quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Homilia do Papa: Vésperas e Te Deum (2025)

I Vésperas da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
Te Deum em ação de graças no encerramento do ano
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Estimados irmãos e irmãs,
A Liturgia das I Vésperas da Mãe de Deus contém uma riqueza singular, que deriva tanto do mistério vertiginoso que celebra como da sua colocação precisamente no final do ano civil. As antífonas dos salmos e do Magnificat insistem sobre o evento paradoxal de um Deus que nasce de uma virgem ou, vice-versa, da maternidade divina de Maria. E, ao mesmo tempo, esta Solenidade, que encerra a Oitava do Natal, cobre a passagem de um ano para outro, estendendo sobre ela a bênção d’Aquele «que é, que era e que vem» (Ap 1,8). Além disso, hoje a celebramos no encerramento do Jubileu, no coração de Roma, diante do Túmulo de Pedro, e então o Te Deum que em breve ressoará nesta Basílica desejará dilatar-se para dar voz a todos os corações e rostos que passaram sob estas abóbadas e pelas ruas desta cidade.


Na leitura bíblica ouvimos uma das sínteses surpreendentes do Apóstolo Paulo: «Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva» (Gl 4, 4-5). Esta forma de apresentar o mistério de Cristo faz pensar em um desígnio, um grande desígnio sobre a história humana. Um desígnio misterioso, mas com um centro claro, como uma alta montanha iluminada pelo sol no meio de uma densa floresta: este centro é o «tempo previsto», a «plenitude dos tempos»!

E precisamente essa palavra - “desígnio” - ressoa no cântico da Carta aos Efésios: «Ele nos deu a conhecer o mistério de seu plano e sua vontade, que propusera em seu querer benevolente, na plenitude dos tempos realizar: o desígnio de, em Cristo, reunir todas as coisas: as da terra e as do céu» (Ef 1,9-10).

Irmãos, irmãs, neste nosso tempo sentimos a necessidade de um desígnio sábio, benevolente, misericordioso. Que seja um projeto livre e libertador, pacífico, fiel, como aquele que a Virgem Maria proclamou no seu cântico de louvor: «Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam» (Lc 1,50).

Outros desígnios, porém, tanto hoje como ontem, envolvem o mundo. São sobretudo estratégias, que visam conquistar mercados, territórios, zonas de influência. Estratégias armadas, revestidas de discursos hipócritas, de proclamações ideológicas, de falsos motivos religiosos.

Mas a Santa Mãe de Deus, a mais pequenina e a mais excelsa entre as criaturas, vê a realidade com o olhar de Deus: vê que, com o poder do seu braço, o Altíssimo dispersa as tramas dos soberbos, derruba os poderosos dos tronos e eleva os humildes, enche de bens as mãos dos famintos, esvaziando as dos ricos (cf. Lc 1,51-53).

A Mãe de Jesus é a mulher com quem Deus, na plenitude dos tempos, escreveu a Palavra que revela o mistério. Ele não a impôs: primeiro a propôs ao seu coração e, tendo recebido o seu “sim”, a escreveu com amor inefável na sua carne. Assim, a esperança de Deus se entrelaçou com a esperança de Maria, descendente de Abraão segundo a carne e, sobretudo, segundo a fé.

Deus ama esperar com o coração dos pequeninos, e o faz envolvendo-os no seu desígnio de salvação. Quanto mais belo é o desígnio, tanto maior é a esperança. E, com efeito, o mundo vai em frente assim, impelido pela esperança de tantas pessoas simples, desconhecidas, mas não para Deus, que apesar de tudo acreditam em um amanhã melhor, pois sabem que o futuro está nas mãos d’Aquele que lhes oferece a maior esperança!

Uma destas pessoas era Simão, um pescador da Galileia, a quem Jesus chamou Pedro. Deus Pai deu-lhe uma fé tão sincera e generosa que o Senhor pôde construir sobre ela a sua comunidade (cf. Mt 16,18). E ainda hoje rezamos aqui, diante do seu túmulo, onde peregrinos de todas as partes do mundo vêm renovar a sua fé em Jesus Cristo, Filho de Deus. Isto aconteceu de modo especial durante o Ano Santo que está prestes a terminar.

O Jubileu é um grande sinal de um mundo novo, renovado e reconciliado segundo o desígnio de Deus. E neste desígnio, a Providência reservou um lugar especial para esta cidade de Roma. Não pelas suas glórias, não pelo seu poder, mas porque aqui Pedro, Paulo e muitos outros Mártires derramaram o seu sangue por Cristo. Por isso, Roma é a cidade do Jubileu!

O que podemos desejar a Roma? Que esteja à altura dos seus pequeninos. Das crianças, dos idosos sozinhos e frágeis, das famílias que têm mais dificuldade em ir em frente, de homens e mulheres vindos de longe esperando uma vida digna.

Caros irmãos, hoje damos graças a Deus pela dádiva do Jubileu, que foi um grande sinal do seu desígnio de esperança sobre o homem e o mundo. E agradecemos a todos aqueles que, nos meses e dias de 2025, trabalharam a serviço dos peregrinos e para tornar Roma mais acolhedora. Há um ano foram estes os votos do Papa Francisco! Gostaria que continuassem a sê-lo, e diria ainda mais depois deste tempo de graça. Que esta cidade, animada pela esperança cristã, possa estar a serviço do desígnio de amor de Deus sobre a família humana. Que no-lo conceda a intercessão da Santa Mãe de Deus, Salus Populi Romani!


Fonte: Santa Sé.

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