sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Homilia do Papa: Solenidade da Santa Mãe de Deus (2026)

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
59º Dia Mundial da Paz
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 01 de janeiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, início do novo ano civil, a Liturgia oferece-nos o texto de uma bênção belíssima: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!» (Nm 6,24-26).

Esta bênção encontra-se, no Livro dos Números, após as indicações sobre a consagração dos nazireus, para sublinhar, na relação entre Deus e o povo de Israel, a dimensão sagrada e fecunda do dom. O homem oferece tudo o que recebeu ao Criador, que responde voltando para ele o seu olhar benigno, tal como nos primórdios do mundo (cf. Gn 1,31).


Graças à intervenção de Deus e à resposta generosa do seu servo Moisés, o povo de Israel, a quem essa bênção se dirigia, era um povo de libertos, de homens e mulheres renascidos após uma prolongada escravidão. Era um povo que tinha usufruído de algumas seguranças no Egito - não faltava comida, nem teto, nem certa estabilidade -, mas à custa de ser escravo, oprimido por uma tirania que exigia cada vez mais, dando cada vez menos (cf. Ex 5,6-7). Agora, no deserto, muitas das certezas do passado tinham se perdido, mas em troca havia a liberdade, que se concretizava em um caminho aberto para o futuro, no dom de uma lei de sabedoria e na promessa de uma terra na qual fosse possível viver e crescer sem grilhões nem correntes; em suma, em um renascimento.

Assim, no início do novo ano, a Liturgia recorda-nos que cada dia pode ser, para cada um de nós, o início de uma nova vida, graças ao amor generoso de Deus, à sua misericórdia e à resposta da nossa liberdade. É bonito pensar deste modo o ano que começa: como um caminho aberto, a descobrir, no qual por graça podemos nos aventurar, livres e portadores de liberdade, perdoados e doadores de perdão, confiantes na proximidade e na bondade do Senhor que sempre nos acompanha.

Tudo isto recordamos ao celebrar o mistério da Maternidade Divina de Maria, que com o seu “sim” contribuiu para dar à Fonte de toda a misericórdia e benevolência um rosto humano: o rosto de Jesus, através de cujos olhos de criança, depois jovem e homem, o amor do Pai nos alcança e transforma.

Por isso, no início do ano, encaminhando-nos para os dias novos e únicos que nos esperam, pedimos ao Senhor que em cada momento sintamos, à nossa volta e sobre nós, o calor do seu abraço paterno e a luz do seu olhar benevolente, para compreendermos sempre mais e termos constantemente presente quem somos e a que fim maravilhoso nos dirigimos (cf. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, n. 41). Ao mesmo tempo, porém, também nós lhe damos glória, com a oração e a santidade de vida, tornando-nos, uns para os outros, espelho da sua bondade.

Santo Agostinho ensinava que em Maria «o Criador do homem se fez homem, para que, embora Ele fosse o Criador das estrelas, se alimentasse do seio de uma mulher; embora Ele fosse o pão (cf. Jo 6,35), pudesse ter fome (cf. Mt 4,2); [...] para nos libertar, embora nós fossemos indignos» (Sermão 191, 1.1). Deste modo, ele recordava uma das características fundamentais do rosto de Deus: o da total gratuidade do seu amor, pelo qual Ele se nos apresenta - como quis sublinhar na Mensagem deste Dia Mundial da Paz - “desarmado e desarmante”, nu e indefeso, como um recém-nascido no berço. Tudo isto para nos ensinar que o mundo não se salva afiando espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim esforçando-se incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculos nem medos.

É este o rosto de Deus que Maria deixou que se formasse e crescesse no seu ventre, mudando completamente a sua vida. É o rosto que ela anunciou através da luz alegre e delicada dos seus olhos de mãe expectante; o rosto cuja beleza ela contemplou dia após dia, à medida que Jesus ia crescendo - criança, adolescente e jovem - na sua casa; e que depois acompanhou, com o seu coração de discípula humilde, enquanto Ele percorria os caminhos da sua missão, até à Cruz e à Ressurreição. Para fazê-lo, também ela depôs todas as defesas, renunciando a expectativas, pretensões e garantias, como as mães sabem fazer, consagrando sem reservas a sua vida ao Filho que por graça tinha recebido, para que ela, por sua vez, o doasse de novo ao mundo.

Na Maternidade Divina de Maria observamos o encontro de duas realidades imensas e “desarmadas”: a de Deus, que renuncia a todos os privilégios da sua divindade para nascer segundo a carne (cf. Fl 2,6-11), e a da pessoa, que com confiança abraça totalmente a sua vontade, prestando-lhe, em um ato perfeito de amor, a homenagem do seu maior poder: a liberdade.

Meditando sobre este mistério, São João Paulo II convidava a contemplar o que os pastores encontraram em Belém: «a serena ternura do Menino, a surpreendente pobreza em que Ele se encontra, a humilde simplicidade de Maria e de José» transformaram a sua vida, tornando-os «mensageiros de salvação» (Homilia na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, 34º Dia Mundial da Paz, 01 de janeiro de 2001).

Disse-o no final do Grande Jubileu do Ano 2000, com palavras que podem fazer refletir também a nós: «Quantos dons e quantas ocasiões extraordinárias o Grande Jubileu ofereceu aos fiéis! Na experiência do dom recebido e concedido, na recordação dos mártires, na escuta do grito dos pobres do mundo... também nós entrevimos a presença salvífica de Deus na história. Quase tocamos com a mão o seu amor que renova a face da terra» (ibid.), e concluía: «Como aos pastores que acorreram para adorá-lo, Cristo pede aos fiéis, aos quais concedeu a alegria do seu encontro, uma corajosa disponibilidade a partir de novo para anunciar o seu Evangelho, antigo e sempre novo. Convida-os a vivificar a história e as culturas dos homens com a sua mensagem salvífica» (ibid.).

Queridos irmãos e irmãs, nesta Festa solene, no início do novo ano, prestes a concluir o Jubileu da Esperança, aproximemo-nos com fé do Presépio, qual lugar por excelência da paz “desarmada e desarmante”, lugar de bênção, no qual podemos recordar os prodígios que o Senhor realizou na história da salvação e na nossa existência, para depois partirmos, como os humildes testemunhas da gruta, «glorificando e louvando a Deus» (Lc 2,20) por tudo o que vimos e ouvimos. Que seja este o nosso compromisso e propósito para os próximos meses e para toda a nossa vida cristã.


Fonte: Santa Sé.

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