sábado, 31 de março de 2018

Homilia: Vigília Pascal

Santo Agostinho
Sermão 221
“Passamos em vigília a noite em que o Senhor ressuscitou”

Nenhum cristão duvida de que Cristo o Senhor ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia. O santo Evangelho atesta que o acontecimento teve lugar esta noite. Não há dúvida de que começam a contar-se os dias desde a noite precedente, ainda que não se ajuste à ordem de dias mencionados no Gênesis, apesar de que também ali as trevas precederam ao dia, pois as trevas cobriam o abismo quando Deus disse: Haja luz, e a luz foi feita. Porém, como aquelas trevas ainda não eram a noite, também não havia dias.
Realmente, Deus separou a luz das trevas, e primeiramente chamou dia à luz, e noite às trevas, e foi mencionado como um só dia o espaço desde que se fez a luz até a manhã seguinte. Está claro que aqueles dias começaram com a luz e, passada a noite, cada um durava até a manhã seguinte. Entretanto, depois que o homem criado pela luz da justiça caiu nas trevas do pecado, das quais o libertou a graça de Cristo, aconteceu que contamos os dias a partir das noites, porque nosso esforço não se dirige a passar da luz para as trevas, mas das trevas para a luz, coisa que esperamos conseguir com o auxílio do Senhor.
Assim diz também o Apóstolo: A noite passou, o dia se aproxima; depojemo-nos das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Portanto, o dia da Paixão do Senhor, dia em que foi crucificado, seguia a própria noite já passada, e por isso encerrou e concluiu na preparação da Páscoa, que os judeus chamam também “ceia pura”, e a observância do sábado começava ao início desta noite. Em consequência, o sábado que começou com sua própria noite concluiu na tarde da noite seguinte, que já é o começo do dia do Senhor, porque o Senhor o tornou sagrado com a glória de sua ressurreição.
Assim, nesta solenidade celebramos agora a memória daquela noite que dava começo ao dia do Senhor, e passamos em vigília a noite em que o Senhor ressuscitou. A vida da qual falava um pouco antes, na qual não haverá nem morte nem sono, ele a iniciou para nós em sua carne, que ressuscitou dentre os mortos de tal forma que já não morre nem a morte tem domínio sobre ela.
Aqueles que o amavam chegaram ao sepulcro para buscar seu corpo já de manhã, e não o encontraram, mas receberam um aviso da parte dos anjos, de que já tinha ressuscitado. Torna-se claro, portanto, que tinha ressuscitado naquela mesma noite, cujo término foi aquele amanhecer. Em consequência, o Ressuscitado, a quem cantamos nesta vigília um pouco mais longa, nos concederá o reinar com ele na vida sem fim. E se por casualidade ainda se encontrava seu corpo no sepulcro e ainda não tinha ressuscitado nestas horas que passamos em vigilância, nem por isso nos comportamos sem coerência ao proceder assim, pois quem morreu para que nós tivéssemos vida, dormiu para que nós estivéssemos em vigília. Amém.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 336-337.

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