sábado, 10 de março de 2018

Homilia: IV Domingo da Quaresma - Ano B


São João Crisóstomo
Do Tratado sobre a Providência
“Deus não perdoou ao seu próprio Filho, mas o entregou à morte por nós”

Honrando como honramos por motivos tão diversos o nosso comum Senhor, não devemos, sobretudo, honrá-lo, glorificá-lo e admirá-lo pela cruz e por aquela morte tão ignominiosa? Ou será que Paulo não apresenta frequentemente a morte de Cristo como prova de seu amor por nós? E morrer por quê? Silenciando tudo o que Cristo fez para nosso bem e consolação, Paulo volta quase que obsessivamente ao tema da cruz, dizendo: A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Deste fato, São Paulo tenta elevar-nos às mais promissoras esperanças, dizendo: Se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! O mesmo Paulo tem isto como motivo de alegria e de orgulho, e salta de júbilo escrevendo aos gálatas: Deus me livre de gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.
E por que te admiras de que isto faça Paulo saltar, dançar e alegrar-se? O mesmo que padeceu tais sofrimentos chama “glória” ao seu suplício: Pai, diz ele, chegou minha hora: glorifica a teu Filho.
E o discípulo que escreveu estas coisas dizia: Mas ainda não tinha dado o Espírito, porque Jesus não havia sido glorificado, chamando “glória” à cruz. E, quando quis ressaltar a caridade de Cristo, do que João se serviu? De seus milagres? Das maravilhas que realizou? Dos prodígios que operou? Nada disso: traz à cruz a comparação, dizendo: Deus tanto amou o mundo que entregou a seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. E novamente Paulo: Aquele que não perdoou ao seu próprio Filho, mas o entregou à morte por nós, como não nos dará tudo com ele?
E quando deseja convidar-nos à humildade, então dá o sentido à sua exortação se expressando assim: Tende em vós os sentimentos de Cristo Jesus. Ele, apesar de sua condição divina, não se vangloriou de sua igualdade com Deus; ao contrário, despojou-se de sua dignidade e assumiu a condição de servo, fazendo-se semelhante aos homens. E assim, agindo como um dentre nós, rebaixou-se até submeter-se à morte, e morte de cruz.
Em outra ocasião, dando conselhos a respeito da caridade, retorna ao mesmo tema, dizendo: Vivei no amor assim como Cristo vos amou e se entregou por nós como oblação e vítima de agradável odor. E, finalmente, o próprio Cristo, para demonstrar como a cruz era sua principal preocupação, e como sua paixão primava nele, escuta o que ele disse ao príncipe dos Apóstolos, ao fundamento da Igreja, ao corifeu do coro dos Apóstolos, quando a partir de sua ignorância lhe dizia: Que Deus não o permita, Senhor! Isso não pode acontecer: Aparta-te, lhe disse, satanás, com teus obstáculos. Com a severa correção e reprimenda, quis deixar muito claro a grande importância que a cruz tinha aos seus olhos. Por que te maravilhas, portanto, de que nesta vida a cruz seja tão célebre a ponto de Cristo chamá-la de sua “glória” e Paulo nela se glorie?


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 317-318.

Nenhum comentário:

Postar um comentário