domingo, 8 de abril de 2018

Homilia: II Domingo de Páscoa - Ano B

São Leão Magno
Sermão 2 na Ressurreição do Senhor
“Compreendam o mistério de tão grande amor”

Caríssimos, se cremos sem vacilar lá no coração o que nossos lábios professam, somos nós os que em Cristo fomos crucificados, mortos, sepultados, nós os que também nele ressuscitamos ao terceiro dia. Por isso o Apóstolo afirma: Já que ressuscitastes em Cristo, buscai os bens lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; aspirai aos bens de cima, não aos da terra. Porque estais mortos, e vossa vida está escondida em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis juntamente com ele na glória.
E para que os corações fiéis saibam que dispõem dos meios necessários para elevar-se à sabedoria que vem do alto, desprezando as concupiscências do mundo, o Senhor nos concede a dádiva de sua presença nestes termos: Estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo. Não foi em vão que o Espírito Santo prometera pela boca de Isaías: Vede, a virgem está grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome Emmanuel (que significa “Deus está conosco”). Assim, Jesus completa a missão de seu nome e, se sobe aos céus, não abandona aos que adotou, aquele que se senta à direita do Pai é o mesmo que habita em todo o corpo; e o que aqui embaixo nos estimula a paciência é o mesmo que desde o alto nos convida para a glória.
Nem entre as vaidades devemos perder o juízo, nem as adversidades pôr-nos a tremer. Pois na primeira disjuntiva nos adulam as decepções e, na segunda, exagera-se sobre as dificuldades. Mas como a misericórdia do Senhor enche a terra, por todas as partes nos encontramos com a vitória de Cristo, e se cumpre o que ele disse: Tende coragem. Eu venci o mundo. Se nos abstemos do antigo fermento da maldade, nos manteremos em uma ininterrupta festa pascal. Pois entre todas as vicissitudes da vida presente, cheia das mais diversas paixões, recordemos a apostólica exortação, que nos instrui desta forma: Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. Ele, apesar de sua condição divina, não se vangloriou de sua igualdade com Deus; ao contrário, despojou-se de sua dignidade e assumiu a condição de escravo, fazendo-se igual aos homens. E assim, agindo como um de nós, humilhou-se até submeter-se à morte e morte de cruz. Por isso Deus o colocou sobre tudo e lhe concedeu o “nome acima de todo nome”.
Que é como se dissesse: se compreendeis o mistério de um amor tão grande, e compreendeis o que o Filho unigênito de Deus fez pela salvação do gênero humano, tende em vós os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, cuja humildade nenhum rico deve desprezar, e nenhum nobre há de se envergonhar. Imitai o que ele fez: amai o que ele amou e, reconhecendo em vós a graça de Deus, amai nele vossa própria natureza. E assim como ele não perdeu suas riquezas fazendo-se pobre, nem a humildade diminuiu a sua glória, nem perdeu a eternidade assumindo uma natureza mortal, façais o mesmo vós: seguindo seus próprios passos e pisando sobre as mesmas pegadas, desprezai os bens terrenos, para que consigais os celestiais. Realmente, tomar a cruz é matar a concupiscência, eliminar os vícios, afugentar a vaidade e abdicar de todos os erros.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 345-346.

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