quinta-feira, 28 de março de 2019

Solenidade da Anunciação do Senhor em Nazaré

O Administrador Apostólico do Patriarcado de Jerusalém, Dom Pierbattista Pizzaballa, celebrou no último dia 25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor, a Santa Missa  na Basílica da Anunciação em Nazaré, construída no local onde, segundo a tradição, aconteceu este evento.

Na véspera, dia 24, Dom Pizzaballa fez sua entrada solene na cidade e foi acolhido oficialmente na Basílica:

Dia 24: Acolhida solene

O Bispo caminha até a Basílica
O Guardião da Basílica aguarda na porta
Oração pelo Bispo
Bênção
Dia 25: Santa Missa

Procissão de entrada

Ângelus do Papa: Solenidade da Anunciação em Loreto

Depois da Missa no Santuário de Nossa Senhora em Loreto, o Papa Francisco encontrou-se com os fiéis na Praça do Santuário. Segue seu discurso, que precedeu a oração do Ângelus, no qual o Santo Padre reflete sobre o mistério da Anunciação:

Visita do Papa Francisco a Loreto
Encontro do Santo Padre com os fiéis
Praça do Santuário de Loreto
Segunda-feira, 25 de março de 2019

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
E obrigado pelas vossas calorosas boas-vindas! Obrigado!

As palavras do anjo Gabriel a Maria: «Ave, ó cheia de graça!» (Lc 1,28), ressoam de modo singular neste Santuário, lugar privilegiado para contemplar o mistério da Encarnação do Filho de Deus. Com efeito, aqui estão conservadas as paredes que, segundo a tradição, provêm de Nazaré, onde a Virgem Santa pronunciou o seu “sim”, tornando-se a Mãe de Jesus. Desde que aquela que é denominada a “casa de Maria” se tornou presença venerada e amada sobre esta colina, a Mãe de Deus não cessa de obter benefícios espirituais para aqueles que, com fé e devoção, vêm aqui rezar. Hoje também eu me ponho entre eles, e dou graças a Deus que me concedeu, exatamente na festa da Anunciação.

Saúdo as Autoridades, com gratidão pelas boas-vindas e pela colaboração. Saúdo Dom Fabio Dal Cin, que se fez intérprete dos sentimentos de todos vós. Além dele, saúdo os demais Prelados, os sacerdotes, as pessoas consagradas, com um pensamento especial aos Padres Capuchinhos, aos quais foi confiada a guarda deste insigne Santuário, tão querido ao povo italiano. São bons estes Capuchinhos! Sempre no confessionário, sempre, a ponto que quando se entra no Santuário há sempre pelo menos um deles, ou dois, três, quatro, mas sempre, quer seja de dia, quer no final do dia, e este é um trabalho difícil! São bons e agradeço-lhes de maneira especial este precioso ministério do confessionário, contínuo durante o dia inteiro. Obrigado! E dirijo a minha cordial saudação a todos vós, cidadãos de Loreto e peregrinos aqui reunidos!

A este oásis de silêncio e de piedade vêm muitas pessoas, da Itália e de todas as partes do mundo, para haurir força e esperança. Penso em particular nos jovens, nas famílias e nos doentes.

A Santa Casa é a casa dos jovens, porque aqui a Virgem Maria, a Jovem cheia de graça, continua a falar às novas gerações, acompanhando cada um na busca da própria vocação. Foi por isso que eu quis assinar aqui a Exortação Apostólica, fruto do Sínodo dedicado aos jovens. Intitula-se “Christus vivit - Cristo vive”. No evento da Anunciação manifesta-se a dinâmica da vocação expressa nos três momentos que cadenciaram o Sínodo: 1) escuta da Palavra-projeto de Deus; 2) discernimento; 3) decisão.

O primeiro momento, o da escuta, é manifestado por aquelas palavras do Anjo: «Não temas, Maria (...) Eis que conceberás e darás à luz um Filho, ao qual porás o nome de Jesus» (vv. 30-31). É sempre Deus quem toma a iniciativa de chamar para o seguir. É Deus quem toma a iniciativa, é Ele que nos precede sempre, Ele precede, Ele abre caminho na nossa vida. A chamada à fé e a um coerente caminho de vida cristã, ou de consagração especial é um irromper discreto mas forte de Deus na vida de um jovem, para lhe oferecer o dom do seu amor. É preciso estar pronto e disponível para ouvir e acolher a voz de Deus, a qual não se reconhece no barulho nem na agitação. O seu desígnio sobre a nossa vida pessoal e social não se sente, permanecendo na superfície, mas descendo a um nível mais profundo, onde agem as forças morais e espirituais. É ali que Maria convida os jovens a descer e a sintonizar-se com a ação de Deus!

O segundo momento de cada vocação é o discernimento, expresso nas palavras de Maria: «Como acontecerá isto?» (v. 34). Maria não duvida; a sua pergunta não é uma falta de fé; ao contrário, exprime precisamente o seu desejo de descobrir as “surpresas” de Deus. Nela há a atenção para entender todas as exigências do projeto de Deus para a sua vida, para o conhecer nas suas facetas, para tornar a própria colaboração mais responsável e mais completa. Trata-se da atitude própria do discípulo: cada colaboração humana na iniciativa gratuita de Deus se deve inspirar num aprofundamento das capacidades e atitudes pessoais, conjugado com a consciência de que é sempre Deus quem doa e age; assim, também a pobreza e a pequenez de quantos o Senhor chama a segui-lo no caminho do Evangelho se transforma na riqueza da manifestação do Senhor e na força do Todo-Poderoso.

decisão é a terceira passagem que caracteriza cada vocação cristã, e é explicitada pela resposta de Maria ao Anjo: «Faça-se em mim segundo a tua palavra!» (v. 38). O seu “sim” ao projeto de salvação de Deus, atuado por meio da Encarnação, é a entrega de toda a própria vida a Ele. É o “sim” da confiança plena e da disponibilidade total à vontade de Deus. Maria é o modelo de todas as vocações e a inspiradora de qualquer pastoral vocacional: os jovens que estão em busca ou que se interrogam sobre o seu futuro, podem encontrar em Maria Aquela que os ajuda a discernir o desígnio de Deus para eles, e a força para lhe aderir.

Penso em Loreto como um lugar privilegiado, onde os jovens podem vir à procura da própria vocação, na escola de Maria! Um polo espiritual ao serviço da pastoral vocacional. Por isso, desejo que seja relançado o Centro “João Paulo II”, ao serviço da Igreja na Itália e a nível internacional, em continuidade com as indicações salientadas pelo Sínodo. Um lugar onde os jovens e os seus educadores podem sentir-se recebidos, acompanhados e ajudados a discernir. Por isso, peço também calorosamente aos Frades Capuchinhos um serviço adicional: o serviço de prolongar o horário de abertura da Basílica e da Santa Casa no fim do dia e também no início da noite, quando há grupos de jovens que vêm rezar e discernir a sua vocação. O Santuário da Santa Casa de Loreto, também em virtude da sua posição geográfica, no centro da Península, presta-se para se tornar, para a Igreja que está na Itália, lugar de proposta para uma continuação dos encontros mundiais dos jovens e da família. Com efeito, é necessário que ao entusiasmo da preparação e celebração destes acontecimentos corresponda em seguida a atualização pastoral, que dê corpo à riqueza dos conteúdos, mediante propostas de aprofundamento, de oração e de partilha.

A Casa de Maria é também a casa da família. Na delicada situação do mundo contemporâneo, a família fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher assume uma importância e uma missão essenciais. É preciso voltar a descobrir o desígnio traçado por Deus para a família, a fim de reiterar a sua grandeza e insubstitibilidade, ao serviço da vida e da sociedade. Na casa de Nazaré, Maria viveu a multiplicidade dos relacionamentos familiares como filha, noiva, esposa e mãe. Por isso cada família, nos seus vários componentes, encontra aqui o acolhimento e a inspiração a viver a própria identidade. A experiência doméstica da Virgem Santa consiste em indicar que família e jovens não podem ser dois setores paralelos da pastoral das nossas comunidades, mas devem caminhar estreitamente unidos, porque muitas vezes os jovens são aquilo que a família lhes proporcionou durante o período do crescimento. Esta perspectiva volta a compor na unidade uma pastoral vocacional atenta a expressar o rosto de Jesus nos seus múltiplos aspetos, como sacerdote, esposo, pastor.

A Casa de Maria é a casa dos enfermos. Aqui encontram acolhimento quantos sofrem no corpo e no espírito, e a Mãe leva a todos a misericórdia do Senhor, de geração em geração. A enfermidade fere a família e os doentes devem ser recebidos no seio da família. Por favor, não caiamos naquela cultura do descarte, que é proposta pelas múltiplas colonizações ideológicas que hoje nos atacam. A casa e a família são o primeiro tratamento do enfermo, amando-o, apoiando-o, encorajando-o e cuidando dele. Eis por que razão o Santuário da Santa Casa é símbolo de cada casa hospitaleira e Santuário dos enfermos. Daqui transmito a todos eles, onde quer que estejam no mundo, um pensamento afetuoso e digo-lhes: vós estais no centro da obra de Cristo, porque compartilhais e carregais de maneira mais concreta atrás d’Ele a cruz de todos os dias. O vosso sofrimento pode tornar-se uma colaboração decisiva para o advento do Reino de Deus.

Caros irmãos e irmãs! A vós e a quantos estão ligados a este Santuário, Deus, por meio de Maria, confia uma missão nesta nossa época: levar o Evangelho da paz e da vida aos nossos contemporâneos, muitas vezes distraídos, levados pelos interesses terrenos ou imersos num clima de aridez espiritual. Há necessidade de pessoas simples e sábias, humildes e intrépidas, pobres e generosas. Em síntese, pessoas que, na escola de Maria, acolham incondicionalmente o Evangelho na própria vida. Assim, através da santidade do povo de Deus, deste lugar continuarão a propagar-se na Itália, na Europa e no mundo, testemunhos de santidade em todos os estados de vida, para renovar a Igreja e animar a sociedade com o fermento do Reino de Deus.

A Virgem Santa ajude todos, especialmente os jovens, a percorrer o caminho da paz e da fraternidade, fundamentadas no acolhimento e no perdão, no respeito pelo próximo e no amor, que é dom de si mesmo. A nossa Mãe, Estrela luminosa de alegria e de serenidade, conceda às famílias, santuários do amor, a bênção e a alegria da vida. Maria, fonte de toda a consolação, leve ajuda e conforto a quantos se encontram na provação.
Agora, com estas intenções, unamo-nos na oração do Ângelus...


Fonte: Santa Sé.

Fotos da Missa do Papa em Loreto

No último dia 25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor, o Papa Francisco celebrou a Santa Missa no Santuário de Nossa Senhora em Loreto.

O Santo Padre celebrou de maneira privada, sem proferir homilia, na pequena capela da Santa Casa de Nazaré. No final da celebração Francisco assinou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus vivit, fruto do Sínodo sobre os Jovens, que será publicada no próximo dia 02 de abril.

O Papa reza antes da Missa na Capela da Santa Casa
 
Procissão de entrada
Oração do dia
Liturgia da Palavra

quarta-feira, 27 de março de 2019

III Catequese do Papa João Paulo II sobre a Quaresma: O jejum

João Paulo II
Audiência Geral
Quarta-feira, 21 de março de 1979
Quaresma (3): O jejum penitencial e o desenvolvimento da pessoa

1. Ordenai um jejum (Jl 1,14). São as palavras que ouvimos na primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas. Escreveu-as o Profeta Joel, e a Igreja, em conformidade com elas, estabelece a prática da Quaresma ordenando o jejum. Hoje a prática da Quaresma, definida por Paulo VI na Constituição «Poenitemini», está notavelmente mitigada em comparação com o que era antigamente. Nesta matéria o Papa deixou muito à decisão das Conferências Episcopais de cada país, às quais, por conseguinte, toca a missão de adaptar as exigências do jejum às circunstâncias em que se encontram as respectivas sociedades. Recordou também que a essência da penitência quaresmal é constituída não só pelo jejum, mas também pela oração e pela esmola (obra de misericórdia). É necessário pois decidir segundo as circunstâncias, uma vez que o jejum pode mesmo ser «substituído» por obras de misericórdia e pela oração. A finalidade deste período especial na vida da Igreja é, sempre e em toda a parte, a penitência, isto é, a conversão para Deus. A penitência, de fato, entendida como conversão, isto é «metánoia», forma um conjunto que a tradição do Povo de Deus já na Antiga Aliança, e em seguida o próprio Cristo, ligaram em certo modo à oração, à esmola e ao jejum.
Por que o jejum?
Neste momento vêm-nos talvez à lembrança as palavras com que Jesus respondeu aos discípulos de João Batista quando o interrogavam: por que não jejuam os teus discípulos? Jesus respondeu: Porventura podem os companheiros do esposo estar tristes enquanto o esposo está com eles? Dias hão de vir em que lhes tirarão o esposo e então jejuarão (Mt 9,15). Na verdade, o tempo da Quaresma recorda-nos que o esposo nos foi tirado. Tirado, detido, preso, esbofeteado, flagelado, coroado de espinhos e crucificado... O jejum no tempo da Quaresma é a expressão da nossa solidariedade com Cristo. Tal foi o significado da Quaresma através dos séculos e assim hoje se mantém.
«O meu amor foi crucificado e já não há em mim a chama que deseja as coisas materiais», como escreve o Bispo de Antioquia, Inácio, na carta aos Romanos (Santo Inácio de Antioquia, Ad Romanos, VII, 2).
2. Por que o jejum?
A esta pergunta é preciso dar uma resposta mais extensa e profunda, para que fique clara a relação à «metánoia», isto é, aquela transformação espiritual, que aproxima o homem de Deus. Esforcemo-nos portanto por concentrar-nos não só na prática da abstenção do alimento ou das bebidas - isto de fato significa «jejum» no sentido ordinário - mas no significado mais profundo desta prática que, aliás, pode e deve às vezes ser «substituída» por alguma outra. O alimento e as bebidas são indispensáveis para o homem viver, disso se serve e deve servir-se, mas não lhe é lícito abusar seja da forma que for. A tradicional abstenção do alimento e das bebidas tem como finalidade introduzir na existência do homem não só o equilíbrio necessário, mas também o desprendimento daquilo que poderia definir-se «atitude consumista». Tal atitude tornou-se nos nossos tempos uma das características da civilização e em particular da civilização ocidental. A atitude consumista! O homem orientado para os bens materiais, múltiplos bens materiais, muitas vezes abusa deles. Não se trata aqui unicamente do alimento e das bebidas. Quando o homem está orientado exclusivamente para a posse e o uso dos bens materiais, isto é, das coisas, então também toda a civilização é medida segundo a quantidade e qualidade das coisas que se encontra capaz de fornecer ao homem e não se mede com a medida adequada ao homem. Esta civilização fornece de fato, os bens materiais não só para que sirvam ao homem a exercer as atividades criativas e úteis, mas cada vez mais... a satisfazer os sentidos, a excitação que disso deriva, o prazer momentâneo e a multiplicidade de sensações cada vez maior.
Ouve-se às vezes dizer que o aumento excessivo dos meios audiovisuais nos países ricos nem sempre ajuda o desenvolvimento da inteligência, particularmente nas crianças; pelo contrário, às vezes contribui para lhes deter o desenvolvimento. A criança vive só de sensações, procura sensações sempre novas ... E torna-se assim, sem se dar conta, escrava desta paixão atual. Saciando-se de sensações, fica muitas vezes intelectualmente passiva; a inteligência não se abre à busca da verdade; a vontade fica presa ao hábito, a que não sabe opor-se.
Disto resulta que o homem contemporâneo deve jejuar, isto é, abster-se não só do alimento ou das bebidas, mas de muitos outros meios de consumo, como de estimular e satisfazer os sentidos. Jejuar significa abster-se, renunciar a alguma coisa.
3. Porque renunciar a alguma coisa? Porque privarmo-nos dela? Já em parte respondemos a esta pergunta. Não será todavia completa a resposta, se não nos dermos conta de o homem ser ele próprio, também por conseguir privar-se dalguma coisa, capaz de dizer a si mesmo «não». O homem é ser composto de corpo e alma. Alguns escritores contemporâneos apresentam esta estrutura composta do homem sob a forma de estratos, e falam, como exemplo, de estratos exteriores na superfície da nossa personalidade, contrapondo-os aos estratos em profundidade. A nossa vida parece estar dividida nestes estratos e desenvolve-se através deles. Enquanto os estratos superficiais estão ligados à nossa sensualidade, os estratos profundos são expressão da espiritualidade do homem, isto é, da vontade consciente, da reflexão, da consciência e da capacidade de viver os valores superiores.
Esta imagem da estrutura da personalidade humana pode servir para se compreender o significado do jejum para o homem. Não se trata aqui somente do significado religioso, mas de um significado que se exprime através da chamada «organização» do homem com sujeito-pessoa. O homem desenvolve-se regularmente quando os estratos mais profundos da sua personalidade encontram suficiente expressão, quando o âmbito dos seus interesses e das suas aspirações não se limita só aos estratos exteriores e superficiais, ligados com a sensualidade humana. Para facilitar este desenvolvimento, devemos por vezes desapegar-nos conscientemente do que serve para satisfazer a sensualidade, quer dizer, daqueles estratos exteriores superficiais. Devemos portanto renunciar a tudo quanto os «alimenta».
Eis, em breves palavras, a interpretação do jejum dos dias de hoje.
A renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é fim de si mesma. Deve apenas, por assim dizer, preparar o caminho para conteúdos mais profundos, de que «se alimenta» o homem interior. Tal renúncia, tal mortificação deve servir para criar no homem as condições para poder viver os valores superiores, de que ele está, a seu modo, «faminto».
Eis o significado «pleno» do jejum na linguagem de hoje. Todavia, quando lemos os autores cristãos da antiguidade ou os Padres da Igreja, encontramos neles a mesma verdade, muitas vezes expressa com linguagem tão «atual» que nos surpreende. Diz, por exemplo, São Pedro Crisólogo: «O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 3), e ainda: «O jejum é o leme da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 1).
E Santo Ambrósio responde assim às possíveis objecções contra o jejum: «A carne, pela sua condição mortal, tem algumas concupiscências suas próprias: a respeito delas foi-te concedido o direito de as refrear. A tua carne está-te sujeita (...): Não sigas as solicitações ilícitas, mas refreia-as algum tanto, mesmo no que diz respeito às coisas lícitas. De fato, quem não se abstém de nenhuma das coisas lícitas, está também perto das ilícitas» (Santo Ambrósio, Sermo de utilitate ieiunii III. V. VII). Até escritores, que não pertencem ao cristianismo, declaram a mesma verdade. Esta é de alcance universal. Faz parte da sabedoria universal da vida.
4. É-nos agora certamente mais fácil compreender porque unem Cristo Senhor e a Igreja o apelo ao jejum com a penitência, isto é, com a conversão. Para nos convertermos a Deus, é necessário descobrirmos em nós mesmos aquilo que nos torna sensíveis a quanto pertence a Deus, portanto: os conteúdos espirituais, os valores superiores, que falam à nossa inteligência, à nossa consciência e ao nosso «coração» (segundo a linguagem bíblica). Para nos abrirmos a estes conteúdos espirituais e a estes valores, é preciso desapegarmo-nos de tudo quanto serve apenas ao consumismo, à satisfação dos sentidos. Na abertura da nossa personalidade humana para Deus, o jejum entendido quer no modo «tradicional» quer no «atual» - deve acompanhar ao mesmo passo a oração porque esta dirige-nos diretamente para Ele.
Por outro lado, o jejum, isto é a mortificação dos sentidos e o domínio do corpo conferem à oração maior eficácia que o homem descobre em si mesmo. Descobre, de fato, que é «diverso», que é mais «senhor de si mesmo» e que se tornou interiormente livre. E disso se dá conta pois a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele.
Destas nossas reflexões de hoje resulta claro que o jejum não é só o «resíduo» duma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo. É necessário refletir profundamente sobre este tema, precisamente durante o período da Quaresma.


Fonte: Santa Sé

Ângelus: III Domingo da Quaresma - Ano C

Papa Francisco
Ângelus
III Domingo da Quaresma, 24 de março de 2019

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste III Domingo de Quaresma (Lc 13,1-9) fala-nos da misericórdia de Deus e da nossa conversão. Jesus conta a parábola da figueira estéril. Um homem plantou uma figueira na sua vinha, e no verão vai muito confiante procurar o seu fruto mas não o encontra, pois aquela árvore é estéril. Levado por aquela desilusão que se repetiu por três anos, pensa em cortar a figueira, para plantar outra árvore. Chama então o camponês que está na vinha e manifesta-lhe a sua insatisfação, intimando-lhe que corte a árvore, para que não ocupe inutilmente o terreno. Mas o vinhateiro pede ao dono que tenha paciência e que conceda um ano de tempo, durante o qual ele mesmo se preocupará por dedicar um cuidado mais atento e delicado à figueira, para estimular a sua produtividade. Esta é a parábola. O que representa esta parábola? O que representam as personagens desta parábola?

O dono representa Deus Pai e o vinhateiro é imagem de Jesus, enquanto a figueira é símbolo da humanidade indiferente e árida. Jesus intercede junto do Pai a favor da humanidade - e fá-lo sempre - pedindo-lhe para aguardar e conceder ainda mais tempo, a fim de que ela possa produzir os frutos do amor e da justiça. A figueira que o dono da parábola quer extirpar representa uma existência estéril, incapaz de doar, incapaz de praticar o bem. É símbolo de quem vive para si mesmo, satisfeito e tranquilo, instalado nas próprias comodidades, incapaz de dirigir o olhar e o coração para quantos estão ao seu lado em condições de sofrimento, pobreza e dificuldade. A esta atitude de egoísmo e de esterilidade espiritual, contrapõe-se o grande amor do vinhateiro em relação à figueira: pede ao dono que espere, ele tem paciência, sabe esperar, dedica-lhe o seu tempo e o seu trabalho. Promete ao dono que terá um cuidado especial para com a árvore infeliz.

E esta similitude do vinhateiro manifesta a misericórdia de Deus, que nos concede um tempo para a conversão. Todos temos necessidade de nos converter, de dar um passo em frente, e a paciência de Deus, a misericórdia, acompanha-nos nisto. Não obstante a esterilidade, que às vezes marca a nossa existência, Deus tem paciência e oferece-nos a possibilidade de mudar e fazer progressos no caminho do bem. Mas a dilação implorada e concedida na expetativa de que a árvore finalmente frutifique indica também a urgência da conversão. O vinhateiro diz ao dono: «Senhor, deixa-a mais este ano» (v. 8). A possibilidade da conversão não é ilimitada; por conseguinte é necessário colhê-la imediatamente; caso contrário perder-se-ia para sempre. Podemos pensar nesta Quaresma: o que devo fazer para me aproximar mais ao Senhor, para me converter, e “cortar” o que não está bem? “Não, esperarei a próxima Quaresma”. Mas estarei vivo na próxima Quaresma? Pensemos hoje, cada um de nós: o que devo fazer face a esta misericórdia de Deus que me espera e perdoa sempre? O que devo fazer? Podemos confiar infinitamente na misericórdia de Deus, mas sem abusar dela. Não devemos justificar a preguiça espiritual, mas aumentar o nosso esforço para corresponder prontamente a esta misericórdia com sinceridade de coração.

No tempo de Quaresma, o Senhor convida-nos à conversão. Cada um de nós deve sentir-se interpelado por esta chamada, corrigindo algo na própria vida, no modo de pensar, de agir e viver as relações com o próximo. Ao mesmo tempo, devemos imitar a paciência de Deus que confia na capacidade que todos têm de se poderem “reerguer” e retomar o caminho. Deus é Pai e não apaga a chama ténue, mas acompanha e ampara quem é débil para que se fortaleça e ofereça o seu contributo de amor à comunidade. A Virgem Maria nos ajude a viver estes dias de preparação para a Páscoa como um tempo de renovação espiritual e de abertura confiante à graça de Deus e à sua misericórdia.


Fonte: Santa Sé.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Ordenação Episcopal de Dom Carlos José de Oliveira

No último dia 19 de março, Solenidade de São José, aconteceu no Santuário de Nossa Senhora da Piedade em Lençóis Paulista (SP) a Santa Missa para a Ordenação Episcopal de Dom Carlos José de Oliveira, nomeado pelo Papa Francisco no dia 12 de dezembro de 2018 como novo Bispo de Apucarana (PR).

O ordenante principal foi Dom Giovanni d’Aniello, Núncio Apostólico no Brasil. Os co-ordenantes foram Dom Maurício Grotto de Camargo, Arcebispo de Botucatu (SP), diocese de origem do novo Bispo, e Dom Celso Antônio Marchiori, Bispo de São José dos Pinhais (PR), que foi Bispo de Apucarana de 2009 a 2017.

Entrada do novo Bispo
Oração diante da imagem de Nossa Senhora da Piedade
Procissão de entrada

Ritos iniciais

Homilia: Solenidade da Anunciação do Senhor

São Leão Magno
Carta 28 a Flaviano
“O sacramento da nossa reconciliação”

A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.
Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.
Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.
Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.
Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.
Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.
A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.
É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).


Fonte: Liturgia das Horas, v. II, pp. 1506-1507.