quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Homilia do Papa na Solenidade de Cristo Rei

Canonização de seis Beatos
  
Homilia do Papa Francisco
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
Praça de São Pedro
 
Domingo, 23 de novembro de 2014

Hoje a liturgia convida-nos a fixar o olhar em Jesus como Rei do Universo. A bonita oração do Prefácio recorda-nos que o seu é um «reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz». As Leituras que acabamos de ouvir mostram-nos como Jesus realizou o seu reino; como o realiza no porvir da história; e o que nos pede.
Antes de tudo, como realizou Jesus o reino: com a proximidade e a ternura para connosco. Ele é o Pastor, do qual nos falou o profeta Ezequiel na primeira Leitura (cf. 34,11-12.15-17). Todo este trecho está embebido de verbos que indicam a solicitude e o amor do Pastor pelo seu rebanho: passar em resenha, congregar da dispersão, levar à pastagem, fazer repousar, procurar a ovelha perdida, reconduzir a tresmalhada, ligar as feridas, curar a doença, ser solícito, apascentar. Todas estas atitudes se tornaram realidade em Jesus Cristo: Ele é deveras o «grande Pastor das ovelhas e guarda das nossas almas» (cf. Hb 13,20; 1Pd 2,25).
E quantos na Igreja estão chamados a ser pastores, não podem afastar-se deste modelo, se não quiserem tornar-se mercenários. A este propósito, o povo de Deus possui um faro infalível para reconhecer os bons pastores e distingui-los dos mercenários.
Depois da sua vitória, ou seja, depois da sua Ressurreição, como leva por diante Jesus o seu reino? O apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, diz: «Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés» (15,25). É o Pai que pouco a pouco submete tudo ao Filho, e contemporaneamente o Filho submete tudo ao Pai, e no final também a si mesmo. Jesus não é um rei à maneira deste mundo: para Ele, reinar não é comandar, mas obedecer ao Pai, entregar-se a Ele, para que se cumpra o seu desígnio de amor e de salvação. Assim há plena reciprocidade entre o Pai e o Filho. Por conseguinte, o tempo do reino de Cristo é o tempo longo da submissão de tudo ao Filho e da entrega de tudo ao Pai. «O último inimigo aniquilado será a morte» (1Cor 15,26). E no final, quando tudo tiver sido posto sob a realeza de Jesus, e tudo, também o próprio Jesus, tiver sido submetido ao Pai, Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28).
O Evangelho diz-nos o que nos pede o reino de Jesus: recorda-nos que a proximidade e a ternura são a regra de vida também para nós, e sobre isto seremos julgados. Será este o protocolo do nosso julgamento. É a grande parábola do juízo final de Mateus 25. O Rei diz: «Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me» (25,34-36). Os justos perguntarão: quando fizemos tudo isto? E Ele responderá: «Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mt 25,40).
A salvação não começa pela confissão da realeza de Cristo, mas pela imitação das obras de misericórdia mediante as quais Ele realizou o Reino. Quem as cumpre demonstra que acolheu a realeza de Jesus, porque deu espaço no seu coração à caridade de Deus. Na noite da vida seremos julgados sobre o amor, sobre a proximidade e sobre a ternura para com os irmãos. Disto dependerá a nossa entrada ou não no reino de Deus, a nossa colocação de um lado ou do outro. Jesus, com a sua vitória, abriu-nos o seu reino, mas depende de cada um de nós entrar nele, já desde esta vida - o Reino começa agora - tornando-nos concretamente próximos do irmão que pede pão, roupa, acolhimento, solidariedade, catequese. E se amamos deveras aquele irmão ou irmã, seremos levados a compartilhar com ele ou com ela o que temos de mais precioso, ou seja, o próprio Jesus e o seu Evangelho!
Hoje a Igreja põe à nossa frente modelos como os novos Santos que, precisamente mediante as obras de uma generosa dedicação a Deus e aos irmãos, serviram, cada um no seu âmbito, o reino de Deus e dele se tornaram herdeiros. Cada um deles respondeu com extraordinária criatividade ao mandamento do amor de Deus e do próximo. Dedicaram-se incansavelmente ao serviço dos últimos, assistindo indigentes, doentes, idosos e peregrinos. A sua predileção pelos pequeninos e pelos pobres era o reflexo e a medida do amor incondicional a Deus. Com efeito, procuraram e descobriram a caridade na relação forte e pessoal com Deus, da qual se liberta o amor verdadeiro ao próximo. Por isso, no momento do juízo, ouviram este doce convite: «Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo» (Mt 25,34).
Com o rito de canonização, confessamos mais uma vez o mistério do reino de Deus e honramos Cristo Rei, Pastor cheio de amor pelo seu rebanho. Que os novos Santos, com o seu exemplo e a sua intercessão, façam crescer em nós a alegria de caminhar pela vereda do Evangelho, a decisão de o assumir como a bússola da nossa vida. Sigamos os seus passos, imitando a sua fé e caridade, para que também a nossa esperança se revista de imortalidade. Não nos deixemos distrair por outros interesses terrenos e passageiros. E guie-nos no caminho rumo ao reino dos Céus a Mãe, Maria, Rainha de todos os Santos.


Fonte: Santa Sé

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