sexta-feira, 30 de março de 2018

Homilia: Celebração da Paixão do Senhor

São Cirilo de Alexandria
Comentário sobre o Evangelho de São João
“Cristo entregou a sua alma nas mãos do Pai, abrindo-nos a novas luminosas esperanças”

Jesus, quando tomou o vinagre, disse: “Está consumado”. E inclinando a cabeça, entregou o espírito. Disse com razão: “Está consumado”. Já tem ressoado a hora de levar a mensagem de salvação aos espíritos que se encontram nos abismos. Ele veio realmente para estabelecer sua soberania sobre os vivos e os mortos. Por nós suportou a mesma morte na carne assunta, totalmente igual a nossa, ele que por natureza, Deus como é, é a própria vida. Tudo isto ele quis expressamente para destronar aos poderes abismais, e preparar deste modo o retorno da natureza humana à vida verdadeira, ele, primícias dos mortos e primogênito de toda criatura.
Inclinando a cabeça: é o gesto característico de quem acaba de morrer, quando, ao faltar o espírito que mantém unido a todo o corpo, os músculos e os nervos se relaxam. Por isso, a expressão do evangelista não é totalmente apropriada, apesar de introduzir imediatamente outra frase comumente utilizada, também ela, para indicar que alguém morrer: entregou o espírito.
Parece como se, impulsionado por uma particular inspiração, o evangelista não tenha dito simplesmente morreu, mas entregou o espírito. Ou seja, entregou seu espírito nas mãos do Pai, conforme o que ele mesmo tinha dito, embora através da profética voz do salmista: Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito. Entretanto, a força e o sentido destas palavras constituíam para nós o começo e o fundamento de uma ditosa esperança.
Devemos realmente crer que as almas dos santos, ao sair do corpo, não somente se confiam às mãos do Pai amadíssimo, Deus de bondade e de misericórdia, mas na maioria dos casos se apressam ao encontro do Pai comum e de nosso Salvador Jesus Cristo, que nos desatou o caminho. Nem é correto pensar – como fazem os pagãos – que estas almas estejam esvoaçando em torno aos seus túmulos, à espera dos sacrifícios oferecidos pelos mortos, ou que sejam precipitadas, como as almas dos pecadores, no lugar de imenso suplício, isto é, no inferno.
Cristo entregou sua alma nas mãos do Pai, para que nela e por ela nós alcancemos o começo da luminosa esperança, sentindo e crendo firmemente que, depois de ter suportado a morte na carne, estaremos nas mãos de Deus, em um estado de vida infinitamente melhor que aquele que tínhamos enquanto vivíamos na carne. Por isso, o Doutor dos Gentios escreve que é muito melhor partir deste corpo para estar com Cristo.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 331-332.

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