Há 25 anos, no dia 29 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, na Praça de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:
Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Concelebração Eucarística e Imposição do Pálio aos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Sexta-feira, 29 de junho de 2001
1. «Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16).
Quantas vezes
repetimos esta profissão de fé, outrora pronunciada por Simão, filho de Jonas, na
região de Cesareia de Filipe! Quantas vezes eu mesmo encontrei nestas palavras
um sustento interior para prosseguir a missão que a Providência me confiou!
Tu és o Cristo! Todo o Ano
Santo nos levou a fixar o olhar em “Jesus Cristo, único Salvador, ontem, hoje e
sempre”. Cada celebração jubilar foi uma incessante profissão de fé em
Cristo, renovada de modo coral dois mil anos depois da Encarnação. À
pergunta, sempre atual, feita por Jesus aos seus discípulos: «E vós,
quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16,15), os cristãos do ano
2000 responderam mais uma vez unindo as suas vozes à de Pedro: «Tu és o Cristo,
o Filho do Deus vivo».
2. «Feliz
és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso,
mas o meu Pai que está no céu» (Mt 16,17).
Depois de dois
milênios, a “rocha” sobre a qual foi fundada a Igreja é sempre a mesma: é a fé
de Pedro. «Sobre esta pedra» (v. 18) Cristo construiu a sua
Igreja, edifício espiritual que resistiu ao desgaste dos séculos. Sobre uma
base simplesmente humana e histórica certamente não teria podido resistir ao
ataque de tantos inimigos!
Ao longo dos
séculos, o Espírito Santo iluminou homens e mulheres, de todas as idades, vocações
e condições sociais, para fazer deles «pedras vivas» (1Pd 2,5)
dessa construção. São os santos, que Deus suscita com inesgotável criatividade,
muito mais numerosos do que aqueles que a Igreja indica solenemente como
exemplo para todos. Uma só fé; uma só “rocha”; uma só pedra angular: Cristo,
Redentor do homem.
«Feliz és tu, Simão, filho de Jonas». A bem-aventurança de Simão é a mesma de
Maria Santíssima, à qual Isabel disse: «Bem-aventurada
aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu» (Lc 1,45).
É a bem-aventurança reservada também à comunidade dos fiéis de hoje, à qual
Jesus repete: Bem-aventurada és tu, Igreja do ano 2000, que
conservas intacto o Evangelho e continuas a propô-lo com renovado entusiasmo
aos homens do início do novo milênio!
Na fé, fruto do
misterioso encontro entre a graça divina e a humildade humana que a ela se
confia, encontra-se o segredo daquela paz interior e daquela alegria do coração
que precedem, de alguma forma, a bem-aventurança do Céu.
3. «Combati
o bom combate, completei a corrida, guardei a fé» (2Tm 4,7).
“Guarda-se”
a fé dando-a (cf. Encíclica Redemptoris missio, n.
2). É este o ensinamento do Apóstolo Paulo. É o que aconteceu desde que os
discípulos, no dia do Pentecostes, saíram do Cenáculo e, sob o impulso pelo
Espírito Santo, se dispersaram em todas as direções. Esta missão evangelizadora
continua no tempo e é a forma normal com que a Igreja
administra o tesouro da fé. Todos devemos participar ativamente deste seu
dinamismo.
Com estes
sentimentos, dirijo a minha mais cordial saudação a vós, queridos e venerados irmãos,
que hoje vos encontrais à minha volta. De maneira especial saúdo vós, caros Arcebispos
Metropolitanos nomeados durante o último ano, que viestes a Roma para
o tradicional rito da imposição do Pálio. Provindes de vinte e um países
dos cinco continentes. Nos vossos rostos contemplo o rosto das
vossas Comunidades: uma imensa riqueza de fé e de história, que no Povo de Deus
se compõe e se harmoniza como em uma sinfonia.
Saúdo também
os novos Bispos, ordenados durante este ano. Também vós
provindes de várias partes do mundo. Nos diferentes membros do corpo eclesial,
que vós aqui representais, existem alegrias e esperanças, mas certamente
não faltam as feridas. Penso na pobreza, nos conflitos, e por vezes
até nas perseguições. Penso na tentação do secularismo, da indiferença e do
materialismo prático, que mina o vigor do testemunho evangélico. Tudo isso não
deve diminuir, mas intensificar em nós, venerados irmãos no Episcopado, o
anseio de levar a Boa Nova do amor de Deus a cada ser humano.
Rezemos para que
a fé de Pedro e de Paulo sustentem o nosso testemunho comum e nos torne
disponíveis, se necessário, a chegar até o martírio.
4. Foi
precisamente o martírio o selo do testemunho de Cristo dado pelos dois grandes
Apóstolos que hoje celebramos. À distância de alguns anos um do outro,
derramaram o seu sangue aqui em Roma, consagrando-o de uma vez para sempre a
Cristo. O martírio de Pedro marcou a vocação de Roma como sede dos seus
sucessores naquele primado que Cristo lhe conferiu a serviço da Igreja:
serviço à fé, serviço à unidade, serviço à
missão (cf. Encíclica Ut unum sint, n. 88).
É urgente este
anseio à fidelidade total ao Senhor; torna-se cada vez mais intenso o desejo da
plena unidade de todos os fiéis. Percebo que, «após séculos de duras polêmicas,
as outras Igrejas e Comunidades eclesiais cada vez mais perscrutam com um novo
olhar esse ministério de unidade» (ibid., n. 89). Isso é
válido de modo particular para as Igrejas Ortodoxas, como pude observar também
nos últimos dias, durante a minha viagem à Ucrânia. Como desejo que
se apressem os tempos da reconciliação e da comunhão recíproca!
Neste espírito, me
alegro por dirigir a minha cordial saudação à Delegação do Patriarcado
de Constantinopla, guiada por Sua Eminência Jeremias,
Metropolita da França e Exarca da Espanha, que o Patriarca Ecumênico Bartolomeu
enviou para a celebração dos Santos Pedro e Paulo. A sua presença acrescenta uma
particular nota de alegria à nossa festa. Intercedam por nós os Santos
Apóstolos, para que o nosso empenho conjunto possa solicitar e preparar a
recomposição daquela unidade, plena e harmoniosa, que deverá caracterizar a
Comunidade cristã no mundo. Quando isto acontecer, o mundo poderá reconhecer mais
facilmente o autêntico rosto de Cristo.
5. «Guardei
a fé» (2Tm 4,7). Assim afirma o Apóstolo Paulo ao fazer
o balanço da sua vida. E sabemos como a guardou: dando-a, difundindo-a,
fazendo-a frutificar o mais possível. Até a morte.
Da mesma forma, a Igreja é chamada a guardar o “depósito” da fé comunicando-o a todos os homens e a cada homem. Por isso o Senhor a enviou ao mundo, dizendo aos Apóstolos: «Ide e fazei discípulos meus todos os povos» (Mt 28,19). Agora, no início do terceiro milênio, este mandato missionário é mais válido do que nunca. Mais ainda, diante da imensidade do novo horizonte, ele deve reencontrar o vigor dos inícios (cf. Redemptoris missio, n. 1).
Se São Paulo
vivesse hoje, como exprimiria o anseio missionário que marcou a sua ação a serviço
do Evangelho? E São Pedro certamente não deixaria de encorajá-lo nesse generoso
impulso apostólico, dando-lhe a sua mão direita em sinal de comunhão (cf.
Gl 2,9).
Portanto,
confiamos à intercessão destes dois Santos Apóstolos o caminho da Igreja no
início do novo milênio. Invocamos Maria, a Rainha dos Apóstolos, para que em
toda a parte o povo cristão cresça na comunhão fraterna e no impulso
missionário.
Que toda a
comunidade dos fiéis possa o quanto antes proclamar com um só coração e uma só
alma: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!». Tu és o
nosso Redentor, o nosso único Redentor! Ontem, hoje e sempre. Amém.
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| São Pedro e São Paulo junto a Cristo (Basílica de São Paulo fora dos muros, Roma) |
Fonte: Santa Sé (Com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).


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