sábado, 28 de agosto de 2021

Hino do Martírio de São João Batista: Praecéssor almus grátiae

Em preparação para a Solenidade da Natividade de São João Batista, no dia 24 de junho, publicamos em nosso blog as três partes do célebre hino Ut queant laxis (Doce, sonoro, ressoe o canto) entoadas na Liturgia das Horas dessa Solenidade:
I e II Vésperas: Estrofes 1-4 (Ut queant laxis...);
Ofício das Leituras: Estrofes 5-8 (Antra desérti...);
Laudes: Estrofes 9-12 (O nimis felix...).

A última parte do hino, O nimis felix, é entoada também nas Laudes (oração da manhã) da Memória do Martírio de São João Batista, celebrada no dia 29 de agosto. Para conhecer um pouco da história dessa celebração, clique aqui.

Ícone de São João Batista com sua cabeça e com asas de anjo (mensageiro)

Para o Ofício das Leituras e para as Vésperas (oração da tarde) dessa Memória, por sua vez, é proposto o hino Praecéssor almus grátiae (Predecessor fiel da graça), de autoria de São Beda, o Venerável (†735), autor também da 2ª leitura do Ofício do dia 29 de agosto.

Na sequência reproduzimos esse hino em latim e na tradução oficial para o Brasil, além de alguns comentários sobre a sua mensagem e a sua teologia.

Ofício das Leituras e Vésperas: Praecéssor almus grátiae

Praecéssor almus grátiae
et veritátis ángelus,
lucérna Christi et pérpetis
evangelísta lúminis,

Prophetíae praecónia,
quae voce, vita et áctibus
cantáverat, haec ástruit
mortis sacrae signáculo.

Nam nascitúrum saeculis,
nascéndo quem praevénerat,
sed et datórem próprii
monstráverat baptísmatis,

Huiúsce mortem innóxiam,
qua vita mundo est réddita,
signat sui praeságio
baptísta martyr sánguinis.

Praesta, Pater piíssime,
sequi Ioánnis sémitas,
metámus ut pleníssime
aetérna Christi múnera. Amen [1].

São Beda, o Venerável, autor do hino

Ofício das Leituras e Vésperas: Predecessor fiel da graça

Predecessor fiel da graça,
bondoso anjo da verdade,
clarão de Cristo, ele anuncia
a Luz da eterna claridade.

Das profecias o precônio
que ele cantara, austero e forte,
com vida e atos confirmou
pelo sinal da santa morte.

Quem para o mundo ia nascer
ele precede, ao vir primeiro,
mostrando Aquele que viria
dar o batismo verdadeiro.

E cuja morte inocente,
que a vida ao mundo conquistou,
fora predita pelo sangue
que João Batista derramou.

Ó Pai clemente, concedei-nos
seguir os passos de São João,
para fruirmos para sempre
o dom de Cristo, em profusão [2].

Comentário:

Este hino, indicado tanto para o Ofício das Leituras quanto para as Vésperas da Memória do Martírio de São João Batista, está centrado no duplo aspecto da sua missão como precursor de Cristo: com o seu nascimento e com sua morte.

Festa de Herodes
(Domenico Ghirlandaio - Basílica de Santa Maria Novella, Florença)

a) Primeira estrofe:

Omitindo o tradicional convite ao louvor ou introdução, a composição começa diretamente com os motivos do louvor de João, que integram o “corpo” do hino.

Essa primeira estrofe é como uma “ladainha” de títulos do Batista:

- “Praecéssor almus grátiae” - “Precursor bondoso da graça”. O adjetivo latino “almus” possui uma ampla gama de significados: benéfico, venerável, que alimenta...

- “Veritátis ángelus” - “Anjo da verdade”. A palavra “anjo”, do grego “angelos”, significa “mensageiro”. Portanto, em ícones orientais é comum encontrar João Batista retratado com asas, tradicional atributo dos anjos.

- “Lucérna Christi” - “Lâmpada de Cristo”. Este é o termo usado pelo próprio Cristo para referir-se a João: “Ille erat lucerna ardens et lucens” - “Ele era a lâmpada que arde e ilumina” (Jo 5,35). O tema da luz é recorrente no Evangelho de João, associado tanto a João como a Cristo (cf. Jo 1,6-9).

- “Evangelísta pérpetis lúminis” - “Evangelista da luz eterna”. “Evangelista” designa aqui não o autor de um Evangelho, mas o anunciador de uma boa notícia.

b) Segunda estrofe:

Após elencar os diversos títulos de João, na segunda estrofe o hino sintetiza o tema central da sua dupla missão como precursor, pelo nascimento e pela morte, que será desenvolvida nas estrofes 3 e 4.

Martírio de São João Batista
(Caravaggio - Co-Catedral de São João, Valeta - Malta)

Recorda-se primeiramente o papel de João como profeta, que cantou o “precônio” (anúncio público e solene) em louvor à vinda do Messias com sua voz, com sua vida e com suas ações: voce, vita et áctibus.

Essas, por sua vez, foram confirmadas (ástruit, conjugação do verbo adstruere, provar, assegurar) pelo sagrado sinal da sua morte (mortis sacrae signáculo).

c) Terceira estrofe:

Como afirmamos acima, a terceira e a quarta estrofes dedicam-se a desenvolver o tema de João Batista como precursor de Cristo na vida e na morte.

Na terceira estrofe recorda-se o nascimento de João, que precede o de Cristo. Com efeito, João é o único santo cuja principal celebração é a do seu nascimento (24 de junho), seis meses antes do Natal [3]. Para todos os demais santos a celebração geralmente é fixada no dia de sua morte.

Os primeiros dois versos da estrofe fazem referência ao texto de Jo 1,15.30: João “vem primeiro” no sentido de que nasceu seis meses antes de Jesus segundo a carne. Em contrapartida, embora o hino não mencione, Jesus “existia” antes de João, sendo o Filho co-eterno ao Pai e ao Espírito Santo.

Ao nascimento de João une-se, nos dois seguintes versos, sua missão de indicar o Cristo (cf. Jo 1,29), “doador do próprio Batismo”, ou “Autor do Batismo”, como indica o Prefácio próprio de São João Batista [4]. O batismo administrado por João, com efeito, era apenas um convite à conversão, sendo o verdadeiro Batismo inaugurado por Cristo em sua Morte e Ressurreição.

d) Quarta estrofe:

Uma vez recordado o nascimento de João como sinal do nascimento de Cristo, a quarta estrofe celebra sua morte (“Martírio” ou “Paixão”) como sinal da Morte salvífica de Cristo, elemento central da Memória do dia 29 de agosto.

Ícone de São João Batista, precursor de Cristo no Hades

João é chamado aqui propriamente mártir (martyr, isto é, testemunha), cujo sangue é sinal e profecia (signat sui praeságio) da morte do Inocente (mortem innóxiam), Cristo, que devolveu a vida ao mundo.

Vale recordar que, segundo a tradição, João Batista não é o precursor apenas da Morte de Cristo, mas também de sua descida ao Hades, a morada dos mortos. O apócrifo Evangelho de Nicodemos (séc. IV) narra como João, após a sua morte, foi ao Hades anunciar aos justos do Antigo Testamento que a vinda do Salvador estava próxima [5].

e) Quinta estrofe:

Diferentemente da grande maioria dos hinos da Liturgia das Horas, nos quais a última estrofe costuma ser uma doxologia (fórmula de louvor) dirigida à Trindade, em nosso hino a quinta estrofe é uma súplica dirigida ao Pai.

Pede-se ao “Pai piíssimo” (“Pater piíssime”), ou “Pai clemente” na tradução brasileira, que nos conceda seguir a senda de João (sequi Ioánnis semitas), ou seja, imitar o seu exemplo de santidade, a fim de que possamos, um dia, colher plenamente os dons de Cristo na eternidade.

Félix Arocena, em sua obra Los himnos de la Liturgia de las Horas, chama a atenção para o fato de que o último verso do hino, “aetérna Christi múnera”, é o primeiro verso do hino das Laudes do Comum dos Mártires, um hino do século IV, atribuído a Santo Ambrósio, que era certamente conhecido por São Beda, o Venerável [6].

Ícone do Martírio de São João Batista

Notas:


[2] OFÍCIO DIVINO. Liturgia das Horas segundo o Rito Romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Paulus, 1999, v. IV, p. 1242.

[3] Celebramos também o nascimento de Cristo (25 de dezembro) e da Virgem Maria (08 de setembro). Mas as celebrações principais de ambos não são estas, e sim o Tríduo Pascal da sua Morte-Ressurreição, no caso de Cristo, e sua Assunção (15 de agosto), no caso de Maria.

[4] cf. MISSAL ROMANO, Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1991, p. 601.

[5] cf. Descida de Cristo ao Inferno: Versão grega, cap. 2. in: PROENÇA, Eduardo de [org.]. Apócrifos e pseudo-epígrafos da Bíblia, v. I. São Paulo: Fonte Editorial, 2005, pp. 563-564.

[6] AROCENA, Félix. Los himnos de la Liturgia de las Horas. Madrid: Ediciones Palabra, 1992, pp. 280-281.

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