Neste domingo celebramos no Brasil a Solenidade da Epifania do Senhor, transferida do dia 06. Aproveitamos a ocasião para repropor a homilia proferida pelo Papa Bento XVI (†2022) há 20 anos, no dia 06 de janeiro de 2006:
Solenidade da Epifania do Senhor
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 06 de janeiro de 2006
Amados irmãos e irmãs,
A luz que
brilhou na Noite de Natal, iluminando a gruta de Belém, onde Maria, José e os
pastores permanecem em silenciosa adoração, hoje resplandece e se manifesta a
todos. A Epifania é mistério de luz, simbolicamente indicada pela estrela que
guiou a viagem dos Magos. Mas a verdadeira fonte luminosa, “o sol que nasce do
alto” (Lc 1,78), é Cristo. No mistério do Natal,
a luz de Cristo se irradia sobre a terra, difundindo-se em círculos
concêntricos. Antes de tudo sobre a Sagrada Família de Nazaré: a Virgem Maria e
José são iluminados pela divina presença do Menino Jesus. A luz do Redentor se manifesta
então aos pastores de Belém, que, avisados pelo anjo, vão imediatamente à gruta
e nela encontram o “sinal” que lhes fora anunciado: “um recém-nascido envolvido
em faixas e deitado em uma manjedoura” (Lc 2,12). Os pastores, juntamente com
Maria e José, representam aquele “resto de Israel”, os pobres, os anawim, aos quais é anunciada a
Boa Nova. O esplendor de Cristo, por fim, atinge os Magos, que constituem as
primícias dos povos pagãos. Permanecem na penumbra os palácios do poder de
Jerusalém, onde a notícia do nascimento do Messias, paradoxalmente, é levada
pelos Magos, e não suscita alegria, mas temor e reações hostis. Misterioso
desígnio divino: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à
luz, porque suas ações eram más” (Jo 3,19).
Mas o que é esta
luz? É apenas uma sugestiva metáfora, ou a imagem corresponde a uma realidade?
O Apóstolo João escreve na sua Primeira Carta: “Deus é luz e n’Ele não
há trevas” (1Jo 1,5); e adiante acrescenta: “Deus é
amor” (1Jo 4,8.16). Estas duas afirmações, colocadas juntas, nos ajudam
a compreender melhor: a luz, que surgiu no Natal, que hoje se manifesta aos
povos, é o amor de Deus, revelado na Pessoa do Verbo encarnado. Atraídos por
esta luz, chegam os Magos do Oriente. No mistério da Epifania, portanto, ao
lado de um movimento de irradiação para o exterior, manifesta-se um movimento
de atração para o centro, que leva a cumprimento o movimento já inscrito na
Antiga Aliança. A fonte desse dinamismo é Deus, Uno na substância e Trino nas
Pessoas, que atrai a si tudo e todos. A Pessoa encarnada do Verbo apresenta-se
assim como princípio de reconciliação e de recapitulação universal (cf. Ef 1,9-10). Ele é a meta final da
história, o ponto de chegada de um “êxodo”, de um caminho providencial de
redenção, que culmina na sua Morte e Ressurreição. Por isso, na Solenidade da
Epifania, a Liturgia prevê o chamado “Anúncio da Páscoa”: o Ano Litúrgico, com efeito,
resume toda a parábola da história da salvação, em cujo centro está “o Tríduo
do Senhor Crucificado, Sepultado e Ressuscitado”.
Na Liturgia do
Tempo do Natal recorre com frequência, como refrão, este versículo do Salmo 97:
“O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça” (v. 2). São
palavras que a Igreja usa para realçar a dimensão “epifânica” da Encarnação: o fazer-se
homem do Filho de Deus, o seu entrar na história é o momento culminante da autorrevelação
de Deus a Israel e a todos os povos. No Menino de Belém, Deus revelou-se na
humildade da “forma humana”, na “condição de servo”, aliás, de crucificado (cf. Fl 2,6-8). É o paradoxo cristão.
Precisamente esse escondimento constitui a mais eloquente “manifestação” de
Deus: a humildade, a pobreza e a própria ignomínia da Paixão nos fazem conhecer
como Deus verdadeiramente é. O rosto do Filho revela fielmente o rosto do Pai.
Eis porque todo o mistério do Natal é, por assim dizer, uma “epifania”. A
manifestação aos Magos não acrescenta algo de estranho ao desígnio de Deus, mas
revela uma sua dimensão perene e constitutiva, isto é, que “os pagãos são
admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma
promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6).
Sob um olhar
superficial, a fidelidade de Deus a Israel e a sua manifestação aos povos
poderiam parecer aspectos divergentes entre si; na verdade, são as duas faces
da mesma moeda. Segundo as Escrituras, com efeito, é precisamente permanecendo
fiel ao pacto de amor com o povo de Israel que Deus revela a sua glória também
aos outros povos. “Graça e fidelidade” (Sl 88,2); “misericórdia e verdade” (Sl 84,11) são o conteúdo da glória de
Deus, são o seu “nome”, destinado a ser conhecido e santificado pelos homens de
todas as línguas e nações. Mas esse “conteúdo” é inseparável do “método” que
Deus escolheu para se revelar, isto é, o da fidelidade absoluta à aliança, que
alcança o seu ápice em Cristo. O Senhor Jesus é, ao mesmo tempo e
inseparavelmente, “luz para iluminar as nações e glória do seu povo, Israel” (Lc 2,32), como, inspirado por Deus,
exclamará o velho Simeão tomando o Menino nos braços, quando os pais o
apresentarem no templo. A luz que ilumina os povos, a luz da Epifania, provém
da glória de Israel, a glória do Messias nascido, segundo as Escrituras, em
Belém, “cidade de Davi” (Lc 2,4). Os Magos adoraram um simples
Menino nos braços da Mãe, Maria, porque reconheceram n’Ele a fonte da dupla luz
que os havia guiado: a luz da estrela e a luz das Escrituras. Reconheceram n’Ele
o Rei dos judeus, glória de Israel, mas também o Rei de todas as nações.
No contexto
litúrgico da Epifania se manifesta também o mistério da Igreja e a sua dimensão
missionária. Ela é chamada a fazer resplandecer no mundo a luz de Cristo,
refletindo-a em si mesma como a lua reflete a luz do sol. Na Igreja tiveram
cumprimento as antigas profecias relativas à cidade santa de Jerusalém, como
aquela maravilhosa profecia de Isaías que ouvimos há pouco: “Levanta-te, acende
as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz... Os povos caminham à tua luz e
os reis ao clarão de tua aurora” (Is 60,1-3). É isto que os discípulos de
Cristo deverão realizar: ensinados por Ele a viver no estilo das Bem-aventuranças,
deverão atrair todos os homens para Deus através do testemunho do amor: “Assim brilhe
a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o
vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Ao ouvir estas palavras de
Jesus, nós, membros da Igreja, não podemos deixar de sentir toda a
insuficiência da nossa condição humana, marcada pelo pecado. A Igreja é santa,
mas formada por homens e mulheres com os seus limites e erros. É Cristo, só
Ele, que ao conceder-nos o Espírito Santo pode transformar a nossa miséria e
renovar-nos constantemente. É Ele a luz dos povos, lumen
gentium, que escolheu
iluminar o mundo através da sua Igreja (cf. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, n. 1).
“Como acontecerá
isso?” (Lc 1,34), interrogamo-nos também nós com as palavras que a
Virgem dirigiu ao Arcanjo Gabriel. E precisamente ela, a Mãe de Cristo e da
Igreja, nos oferece a resposta: com o seu exemplo de total disponibilidade à
vontade de Deus - “fiat mihi secundum verbum tuum”, “faça-se em mim segundo a tua palavra” (v. 38) - ela nos ensina a ser “epifania”
do Senhor, na abertura do coração à força da graça e na adesão fiel à palavra
do seu Filho, luz do mundo e meta final da história.
Assim seja!
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| Adoração dos Magos (Johann Josef Karl Henrici) |
Fonte: Santa Sé.


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