sexta-feira, 27 de julho de 2018

A reforma litúrgica antes do Concílio Vaticano II

Na coluna “Memória Histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II”, o site Vatican News, depois da série sobre “Dez aspectos da reforma litúrgica”, publicou quatro textos sobre a história do movimento litúrgico que antecedeu o Concílio Vaticano II:


No nosso espaço Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos falar sobre “as origens da reforma litúrgica antes do Concílio [1]”.
No programa passado introduzimos as palavras do Papa Francisco dirigidas aos participantes da 68ª Semana Litúrgica Nacional italiana, em 24 de agosto de 2017, em que repassava as reformas introduzidas na liturgia a partir de São Pio X. Estas reformas que são irreversíveis – reiterou o Papa - amadureceram mais tarde, como bom fruto da árvore da Igreja, com a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia.
Mas antes de aprofundarmos as palavras do Santo Padre naquela ocasião, vamos conhecer um pouco as origens da reforma litúrgica antes do Concílio Vaticano II.
Um dos pioneiros no campo da purificação e renovação litúrgica – 200 anos antes da SC - foi sem dúvida o monge Dom Guéranger, já em 1805, fundador e abade de Solesmes, que pretendeu fazer compreensiva a Liturgia, no período que favorecia o abandono dos ritos regionais e a adoção do Rito Romano. Da mesma maneira que Newman, Moehler e Pusey, seus contemporâneos, Guéranger descobriu o valor transcendente do pensamento patrístico e sua extraordinária fecundidade para os cristãos de todas as gerações. Associou a este objetivo a restauração da música e a propagação do canto gregoriano. Dom Pothier (que viveu de 1835-1923), de Solesmes, trabalhou na reconstrução integral do oficio gregoriano. Publicou suas Melodias Gregorianas (1880) e o Liber Gradualis (1883).
As abadias de Beuron (1863) na Alemania, de Mont-César (1899) e de Maredsous (1872) na Bélgica, abriam – na época - novas perspectivas nas revistas e publicações, que influenciaram decisivamente para a restauração litúrgica eclesial, num movimento de renovação litúrgica pré-conciliar.
Em 1903, Pio X apresentou o gregoriano como “o modelo supremo da música sagrada”, e deu instruções precisas que ele próprio qualificou como “código jurídico da música sagrada”, mas não impediu que fosse usada na Liturgia a música polifônica de acordo com as normas.  O Papa Francisco, há pouco, ainda recordava essa memória de renovação num encontro litúrgico da Itália.
Já nesse pontificado de Pio X se realizou importante impulso de renovação litúrgica com a reforma do Breviário e do Missal Romano. Uma ideia resumia o pensamento de Pio X: “Não tem que rezar nem cantar durante a missa, mas tem que cantar e rezar a missa”. No século XX, o Papa reformava a Liturgia e, de maneira especial, a música sagrada, que havia caído em matéria profana; reformou também o Breviário romano, reduziu o número de festas de preceito e, em 1911, reformando o calendário litúrgico e ordenando as regras sobre as controvertidas indulgências [2].
Em 1914 se publicou em Lovaina a obra “A piedade da Igreja”, de Lambert Beauduin, um beneditino de Mont-César (Lovaina), que conseguiu que todas estas disposições e inovações litúrgicas fosse assumidas e postas em prática na vida paroquial e diocesana. Este movimento foi completado por meio da Abadia de Maria Laach e pelos escritos de Pius Parsch (1884-1954) e do teólogo e liturgista Romano Guardini, contemporâneo do Concílio Vaticano II.
Com Jungmann, da Universidade de Innsbruck, a história da liturgia renovou seus métodos e facilitou com o estudo das fontes a renovação litúrgica que brilhará no Concilio Vaticano II.
Um outro fato histórico da reforma litúrgica se atribui a celebração, em 1918, na Abadia de María Laach (Alemanha) a primeira “missa comunitária” como missa dialogada. Tudo isso foi gérmen para que se culmina nos debates do Concilio Ecumênico Vaticano II, para se compilar a Cconstituição Sacrosanctum Concilium, o mais importante e decisivo documento litúrgico publicado até hoje, promulgado por Paulo VI.

[1] Juan María Laboa. Historia de la Iglesia IV: Época Contemporánea. Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2002, pp. 261-263.
[2] Ibidem, p. 279.


No nosso espaço “Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II”, vamos continuar a falar sobre o surgimento do Movimento Litúrgico que culminou com a promulgação da Constituição Sacrosanctum Concilium.
A renovação litúrgica tem suas raízes bem anteriores ao Concílio Vaticano II. Como vimos no programa passado, o Movimento Litúrgico surgiu há mais de 200 anos, sobretudo em Abadias da Alemanha, Bélgica e Itália. Também os Papas Pio X e Pio XII, introduziram algumas reformas. No pontificado de Pio X, por exemplo, realizou-se um importante impulso de renovação litúrgica com a reforma do Breviário e do Missal Romano. Dando continuidade a este tema, o padre Gerson Schmidt nos traz hoje a reflexão “O Movimento Litúrgico e a reforma litúrgica de Pio XII [1]”:
Como temos visto aqui, o Movimento Litúrgico para a renovação na Liturgia não surgiu no Concílio Vaticano II, mas já 200 anos antes, sobretudo nas Abadias da Alemanha, Bélgica, Itália, como apontamos já aqui anteriormente.
Houve tentativas de reformas por meio dos Papas Pio X e Pio XII.  Em 1947, Pio XII publica a Encíclica Mediator Dei, onde aponta a reforma da Semana Santa, que foi o antecedente mais importante para a decisiva reforma litúrgica do Vaticano II, resultando assim a riqueza da Constituição Sacrosanctum Concilium, o mais importante e decisivo documento litúrgico publicado até hoje.
No século XX, o desenvolvimento do espírito litúrgico está relacionado com as abadias de Mont-César, Levaina e São André, de Bruges, com nomes como Romano Guardini, Pius Parsch, Odo Casel ou Jungmann, com a coleção “Lex Orandi”, também com revistas como La Maison-Dieu ou centros nacionais de apostolado litúrgico. O movimento da Reforma Litúrgico tem sido fomentado na Bélgica, depois se estendeu à França, Alemanha, Itália.
Em 1909 – quase 60 anos antes do Concílio Vaticano II – em Malinas (Bélgica) houve um Congresso regional – Congrés National des Oeuvres Catholiques – onde os participantes já se propunham em tornar viva e eficaz a celebração dos mistérios cristãos, de modo que os ritos “falassem” aos homens de hoje. Na ocasião um expoente para essa renovação foi Odo Casel, com a categoria na Liturgia do “mistério”.
Em 1956, aconteceu um fato interessante, o primeiro Congresso Internacional de Pastoral Litúrgica, celebrado em Assis, que foi um verdadeiro encontro de especialistas e troca de experiências. Tudo isso vai ter sua culminância, em forma de compêndio, na reforma litúrgica do Vaticano II.
Para esse Congresso de 1956, Papa Pio XII fez um precioso discurso, excelente complemento da anterior Encíclica sobre a música sagrada, colocando a excelência e elevada significação da liturgia católica, como símbolo da graça e da pessoa de Cristo [2].
Na mensagem enviada por Pio XII aos participantes, o Papa disse muitas coisas interessantes, para a sua época, falando assim, ainda antes do Concilio: “Se se compara a situação atual do Movimento Litúrgico com o que já foi há trinta anos, constata-se que alcançou um progresso inegável, tanto na extensão quanto na profundidade.
O interesse pela Liturgia, as realizações práticas e a participação ativa dos fiéis conquistaram um desenvolvimento que seria difícil de prever naquele momento”. Veja, que já em 1956, Pio XII falava da participação ativa dos fiéis, tônica endossada pela Sacrosanctum Concilium.

[1] Juan María Laboa. Historia de la Iglesia IV: Época Contemporánea. Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2002, pp. 261-263.
[2] Francisco J. Montalban e VV.AA. História de la Iglesia Catolica IV: Edad Moderna, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 1958, p. 843.


No nosso espaço “Memória Histórica - 50 anos do Concílio Vaticano II”, vamos falar no programa de hoje sobre o Encontro Internacional de Liturgia em 1956.
Neste nosso percurso sobre o Concílio Vaticano, temos dedicado alguns programas à reforma litúrgica e suas origens, o que culminou com a Constituição Sacrosanctum Concilium, documento aprovado com 2158 votos a favor e somente 19 contrários e solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI em 4 de dezembro de 1963.
No programa passado, falamos sobre “o Movimento Litúrgico e a reforma litúrgica de Pio XII”. Na edição de hoje, o padre Gerson Schmidt, sacerdote incardinado na arquidiocese de Porto Alegre, nos traz uma reflexão sobre o “Encontro Internacional de Liturgia em 1956” [1]:
Em 1956, o primeiro Congresso Internacional de Pastoral Litúrgica foi celebrado em Assis, com um verdadeiro encontro de especialistas e troca de experiências que teve sua culminância na reforma litúrgica do Vaticano II. Para o Congresso, Papa Pio XII fez um precioso e excelente discurso. Queremos aqui fazer ainda um resgate desse mensagem de Pio XII, vendo como tem significado atual, ainda antes do Concilio Vaticano II.
Na mensagem enviada por Pio XII aos participantes, o Papa disse muitas coisas interessantes, para a sua época, falando assim: “É no coração da Liturgia que se desenrola a celebração da Eucaristia, sacrifício e banquete [dois adjetivos importantes aqui que resumem grandes controvérsias até então]; é nela também que se conferem todos os sacramentos e que, pelos sacramentais, a Igreja multiplica largamente os benefícios da graça nas circunstâncias mais diversas”.
E falou novamente, já anteriormente citada, da participação não passiva dos fiéis: “Se a Hierarquia comunica pela liturgia a verdade e a graça de Cristo, os fiéis, por sua vez, têm por dever recebê-las, com toda a alma, e transformá-las em valores vitais. Tudo que lhes é oferecido, as graças do sacrifício do altar, dos sacramentos e dos sacramentais, que eles aceitem, não de modo passivo, deixando apenas que sejam derramadas sobre si, mas colaborando com toda a vontade e com toda força e, sobretudo, participando dos ofícios litúrgicos ou ao menos seguindo o seu desenrolar com fervor”.
Também o Papa Pio XII já fazia algumas ponderações sobre o tabernáculo, a capela do Santíssimo, como hoje entendemos, afirmando que o altar é mais importante que o tabernáculo: “A estas considerações devemos acrescentar algumas indicações sobre o tabernáculo. Assim como dissemos acima: ‘O Senhor é de alguma forma maior que o altar e que o sacrifício’, poderíamos dizer em seguida: “O tabernáculo, onde habita o Senhor que desceu no meio do seu povo, é maior que o altar e que o sacrifício”?
O altar é mais importante que o tabernáculo, porque nele é oferecido o sacrifício do Senhor. Sem dúvida o tabernáculo guarda o Sacramentum permanens (Sacramento permanente), mas não é um altare permanens (altar permanente), pois o Senhor se oferece em sacrifício apenas sobre o altar durante a celebração da Santa Missa, não depois ou fora da Missa. No tabernáculo, por sua vez, ele está presente por todo o tempo em que perdurarem as espécies consagradas, sem, no meio tempo, oferecer-se de modo permanente.

[1] Francisco J. Montalban e VV.AA. História de la Iglesia Catolica IV: Edad Moderna. Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 1958, p. 843.


No nosso espaço “Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II”, vamos falar hoje sobre a Mensagem de Pio XII antes da Sacrosanctum Concilium.
Temos repassado em nossos últimos programas deste nosso espaço, a história do Movimento Litúrgico  anterior ao Concílio Vaticano II, que culminou com a Constituição Sacrosanctum Concilium, aprovada por 2.147 padres conciliares, e  promulgada pelo Papa Paulo VI em 4 de dezembro de 1963.
No programa passado, falamos do Encontro Internacional de Liturgia realizado em Assis em 1956. No programa de hoje, padre Gerson Schmidt – que tem nos acompanhado neste percurso de exposição sobre os documentos do Concílio - nos traz uma reflexão sobre a mensagem do Papa Pio XII antes da Sacrosanctum Concilium:
O movimento litúrgico que deu origem a Sacrosanctum Concilium, antes do Concilio Vaticano II, foi significativo. Em 1956 - nove anos antes do Concilio – aconteceu o primeiro Congresso Internacional de Pastoral Litúrgica, celebrado em Assis, num verdadeiro encontro de especialistas e troca de experiências que teve sua culminância na reforma litúrgica do Vaticano II.
O Papa Pio XII enviou sua mensagem, que recordamos pontos já na oportunidade anterior. Hoje continuamos ainda a fazer essa memória muito significativa, para entender assim também as ideias fervilhantes que culminaram na Sacrosanctum Concilium.
Sobre a questão da adoração ao Santíssimo durante a missa, lembrou Pio XII algumas definições do Magistério da Igreja: “Uma decisão da Sagrada Congregação dos Ritos, de 27 de julho de 1927, limita ao mínimo a exposição do Santíssimo Sacramento durante a Missa, o que, contudo, é facilmente explicável pela vontade de manter habitualmente separado o ato do sacrifício e o culto de simples adoração, a fim de os fiéis compreenderem com clareza o caráter próprio de cada um.
Todavia, mais importante que a consciência desta diversidade é a consciência da unidade: é um só e mesmo Senhor que é imolado no altar e honrado no tabernáculo donde difunde suas bênçãos.  Se disso fôssemos bem convictos, evitaríamos tanta dificuldade e nos guardaríamos de enfatizar o significado de um em prejuízo do outro e de nos opormos às decisões da Santa Sé”. Já propunha também a celebração de frente para o povo: “A maneira pela qual se poderá posicionar o tabernáculo sobre o altar, sem impedir a celebração de frente para o povo, pode receber soluções diversas, sobre as quais os especialistas darão o seu parecer. O essencial é compreender que é o mesmo Senhor a estar presente sobre o altar e no tabernáculo”.
Ainda falou assim sobre a renovação litúrgica, sobre o passado e o presente na Liturgia, falando nesses termos: “Queremos acrescentar, para concluir, duas indicações sobre ‘a Liturgia e o passado’, ‘a Liturgia e o presente’. A Liturgia e o passado: Em matéria de Liturgia, como em muitas outras áreas, é preciso evitar, quanto ao passado, duas atitudes exageradas: um ataque cego e um desprezo total. Na Liturgia se encontram alguns elementos imutáveis, um conteúdo sagrado que transcende o tempo, mas também elementos variáveis, transitórios e, às vezes, até defeituosos. Parece-nos que a atitude dos círculos litúrgicos de hoje em dia é bem equilibrada quanto ao passado. Eles pesquisam e estudam com seriedade, e mantém o que realmente vale a pena sem, contudo, cair em excessos”.
Sobre as adaptações na liturgia no presente, Pio XII afirmou assim: “A Liturgia e o presente:  A Liturgia imprime uma marca característica na vida da Igreja e mesmo na atitude religiosa inteira de hoje. É especialmente notável é a participação ativa e consciente dos fiéis nas ações litúrgicas. Da parte da Igreja, a Liturgia atual comporta uma atenção ao progresso, mas também à conservação e à defesa.  Ela retorna ao passado, mas não o imita servilmente. Ela cria novos elementos nas cerimônias, no uso do vernáculo, no canto popular e na construção das igrejas”.
Concluiu dizendo: “Nós sinceramente desejamos o progresso do movimento litúrgico, e desejamos ajudá-lo, mas também é nosso dever prevenir-nos contra tudo que possa ser fonte de erros e perigos”. Vemos que, nessa mensagem, Pio XII falou já por três vezes da participação ativa dos fiéis na Liturgia, do celebrante estar de frente para o povo, da centralidade do altar, e do Uso da língua vernácula.


Fonte: Vatican News

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