sábado, 23 de março de 2019

Homilia: III Domingo da Quaresma - Ano C

Santo Agostinho
Sermão 205
“Esta cruz não é cruz somente de quarenta dias, mas de toda a vida”

Começamos hoje a observância quaresmal, novamente apresentada com rito solene, e nesta ocasião também a vós é necessária uma solene exortação de nossa parte, a fim de que a Palavra de Deus, apresentada por nosso ministério, alimente o coração dos que jejuam no corpo. Desta maneira o homem interior, alimentado com o seu manjar especial, poderá completar a maceração do homem exterior, e suportá-lo com maior integridade.  Pois é muito conveniente à nossa devoção que nos disponhamos a celebrar a Paixão do Senhor crucificado que já está próxima, e façamos para nós mesmos a cruz da repressão dos prazeres carnais, como diz o Apóstolo: Os que são de Jesus Cristo crucificaram sua carne com suas paixões e concupiscências.
Desta cruz o cristão deve continuamente pender durante toda esta vida que percorre entre tentações. Este tempo não é de arrancar cravos, dos quais se fala no salmo: Transpassa minhas carnes com os cravos de teu temor. As carnes são as concupiscências carnais; os cravos, os preceitos da justiça: com estes cravos nos transpassa o temor de Deus, porque nos crucifica como vítima agradável a ele. Por isso, novamente nos diz o Apóstolo: Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a apresentar vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus. É, pois, aquela cruz da qual o servo de Deus não se envergonha; pelo contrário, gloria-se dela, dizendo: Deus me livre de gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, na qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.
Esta cruz não é uma cruz somente de quarenta dias, mas de toda a vida. Por isso, Moisés, Elias e o próprio Senhor jejuaram quarenta dias, para insinuar-nos em Moisés, em Elias e no próprio Senhor, isto é, na lei, nos profetas e no próprio Evangelho, que nós vamos proceder da mesma forma, para que não nos acomodemos nem nos apeguemos a este mundo, mas que crucifiquemos ao homem velho.
Vive sempre assim, ó cristão! Se não queres que teus pés se afundem na lama, não baixes da cruz. E se temos de fazer isto durante toda a vida, muito mais durante estes dias da Quaresma, nos quais não somente se vive, mas que também está simbolizada a vida presente.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 566-567. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

Confira também uma homilia de São Doroteu de Gaza para este domingo clicando aqui.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Raniero Cantalamessa: II Pregação de Quaresma 2019

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
II pregação de Quaresma
22 de março de 2019

“Retorne a si mesmo!”

Santo Agostinho lançou um apelo que, muitos séculos depois, manteve intacta a sua relevância: “In te ipsum redi. In interiore homine habitat veritas”: “Retorne a si mesmo. A verdade habita no homem interior”. Em um discurso ao povo, com insistência ainda maior, ele exorta:
“Entrai de novo em vosso coração! Onde quereis ir para longe de vós? Ao ir longe, vos perdereis. Por que vos dirigis a estradas desertas? Retornai do vosso deambular que vos levastes para fora da estrada; voltai para o Senhor. Ele está pronto. Em primeiro lugar, retornai ao vosso coração, vós que vos tornastes estranhos a vós mesmos, vagando lá fora: não vos conheceis a vós mesmos, e procurais aquele que vos criou! Voltai, retornai ao coração, desprendei-vos do vosso corpo… Retornai ao coração: ali examinai o que se pode perceber de Deus, porque ali se encontra a imagem de Deus; na interioridade do homem mora Cristo, na vossa interioridade vos renovais segundo a imagem de Deus”.
Continuando o comentário iniciado no Advento sobre o versículo do Salmo “A minha alma tem sede do Deus vivo”, refletimos sobre o “lugar” onde cada um de nós entra em contato com o Deus vivo. No sentido universal e sacramental este “lugar” é a Igreja, mas no sentido pessoal e existencial é o nosso coração, o que a Escritura chama “o homem interior”, “o homem escondido no coração”. Esta escolha é impulsionada também pelo tempo litúrgico em que nos encontramos.  Jesus nestes quarenta dias está no deserto, e é aí que devemos chegar até ele. Nem todos podem ir para um deserto exterior; mas todos podemos nos refugiar no deserto interior que é o nosso coração. “Cristo habita na interioridade do homem”, disse-nos Agostinho.
Se quisermos uma imagem plástica ou um símbolo que nos ajude a realizar esta conversão interior, o Evangelho oferece-nos com o episódio de Zaqueu. Zaqueu é o homem que quer conhecer Jesus e, para isso, sai de casa, entra na multidão, sobe a uma árvore… Procura-o fora. Mas, eis que, quando Jesus passou, viu-o e disse-lhe: “Zaqueu, desce imediatamente, porque hoje tenho de entrar em tua casa” (Lc 19,5). Jesus traz Zaqueu de volta à sua casa e ali, no segredo, sem testemunhas, acontece o milagre: Ele conhece verdadeiramente quem é Jesus e encontra a salvação.
Nós nos parecemos muito com Zaqueu. Procuramos Jesus e o procuramos fora, nas ruas, na multidão. E é o próprio Jesus quem nos convida a voltar à nossa casa em nossos corações, onde Ele deseja encontrar-se conosco.

Interioridade, um valor em crise
A interioridade é um valor em crise. A “vida interior” que antes era quase sinônimo de vida espiritual, agora tende a ser vista com desconfiança. Há dicionários de espiritualidade que omitem completamente as vozes “interioridade” e “recolhimento” e outros que as trazem, mas não sem expressar algumas reservas. Por exemplo, nota-se que, afinal, não há nenhum termo bíblico que corresponda exatamente a estas palavras; que poderia ter havido, neste ponto, uma influência decisiva da filosofia platônica; que poderia favorecer o subjetivismo e assim por diante.
Um sintoma revelador deste declínio do gosto e da estima pela interioridade é o destino da Imitação de Cristo, que é uma espécie de manual para a introdução à vida interior. De livro mais amado entre os cristãos, depois da Bíblia, ele passou, em poucas décadas, a ser um livro esquecido.
Algumas das causas desta crise são antigas e inerentes à nossa própria natureza. A nossa “composição”, isto é, o nosso ser feito de carne e espírito, nos faz como um plano inclinado, mas inclinado para o exterior, o visível e o múltiplo. Assim como o universo, após a explosão inicial (o famoso Big Bang), também nós estamos em fase de expansão e de afastamento do centro. “O olho não para de olhar, nem o ouvido se cansa de ouvir”, diz as Escrituras (Ecle 1,8). Estamos perpetuamente “saindo” por aquelas cinco portas ou janelas que são nossos sentidos.
Outras causas são mais específicas e atuais. Uma delas é a emergência do “social” que é certamente um valor positivo do nosso tempo, mas que, se não for reequilibrado, pode acentuar a projeção ao exterior e a despersonalização do homem. Na cultura secularizada e leiga dos nossos tempos o papel que desempenhava a interioridade cristã foi assumido pela psicologia e pela psicanálise, que, no entanto, se detêm no inconsciente do homem e, em todo caso, na sua subjetividade, independentemente da sua íntima ligação com Deus.
No campo eclesial, a afirmação, com o Concílio, da ideia de uma “Igreja para o mundo” fez com que o antigo ideal de fugir do mundo fosse por vezes substituído pelo ideal de fugir para o mundo. O abandono da interioridade e a projeção para o exterior é um aspecto – e entre os mais perigosos – do fenômeno do secularismo. Houve até mesmo uma tentativa de justificar teologicamente esta nova orientação que tomou o nome de teologia da morte de Deus, ou da cidade secular. Deus – se fala – deu-nos, ele próprio, um exemplo. Encarnando-se, esvaziou-se, saiu de si mesmo, da interioridade trinitária, “mundanizou-se”, isto é, dispersou-se no profano. Tornou-se um Deus “fora de si mesmo”.


X Catequese do Papa sobre o Pai Nosso: Seja feita a vossa vontade

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 20 de março de 2019
Pai Nosso (10): Seja feita a vossa vontade

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Prosseguindo as nossas catequeses sobre o “Pai Nosso”, hoje nos concentramos na terceira invocação: “Seja feita a vossa vontade”. Essa é lida em unidade com as duas primeiras – “santificado seja o vosso nome” e “venha a nós o vosso reino” – de forma que o todo forme um tríptico: “santificado seja o vosso nome”, “venha a nós o vosso reino”, “seja feita a vossa vontade”. Hoje falaremos da terceira.
Antes do cuidado do mundo da parte do homem, há o cuidado incansável que Deus usa com o homem e com o mundo. Todo o Evangelho reflete esta inversão de perspectiva. O pecador Zaqueu sobe sobre uma árvore porque quer ver Jesus, mas não sabe que, muito antes, Deus havia se colocado próximo a ele. Jesus, quando chega, lhe diz: “Zaqueu, desce logo, porque hoje vou à tua casa”. E no fim declara: “O Filho do homem de fato veio buscar e salvar quem estava perdido” (Lc 19,5.10). Eis a vontade de Deus, aquela que nós rezamos para que seja feita. Qual é a vontade de Deus encarnada em Jesus? : Procurar e salvar o que estava perdido. E nós, na oração, pedimos que a busca de Deus vá a bom fim, que o seu desejo universal de salvação se realiza, primeiro, em cada um de nós e depois em todo o mundo. Vocês pensaram o que significa que Deus esteja em busca de mim? Cada um de nós pode dizer: “Mas, Deus me procura?” – “Sim! Procura-te! Procura-me”: procura cada um, pessoalmente. Mas é grande Deus! Quanto amor há por trás de tudo isso.
Deus não é ambíguo, não se esconde atrás de enigmas, não planejou a vinda do mundo de maneira indecifrável. Não, Ele é claro. Se não compreendemos isso, arriscamos não entender o sentido da terceira expressão do “Pai Nosso”. De fato, a Bíblia está cheia de expressões que nos contam a vontade positiva de Deus com relação ao mundo. E no Catecismo da Igreja Católica encontramos uma coleção de citações que testemunham essa fiel e paciente vontade divina (cf. nn. 2821-2827). E São Paulo, na Primeira Carta a Timóteo, escreve: “Deus quer que todos os homens sejam salvos e alcancem a consciência da verdade” (2,4). Esta, sem sombra de dúvida, é a vontade de Deus: a salvação do homem, dos homens, de cada um de nós. Deus, com o seu amor, bate à porta do nosso coração. Por quê? Para nos atrair; para nos atrair a Ele e levar-nos adiante no caminho da salvação. Deus está próximo de cada um de nós com o seu amor, para nos levar pela mão à salvação. Quando amor está por trás disso!
Portanto, rezando “seja feita a vossa vontade”, não somos convidados a dobrar a cabeça servilmente, como se fôssemos escravos. Não! Deus nos quer livres; é o amor Dele que nos liberta. O “Pai Nosso”, de fato, é a oração dos filhos, não dos escravos; mas dos filhos que conhecem o coração do seu pai e estão certos do seu desígnio de amor. Ai de nós se, pronunciando essas palavras, levantássemos os ombros em sinal de rendição diante de um destino que não podemos mudar. Ao contrário, é uma oração cheia de confiança ardente em Deus, que quer para nós o bem, a vida, a salvação. Uma oração corajosa, também combativa, porque no mundo há tantas realidades que não são segundo o plano de Deus. Todos as conhecemos. Parafraseando o profeta Isaías, poderemos dizer: “Aqui, Pai, há a guerra, a prevaricação, a exploração; mas sabemos que Tu queres o nosso bem, por isso te suplicamos: seja feita a vossa vontade! Senhor, derrube os planos do mundo, transforme as espadas em arado e as lanças em foice; que ninguém se exercite mais na arte da guerra!” (cf. 2,4). Deus quer a paz.
O “Pai Nosso” é uma oração que acende em nós o mesmo amor de Jesus pela vontade do Pai, uma chama que leva a transformar o mundo com o amor. O cristão não acredita em um “fato” inelutável. Não há nada de aleatório na fé dos cristãos: há, em vez disso, uma salvação que espera manifestar-se na vida de cada homem e mulher e de realizar-se na eternidade. Se rezamos é porque acreditamos que Deus pode e quer transformar a realidade vencendo o mal com o bem. A este Deus tem sentido obedecer e abandonar-se também na hora da prova mais difícil.
Assim foi para Jesus no jardim do Getsêmani, quando experimentou a angústia e rezou: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Todavia, não seja feita a minha, mas a tua vontade” (Lc 22,42). Jesus é esmagado pelo mal do mundo, mas se abandona confiante ao oceano do amor da vontade do Pai. Também os mártires, em sua provação, não procuravam a morte, procuravam o pós- morte, a ressurreição. Deus, por amor, pode levar-nos a caminhar sobre caminhos difíceis, a experimentar feridas e espinhos dolorosos, mas nunca nos abandonará. Sempre estará conosco, próximo a nós, dentro de nós. Para quem crê, essa, mais que uma esperança, é uma certeza. Deus está comigo. A mesma que encontramos naquela parábola do Evangelho de Lucas dedicada à necessidade de rezar sempre. Diz Jesus: “Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los? Digo-vos que em breve lhes fará justiça” (18,7-8). Assim é o Senhor, assim nos ama, assim nos quer bem. Mas, quero convidá-los agora, todos juntos, a rezar o Pai Nosso. E aqueles de vocês que não sabem o italiano, rezem na própria língua. Rezemos juntos... [Oração do Pai Nosso]


Fonte: Canção Nova

quinta-feira, 21 de março de 2019

Solenidade de São José em Cracóvia

Na Solenidade de São José, Esposo da Virgem Maria, celebrada no último dia 19 de março, o Arcebispo de Cracóvia, Dom Marek Jędraszewski, presidiu duas Missas em sua Arquidiocese: no Santuário de São José em Wadowice e na Basílica de Santa Maria em Cracóvia.

Missa no Santuário de São José (Wadowice):


Procissão de entrada
 
Incensação
Ritos iniciais

Solenidade de São José em Nazaré

No último dia 19 de março, Solenidade de São José, Esposo da Virgem Maria, o Vigário da Custódia da Terra Santa, Padre Dobromir Jazstal, celebrou a Santa Missa na Basílica da Anunciação em Nazaré.

Ícone de São José no altar da Gruta da Anunciação
Liturgia da Palavra
Evangelho
Incensação
Oração Eucarística

quarta-feira, 20 de março de 2019

II Catequese do Papa João Paulo II sobre a Quaresma: A oração

João Paulo II
Audiência Geral
Quarta-feira, 14 de março de 1979
Quaresma (2): A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça

1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já recordei na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exato, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes atos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam de alguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos.
Convém talvez dizer já que não se trata aqui só de «práticas» momentâneas, mas de atitudes constantes, que imprimem na nossa conversão a Deus forma duradoura. A Quaresma, como tempo litúrgico, dura só 40 dias ao ano: mas para Deus devemos tender sempre; isto significa que é preciso convertermo-nos continuamente. A Quaresma deve deixar marca forte e indelével na nossa vida. Há de renovar em nós a consciência da nossa união com Jesus Cristo, que nos faz ver a necessidade da conversão e nos indica os caminhos para a realizarmos. A oração, o jejum e a esmola são precisamente os caminhos que nos foram indicados por Cristo.
Nas meditações que irão seguir-se, procuraremos entrever quão profundamente penetram estes caminhos no homem: o que para ele significam. O cristão deve compreender o verdadeiro sentido destes caminhos, se os quer seguir.
2. Primeiro, portanto, o caminho da oração. Digo «primeiro», porque desejo falar deste antes dos outros. Mas, ao dizer «primeiro», quero hoje acrescentar que, na obra total da nossa conversão - isto é, da nossa maturação espiritual - a oração não está isolada dos outros dois caminhos que a Igreja define com o termo evangélico «jejum e esmola». Talvez o caminho da oração nos seja mais familiar. Talvez compreendamos com mais facilidade que sem ela não é possível convertermo-nos a Deus, permanecermos em união com ele naquela comunhão que nos leva à maturação espiritual. Não duvido que entre vós, que agora me ouvis, muitíssimos haja que tenham experiência própria de oração, que tenham conhecimento dos vários aspectos dela e possam torná-los conhecidos também às outras pessoas. De fato, aprendemos a orar, orando. O Senhor Jesus ensinou-nos a orar, primeiro que tudo orando ele próprio: ... e passou a noite em oração (Lc 6,12); outro dia, como escreve São Mateus, subiu ao monte, sozinho, para orar. E, chegada a noite, ainda Ele estava só lá em cima (Mt 14,23). Antes da sua Paixão e Morte, foi ao Monte das Oliveiras e animou os Apóstolos a que orassem; Ele mesmo, ajoelhando-se, pôs-se a orar. Invadido pela angústia, orava mais intensamente (Cf. Lc 22,39-46). Só uma vez - rogado pelos discípulos Senhor, ensina-nos a orar (Lc 11,1) - lhes comunicou o mais simples e mais profundo conteúdo de oração: o «Pai nosso».
Sendo impossível resumir num breve discurso tudo o que se pode dizer ou foi escrito sobre o assunto da oração, queria eu hoje realçar uma coisa apenas. Nós todos, quando oramos, somos discípulos de Cristo, não porque repetimos as palavras que Ele uma vez nos ensinou - palavras sublimes, conteúdo completo da oração. Somos discípulos de Cristo, mesmo quando não usamos essas palavras. Somos seus discípulos já, só porque oramos: «Escuta o Mestre que ora; aprende tu a orar. Para isto, de fato, orou Ele, para nos ensinar a orar», afirma Santo Agostinho (Sto. Agostinho, Enarrationes in Ps., 56, 5) E um autor contemporâneo escreve: «Uma vez que o termo do caminho da oração se perde em Deus, e ninguém conhece o caminho senão Aquele que vem de Deus, Jesus Cristo - é necessário (...) fixarmos os olhos n'Ele só. É o caminho, a verdade e a vida. Só Ele percorreu o caminho nas duas direções. É preciso metermos a nossa mão na sua e partirmos» (Y. Raguin, Chemins de la contemplation, Desclée de Brouwer, 1969, p. 179). Orar significa falar com Deus. Atrever-me-ia a dizer mais: orar significa encontrarmo-nos naquele Único eterno Verbo, por meio de quem fala o Pai, Verbo que fala ao Pai. Este Verbo fez-se carne, para nos ser mais fácil encontrarmo-nos n'Ele, mesmo com a nossa palavra humana de oração. Pode esta palavra às vezes ser muito imperfeita, poderá até mesmo faltar-nos de todo. Mas a incapacidade das nossas palavras humanas completa-se continuamente no Verbo que se fez carne para falar ao Pai com a plenitude daquela união mística que forma com Ele cada homem que ora; que todos quantos oram, formam com Ele. Nesta particular união com o Verbo está a grandeza da oração, a sua dignidade, e em certo modo, a sua definição.
É preciso sobretudo compreender bem a grandeza fundamental e a dignidade da oração. Oração de cada homem. E ainda de toda a Igreja orante. A Igreja, em certo modo, chega tão longe como a oração: até onde haja um homem que ore.
3. É preciso orarmos baseando-nos neste conceito essencial da oração. Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus «ensina-nos a orar», Ele respondeu pronunciando as palavras da oração Pai nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De fato, tudo quanto se pode e deve dizer ao Pai, está incluído naqueles sete pedidos, que todos sabemos de cor. Há neles tal simplicidade, que até uma criança os aprende, e simultaneamente tal profundidade, que se pode consumar uma vida inteira a meditar o sentido de cada um. Não é porventura assim? Não nos fala cada um deles, um após outro, do que é essencial para a nossa existência, voltada completamente para Deus, para o Pai? Não nos fala do «pão de cada dia», do «perdão das nossas ofensas assim como nós as perdoamos», e juntamente de «não cairmos em tentação» e de «ficarmos livres do mal»?
Quando Cristo, satisfazendo o pedido dos discípulos «ensina-nos a orar», pronuncia as palavras da sua oração, ensina não só as palavras, mas ensina também que no nosso colóquio com o Pai deve haver sinceridade total e plena abertura. A oração deve abraçar tudo o que faz parte da nossa vida. Não pode ser alguma coisa de suplementar ou marginal. Tudo deve encontrar nela a própria voz. Mesmo tudo o que nos pesa; aquilo de que nos envergonhamos; aquilo que por sua natureza nos separa de Deus. Exatamente, sobretudo isto. É a oração que sempre, em primeiro lugar e essencialmente, abate a barreira entre nós e Deus, barreira que o pecado e o mal podem ter levantado.
Por meio da oração, toda a gente deve encontrar a sua referência justa: quer dizer, a referência a Deus: o meu mundo interior e também o mundo objetivo, aquele em que vivemos e tal como o conhecemos. Se nos voltamos para Deus, tudo em nós se dirige para Ele. A oração é exatamente a expressão de nos dirigirmos para Deus; isto é, ao mesmo tempo, a nossa contínua conversão: o nosso caminho.
Diz a Sagrada Escritura: Assim como a chuva e a neve descem do céu e já não voltam lá sem terem regado e fecundado a terra, e sem a terem feito germinar dando o grão ao semeador e o pão para comer; o mesmo sucede com a palavra que sai da minha boca: não volta a mim sem produzir o seu efeito, sem executar a minha vontade e ter cumprido a missão que lhe dei (Is 55,10-11).
A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça. Caminho do Verbo eterno que atravessa a profundidade de tantos corações; que reconduz ao Pai tudo quanto n'Ele tem a sua origem.
A oração é o sacrifício dos nossos lábios (Cf. Hb 13,15). É, como escreve Santo Inácio de Antioquia, «água viva que murmura dentro de nós e diz: vem para o Pai» (Cf. Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, VII, 2).
Com a minha Bênção Apostólica.


Fonte: Santa Sé

Ângelus: II Domingo da Quaresma - Ano C

Papa Francisco
Ângelus
II Domingo da Quaresma, 17 de março de 2019

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Neste II Domingo da Quaresma a Liturgia nos faz contemplar o evento da Transfiguração, no qual Jesus concede aos discípulos Pedro, Tiago e João pregustar a glória da Ressurreição: um recorte do céu sobre a terra. O evangelista Lucas (cf. Lc 9,28-36) nos mostra Jesus transfigurado sobre o monte, que é o lugar da luz, símbolo fascinante da singular experiência reservada aos três discípulos. Eles sobem com o Mestre a montanha, o veem imergir-se na oração e em certo ponto «o seu rosto mudou de aspecto» (v. 29). Habituados a vê-lo quotidianamente na simples semelhança da sua humanidade, diante daquele novo esplendor, que envolve toda a sua pessoa, eles ficam espantados. E junto a Jesus aparecem Moisés e Elias, que falam com Ele do seu próximo “êxodo”, isto é, da sua Páscoa de morte e ressurreição. É uma antecipação da Páscoa. Agora Pedro exclama: «Mestre, é bom estarmos aqui» (v. 33). Quer que aquele momento de graça não termine mais!

A Transfiguração acontece em um momento bem preciso da missão de Cristo, isto é, depois que Ele confiou aos discípulos que deverá «sofrer muito (...) ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (v. 21). Jesus sabe que eles não aceitam essa realidade - a realidade da cruz, a realidade da morte de Jesus -, e agora quer prepará-los para suportar o escândalo da paixão e da morte de cruz, porque sabemos que este é o caminho através do qual o Pai celeste fará chegar à glória o seu Filho, ressuscitando-o dos mortos. E este será também o caminho dos discípulos: ninguém chega à vida eterna senão seguindo Jesus, levando a própria cruz na vida terrena. Cada um de nós tem a própria cruz. O Senhor nos faz ver o fim deste percurso, que é a Ressurreição, a beleza, levando a própria cruz.

Assim, a Transfiguração de Cristo nos mostra a perspectiva cristã do sofrimento. Não é um sadomasoquismo o sofrimento: este é uma passagem necessária mas transitória. O ponto de chegada ao qual somos chamados é luminoso como o rosto de Cristo transfigurado: n’Ele está a salvação, a bem-aventurança, a luz, o amor de Deus sem limites. Mostrando assim a sua glória, Jesus nos assegura que a cruz, a provação, as dificuldades nas quais nos debatemos têm sua solução e sua superação na Páscoa. Por isso, nesta Quaresma, subamos também nós o monte com Jesus! Mas de que modo? Com a oração. Subamos o monte com a oração: a oração silenciosa, a oração do coração, a oração sempre buscando o Senhor. Permaneçamos alguns momentos em recolhimento, cada dia um pouquinho, fixando o olhar interior sobre o seu rosto e deixemos que a sua luz nos invada e irradie na nossa vida.

Com efeito, o evangelista Lucas insiste no fato que Jesus se transfigurou «enquanto rezava» (v. 29). Era imerso em um colóquio íntimo com o Pai, no qual ressoavam também a Lei e os Profetas - Moisés e Elias - e enquanto aderia com todo o seu ser à vontade de salvação do Pai, incluindo a cruz, a glória de Deus o invade, transparecendo também no exterior. É assim, irmãos e irmãs: a oração em Cristo e no Espírito Santo transforma a pessoa do interior e pode iluminar os outros e o mundo circundante. Quantas vezes encontramos pessoas que iluminam, que emanam luz dos olhos, que têm aquele olhar luminoso! Rezam, e a oração faz isto: nos faz luminosos com a luz do Espírito Santo.

Prossigamos com alegria o nosso itinerário quaresmal. Demos espaço à oração e à Palavra de Deus, que abundantemente a Liturgia nos propõe nestes dias. A Virgem Maria nos ensine a permanecer com Jesus também quando não o entendemos e não o compreendemos. Porque só permanecendo com Ele veremos a sua glória.


Tradução livre do original italiano.