domingo, 18 de fevereiro de 2018

Homilia: I Domingo da Quaresma - Ano B

São João Crisóstomo
Sermão 2 aos Neófitos
“Preparemo-nos com confiança para o combate”

Quanto a vós, irmãos bem-amados, eu posso chamar-vos deste modo, pois recebi um dia a mesma graça do novo nascimento (Batismo), e a causa de meu grande amor para convosco. Eu vos rogo que, depois de ter recebido tão grande graça, proveis vossa boa vontade. Mostrai-vos dignos da graça, pois a honra que vos será feita é incomparável. Estes últimos tempos só representaram para vós um exercício preparatório, a queda era sempre possível. Hoje começa o verdadeiro combate que decidirá a coroa. O combate começa, o estádio está aberto. Acorrem como espectadores não somente os homens, mas também os exércitos celestes dos anjos: Fomos dados em espetáculo, está escrito, ao mundo, aos anjos e aos homens. Os anjos vos contemplam, o Senhor dos anjos vos apresenta a coroa. Está em jogo não somente nossa glória, mas também nossa salvação, o juiz é aquele que deu sua vida por nós.
Nos jogos olímpicos, aquele que concede a coroa ocupa um lugar no meio dos concorrentes, não favorece a ninguém com um sinal de simpatia, ele é imparcial. Espera o resultado incerto do combate. Na luta com o demônio, Cristo não é neutro: coloca-se do nosso lado. Para convencer-te, recorda que ele nos unge com o óleo da alegria, que ele estende ciladas ao demônio para conseguir sua perda. Se ele vê o demônio cair durante o combate, grita para nós: Esmagai-o. Se ele nos vê vacilar, nos reanima com a mão de sua majestade e nos diz: Por acaso o que cai não pode levantar-se? Ele desperta aqueles que dormem dizendo: Desperta, tu que dormes. Quereis conhecer outras maravilhas? Deus nos preparou o céu como recompensa; o demônio, ainda que venha a ser vencedor, é devolvido ao inferno e ameaçado com o castigo. Se eu alcanço a vitória, serei coroado. Ele será castigado, ainda que vença...
Preparemo-nos com confiança para o combate. Nossas armas são mais brilhantes que o ouro, mais duras que o diamante, mais cintilantes que o fogo, mais rápidas que plumas. Elas não ferem nem cortam o teu corpo, mas o afirmam e o tornam flexível. Com elas pode sem dificuldade chegar ao céu. As armas da terra com as quais o estreante se treina dia após dia são demasiado rudes e inúteis no combate espiritual.
Sou homem, mas fui chamado a enfrentar os demônios. Nascido com um corpo devo lutar contra um inimigo sem corpo. É por isso que Deus me deu uma couraça que não é de metal, mas de simplicidade e justiça. Deus me armou com o escudo da fé. A Palavra de Deus é minha espada. O inimigo utiliza-se de flechas; eu, de uma espada. Ele confia em seus tiros; a mim não faltam nem defesa, nem armas. O inimigo não se sente seguro, mantém-se à distância, lança suas flechas de longe, elas só podem alcançar ao imprudente.
Deus me concedeu outro sustento. Qual? Preparou-me uma mesa com manjares escolhidos, para que, fortificado com alimentos tonificantes, combata ao inimigo até a vitória. Quando o demônio gesticulante te vê afastar-se da mesa do festim celestial, foge como que perseguido por um leão que lança chamas, e desaparece com a velocidade do vento e não ousa mais aproximar-se. Pois só ao enxergar de longe tua língua enrubescida pelo sangue do Senhor, creia-me, abandona o combate rapidamente. Se de longe enxerga sobre teus lábios o sangue de Cristo, foge aterrorizado.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 308-310.

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