Há 20 anos, no dia 25 de março de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade da Anunciação do Senhor com os novos Cardeais criados no Consistório do dia 24 de março [1]. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:
Solenidade da Anunciação do Senhor
Concelebração Eucarística com os novos Cardeais
Homilia do Papa Bento XVI
Praça de São Pedro
Sábado, 25 de março de 2006
Senhores Cardeais e Patriarcas,
Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
1. É um grande
motivo de alegria presidir esta Concelebração com os novos Cardeais, depois do
Consistório de ontem, e considero providencial que ela se realize na Solenidade
litúrgica da Anunciação do Senhor e sob o sol que o Senhor nos dá. Na
Encarnação do Filho de Deus, com efeito, reconhecemos os inícios da Igreja.
Tudo provém dali. Toda realização histórica da Igreja e também todas as suas
instituições devem se referir a essa Fonte originária. Devem se referir a
Cristo, Verbo de Deus encarnado. É Ele que nós celebramos sempre: o Emanuel,
o Deus-conosco, por meio do qual se cumpriu a vontade salvífica de Deus Pai.
E, contudo - precisamente
hoje contemplamos este aspecto do Mistério -, a Fonte divina flui através de um
canal privilegiado: a Virgem Maria. Com uma imagem eloquente São Bernardo fala,
a respeito, de aquaeductus, “aqueduto”
(cf. Sermo in
Nativitate B.V. Mariae: PL 183, 437-448). Celebrando a Encarnação do Filho,
portanto, não podemos deixar de honrar a Mãe. A ela foi dirigido o anúncio
angélico; ela o acolheu e, quando do fundo do coração respondeu: “Eis aqui a
serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), nesse momento o Verbo eterno
começou a existir como ser humano no tempo.
2. De geração em
geração permanece viva a admiração por esse inefável mistério. Santo Agostinho,
imaginando dirigir-se ao Anjo da Anunciação, pergunta: “Diz-me, ó Anjo, por que
aconteceu isso em Maria?”. A resposta, diz o Mensageiro, está contida nas
próprias palavras da saudação: “Ave, ó cheia de graça” (cf. Sermo 291, 6). Com efeito, “entrando onde ela
estava”, o Anjo não a chama pelo seu nome terreno, Maria, mas pelo seu “nome
divino”, assim como Deus a vê desde sempre e a qualifica: “cheia de graça”, gratia plena, que no original grego
é κεχαριτωµενη, “plena de graça”,
e a graça nada mais é do que o amor de Deus; assim, em última instância
poderíamos traduzir essa palavra como “amada” por Deus (cf. Lc 1,28).
















