, a Santa Missa por ocasião dos 40 anos da eleição do Papa polonês.

Estiveram presentes o Presidente da Polônia, Andrzej Duda, e sua esposa Agata, que no final da celebração depositaram um ramalhete de flores diante do altar como homenagem do povo polonês.

Procissão de entrada

Ritos iniciais
Leituras
Evangelho

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Fotos da Canonização de 7 novos Santos

No último dia 14 de outubro o Papa Francisco presidiu a Santa Missa do XXVIII Domingo do Tempo Comum na Praça de São Pedro, durante a qual canonizou sete novos santos: Paulo VI, Papa; Dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez, Bispo; Francesco Spinelli e Vincenzo Romano, Presbíteros;  Maria Catarina Kasper e Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus, Religiosas; e Nunzio Sulprizio, Leigo.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Diego Giovanni Ravelli. Para ver o livreto da celebração, clique aqui.

Para ler a homilia do Papa, clique aqui.

Imagens dos novos Santos na Basílica de São Pedro
Imagem de São Paulo VI, Papa
Relíquias dos santos junto à imagem de Nossa Senhora
Incensação

Homilia do Papa: Canonização de 7 novos Santos

Santa Missa e Canonização de 7 Beatos
XXVIII Domingo do Tempo Comum (Ano B)
Homilia do Papa Francisco
Praça São Pedro
Domingo, 14 de outubro de 2018

A 2ª Leitura disse-nos que «a palavra de Deus é viva, eficaz e cortante» (Hb 4,12). É mesmo assim: a Palavra de Deus não é apenas um conjunto de verdades ou uma história espiritual edificante. Não! É Palavra viva que toca a vida, que a transforma. Nela, Jesus pessoalmente - Ele que é a Palavra viva de Deus - fala aos nossos corações.

Particularmente o Evangelho convida-nos a ir ao encontro do Senhor, a exemplo daquele «alguém» que «correu para Ele» (Mc 10,17). Podemo-nos identificar com aquele homem, de quem o texto não diz o nome parecendo sugerir-nos que pode representar cada um de nós. Ele pergunta a Jesus como deve fazer para «ter em herança a vida eterna» (v. 17). Pede vida para sempre, vida em plenitude; e qual de nós não a quereria? Mas pede-a - notemos bem - como uma herança a possuir, como um bem a alcançar, a conquistar com as suas forças. De fato, para possuir este bem, observou os mandamentos desde a infância e, para alcançar tal objetivo, está disposto a observar ainda outros; por isso, pergunta: «Que devo fazer para ter…?».

A resposta de Jesus mexe com ele. O Senhor fixa nele o olhar e ama-o (v. 21). Jesus muda-lhe a perspectiva: passar dos preceitos observados para obter recompensas ao amor gratuito e total. Aquele homem falava em termos de procura e oferta; Jesus propõe-lhe uma história de amor. Pede-lhe para passar da observância das leis ao dom de si mesmo, do trabalhar para si ao estar com Ele. E faz-lhe uma proposta «cortante» de vida: «Vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres (…), vem e segue-Me» (ibid.). E Jesus diz também a ti: «Vem e segue-Me». Vem: não fiques parado, porque não basta não fazer nada de mal para ser de Jesus. Segue-Me: não vás atrás de Jesus só quando te apetece, mas procura-O todos os dias; não te contentes com observar preceitos, dar esmolas e recitar algumas orações: encontra n’Ele o Deus que sempre te ama, o sentido da tua vida, a força para te entregares.

E Jesus diz mais: «Vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres». O Senhor não faz teorias sobre pobreza e riqueza, mas vai direto à vida. Pede-te para deixar aquilo que torna pesado o coração, esvaziar-te de bens para dar lugar a Ele, único bem. Não se pode seguir verdadeiramente a Jesus, quando se está estivado de coisas. Pois, se o coração estiver repleto de bens, não haverá espaço para o Senhor, que Se tornará uma coisa mais entre as outras. Por isso, a riqueza é perigosa e - di-lo Jesus - torna difícil até mesmo salvar-se. Não, porque Deus seja severo; não! O problema está do nosso lado: o muito que temos e o muito que ambicionamos sufocam-nos; sufocam-nos o coração e tornam-nos incapazes de amar. Neste sentido, São Paulo recorda-nos que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1Tm 6,10). Quando se coloca no centro o dinheiro, vemos que não há lugar para Deus; e não há lugar sequer para o homem.

Jesus é radical. Dá tudo e pede tudo: dá um amor total e pede um coração indiviso. Também hoje Se nos dá como Pão vivo; poderemos nós, em troca, dar-Lhe as migalhas? A Ele, que Se fez nosso servo até ao ponto de Se deixar crucificar por nós, não Lhe podemos responder apenas com a observância de alguns preceitos. A Ele, que nos oferece a vida eterna, não podemos dar qualquer bocado de tempo. Jesus não Se contenta com uma «percentagem de amor»: não podemos amá-Lo a vinte, cinquenta ou sessenta por cento. Ou tudo ou nada.

Queridos irmãos e irmãs, o nosso coração é como um íman: deixa-se atrair pelo amor, mas só se pode apegar a um lado e tem de escolher: amar a Deus ou as riquezas do mundo (cf. Mt 6,24); viver para amar ou viver para si mesmo (cf. Mc 8,35). Perguntemo-nos de que lado estamos nós... Perguntemo-nos a que ponto nos encontramos na nossa história de amor com Deus... Contentamo-nos com alguns preceitos ou seguimos Jesus como enamorados, prontos verdadeiramente a deixar tudo por Ele? Jesus pergunta a cada um e a todos nós como Igreja em caminho: somos uma Igreja que se limita a pregar bons preceitos ou uma Igreja-esposa, que pelo seu Senhor se lança no amor? Seguimo-Lo verdadeiramente ou voltamos aos passos do mundo, como aquele homem? Em suma, basta-nos Jesus ou procuramos as seguranças do mundo? Peçamos a graça de saber deixar por amor do Senhor: deixar riquezas, deixar sonhos de funções e poderes, deixar estruturas já inadequadas para o anúncio do Evangelho, os pesos que travam a missão, os laços que nos ligam ao mundo. Sem um salto em frente no amor, a nossa vida e a nossa Igreja adoecem de «autocomplacência egocêntrica» (Evangelii gaudium, n. 95): procura-se a alegria em qualquer prazer passageiro, fechamo-nos numa tagarelice estéril, acomodamo-nos na monotonia duma vida cristã sem ardor, onde um pouco de narcisismo cobre a tristeza de permanecermos inacabados.

Aconteceu assim com aquele homem que - diz o Evangelho - «retirou-se pesaroso» (Mc 10,22). Ancorara-se aos preceitos e aos seus muitos bens, não oferecera o coração. E, embora tivesse encontrado Jesus e recebido o seu olhar amoroso, foi-se embora triste. A tristeza é a prova do amor inacabado. É o sinal de um coração tíbio. Pelo contrário, um coração aliviado dos bens, que ama livremente o Senhor, espalha sempre a alegria, aquela alegria de que hoje temos tanta necessidade. O Santo Papa Paulo VI escreveu: «É no meio das suas desgraças que os nossos contemporâneos precisam de conhecer a alegria e de ouvir o seu canto» (Gaudete in Domino, n. 1). Hoje, Jesus convida-nos a voltar às fontes da alegria, que são o encontro com Ele, a opção corajosa de arriscar para segui-Lo, o gosto de deixar tudo para abraçar o seu caminho. Os Santos percorreram este caminho.

Fê-lo Paulo VI, seguindo o exemplo do Apóstolo cujo nome assumira. Como ele, consumiu a vida pelo Evangelho de Cristo, cruzando novas fronteiras e fazendo-se testemunha d’Ele no anúncio e no diálogo, profeta de uma Igreja extroversa que olha para os distantes e cuida dos pobres. Mesmo nas fadigas e no meio das incompreensões, Paulo VI testemunhou de forma apaixonada a beleza e a alegria de seguir totalmente Jesus. Hoje continua a exortar-nos, juntamente com o Concílio de que foi sábio timoneiro, a que vivamos a nossa vocação comum: a vocação universal à santidade; não às meias medidas, mas à santidade. É significativo que, juntamente com ele e demais Santos e Santas hodiernos, tenhamos Dom Oscar Romero, que deixou as seguranças do mundo, incluindo a própria incolumidade, para consumir a vida - como pede o Evangelho - junto dos pobres e do seu povo, com o coração fascinado por Jesus e pelos irmãos. E o mesmo podemos dizer de Francesco Spinelli, Vincenzo Romano, Maria Catarina Kasper, Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus e também do nosso jovem abruzo-napolitano, Núncio Sulprizio: o santo jovem, corajoso, humilde que soube encontrar Jesus no sofrimento, no silêncio e no dom de si mesmo. Todos estes Santos, em diferentes contextos, traduziram na vida a Palavra de hoje: sem tibieza, nem cálculos, com o ardor de arriscar e deixar tudo. Irmãos e irmãs, que o Senhor nos ajude a imitar os seus exemplos!


Fonte: Santa Sé.

domingo, 21 de outubro de 2018

Mensagem do Papa: Dia Mundial das Missões 2018

Papa Francisco
Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2018
21 de outubro de 2018
«Juntamente com os jovens, levemos o Evangelho a todos»

Queridos jovens, juntamente convosco desejo refletir sobre a missão que Jesus nos confiou. Apesar de me dirigir a vós, pretendo incluir todos os cristãos, que vivem na Igreja a aventura da sua existência como filhos de Deus. O que me impele a falar a todos, dialogando convosco, é a certeza de que a fé cristã permanece sempre jovem, quando se abre à missão que Cristo nos confia. «A missão revigora a fé» (Carta Enc. Redemptoris missio, 2): escrevia São João Paulo II, um Papa que tanto amava os jovens e, a eles, muito se dedicou.
O Sínodo que celebraremos em Roma no próximo mês de outubro, mês missionário, dá-nos oportunidade de entender melhor, à luz da fé, aquilo que o Senhor Jesus vos quer dizer a vós, jovens, e, através de vós, às comunidades cristãs.

A vida é uma missão
Todo o homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela qual se encontra a viver na terra. Ser atraídos e ser enviados são os dois movimentos que o nosso coração, sobretudo quando é jovem em idade, sente como forças interiores do amor que prometem futuro e impelem a nossa existência para a frente. Ninguém, como os jovens, sente quanto irrompe a vida e atrai. Viver com alegria a própria responsabilidade pelo mundo é um grande desafio. Conheço bem as luzes e as sombras de ser jovem e, se penso na minha juventude e na minha família, recordo a intensidade da esperança por um futuro melhor. O fato de nos encontrarmos neste mundo sem ser por nossa decisão faz-nos intuir que há uma iniciativa que nos antecede e faz existir. Cada um de nós é chamado a refletir sobre esta realidade: «Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo» (Papa Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 273).

Anunciamo-vos Jesus Cristo
A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10,8; At 3,6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1Cor 1,17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3,16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2Cor 5,14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância: «Que faria Cristo no meu lugar?»

Transmitir a fé até aos últimos confins da terra
Pelo Batismo, também vós, jovens, sois membros vivos da Igreja e, juntos, temos a missão de levar o Evangelho a todos. Estais a desabrochar para a vida. Crescer na graça da fé, que nos foi transmitida pelos sacramentos da Igreja, integra-nos num fluxo de gerações de testemunhas, onde a sabedoria daqueles que têm experiência se torna testemunho e encorajamento para quem se abre ao futuro. E, por sua vez, a novidade dos jovens torna-se apoio e esperança para aqueles que estão próximo da meta do seu caminho. Na convivência das várias idades da vida, a missão da Igreja constrói pontes intergeracionais, nas quais a fé em Deus e o amor ao próximo constituem fatores de profunda união.
Por isso, esta transmissão da fé, coração da missão da Igreja, verifica-se através do «contágio» do amor, onde a alegria e o entusiasmo expressam o sentido reencontrado e a plenitude da vida. A propagação da fé por atração requer corações abertos, dilatados pelo amor. Ao amor, não se pode colocar limites: forte como a morte é o amor (cf. Ct 8,6). E tal expansão gera o encontro, o testemunho, o anúncio; gera a partilha na caridade com todos aqueles que, longe da fé, se mostram indiferentes e, às vezes, impugnadores e contrários à mesma. Ambientes humanos, culturais e religiosos ainda alheios ao Evangelho de Jesus e à presença sacramental da Igreja constituem as periferias extremas, os «últimos confins da terra», aos quais, desde a Páscoa de Jesus, são enviados os seus discípulos missionários, na certeza de terem sempre com eles o seu Senhor (cf. Mt 28,20; At 1,8). Nisto consiste o que designamos por missio ad gentes. A periferia mais desolada da humanidade carente de Cristo é a indiferença à fé ou mesmo o ódio contra a plenitude divina da vida. Toda a pobreza material e espiritual, toda a discriminação de irmãos e irmãs é sempre consequência da recusa de Deus e do seu amor.
Hoje para vós, queridos jovens, os últimos confins da terra são muito relativos e sempre facilmente «navegáveis». O mundo digital, as redes sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo tão próximo e imediato... E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas, poderemos ter miríades de contatos, mas nunca estaremos imersos numa verdadeira comunhão de vida. A missão até aos últimos confins da terra requer o dom de nós próprios na vocação que nos foi dada por Aquele que nos colocou nesta terra (cf. Lc 9,23-25). Atrevo-me a dizer que, para um jovem que quer seguir Cristo, o essencial é a busca e a adesão à sua vocação.

Testemunhar o amor
Agradeço a todas as realidades eclesiais que vos permitem encontrar, pessoalmente, Cristo vivo na sua Igreja: as paróquias, as associações, os movimentos, as comunidades religiosas, as mais variadas expressões de serviço missionário. Muitos jovens encontram, no voluntariado missionário, uma forma para servir os «mais pequenos» (cf. Mt 25,40), promovendo a dignidade humana e testemunhando a alegria de amar e ser cristão. Estas experiências eclesiais fazem com que a formação de cada um não seja apenas preparação para o seu bom-êxito profissional, mas desenvolva e cuide um dom do Senhor para melhor servir aos outros. Estas louváveis formas de serviço missionário temporâneo são um começo fecundo e, no discernimento vocacional, podem ajudar-vos a decidir pelo dom total de vós mesmos como missionários.
De corações jovens, nasceram as Pontifícias Obras Missionárias, para apoiar o anúncio do Evangelho a todos os povos, contribuindo para o crescimento humano e cultural de muitas populações sedentas de Verdade. As orações e as ajudas materiais, que generosamente são dadas e distribuídas através das POMs, ajudam a Santa Sé a garantir que, quantos recebem ajuda para as suas necessidades, possam, por sua vez, ser capazes de dar testemunho no próprio ambiente. Ninguém é tão pobre que não possa dar o que tem e, ainda antes, o que é. Apraz-me repetir a exortação que dirigi aos jovens chilenos: «Nunca penses que não tens nada para dar, ou que não precisas de ninguém. Muita gente precisa de ti. Pensa nisso! Cada um de vós pense nisto no seu coração: muita gente precisa de mim» (Encontro com os jovens, Santiago – Santuário de Maipú, 17/I/2018).
Queridos jovens, o próximo mês missionário de outubro, em que terá lugar o Sínodo a vós dedicado, será mais uma oportunidade para vos tornardes discípulos missionários cada vez mais apaixonados por Jesus e pela sua missão até aos últimos confins da terra. A Maria, Rainha dos Apóstolos, ao Santos Francisco Xavier e Teresa do Menino Jesus, ao Beato Paulo Manna, peço que intercedam por todos nós e sempre nos acompanhem.

Vaticano, 20 de maio - Solenidade de Pentecostes - de 2018.

FRANCISCO


Fonte: Santa Sé