quarta-feira, 15 de junho de 2022

Leitura litúrgica do Livro dos Números (1)

“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26).

Na postagem anterior da nossa série sobre a leitura litúrgica dos livros da Sagrada Escritura analisamos o Livro do Levítico (Lv), terceiro dos rolos da Torá (Pentateuco).

Agora daremos continuidade ao nosso estudo com o Livro dos Números (Nm), no qual se conclui a narrativa da caminhada do povo de Israel pelo deserto.

1. Breve introdução ao Livro dos Números

O Livro dos Números recebe este nome (em grego, Ἀριθμοί [Arithmoi]; em latim, Numeri) por começar com um recenseamento do povo. Em hebraico seu nome é Bemidbar, “no deserto”, uma das primeiras expressões que aparecem no texto.

A serpente de bronze (Nm 21)

Desde o capítulo 19 do Êxodo e durante todo o Levítico o povo de Israel permanece junto ao monte Sinai (ou Horeb). A partir do capítulo 10 do Livro dos Números, por sua vez, o povo empreende a última etapa da sua caminhada pelo deserto: do Sinai até as estepes de Moab, junto ao rio Jordão, que será o “palco” do Deuteronômio.

A maioria dos estudiosos divide o Livro dos Números em três partes, de acordo com a localização do povo (mesmo critério usado para a divisão do Êxodo):
a) Nm 1,1–10,10: no Sinai;
b) Nm 10,11–21,35: do Sinai até Moab;
c) Nm 22–36: em Moab.

Outros autores, por sua vez, propõem uma divisão em duas seções, conforme as “duas gerações”: a geração do êxodo, isto é, aqueles que saíram do Egito (Nm 1–15) e a nova geração, que entrará na terra prometida (Nm 26–36). Nessa divisão, cada uma das seções começa com um recenseamento (Nm 1–4 e Nm 26) e se subdivide em duas partes:

Geração do êxodo: Nm 1–25
a) Nm 1,1–10,36: Preparação e retomada da caminhada no deserto;
b) Nm 11,1–25,18: Ciclo das rebeliões.

Nova geração: Nm 26–36
c) Nm 26,1–33,49: Instalação da nova geração em Moab;
d) Nm 33,50–36,13: Preparativos antes da conquista da terra prometida.

Assim como o Levítico, o Livro dos Números teria sido sistematizado pela tradição sacerdotal após o exílio da Babilônia (séc. VI-V a. C.). Por isso são importantes neste livro as normas sobre os levitas, a pureza ritual, os sacrifícios...

O gênero literário legislativo, porém, é intercalado por narrativas provenientes de diversas tradições, algumas anteriores ao exílio. Esses relatos retomam elementos do Êxodo: por exemplo, antes da partida do Sinai celebra-se a Páscoa (Nm 9,1-14; Ex 12); a coluna de nuvem, sinal da presença de Deus, guia o povo (Nm 9,15-23; Ex 13–14).

No ciclo das rebeliões (cap. 11–25) retornam também alguns dos problemas da primeira etapa da travessia do deserto (Ex 15–18), como a falta de alimento (Nm 11) e de água (Nm 20). O episódio mais famoso das rebeliões, porém, é o das serpentes (Nm 21), com a edificação da serpente de bronze, interpretada como prefiguração do poder salvífico da cruz de Cristo (cf. Jo 3,14-16).

Durante a narrativa há uma transição gradativa entre a geração do êxodo (por exemplo, com a morte de Miriam e Aarão, irmãos de Moisés, no cap. 20) e a nova geração. Aparece aqui pela primeira vez Josué, que se tornará o sucessor de Moisés (Nm 27,12-23), enviado como explorador a Canaã: dos exploradores, Josué e Caleb são os únicos a oferecer uma visão positiva da conquista (Nm 13).

Além disso, as duas gerações do livro antecipam a teologia deuteronomista dos dois caminhos, da vida e da morte (cf. Dt 30,15-20): enquanto a primeira geração morre no deserto, a nova geração é a esperança do futuro do povo (Nm 26,63-65).

Para saber mais, confira a bibliografia indicada no final da postagem.

As "uvas de Canaã (James Tissot)

2. Leitura litúrgica do Livro dos Números: Composição harmônica

Assim como o Levítico, a presença do Livro dos Números nas celebrações litúrgicas é relativamente “modesta”. A seguir analisaremos sua leitura a partir dos dois critérios propostos no n. 66 do Elenco das Leituras da Missa [ELM]: a composição harmônica e a leitura semicontínua [1]. Começamos naturalmente pelo primeiro critério, que consiste na escolha do texto em sintonia com o tempo ou a festa litúrgica.

a) Celebração Eucarística

Seguindo o ciclo do Ano Litúrgico, a primeira leitura em composição harmônica do nosso livro é proferida na Missa da segunda-feira da III semana do Advento. A partir da quinta-feira da II semana, com efeito, a leitura “é uma continuação do Livro de Isaías ou um texto relacionado com o Evangelho” (ELM, n. 94) [2].

Enquanto o Evangelho do dia destaca a figura de João Batista (Mt 21,23-27), a leitura de Nm 24,2-7.15-17a [3] remete-nos aos oráculos de Balaão. Convocado pelo rei de Moab para amaldiçoar Israel, graças à intervenção divina Balaão na verdade abençoa o povo e profere uma profecia, tornando-se, como João, um “precursor do Messias”: “Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sai de Jacó, e um cetro se levanta de Israel” (v. 17a).

No Tempo do Natal também há uma leitura do nosso livro, mais especificamente na Solenidade de Santa Maria, Santa Mãe de Deus (01 de janeiro). Aqui lemos Nm 6,22-27 [4], a “bênção de Aarão” (epígrafe desta postagem), uma vez que nessa Solenidade, oito dias após o Natal, celebra-se também a Circuncisão de Jesus e a imposição do seu nome (Lc 2,21): “Assim invocarão o meu nome... e eu os abençoarei” (Nm 6,27).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Festa da Circuncisão do Senhor.

A perícope é especialmente adequada também como uma bênção sobre o novo ano civil que se inicia, além de recordar o tema da paz (no dia 01 de janeiro celebra-se também o Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI em 1967). Cabe ressaltar ainda que a “bênção de Aarão” figura entre os formulários de bênção à escolha para a Celebração Eucarística no Missal Romano [5].

Passando ao Ciclo da Páscoa, encontramos uma leitura de Números na terça-feira da V semana da Quaresma, em harmonia com a leitura semicontínua do Evangelho de João (cf. ELM, n. 98) [6]. Nesse dia lemos Nm 21,4-9 [7], o célebre episódio da serpente de bronze, sinal da crucificação anunciada por Cristo no Evangelho (Jo 8,21-30): “Quando tiveres elevado o Filho do Homem, então sabereis que Eu sou” (v. 28).

Nos domingos do Tempo Comum, quando as leituras do Antigo Testamento são escolhidas “em relação às perícopes evangélicas” (ELM, n. 106) [8], a Igreja nos propõe igualmente um texto do Livro dos Números: no XXVI Domingo do Tempo Comum do ano B lemos Nm 11,25-29 [9], o episódio da comunicação do “espírito que Moisés possuía” a setenta anciãos.

Os “ciúmes” de Josué por dois anciãos que receberam o “espírito” mesmo não estando presentes na Tenda da Reunião repetem-se no Evangelho (Mc 9,38-43.45.47-48): os Apóstolos repreendem um homem que cura em nome de Jesus, mas não pertence ao seu grupo, a que o Senhor arremata: “Quem não é contra nós é a nosso favor” (v. 40).

A serpente de bronze (James Tissot)

Quanto às celebrações do Senhor no Tempo Comum, retoma-se o relato da serpente no deserto na Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro): Nm 21,4b-9 é uma das duas opções de leitura para esse dia, junto a Fl 2,6-11 [10]. Quando, porém, a festa cai em um domingo, proclamam-se as duas leituras.

No Evangelho da festa (Jo 3,13-17), Jesus menciona explicitamente o episódio da serpente em seu diálogo com Nicodemos, lendo-o como prefiguração da sua Paixão: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado” (v. 14).

Passando às Missas votivas, celebradas para promover a piedade dos fiéis, com várias opções de leituras ad libitum (à escolha), encontramos a leitura de Nm 21,4b-9, que vimos acima, como opção para a Missa votiva da Santa Cruz [11].

Também as Missas para diversas necessidades, formulários nos quais a Igreja reza por diversas intenções, possuem várias opções de leituras ad libitum. Aqui encontramos uma leitura do nosso livro em duas ocasiões:

- nas Missas pela pátria, pelos governantes, por um encontro de chefes de Estado, pelo chefe de Estado, pelo progresso dos povos (formulários que compartilham as mesmas opções de leituras);

- e na Missa no início do ano civil.

A leitura sugerida nos dois casos é Nm 6,22-27 [12], a “bênção de Aarão”, como vimos anteriormente, invocando a paz, respectivamente, sobre a sociedade ou sobre o novo ano que se inicia.

Por fim, a última leitura do nosso livro em composição harmônica na Celebração Eucarística encontra-se na Coletânea de Missas de Nossa Senhora, que reúne vários formulários de Missas votivas marianas.

Dentre as leituras à escolha para essas Missas encontra-se Nm 24,15-17a [13], o oráculo de Balaão, anunciando o Messias como uma “estrela”. Maria, com efeito, é invocada na 9ª estrofe do célebre hino Akathistos da tradição bizantina como aquela que gera essa estrela, que é Cristo: “Ave, que a estrela perene geraste!” [14].

Para saber mais, confira nossa postagem sobre o ícone do Akathistos.

Encerramos aqui a primeira parte do percurso dedicado ao Livro dos Números. Na próxima postagem prosseguiremos com a análise da sua leitura em composição harmônica nos sacramentos e sacramentais, antes de contemplar sua presença na Liturgia sob o critério da leitura semicontínua.

[Atualização: Para acessar a segunda parte, publicada no dia 22 de junho, clique aqui]

A "bênção de Aarão" ou "bênção sacerdotal" em hebraico
(Nm 6,24-26)

Breve bibliografia sobre o Livro dos Números usada para esta postagem:

LAMADRID, Antonio González. Números. in: OPORTO, Santiago Guijarro; GARCÍA, Miguel Salvador [org.]. Comentário ao Antigo Testamento I. São Paulo: Ave Maria, 2002, pp. 221-260.

LÓPEZ, Félix Gárcia. O Livro dos Números. - in: O Pentateuco: Introdução à leitura dos cinco primeiros livros da Bíblia. São Paulo: Ave-Maria, 2004, pp. 205-2. Coleção: Introdução ao Estudo da Bíblia, v. 3A.

L’HEUREUX, Conrad E. Números. in: BROWN, Raymond E.; FITZMYER, Joseph A.; MURPHY, Roland E. [org.]. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. São Paulo: Academia Cristã; Paulus, 2007, pp. 197-221.

RÖMER, Thomas. Números. - in: RÖMER, Thomas; MACCHI, Jean-Daniel; NIHAN, Christophe [org.]. Antigo Testamento: História, Escritura e Teologia. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2015, pp. 242-259.

Notas:
[1] ALDAZÁBAL, José. A Mesa da Palavra I: Elenco das Leituras da Missa - Texto e Comentário. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 76.
[2] ibid., p. 94.
[3] LECIONÁRIO II: Semanal. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1995, p. x.
[4] LECIONÁRIO I: Dominical A-B-C. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1994, p. x.
[5] MISSAL ROMANO, Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1991, p. 525.
[6] ALDAZÁBAL, op. cit., p. 97.
[7] LECIONÁRIO II, p. x.
[8] ALDAZÁBAL, op. cit., p. 103.
[9] LECIONÁRIO I, p. x.
[10] LECIONÁRIO III: Para as Missas dos Santos, dos Comuns, para Diversas Necessidades e Votivas. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1997, p. x.
[11] ibid., p. x.
[12] ibid., pp. x-x.
[13] LECIONÁRIO para Missas de Nossa Senhora. Brasília: Edições CNBB, 2016, p. 199.
[14] SPERANDIO, João Manoel; TAMANINI, Paulo Augusto (orgs.). Ofícios Litúrgicos Bizantinos: Akathistos, Paraklesis e outros. Teresina: Editora da Universidade Federal do Piauí, 2015, p. 16.

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