Para a última Via Sacra no Coliseu do pontificado de São João Paulo II, na noite da Sexta-feira Santa, 25 de março de 2005, Sexta-feira Santa, as meditações foram preparadas pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, Decano do Colégio Cardinalício e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
O Papa não pode participar da celebração, que foi presidida pelo Cardeal Camilo Ruini, Vigário Geral para a Diocese de Roma. O Pontífice acompanhou a celebração da sua capela privada, pela televisão, segurando uma cruz em suas mãos. Este viria a falecer poucos dias depois, sendo sucedido pelo Cardeal Ratzinger, que assumiu o nome de Bento XVI.
Cardeal Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI) |
Confira a seguir o texto das meditações, acompanhado das ilustrações do livreto da celebração, tomadas da Via Sacra da Catedral de Pádua (Itália), obra de um autor anônimo do século XVIII.
Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via Sacra no Coliseu
Sexta-feira Santa, 25 de março de 2005
Meditações e orações do Cardeal Joseph Ratzinger
Apresentação
O leitmotiv desta Via Sacra é evidenciado
já na oração inicial e, depois, na XIV estação. Trata-se da afirmação
pronunciada por Jesus no Domingo de Ramos - logo após sua entrada em Jerusalém -
como resposta à súplica de alguns gregos que queriam vê-Lo: «Se o grão de trigo que cai na terra não
morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito
fruto» (Jo 12,24). Deste modo, o
Senhor interpreta todo o seu caminho terreno como o percurso do grão de trigo
que, só através da morte, chega a produzir fruto. Interpreta a sua vida
terrena, a sua Morte e a sua Ressurreição de modo a desembocar na Santíssima
Eucaristia, na qual está compendiado todo o seu mistério. Uma vez que Ele viveu
a sua Morte como uma oferta de Si mesmo, como um ato de amor, o seu corpo foi
transformado na nova vida da Ressurreição. Por isso, Ele, o Verbo encarnado,
tornou-Se agora o nosso alimento, que conduz à verdadeira vida, à vida eterna.
O Verbo eterno - a força criadora da vida - desceu do Céu, tornando-Se assim o
verdadeiro maná, o pão que o homem comunga na fé e no sacramento. Deste modo, a
Via Sacra torna-se num caminho que introduz dentro do mistério eucarístico: a
piedade popular e a piedade sacramental da Igreja interligam-se e fundem-se. A
devoção da Via-Sacra pode ser vista como um caminho que leva à comunhão
profunda, espiritual com Jesus, sem a qual ficaria vazia a comunhão
sacramental. A Via Sacra apresenta-se como um caminho «mistagógico».
Contraposta a
esta visão, aparece a compreensão puramente sentimental da Via Sacra, para cujo
perigo, na VIII estação, o Senhor alerta as mulheres de Jerusalém que choram
por Ele. O mero sentimento não basta; a Via Sacra deveria ser uma escola de fé,
daquela fé que, por sua natureza, «atua pela caridade» (Gl 5,6). Mas isto não quer dizer que se deva excluir o sentimento.
Segundo os Padres da Igreja, o primeiro defeito dos pagãos é precisamente a sua
falta de coração; por isso, os Padres repropõem a visão de Ezequiel que
comunica ao povo de Israel a promessa feita por Deus de tirar do peito deles o
coração de pedra e dar-lhes um coração de carne (cf. Ez 11,19). A Via-Sacra mostra-nos um Deus que partilha
pessoalmente os sofrimentos dos homens, cujo amor não se mantém impassível nem
distante, mas desce ao nosso meio, até à morte na cruz (cf. Fl 2,8). Este Deus que partilha os nossos sofrimentos, o Deus
que Se fez homem para levar a nossa cruz, quer transformar o nosso coração de
pedra chamando-nos a partilhar os sofrimentos alheios, quer dar-nos um «coração
de carne» que não fique impassível diante dos sofrimentos alheios, mas se deixe
comover e nos leve ao amor que cura e ajuda. Isto reconduz-nos às palavras de
Jesus sobre o grão de trigo que Ele mesmo transforma em fórmula basilar da
existência cristã: «Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta
de sua vida neste mundo a conservará para a vida eterna» (Jo 12,25; cf. Mt 16,25; Mc 8,35; Lc 9,24; 17,33). Daqui se vê também o alcance do significado da
frase que precede, nos Evangelhos Sinóticos, esta afirmação central da sua
mensagem: «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua
cruz e siga-Me» (Mt 16,24). Com todas
estas palavras, o próprio Jesus nos dá a interpretação da «Via Sacra»,
ensina-nos como devemos fazê-la e segui-la: a Via Sacra é o caminho da perda de
nós mesmos, isto é, o caminho do amor verdadeiro. Ele precedeu-nos neste
caminho; este é o caminho que a devoção da Via Sacra nos quer ensinar. E isto
leva-nos mais uma vez ao grão de trigo, à Santíssima Eucaristia, na qual se
torna continuamente presente entre nós o fruto da Morte e da Ressurreição de
Jesus. Na Eucaristia, Ele caminha conosco, como outrora com os discípulos de
Emaús, fazendo-Se constantemente nosso contemporâneo.
O Papa João Paulo II acompanha a Via Sacra (2005) |
Oração inicial
V. Em nome do
Pai e do Filho e do Espírito Santo.
R. Amém.
Senhor Jesus
Cristo, por nós aceitastes a sorte do grão de trigo que cai na terra e morre
para produzir muito fruto (Jo 12,24).
E convidais-nos a seguir-Vos pelo mesmo caminho quando dizeis: «Quem se apega à
sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo a conservará
para a vida eterna» (Jo 12,15). Mas
nós estamos agarrados à nossa vida. Não queremos abandoná-la, mas reservá-la
inteiramente para nós mesmos. Queremos possuí-la; não oferecê-la. Mas Vós
seguis à nossa frente e mostrais-nos que só dando a nossa vida é que podemos
salvá-la. Acompanhando-Vos na vossa Via Sacra, quereis que sigamos o caminho do
grão de trigo, o caminho de uma fecundidade que dura até à eternidade. A cruz -
a oferta de nós mesmos - custa-nos muito. Mas, na vossa Via Sacra, carregastes
também a minha cruz, e não o fizestes em um momento remoto qualquer, porque o
vosso amor é contemporâneo à minha vida. Hoje mesmo carregais a cruz comigo e
por mim, e, de modo admirável, quereis que agora também eu, como outrora Simão
de Cirene, carregue convosco a vossa cruz e, acompanhando-Vos, me coloque
convosco a serviço da redenção do mundo. Ajudai-me para que a minha Via Sacra
não seja apenas um sentimento devoto fugidio. Ajudai-nos a acompanhar-Vos não
somente com nobres pensamentos, mas a percorrer o vosso caminho com o coração,
antes, com os passos concretos da nossa vida diária. Ajudai-nos para que
sigamos com todo o nosso ser o caminho da cruz, e permaneçamos no vosso caminho
para sempre. Livrai-nos do medo da cruz, do medo perante a zombaria alheia, do
medo de poder fugir-nos a nossa vida se não agarrarmos tudo o que ela nos
oferece. Ajudai-nos a desmascarar as tentações que prometem vida, mas cujas
ofertas no fim nos deixam apenas vazios e desiludidos. Ajudai-nos a não querer
apoderarmo-nos da vida, mas a dá-la. Ajudai-nos, acompanhando-Vos pelo percurso
do grão de trigo, a encontrar, no «perder a vida», o caminho do amor, o caminho
que verdadeiramente nos dá a vida, e vida em abundância (Jo 10,10).
I Estação: Jesus é condenado à morte
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R.
Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,22-23.26)
Pilatos
perguntou: “Que farei com Jesus, que chamam de Cristo?”. Todos gritaram: “Seja
crucificado!”. Pilatos falou: “Mas, que mal ele fez?”. Eles, porém, gritaram
com mais força: “Seja crucificado!”. (...) Então Pilatos soltou Barrabás,
mandou flagelar Jesus, e entregou-o para ser crucificado.
Meditação
O Juiz do mundo,
que um dia voltará para nos julgar a todos, está ali, aniquilado, insultado e
inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de malvadez. Sabe que
este condenado é inocente; procura um modo de libertá-Lo. Mas o seu coração
está dividido. E, no fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, sobre o
direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros
de malvadez. Muitos deles, no dia de Pentecostes, se sentirão «emocionados até
ao fundo do coração» (At 2,37),
quando Pedro lhes disser: «Jesus de Nazaré foi um homem aprovaado por Deus junto
de vós (...) entregue pelas mãos dos ímpios, vós o matastes, pregando-o numa
cruz» (At 2,22-23). Mas naquele
momento sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e como
gritam os outros. E, assim, a justiça é espezinhada pela covardia, pela
pusilanimidade, pelo medo do ditame da mentalidade predominante. A voz sutil da
consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito
humano dão força ao mal.
Oração
Senhor, fostes
condenado à morte porque o medo do olhar alheio sufocou a voz da consciência.
E, assim, acontece que, sempre ao longo de toda a história, inocentes sejam
maltratados, condenados e mortos. Quantas vezes também nós preferimos o sucesso
à verdade, a nossa reputação à justiça. Dai força, na nossa vida, à voz subtil
da consciência, à vossa voz. Olhai-me como olhastes para Pedro depois de Vos
ter negado. Fazei com que o vosso olhar penetre nas nossas almas e indique a
direção à nossa vida. Àqueles que na Sexta-feira Santa gritaram contra Vós, no
dia de Pentecostes destes a contrição do coração e a conversão. E assim destes
esperança a todos nós. Não cesseis de dar também a nós a graça da conversão.
Pai
nosso...
Stabat
Mater dolorosa, / iuxta crucem lacrimosa, / dum pendebat Filius.
II Estação: Jesus é carregado com a cruz
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R.
Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt
27,27-31)
Os soldados de
Pilatos levaram Jesus ao palácio do governador, e reuniram toda a tropa em
volta dele. Tiraram sua roupa e o vestiram com um manto vermelho; depois
teceram uma coroa de espinhos, puseram a coroa em sua cabeça, e uma vara em sua
mão direita. Então se ajoelharam diante de Jesus e zombaram, dizendo: “Salve,
rei dos judeus!”. Cuspiram nele e, pegando uma vara, bateram na sua cabeça. Depois
de zombar dele, tiraram-lhe o manto vermelho e, de novo, o vestiram com suas
próprias roupas. Daí o levaram para crucificar.
Meditação
Jesus, condenado
como pretenso rei, é escarnecido, mas precisamente na zombaria aparece
cruelmente a verdade. Quantas vezes as insígnias do poder trazidas pelos
poderosos deste mundo são um insulto à verdade, à justiça e à dignidade do
homem! Quantas vezes os seus rituais e as suas grandes palavras,
verdadeiramente, não passam de pomposas mentiras, uma caricatura do dever que
lhes incumbe por força do seu cargo, ou seja, colocar-se a serviço do bem. Por
isso mesmo, Jesus, Aquele que é escarnecido e que traz a coroa do sofrimento, é
o verdadeiro rei. O seu cetro é justiça (cf.
Sl 44,7). O preço da justiça é
sofrimento neste mundo: Ele, o verdadeiro rei, não reina por meio da violência,
mas através do amor com que sofre por nós e conosco. Ele carrega a cruz, a
nossa cruz, o peso de sermos homens, o peso do mundo. É assim que Ele nos
precede e mostra como encontrar o caminho para a vida verdadeira.
Oração
Senhor,
deixastes que Vos escarnecessem e ultrajassem. Ajudai-nos a não fazer coro com
aqueles que escarnecem quem sofre e quem é frágil. Ajudai-nos a reconhecer o
vosso rosto em quem é humilhado e marginalizado. Ajudai-nos a não desanimar
perante as zombarias do mundo quando a obediência à vossa vontade é metida a
ridículo. Carregastes a cruz e convidastes-nos a seguir-Vos por este caminho (Mt 10,38). Ajudai-nos a aceitar a cruz,
a não fugir dela, a não lamentarmo-nos nem deixar que os nossos corações se
abatam com as provas da vida. Ajudai-nos a percorrer o caminho do amor e,
obedecendo às suas exigências, a alcançar a verdadeira alegria.
Pai
nosso...
Cuius
animam gementem, / contristatam et dolentem / pertransivit gladius.
III Estação: Jesus cai pela primeira vez
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R.
Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Livro do Profeta Isaías (Is 53,4-6)
A verdade é que Ele
tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, Ele mesmo, nossas dores; e nós
pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! Mas Ele foi ferido
por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a Ele
imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura. Todos
nós vagávamos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo seu caminho; e o
Senhor fez recair sobre Ele o pecado de todos nós.
Meditação
O homem caiu e
continua a cair: quantas vezes ele se torna a caricatura de si mesmo, já não é
a imagem de Deus, mas algo que mete a ridículo o Criador. Aquele que, ao descer
de Jerusalém para Jericó, tropeçou nos ladrões que o despojaram, deixando-o
meio morto, sangrando na beira da estrada, não é porventura a imagem por
excelência do homem? A queda de Jesus sob a cruz não é apenas a queda do homem
Jesus, já extenuado pela flagelação. Aqui aparece algo de mais profundo, como
diz Paulo na Carta aos Filipenses: «Ele,
existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se
a si mesmo assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens.
(...) humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de
cruz» (Fl 2,6-8). Na queda de Jesus
sob o peso da cruz é visível todo este seu itinerário: a sua voluntária
humilhação para nos levantar do nosso orgulho. E ao mesmo tempo aparece a
natureza do nosso orgulho: a soberba pela qual desejamos emancipar-nos de Deus
sendo apenas nós mesmos, pela qual cremos que não temos necessidade do amor
eterno, mas queremos organizar a nossa vida sozinhos. Nesta revolta contra a
verdade, nesta tentativa de nos tornarmos deus, de sermos criadores e juízes de
nós mesmos, caímos e acabamos por autodestruir-nos. A humilhação de Jesus é a
superação da nossa soberba: com a sua humilhação, Ele faz-nos levantar.
Deixemos que nos levante. Despojemos-nos da nossa autossuficiência, da nossa
errada cisma de autonomia e, ao contrário, aprendamos d’Ele, d’Aquele que Se
humilhou, ou seja, aprendamos a encontrar a nossa verdadeira grandeza,
humilhando-nos e voltando-nos para Deus e para os irmãos espezinhados.
Oração
Senhor Jesus, o
peso da cruz fez-Vos cair por terra. O peso do nosso pecado, o peso da nossa
soberba deita-Vos ao chão. Mas, a vossa queda não é sinal de um destino
adverso, nem é a pura e simples fraqueza de quem é espezinhado. Quisestes vir
até junto de nós que, pela nossa soberba, jazemos por terra. A soberba de
pensar que somos capazes de produzir o homem fez com que os homens se tenham
tornado um espécie de mercadoria para comprar e vender, como que uma reserva de
material para as nossas experiências, pelas quais esperamos de, por nós mesmos,
superar a morte, quando, na verdade, conseguimos apenas humilhar cada vez mais
profundamente a dignidade do homem. Senhor, vinde em nossa ajuda, porque
caímos. Ajudai-nos a abandonar a nossa soberba devastadora e, aprendendo da
vossa humildade, a pormo-nos novamente de pé.
Pai nosso...
O quam tristis et afflicta / fuit illa
benedicta / Mater Unigeniti!
IV Estação: Jesus encontra sua Mãe
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R.
Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 2,34-35.51)
Simeão os
abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de
queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de
contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a
ti, uma espada te transpassará a alma”. (...) Sua mãe conservava no coração
todas estas coisas.
Meditação
Na Via Sacra de
Jesus, aparece também Maria, sua Mãe. Durante a sua vida pública, teve de ficar
de lado para dar lugar ao nascimento da nova família de Jesus, a família dos
seus discípulos. Teve também de ouvir estas palavras: «Quem é minha Mãe e quem
são meus irmãos? (...) Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos
céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12,48.50). Pode-se agora constatar que Ela é a Mãe de Jesus não
só no corpo, mas também no coração. Ainda antes de tê-Lo concebido no corpo,
pela sua obediência concebera-O no coração. Fora-Lhe dito: «Eis que conceberás
e darás à luz um filho... Ele será grande... e o Senhor Deus lhe dará o trono
de seu pai Davi» (Lc 1,31-32). Mas
algum tempo depois ouvira da boca do velho Simeão uma palavra diferente: «Uma
espada te transpassará a alma» (Lc 2,35).
Deste modo terá se lembrado de certas palavras pronunciadas pelos profetas,
tais como: «Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro
levado ao matadouro» (Is 53,7). Agora
tudo isto se torna realidade. No coração, tinha sempre conservado as palavras
que o anjo Lhe dissera quando tudo começou: «Não tenhas medo, Maria» (Lc 1,30). Os discípulos fugiram; Ela não
foge. Ela está ali, com a coragem de mãe, com a fidelidade de mãe, com a
bondade de mãe, e com a sua fé, que resiste na escuridão: «Bem-aventurada aquela
que acreditou» (Lc 1,45). «Mas,
quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?» (Lc 18,8). Sim, agora Ele sabe-o:
encontrará fé. E esta é, naquela hora, a sua grande consolação.
Oração
Santa Maria, Mãe
do Senhor, permanecestes fiel quando os discípulos fugiram. Tal como
acreditastes quando o anjo Vos anunciou o que era incrível - que haverias de
ser Mãe do Altíssimo - assim também acreditastes na hora da sua maior
humilhação. E foi assim que, na hora da cruz, na hora da noite mais escura do
mundo, Vos tornastes Mãe dos crentes, Mãe da Igreja. Nós Vos pedimos:
ensinai-nos a acreditar e ajudai-nos para que a fé se torne coragem de servir e
gesto de um amor que socorre e sabe partilhar o sofrimento.
Pai nosso...
Quae maerebat et dolebat, / pia Mater, dum
videbat / Nati poenas incliti.
V Estação: Jesus é ajudado a levar a cruz pelo Cireneu
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,32; 16,24)
Quando saíam,
encontraram um homem chamado Simão, da cidade de Cirene, e o obrigaram a
carregar a cruz de Jesus. (...) Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me
seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.
Meditação
Simão de Cirene
regressa do trabalho, vai a caminho de casa quando se cruza com aquele triste
cortejo de condenados - para ele talvez fosse um espetáculo habitual. Os
soldados valem-se do seu direito de coação e colocam a cruz às costas dele,
robusto homem do campo. Que aborrecimento não deverá ter sentido ao ver-se
inesperadamente envolvido no destino daqueles condenados! Faz o que deve fazer,
mas certamente com grande relutância. E, todavia, o evangelista Marcos nomeia,
juntamente com ele, também os seus filhos, que evidentemente eram conhecidos
como cristãos, como membros daquela comunidade (Mc 15,21). Do encontro involuntário, brotou a fé. Acompanhando
Jesus e compartilhando o peso da cruz, o Cireneu compreendeu que era uma graça
poder caminhar juntamente com este Crucificado e assisti-Lo. O mistério de
Jesus que sofre calado tocou-lhe o coração. Jesus, cujo amor divino era o único
que podia, e pode, redimir a humanidade inteira, quer que compartilhemos a sua
cruz para completar o que ainda falta aos seus sofrimentos (Cl 1,24). Sempre que, bondosamente,
vamos ao encontro de alguém que sofre, alguém que é perseguido e inerme,
partilhando o seu sofrimento ajudamos a levar a própria cruz de Jesus. E assim
obtemos salvação, e nós mesmos podemos contribuir para a salvação do mundo.
Oração
Senhor, abristes
a Simão de Cirene os olhos e o coração, dando-lhe, na partilha da cruz, a graça
da fé. Ajudai-nos a assistir o nosso próximo que sofre, ainda que este
chamamento resulte em contradição com os nossos projetos e as nossas simpatias.
Concedei-nos reconhecer que é uma graça poder partilhar a cruz dos outros e
experimentar que dessa forma estamos a caminhar convosco. Fazei-nos reconhecer
com alegria que é precisamente pela partilha do vosso sofrimento e dos
sofrimentos deste mundo que nos tornamos ministros da salvação, podendo assim
ajudar a construir o vosso corpo, a Igreja.
Pai nosso...
Quis est homo qui non fleret, / Matrem
Christi si videret / in tanto supplicio?
VI Estação: Verônica limpa o rosto de Jesus
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Livro do Profeta Isaías (Is 53,2-3)
Não tinha beleza
nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado
como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos;
passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso
dele.
Do Livro dos Salmos (Sl 26,8-9)
Meu coração fala
convosco confiante, e os meus olhos vos procuram. Senhor, é vossa face que eu
procuro; não me escondais a vossa face! Não afasteis em vossa ira o vosso
servo, sois vós o meu auxílio! Não me esqueçais nem me deixeis abandonado, meu
Deus e Salvador!
Meditação
«Senhor, é vossa
face que eu procuro; não me escondais a vossa face!» (Sl 26,8). Verônica - Berenice, segundo a tradição grega - encarna
este anseio que irmana todos os homens piedosos do Antigo Testamento, o anseio
que provam todos os homens crentes de verem o rosto de Deus. Em todo o caso, na
Via Sacra de Jesus, inicialmente ela limitara-se a prestar um serviço de
gentileza feminina: oferecer um lenço a Jesus. Não se deixa contagiar pela
brutalidade dos soldados, nem imobilizar pelo medo dos discípulos. É a imagem
da mulher bondosa que, perante o turbamento e escuridão dos corações, mantém a
coragem da bondade, não permite ao seu coração de entenebrecer-se:
«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» - dissera o Senhor
no Sermão da Montanha (Mt 5,8). A
princípio, Verônica via apenas um rosto maltratado e marcado pela dor. Mas o ato
de amor imprime no seu coração a verdadeira imagem de Jesus: no Rosto humano,
coberto de sangue e de feridas, ela vê o Rosto de Deus e da sua bondade que nos
acompanha mesmo na dor mais profunda. Somente com o coração podemos ver Jesus.
Apenas o amor nos torna capazes de ver e nos torna puros. Só o amor nos faz
reconhecer Deus, que é o próprio amor.
Oração
Senhor, dai-nos
a inquietação do coração que procura o vosso rosto. Protegei-nos do
obscurecimento do coração que vê apenas a superfície das coisas. Concedei-nos
aquela generosidade e pureza de coração que nos tornam capazes de ver a vossa
presença no mundo. Quando não formos capazes de realizar grandes coisas,
dai-nos a coragem de uma bondade humilde. Imprimi o vosso rosto nos nossos
corações, para Vos podermos encontrar e mostrar ao mundo a vossa imagem.
Pai nosso...
Pro peccatis suae gentis / vidit Iesum in
tormentis / et flagellis subditum.
VII Estação: Jesus cai pela segunda vez
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Livro das Lamentações (Lm 3,1-2.9.16)
Sou um homem que
vejo a minha miséria, como punição da ira de Deus. Ele me levou a caminhar nas
trevas, e não na luz. Fechou meu caminho com pedras, obstruiu minha passagem. Quebrou-me
os dentes com cascalho, cobriu-me de cinza.
Meditação
A tradição da
tríplice queda de Jesus sob o peso da cruz recorda a queda de Adão - o ser
humano caído que somos nós - e o mistério da associação de Jesus à nossa queda.
Na história, a queda do homem assume sempre novas formas. Na sua Primeira Carta, João fala de uma
tríplice queda do homem: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos
e a soberba da vida (cf. 1Jo 2,16).
Assim ele interpreta a queda do homem e da humanidade, no horizonte dos vícios
do seu tempo com todos os seus excessos e depravações. Mas, olhando a história
mais recente, podemos também pensar como a cristandade, cansada da fé,
abandonou o Senhor: as grandes ideologias, com a banalização do homem que já
não crê em nada e se deixa simplesmente ir à deriva, construíram um novo
paganismo, um paganismo pior que o antigo, o qual, desejoso de marginalizar
definitivamente Deus, acabou por perder o homem. Eis o homem que jaz no pó. O
Senhor carrega este peso e cai... cai, para poder chegar até nós; Ele olha-nos
para que em nós volte a palpitar o coração; cai para nos levantar.
Oração
Senhor Jesus
Cristo, carregastes o nosso peso e continuais a carregar-nos. É o nosso peso
que Vos faz cair. Mas sois Vós a levantar-nos, porque, sozinhos, não
conseguimos levantar-nos do pó. Livrai-nos do poder da concupiscência. Em vez
do coração de pedra, dai-nos novamente um coração de carne, um coração capaz de
ver. Destruí o poder das ideologias, para os homens poderem reconhecer que
estão permeadas de mentiras. Não permitais que o muro do materialismo se torne
intransponível. Fazei que Vos ouçamos de novo. Tornai-nos sóbrios e vigilantes
para podermos resistir às forças do mal, e ajudai-nos a reconhecer as
necessidades interiores e exteriores dos outros, e a socorrê-las. Erguei-nos,
para podermos levantar os outros. Concedei-nos esperança no meio de toda esta
escuridão, para podermos ser portadores de esperança no mundo.
Pai nosso...
Quis non posset contristari, / Christi
Matrem contemplari, / dolentem cum Filio?
VIII Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 23,28-31)
Jesus, porém,
voltou-se para elas e disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai
por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes
as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os
seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Caí sobre
nós!’ e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Porque, se fazem assim com a árvore verde,
o que não farão com a árvore seca?”.
Meditação
As palavras com
que Jesus adverte as mulheres de Jerusalém que O seguem e choram por Ele
fazem-nos refletir. Como entendê-las? Não se trata porventura de uma advertência
contra uma piedade puramente sentimental, que não se torna conversão e fé
vivida? De nada serve lamentar, por palavras e sentimentalmente, os sofrimentos
deste mundo, se a nossa vida continua sempre igual. Por isso, o Senhor nos
adverte do perigo em que nós mesmos nos encontramos. Mostra-nos a seriedade do
pecado e a seriedade do juízo. Apesar de todas as nossas palavras de horror à
vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós porventura
demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de Deus e de
Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável, enquanto
tranquilamente cancelamos o aspecto do juízo? “Como poderia Deus fazer um drama
com a nossa fragilidade? - pensamos - Não passamos de simples homens!”. Mas,
fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como
tem de ser expiado até ao fim para poder ser superado. Não se pode continuar a
banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre. Também a nós, diz
Ele: Não choreis por Mim, chorai por vós mesmos... porque se tratam assim o
madeiro verde, que será do madeiro seco?
Oração
Senhor, às
mulheres que choravam, falastes de penitência, do dia do Juízo, quando nos
encontrarmos diante da vossa face, a face do Juiz do mundo. Chamais-nos a sair
da banalização do mal que nos deixa tranquilos para podermos continuar a nossa
vida de sempre. Mostrai-nos a seriedade da nossa responsabilidade, o perigo de
sermos encontrados, no Juízo, culpados e estéreis. Fazei com que não nos limitemos
a caminhar ao vosso lado, oferecendo apenas palavras de compaixão.
Convertei-nos e dai-nos uma vida nova; não permitais que acabemos por ficar
como um madeiro seco, mas fazei que nos tornemos ramos vivos em Vós, a videira
verdadeira, e produzamos fruto para a vida eterna (cf. Jo 15,1-10).
Pai nosso...
Tui Nati vulnerati, / tam dignati pro me
pati, / poenas mecum divide.
IX Estação: Jesus cai pela terceira vez
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Livro das Lamentações (Lm 3,27-32)
É bom para o
homem sofrer o jugo na sua juventude. Quando isto lhe é imposto, queda-se em
solidão e em silêncio. Deita-se com o rosto no chão, implorando a esperança.
Oferece o rosto a quem o espanca, sacia-se de opróbrios. É certo que o Senhor a
ninguém repele para sempre. Se Ele aflige, também se compadece com infinitos
gestos de misericórdia.
Meditação
E que dizer da
terceira queda de Jesus sob o peso da cruz? Pode talvez fazer-nos pensar na
queda do homem em geral, no afastamento de muitos de Cristo, caminhando à
deriva para um secularismo sem Deus. Mas não deveríamos pensar também em tudo
quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do
Santíssimo Sacramento, da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o
coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos
darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra!
Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira
há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam
pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência!
Respeitamos tão pouco o sacramento da Reconciliação, onde Ele está à nossa
espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua Paixão.
A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é
certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada
mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison - Senhor, salva-nos (cf. Mt
8,25).
Oração
Senhor, muitas
vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está por afundar, uma barca que faz
água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de trigo, vemos mais cizânia
que trigo. O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas
somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre,
depois de todas as nossas grandes palavras, dos nossos grandes gestos. Tende
piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair. Com a nossa
queda, deitamo-Vos ao chão, e Satanás a rir-se porque espera que não mais
conseguireis levantar-Vos daquela queda; espera que Vós, tendo sido arrastado
na queda da vossa Igreja, ficareis por terra derrotado. Mas, Vós
erguer-Vos-eis. Vós levantastes-Vos, ressuscitastes e podeis levantar-nos
também a nós. Salvai e santificai a vossa Igreja. Salvai e santificai a todos
nós.
Pai nosso...
Eia, mater, fons amoris, / me sentire vim
doloris / fac, ut tecum lugeam.
X Estação: Jesus é despojado das suas vestes
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,33-36)
E chegaram a um
lugar chamado Gólgota, que quer dizer “Lugar da caveira”. Ali deram vinho
misturado com fel para Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber. Depois de o
crucificarem, fizeram um sorteio, repartindo entre si as suas vestes. E ficaram
ali sentados, montando guarda.
Meditação
Jesus é
despojado das suas vestes. A roupa confere ao homem a sua posição social;
dá-lhe o seu lugar na sociedade, fá-lo sentir alguém. Ser despojado em público
significa que Jesus já não é ninguém, nada mais é que um marginalizado,
desprezado por todos. O momento do despojamento recorda-nos também a expulsão
do paraíso: ficou sem o esplendor de Deus o homem, que agora está, ali, nu e
exposto, desnudado e envergonha-se. Deste modo, Jesus assume mais uma vez a
situação do homem caído. Jesus despojado recorda-nos o fato de que todos nós
perdemos a «primeira veste», isto é, o esplendor de Deus. Junto da cruz, os
soldados lançam sortes para repartirem entre si os seus míseros haveres, as
suas vestes. Os evangelistas narram isto com palavras tiradas do Salmo 21,19 e assim afirmam-nos o mesmo
que Jesus há de dizer aos discípulos de Emaús: tudo aconteceu «conforme as
Escrituras». Não se trata aqui de pura coincidência, tudo o que acontece está
contido na Palavra de Deus e sustentado por seu desígnio divino. O Senhor experimenta
todos os estágios e degraus da perdição dos homens, e cada um destes degraus é,
com toda a sua amargura, um passo da redenção: é precisamente assim que Ele
traz de volta para casa a ovelha perdida. Recordemos ainda que, segundo diz
João, o objeto do sorteio era a túnica de Jesus, a qual, «toda tecida de alto a
baixo, não tinha costura» (Jo 19,23).
Podemos considerar isto como uma alusão à veste do sumo sacerdote, que era
«tecida como um todo», sem costura (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, III, 161). Ele, o Crucificado, é realmente o
verdadeiro sumo sacerdote.
Oração
Senhor Jesus,
fostes despojado das vossas vestes, exposto à desonra, expulso da sociedade.
Assumistes sobre Vós a desonra de Adão, sanando-a. Assumistes os sofrimentos e
as necessidades dos pobres, daqueles que são expulsos do mundo. Deste modo é
que realizais a palavra dos profetas. É precisamente assim que dais significado
àquilo que não tem significado. Assim mesmo nos dais a conhecer que nas mãos do
vosso Pai estais Vós, nós e o mundo. Concedei-nos um respeito profundo
pelo homem em todas as fases da sua existência e em todas as situações onde o
encontrarmos. Dai-nos a veste luminosa da vossa graça.
Pai nosso...
Fac ut ardeat cor meum / in amando Christum
Deum, / ut sibi complaceam.
XI Estação: Jesus é pregado na Cruz
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,37-42)
Acima da cabeça
de Jesus puseram o motivo da sua condenação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”.
Com Ele também crucificaram dois ladrões, um à direita e outro à esquerda de
Jesus. As pessoas que passavam por ali O insultavam, balançando a cabeça e
dizendo: “Tu, que ias destruir o Templo e construí-lo de novo em três dias,
salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!”. Do mesmo modo, os
sumos sacerdotes, junto com os mestres da Lei e os anciãos, também zombavam de
Jesus: “A outros salvou... a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel... Desça
agora da cruz! E acreditaremos nele”.
Meditação
Jesus é pregado
na cruz. O Sudário de Turim permite formar uma ideia da crueldade incrível
deste processo. Jesus não toma a bebida anestesiante que Lhe fora oferecida:
conscientemente assume todo o sofrimento da crucificação. Todo o seu corpo é
martirizado; cumpriram-se as palavras do Salmo: «Eu, porém, sou um verme e não
um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo das nações » (Sl 21,7). «Como um homem (...) diante do qual se tapa o rosto,
menosprezado e desestimado. Na verdade Ele tomou sobre Si os nossos sofrimentos,
carregou as nossas dores» (Is 53,3-4).
Detenhamo-nos diante desta imagem de sofrimento, diante do Filho de Deus
sofredor. Olhemos para Ele nos momentos de presunção e de prazer, para
aprendermos a respeitar os limites e a ver a superficialidade de todos os bens
puramente materiais. Olhemos para Ele nos momentos de calamidade e de angústia,
para reconhecermos que precisamente assim estamos perto de Deus. Procuremos
reconhecer o seu rosto naqueles que tendemos a desprezar. Diante do Senhor
condenado, que não quer usar o seu poder para descer da cruz, mas antes
suportou os sofrimentos da cruz até ao fim, pode assomar ainda outro
pensamento. Inácio de Antioquia, ele mesmo preso com cadeias pela sua fé no Senhor,
elogiou os cristãos de Esmirna pela sua fé inabalável: afirma que estavam, por
assim dizer, pregados com a carne e o sangue à cruz do Senhor Jesus Cristo (cf. Inácio, Carta aos Esmirniotas, 1,1). Deixemo-nos pregar a Ele, sem ceder a
qualquer tentação de nos separarmos nem ceder às zombarias que pretendem
levar-nos a fazê-lo.
Oração
Senhor Jesus
Cristo, fizestes-Vos pregar na cruz, aceitando a crueldade terrível deste
tormento, a destruição do vosso corpo e da vossa dignidade. Fizestes-Vos
pregar, sofrestes sem evasões nem descontos. Ajudai-nos a não fugir perante o
que somos chamados a realizar. Ajudai-nos a fazermo-nos ligar estreitamente a
Vós. Ajudai-nos a desmascarar a falsa liberdade que nos quer afastar de Vós.
Ajudai-nos a aceitar a vossa liberdade «ligada» e a encontrar nesta estreita
ligação convosco a verdadeira liberdade.
Pai nosso...
Sancta Mater, istud agas, / Crucifixi fige
plagas / cordi meo valide.
XII Estação: Jesus morre na Cruz
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,19-20)
Pilatos mandou
ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: “Jesus
Nazareno, o Rei dos Judeus”. Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o
lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava
escrito em hebraico, latim e grego.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,45-50.54)
Desde o meio-dia
até às três horas da tarde, houve escuridão sobre toda a terra. Pelas três
horas da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli,
Eli, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?”. Alguns dos que ali estavam, ouvindo-o, disseram: “Ele está
chamando Elias!”. E logo um deles, correndo, pegou uma esponja, ensopou-a em
vinagre, colocou-a na ponta de uma vara, e Lhe deu para beber. Outros, porém,
disseram: “Deixa, vamos ver se Elias vem salvá-lo!”. Então Jesus deu outra vez
um forte grito e entregou o espírito. O oficial e os soldados que estavam com
ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido,
ficaram com muito medo e disseram: “Ele era mesmo Filho de Deus!”.
Meditação
Sobre a cruz de
Jesus - nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do
povo eleito, o hebraico - está escrito quem é: o Rei dos Judeus, o Filho
prometido a Davi. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer.
Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio
Jesus não tinha aceito o título de Messias, enquanto poderia induzir a uma
ideia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar
escrito ali publicamente sobre o Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o
rei do mundo. Agora foi verdadeiramente «elevado». Na sua descida, Ele subiu.
Agora cumpriu radicalmente o mandamento do amor, cumpriu a oferta de Si mesmo,
e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus,
daquele Deus que é amor. Agora sabemos quem é Deus. Agora sabemos como é a
verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 21,
que começa por estas palavras: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Sl 21,2). Assume em Si mesmo todo o
Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com
que Deus Se manifeste precisamente onde parece estar definitivamente derrotado
e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na
escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz
tem início a Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que
Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar.
Oração
Senhor Jesus
Cristo, na hora da vossa morte, o sol escureceu. Sois pregado na cruz sem
cessar. Precisamente nesta hora da história, vivemos na escuridão de Deus. Pelo
sofrimento sem medida e pela maldade dos homens o rosto de Deus, o vosso rosto,
aparece obscurecido, irreconhecível. Mas foi precisamente na cruz que Vos
fizestes reconhecer. Precisamente enquanto sois Aquele que sofre e que ama,
sois aquele que é elevado. Foi precisamente lá que triunfastes. Ajudai-nos a
reconhecer, nesta hora de escuridão e confusão, o vosso rosto. Ajudai-nos a
crer em Vós e a seguir-Vos precisamente na hora da escuridão e da privação.
Mostrai-Vos novamente ao mundo nesta hora. Fazei com que a vossa salvação se
manifeste.
Pai nosso...
Fac me vere tecum flere, / Crucifixo
condolere, / donec ego vixero.
XIII Estação: Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,54-55)
O oficial e os
soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que
havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: “Ele era mesmo Filho de
Deus!”. Grande número de mulheres estava ali, olhando de longe. Elas haviam
acompanhado Jesus desde a Galileia, prestando-lhe serviços.
Meditação
Jesus morreu, o
seu coração é transpassado pela lança do soldado romano e dele brotam sangue e
água: misteriosa imagem do rio dos sacramentos, do Batismo e da Eucaristia, dos
quais, em virtude do coração transpassado do Senhor, renasce incessantemente a
Igreja. E não Lhe são quebradas as pernas, como aos outros dois crucificados;
deste modo Ele aparece como o verdadeiro cordeiro pascal, ao qual nenhum osso
deve ser quebrado (cf. Ex 12,46). E agora que tudo suportou,
vemos que Ele, apesar de toda a confusão dos corações, apesar do poder do ódio
e da covardia, não ficou sozinho. Os fiéis existem. Junto da cruz, estavam
Maria, sua Mãe; a irmã de sua Mãe, Maria; Maria de Magdala; e o discípulo que
Ele amava. Agora chega também um homem rico, José de Arimateia: o rico encontra
modo de passar pelo buraco de uma agulha, porque Deus lhe dá a graça. Sepulta
Jesus no seu túmulo ainda intacto, em um jardim: o cemitério onde fica
sepultado Jesus transforma-se em jardim, no jardim donde fora expulso Adão
quando se separara da plenitude da vida, do seu Criador. O túmulo no jardim
faz-nos saber que o domínio da morte está para terminar. E chega também um
membro do Sinédrio, Nicodemos, a quem Jesus tinha anunciado o mistério do
renascimento pela água e pelo Espírito. Até no Sinédrio, que tinha decidido a
sua morte, há alguém que acredita, que conhece e reconhece Jesus após a sua
morte. Sobre a hora do grande luto, da grande escuridão e do desespero, aparece
misteriosamente a luz da esperança. O Deus escondido permanece em todo o caso o
Deus vivo e próximo. O Senhor morto permanece em todo o caso o Senhor e nosso
Salvador, mesmo na noite da morte. A Igreja de Jesus Cristo, a sua nova
família, começa a formar-se.
Oração
Senhor,
descestes à escuridão da morte. Mas o vosso corpo é recolhido por mãos bondosas
e envolvido em um cândido lençol (Mt
27,59). A fé não está completamente morta, não se pôs totalmente o sol. Quantas
vezes parece que Vós estais a dormir. Como é fácil a nós, homens, afastar-nos
dizendo para nós mesmos: Deus morreu. Fazei com que, na hora da
escuridão, reconheçamos que Vós estais lá. Não nos deixeis sozinhos quando
tendemos a desanimar. Ajudai-nos a não deixar-Vos sozinho. Dai-nos uma
fidelidade que resista no desânimo e um amor que Vos acolha no momento mais
extremo da vossa necessidade, como a vossa Mãe, que Vos abraçou de novo no seu
regaço. Ajudai-nos, ajudai os pobres e os ricos, os simples e os sábios, a ver
através dos seus medos e preconceitos e a oferecer-Vos a nossa capacidade, o
nosso coração, o nosso tempo, preparando assim o jardim no qual possa dar-se a Ressurreição.
Pai nosso...
Vidit suum dulcem Natum / morientem, desolatum,
/ cum emisit spiritum.
XIV Estação: Jesus é sepultado
V. Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o
mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 27,59-61)
José, tomando o
corpo de Jesus, envolveu-o em um lençol limpo, e o colocou em um túmulo novo,
que havia mandado escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra para
fechar a entrada do túmulo, e retirou-se. Maria Madalena e a outra Maria
estavam ali sentadas, diante do sepulcro.
Meditação
Jesus, desonrado
e ultrajado, é deposto com todas as honras em um túmulo novo. Nicodemos traz
uma mistura de mirra e aloés de cem libras, destinada a emanar um perfume
precioso. Agora, na oferta do Filho revela-se, como sucedera já na unção de
Betânia, um excesso que nos recorda o amor generoso de Deus, a
«superabundância» do seu amor. Deus faz generosamente oferta de Si mesmo. Se a
medida de Deus é superabundante, também para nós nada deveria ser demasiado
para Deus. Foi o que o próprio Jesus nos ensinou no Sermão da Montanha (Mt 5,20). Mas é preciso lembrar também
as palavras de Paulo a propósito de Deus, que «por nosso meio faz sentir em
todos os lugares o odor do seu conhecimento. Somos, para Deus, o bom odor de
Cristo» (2Cor 2,14-15). Na putrefação
das ideologias, a nossa fé deveria ser de novo o perfume que reconduz às
pegadas da vida. No momento da deposição, começa a realizar-se a palavra de
Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra
não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito
fruto» (Jo 12,24). Jesus é o grão de
trigo que morre. Do grão de trigo morto começa a grande multiplicação do pão
que dura até ao fim do mundo: Ele é o pão de vida capaz de saciar em medida
superabundante a humanidade inteira e dar-lhe o alimento vital: o Verbo eterno
de Deus, que Se fez carne e também pão, para nós, através da Cruz e da Ressurreição.
Sobre a sepultura de Jesus resplandece o mistério da Eucaristia.
Oração
Senhor Jesus
Cristo, na sepultura fizestes vossa a morte do grão de trigo, tornastes-Vos o
grão de trigo morto que produz fruto ao longo de todos os tempos até à
eternidade. Do sepulcro brilha em cada tempo a promessa do grão de trigo, do
qual provém o verdadeiro maná, o pão de vida em que Vós mesmo Vos ofereceis a
nós. A Palavra eterna, através da Encarnação e da Morte, tornou-Se a Palavra
próxima: Colocais-Vos nas nossas mãos e nos nossos corações para que a vossa
Palavra cresça em nós e produza fruto. Dais-Vos a Vós mesmo através da morte do
grão de trigo, para que nós tenhamos a coragem de perder a nossa vida para
encontrá-la; para que também nós confiemos na promessa do grão de trigo.
Ajudai-nos a amar e a venerar cada vez mais o vosso mistério eucarístico - a
viver verdadeiramente de Vós, Pão do Céu. Ajudai-nos a tornarmo-nos o vosso
«odor», a tornar palpáveis os vestígios da vossa vida neste mundo. Do mesmo
modo que o grão de trigo se eleva da terra como caule e espiga, assim também
Vós não podeis ficar no sepulcro: o sepulcro está vazio porque Ele - o Pai -
não Vos «abandonou na habitação dos mortos nem permitiu que a vossa carne
conhecesse a decomposição» (cf. At 2,31; Sl 16,10 Septuaginta). Não, Vós não experimentastes a corrupção.
Ressuscitastes e destes espaço à carne transformada no coração de Deus. Fazei
com que possamos alegrar-nos com esta esperança e possamos levá-la
jubilosamente pelo mundo; fazei que nos tornemos testemunhas da vossa Ressurreição.
Pai nosso...
Quando corpus morietur / fac ut animae
donetur / paradisi gloria. Amen.
Para ler a mensagem enviada pelo Papa João Paulo II aos participantes da Via Sacra, clique aqui.
Bênção
“Estou pregado na Cruz com Cristo” (Gl 2,19) |
Fonte: Santa Sé.
Para acessar
outros modelos de meditações para a Via Sacra, confira nossa postagem sobre a história da Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.
Postagem publicada em 28 de março de 2012. Revista em 23 de julho de 2022.
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