sábado, 3 de janeiro de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Epifania do Senhor (2006)

Neste domingo celebramos no Brasil a Solenidade da Epifania do Senhor, transferida do dia 06. Aproveitamos a ocasião para repropor a homilia proferida pelo Papa Bento XVI (†2022)  há 20 anos, no dia 06 de janeiro de 2006:

Solenidade da Epifania do Senhor
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 06 de janeiro de 2006

Amados irmãos e irmãs,
A luz que brilhou na Noite de Natal, iluminando a gruta de Belém, onde Maria, José e os pastores permanecem em silenciosa adoração, hoje resplandece e se manifesta a todos. A Epifania é mistério de luz, simbolicamente indicada pela estrela que guiou a viagem dos Magos. Mas a verdadeira fonte luminosa, “o sol que nasce do alto” (Lc 1,78), é Cristo. No mistério do Natal, a luz de Cristo se irradia sobre a terra, difundindo-se em círculos concêntricos. Antes de tudo sobre a Sagrada Família de Nazaré: a Virgem Maria e José são iluminados pela divina presença do Menino Jesus. A luz do Redentor se manifesta então aos pastores de Belém, que, avisados pelo anjo, vão imediatamente à gruta e nela encontram o “sinal” que lhes fora anunciado: “um recém-nascido envolvido em faixas e deitado em uma manjedoura” (Lc 2,12). Os pastores, juntamente com Maria e José, representam aquele “resto de Israel”, os pobres, os anawim, aos quais é anunciada a Boa Nova. O esplendor de Cristo, por fim, atinge os Magos, que constituem as primícias dos povos pagãos. Permanecem na penumbra os palácios do poder de Jerusalém, onde a notícia do nascimento do Messias, paradoxalmente, é levada pelos Magos, e não suscita alegria, mas temor e reações hostis. Misterioso desígnio divino: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más” (Jo 3,19).


Mas o que é esta luz? É apenas uma sugestiva metáfora, ou a imagem corresponde a uma realidade? O Apóstolo João escreve na sua Primeira Carta: “Deus é luz e n’Ele não há trevas” (1Jo 1,5); e adiante acrescenta: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Estas duas afirmações, colocadas juntas, nos ajudam a compreender melhor: a luz, que surgiu no Natal, que hoje se manifesta aos povos, é o amor de Deus, revelado na Pessoa do Verbo encarnado. Atraídos por esta luz, chegam os Magos do Oriente. No mistério da Epifania, portanto, ao lado de um movimento de irradiação para o exterior, manifesta-se um movimento de atração para o centro, que leva a cumprimento o movimento já inscrito na Antiga Aliança. A fonte desse dinamismo é Deus, Uno na substância e Trino nas Pessoas, que atrai a si tudo e todos. A Pessoa encarnada do Verbo apresenta-se assim como princípio de reconciliação e de recapitulação universal (cf. Ef 1,9-10). Ele é a meta final da história, o ponto de chegada de um “êxodo”, de um caminho providencial de redenção, que culmina na sua Morte e Ressurreição. Por isso, na Solenidade da Epifania, a Liturgia prevê o chamado “Anúncio da Páscoa”: o Ano Litúrgico, com efeito, resume toda a parábola da história da salvação, em cujo centro está “o Tríduo do Senhor Crucificado, Sepultado e Ressuscitado”.

Na Liturgia do Tempo do Natal recorre com frequência, como refrão, este versículo do Salmo 97: “O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça” (v. 2). São palavras que a Igreja usa para realçar a dimensão “epifânica” da Encarnação: o fazer-se homem do Filho de Deus, o seu entrar na história é o momento culminante da autorrevelação de Deus a Israel e a todos os povos. No Menino de Belém, Deus revelou-se na humildade da “forma humana”, na “condição de servo”, aliás, de crucificado (cf. Fl 2,6-8). É o paradoxo cristão. Precisamente esse escondimento constitui a mais eloquente “manifestação” de Deus: a humildade, a pobreza e a própria ignomínia da Paixão nos fazem conhecer como Deus verdadeiramente é. O rosto do Filho revela fielmente o rosto do Pai. Eis porque todo o mistério do Natal é, por assim dizer, uma “epifania”. A manifestação aos Magos não acrescenta algo de estranho ao desígnio de Deus, mas revela uma sua dimensão perene e constitutiva, isto é, que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6).

Sob um olhar superficial, a fidelidade de Deus a Israel e a sua manifestação aos povos poderiam parecer aspectos divergentes entre si; na verdade, são as duas faces da mesma moeda. Segundo as Escrituras, com efeito, é precisamente permanecendo fiel ao pacto de amor com o povo de Israel que Deus revela a sua glória também aos outros povos. “Graça e fidelidade” (Sl 88,2); “misericórdia e verdade” (Sl 84,11) são o conteúdo da glória de Deus, são o seu “nome”, destinado a ser conhecido e santificado pelos homens de todas as línguas e nações. Mas esse “conteúdo” é inseparável do “método” que Deus escolheu para se revelar, isto é, o da fidelidade absoluta à aliança, que alcança o seu ápice em Cristo. O Senhor Jesus é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, “luz para iluminar as nações e glória do seu povo, Israel” (Lc 2,32), como, inspirado por Deus, exclamará o velho Simeão tomando o Menino nos braços, quando os pais o apresentarem no templo. A luz que ilumina os povos, a luz da Epifania, provém da glória de Israel, a glória do Messias nascido, segundo as Escrituras, em Belém, “cidade de Davi” (Lc 2,4). Os Magos adoraram um simples Menino nos braços da Mãe, Maria, porque reconheceram n’Ele a fonte da dupla luz que os havia guiado: a luz da estrela e a luz das Escrituras. Reconheceram n’Ele o Rei dos judeus, glória de Israel, mas também o Rei de todas as nações.

No contexto litúrgico da Epifania se manifesta também o mistério da Igreja e a sua dimensão missionária. Ela é chamada a fazer resplandecer no mundo a luz de Cristo, refletindo-a em si mesma como a lua reflete a luz do sol. Na Igreja tiveram cumprimento as antigas profecias relativas à cidade santa de Jerusalém, como aquela maravilhosa profecia de Isaías que ouvimos há pouco: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz... Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” (Is 60,1-3). É isto que os discípulos de Cristo deverão realizar: ensinados por Ele a viver no estilo das Bem-aventuranças, deverão atrair todos os homens para Deus através do testemunho do amor: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Ao ouvir estas palavras de Jesus, nós, membros da Igreja, não podemos deixar de sentir toda a insuficiência da nossa condição humana, marcada pelo pecado. A Igreja é santa, mas formada por homens e mulheres com os seus limites e erros. É Cristo, só Ele, que ao conceder-nos o Espírito Santo pode transformar a nossa miséria e renovar-nos constantemente. É Ele a luz dos povos, lumen gentium, que escolheu iluminar o mundo através da sua Igreja (cf. Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, n. 1).

“Como acontecerá isso?” (Lc 1,34), interrogamo-nos também nós com as palavras que a Virgem dirigiu ao Arcanjo Gabriel. E precisamente ela, a Mãe de Cristo e da Igreja, nos oferece a resposta: com o seu exemplo de total disponibilidade à vontade de Deus - fiat mihi secundum verbum tuum”, “faça-se em mim segundo a tua palavra” (v. 38) - ela nos ensina a ser “epifania” do Senhor, na abertura do coração à força da graça e na adesão fiel à palavra do seu Filho, luz do mundo e meta final da história.
Assim seja!

Adoração dos Magos
(Johann Josef Karl Henrici)

Fonte: Santa Sé.

Nenhum comentário:

Postar um comentário