“A alegria cristã vem
daqueles lugares onde Alegria e Pesar são um só, reconciliados” (J. R. R.
Tolkien) [1].
Em seu Ensaio Sobre
Estórias de Fadas, John Ronald Reuel Tolkien (†1973), o célebre autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, cria o termo “eucatástrofe”, isto é, a “boa catástrofe”, a “virada”, a graça
repentina que, diante da tristeza e do fracasso, traz a alegria da libertação.
Tolkien afirma: “O Nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história do Homem. A
Ressurreição é a eucatástrofe da história
da Encarnação. Essa história começa e termina em alegria” [2]. Com efeito, da kenosis, isto é, do esvaziamento do Deus
que se fez homem na pobreza da manjedoura, brota a alegria da nossa salvação;
da kenosis da Morte e da Sepultura de
Cristo brota a alegria eterna da Ressurreição (cf. Fl 2,6-11).
Esse aparente paradoxo percorre toda a tradição cristã. Por exemplo, no mês de março de 2021 publicamos aqui em nosso blog uma postagem sobre a devoção às sete dores (ou sete angústias) e às sete alegrias de São José.
Nessa devoção, os mesmos acontecimentos da vida de Cristo são motivo tanto de dor (ou angústia) quanto de alegria para José. Como canta o célebre hino das Vésperas do dia 19 de março (Te, Joseph, célebrent), em sua participação nos mistérios de Cristo José “miscens gáudia flétibus”, mistura alegria e pranto.
Essa devoção, porém, deriva do culto às dores e alegrias de Maria, cuja origem remonta ao século XI. Nesta postagem, portanto, apresentaremos brevemente a participação da Mãe na eucatástrofe do Filho, isto é, no mistério das suas dores e alegrias.
“Uma espada
transpassará tua alma” (Lc 2,35): História
da devoção às Dores de Maria
O Diretório sobre
Piedade Popular e Liturgia, promulgado pela Congregação para o Culto Divino
em dezembro de 2001, destaca que, sobretudo durante a Quaresma e a Semana
Santa, o “Cristo Crucificado” e a “Virgem das Dores” estão naturalmente
associados, tanto na Liturgia quanto na devoção dos fiéis (cf. nn. 136-137.145) [3].
A devoção à Mater
Dolorosa, como afirmamos acima, remonta ao final do século XI, quando os
fiéis começam a centrar-se nas “cinco dores de Maria” (talvez em paralelo com
as cinco Chagas de Cristo), representadas por cinco espadas em seu coração (em
alusão à profecia de Simeão em Lc
2,35).
Com o tempo, porém, o número de “dores” contempladas passa
de “cinco” a “sete”, símbolo da completude na tradição bíblica. Celebrar “sete
dores” ou “sete alegrias” de Maria significa, pois, celebrar todas as suas
dores e alegrias.
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A Virgem Maria com cinco espadas, ao invés das sete tradicionais (Absolon Stumme - século XV) |
Embora a devoção às dores de Maria faça referência também a episódios da infância de Jesus, ela centra-se naturalmente na presença de Maria na Paixão do seu Filho. Portanto, essa devoção logo “ganhou” duas festas litúrgicas, ambas ligadas ao evento da cruz.
A primeira celebração em honra das dores de Maria remonta a
um Sínodo Provincial da Arquidiocese de Colônia (Alemanha) que, em 1423, fixa a
festa na sexta-feira da IV semana da Páscoa. Com o tempo a celebração espalhou na
Alemanha e em outros países da Europa, sendo celebrada em diferentes datas.
Em 1727 o Papa Bento XIII estendeu a Festa das Sete Dores da
Bem-aventurada Virgem Maria (Septem
Dolorum Beatae Mariae Virginis) para toda a Igreja, a ser celebrada na
sexta-feira da V semana da Quaresma, isto é, a sexta-feira antes do Domingo de
Ramos.
Em 1233, sete religiosos fundam em Florença (Itália) a Ordem
dos Servos de Maria (Ordo Servorum Beatae
Virginis Mariae). Os servitas, como ficaram conhecidos, têm como sua
principal devoção justamente a Addolorata,
isto é, a Virgem das Dores.
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Os Sete Santos Fundadores dos Servitas (Memória facultativa: 17 de fevereiro) |
Em 1668 essa Ordem conseguiu a permissão da Santa Sé para
celebrar uma festa em honra das Dores de Maria no terceiro domingo de setembro,
associada à Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro).
O Papa Pio VII estendeu essa celebração para toda a Igreja
em 1814. Em 1913, porém, o Papa Pio X, buscando recuperar a centralidade do
domingo, a transferiu para o dia 15 de setembro.
A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II manteve a Memória
obrigatória de Nossa Senhora das Dores (Beatae
Mariae Virginis Perdolentis) no dia 15 de setembro. A 3ª edição típica do Missal Romano (ainda sem tradução para o Brasil), por sua vez, propõe uma
oração do dia opcional em honra da participação da Virgem Maria no mistério da
Paixão na sexta-feira da V semana da Quaresma.
“Alegra-te, cheia de
graça!” (Lc 1,28): História da
devoção às Alegrias de Maria
A devoção às “sete alegrias de Maria”, em paralelo às suas
dores, foi promovida pela Ordem dos Frades Menores (franciscanos) a partir de
1422, através da “Coroa das Sete Alegrias de Nossa Senhora”, também conhecida
como “Rosário Franciscano”.
Este rosário contempla mistérios ligados tanto à infância do
Senhor quanto à sua Ressurreição, culminando no episódio da Assunção de Maria.
Portanto, ao contrário das “sete dores” de Maria, suas “sete alegrias” nunca
tiveram uma festa litúrgica própria.
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"Rosário Franciscano" ou "Coroa das sete alegrias de Nossa Senhora" |
A celebração das “alegrias” de Maria se distribui, pois,
ao longo do Ano Litúrgico: sua participação na Encarnação com a Solenidade de
Santa Maria, Mãe de Deus (01 de janeiro); sua participação na Ressurreição
com a Memória de Maria, Mãe da Igreja, instituída pelo Papa Francisco na segunda-feira após o Pentecostes; culminando na Solenidade da sua Assunção (15
de agosto) e na Memória da sua Coroação como Rainha do céu e da terra (22 de
agosto).
A representação das sete alegrias de Maria na arte sacra
também é incipiente, se comparada à representação da “Mater Dolorosa”. Além disso, como veremos adiante, algumas das
“alegrias” de Maria podem variar conforme a tradição.
Cabe ressaltar ainda que, em 1495, uma edição dos poemas do
franciscano Jacopone da Todi trazia duas sequências atribuída à sua autoria: o Stabat Mater Dolorosa (Estava a Mãe
Dolorosa), contemplando a dor de Maria junto à cruz; e o Stabat Mater Speciosa (Estava a Mãe Graciosa), cantando sua alegria
junto à manjedoura do Menino. Este último, porém, permaneceu esquecido por
muitos séculos.
Adaptação do Stabat Mater Speciosa em polonês para um Oratório de Natal:
A lista das Dores e
das Alegrias de Maria
Indicamos a seguir a lista das sete dores e das sete
alegrias da Virgem Maria. Como afirmamos anteriormente, enquanto a primeira é
mais fixa, a segunda pode variar.
Essa devoção pode estar recitada na forma de um “rosário”,
com sete “mistérios”, como o “Rosário Franciscano”, ou, como indica o Diretório sobre Piedade Popular, na
forma de uma Via Matris, isto é, um
itinerário processional similar à popular Via Sacra (Via Crucis ou Via Lucis),
com leituras, meditações e cantos ao longo das sete “estações”.
Porém, o mais importante sempre será a meditação dos relatos
do Evangelho associados a cada mistério ou estação. Para os episódios não
mencionados no Evangelho, por sua vez, podem tomar-se outros textos da
Escritura, como sugerimos a seguir.
Além disso, para cada “mistério” ou “estação” pode ser
tomada uma oração adequada da Coletânea de Missas de Nossa Senhora.
As sete dores de Maria
1. A profecia de Simeão (Lc
2,22-35)
2. A fuga para o
Egito (Mt 2,13-15)
3. A perda do Menino
Jesus no Templo (Lc 2,41-45)
4. O encontro de
Maria e Jesus a caminho do Calvário (Lc
23,26-27; Lm 1,12)
5. Maria aos pés da
Cruz (Jo 19,25-27)
6. Maria recebe o
corpo de Jesus descido da Cruz (Jo
19,38-40)
7. Sepultamento de
Jesus (Jo 19,41-42)
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Sete Dores de Nossa Senhora (Mestre anônimo do século XVI) |
As sete alegrias de Maria
1. Anunciação (Lc 1,26-38)
2. Visitação (Lc 1,39-45)
(Quando não se lê o Magnificat
na sétima alegria, convém incluí-lo aqui: Lc
1,39-55)
3. Nascimento de
Jesus (Lc 2,1-14)
4. Adoração dos Magos
(Mt 2,1-12)
5. Encontro do Menino
Jesus no Templo (Lc
2,41-43.46-50)
6. Ressurreição de Jesus
(Mt 28,1-10)
7. Assunção e
Coroação de Maria como Rainha do Céu e da Terra (Lc 1,46-55 ou Ap
12,1-2.5-6a)
Algumas versões, omitindo algum dos mistérios anteriores (como a Visitação ou o Encontro do Menino
Jesus no Templo) ou unindo o Nascimento de Jesus e a Adoração dos Magos, incluem:
Ascensão de Jesus
(Mt 28,16-20 ou At 1,8-11)
Pentecostes (At 1,13-14; 2,1-4)
Pessoalmente (e esta é apenas a opinião do autor deste blog) creio que o mistério de Pentecostes nunca deve faltar, dada a clara referência das
Escrituras à presença de Maria junto aos Apóstolos em oração (At 1,14).
Notas:
[1] TOLKIEN, John Ronald Reuel. Carta 89: Para Christopher Tolkien. 07-08 de novembro de 1944. in: As
Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba: Arte e Letra, 2006, p. 101.
[2] idem. Sobre Estórias de Fadas. in: Árvore
e Folha. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2020, p. 78.
[3] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS
SACRAMENTOS. Diretório sobre Piedade
Popular e Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2003, pp. 120-121.126-127.
Fontes:
DONOVAN, Stephen. Franciscan
Crown. The Catholic Encyclopedia, vol. 4, 1908. Disponível em: New Advent.
LODI, Enzo. Os Santos
do Calendário Romano: Rezar com os Santos na Liturgia. São Paulo: Paulus,
1992, pp. 376-379.
HOLWECK, Frederick. Feasts
of the Seven Sorrows of the Blessed Virgin Mary. The Catholic Encyclopedia,
vol. 14, 1912. Disponível em: New Advent.
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