sábado, 4 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Vigília Pascal (2006)

Há 20 anos, na noite do Sábado Santo, 15 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Vigília Pascal na Noite Santa da Ressurreição do Senhor (Ano B) na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu os Sacramentos da Iniciação Cristã a sete adultos de diversos países do mundo.

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Vigília Pascal na Noite Santa
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 15 de abril de 2006

1. «Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui» (Mc 16,6). Assim o mensageiro de Deus, vestido de branco, fala às mulheres que procuram o corpo de Jesus no túmulo. Mas, nesta noite santa, o evangelista diz a mesma coisa também a nós: Jesus não é um personagem do passado. Ele vive, e como vivente caminha à nossa frente; chama-nos a segui-lo, a Ele, o Vivente, e a encontrarmos assim também nós o caminho da vida.

2. «Ressuscitou. Não está aqui». Quando Jesus falou pela primeira vez da Cruz e da Ressurreição aos discípulos, descendo o monte da Transfiguração, eles se perguntavam o que queria dizer «ressuscitar dos mortos» (Mc 9,10). Na Páscoa nos alegramos porque Cristo não permaneceu no sepulcro, o seu corpo não conheceu a corrupção; pertence ao mundo dos vivos, não ao mundo dos mortos; nos alegramos porque - como proclamamos no rito do círio pascal - Ele é ao mesmo tempo o Alfa e o Ômega e, portanto, existe não apenas ontem, mas hoje e por toda a eternidade (cf. Hb 13,8).


Mas, de certa forma, a Ressurreição está tão além do nosso horizonte, tão além de todas as nossas experiências que, reentrando em nós mesmos, continuamos a discussão dos discípulos: em que consiste precisamente “ressuscitar”? O que significa para nós? O que significa para o mundo e para a história no seu conjunto? Um teólogo alemão disse ironicamente uma vez que o milagre de um cadáver reanimado - se é que isso realmente aconteceu, coisa que ele, porém, não acreditava - no fim das contas seria irrelevante porque, precisamente, não diz respeito a nós. Com efeito, se apenas uma vez alguém tivesse sido reanimado, e nada mais, de que modo isso teria a ver conosco? Mas a Ressurreição de Cristo é justamente algo mais, é uma coisa distinta. Se pudermos usar por uma vez a linguagem da teoria da evolução, ela é a maior “mutação”, o salto absolutamente mais decisivo para uma dimensão totalmente nova, como nunca tinha acontecido na longa história da vida e dos seus avanços: um salto de uma ordem completamente nova, que tem a ver conosco e diz respeito a toda a história.

Homilia do Papa João Paulo II: Vigília Pascal (2001)

Há 25 anos, na noite do Sábado Santo, 14 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Vigília Pascal na Noite Santa da Ressurreição do Senhor (Ano C) na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu os Sacramentos da Iniciação Cristã a seis adultos de diversos países do mundo.

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Vigília Pascal na Noite Santa
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Sábado Santo, 14 de abril de 2001

1. «Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!» (Lc 24,5-6).
Estas palavras de dois homens «com roupas brilhantes» reacendem a confiança nas mulheres que foram ao sepulcro de madrugada. Tinham vivido os acontecimentos trágicos que culminaram na crucificação de Cristo no Calvário; tinham experimentado a tristeza e a confusão. Porém, não tinham abandonado o seu Senhor na hora da provação.

Vão às escondidas ao lugar onde Jesus tinha sido sepultado para vê-lo mais uma vez e abraçá-lo pela última vez. O que as move é o amor; aquele mesmo amor que as tinha levado a segui-lo pelos caminhos da Galileia e da Judeia até o Calvário.

Mulheres bem-aventuradas! Não sabiam ainda que aquela era a madrugada do dia mais importante da história. Não podiam saber que elas, precisamente elas, seriam as primeiras testemunhas da Ressurreição de Jesus.


2. «Encontraram a pedra do túmulo removida» (Lc 24,2).
Assim narra o evangelista Lucas, e acrescenta que, «ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus» (v. 3). Em um instante tudo muda. Jesus «não está aqui. Ressuscitou». Este anúncio, que transformou a tristeza daquelas piedosas mulheres em alegria, ressoa com imutável eloquência na Igreja, durante esta Vigília Pascal.

Singular Vigília de uma noite singular. Vigília, mãe de todas as vigílias, durante a qual a Igreja inteira permanece à espera junto ao túmulo do Messias, sacrificado na Cruz. A Igreja espera e reza, ouvindo novamente as Escrituras que percorrem toda a história da salvação.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Discurso do Papa João Paulo II: Via Sacra no Coliseu (2001)

Há 25 anos, na noite da Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001, após a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a tradicional oração da Via Sacra junto ao Coliseu romano.

As meditações da Via Sacra foram tomadas dos escritos do Cardeal John Henry Newman (†1890) nos 200 anos do seu nascimento [1].

Reproduzimos aqui as palavras improvisadas pelo Papa no final da oração e o discurso que havia sido preparado para a ocasião:

Via Sacra no Coliseu
Discurso do Papa João Paulo II
Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001

Palavras improvisadas:

Ecce lignum crucis, in quo salus mundi pependit! Venite adoremus! [Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo! Vinde, adoremos!]

Hoje, pela primeira vez neste terceiro milênio, se proclamou esta palavra na Basílica de São Pedro. Neste mesmo dia, Sexta-feira Santa, a mesma verdade desconcertante foi proclamada em todos os continentes, em todos os países do mundo: Ecce lignum crucis!


A Igreja de Cristo confessa esta realidade divina e humana: Crux, ave Crux! Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum. [Cruz, salve, ó Cruz! Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa Cruz redimistes o mundo]

A Igreja confessou isso durante dois mil anos, os dois milênios passados. Hoje, pela primeira vez, o confessamos em todo o mundo e aqui, em Roma com esta Via Sacra junto ao Coliseu. Queremos transmitir, levar adiante esta verdade divina e humana no terceiro milênio. Queremos professar que, pela sua Cruz, o Filho de Deus, aceitando esta humilhação - uma condenação destinada aos escravos - abriu à humanidade o caminho para a glorificação. Por isso nós, hoje, rezamos ajoelhados, em adoração.

Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão (2006)

Há 20 anos, na tarde da Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro.

Como de costume, a homilia foi confiada ao Pregador da Casa Pontifícia, Padre Raniero Cantalamessa, que seria criado Cardeal em 2020). Em seu reflexão este recordou a primeira Encíclica do Papa, Deus caritas est, publicada em dezembro de 2005:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006
Deus demonstra o seu amor por nós

1. “Cristãos, movei-vos com mais firmeza

«Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas» (2Tm 4,3-4).

Estas palavras da Escritura - sobretudo a referência ao prurido da curiosidade - está se realizando de modo novo e impressionante nos nossos dias. Enquanto nós celebramos aqui a recordação da Paixão e Morte do Salvador, milhões de pessoas são levadas por hábeis modificadores de lendas antigas a crer que Jesus de Nazaré, na realidade, nunca foi crucificado. Nos Estados Unidos é um best seller do momento uma edição do Evangelho de Tomé, apresentado como o Evangelho que «nos evita a crucificação, torna desnecessária a Ressurreição e não nos obriga a crer no Deus chamado Jesus» [1].


O maior estudioso bíblico da história da Paixão, Raymond Brown, escreveu há alguns anos: «É uma constatação pouco lisonjeira para a natureza humana: quanto mais fantástico é o cenário imaginado, mais sensacional é a propaganda que recebe e maior o interesse que suscita. Pessoas que nunca se dedicariam a ler uma análise séria das tradições históricas sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, sentem-se fascinadas por qualquer teoria nova segundo a qual Ele não foi crucificado e não morreu, especialmente se a continuação da história inclui a sua fuga com Maria Madalena para a Índia - ou para a França, segundo a versão mais atualizada... Essas teorias demonstram que quando se trata da Paixão de Jesus, apesar da expressão popular, a fantasia supera a realidade e, infelizmente, também rende mais» [2].

Fala-se tanto da traição de Judas e não percebemos que a estamos renovando. Cristo continua sendo vendido, não mais aos chefes do Sinédrio por trinta denários, mas a editores e livreiros por milhões de denários... Ninguém conseguirá para esta tendência especulativa, que, ao contrário, aumentará com o iminente lançamento de certo filme, mas, tendo-me ocupado por anos de história das origens cristãs, sinto o dever de chamar a atenção para um grande equívoco que está na base de toda esta literatura pseudo-histórica.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Missa da Ceia do Senhor (2006)

Há 20 anos, na tarde da Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Ceia do Senhor na Basílica do Latrão, a Catedral de Roma. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa da Ceia do Senhor
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica do Latrão
Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006

Caros irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Amados irmãos e irmãs,
«Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1): Deus ama a sua criatura, o homem; ama-o mesmo na sua queda e não o abandona a si mesmo. Ele ama até o fim. Vai com o seu amor até o fim, até o extremo: desce da sua glória divina. Depõe as vestes da sua glória divina e endossa as vestes do servo. Desce até a extrema baixeza da nossa queda. Ajoelha-se diante de nós e presta-nos o serviço do servo; lava os nossos pés sujos, para que possamos ser admitidos à mesa de Deus, para que nos tornemos dignos de nos sentarmos à sua mesa - o que, por nós mesmos, nunca poderíamos nem deveríamos fazer.


Deus não é um Deus distante, muito distante e muito grande para se ocupar das nossas insignificâncias. Porque Ele é grande, pode interessar-se também pelas coisas pequenas. Porque Ele é grande, a alma do homem, o mesmo homem criado para o amor eterno, não é uma coisa pequena, mas grande e digna do seu amor. A santidade de Deus não é só um poder incandescente, diante do qual devemos nos retirar aterrorizados; é poder de amor e por isso é poder que purifica e restabelece.

Deus desce e se torna servo, lava os nossos pés para que possamos estar à sua mesa. Nisso se exprime todo o mistério de Jesus Cristo. Nisso se torna visível o que significa redenção. O banho no qual nos lava é o seu amor pronto a enfrentar a morte. Só o amor tem aquela força purificadora que nos tira a nossa impureza e nos eleva às alturas de Deus. O banho que nos purifica é Ele mesmo, que se doa totalmente a nós - até as profundezas do seu sofrimento e da sua morte. Ele é continuamente este amor que nos lava; nos Sacramentos da purificação - o Batismo e a Penitência - Ele está continuamente ajoelhado diante dos nossos pés e presta-nos o serviço do servo, o serviço da purificação, que nos torna capazes de Deus. O seu amor é inexaurível, vai verdadeiramente até o fim.

Homilia do Papa João Paulo II: Missa da Ceia do Senhor (2001)

Há 25 anos, na tarde da Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Ceia do Senhor na Basílica do Latrão, a Catedral de Roma. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa da Ceia do Senhor
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica do Latrão
Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001

1. «In supremae nocte Cenae recumbens cum fratribus...» - «Na noite da Última Ceia, estando à mesa com os irmãos... com as suas próprias mãos deu-se a si mesmo em alimento aos Doze».

Com estas palavras o belo hino “Pange lingua apresenta a Última Ceia, na qual Jesus nos deixou o admirável Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. As leituras proclamadas há pouco ilustram o seu sentido profundo. Elas formam como que um tríptico: apresentam a instituição da Eucaristia, a sua prefiguração no Cordeiro pascal e a sua tradução existencial no amor e no serviço fraterno.


Foi o Apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, a recordar-nos o que Jesus fez «na noite em que foi entregue». Ao relato do fato histórico Paulo acrescentou seu comentário: «Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11,26). A mensagem do Apóstolo é clara: a comunidade que celebra a Ceia do Senhor atualiza a Páscoa. A Eucaristia não é a simples memória de um rito passado, mas a viva representação do gesto supremo do Salvador. Essa experiência não pode deixar de impelir a comunidade cristã a fazer-se profecia do mundo novo, inaugurado na Páscoa. Contemplando esta tarde o mistério de amor que a Última Ceia nos repropõe, permaneçamos também nós em comovida e silenciosa adoração.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Missa Crismal (2006)

Há cerca de 20 anos, na manhã da Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa Crismal (Missa dos Santos Óleos) na Basílica de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa Crismal
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006

Caros irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
1. A Quinta-feira Santa é o dia no qual o Senhor confiou aos Doze a tarefa sacerdotal de celebrar, no pão e no vinho, o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue até a sua volta. O cordeiro pascal e todos os sacrifícios da Antiga Aliança são substituídos pelo dom do seu Corpo e do seu Sangue, pelo dom de si mesmo. Assim, o novo culto se fundamenta no fato de que, antes de tudo, Deus nos concede um dom e nós, repletos deste dom, nos tornamos seus: a criação regressa ao Criador. Assim, também o sacerdócio se tornou uma coisa nova: não é mais questão de descendência, mas um encontrar-se no mistério de Jesus Cristo.


Ele é sempre Aquele que doa e nos eleva, nos atrai a si. Somente Ele pode dizer: «Isto é o meu Corpo - Isto é o meu Sangue». O mistério do sacerdócio da Igreja se encontra no fato de que nós, pobres seres humanos, em virtude do Sacramento podemos falar com o seu Eu: in persona Christi. Ele quer exercer o seu sacerdócio através de nós. Este mistério comovedor, que em cada celebração do Sacramento nos toca novamente, nós o recordamos de maneira particular na Quinta-feira Santa. Para que a vida quotidiana não desperdice o que é grande e misterioso, temos necessidade dessa lembrança específica, precisamos retornar àquela hora em que Ele impôs as suas mãos sobre nós e nos tornou participantes desse mistério.