terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Formações sobre o Missal (8): O Missal e os limiares da vida

Como indicamos nas postagens anteriores desta série (publicadas entre novembro e dezembro de 2020), em preparação à 3ª edição do Missal Romano, o Ofício Litúrgico da Conferência Episcopal Italiana (CEI) publicou o subsídio “Un Messale per le nostre Assemblee: La terza edizione italiana del Messale Romano tra Liturgia e Catechesi” (Um Missal para as nossas Assembleias: A terceira edição italiana do Missal Romano entre Liturgia e Catequese), cujos dez “encontros” formativos estamos traduzindo.

Nesta oitava postagem se estabelece a relação entre a Eucaristia, os demais sacramentos e sacramentais e as diversas etapas da vida:

8. O Missal e os limiares da vida

«Um longo caminho foi percorrido nessas décadas [desde o Concílio Vaticano II] para aproximar o povo de Deus dos tesouros da Sagrada Escritura: urge agora um empenho correspondente para que a celebração litúrgica seja vivida como um lugar privilegiado de transmissão da autêntica Tradição da Igreja e de acesso aos mistérios da fé, em uma conexão sempre mais estreita com as diversas dimensões da vida quotidiana» (CEI, Apresentação da 3ª edição do Missal Romano, n. 10).

A Eucaristia no centro do caminho cristão

Quando, no caminho da existência, chegamos a passagens decisivas, o mistério da vida nos toca com a sua mão forte e decidida e nos propõe questionamentos que podem tornar-se “limiares” de acesso à fé, mas também deixar-nos incertos e desorientados, sem o “alfabeto” para decifrá-las e sem referências para vivê-las como momentos propícios nos quais se faz presente o chamado do Senhor. Nesses momentos, a Eucaristia surge como raiz e como centro da vida cristã (cf. Presbyterorum Ordinis, n. 6), onde o centro da fé se realiza no coração da vida. A Eucaristia é o encontro vivo com Jesus, que se aproxima de todas as situações da vida, trazendo-lhes luz e força, cura e salvação. A Eucaristia é o dom que Jesus nos deixou para viver em relação com Ele em cada momento do nosso caminho, especialmente aqueles mais delicados e decisivos.

A Eucaristia e os sacramentos: uma relação constitutiva e delicada

Todos os sacramentos encontram a razão do seu vínculo constitutivo no fato de terem brotado, segundo a feliz imagem patrística, do lado aberto de Cristo sobre a cruz. A existência humana do fiel, com suas etapas delicadas e limiares de passagem, é acolhida pela Eucaristia: nela recebe força, a partir dela é moldada, para ela se orienta.
O caminho da Iniciação Cristã, com os seus graduais ritos de passagem, tem como ponto de referência a possibilidade de receber a Eucaristia. Somos batizados e crismados em ordem à Eucaristia (Sacramentum caritatis, n. 17), que mantém vivos em nós os dons do Batismo e da Crisma. Justamente enquanto dom que se recebe a cada domingo, ela pode ser considerada o “sacramento da maturidade cristã”.

A experiência do gerar: Pais conduzem seu filho ao Batismo

No sacramento da Penitência o batizado pecador é acolhido, iluminado e acompanhado pelo cuidado materno da Igreja, para que, deixando-se tocar pela misericórdia do Pai, já experimentada no Batismo, volte a participar da Eucaristia com um coração novo, livre e grato. Na própria estrutura ritual da Eucaristia são muitos os elementos que convidam a reconhecer o pecado e a invocar a misericórdia do Pai.
Na provação da doença grave, com resultado sempre imprevisível, a Eucaristia é doada como viático (alimento dos viajantes) e acompanhada pelo sacramento da Unção dos Enfermos, como força e conforto.
O sacramento da Ordem só se compreende à luz da Eucaristia, para a qual é disposto e, ao mesmo tempo, em relação com o Corpo eclesial de Cristo, do qual o ministro ordenado está a serviço, para que o povo peregrino no tempo não venha a esquecer aquilo que é necessário para viver como comunidade da nova aliança, templo de louvor e casa da caridade. Presidir a Eucaristia exige, portanto, que cada ação e palavra deixe transparecer o primado da ação de Cristo, e, por isso, se evite qualquer atitude que possa dar a sensação de cair em formas de personalismo ou de protagonismo.
A aliança nupcial, por fim, também conserva uma especial relação com a Eucaristia, porque ambas são manifestações do dom nupcial de Cristo pela Igreja, sua Esposa.
Embora seja útil reforçar a relação constitutiva entre a Eucaristia e os outros sacramentos, é porém necessário interrogar-se sobre os tempos e os modos oportunos de concretizar este vínculo na prática litúrgica. A eventual celebração dos outros sacramentos no contexto da Eucaristia cria uma situação delicada, que interpela a ars celebrandi de toda a comunidade. Nem sempre esta inserção é possível e conveniente, mas em todo caso de trata de uma oportunidade para redescobrir o caráter eucarístico de toda a vida cristã.

A Eucaristia e as experiências fundamentais da vida

O primeiro capítulo da 1ª parte do Ritual de Bênçãos, dedicado à comunidade familiar (nn. 40-289), oferece uma riqueza de ritos e orações, que podem ser celebrados inclusive durante a Missa, para viver as várias passagens existenciais com esta perspectiva: há celebrações de bênção para a família, os cônjuges, as crianças, os filhos, os noivos, o parto e o nascimento, os idosos. Gerar, crescer, amadurecer, errar, adoecer, morrer: as experiências fundamentais da vida encontram na Eucaristia o lugar no qual as diversas fases da existência podem ser acolhidas, iluminadas, salvas na relação com o Senhor.
Na experiência de gerar, se percebe que na origem de cada nova vida não há autonomia. O nascimento de um filho provém do abandono pleno de confiança de um homem e de uma mulher, da sua confiança mútua e da sua generosa e arriscada abertura à possibilidade de um novo ser. Mas há ainda mais: o filho, nascido desta relação esponsal, sempre nos surpreende: nele vem à luz uma novidade que não provém de nenhum dos dois genitores e que é simplesmente ao mesmo tempo maravilha e temor. Por isto se pede para ele o sacramento do Batismo, para confiá-lo Àquele que é a fonte de toda a vida e de toda a bênção e o único que poderá guardar no “bem” cada passo da sua vida. Mas a aceitação plena da vida se apresenta na sucessão particularmente impenetrável dos anos, e exige o encontro com aquele no qual se pode confiar totalmente: o Deus vivente que nos torna filhos no seu Filho, que não retira nunca o seu “sim” à nossa vida. Apenas a Eucaristia, renovada a cada domingo, permite manter vivo e protegido este encontro. Neste sentido, o Batismo abre a porta e orienta para a Eucaristia.
Também os diversos ritos de passagem propostos no percurso da Iniciação Cristã ressoam o mesmo senso de gratidão e temor diante do mistério do crescimento. No sacramento da Confirmação o caminho da criança recebe força e vitalidade do sopro do Espírito, que impede a sua vida de se fechar em si mesma, de deixar-se mortificar pelas primeiras desilusões provocadas pela descoberta dos próprios limites e de perder a confiança por causa da incoerência das pessoas próximas. A celebração deste sacramento encontra no rito eucarístico o seu contexto mais significativo, enquanto o Espírito Santo mantém a existência e o desejo abertos à experiência da plenitude do dom que é oferecido a nós no memorial da Páscoa de Jesus.
Também as experiências da culpa e da doença encontram luz e força nos gestos e nas orações da Celebração Eucarística. O povo de Deus peregrino, que não esconde o fato de ter sido infiel à aliança e hospeda entre as suas fileiras muitos enfermos, invoca na provação a ajuda do alto, busca a intercessão dos irmãos de fé e sente a necessidade de encontrar sustento no Pão da vida. Pensemos agora no valor do Ato Penitencial nos ritos iniciais, ou mesmo às orações e gestos que precedem a Comunhão, e, enfim, ao precioso e delicado ministério de levar a Comunhão aos ausentes porque doentes ou impedidos.
Ainda mais rica é a prática eucarística quando a morte visita a família e a comunidade. A Eucaristia é celebrada como um dos ritos de passagem das Exéquias cristãs e comporta a intercessão de sufrágio pelos irmãos defuntos, pela sua salvação e pela consolação dos entes queridos em luto. Celebrando em toda Missa o Mistério Pascal de Cristo, renovamos a nossa esperança de pertencer a Ele na glória.

A experiência da morte: Caixão sob o Evangeliário

Com ou sem Missa?

As comunidades podem proveitosamente interrogar-se sobre a forma como suas propostas pastorais acolhem ou não esses limiares da vida. Eles são lugares existenciais nos quais a consciência se mostra necessitada de um gesto ritual e pode receber uma palavra capaz de orientar para a fé. Os rituais convidam ao discernimento em relação à opção de celebrar os sacramentos do Matrimônio, do Batismo de uma ou mais crianças, ou das Exéquias dentro de uma Celebração da Palavra e não de uma Celebração Eucarística. Este discernimento, bem realizado, ajudaria com maior transparência a orientar todo ato eclesial ao Mistério Eucarístico.

Para refletir juntos:

- A proposta ritual da nossa comunidade se coloca a serviço dessas passagens existenciais dos fiéis?
- Em nossa comunidade, como conseguimos harmonizar estas celebrações com o rito eucarístico dominical?
- Quais dificuldades encontramos e de quais recursos dispomos?

Fonte:
CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA. Il Messale e le soglie della vita. in: Un Messale per le nostre Assemblee: La terza edizione italiana del Messale Romano tra Liturgia e Catechesi. Fondazione di Religione Santi Francesco d’Assisi e Caterina da Siena: Roma, 2020, pp. 49-54.

Disponível em: https://liturgico.chiesacattolica.it/un-messale-per-le-nostre-assemblee/

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