domingo, 3 de janeiro de 2021

Homilia do Papa: Solenidade da Santa Mãe de Deus 2021

Santa Missa na Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus
54º Dia Mundial da Paz
Homilia do Papa Francisco
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 1° de janeiro de 2021

Devido a uma ciatalgia, o Papa não pode presidir a celebração, sendo substituído pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado, que leu a homilia preparada pelo Santo Padre:

Nas leituras litúrgicas de hoje, destacam-se três verbos que se realizam na Mãe de Deus: abençoar, nascer e encontrar.
Abençoar. No Livro dos Números, o Senhor pede aos ministros sagrados que abençoem o seu povo. «Abençoareis os filhos de Israel. Dizei-lhes: “O Senhor te abençoe”» (Nm 6,23-24). Não se trata de uma pia exortação, mas de uma exigência concreta. Também hoje é importante que os sacerdotes abençoem incansavelmente o Povo de Deus, e que todos os fiéis sejam também portadores de bênção e abençoem. O Senhor sabe que precisamos ser abençoados: a primeira coisa que Ele fez depois da criação foi bendizer - dizer bem -, declarar boa cada coisa e declarar-nos, a nós humanos, muito bons. Mas agora, com o Filho de Deus, não recebemos apenas palavras de bênção, mas a bênção em pessoa: Jesus é a bênção do Pai. N’Ele - diz São Paulo -, o Pai abençoa-nos «com toda a espécie de bênçãos» (Ef 1,3). Sempre que abrimos o coração a Jesus, entra na nossa vida a bênção de Deus.

Hoje celebramos o Filho de Deus, o Bendito por natureza, que vem a nós através de sua Mãe, a bendita por graça. Maria traz-nos, assim, a bênção de Deus. Onde estiver Ela, chega Jesus. Por isso, precisamos acolhê-la, como Santa Isabel que, imediatamente depois de fazê-la entrar em casa, reconhece-a como uma bênção, dizendo: «Bendita és Tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre» (Lc 1,42). São as palavras que repetimos na Ave-Maria. Ao dar espaço a Maria, não só ficamos abençoados, mas aprendemos também a abençoar. Com efeito, Nossa Senhora ensina que a bênção se recebe para dá-la. Ela, a bendita, foi uma bênção para todas as pessoas que encontrou: para Isabel, para os esposos em Caná, para os Apóstolos no Cenáculo... Também nós somos chamados a abençoar, a bendizer em nome de Deus. O mundo está gravemente poluído pelo dizer mal e pensar mal dos outros, da sociedade, de nós mesmos. De fato, a maledicência corrompe, faz degenerar tudo, enquanto a bênção regenera, dá força para recomeçar cada dia. Peçamos à Mãe de Deus a graça de sermos jubilosos portadores da bênção de Deus para os outros, como Ela o é para nós.

Nascer é o segundo verbo. São Paulo destaca o fato de o Filho de Deus ter «nascido de uma mulher» (Gl 4,4). Em poucas palavras, diz-nos uma coisa maravilhosa: o Senhor nasceu como nós. Não apareceu adulto, mas criança; não veio ao mundo por Si só, mas de uma mulher, depois de nove meses no ventre materno onde Se deixou tecer a humanidade. O coração do Senhor começou a palpitar em Maria, d’Ela recebeu oxigênio o Deus da vida. Desde então, Maria une-nos a Deus, porque, n’Ela, Deus ligou-Se à nossa carne e nunca mais a deixou. São Francisco gostava de dizer que Maria «tornou nosso irmão o Majestoso Senhor» (São Boaventura, Legenda major, 9, 3). Ela não é apenas a ponte entre nós e Deus; é mais: é o caminho que Deus percorreu para chegar até nós e é o caminho que nós devemos percorrer para chegar até Ele. Através de Maria, encontramos Deus como Ele quer: na ternura, na intimidade, na carne. Sim, porque Jesus não é uma ideia abstrata; é concreto, encarnado, nasceu de uma mulher e cresceu pacientemente. As mulheres conhecem este concretismo paciente: nós, homens, muitas vezes somos abstratos e queremos uma coisa imediatamente, ao passo que as mulheres são concretas e sabem tecer, com paciência, os fios da vida. Quantas mulheres, quantas mães fazem assim nascer e renascer a vida, dando futuro ao mundo!

Não estamos no mundo para morrer, mas para gerar vida. E a Santa Mãe de Deus ensina-nos que o primeiro passo para dar vida àquilo que nos rodeia é amá-lo dentro de nós. Diz o Evangelho de hoje que Ela «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2,19). E é do coração que nasce o bem: como é importante manter limpo o coração, guardar a vida interior, fazer oração! Como é importante educar o coração para o cuidado, para cuidar das pessoas e das coisas. Tudo começa daqui, de cuidarmos dos outros, do mundo, da criação. Pouco aproveita conhecer muitas pessoas e muitas coisas, se não cuidarmos delas. Neste ano, enquanto aguardamos um renascimento e novos tratamentos, não negligenciemos o cuidado. Com efeito, além da vacina para o corpo, é necessária a vacina para o coração: e esta vacina é o cuidado. Será um bom ano se cuidarmos dos outros, como Nossa Senhora faz conosco.

E o terceiro verbo é encontrar. O Evangelho diz que os pastores «encontraram Maria, José e o menino» (Lc 2,16). Não encontraram sinais prodigiosos e espetaculares, mas uma simples família. Lá, porém, encontraram verdadeiramente Deus, que é imensidão na pequenez, fortaleza na ternura. Mas, como conseguiram os pastores encontrar este sinal tão pouco cintilante? Foram chamados por um anjo. Também nós, não teríamos encontrado Deus, se não fôssemos chamados pela graça. Não podíamos imaginar um Deus assim, que nasce de mulher e revoluciona a história com a ternura; mas, pela graça, O encontramos. E descobrimos que o seu perdão faz renascer, que a sua consolação acende a esperança, e a sua presença dá-nos uma alegria irreprimível. Encontramo-Lo, mas não devemos perdê-Lo de vista. Na verdade, não se encontra de uma vez por todas o Senhor, mas devemos ir ter com Ele todos os dias. Por isso o Evangelho descreve sempre os pastores à procura, em movimento: foram apressadamente, encontraram, referiram, voltaram glorificando e louvando a Deus (cfLc 2,16-17.20). Não ficaram passivos, pois, para acolher a graça, é preciso permanecer ativo.

E nós... O que somos chamados a encontrar no início do ano? Seria bom encontrar tempo para alguém. O tempo é a riqueza que todos temos, mas somos ciumentos a seu respeito porque queremos usá-la só para nós. Devemos pedir a graça de encontrar tempo para Deus e para o próximo: para quem está só, para quem sofre, para quem precisa de escuta e atenção. Se encontrarmos tempo para doar, acabaremos maravilhados e felizes, como os pastores. Nossa Senhora, que trouxe Deus ao tempo, nos ajude a dar o nosso tempo. Santa Mãe de Deus, nós vos consagramos o novo ano. Vós que sabeis guardar no coração, cuidai de nós. Abençoai o nosso tempo e ensinai-nos a encontrar tempo para Deus e para os outros. Com alegria e confiança, nós vos aclamamos: Santa Mãe de Deus! Assim seja!


Fonte: Santa Sé.

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