sexta-feira, 7 de março de 2014

As estações quaresmais

O tempo da Quaresma, que tem por finalidade a preparação para a Páscoa, é enriquecido na Liturgia romana pelo ofício das estações quaresmais. A palavra estação (em latim statio), que originalmente significava “posto de guarda”, na Liturgia passou a designar o ofício litúrgico celebrado nos dias em que os cristãos são chamados à “vigilância” através da penitência.

As estações tem sua origem no final do século IV, na igreja de Roma. A statio era o ofício litúrgico presidido pelo Papa nas basílicas romanas e nas principais igrejas da cidade (tituli) nos dias penitenciais da Quaresma (quartas, sextas e sábados). Deste ofício participavam os presbíteros de todas as tituli que, após a estação, voltavam às suas igrejas para celebrar a Missa para suas comunidades.

Arquibasílica do Latrão, principal igreja de Roma
A statio iniciava-se sempre por volta das quinze horas com uma reunião (collecta) do clero e dos fieis em uma igreja próxima à igreja estacional (titulus) do dia, onde o Papa recitava uma oração inicial. Formava-se então uma procissão rumo à titulus, guiada por um acólito com a cruz processional, seguido do Papa a cavalo, do clero e acólitos com os objetos litúrgicos necessários para a Missa e dos fieis.

Durante a procissão se cantava a Ladainha de todos os Santos e alguns salmos penitenciais. Chegando à igreja estacional, omitidos os ritos iniciais, o Papa celebrava a Missa, ao final da qual um diácono anunciava onde seria a próxima statio, com sua respectiva collecta.

Papa Hilário (séc. V), um dos grandes promotores das statio
Uma particularidade ritual expressava a íntima união entre a liturgia estacional e toda a comunidade cristã de Roma. Os presbíteros que participavam da statio recebiam das mãos do Papa o fermentum, fragmento do pão consagrado que levavam reverentemente às suas tituli e só aí comungavam.

Da mesma forma, se o Papa não podia estar presente à statio, um acólito lhe levava as saudações da titulus do dia e um curioso símbolo de comunhão: um pouco de algodão embebido no óleo das lamparinas da igreja estacional.

As estações quaresmais desenvolvem-se gradualmente até o século VIII, quando todos os dias da Quaresma, a Semana Santa e a Oitava da Páscoa recebem uma igreja estacional. Cumpre notar, porém, que o rito acima descrito só era realizado nos dias penitenciais. Nos demais dias, havia tão somente a Missa na igreja estacional.

Papa Gregório II (século VIII), último reformador das statio
O ofício estacional entra em declínio no século XIV, com a sede papal transferida para Avignon (França) e todos os conflitos decorrentes. Assim, sem a presidência do Papa, as estações quaresmais perdem sua solenidade, ainda que não tenham sido de todo abandonadas. Atualmente, o Papa costuma celebrar apenas a primeira estação quaresmal, na Quarta-feira de Cinzas.

Apesar de originalmente as estações quaresmais serem algo próprio da igreja romana, o atual Missal Romano aconselha que se conserve ou se implemente uma forma de rito estacional durante a Quaresma:

“...é muito  recomendável que se conserve ou incremente, ao menos nas maiores cidades e de modo mais conveniente aos lugares, a tradicional forma de reunião das igrejas locais, como nas “estações” romanas. Assim, principalmente sob a presidência do Pastor da diocese, a assembleia dos fieis poderia reunir-se, aos domingos ou nos dias mais oportunos da semana, junto aos túmulos dos santos, ou nas principais igrejas ou santuários da cidade, ou também nos lugares de peregrinação mais frequentados na diocese” (Missal Romano, 2ª Edição,  p. 174).

Papa Bento XVI na procissão estacional da Quarta-feira de Cinzas (2010)
O Cerimonial dos Bispos indica, nos números 260-262, a forma de organizar as estações: com a comunidade reunida em um local fora da igreja (preferencialmente em outra igreja), o sacerdote recita a oração inicial, tomada da Missa votiva da Santa Cruz, da Missa pela remissão dos pecados ou da Missa pela Igreja.

Forma-se em seguida a procissão, durante a qual se entoa a Ladainha de todos os Santos. Chegando à igreja, omitidos os demais ritos iniciais, recita-se a oração do dia e a Missa prossegue como de costume. Se, porém, for mais oportuno, pode-se realizar apenas uma Celebração da Palavra de Deus ou ainda uma Celebração Penitencial (cf. Ritual da Penitência, p. 191-204).

Na próxima postagem, publicaremos a lista das igrejas estacionais romanas e um breve histórico de sua organização.

FONTES:


CERIMONIAL DOS BISPOS. Tradução portuguesa da Edição Típica. São Paulo: Paulus, 2004 (3ª edição).

MISSAL ROMANO. Tradução portuguesa da 2ª Edição Típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 2006 (10ª edição).

RIGHETTI, M. Historia de la liturgia. Madrid: Pontificia Universidad de Salamanca, 1955. vol. I, p. 747-752.

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