Na sequência da nossa postagem sobre a Via Sacra Bíblica, gostaríamos de propor aqui as meditações (seguindo esse formulário) feitas pelo então Monsenhor Gianfranco Ravasi, depois criado Cardeal pelo Papa Bento XVI e atualmente Prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, para a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu na Sexta-feira Santa de 2007.
No final da postagem é possível ver também o vídeo da celebração.
Departamento para as
Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via-Sacra no Coliseu presidida pelo Santo Padre Bento XVI
Sexta-Feira Santa de 2007
Meditações de Mons. Gianfranco Ravasi
Apresentação
Era o final de uma manhã de primavera entre os anos 30 e 33
da nossa época. Numa estrada de Jerusalém – que nos séculos sucessivos
receberia o nome emblemático de «Via Dolorosa» - acontecia um pequeno cortejo:
um condenado à morte, escoltado por uma divisão do exército romano, se
encaminhava, trazendo o patibulum, ou
seja, o braço transversal da cruz cuja haste principal já estava colocada no
alto, entre as pedras de um pequeno promontório rochoso chamado em aramaico
Gólgota e em latim Calvário, isto é, «crânio».
Esta era a última etapa de uma história conhecida por todos,
em cujo centro se destaca a figura de Jesus Cristo, o homem crucificado e
humilhado e o Senhor ressuscitado e glorioso. Uma história iniciada no silêncio
profundo da noite precedente, junto das oliveiras de um jardim denominado
Getsêmani, isto é «lagar para as azeitonas». Uma história que se desenrolou de
modo acelerado nos palácios do poder religioso e político e que se concluiu por
uma condenação à pena capital. Até mesmo a sepultura, oferecida generosamente
por um proprietário chamado José de Arimateia, que não teria concluído a
vicissitude daquele condenado, como aconteceu para tantos corpos martirizados
no cruel suplício da crucifixão, destinado pelos romanos ao julgamento dos
revolucionários e dos escravos.
Teria havido uma etapa posterior, surpreendente e
inesperada: aquele condenado, Jesus de Nazaré, revelou de modo fulgurante uma
outra sua natureza sob o perfil do seu rosto e do seu corpo de homem, o ser
Filho de Deus. A cruz e a sepultura não foram o destino final daquela história,
mas sim a luz da sua ressurreição e da sua glória. Como cantaria poucos anos
depois o apóstolo Paulo, aquele que se despojou do seu poder, tornando-se
impotente e fraco como os homens e humilhando-se até à morte infame por
crucifixão, foi exaltado pelo Pai divino que o tinha constituído Senhor da
terra e do céu, da história e da eternidade (cf. Fl 2,6-11).
Durante séculos os cristãos desejaram percorrer novamente as
etapas dessa Via Crucis, um
itinerário rumo à colina da crucificação mas com o olhar voltado para a última
meta, a luz pascal. Fizeram-no como peregrinos naquela mesma estrada de
Jerusalém, mas igualmente nas suas cidades, nas suas igrejas e nas suas casas.
Durante séculos escritores e artistas, famosos ou desconhecidos procuraram
fazer reviver diante dos olhos estarrecidos e comovidos dos fiéis, as etapas ou
«estações», verdadeiras pausas meditativas no caminho para o Gólgota. Surgiram
assim imagens ora poderosas, ora simples, altivas e populares, dramáticas e
ingênuas.
Também em Roma, guiada pelo seu Bispo, o Papa Bento XVI, com
toda a cristandade presente no mundo unida ao seu pastor universal, em cada
Sexta-feira Santa realiza-se aquela viagem do espírito seguindo as pegadas de
Jesus Cristo.
Este ano, as reflexões – de modo narrativo-meditativo –, destinadas
a proclamar em cada parada orante, seguindo a trama da narração da Paixão
segundo o Evangelista Lucas, serão propostas por um biblista, Mons. Gianfranco
Ravasi, Prefeito da Biblioteca-Pinacoteca Ambrosiana de Milão, instituição
cultural fundada há quatro séculos pelo Cardeal Federico Borromeo, Arcebispo
daquela cidade e primo de São Carlos, o qual teve, há um século atrás, entre os
seus Prefeitos Achille Ratti, o futuro Papa Pio XI.
Iniciemos agora, ao longo deste itinerário na oração, não
por uma simples memória histórica de um evento passado e de um defunto, mas,
para viver a realidade áspera e crua de um acontecimento aberto à esperança, à
alegria, à salvação. Conosco, caminharão talvez aqueles que ainda estão na
busca, progredindo na inquietude das suas interrogações. E enquanto seguirmos,
de etapa em etapa, este caminho de dor e de luz, ressoarão as palavras
vibrantes do apóstolo Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó
morte, a tua vitória? Mas sejam dadas graças a Deus que nos dá a vitória por
meio de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1Cor 15,54-55.57).
Oração Inicial
O Santo Padre:
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
R. Amém.
Irmãos e irmãs, as sombras noturnas desceram sobre Roma como
naquela noite sobre as casas e jardins de Jerusalém. Também nós nos
aproximaremos das oliveiras do Getsêmani e começaremos a seguir os passos de
Jesus de Nazaré nas últimas horas da sua vida terrena.
Será uma viagem na dor, na solidão, na crueldade, no mal e
na morte. Mas, será igualmente um percurso na fé, na esperança e no amor, pois
a sepultura da última etapa do nosso caminho não permanecerá selada para
sempre. Passadas as sombras, na alvorada da Páscoa, levantar-se-á a luz da
alegria, o silêncio será substituído pela palavra de vida, à morte sucederá a
glória da ressurreição.
Rezemos, portanto, entrelaçando as nossas palavras com
aquelas de uma antiga voz do Oriente cristão:
Senhor Jesus concedei-nos as lágrimas que no momento não
possuímos, para lavar os nossos pecados. Dai-nos a coragem de suplicar a vossa
misericórdia. No dia do último juízo, arrancai as páginas que enumeram os
nossos pecados e fazei que não existam mais [Nil Sorkij (1433-1580), da Orazione Penitenziale].
Senhor Jesus, vós repetis também para nós, nesta noite, as
palavras que um dia dissestes a Pedro: «Segue-me». Obedecendo ao vosso convite,
queremos seguir-vos, passo a passo, no caminho da vossa Paixão, para também nós
aprendermos a pensar segundo Deus e não segundo os homens. Amém.
I Estação: Jesus no Horto das Oliveiras
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 22,39-46
Saiu então, e foi, como de costume, para o Monte das
Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele. Quando chegou ao local,
disse-lhes: «Orai, para que não entreis em tentação». Depois afastou-Se
bruscamente deles até à distância de um tiro de pedra, aproximadamente; e,
posto de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim
este cálice; não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua». Então vindo do
Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava. Cheio de angústia, pôs-Se a orar
mais instantemente, e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que
caiam na terra. Depois de ter orado, levantou-Se e foi ter com os discípulos,
encontrando-os a dormir, devido à tristeza. Disse-lhes: «Por que dormis?
Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação».
Meditação
Quando o véu das sombras desce sobre Jerusalém, as oliveiras
do Getsêmani parecem-nos reconduzir, ainda hoje, com o sussurrar das suas
folhas, àquela noite de sofrimento e de oração vivida por Jesus. Ele se destaca
solitário, no centro da cena, ajoelhado no chão daquele jardim. Como cada
pessoa que está diante da morte, também Cristo se sente afligido pela angústia;
aliás, a palavra originária que o evangelista Lucas utiliza é «agonia», ou
seja, luta. Então, a oração de Jesus é dramática, tensa como num combate, e o
suor estriado de sangue que se escorre pelo seu rosto é sinal de um tormento
áspero e duro. O grito é lançado para o alto, em direção ao Pai que parece
misterioso e mudo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice», o cálice da
dor e da morte. Também um dos grandes Pais de Israel, Jacó, em uma noite escura
na margem de um afluente do Jordão tinha encontrado Deus como uma pessoa
misteriosa, que «lutara com ele até o surgir da aurora» (Gn 32,23-32). Rezar em
tempo de prova é uma experiência que perturba corpo e alma e também Jesus, nas
trevas daquela noite, «oferece orações e súplicas com fortes gritos e lágrimas
àquele que pode libertá-lo da morte» (Hb 5,7).
No Cristo do Getsêmani, em luta com a angústia,
reencontramo-nos a nós mesmos quando atravessamos a noite da dor lancinante, da
solidão dos amigos, do silêncio de Deus. É por isso que Jesus – como foi dito -
«estará em agonia até o fim dos tempos: não é necessário dormir até àquele
momento pois ele procura companhia e conforto» (Blaise Pascal, Pensieri, n. 553), como todo sofredor da
terra. Nele descobrimos também o nosso rosto, quando é regado pelas lágrimas e
é marcado pela desolação. Mas a luta de Jesus não chega à tentação da rendição
desesperada, mas à profissão de confiança no Pai e no seu misterioso desígnio.
São as palavras do «Pai nosso» que ele repropõe naquela hora amarga: «Orai para
que não entreis... não se faça, contudo, a Minha vontade, mas a Tua». E eis que
então, aparece o anjo da consolação, do apoio e do conforto que auxilia Jesus e
a nós a continuar até o final o nosso caminho.
Pater noster...
Stabat mater dolorosa,
iuxta crucem
lacrimosa,
dum pendebat Filius.
II Estação: Jesus, traído por Judas, é preso
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 22,47-53
Estava Ele ainda a falar quando surgiu uma multidão de
gente, precedendo-os um dos doze, o chamado Judas, que caminhava à frente, e
aproximou-se de Jesus para O beijar. Jesus disse-lhe: «Judas, é com um beijo
que entregas o Filho do Homem?» Vendo aqueles que O cercavam o que ia suceder,
perguntaram-lhe: «Senhor, ferimo-los à espada?» E um deles feriu um servo do
sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus interveio, dizendo:
«Já basta, deixai-os». E, tocando na orelha, curou-o. Depois, disse aos que
tinham vindo contra Ele, aos príncipes dos sacerdotes, aos oficiais do Templo e
aos anciãos: «Vós saístes com espadas e varapaus, como se fôsseis ao encontro
dum salteador? Estando Eu todos os dias convosco no Templo, não Me deitastes as
mãos; mas esta é a vossa hora e o domínio das trevas».
Meditação
Entre as oliveiras do Getsêmani, imerso nas trevas,
aproxima-se agora uma pequena multidão: a guiá-la, Judas «um dos Doze», um
discípulo de Jesus. Na narrativa de Lucas, ele não pronuncia sequer uma
palavra, é apenas uma gélida presença. Parece até que não consegue aproximar-se
completamente do rosto de Jesus para beijá-lo, interrompido pela única voz que
ressoa, a de Cristo: «Judas, com um beijo entregas o Filho do homem?». São
palavras dolentes, mas firmes que revelam o emaranhado maligno que se aninha no
coração agitado e endurecido do discípulo, talvez iludido e desiludido e,
depois, desesperado.
Aquela traição e aquele beijo tornaram-se, ao longo dos
séculos, o símbolo de todas as infidelidades, apostasias e enganos. Cristo,
portanto, encontra uma outra prova, a da traição que gera abandono e
isolamento. Não é a solidão a ele cara quando se retirava nos montes para
rezar, não é a solidão interior, fonte de paz e de tranquilidade, pois, com
ela, se inclina sobre o mistério da alma e de Deus. É, porém, a áspera
experiência de tantas pessoas que mesmo neste momento que nos vê reunidos, como
em outros momentos do dia, estão sozinhas em um quarto, diante de uma parede
vazia ou de um telefone mudo, esquecidas por todos porque são idosos, doentes,
estrangeiros ou desconhecidos. Jesus bebe com eles também este cálice que
contém o veneno do abandono, da solidão, da hostilidade.
Porém, a cena do Getsêmani movimenta-se: ao quadro
precedente, íntimo e silencioso da oração se opõe agora, sob as oliveiras, o
estrondo, o tumulto e até mesmo a violência. Jesus se ergue, sempre no centro
como um ponto fixo. Ele está consciente do mal que envolve a história humana
com o seu sudário de prepotência, de agressão, de brutalidade: «Esta é a vossa
hora e o domínio das trevas».
Cristo não quer que os discípulos, prontos a empunhar a
espada, revidem o mal com o mal, a violência com a violência. Ele tem a certeza
de que o poder das trevas – aparentemente invencível e jamais satisfeita de
triunfos – está destinado a ser dominado. À noite, de fato, sucederá o
alvorecer, à obscuridade a luz, à traição o arrependimento, também para Judas.
É por esse motivo que, não obstante tudo isso, é necessário continuar a esperar
e a amar. Jesus tinha ensinado no monte das Bem-aventuranças, que para se ter
um mundo novo e diferente, é necessário amar os nossos inimigos e rezar por
aqueles que nos perseguem (Mt 5,44).
Pater noster...
Cuius animam gementem,
contristatam et
dolentem
pertransivit gladius.
III Estação: Jesus é condenado pelo Sinédrio
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 22,66-71
Quando se fez dia, reuniu-se o Conselho dos anciãos do povo,
príncipes dos sacerdotes e escribas, os quais O levaram ao seu tribunal.
Disseram-Lhe: «Declara-nos se Tu és o Messias». Ele respondeu-lhes: «Se vo-lo
disser, não Me acreditareis e, se vos perguntar, não Me respondereis. Mas o
Filho do Homem sentar-Se-á, doravante, à direita do poder de Deus». Disseram
todos: «Tu és o Filho de Deus?». Ele respondeu: «Vós, o dizeis, Eu sou». Então,
exclamaram: «Que necessidade temos já de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da
Sua boca»
Meditação
O sol da sexta-feira santa está surgindo por detrás do monte
das Oliveiras, depois de ter iluminado os vales do deserto de Judá. Os setenta
e um membros do Sinédrio, a máxima instituição judaica, estão reunidos em
semicírculo ao redor de Jesus. Está para ser iniciada a audiência que
compreende o costumeiro procedimento das assembleias judiciárias: a verificação
da identidade, os motivos da acusação, as testemunhas. O julgamento é de
natureza religiosa segundo as competências daquele tribunal, como parece também
nas duas perguntas principais: «És tu o Cristo?... És tu o Filho de Deus?».
A resposta de Jesus parte de uma premissa quase
desencorajada: «Se vo-lo disser, não Me acreditareis e, se vos perguntar, não
Me respondereis». Ele sabe, portanto, que na cilada existe a incompreensão, a
suspeita, o equívoco. Ele sente ao seu redor uma fria cortina de desconfiança e
de hostilidade, ainda mais opressora pois ela está erguida contra ele pela sua
própria comunidade religiosa e nacional. Já o salmista tinha sentido esta
desilusão: «Se me tivesse ultrajado o inimigo, eu tolerá-lo-ia. Se contra mim
se levantara quem me odeia, afastá-lo-ia. Mas tu, um homem igual a mim, meu
amigo e familiar, com quem eu partilhava o conselho agradável, com quem ia à
casa de Deus cheio de entusiasmo» (Sl 55/54,13-15).
Porém, não obstante aquela incompreensão, Jesus não hesita
em proclamar o mistério que está nele e que a partir daquele momento está para
ser revelado como numa epifania. Recorrendo à linguagem da Sagrada Escritura,
ele se apresenta como o Filho do homem «sentado à direita do poder de Deus». É
a glória messiânica, esperada por Israel, que agora se manifesta neste
condenado. Aliás, é o Filho de Deus que paradoxalmente se apresenta revestido
agora dos seus despojos de um acusado. A resposta de Jesus - «Eu sou» -, à
primeira vista semelhante à confissão de um condenado, torna-se na realidade
uma profissão solene de divindade. Para a Bíblia, de fato, «Eu sou» é o nome e
apelativo do próprio Deus (Ex 3,14).
A imputação, que levará a uma sentença de morte, torna-se a
uma revelação e assim se torna também a nossa profissão de fé no Cristo, o
Filho de Deus. Aquele acusado, humilhado pela corte enfurecida, pela
suntuosidade da sala, por um julgamento já selado, recorda a todos o dever do
testemunho à verdade. Um testemunho de fazer ressoar até mesmo quando é forte a
tentação de ocultar-se, de resignar-se, de deixar-se levar pela corrente da
opinião dominante. Como declarava uma jovem judia destinada a ser morta num
lager, [Etty Hillesum, Diario 1941-1943 (3 de julho de 1943)] «a cada novo
horror ou crime devemos opor um novo fragmento de verdade e de bondade que
conquistamos em nós mesmos. Podemos sofrer, mas não devemos sucumbir».
Pater noster,...
O quam tristis et
afflicta
fuit illa benedicta
Mater Unigeniti!
IV Estação: Jesus é renegado por Pedro
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 22,54-62
Apoderando-se então de Jesus levaram-n’O e introduziram-n’O
em casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia-O de longe. Como tivessem acendido uma
fogueira no meio do pátio e se tivessem sentado, Pedro sentou-se no meio deles.
Ora, uma criada, ao vê-lo sentado ao lume, fitando-o, disse: «Este também
estava com Ele». Mas Pedro negou-o, dizendo: «Não O conheço, mulher». Pouco
depois, disse outro, ao vê-lo: «Tu também és dos tais». Mas Pedro disse:
«Homem, não sou». Cerca de uma hora mais tarde, um outro asseverou com
insistência: «Com certeza este também estava com Ele; pois até é galileu».
Pedro respondeu: «Homem, não sei o que dizes». E, no mesmo instante, estando
ele ainda a falar, cantou um galo. Voltando-Se, o Senhor fixou os olhos em
Pedro; e Pedro recordou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: «Antes de o
galo cantar, negar-Me-ás três vezes». E, vindo para fora, chorou amargamente.
Meditação
Retornemos àquela noite deixada para trás, entrando na sala
do primeiro processo ao qual Jesus foi submetido. A obscuridade e o frio são
dilacerados pelas chamas de um braseiro colocado no pátio do palácio do
Sinédrio. Os funcionários em serviço e de guarda estendem as mãos em direção
daquele calor; os rostos estão iluminados. E eis que se erguem três vozes, três
mãos a indicar um rosto reconhecido, o de São Pedro.
A primeira é uma voz feminina. Uma criada do palácio que fixa
o discípulo nos olhos e exclama: «Estavas também tu com Jesus!». Surge depois
uma voz masculina: «Pertences a eles!». É ainda um homem a insistir mais tarde
a mesma acusação, notando o sotaque setentrional de Pedro: «Estavas com ele!».
A estas denúncias, quase num crescendo desesperado de autodefesa, o apóstolo
não hesita por três vezes a perjurar: «Não conheço Jesus! Não sou um discípulo
seu! Não sou aquele dizeis!». Portanto, a luz daquele braseiro ilumina,
portanto, muito além do rosto de Pedro, revela uma alma mesquinha, a sua
fragilidade, o egoísmo, o medo. E no entanto, algumas horas antes, ele tinha
proclamado: «Mesmo que todos venham a sucumbir, eu não! Mesmo que eu tenha de
morrer Contigo, não Te renegarei!» (Mc 14,29.31).
Mas esta traição não terminou, como tinha acontecido com a
de Judas. Há, de fato, naquela noite um som que dilacera o silêncio de
Jerusalém, mas sobretudo a consciência de Pedro: é o canto de um galo.
Exatamente naquele momento Jesus estava saindo do processo judiciário que o
havia condenado. Lucas descreve a troca de olhares entre Cristo e Pedro e o faz
usando um verbo grego que indica o fixar profundamente um rosto. Mas, como nota
o evangelista, não se trata de um homem qualquer que agora olha para o outro, é
«o Senhor», cujos olhos perscrutam os corações e os rins, ou seja, o íntimo
segredo de uma alma.
E dos olhos do apóstolo caem lágrimas de arrependimento. Na
sua vicissitude condensam-se muitas histórias de infidelidade e de conversão,
de fraqueza e de libertação. «Chorei e acreditei!»: assim, com apenas estes
dois verbos, séculos depois, um convertido [François-René de Chateaubriand, Il genio del cristianesimo (1802)] ,
aproximará sua experiência à de Pedro, dando voz também a todos nós que neste
dia cometemos pequenas traições, protegendo-nos por detrás de justificações
mesquinhas, deixando-nos possuir por medos vis. Mas, como para o apóstolo,
também para nós está aberto o caminho do encontro com o olhar de Cristo que nos
confia o mesmo compromisso: também tu «uma vez convertido, fortalece os teus
irmãos» (Lc 22,32).
Pater noster...
Quæ mærebat et
dolebat,
pia Mater, dum videbat
Nati pœnas incliti.
V Estação: Jesus é julgado por Pilatos
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23,13-25
Pilatos convocou os príncipes dos sacerdotes, os chefes e o
povo, e disse-lhes: «Trouxeste este Homem à minha presença como andando a
revoltar o povo. Interroguei-O diante de vós e não encontrei n’Ele nenhum dos
crimes de que O acusais. Herodes tampouco, visto que no-Lo mandou de novo. Como
vedes, Ele nada praticou que mereça a morte. Vou, portanto, libertá-lo, depois
de O castigar». Ora, pela festa, Pilatos era obrigado a soltar-lhes um preso. E
todos se puseram a gritar: «Dá morte a esse e solta-nos Barrabás». Este último
fora metido na prisão por causa de uma insurreição desencadeada na cidade, e
por um homicídio. De novo, Pilatos lhes dirigiu a palavra, querendo libertar
Jesus. Mas eles gritavam: «Crucifica-O! Crucifica-O!». Pilatos disse-lhes pela
terceira vez: «Que mal fez Ele então? Nada encontrei n’Ele que mereça a morte.
Libertá-Lo-ei, portanto, depois de O castigar». Mas eles insistiam em altos
brados, pedindo que fosse crucificado, e os seus clamores aumentavam de
violência. Pilatos, então, decretou que se fizesse o que eles pediam. Libertou
o que fora preso por sedição e homicídio, que eles reclamavam, e entregou-lhes
Jesus para o que eles queriam.
Meditação
Neste momento, Jesus encontra-se entre as insígnias
imperiais, os estandartes, as águias e os pavilhões da autoridade romana,
dentro de um outro palácio do poder, o do governador Pôncio Pilatos, um nome à
margem e esquecido na história do Império de Roma. E, no entanto, é um nome que
ressoa todos os domingos, em todo o mundo, exatamente por causa daquele
processo que ora se celebra: os cristãos, de fato, no Credo proclamam que
Cristo «foi crucificado sob Pôncio Pilatos». Por um lado, ele encarna à
primeira vista a brutalidade repressiva, pois Lucas recorda, numa página do seu
Evangelho, naquele dia em que ele não hesitou em misturar no templo o sangue
judeu com o dos animais para o sacrifício (Lc 13,1). Com ele compara-se um
outro poder obscuro e impalpável: é a força feroz das multidões, manipuladas
pelas estratégias dos poderes ocultos que tramam na escuridão. O resultado está
na escolha de conceder a graça a Barrabás, um rebelde homicida.
Por outro lado, porém, emerge um perfil diferente de
Pilatos: ele parece representar a equidade tradicional e a imparcialidade do
direito romano. Por três vezes pelo menos, Pilatos tenta propor a absolvição de
Jesus por insuficiência de provas, cominando ao máximo a sanção disciplinar da
flagelação. A acusa, de fato, não suportaria um sério exame processual. Como
insistem todos os evangelistas, Pilatos revela, portanto, uma certa abertura de
ânimo, uma disponibilidade que, porém, progressivamente se debilita e se apaga.
Sob a pressão da opinião pública, Pilatos encarna, então,
uma atitudes que parecem dominar nos nossos dias: a indiferença, o
desinteresse, a conveniência pessoal. Para se viver serenamente, e por vantagem
própria, não se hesita em esmagar a verdade e a justiça. A imoralidade
explícita gera pelo menos um estremecimento ou uma reação; esta, por sua vez,
pura amoralidade que paralisa a consciência, extingue o remorso e fecha a
mente. A indiferença é a morte lenta da verdadeira humanidade.
O êxito está na escolha final de Pilatos. Como diziam os
antigos latinos, uma justiça hipócrita e apática se torna semelhante a uma teia
de aranha na qual se prendem e morrem os mosquitos mas os grandes pássaros as
rasgam com a força do seu voo. Jesus, que é um dos pequenos da terra, sem poder
emitir uma palavra, é sufocado por esta teia. E como muitas vezes fazemos,
Pilatos olha para o outro lado, lava as mãos e como álibi lança – segundo o
evangelista João (Jo 18,38) - a eterna pergunta típica de qualquer ceticismo e
de qualquer relativismo ético: «E o que é a verdade?».
Pater noster...
Quis est homo qui non
fleret,
Matrem Christi si
videret
in tanto supplicio?
VI Estação: Jesus é flagelado e coroado de espinhos
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 22,63-65
Entretanto, os que guardavam Jesus troçavam d’Ele e
maltratavam-n’O. Cobriam-Lhe o rosto e perguntavam-Lhe: «Adivinha! Quem Te
bateu?» E muitos outros insultos proferiam contra Ele.
Meditação
Um dia, enquanto caminhava pelo vale do Jordão, não distante
de Jericó, Jesus parou e dirigiu aos Doze palavras fervorosas e
incompreensíveis aos seus ouvidos: «Olhai, subimos agora a Jerusalém e
cumprir-se-á tudo quanto foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem.
Vai ser entregue aos gentios, vai ser escarnecido, maltratado e coberto de
escarros; e, depois de O açoitarem, dar-Lhe-hão a morte» (Lc 18,31-32). Mas
aquelas palavras resolvem o seu enigma: no pátio do pretório, a sede
hierosolimitana do governador romano, inicia o lúgubre ritual da tortura,
acompanhado de fora do palácio pela multidão que espera o espetáculo do cortejo
da execução capital.
Naquele espaço proibido para o público se consuma um gesto
que será repetido nos séculos de mil formas sádicas e perversas, na obscuridade
de tantas prisões. Jesus não é somente açoitado mas também é humilhado. Aliás,
o evangelista Lucas para definir aqueles insultos usa o verbo «blasfemar»,
revelando de modo alusivo o significado profundo daquele desabafo dos guardas
enfurecidos sobre a vítima. Mas na martirizada carne de Cristo se associa
igualmente uma afronta à sua dignidade pessoal através de uma farsa macabra.
É o evangelista João quem recorda aquele ato sarcástico,
ritmado sobre um jogo popular, o do rei do ridículo. Eis, de facto, uma coroa
cujos esplendores são ramos de espinhos; a púrpura real é substituída por um
manto vermelho; e, finalmente, a saudação imperial, «Ave, César!». Porém, em
dissolução a este escárnio, se entrevê um sinal glorioso: sim, Jesus è
humilhado como rei do ridículo; mas, na realidade ele é o verdadeiro soberano
da história.
Quando finalmente revelará a sua realeza – como nos recorda
um outro evangelista, Mateus (Mt 25,31-46) - ele condenará todos os
torturadores e os opressores e introduzirá na glória não apenas as vítimas mas
também todos os que visitaram quem estava no cárcere, cuidaram dos feridos e
dos sofredores, sustentaram os famintos, os sedentos e os perseguidos. Agora,
porém, o rosto transfigurado mostrado no Tabor (Lc 9,29) está desfigurado;
aquele que è «irradiação da glória divina» (Hb 1,3) está obscurecido e
humilhado; como tinha anunciado Isaias, o Servo messiânico do Senhor tem o
dorso sulcado pelos flagelos, a barba arrancada das faces, o rosto regado de
escarros (Is 50,6). Nele, que é o Deus da glória, está presente também a nossa humanidade
dolente; nele, que é o Senhor da história, se revela a vulnerabilidade das
criaturas; nele, que é o Criador do mundo, se condensa a dor de todos os seres
vivos.
Pater noster...
Pro peccatis suæ
gentis
vidit Jesum in
tormentis
et flagellis subditum.
VII Estação: Jesus carrega a cruz
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Marcos 15,20
Em seguida, depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o
manto de púrpura e vestiram-Lhe as Suas roupas.
Meditação
Nos pátios do palácio imperial terminou a festa macabra;
caem as vestes daquele ridículo hábito real, escancara-se o portal. Eis que
avança com suas vestes normais, com a sua túnica «toda tecida de alto a baixo,
não tinha costura» (Jo 19,23). Nas suas costas, apoia a trave horizontal,
destinada a acolher os seus braços quando ela for fixada no poste da
crucifixão. A sua presença é muda, suas pegadas ensanguentam aquela estrada que
ainda hoje traz o nome de «Via dolorosa», em Jerusalém.
Inicia-se agora, em sentido estrito a Via Crucis, aquele percurso que se repete esta noite e que se
encaminha para a colina das execuções capitais, fora dos muros da cidade santa.
Jesus avança e vacila sob aquele peso e pela fraqueza do seu corpo ferido. A
tradição desejou simbolicamente assinalar aquele itinerário com três quedas.
Nelas, há o episódio infinito de tantas mulheres e homens prostrados na miséria
ou na fome: são crianças magras, idosos enfraquecidos, pobres debilitados de
cujas veias foi tirada toda energia.
Naquelas quedas há ainda a história de todas as pessoas
desoladas na alma e infelizes, ignoradas pelo frenesi e pela distração das que
passam ao lado. Em Cristo curvado sob a cruz está a humanidade doente e fraca
que, como afirmava o profeta Isaías (Is 29,4), «Desolada, falarás do solo, as
tuas palavras virão apagadas pelo pó, a tua voz sairá da terra como a de um
fantasma, a tua voz levantar-se-á do pó como um murmúrio».
Também hoje, como ontem, ao redor de Jesus que se ergue e
prossegue carregando o lenho da cruz, continua a vida quotidiana do caminho,
assinalada pelos negócios, pelas monstras cintilantes, pela procura do prazer.
E, no entanto, à sua volta não há apenas hostilidade ou indiferença. Nos seus
passos movem-se hoje aqueles que escolheram seguí-Lo. Esses ouviram o apelo que
um dia ele tinha lançado passando pelos os campos da Galileia: «Se alguém
quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e
siga-Me» (Lc 9,23). «Saiamos, então, do campo para ir ter com ele fora do
acampamento, levando o Seu opróbrio» (Hb 13,13). No final da Via dolorosa não
há apenas a colina da morte ou o abismo do sepulcro, mas igualmente o monte da
gloriosa ascensão e da luz.
Pater noster...
Quis non posset
contristati
piam matrem
comtemplari
dolentem cum Filio?
VIII Estação: Jesus é ajudado pelo Cireneu a carregar a Cruz
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23, 26
Quando O iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de
Cirene, que voltava do campo e carregaram-no com a cruz, para a levar atrás de
Jesus.
Meditação
Voltava do campo, talvez depois de algumas horas de
trabalho. Esperavam-no em casa os preparativos do dia festivo: ao pôr-do-sol,
de facto, seria aberta a sagrada fronteira do sábado, iniciado com o despontar
das primeiras estrelas no céu. Simão era o seu nome; ele era um judeu
proveniente da África, de Cirene, cidade situada no litoral líbio e que
hospedava uma densa comunidade da Diáspora judaica (At 2,10; 6,9; 13,1). Uma
dura ordem da divisão romana que escolta Jesus o detém e o obriga a carregar,
por um trecho de caminho, o patíbulo daquele condenado enfraquecido.
Simão tinha passado por ali por acaso; não sabia que aquele
encontro seria extraordinário. Como está escrito, (Charles Péguy, Il mistero della carità di santa Giovanna
D’Arco, 1910) “quantos homens nos séculos teriam desejado estar ali, no seu
lugar, ter passado por ali exatamente naquele momento. Mas, era tarde demais,
era ele quem passou e ele, ao longo dos séculos não teria jamais cedido o seu
lugar a algum outro”. Paulo apóstolo, tinha sido interceptado, “agarrado e
conquistado” (Fl 3,12) por Cristo na estrada de Damasco. É por isso que depois
retomou de Isaías as surpreendentes palavras de Deus: «Fui encontrado pelos que
não Me procuravam; manifestei-Me àqueles que não perguntavam por Mim» (Rm
10,20).
Deus está em emboscada nos caminhos da nossa existência
quotidiana. É ele que às vezes bate nas nossas portas pedindo um lugar em
nossas mesas para jantar conosco (Ap 3,20). Até mesmo um imprevisto, como que
aconteceu na vida de Simão de Cirene, pode se tornar um dom de conversão, e
isso é tão verdade que o evangelista Marcos citará os nomes dos filhos daquele
homem que se tornou cristão: Alexandre e Rufo (Mc 15,21). O Cireneu é, assim, o
emblema do misterioso abraço entre a graça divina e a atividade humana. No
final o evangelista o representa como o discípulo que «leva a crua atrás de
Jesus», seguindo-lhe as pegadas (Lc 9,23). O seu gesto, da execução forçada,
transforma-se idealmente num símbolo de todos os atos de solidariedade pelos
sofredores, pelos oprimidos e pelos exaustos. O Cireneu representa, assim, uma
imensa fila das pessoas generosas, dos missionários, dos Samaritanos que não
«se desviam» da estrada, (Lc 10,30-37) mas se inclinam sobre os miseráveis
carregando-lhes sobre si para sustentá-los. Na cabeça e nos ombros de Simão,
curvado sob o peso da cruz, ressoam as palavras de São Paulo: «Levai os fardos
uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo» (Gl 6,2).
Pater noster...
Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me
pati,
poenas mecum divide.
IX Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23,27-31
Seguiam-n’O uma grande massa de povo e umas mulheres que se
lamentavam e choravam por Ele. Jesus, voltou-Se para elas e disse-lhes: «Filhas
de Jerusalém, não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos
filhos, pois dias virão em que se dirá: “Felizes as estéreis, os ventres que
não geraram e os peitos que não amamentaram”. Hão de então dizer aos montes:
“Caí sobre nós” e às colinas: “Cobri-nos”. Porque se tratam assim a madeira
verde, o que acontecerá à seca?»
Meditação
Naquela sexta-feira de primavera, no caminho que conduzia ao
Gólgota, não se aglomeravam senão alguns desocupados, curiosos e pessoas hostis
a Jesus. E eis um grupo de mulheres, talvez pertencentes a uma irmandade
dedicada ao conforto e ao pranto ritual pelos moribundos e pelos condenados à
morte. Cristo, durante a sua vida terrena, superando convenções e preconceitos,
estava frequentemente circundado por mulheres e tinha conversado com elas,
ouvindo os seus pequenos e grandes dramas: da febre da sogra de Pedro à
tragédia da viúva de Naim, da prostituta em lágrimas ao tormento interior de
Maria de Magdala, do afeto de Marta e Maria ao sofrimento da mulher acometida
de hemorragia, da jovem filha de Jairo à anciã encurvada, da nobre Joana de
Cusa à viúva indigente e às figuras femininas da multidão que o seguia.
Em torno a Jesus, até à sua última hora, estreitam-se
numerosas mães, filhas e irmãs. Junto dele, agora, imaginemos todas as mulheres
humilhadas e violentadas, as marginalizadas e submetidas a práticas tribais
indignas, às mulheres em crise e sozinhas diante da sua maternidade, mães
judias e palestinas, as de todas as regiões em guerra, as viúvas ou as idosas
esquecidas pelos seus filhos... É uma longa suposição de mulheres que
testemunham num mundo árido e impiedoso o dom da ternura e da comoção, como
fizeram pelo filho de Maria no final daquela manhã de Jerusalém. Elas nos
ensinam a beleza dos sentimentos: não nos devemos envergonhar se o coração
acelera suas batidas na compaixão, se por vezes afloram lágrimas dos olhos, se
se sente necessidade de uma carícia e de um conforto.
Jesus não ignora as intenções caritativas daquelas mulheres
como outrora acolheu outros gestos delicados. Mas, paradoxalmente, é ele agora
quem se interessa pelos iminentes sofrimentos daquelas «filhas de Jerusalém»:
«Não choreis por Mim, mas por vós mesmas e pelos vossos filhos». De fato, há no
horizonte um incêndio que está para abater-se sobre o povo e sobre a cidade
santa, «um lenho seco» pronto para pegar fogo.
O olhar de Jesus vai em direção ao futuro julgamento divino
sobre o mal, a injustiça, o ódio que estão alimentando aquela chama. Cristo se
comove com a dor que está caindo sobre aquelas mães quando irromperá na
história a intervenção justa de Deus. Mas as suas frementes palavras não selam
um êxito desesperado pois a sua voz é a dos profetas, uma voz que não gera
agonia e morte mas conversão e vida: «Buscai o Senhor e vivereis... Então a
jovem executará danças alegres; jovens e velhos partilharão do júbilo comum.
Converterei o seu pranto em gozo, e consolá-los-ei, passada a sua dor, e os
alegrarei» (Am 5,6; Jr 31,13).
Pater noster...
Eia, mater, fons
amoris,
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.
X Estação: Jesus é crucificado
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23,33-38
Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n’O
a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia:
«Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem». Depois, deitaram sortes
para dividirem entre si as Suas vestes.
O povo permanecia ali, a observar e os chefes zombavam,
dizendo: «Salvou os outros; salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o
Eleito». Os soldados também troçavam d’Ele, aproximando-se para Lhe oferecerem
vinagre. Diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». E por cima
d’Ele havia uma inscrição: «Este é o rei dos judeus».
Meditação
Era apenas uma formação rochosa denominada em aramaico
Gólgota, em latim, Calvário, isto é «crânio», talvez devido à sua configuração
física. Sobre aquele monte se elevam três cruzes de condenados à morte, dois
«malfeitores», provavelmente revolucionários anti-romanos e Jesus.
Aproximavam-se as últimas horas da vida terrena de Cristo, horas assinaladas
pela dilaceração das carnes, pela desconjunção dos ossos, pela progressiva
asfixia, pela desolação interior. São as horas que testemunham a plena
fraternidade do Filho de Deus com o homem que padece, agoniza e morre.
Cantava um poeta (Charles Péguy, Il mistero della carità di santa Giovanna d'Arco, 1910): «O ladrão
da esquerda e o ladrão da direita/ não sentiam senão os cravos nas mãos/
Cristo, porém, sentia a dor dada pela salvação/ o lado aberto, o coração
trespassado/ É o coração que lhe queimava. / Um coração devorado pelo amor».
Sim, porque ao redor daquele patíbulo parecia ressoar a voz de Isaias: «Mas foi
castigado pelos nossos crimes, esmagado pelas nossas iniquidades; o castigo que
nos salva pesou sobre ele, fomos curados pelas suas chagas [...] oferecendo a
sua vida em sacrifício expiatório» (Is 55,5.10). Os braços abertos daquele
corpo martirizado querem estreitar a si todo o horizonte, abraçando a humanidade
quase «como uma galinha a sua ninhada debaixo das asas» (Lc 13,34). De fato era
esta a sua missão: «E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim»
(Jo 12,32).
Sob aquele corpo agonizante, desfila a multidão que quer
«ver» um espetáculo macabro. É o retrato da superficialidade, da curiosidade
banal, da busca de emoções fortes. Um retrato no qual se pode identificar
também uma sociedade como a nossa que escolhe a provocação e o excesso quase
como uma droga para excitar uma alma já entorpecida, um coração insensível, uma
mente ofuscada.
Sob aquela cruz há também a crueldade pura e dura, a dos
chefes e dos soldados que não conhecem piedade e conseguem profanar até mesmo o
sofrimento e a morte com zombaria: «Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!».
Eles não sabem que exatamente as suas palavras sarcásticas e a escrita oficial
colocada sobre a cruz - «Este é o rei dos judeus» - dizem uma verdade. Certo,
Jesus não desce da cruz com um espetáculo surpreendente: ele não quer adesões
servis fundadas no prodigioso, mas uma fé livre e um amor autêntico. No
entanto, exatamente através da derrota da sua humilhação e da impotência da
morte, ele abre a porta da glória e da vida, revelando-se o verdadeiro Senhor e
Rei da história.
Pater noster...
Fac ut ardeat cor meum
in amando Christum
Deum,
ut sibi complaceam.
XI Estação: Jesus promete o seu Reino ao bom ladrão
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23,39-43
Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». Mas o
outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres
o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça pois recebemos o castigo que as
nossas ações mereciam, mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de mim quando estiveres no Teu reino». Ele respondeu-lhe: «Em
verdade te digo: Hoje estarás Comigo no Paraíso».
Meditação
Passam os minutos da agonia e a energia vital de Jesus
crucificado lentamente se está diminuindo. Mas, naqueles momentos trágicos, ele
ainda tem a força para um último ato de amor, em relação a um dos dois
condenados à pena capital que estão ao lado. Entre Cristo e aquele homem
transcorre um tênue diálogo, reduzido a duas frases essenciais.
Por um lado, há o apelo do malfeitor, que se tornou, na
tradição, o «bom ladrão», convertido na extrema hora da sua vida: «Jesus,
lembra-Te de mim quando estiveres no Teu reino!». Num certo sentido é como se o
homem recitasse uma versão pessoal do «Pai nosso» e da invocação: «Venha a nós
o vosso Reino!». Ele, porém, o endereça diretamente a Jesus, chamando-o pelo
nome, um nome de significado iluminador naquele instante: «O Senhor salva». Há,
ainda, aquele imperativo: «Lembra-Te de mim». Na linguagem bíblica este verbo
tem uma força particular que não corresponde ao nosso pálido «lembrar». É uma
palavra de certeza e de confiança, quase querendo dizer: «Toma conta de mim,
não me abandone, seja como o amigo que apoia e ampara.
Por outro lado, eis a resposta de Jesus, brevíssima, como um
sopro: «Hoje estarás Comigo no paraíso». Esta palavra «paraíso», tão rara na
Sagrada Escritura que aparece apenas outras duas vezes no Novo Testamento (2Cor
12,4; Ap 2,7), no seu significado original evoca um jardim fértil e florido. É
uma imagem perfumada daquele Reino de luz e de paz que Jesus tinha anunciado na
sua pregação inaugurada com os seus milagres que logo terá uma epifania
gloriosa na Páscoa. É a meta do nosso caminho cansativo na história, é a
plenitude da vida, é a intimidade do abraço com Deus. É o último dom que Cristo
faz, exatamente através do sacrifício da sua morte que se abre à glória da
ressurreição.
Nada mais disseram aqueles dois crucificados naquele dia de
angústia e de dor, mas aquelas poucas palavras pronunciadas com dificuldade das
suas gargantas abrasada e ecoam sempre como um sinal de confiança e de salvação
para quem pecou mas também acreditou e esperou, mesmo que tenha sido no extremo
limite da vida.
Pater noster...
Sancta Mater, istud
agas,
Crucifixi fige plagas
cordi meo valide.
XII Estação: Jesus na cruz, a Mãe e o Discípulo
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São João 19,25-27
Junto da cruz de Jesus estavam Sua mãe, a irmã de Sua mãe,
Maria, mulher de Cléofas e Maria de Magdala. Ao ver Sua mãe e junto dela, o
discípulo que Ele amava, Jesus disse à Sua mãe: «Mulher, eis aí o teu filho».
Depois disse ao discípulo: «Eis aí a tua mãe». E, desde aquela hora, o
discípulo recebeu-A em sua casa.
Meditação
Tinha começado a separar-se daquele Filho desde o dia em
que, aos doze anos, ele lhe comunicara que tinha outra casa e outra missão para
cumprir, em nome do seu Pai celestial. Agora, porém, chegou para Maria o
momento da suprema separação. Naquela hora há a aflição de toda mãe que vê
soçobrar até mesmo a lógica da natureza pela qual são as mães a morrer antes
das suas criaturas. Mas o evangelista João cancela toda lágrima daquele rosto
de dores, cala qualquer grito dos lábios, não prostra Maria no desespero.
Antes, há um halo de silêncio que é quebrado por uma voz que
desce da cruz e do rosto torturado do Filho agonizante. É muito mais do que um
momento familiar: é uma revelação que marca uma mudança na vida da Mãe. A
extrema separação na morte não é estéril mas há uma fecundidade inesperada
semelhante ao parto de uma mãe. Exatamente como tinha anunciado o mesmo Jesus,
algumas horas antes, na última noite da sua existência terrena: «A mulher,
quando está para dar a luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas
depois de ter dado à luz o menino, já se não lembra mais da aflição, pelo
prazer de ter vindo ao mundo um homem» (Jo 16,21).
Maria volta a ser mãe: não é por acaso que nas poucas linhas
desta narração evangélica por cinco vezes ressoa a palavra «mãe». Maria,
portanto, é mãe e serão seus filhos todos aqueles que forem como «o discípulo
amado», ou seja, todos aqueles que colocam sob o manto salvador da salvadora
graça divina e que seguem a Cristo na fé e no amor.
A partir daquele momento, Maria não estará mais sozinha,
tornar-se-á mãe da Igreja, um imenso povo de todas as línguas, povos e raças
que nos séculos se juntarão a ela em torno à cruz de Cristo, o seu primogênito.
Desde então também nós caminhamos com ela na estrada da fé, encontramo-nos com
ela na casa onde sopra o Espírito de Pentecostes, nos sentamo-nos à mesa onde
se parte o pão da Eucaristia e esperamos o dia em que o seu Filho voltará para
nos conduzir, como ela, na eternidade da sua glória.
Pater noster...
Fac me tecum pie flere
Crucifixo condolere
donec ego vixero.
XIII Estação: Jesus morre na cruz
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23,44-47
Por volta da hora sexta, as trevas cobriram toda a terra,
até à hora nona, por o Sol se haver eclipsado. O véu do Templo rasgou-se no
meio, e Jesus exclamou, dando um grande grito: «Pai, nas Tuas mãos entrego o
Meu espírito». Dito isto, expirou.
Meditação
No início do nosso itinerário era o véu da noite que
envolvia o Getsêmani; agora é a escuridão de um eclipse que se estende como um
sudário sobre o Gólgota. O «império das trevas» (Lc 22,53) parece, portanto,
dominar a terra onde Deus morre. Sim, o Filho de Deus, por ser verdadeiramente
homem e nosso irmão, deve beber também o cálice da morte, da morte que é o real
bilhete de identidade de todos os filhos de Adão. É assim que Cristo «teve de
assemelhar-Se em tudo aos Seus irmãos», (Hb 2,17) torna-se plenamente um de nós
também na extrema agonia entre a vida e a morte. Uma agonia que se repete
talvez nestes minutos para um homem ou uma mulher aqui em Roma e em tantas
outras cidades e lugares do mundo.
Não é mais o Deus greco-romano impassível e remoto como um
imperador relegado aos céus dourados do seu Olimpo. No Cristo que morre se
revela ora o Deus apaixonado, enamorado pelas suas criaturas até ao ponto de
aprisionar-se livremente nos seus limites de dor e de morte. É por isso que o
Crucifixo é um sinal humano universal da solidão da morte e também da injustiça
e do mal. Mas é igualmente um sinal divino universal de esperança pela
expectativa de cada centurião, isto é, de cada pessoa inquieta e em busca.
De fato, mesmo quando está morrendo no alto daquele
patíbulo, enquanto a sua respiração se extingue Jesus não deixa de ser o Filho
de Deus. Naquele momento, todos os sofrimentos e as mortes são atravessados e
possuídos pela divindade, são irradiados de eternidade, neles é deposta uma
semente de vida imortal, brilha um raio de luz divina.
Portanto, a morte mesmo não perdendo a sua tragicidade,
revela um aspecto inesperado, tem o mesmo olhar do Pai celeste. É por isto que
Jesus naquela hora extrema reza com ternura: «Pai, nas tuas mãos eu entrego o
meu espírito». Àquela invocação nos associamos também nós através da voz
poética e orante de uma mulher escritora (Marie Noël, Le canzoni e le ore, 1930): «Pai, teus dedos também fechem os meus
olhos. / Tu que me és Pai, olha para mim como terna Mãe, / na cabeceira do seu
filhinho que sonha. / Pai, olha para mim e acolhe-me nos teus braços».
Pater noster...
Vidit suum dulcem
Natum
morientem desolatum
cum emisit spiritum.
XIV Estação: Jesus é depositado no sepulcro
V. Adoramus te,
Christe, et benedicimus tibi.
R. Quia per sanctam
crucem tuam redemisti mundum.
Evangelho segundo São Lucas 23,50-54
Um membro do Conselho, chamado José, homem reto e justo, não
tinha concordado com a decisão nem com o procedimento dos outros. Era natural
de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava o Reino de Deus. Foi ter com
Pilatos, pediu-lhe o corpo de Jesus e, descendo-O da cruz, envolveu-O num
lençol e depositou-O num sepulcro talhado na rocha, onde ainda ninguém tinha
sido sepultado. Era o dia da Preparação e já amanhecia o sábado.
Meditação
Envolto num lençol funerário, o «sudário», o corpo
crucificado e martirizado de Jesus desliza lentamente das mãos piedosas e
amorosas de José de Arimateia no sepulcro escavado na rocha. Nas horas de
silêncio que se seguirão, Cristo estará verdadeiramente como todos os homens
que entram no ventre escuro da morte, da rigidez cadavérica, do fim. No
entanto, já existe naquele crepúsculo de Sexta-feira Santa, um tremor. O
evangelista Lucas observa que «já brilhavam as luzes do sábado», das janelas
das casas de Jerusalém.
A vigília dos judeus nas suas casas se torna quase um
símbolo de expectativa daquelas mulheres e daquele discípulo secreto de Jesus,
José de Arimateia, e dos outros discípulos. Uma espera que agora domina com uma
tonalidade nova todos os corações crentes quando se encontram diante de um
sepulcro ou também quando sentem ramificar-se dentro de si a mão fria da doença
ou da morte. É a espera de uma alvorada diferente, a que logo depois, passado o
sábado, aparecerá diante dos nossos olhos de discípulos de Cristo.
Naquela aurora, no caminho das sepulturas, virá ao nosso
encontro o anjo e nos dirá: «Por que buscais entre os mortos Aquele que vive?
Não está aqui; ressuscitou!» (Lc 24,5-6). E na estrada de regresso às nossas
casas, será o Ressuscitado que se aproxima de nós, caminhando conosco, passando
os nossos umbrais para ser hospedado nas nossas mesas e partir o pão conosco
(Lc 24,13-32). Rezaremos portanto também nós com as palavras de fé de um trecho
da mais admirável Paixão segundo São Mateus, musicada e cantada por um dos
maiores músicos da humanidade: (Johann Sebastian Bach, Passione secondo Matteo, BWV 244, nn. 18-19.) «Mesmo que o meu
coração esteja imerso em lágrimas porque Jesus se despede de mim, o seu
testamento me dá alegria: ele deixa nas minhas mãos a sua carne e o seu
sangue... Que preciosidade! Quero oferecer-te o meu coração. Desce nele, meu
Salvador! Quero imergir-me em Ti! Se o mundo é pequeno demais para ti, então tu
deves ser unicamente para mim mais do que o mundo e mais do que o céu!».
Pater noster...
Quando corpus
morietur,
fac ut animæ donetur
paradisi gloria. Amen.
O Santo Padre dirige
aos presentes a sua palavra.
Ao final do discurso,
o Santo Padre dá a Bênção Apostólica:
V. Dominus vobiscum.
R. Et cum spiritu tuo.
V. Sit nomen Domini
benedictum.
R. Ex hoc nunc et
usque in sæculum.
V. Adiutorium nostrum
in nomine Domini.
R. Qui fecit cælum et
terram.
V. Benedicat vos
omnipotens Deus, Pater et Filius et Spiritus Sanctus.
R. Amen.
![]() |
| Cardeal Gianfranco Ravasi |
Fonte: Santa Sé
Confira também o vídeo da cerimônia:

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