segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

As Antífonas do Ó

“O Espírito e a Esposa dizem: Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,17.20).

Os dias 17 a 24 de dezembro formam, dentro do Tempo do Advento, o período de preparação próxima para o Natal do Senhor. Assim, de 17 a 23 de dezembro somos convidados a recitar as Antífonas maiores do Advento ou Antífonas do Ó.

Estas antífonas são aclamações a Cristo precedidas pelo vocativo “Ó”, de onde o seu nome: Ó Sabedoria, Ó Emmanuel... Constituem um admirável resumo da teologia do Advento, expressando o desejo pela vinda de Cristo, invocado com diversos títulos messiânicos do Antigo Testamento.


A origem das Antífonas do Ó

Uma antífona é um “refrão”, isto é, uma frase tomada da Sagrada Escritura ou da tradição da Igreja, que é entoada antes e depois de um salmo ou outro cântico bíblico ou mesmo entre cada estrofe [1].

As Antífonas do Ó, que provavelmente surgiram em Roma entre os séculos VII e VIII, são um conjunto de sete antífonas entoadas antes e depois do cântico evangélico das Vésperas (oração da tarde da Liturgia das Horas), o Magnificat (Lc 1, 46-55), entre os dias 17 a 23 de dezembro (uma vez que no dia 24 rezam-se já as I Vésperas do Natal): O Sapientia, O Adonai, O Radix Jesse, O Clavis David, O Oriens, O Rex Gentium, O Emmanuel.

Quando as antífonas se difundiram por outras igrejas do Ocidente, como Inglaterra ou França, seu número aumentou, chegando a oito, nove ou mesmo doze. Por exemplo, em algumas dioceses da França, as antífonas costumavam ser nove, entoadas durante a novena de Natal, acompanhando o Magnificat e a solene incensação do altar [2].


A unidade das sete antífonas originais é dada pelo acróstico: se tomamos a primeira letra de cada antífona na ordem inversa encontramos a expressão latina “ERO CRAS” (Emmanuel, Rex, Oriens, Clavis, Radix, Adonai e Sapientia), que significa “Virei amanhã” ou “Estarei amanhã”. O acróstico é como que a resposta de Cristo à insistente súplica da Igreja ao longo das antífonas: “Vinde!”.

Além do acróstico, todas as sete antífonas são dirigidas a Cristo. Em contrapartida, as antífonas acrescentadas por outras igrejas são dirigidas tanto a Cristo (como “O Rex Pacifice”, “O Sancte sanctorum” e “O pastor Israel”), quanto à Virgem Maria (“O Virgo virginum” e “O mundi Domina”), ao Arcanjo Gabriel (“O Gabriel, nuntius coelorum”) e mesmo à cidade de Jerusalém (“O Hierusalem”).

A Virgem Maria, com efeito, permanece ligada às Antífonas do Ó: Nossa Senhora da Expectação (ou da Expectativa) do Parto, isto é, Nossa Senhora grávida, celebrada no dia 18 de dezembro, também é chamada de Nossa Senhora do Ó, em referência às célebres antífonas.

Nossa Senhora do Ó (Sabará - MG)

Em língua inglesa, por sua vez, as sete antífonas originais se popularizaram no século XIX, após a publicação de uma paráfrase pelo reverendo anglicano John Mason Neale (†1866). Trata-se da canção “O come, o come, Emmanuel” (ou, em latim, “Veni, veni, Emmanuel”).


As Antífonas do Ó hoje

Na Liturgia das Horas reformada pelo Concílio Vaticano II, as Antífonas do Ó são propostas como antífonas do Cântico Evangélico das Vésperas, o Magnificat (Lc 1,46-55), dos dias 17 a 23 de dezembro. Mesmo no IV Domingo do Advento, que cai sempre nesses dias, recita-se a respectiva Antífona do Ó, tal a sua importância.

Além da Liturgia das Horas, uma versão mais breve das antífonas é proposta como versículo de aclamação ao Evangelho para a Missa desses dias, junto ao “Aleluia”, porém em uma ordem ligeiramente distinta.

Painéis com as Antífonas do Ó na Catedral de Jacarta (Indonésia)

A seguir publicamos o texto das Antífonas do Ó, em seu original em latim e em sua tradução oficial para o português do Brasil presente na Liturgia das Horas [3]:

17 de dezembro: Ó Sabedoria

O Sapientia, quae ex ore Altissimi prodiisti,
attingens a fine usque ad finem,
fortiter suaviterque disponens omnia:
veni ad docendum nos viam prudentiae.

Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo,
e atingis os confins de todo o universo
e com força e suavidade governais o mundo inteiro:
Ó vinde ensinar-nos o caminho da prudência!


18 de dezembro: Ó Adonai

O Adonai, et dux domus Israel,
qui Moysi in igne flammae rubi apparuisti,
et ei in Sina legem dedisti:
veni ad redimendum nos in bracchio extento.

Ó Adonai, guia da casa de Israel,
que aparecestes a Moisés na sarça ardente
e lhe destes vossa lei sobre o Sinai:
Vinde salvar-nos com o braço poderoso!


19 de dezembro: Ó Raiz de Jessé

O Radix Iesse, qui stas in signum populorum,
super quem continebunt reges os suum,
quem gentes deprecabuntur:
veni ad liberandum nos, iam noli tardare.

Ó Raiz de Jessé, ó estandarte, levantado em sinal para as nações!
Ante vós se calarão os reis da terra,
e as nações implorarão misericórdia:
Vinde salvar-nos! Libertai-nos sem demora!


20 de dezembro: Ó Chave de Davi

O Clavis David, et sceptrum domus Israel,
qui aperis, et nemo claudit; claudis, et nemo aperit:
veni et educ vinctum de domo carceris,
sedentem in tenebris et umbra mortis.

Ó Chave de Davi, Cetro da casa de Israel,
que abris e ninguém fecha, que fechais e ninguém abre:
Vinde logo e libertai o homem prisioneiro,
que nas trevas e na sombra da morte está sentado.


21 de dezembro: Ó Sol Nascente

O Oriens, splendor lucis aeternae et sol iustitiae:
veni, et illumina sedentes in tenebris et umbra mortis.

Ó Sol nascente, justiceiro, resplendor da Luz eterna:
Ó vinde e iluminai os que jazem entre as trevas
e na sombra do pecado e da morte estão sentados!


22 de dezembro: Ó Rei das Nações

O Rex Gentium, et desideratus earum,
lapisque angularis, qui facis utraque unum:
veni, et salva hominem, quem de limo formasti.

Ó Rei das nações, Desejado dos povos;
Ó Pedra angular, que os opostos unis:
Ó vinde e salvai este homem tão frágil,
que um dia criastes do barro da terra.


23 de dezembro: Ó Emmanuel

O Emmanuel, Rex et legifer noster,
exspectatio gentium et Salvator earum:
veni ad salvandum nos, Domine Deus noster.

Ó Emanuel, Deus-conosco, nosso Rei Legislador,
Esperança das nações e dos povos Salvador:
Vinde enfim para salvar-nos, ó Senhor e nosso Deus!


“Hoje sabereis que o Senhor mesmo virá,
e amanhã haveis de ver a sua glória em nosso meio”
(Antífona do Invitatório do dia 24 de dezembro).

Representação das sete Antífonas do Ó
(Catedral Episcopal de São Marcos, Seattle - EUA)


Notas:

[1] cf. BERGER, Rupert. Antífona. in: Dicionário de Liturgia Pastoral: Obra de consulta sobre todas as questões referentes à Liturgia. São Paulo: Loyola, 2010, pp. 24-25.

[2] Como vimos em nossa postagem sobre a novena de Natal, no Brasil foi publicado o Ofício Divino das Comunidades, uma versão simplificada da Liturgia das Horas, no qual há nove antífonas: além das sete tradicionais, propõem-se para os dias 15 e 16 de dezembro as antífonas “Ó Mistério” e “Ó Libertação” (cf. OFÍCIO DIVINO DAS COMUNIDADES. São Paulo: Paulus, 1994, pp. 495-503).

[3] OFÍCIO DIVINO. Liturgia das Horas segundo o Rito Romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Paulus, 1999, v. I: Tempo do Advento e Tempo do Natal, pp. 291.299.306.314.322.330.338.

Referências:

Henry, Hugh. O Antiphons. in: The Catholic Encyclopedia, vol. 11, 1911. Disponível em: The New Advent.

RIGHETTI, Mario. Historia de la Liturgia, v. I: Introducción general; El año litúrgico; El Breviario. Madrid: BAC, 1955, p. 686.

TABORDA, Francisco. Estarei amanhã (Erro cras): Uma meditação teológica para o Advento. in: Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, vol. 76, n. 303, jul./set. 2016, pp. 644-673.

VIGNERON, Jomar. Antífonas do Ó: Um tesouro da Liturgia do Advento. São Paulo: Paulus, 2014.

Postagem publicada originalmente em 17 de dezembro de 2012. Revista e ampliada em 14 de novembro de 2021.

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